Respeita as gurías na folia

O respeito é a base de tudo. Entender o não consentimento como uma violência em atos de conotação sexual é um problema e as análises feitas por grupos respeitáveis que pesquisam o tema, confirmam que apesar dos esforços dos governos através de campanhas educativas voltadas para os foliões, os registros de violência contra as mulheres aumentam no período de carnaval.

O título desse artigo tirei de uma ação do Programa Jovens Multiplicadoras de Cidadania, da Themis – Gênero, Justiça e Direitos Humanos, que há quase 30 anos atua na defesa e direitos das mulheres e organiza campanhas de conscientização durante o carnaval em Porto Alegre, com apoio do Fundo Canadá e do Fundo de População das Nações Unidas. “Respeita as gurias na folia” é uma ação idealizada em parceria com a Liga das Escolas de Samba, para tentar desnaturalizar a violência de gênero nas festas de Carnaval em Porto Alegre.

As jovens distribuem materiais educativos nos eventos de rua alertando que: fantasia não é convite para intimidade; bebida não é carta branca para avançar o sinal, tampouco desculpa para quem avança; ofensa não é brincadeira; racismo, homofobia são crimes; roubar beijo, tocar no corpo de alguém sem permissão é crime e reforça o espírito da sororidade, orientando que, ao presenciar uma cena de assédio, intervenha, ofereça ajuda, denuncie.

O estudo, de abrangência nacional apresentado pelo Instituto Locomotiva e Question Pro, divulgado semana passada, dia 06, revela que metade do público feminino já foi alvo de importunação durante o carnaval e 73% das mulheres brasileiras têm medo de sofrer assédio durante o carnaval. Metade das entrevistadas relataram já terem sofrido algum tipo de violência durante o feriado. No levantamento quase 100% das pessoas entrevistadas, que incluem homens e mulheres maiores de 18 anos, consideram que as campanhas de combate a esse tipo de crime e são fundamentais.

A responsabilidade de combater a prática do assédio é de todos e não podemos normalizar o discurso de 15% dos entrevistados de que as mulheres que decidem pular carnaval, não têm o direito de reclamar caso sejam assediadas, que o contato íntimo, o beijo, é do jogo, que o momento é quente, que não se pode controlar a multidão. Segundo o Instituto Locomotiva, estamos avançando e 81% dos brasileiros acham problemático um homem beijar uma mulher embriagada ou com roupas curtas, sem que ela dê consentimento, são os casos de assédio no espaço público, o ‘street harassment’.

O álcool, sem dúvida é um fator de risco, mas não justificativa para os crimes que acontecem no período de carnaval. Os dados do Sinan, que gera informação das notificações gerados pelo Sistema de Vigilância Epidemiológica indica que 52% dos crimes de estupro que ocorreram nos dias de Carnaval, em 2020, foram cometidos por indivíduos alcoolizados. No restante do ano, essa proporção foi de 38%.  A bebida baixa os limites dos valores que já estavam lá, enraizados no indivíduo, o machismo, a desigualdade de gênero, a tendência à violência. 

Em 29 de dezembro de 2023, foi sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a lei que estabelece o protocolo “Não é Não”. O objetivo da lei é evitar o constrangimento e a violência contra a mulher em ambientes nos quais sejam vendidas bebidas alcoólicas, como casas noturnas, boates e shows. É exigência da legislação que se fixe em locais visíveis informações sobre como acionar a Polícia Militar (190) e a Central de Atendimento à Mulher (180).

O aumento das desigualdades não é uma fatalidade

O aumento das desigualdades não é uma fatalidade. As desigualdades são escolhas ideológicas e políticas públicas podem ser implementadas para combater a desigualdade também. Não existe uma fórmula mágica ou matemática para definir o nível “bom” das desigualdades, mas se os partidos de esquerda retomarem programas de combate das desigualdades e questionarem a acumulação ilimitada da riqueza, o processo poder ser minimizado em níveis toleráveis, é o que diz o economista francês Thomas Piketty, reconhecido mundialmente por suas pesquisas sobre a economia da desigualdade e redistribuição de renda.

O último relatório da Oxfam, Desigualdade S.A, lançado em janeiro último, revela que os cinco homens mais ricos do mundo dobraram suas fortunas desde 2020, ou seja, em apenas 3 anos, passaram de US$ 405 bilhões para US$ 869 bilhões, enquanto quase cinco bilhões de pessoas tiveram suas condições de vida reduzidas no mesmo período. O relatório, que discute a relação das desigualdades e o poder corporativo global, mostra ainda que se a tendência atual continuar, o mundo terá seu primeiro trilionário em dez anos, mas a pobreza não será erradicada nos próximos 229 anos.

Prefaciado pelo senador americano Bernie Sanders, que inicia o texto afirmando que: “Nunca, na história da humanidade, tão poucos tiveram tanto. Nunca, houve tanta desigualdade de renda e patrimônio. Nunca houve concentrações tão grandes de propriedades. Nunca se viu uma classe bilionária com tanto poder político. E nunca se viu tanta ganância, arrogância e irresponsabilidade por parte da classe dominante.” Se cada um dos cinco homens mais ricos do mundo gastasse um milhão de dólares por dia, eles levariam 476 anos para esgotar todo o patrimônio deles.

O economista Piketty se juntou a ONU, FMI e Banco Mundial para apelar pelo estabelecimento de metas contra as desigualdades e na introdução do seu livro Uma breve história da igualdade diz que o momento é oportuno, que existe um movimento voltado para a igualdade e insiste no argumento de que as escolhas dos governos a respeito de seus sistemas educacionais e tributários serão sempre políticas e ideológicas e daí resulta o acirramento da desigualdade, com a distribuição de riqueza e poder para as instituições e suas estruturas.

Piketty vai além e ataca o que ele chama de desvio dos partidos socialistas e democratas, que se distanciaram da classe pobre para se tornaram clubes dos vencedores do sistema educacional, ou seja, diz ironicamente, que a esquerda eleitoral se tornou um tipo de esquerda brâmane, casta do hinduísmo que atrai professores, homens letrados com renda bem acima da média.

Sobre o Brasil, em entrevista ele assinalou que houve um pequeno progresso nos segmentos inferiores da distribuição da renda, beneficiados por programas sociais mas que os pobres ganharam às custas da classe média, não dos mais ricos e acha deprimente constatar que décadas de democracia foram incapazes de produzir mudanças e tirar o país dentre os mais desiguais do mundo.

Não podemos deixar de estabelecer vínculos entre a dura realidade da vida e a natureza destrutiva dos sistemas que recompensam a ganância e o lucro acima de qualquer outro valor humano, enquanto milhões de pessoas vivem na pobreza extrema, sem água potável, serviços de saúde regulares, moradia digna e educação para os filhos.

trabalhar a imagem o quanto antes, anúncios podem esperar

As eleições estão tão distantes, que somente esta semana o Tribunal Superior Eleitoral fez as audiências públicas para colher sugestões para o aperfeiçoamento das resoluções que serão aplicadas nas Eleições 2024. Nas reuniões ampliadas, coordenadas pela vice-presidente do TSE, ministra Carmem Lúcia, transmitidas ao vivo pelo canal do TSE no YouTube, foram lançadas propostas sobre os mais abrangentes temas que envolvem as eleições, de pesquisas eleitorais, registros de candidaturas ao Fundo de Financiamento de Candidaturas.

Após a avaliação das propostas da sociedade, as minutas serão levadas para serem apreciadas pelo Plenário do TSE. O prazo final para a votação das normas que regerão as eleições municipais de 2024 vai até 5 de março. 

As articulações estão no centro das campanhas políticas. A construção de uma candidatura é complicada, as articulações políticas e os arranjos partidários levam tempo e, às vezes, não há o que fazer senão esperar pelos diagnósticos, pelas análises e aceitação de partidos políticos, enquanto isso, pode-se avaliar o potencial de votação dos partidos pretendidos, a penetração e receptividade nos bairros. Pode-se agora, debruçar sobre os adversários, sobretudo os que trabalham pautas similares as suas.

Em muitas campanhas que trabalhei, não percebi grande preocupação dos candidatos quanto à concorrência, porém, é importante conhecer e compreender quem disputará os mesmos votos que você.

É óbvio que, quanto maior o tempo de preparação, mais fácil será a vida do candidato durante o período eleitoral. E os candidatos que têm mandato saem efetivamente na frente, pois já tem estabelecido uma certa linha de comunicação com os eleitores, já tem uma marca política construída através de suas realizações, os eleitores se veem em suas narrativas e entendem a diferença que faz votar em você. As coisas ficam bem mais fáceis. 

Embora, uma das decisões mais importantes no período de decisão e planejamento de campanha seja exatamente quando anunciar a pré-candidatura, há nas literaturas de marketing político a recomendação que esse anúncio seja feito preferencialmente, após o Carnaval. É que, após o Carnaval as atenções se voltam intensificadas para as eleições. E a ideia de anunciar a candidatura é pressionada pela necessidade de trazer apoios importantes para o projeto antes que outros, mas, por outro lado, a comunicação com grande antecedência pode tornar o candidato alvo de ataques de concorrentes, desnecessariamente.

O prazo de filiação é de até 6 meses antes da eleição, ou seja, início de abril e as convenções partidárias que escolherão os candidatos serão realizadas no período entre 20 de julho e 5 de agosto e, somente depois disso, os nomes dos candidatos podem ser registrados na Justiça Eleitoral pelos partidos, que tem até o dia 15 de agosto para oficializar.

É muito comum candidatos deixarem para se filiar nos últimos dias. Não há por que ter pressa para tomar e anunciar uma decisão que pode mudar os rumos da sua vida. Trabalhar a imagem, sim, o quanto antes. O anúncio do partido, a filiação podem esperar. No mais, é fazer o que todos os pretensos candidatos fazem, ser participativo, marcar presença em eventos ou locais relacionados ao público que deseja atingir.

A CORRELAÇÃO ENTRE A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E A SAÚDE MENTAL

A violência contra a mulher tem várias faces. Cada mulher é diferente e o impacto individual e cumulativo de cada ato de violência depende de muitos fatores complexos. Embora cada mulher sofra violência de forma única, há muitos efeitos comuns de viver com o estigma da violência e viver com medo. Antigamente as mulheres mantinham-se em silêncio sobre a violência, mas agora estão encorajadas a denunciar e procurar ajuda. A justiça de gênero, todavia, não pode ser estabelecida enquanto as estruturas misóginas não forem resolvidas.

Há um ano, os pesquisadores que participaram da Reunião Ordinária do Conselho Nacional de Saúde para debater as consequências da masculinidade sobre a saúde das mulheres, corroboraram a tese de que a violência contra a mulher tem alta correlação com transtornos mentais. Depressão, ansiedade, transtorno do sono, transtorno de estresse pós-traumático, ideação suicida e distúrbios mentais podem estar diretamente relacionados com relações abusivas e violentas contra as mulheres.

Enquanto foi diretora-executiva da ONU Mulheres, Michele Bachelet, médica, ex-presidente do Chile trabalhou focada em pesquisas e literaturas sobre a violência contra as mulheres por acreditar que essa violência é uma das violações mais frequentes dos direitos humanos, e, está enraizada no desequilíbrio de poder entre os gêneros, além de ser uma ameaça para a saúde das mulheres e dos seus filhos e sobretudo, um fator de risco para o desencadeamento de problemas de saúde mental das mulheres.

A violência é como uma pandemia silenciosa e não deixa nenhum país ou comunidade intocados. A violência é vivenciada por mulheres em casa, no local de trabalho, consultórios médicos e em espaços públicos, sem tréguas.

O livro ‘Violência contra as mulheres em todo o mundo’ e ‘Aspectos específicos da violência’, lido e adotado por Bachelet, examina o efeito da violência contra as mulheres na sua saúde em geral, na sua capacidade de trabalho, nas relações familiares e nas diversas formas de traumas e fornece provas substanciais da difusão da violência contra as mulheres em todo o mundo, destacando particularmente a desigualdade de gênero, como causa profunda da violência, que detona diretamente a saúde mental das mulheres.

A Organização Panamericana de Saúde, formalmente já reconhece a violência de gênero contra a mulher como um fator de adoecimento mental e desde então, várias perspectivas de estudos foram abertas, relacionando diretamente a violência praticada por parte do parceiro íntimo, do ex-parceiro, abuso sexual por parceiros do trabalho, situações de coerção, como causas de resultados fatais, como homicídios e suicídios. Fora essas tragédias, normalmente, a violência leva à vários transtornos de ansiedade, já citados e outros, como exaustão emocional, auto culpa, perda de humor e isolamento.

O livro, as pesquisas, são apelos a uma maior sensibilização na promoção de mudanças no sistema de tratamento de violência nas políticas de saúde mental.

Todavia, apesar das evidências, a maioria das políticas e programas de saúde mental não inclui voluntariamente a questão da violência como causa primeira para investigação, ainda.

Enquanto isso precisamos confrontar a masculinidade tóxica de quem é o vetor da violência contra as mulheres, porque são eles que espancam e matam.

como não ser um político

Lançado em 2023, o livro ‘How not to be a politician’ escrito por Rory Stewart, historiador e filósofo foi considerado pela grande mídia internacional e por proeminentes políticos, o melhor  e mais cativante livro da memória recente da política, com revelações fascinantes e outras horríveis.

A Rory Stewart sobra bons adjetivos, qualificação e experiência na política britânica e internacional. Ex-professor da prestigiosa Universidade de Oxford, com a vida dedicada ao serviço público, como diplomata que acumulou conhecimento sobre várias culturas políticas na Indonésia, Turquia, Afeganistão, viajou a pé pelo Afeganistão e Paquistão, serviu no Iraque, caiu nas graças dos políticos americanos e de Harvard, onde deu aulas sobre direitos humanos. Em 2010 largou tudo e iniciou uma carreira na política parlamentar, esteve vários anos no Parlamento britânico, foi seis vezes ministro de várias pastas e concorreu a Primeiro-Ministro, quando Theresa May renunciou, contra Boris Johnson, que foi o escolhido, mais pelos discursos inflamados do que pelos cabelos, sempre desalinhados. 

O ex-diplomata Rory Stewart entrou na política inglesa com a esperança de promover mudanças profundas e necessárias. Relata que testemunhou confusão, corrupção e fracassos nos programas de ajuda internacional do seu país e que achou muito complicado o processo de se tornar candidato, buscar o apoio de partido em vários níveis e montar uma campanha, dentro de padrões amarrados e não independentes. Venceu tranquilamente para o parlamento e aí sim, diz ter entrado de fato, num sistema definido por uma claustrofobia deprimente e sem cultura, onde poucas conversas eram sobre política e o tempo junto com outros parlamentares era absorvido em fofocas sobre a promoção de um colega ou o escândalo que envolvia outro.

Com discurso culto, citando Shakespeare e às vezes, frases em latim, o ex- diplomata acreditava que os discursos deveriam ser valorizados porque era um tempo reservado para explorar todos os lados de uma discussão, o que era vital para ampliar os valores da razão, tolerância e igualdade, que, em tese, deveriam sustentar a democracia, em vez disso, diz ter percebido que relatar suas experiências, argumentar com voz e preceitos moderados, afastar-se das alas radicais não levam efetivamente à vitória, porque a maioria dos políticos vivem numa redoma de vidro, ignoram gráficos que expõem a realidade e com muito esforço, compreendem apenas o elementar sobre mercados, pobreza, renda, educação e saúde. Relata que na política sentiu-se impotente diante do ambiente de desconfiança, inveja e ressentimento.

Mesmo frustrado, decidiu continuar no parlamento. Mais tarde, foi promovido a cargos ministeriais, onde diz ter convivido com colegas vaidosos e alguns cínicos, sem precisão alguma para tomar decisões. Foi crescendo em Rory a ideia de que quanto mais permanecia na política, mais estúpido e menos honrado se tornava. A leitura revela que a hipocrisia e a ignorância que permeiam o universo da política é uma advertência séria que pode frustrar os esforços de quem escolhe a política como vocação ou dos eleitores, que esperam muito dos políticos que elegem.

Nos afogamos em dados mas temos temos sede de significado

2023 foi ano que trouxe o fim da pandemia. Oficialmente declarada em 5 maio, pela Organização Mundial da Saúde.

Ao pesquisar artigos e ensaios sobre as perspectivas para o ano que se inicia, superado o fardo do medo da morte, identifiquei que certo desconforto está crescendo em todos os setores da sociedade. É um descontentamento ainda lento, que tem permeado as forças sociais, econômicas e tecnológicas, que cresce nas sombras do nosso mundo hiper conectado, onde as brilhantes promessas da globalização da tecnologia não conseguiram materializar-se para a maior parte das pessoas. 

O que parece um estardalhaço, à primeira leitura, são as afirmações de que os próximos 10 anos testemunharemos mudanças dramáticas e radicais. Estas são as linhas iniciais de um capítulo da história humana, que dizem estar começando em 2024. Uma década de descontentamento está chegando. 

Uma das causas apontadas é o investimento sem precedentes nos sistemas de inteligência artificial, que podem executar tarefas que antes estavam no domínio dos trabalhadores humanos, com isso, cresce o temor que esta mudança irá retirar empregos em quase todas as áreas de trabalho. E a nova narrativa de descontentamento, não é apenas com políticas ou líderes específicos, mas com os sistemas e estruturas que moldaram o mundo atual, escorado em conexões virtuais e informações sem precedentes, em fluxo e velocidade.

Entendo que transformações, são cruciais num mundo que atingiu em primeiro de janeiro o número espantoso de 8.019.876.189 de pessoas. Atualmente a taxa de crescimento está em declínio e deverá cair ainda mais nos próximos anos, mas a população mundial continuará crescendo, porém num ritmo mais lento.

Como crer que seja possível estabelecer ligações sociais genuínas ou melhorar as interações no mundo real para esse contingente gigantesco de pessoas, quando efetivamente estamos presenciando o desenvolvimento de plataformas sociais baseadas em inteligência artificial para simular a interação humana, proporcionando uma aparência de conexão placebo, sem a profundidade e riqueza das relações humanas genuínas?

Um mundo com 8 bilhões de pessoas oferece infinitas possibilidades. Sim, positivas e negativas em maior escala se nova abordagem não for tentada, no sentido de compreender essa aldeia global, onde se fala mais de 6 mil línguas, mais da metade falam dialetos chineses, inglês, indiano, espanhol, árabe, bengale e português. As crenças se dividem sobretudo entre cristãos, mulçumanos, hindus, budistas e judeus.

No planeta falta água potável, sistemas sanitários adequados, nem todas as famílias têm eletricidade em casa, nem todas as crianças frequentam escolas, nem todas que frequentam aprendem a ler, num sistema educacional ainda machista, onde mais meninos são ensinados a ler do que meninas.

Temos, então, mais de 8 bilhões de razões para prestar mais atenção no planeta, para ter mais cuidado um com o outro, atentarmos sobre os efeitos devastadores causados pelos desmatamentos e, mais importante, cuidar mais da saúde e do bem-estar sobretudo das mulheres e crianças.

Muitos tem razão para estar aflitos e com certo medo. Para quem cultiva a vaidade, não é fácil reconhecer-se em apenas um pontinho entre 8.019.876.189 pessoas. Para outros, é uma inspiração viver numa sociedade de diferentes, onde cada pessoa é um conjunto de substantivos e adjetivos, sem que nenhum destes a defina completamente.

A sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana

Começo escrever destacando o valor da reflexão, o processo de olhar para trás e aprender com o que fizemos, antes de seguir em frente. Dessa forma, podemos aplicar pequenos passos para a melhoria da caminhada. A felicidade é subjetiva, não objetiva, e o que definimos como sendo a felicidade pode ser debatido ‘ad infinitum’. A ansiedade, diante do nosso tempo conturbado, associada à nossa crescente compreensão da brevidade da vida, pode ser a principal razão pela qual aparentemente e incessantemente nos tornamos buscadores da felicidade.

A maioria dos livros de sociologia, sem dúvida, debate os tópicos tradicionais e inevitáveis ​​de “estratificação social”, “socialização”, “papéis”, ‘status’, ‘classe’, ‘racionalização’, só para mencionar alguns. Embora todos esses tópicos consagrados pelo tempo tenham mérito, relevância e potência sociológica, é raro que alguém considere a ‘felicidade’ como uma preocupação fundamental dos sociólogos. Na maioria dos índices de livros de sociologia, a felicidade quase nunca aparece.

Comecemos por considerar se a felicidade ou a busca da felicidade pode encontrar alguma justificação no discurso da sociologia e se a sociologia tem um vocabulário adequado para capturar experiências de felicidade. Considerando-se uma disciplina crítica, a sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana. De forma provocativa, posso sugerir que a sociologia de fato prospera com base no fato de que as pessoas, fatalmente ou no contexto social, devem ser de alguma forma, infelizes e se revezam em algum tipo de estado de infelicidade; ou seja, são reprimidos, alienados, oprimidos, sem liberdade, impotentes, miseráveis.

Nos últimos anos, a chamada ‘sociologia das emoções’ ganhou posição como uma preocupação promissora no campo da sociologia. Em vários autores, entre os quais, Zygmunt Bauman, encontramos referências relativamente frequentes a emoções como solidariedade, compaixão, amor, medo, liberdade e felicidade, dando início, gradualmente, a reflexão sobre a importância social das emoções, estudos que nunca foram proibidos, mas foram largamente ignorados em tempos anteriores.

Perguntado se a sociologia pode ajudar as pessoas e na verdade também os próprios sociólogos a alcançar a felicidade, Bauman respondeu que a felicidade não consiste em estar livre de problemas, mas em enfrentá-los, combatê-los e superá-los.

Sociólogos estão realmente preocupados em identificar as muitas enfermidades e males enfrentados pela sociedade contemporânea. O sociólogo americano, naturalizado canadense, Robert Stebbins sugeriu uma agenda para uma chamada “sociologia positiva” que, em vez de focar sobretudo no que parece estar errado na sociedade, mostra mais preocupação com o estudo sobre como as pessoas podem organizar suas vidas de modo que essas vidas se tornem substancialmente gratificantes, realizadas e felizes.

O sociólogo tem inúmeros trabalhos publicados, destacando que o lazer é o caminho para uma vida feliz.  O lazer pode ser casual, onde exercemos atividade prazerosa no tempo livre, como leitura, caminhar, conversar com amigos; lazer sério, que é a busca por uma atividade interessante, hobbies, atividades voluntárias, que valorizam a construção de um mundo social e o lazer baseado em realização de projeto, que pode ser evento que evidencia a criatividade e a habilidade para gerar a autorrealização, como eventos esportivos, festivais artísticos.