Para chegar à ressureição não se pode viver aterrorizado pela morte

Há melancolia quando percebemos que tudo o que nós valorizamos no mundo, um dia, eventualmente, vai se extinguir. O início e o fim da vida são caracterizados pela vulnerabilidade, perplexidade e ricas oportunidades. Em ambos os casos estamos entrando em um novo território, o mundo da vida e o mundo da morte.

Mas para cada existência, a verdade básica é que tudo muda. Impermanência significa transformar e caminhar para a dissolução, mas ao contrário de um ser um processo doloroso, é justamente ela que possibilita a renovação, o renascer de alguma forma ou pode se ficar em uma morte apenas. A percepção da impermanência, a sensação profunda de que tudo, passa misericordiosamente, é reconfortante.

Entramos na Semana Santa e é inevitável falar sobre o processo da morte, como um ciclo infindável de vida, nascimento e sofrimentos, aos quais estamos sujeitos pelo simples fato de estarmos vivos. Quinta-feira próxima se comemora a Última Ceia, na qual Jesus Cristo, na noite em que foi entregue, ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue e os entregou para os Apóstolos, mandando-lhes também oferecer aos seus sucessores. Ocorreu também a cerimônia do Lava-Pés que lembra o gesto humilde de Jesus na Última Ceia, quando lavou os pés dos seus apóstolos.

Na sexta-feira, o silêncio, o luto, o jejum celebram a morte de Jesus Cristo.  Ao contrário do que muitos pensam, o dia não deve ser vivido em clima sofrimento, mas de profundo luto e respeito diante da morte do Senhor. O luto diante da morte é o início do processo de cura e precisa de tempo. A nossa dor diante da morte decorre da nossa inabilidade em lidar com o transitório, com o que não podemos controlar, com o que finda.

A morte é uma viagem inevitável para o desconhecido e como toda viagem, será melhor se você estiver preparado. Para chegar à ressureição, não se pode correr da morte, tampouco desmerecê-la ou viver aterrorizado por ela. A morte não é aniquilação e perda. Esses dias santos que virão, talvez sejam oportunidades para momentos mais contemplativos, olhando mais profundamente para ver o que só pode ser visto na introspecção, quando se olha impiedosamente para dentro de si mesmo para medir o amor que temos doado, o bem que temos feito aos outros e a nós também.

Pessoas morrem despreparadas, assim como vivem despreparadas para viver. Para refletir sobre a vida e morte de Jesus, de familiares e amigos temos que estar em paz, em silêncio e em prece, despidos dos sobrepesos emocionais ou espirituais desnecessários. Precisamos nos acostumar a olhar para a experiência da dor, da doença, da perda, como partes da vida, pois a vida é um ato de escalar montanhas e as ilusões, os arrependimentos e amarguras que carregamos afeta a escalada e influência todo o ambiente por onde transitamos.

Com cerca de 2.2 bilhões de seguidores no mundo, o Cristianismo é a maior religião do planeta. Dom Paulo Evaristo Arns, falecido cardeal-arcebispo de São Paulo, disse certa vez, em uma mensagem pela Semana Santa, que Páscoa significa passagem de um tempo de escravidão e dureza para outro de liberdade, com paz e justiça social e que o bom cristão é bom o ano inteiro, não é a proibição de comer carne uma ou duas vezes por ano que vai mudar seu comportamento.

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