Para onde vamos a partir daqui?

Traz alento as boas notícias sobre ações humanitárias de pessoas desconhecidas e famosas, destinando recursos para apoiar iniciativas para a reconstrução das cidades alagadas do Rio Grande do Sul, após o estado ter sido devastado pela pior enchente de sua história.

Três semanas depois, povo gaúcho entra na difícil fase de reconstrução material, mental e espiritual. Inacreditável, mas no auge da crise humanitária, caminhões utilizados e identificados para o transportar de doações já foram flagrados e apreendidos pela Polícia Rodoviária Federal, com quilos de drogas escondidas entre os pacotes de alimentos e itens de higiene doados.

A rede de solidariedade espalhou-se pelo país inteiro e ainda assim, mais de 130 indivíduos foram detidos roubando os galpões onde são guardadas as doações, para posterior distribuição aos que perderam tudo e estão há quase um mês alojados nos abrigos. Leio que mesmo nos abrigos, tem sido denunciado um ou outro caso de homens que tentam inapropriadamente tocar os corpos de mulheres debaixo dos cobertores. Que sejam poucos, que fosse apenas um caso: inadmissível! Foco na tragédia, na solidariedade, na reconstrução da vida.

Não somos impotentes. Nem estamos condenados a viver em desespero. Mas as convulsões de saúde e social que vivemos no período da Covid-19, mostrou nitidamente que não mudamos o curso de nossas vidas, que o medo, o sofrimento, as perdas não nos levaram a grandes reflexões e mudanças. Seguimos a vida, como se nenhum aprendizado tivéssemos tirado dos dramas experienciados.

As mudanças climáticas previstas cientificamente e anunciadas há décadas podem nos castigar, como resposta a nossa falta de civilidade e respeito quanto a exploração gananciosa dos recursos naturais. A relação do homem com o planeta fez com que as coisas chegassem ao evento climático extremo no Rio Grande do Sul. Não importa a dimensão de catástrofe, culpas ou responsabilização, a resposta deve residir sempre na mudança de atitude de comportamentos enraizados e nós, enquanto sociedade resistimos a fazer mudanças estruturais em nossas vidas, resistimos abraçar uma nova mentalidade.

Recentemente li o livro Where do we go from here: Chaos or Community? de Martin Luther King, que dispensa apresentação, onde ele fala das questões sociais, econômicas e políticas vivenciadas pelos negros americanos nos anos 1950 e 1960 e aconselhava-os  a se colocarem contra qualquer sistema que os oprimissem, mas que mesmo diante de toda dificuldade, violência e injustiça agissem centrados na reconstrução pelo princípio da dignidade e do amor. Que os negros deveriam formar comunidades centradas na reconstrução por meio da justiça, igualdade de oportunidades e no amor pelos semelhantes. Que o esforço, o trabalho e o pensamento fossem envidados para fortalecer os pilares que poderiam manter a comunidade unida.

Disse Dr. King que toda luta avança até o ponto em que todos os envolvidos questionam;  e agora, para onde vamos a partir daqui: para o caos ou para a vida destinada a compartilhar amor e solidariedade?  

Martin Luther King possivelmente ficaria decepcionado ao perceber que mais de 55 anos depois de seu questionamento, os negros no mundo todo enfrentam muitos dos mesmos problemas: maior taxa de desemprego do que os brancos, maior taxa de mortalidade infantil, as meninas e mulheres sofrem mais violência sexual. Quando nos perguntamos, para onde vamos a partir daqui reconhecemos que há dúvidas e incertezas e ajustes a serem feitos no modo que estamos vivendo.

Talvez este seja o momento de querer realmente saber quando vamos parar de aceitar comportamentos que agridem, que subtraiam, atos desonestos de tirar o quase nada de quem perdeu tudo, a desonestidade e crime de quem transporta drogas num caminhão com adesivo de ajuda humanitária. A impaciência e as eleições podem potencializar as perspectivas de mudança.

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