Apetite pelo domínio e desumanização do outro

Uma semana de leitura tensa tentando compreender por que os seres humanos são tão terríveis uns para com os outros.  Em uma longa entrevista o psicólogo canadense Paul Bloom, Ph.D em psicologia cognitiva pelo MIT e destacado professor de Psicologia e Ciência Cognitiva na Universidade de Yale fala sobre as raízes da crueldade humana e de início provoca susto, ao dizer que as pessoas cometem atrocidades contra outros, porque acreditam que quem eles estão matando ou violentando não são seres humanos, isso é chamado de violência instrumental, onde há algum fim que querem alcançar, e as pessoas estão no caminho, por isso não pensam nelas como pessoas, mas como empecilhos.

O caso estarrecedor de violência policial praticado em São Paulo semana passada, reforça a tese que muitas vezes um ser humano não enxerga o outro como humano. Um policial arremessa de uma ponte um jovem que havia sido abordado por um grupo de policiais. O caso não parou nos depoimentos mentirosos dos policiais porque uma pessoa assistiu e gravou a cena. O jovem foi deliberadamente jogado no córrego, sem que nenhum policial do grupo houvesse tentado evitar a violência. O policial está preso e outros 12 foram afastados por terem sido coniventes com a brutalidade. Engraçado, se não fosse trágico, mas em depoimento, o policial afirmou que a intenção era jogar o jovem no chão. Como queria jogá-lo no chão se o jogou para o alto?

A explicação do professor Paul Bloom é que as pessoas só são capazes de fazer coisas terríveis a outras pessoas depois de as terem desumanizado. Quando você deixa de apreciar a humanidade de outras pessoas fazemos muitas coisas horríveis. E nas situações degradantes e humilhantes, trata-se de torturar pessoas porque achamos que elas merecem. É também sobre o prazer de ser dominante sobre outra pessoa. Portanto, a desumanização e a soberba são reais e terríveis.

Alto grau de crueldade nasce da desumanização, alguma crueldade nasce da perda de controle, de um desejo instrumental de conseguir algo que se deseja: sexo, dinheiro, poder. O desejo de ter um bom desempenho social tem um peso desagradável e enorme. Se você consegue ganhar respeito ajudando as pessoas, isso é ótimo.  Outros, porém, conseguem ganhar respeito dominando fisicamente as pessoas com agressão e violência, isso é destrutivo, mas acontece muito e é o que estamos narrando neste artigo.  

De 20 de novembro a 10 de dezembro ocorre uma movimentação chamada de “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha que busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão contra meninas e mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços na legislação, os números relacionados à violência contra as mulheres no Brasil, são alarmantes. Nos movimentos mobilizados para a campanha o que vê são mulheres falando para mulheres, com alcance zero para os companheiros que as agridem e matam.

Temos essa tendência de superestimar até que ponto somos os destaques morais, os justos, os corajosos, os heróis. A questão é que não nos comportamos em situações estressantes da maneira que pensamos ou gostaríamos e Paul Bloom arremata mostrando um estudo de laboratório comprovando que nas condições certas, mesmo diante da insanidade do ato, a maioria de nós é capaz de fazer as coisas terríveis que a princípio condenamos.

Não está sendo fácil pertencer a uma sociedade obcecada pelo poder e pela honra, pelo apetite pelo domínio e punição em vez de preocupada com a atenção e dignidade da pessoa humana.

O estado é o sistema

A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema.   Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.

Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.

O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias.  empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.

Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.

Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.

Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.

Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.

Os homens estão sonoros e exaltados

Atualmente vivemos num mundo envolto em volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em inglês há uma siga para isso, VUCA (volatility, uncertainty, complexity, and ambiguity). São velhos assuntos que testam a humanidade, como a emergência climática, a violência, os conflitos internacionais e a eterna Aliança Global de Combate à Fome, que, repaginada, foi lançada recentemente e teve a adesão de 82 países e diversos organismos internacionais.

Os humanos são seres que fazem sentido e procuram compreender e interpretar o que está acontecendo, porém, nem sempre conseguem conviver bem com o extrato da sociedade e abordagem dos fatos como está acontecendo nesse dado momento. Os homens estão muito sonoros e exaltados, se rompem os laços interpessoais de fraternidade, que são necessários para que tenhamos uma sociedade sem violência, como disse o Ministro do STF, Flávio Dino, dias atrás, em Cuiabá.

E, contrariando um provérbio oriental, tempos difíceis não tem gerado homens fortes. Os ânimos estão à flor da pele, não há mais o adversário, o oponente, há o inimigo. Não há aceitação da derrota. Há tentativa de golpe, planos de assassinatos. Não há mais comparsas leais. Há a delação.

A crítica tem sido punida sob a positividade das convicções de quem as ouve, mas devemos aceitar a punição do que é errado sem favoritismo, fanatismo ou polarização, a violência praticada ou comprovadamente planejada deve entrar na conta do delito e seguir com o processo judicial.

O cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais, Felipe Nunes diz que: “a sociedade brasileira se tornou polarizada e socialmente calcificada”. Ele explicou que o índice da polarização afetiva está associado à tolerância com o diferente. Já a calcificação pode ser relacionada ao fato de que a sociedade se tornou mais rígida quanto à identidade, ou seja, as pessoas estão mais intolerantes quanto a ouvir quem pensa diferente, não debatem mais o Estado, debatem os valores. Diz que o povo virou torcedor que têm visões de mundo radicalmente diferentes e não estão dispostos ao diálogo. O cientista político diz ainda que a única maneira de superar a calcificação é por meio da pluralidade de ideias e do convívio saudável com o diferente e do debate.

Apesar de estamos emocional e fisiologicamente sintonizados com o mundo que nos rodeia, estamos também, bombardeados com informações já recheadas de ideologia e não podemos perder a noção de onde vêm nossas influências, não podemos permitir a quebra dos valores civilizados da cultura da paz. Precisamos desafiar nossas suposições para nos abrirmos para a possibilidade de vermos uma situação sob variadas formas de interpretação.

Porque, em John Donne, poeta inglês aprendemos que: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra…” e como uma partícula do universo, condensada à sua importância, nenhum homem pode fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor. (Mahatma Gandhi).

Estamos perdendo nossa alma afetuosa para o ódio

Diante do atroz atentado nas proximidades da Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde um homem morreu, vítima do artefato que ele mesmo construiu para ceifar vidas alheias, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal – STF, perguntou: “Onde foi que nós perdemos a luz da nossa alma afetuosa, alegre e fraterna para a escuridão do ódio, da agressividade e da violência?”. O ministro decano do STF, Gilmar Mendes acredita que o atentado foi provocado pelo fanatismo político e pela indústria de desinformação, estimulada por líderes políticos. O ministro Alexandre de Moraes disse lamentar a mediocridade de várias pessoas que continuam querendo banalizar o gravíssimo ato terrorista, disse ainda, que no mundo todo alguém que coloca na cintura artefatos para explodir pessoas é considerado um terrorista.

Não devemos banalizar ataque às instituições. As ideologias extremistas vêm acompanhadas de intolerância, recusa ao diálogo respeitoso e como último recurso, a violência e líderes extremistas chegam almejam a política para desestabilizar a democracia e pressionar a favor de um lamentável retrocesso.

O que está acontecendo com os brasileiros é que os ressentimentos estão sendo explorados, facilmente. Desde 2018, a política, sobretudo em período de disputa eleitoral assumiu contornos extremistas. O fanático político está em toda parte, sendo alimentado pelas notícias falsas, virando um alvo incapaz de interagir civilizadamente com quem pensa diferente, porque é facilmente manipulado, tem suas emoções controladas e empatia limitada com os outros cidadãos, a quem chama de inimigos do povo. Essa narrativa propagadora ódio e violência cansou todo mundo. O ex-presidente Jair Bolsonaro, quanto ao atentado citado, disse que o caso exige reflexão, que já está na hora de o Brasil voltar a cultivar o ambiente favorável para abrigar pessoas que possam pacificamente confrontar suas ideias.

As ideologias extremistas seduziram muitos seguidores, que acreditam profundamente nas ideias defendidas pelos líderes aos quais estão vinculados e ignoram todas as outras fontes de informação.  O extremismo é uma ameaça para o avanço do debate e as ações que saem fora da agressividade verbal, devem ser tratadas apressadamente, de maneira enérgica. Um caso de violência motivado por extremismo político não pode ter tempo de inspirar outro, mesmo que, por conveniência, o ato violento seja tratado com o contorno de isolado. O desfecho do caso recente do atentado em Brasília puniu um agressor que até recentemente era filiado a um partido político, tentava se eleger vereador numa pequena cidade do interior de Santa Catarina, embora tivesse uma folha corrida de atitudes extremadas e violentas.

Sabemos que o debate político está sujeito a sofrer tensões, sempre as opiniões divergentes entram em cena, mas as pessoas extremistas debatem em nível civilizado apenas com as pessoas que compartilham a mesma visão de mundo, e, esse acúmulo de mais da mesma informação acarreta a visão mais extrema da política e muitas vezes, leva ao desenvolvimento das teorias conspiratórias, como o caso das urnas eletrônicas, que sabidamente promove a eleição de políticos da extrema direita e da extrema esquerda.

Observa que os líderes manipuladores, têm um discurso inflamado para as redes sociais, porém, se mantém próximo do círculo do poder, se equilibrando para sobreviver no que eles, em público chamam com desprezo, de sistema.

O envelhecimento no mundo contemporâneo

O Brasil tem envelhecimento recorde da população de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população idosa com 60 anos ou mais, corresponde a 15,6% da população. No Censo de 2022, o índice de envelhecimento do Brasil foi de 80,0, o que significa que havia 80 pessoas idosas para cada 100 crianças de 0 a 14 anos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como idosos as pessoas com mais de 65 anos de idade. No Brasil há um Projeto de Lei para elevar de 60 para 65 anos a idade da pessoa considerada idosa, com a justificativa de que houve avanços significativos na qualidade de vida da pessoa idosa no país.

A Itália, considerou um laudo da Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria para mudar oficialmente o conceito de idoso para 75 anos. Segundo dados da ONU, o Brasil é a sexta nação com o maior número de pessoas idosas, atrás apenas de China, Índia, Estados Unidos, Japão e Rússia.

Quando o Estatuto da Pessoa Idosa foi aprovado o Brasil, há vinte e um anos, o Brasil tinha 15 milhões de idosos, e em 2022 superou 32 milhões. O crescimento da população idosa é um desafio que exige dos governos a ampliação de programas direcionados a esse grupo. Em Mato Grosso, o desembargador Orlando Perri, coordena a criação da Rede Estadual de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa, um colegiado de vários órgãos, para trabalhar políticas públicas que restaurem a dignidade da pessoa idosa que precisa de serviços públicos. Disse ele, que no estado de Mato Grosso tem-se política, mas não tem sequer abrigos públicos e a carência não é apenas estrutural para atender quase 480 mil pessoas.  

Eu começo a ter consciência que pertenço irremediavelmente ao grupo de pessoas que está envelhecendo no mundo contemporâneo, com acesso amplo a informação, conhecimento razoável de tecnologias que favorecem mudança de comportamento para caber dentro do propósito de uma vida mais longa e saudável, para permitir o prosseguimento no mercado de trabalho por mais tempo, promover meu auto sustento, considerando que vivo tranquila com a decisão de não escamotear as marcas do passar do tempo, mesmo sabendo que será difícil não levar em conta a aparência e considerar mais os conteúdos e as mensagens que as pessoas e coisas nos proporcionam.

Histórias de pessoas idosas narram guerras, processos migratórios, amores fatídicos e risíveis, fala de lutos, mas, não é em si, um desenvolvimento humano negativo. Corpo e mente bem cuidados pode dar bom resultado e mesmo que não dê, não faria eu, o pacto que fez Dorian Gray, no fabuloso romance escrito por Oscar Wilde, em 1890.

O livro trata sobre a vida de um homem, para quem, a beleza é a virtude mais importante, é contestado por um amigo que ressalta que a beleza e a juventude são sinais passageiros, Dorian Gray, a este ponto, declara que daria sua alma se um retrato pintado pelo amigo envelhecesse e enrugasse em seu lugar, enquanto ele continuasse jovem e bonito para sempre. Simultaneamente aos fatos da vida de Dorian, o retrato assume as faces das tragédias, indignidades e dissabores vividos pelo belo jovem, que mantém a aparência de irretocável beleza e juventude.

Decide então, tornar-se um jovem virtuoso para ver se o retrato se recomporia. O retrato, no entanto, continua mostrando um homem envelhecido, de aparência horrível. Enfurecido, Dorian Grey esfaqueia o retrato, ouve-se gritos e gemidos. Os empregados encontram no chão o homem velho de aparência má do retrato, com a faca cravada no peito e na parede, contemplam a figura do jovem bonito que Dorian Gray havia sido.

Crimes mais graves, pela própria natureza

Certa vez li que uma questão incômoda perseguia os governos mato-grossenses no curso da história. Tratava-se da ideia segundo a qual este lugar era a representação da barbárie e, por esta razão, estava condenado a permanecer como um espaço estigmatizado pelo seu atraso frente a outros espaços do país.  Falava-se de tiros pelas ruas, de homens violentos e mortes nas florestas, no pantanal e nas cidades. O tempo passou, mas por aqui ainda se ouve muito sobre crimes violentos.

Enquanto estávamos distraídos com o processo eleitoral, cumpria-se inexorável nossa sina de estado com a maior taxa de feminicídio do país em 2023 e aumento registrado de 113% em 2024. Com histórico amplamente conhecido de violento na região de Ribeirão Cascalheira e problemas com a justiça, o vereador José Soares de Souza, conhecido como Zé Fadiga, concorreu a reeleição e perdeu. Creditou a derrota a ex-mulher que o havia denunciado meses antes por violência doméstica, cárcere privado. Zé Fadiga assassinou a ex-mulher e o ex-cunhado e ao sentir-se cercado pelas forças policiais, cometeu suicídio.  

Na cidade de Pontes e Lacerda uma mulher foi morta e deixada na varanda da casa pelo homem com o qual mantinha um relacionamento, o homem também cometeu suicídio. As investigações apontaram que, anos atrás, o homem já havia sido denunciado por violência contra outra mulher. Os dois casos têm em comum, em primeiro lugar, o cenário de homens que já haviam sido denunciados por violência contra a mulher e se safaram do cumprimento de penas e depois, a atitude duplamente covarde dos assassinos diante possibilidade de enfrentar o processo com base na nova legislação do Pacote Antifeminicídio, que aumentou a pena para o feminicídio para até 40 anos.

Sororidade zero é mulher matando mulher, como aconteceu em Peixoto de Azevedo, com emboscada, tiros que surpreenderam a vítima e fuga de motocicleta. Em Cuiabá, imagens fortes de uma tentativa cruel de assassinato de mulher, atacada por outra mulher, aconteceu na rua, no bairro Vista Alegre, próximo a um ponto de ônibus, onde estavam várias pessoas, que a princípio assistiram o desfecho das facadas e depois, indiferentes se distanciaram do local, sem prestar socorro à vítima, hospitalizada em estado grave. Mulher assassinou o marido durante discussão em Rondonópolis, alegando legítima defesa, alegando estar cansada das agressões praticada pelo companheiro em outras ocasiões. Mulheres aprendendo a serem violentas. Como dito em Augusto dos Anjos; “o homem que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”.

Em Cuiabá, o nível de confiança dos pais nos professores é fortemente abalado com a prisão em flagrante do professor de história e diretor da conhecida Escola Estadual Padre João Panarotto, por envolvimento com uma rede criminosa envolvida em exploração sexual de crianças na internet. O predador, neste caso, devido a condição profissional tinha acesso facilitado aos alvos, pois gozava de confiança das crianças e dos pais, ainda assim, usava aplicativos de jogos para atrair as vítimas. A operação contra a rede criminosa partiu da polícia de São Paulo, que descobriu as ramificações perversas no estado de Mato Grosso, mais especificamente em Cuiabá e Tangará da Serra.

Assim como ocorreu o endurecimento da pena com o pacote Antifeminicídio, a Comissão de Direitos Humanos no Senado aprovou recentemente um Projeto de Lei, do ex-senador Lasier Martins, que altera a Lei de Crimes Hediondos para incluir os crimes de posse, produção e comércio de fotografia, vídeo ou qualquer registro que contenha cena de sexo ou pornografia envolvendo criança ou adolescente, o que, consequentemente aumenta a pena de prisão para os casos de pedofilia. O termo hediondo é utilizado para designar crimes graves, pela própria natureza e pela maneira cruel como são cometidos. Não há fiança, anistia ou indulto. Boas iniciativas legais, se cumpridas.

hoje, os eleitores falam

Aristóteles já dizia que a democracia é o governo onde domina o número, isto é, a maioria, O resultado das eleições é uma das principais manifestações da soberania popular. Em função disso, não importa quão apertada seja uma disputa eleitoral, o resultado das eleições sempre refletirá a vontade do povo, e o candidato eleito sempre deverá governar para todos, em vez de governar apenas para seus eleitores. No Brasil, é importante discutir e relembrar a importância da democracia, do pluralismo. Relembrar como foi custoso e demorado a volta do Estado Democrático de Direito, do direito de participar, expor a opinião, assumir posições sem receio de ser perseguido.

Todavia, a história eleitoral é escrita pelos vencedores. O tema da derrota eleitoral é pouco discutido na Ciência Política, embora a derrota eleitoral seja parte inerente do jogo democrático e oferece importante subsídio para a compreensão do momento político da disputa, das pautas levantadas até os apoios recebidos e forma de comunicação adotada pelo candidato. Nas democracias, perder eleições livres e justas é uma parte normal da política e o consentimento dos perdedores é necessário para a sobrevivência do próprio governo democrático.

Para quem tem cargo eletivo, caso dos dois candidatos de Cuiabá é ainda mais difícil compreender a derrota, a falta de reconhecimento, porque como parlamentares, eles vêm comunicando com eleitor há anos. Mas aí entra a questão da modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, onde os laços construídos são frouxos, a admiração é infiel e os ambientes onde se dão as relações são instáveis, ambíguos e inseguros.

A vitória de um não significará necessariamente a derrota do outro. Ambos estão na metade de seus mandatos parlamentares.

Contudo, certos tipos de derrotas podem provocar redefinições ou até ruptura política na trajetória do candidato, porque o indivíduo contribuí muito com seu tempo e energia para propagar o plano de governo escrito baseado na ambição do eleitor, do partido e pelo caminho estão percalços e contratempos de toda sorte; traições de grupo, falta de empenho e ultimamente as pesquisas enviesadas que mais confundem do que orientam o marketing das campanhas, além dos falsos profetas que ensinam o que fazer e como se comportar no dia 2, no dia 1 antes da eleição.

Falo sobre o derrotado hoje, um dia antes da eleição, porque todos se voltarão para aplaudir o vencedor e ele não conduziu sozinho sobretudo o segundo turno das eleições em Cuiabá. Cuiabá, que nos deu o maior líder político que este estado já teve, Dante de Oliveira, derrotado ao senado no ano de 2002 e quem estuda e participa da política tem plena convicção que, se não fosse morte prematura meses antes do início das articulações para a eleição de 2006, Dante pleno da sua grandeza política se elegeria para o cargo que disputasse. Ele queria ser deputado federal.

José Serra, ao reconhecer a derrota para Dilma Rousseff, disse em seu pronunciamento: “Não é adeus, é até logo. Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quis o povo que não fosse agora”. Na eleição seguinte, em 2014 José Serra elegeu-se senador com mais de 11 milhões de votos.

Já pensando nas próximas eleições, não sei como estas serão trabalhadas porque a maioria das campanhas migraram para a internet, que tem mostrado que é um espaço para reunir os iguais, para combinar agenda, sem controvérsias, sem aceitação às diferenças. Ninguém está ali para abrir a própria visão, para conhecer o plano de governo do outro. Ou há xingamento ou silêncio. Não há troca, não há interação mínima entre os que pensam diferente, só cercadinhos que se odeiam.

Mapa político de 2024 não é prévia de 2016

Osegundo turno segue quente em Cuiabá e em outras 50 cidades brasileiras. O segundo turno é uma eleição em que se aproveita a maioria das experiências aplicadas no primeiro turno, mas é um novo momento muito complicado, com espaço de tempo muito curto para trabalhar as novas estratégias e tem o desafio interno, dentro da campanha de acomodar, de abrir espaço para as novas adesões, para os novos apoios, que irão, ao final, na contagem dos votos, fazer a diferença.

Essa questão de flexibilizar para receber novos apoios é tão importante que li uma entrevista do presidente do PL, afirmando que: “o pessoal da extrema direita do partido precisa aceitar a aproximação com o centro e o diálogo com setores da esquerda para vencer as eleições de 2026”.

Então, as eleições locais nem terminaram e estão sendo utilizadas por políticos e analistas políticos como o termômetro do apoio público aos governos e partidos para as eleições gerais, em 2026. Em análises locais e nacionais percebo que as eleições que ainda não findaram serão mais do que a escolha dos 5.568 prefeitos e 57.119 vereadores país afora. Desse resultado surgirá um mapa desenhando dos possíveis rumos do Brasil na próxima eleição. Não diria que os futuros prefeitos e vereadores serão cabos eleitorais dos candidatos de 2026 mas seguramente serão as pessoas que influenciarão os eleitores no próximo pleito.

Estudando os impactos e influências das eleições municipais nas eleições gerais, há forte tendência entre os cientistas políticos de que a eleição municipal não é uma prévia da eleição geral até porque o que foi colocado à vista em 2024 foi a avaliação das forças políticas, do desempenho dos partidos e dos parlamentares com mandato. O eleitor gosta de parlamentar que atua fortemente nos municípios e obviamente quem tem grande número de prefeitos e vereadores entre os apoiadores sai com larga vantagem. Isso nem é teoria política, é matemática.

Embora os analistas creiam que os resultados das eleições municipais expressem preocupações locais e não tendências nacionais, eu creio que os eleitores utilizam as eleições em arenas locais para expressarem a satisfação ou insatisfação com os governos estaduais e nacional.

A dinâmica das duas eleições, contudo, não obedece a mesma lógica, tanto que o PT em 2020 teve um dos mais fracos desempenhos desde a fundação da sigla e elegeu apenas 183 prefeitos. Dois anos depois, nas eleições gerais, retomou a Presidência da República, elegendo o presidente Lula para o terceiro mandato. De acordo com o cientista político Rafael Cortez, professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a ligação entre os dois pleitos se dá mais no campo das ideias da elite política, porque o eleitor não guarda relação nem preferencias entre as duas eleições e o efeito de uma eleição sobre a outra vai se diluindo.

Vamos acompanhar o desempenho do PSD, de Gilberto Kassab, que terminou o primeiro turno como o partido com a maior capilaridade política do País, elegeu 888 prefeitos de norte a sul e espera estar na disputa direta para a presidência da República ou no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo. Vamos observar para ver até que ponto ter mais prefeitos e vereadores significa estar bem-posicionado para uma grande disputa.

Em alguma medida, é claro que a eleição municipal dá o cenário de poder com que os partidos vão jogar quando forem construir os seus palanques e suas estratégias eleitorais, num ambiente que já foi modificado para melhor em 2024. 241 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas vereadoras, um aumento de 400% na representação nos legislativos municipais. As eleições municipais mandam recado para 2026.

A consolidação de um processo conservador

As eleições municipais são o prenúncio das eleições gerais e importa muito perceber para onde o vento está soprando, como e quais políticos conseguiram transferir apoio para seus candidatos. O diagnóstico pelo Tribunal Superior Eleitoral ao detectar que 11% dos prefeitos eleitos no primeiro turno no país são servidores públicos com tendência política de centro direita e quase 6% dos vereadores tem o mesmo perfil e são filiados nos partidos de centro, PSD, MDB e PP. Interessante observar o servidor público se colocando como cidadão da elite, alinhado com partidos que não priorizam as pautas de defesa dos trabalhadores e preservação ou ampliação de seus direitos.

O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, conseguiu fazer 509 prefeitos no primeiro turno das eleições municipais. O número é superior ao do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que elegeu 248 candidatos. Porém alguns analistas contrariam a ideia de uma polarização política intensa, os embates diretos entre PT e PL foram raros. As coligações em que PT e PL estiveram juntos elegeram 49 prefeitos. Os dois partidos concorreram diretamente em apenas cinco das 26 capitais: Fortaleza, João Pessoa, Vitória, Cuiabá e Manaus. O União Brasil e o PL venceram as eleições nas 100 cidades mais ricas do agro brasileiro

15 capitais brasileiras disputarão o segundo turno. O PSB se transformou na principal força progressista do país elegendo 312 prefeitos. Em Cuiabá, fez mais de 33 mil votos e elegeu 4 vereadores, porém de acordo com o Presidente, Carlos Siqueira, em termos gerais, o Brasil vem sofrendo um processo de radicalização conservadora do centro para a extrema direita e os ricaços, como sempre, abriram os cofres e doaram mais de 30 milhões para influenciar no resultado das eleições e avançar o projeto conservador rumo a 2026.

Pessoas se tornaram conhecidas. A vergonha nacional do primeiro turno veio de Goiás querendo conquistar São Paulo, o coach Pablo Marçal, arrogante, mimado, sem cultura, agressivo e com discurso antipolítica, surfou na onda bolsonarista, depois achou-se maior do que o líder, ridicularizou a imprensa e precisa dela para captar clientes para as mentorias, que o tornaram milionário. O bom moço veio de Fortaleza, é biólogo e chama-se Gabriel Aguiar, foi reeleito com 30 mil votos sem utilizar papel, ou seja, sem santinho, santão, panfleto, mas, com discurso alinhado com a defesa do meio ambiente. O vereador Gabriel e sua equipe recolheram folhas nas praças, parques e quintais de Fortaleza, visando reduzir o impacto ambiental da campanha prensava as folhas e escrevia à mão seu número de urna e as distribuía aos eleitores, uma ação que ganhou o apoio de ativistas ambientais.

Com abstenção alta, 24,32%, quatro das 10 maiores cidades de Mato Grosso elegeram prefeitos conservadores do PL, que ainda disputa Cuiabá. A maioria dos candidatos não foram eleitos porque representam o melhor para suas cidades, mas porque atendem bem o projeto de retorno da direita conservadora ao poder em 2026. De 142 prefeituras no estado de Mato Grosso, apenas 13 serão comandadas por mulheres, Cuiabá nem candidata teve.  Em 2020 o candidato Abílio Brunini disputou a eleição para prefeito de Cuiabá pelo (Podemos) com Emanuel Pinheiro (MDB). No primeiro turno Abílio teve 90.631 votos válidos (33.72%) e Emanuel 82.367 (30.65%) e Emanuel virou e venceu. Em 2024 Abílio ampliou a votação para 126.900 votos e Lúdio com quem disputa fez 90.719. Ou seja, Lúdio inicia o segundo turno com um déficit eleitoral de 36 mil votos (11,3%).

A Câmara municipal de Cuiabá entrou finalmente na era da redução da desigualdade de gênero pela ocupação dos espaços de poder e elegeu 08 mulheres, enquanto no âmbito estadual os candidatos homens receberam 87% votos as mulheres receberam apenas 13%. A justiça eleitoral, no entanto, registra que houve avanço na representatividade feminina nas Câmaras Municipais.

Mulheres demoram a decidir o voto, priorizam a ação social e o custo de vida

Nas democracias avançadas de todo o mundo, nos últimos anos assistimos às mulheres moverem-se para a esquerda, transferindo o seu apoio de partidos conservadores para partidos progressistas. Há evidências de longa data de que as mulheres são socialmente mais liberais nas suas atitudes em relação às minorias, por exemplo, em relação às minorias étnicas, raciais e às pessoas LGBTQIA+.

As mulheres são mais propensas a se sentirem financeiramente inseguras, a se preocuparem com a segurança financeira, priorizam assistência social e o custo de vida. As mulheres também se preocupam com as questões trabalhistas, com educação, pautas, onde os partidos progressistas têm uma reputação tradicionalmente mais forte. As mulheres se preocupam com o voto, mas decidem-se mais tarde do que os homens. Já foi dito que quando as primeiras pesquisas indicam números altos de indecisos, isso reflete a indecisão ou cautela delas.

Chegou a hora e 1,3 milhão de mulheres de Mato Grosso acordaram salientes, se arrumaram e estão a caminho dos locais de votação para escolherem prefeitos e vereadores de seus municípios. Saibam que do total de candidaturas aqui registradas para estas eleições, apenas 35% são de mulheres, os dados são do portal de Estatísticas do TSE, somando candidatas a prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras. O número é considerado baixo considerando que a representação feminina em Mato Grosso é de 51% dos 2.588.666 milhões de eleitores.

As mulheres podem decidir as eleições. Conversei com uma candidata que atua na área da saúde, construiu bom conhecimento sobre as políticas públicas para as unidades de saúde. Debateu com colegas a necessidade de se colocarem para a disputa, acreditou que traria visibilidade para o partido com as discussões técnicas, porém, confessou que enfrentou sérios desafios para ser ouvida, para estruturar a campanha, devido ao tratamento desigual dado a homens e mulheres, negros e brancos, da região central ou periferia, o recurso que recebeu foi mínimo, sobretudo para quem precisava se tornar conhecida. Não conseguiu imprimir material no mesmo tempo que homens brancos do partido já estavam com suas campanhas nas ruas, o que certamente impactará seu desempenho nas urnas.

Lá atrás, quando se criticava os bilhões que seriam liberados pelo Fundo de Financiamento de Campanha, houve a argumentação de que o objetivo do fundo seria garantir uma disputa digna para todas as candidaturas, que por meio desta fonte de recurso público os partidos, as candidatas e os candidatos custeariam grande parte das campanhas eleitorais. A definição dos critérios de distribuição do Fundo Eleitoral às candidatas e aos candidato é uma decisão interna dos dirigentes partidários e a falta de clareza na distribuição do recurso, contraria o motivo de sua criação ou seja, o acesso não é democrático e a verba ficou concentrada nos candidatos brancos e com bom patrimônio.

Na última eleição municipal foram eleitas 9.196 vereadoras, Cuiabá contribuiu com apenas duas eleitas e 48.265 vereadores em todo o país. Prefeitas foram eleitas apenas 663 e somente nove administram cidades de grande porte e somente uma foi eleita para administrar uma capital. Nas Câmaras Municipais, em mais de 1.800 cidades, uma única vereadora foi eleita e, em 933 Câmaras não existe nenhuma mulher. Vamos guardar esses números para dimensionarmos o tamanho do avanço.