Os impactos do isolamento social

Robert Putnam é um cientista político americano da Universidade de Harvard, tem 83 anos. No ano 2000 ele escreveu o livro “Bowling Alone: ​​​​The Collapse and Revival of American Community”, no qual demonstrou com dados abundantes que a América estava de tornando uma nação de pessoas solitárias, que se esquivavam de se associar a organizações sociais, religiosas e políticas, por razões, entre outras, a perda de confiança nos outros indivíduos e nas instituições. O trabalho de Putnam atraiu a atenção da Academia, dos políticos e inclusive do presidente Bill Clinton, que na época, o convidou para uma reunião na Casa Branca. Comprei a edição atualizada do livro em inglês, onde Putnam observa que a nação se tornou mais dividida, mais solitária e menos confiante quanto ao caminho a seguir desde que escreveu o livro.  Ele alerta que o advento do isolamento social repercute em toda América e que as coisas só pioram.

O trabalho publicado no livro é sobre o poder das conexões, das intromissões nas coisas públicas, as críticas, o posicionamento firme diante de fatos públicos, dos escritos, colaboração em projetos sociais, políticos ou religiosos. Uma consequência marcante do declínio das conexões é a desconfiança generalizada do povo nas suas instituições democráticas. Putnam não considerou este problema limitado à esfera política. A incapacidade de as pessoas se conectarem com amigos, familiares e associações profissionais tem impacto na saúde, produtividade e melhoria nos serviços públicos.

Lembra Putnam que o voto é, de longe, a forma mais comum de atividade política, porém, votar não é necessariamente o único modo de participação política. Na verdade, se não estivermos engajados em um projeto, se não entendermos como de desenrola o processo político, quem está no controle dos partidos, quem são e o que pensam nossos representantes, estamos caminhando de encontro a um fato complexo e sem volta; a perda maciça de capital social, um vocabulário usado para definir as fortes relações comunitárias e a confiança mútua entre indivíduos, confiança na sociedade e no governo.

O debate poderoso vindo de todas as divisões da comunidade para ensinar e ampliar nossa identidade e reciprocidade está se diluindo ano após ano e 24 anos depois da publicação do livro, o que vê são partidos políticos financiadores de campanhas bem-organizadas e profissionalizadas. A comercialização das campanhas acaba produzindo contatos aleatórios em grupos de mídias sociais e o declínio do envolvimento do cidadão com o voto é perfeitamente compreensível no sentido de que a participação política tem sido paga e quanto mais nossas atividades dependem das ações dos outros, maior será a possibilidade de desistirmos e essa mentalidade impera em todos os níveis da hierarquia educacional.

As transformações sociais são inevitáveis e o estudo aponta que o isolamento social atinge todos as faces da nossa vida, em toda a América, embora saibamos que a solidão faz mal à saúde, nos torna vulneráveis aos apelos de argumentações nacionalistas e lembra Putnam que os recrutas fervorosos para o Partido Nazista na década de 1930, eram jovens alemães solitários.

Precisamos construir laços com pessoas diferentes, de geração diferente, de ponto de vista diverso, porque a vida não é vivida numa simples dimensão nem esperamos que tudo mude na mesma direção e intensidade, mas essas anomalias (solidão, diluição do capital social) nos dão pistas importantes do que pode estar acontecendo. Não vamos resolver a polarização, a desigualdade, o isolamento social até que, antes de tudo, comecemos a sentir que temos a obrigação de cuidar das outras pessoas. Somente conectando-nos com outros é que generalizamos nossas experiências.

Em entrevista, Putnam lamenta ter trabalhado durante a maior parte da vida acadêmica, alertando e demonstrando cientificamente a necessidade de se construir uma vida comunitária melhor, mais produtiva, mais igualitária e mais conectada, porém, aos 83 anos olha para trás e sente-se pessimista quanto ao futuro, essencialmente porque as pessoas não parecem dispostas a conviver, a juntar-se em projetos de pessoas que ameaçam suas próprias ambições.

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