Apetite pelo domínio e desumanização do outro

Uma semana de leitura tensa tentando compreender por que os seres humanos são tão terríveis uns para com os outros.  Em uma longa entrevista o psicólogo canadense Paul Bloom, Ph.D em psicologia cognitiva pelo MIT e destacado professor de Psicologia e Ciência Cognitiva na Universidade de Yale fala sobre as raízes da crueldade humana e de início provoca susto, ao dizer que as pessoas cometem atrocidades contra outros, porque acreditam que quem eles estão matando ou violentando não são seres humanos, isso é chamado de violência instrumental, onde há algum fim que querem alcançar, e as pessoas estão no caminho, por isso não pensam nelas como pessoas, mas como empecilhos.

O caso estarrecedor de violência policial praticado em São Paulo semana passada, reforça a tese que muitas vezes um ser humano não enxerga o outro como humano. Um policial arremessa de uma ponte um jovem que havia sido abordado por um grupo de policiais. O caso não parou nos depoimentos mentirosos dos policiais porque uma pessoa assistiu e gravou a cena. O jovem foi deliberadamente jogado no córrego, sem que nenhum policial do grupo houvesse tentado evitar a violência. O policial está preso e outros 12 foram afastados por terem sido coniventes com a brutalidade. Engraçado, se não fosse trágico, mas em depoimento, o policial afirmou que a intenção era jogar o jovem no chão. Como queria jogá-lo no chão se o jogou para o alto?

A explicação do professor Paul Bloom é que as pessoas só são capazes de fazer coisas terríveis a outras pessoas depois de as terem desumanizado. Quando você deixa de apreciar a humanidade de outras pessoas fazemos muitas coisas horríveis. E nas situações degradantes e humilhantes, trata-se de torturar pessoas porque achamos que elas merecem. É também sobre o prazer de ser dominante sobre outra pessoa. Portanto, a desumanização e a soberba são reais e terríveis.

Alto grau de crueldade nasce da desumanização, alguma crueldade nasce da perda de controle, de um desejo instrumental de conseguir algo que se deseja: sexo, dinheiro, poder. O desejo de ter um bom desempenho social tem um peso desagradável e enorme. Se você consegue ganhar respeito ajudando as pessoas, isso é ótimo.  Outros, porém, conseguem ganhar respeito dominando fisicamente as pessoas com agressão e violência, isso é destrutivo, mas acontece muito e é o que estamos narrando neste artigo.  

De 20 de novembro a 10 de dezembro ocorre uma movimentação chamada de “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha que busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão contra meninas e mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços na legislação, os números relacionados à violência contra as mulheres no Brasil, são alarmantes. Nos movimentos mobilizados para a campanha o que vê são mulheres falando para mulheres, com alcance zero para os companheiros que as agridem e matam.

Temos essa tendência de superestimar até que ponto somos os destaques morais, os justos, os corajosos, os heróis. A questão é que não nos comportamos em situações estressantes da maneira que pensamos ou gostaríamos e Paul Bloom arremata mostrando um estudo de laboratório comprovando que nas condições certas, mesmo diante da insanidade do ato, a maioria de nós é capaz de fazer as coisas terríveis que a princípio condenamos.

Não está sendo fácil pertencer a uma sociedade obcecada pelo poder e pela honra, pelo apetite pelo domínio e punição em vez de preocupada com a atenção e dignidade da pessoa humana.

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