A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema. Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.
Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.
O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias. empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.
Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.
Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.
Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.
Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.