Só preciso de um trocado e um sonho

As loterias tornaram-se maiores e mais difíceis de ganhar, atraindo especialmente pessoas economicamente vulneráveis. Infelizmente, quando se trata de loteria, os pobres continuam a ser os maiores perdedores em qualquer país. Um estudo americano recente publicado no Journal of Risk and Uncertainty revelou que as pessoas pobres gastam nove por cento do seu rendimento em jogos de loteria.

O Banco Central revelou que os brasileiros gastaram recentemente cerca de R$ 20 bilhões por mês com apostas on-line. Os valores divulgados consideraram apenas transferências via Pix e ao filtrar o perfil os jogados percebeu-se que os beneficiários do programa de transferência de renda Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões só em agosto para as “bets”.

O mercado de jogos está voraz e o Brasil tem hoje cerca de 300 empresas especializadas no mercado de apostas esportivas. Um mercado em ebulição, que foi catapultado pela regulamentação proveniente da aprovação da Lei 14.790/23, que possibilitou o ingresso de pessoas jurídicas nesta área que, anteriormente, era explorada, de forma exclusiva, pelo poder público, regulou as apostas virtuais e os jogos on-line.

A discussão sobre as “bets” veio à tona após essa percepção de que as famílias brasileiras estão se dispondo de percentual cada vez maior do escasso recurso para sustentar a casa, deixando de lado gastos pessoais, com cultura, entretenimento e até com alimentos e bebidas para se aventurar e encher o bolso dos donos das “bets”. Que discernimento tem esse povo que precisa que o estado intervenha e lhe diga que normalmente joga-se com o troco e não com o dinheiro do leite das crianças?

Desde 2021 a Caixa Econômica vem fazendo alerta sobre sites de apostas e loterias não autorizadas, o Banco Central já está em alerta e classifica o crescimento desse mercado no país como preocupante, sobretudo por causa de relatos sobre endividamento familiar para custear o vício em jogos. Segundo a regulamentação já prevista do Ministério da Fazenda, o cartão de crédito não vai mais poder ser usado a partir de janeiro de 2025. A Febraban alerta que embora apostar possa ser divertido, os jogos, qualquer um, não são investimento e nem uma alternativa ao emprego, ou solução para problemas financeiros, fonte de renda adicional.

A loteria pública no Brasil tem 61 anos. A Mega-Sena é uma das loterias que oferece menor probabilidade de o apostador levar o prêmio milionário com uma aposta simples. A Mega-Sena, já respondeu por quase metade das apostas feitas. Hoje as “bets” faturam 10 vezes mais que as loterias oficiais da Caixa econômica, investiram dois bilhões em propaganda em 2024, o que levou a Caixa Econômica a elevar o tom e pontuar que não há garantia de que as apostas não oficiais sejam efetivamente registradas, portanto, o apostador pode sequer estar concorrendo ao sorteio, que os sites não autorizados cobram sobrepreço, portanto, os valores arrecadados não são revertidos para premiação na proporção indicada pela lei.

Desde o ano passado algumas plataformas de apostas começaram a ser acusadas de ter jogos ilegais em suas plataformas. Uma delas, mostrou que realmente dinheiro de apostador estava sobrando no caixa da empresa e pagou mais de R$ 80 milhões para patrocinar o BBB 2024. 114 novas casas de apostas pediram autorização para entrar em funcionamento ao Ministério da Fazenda.

No Senado Federal a discussão foi a pauta no plenário semana passada, os senadores alertam sobre os impactos negativos visíveis do mercado de apostas on-line, as ´bets´, alertam para o crescente risco do vício em jogos, apontam para a proibição da propaganda dos jogos, incluindo patrocínios de times de futebol e ações sociais, o que todos já sabemos, mas quase unanimemente os parlamentares falam em reparar erros, corrigir desvios acumulados pela Lei 14.790/23 que eles mesmos aprovaram e que, se todos os artigos fossem cumpridos não estariam os parlamentares trabalhando projetos para aprovarem em regime de urgência.

No texto da Lei cita a proibição de propagar ideias enganosas e criar falsas expectativas quanto a premiação, proíbe o jogo para menores de 18 anos, proíbem transmissão de eventos esportivos, entre outras coisas, que acontecem diante de nossos olhos.

Eleição – coisa complicada

Em Mato Grosso, somente a capital do estado pode ter as eleições decididas no segundo turno. No Brasil apenas 103 cidades poderão ter segundo turno. Na reta final, analisados os recursos, o Tribunal Regional Eleitoral já divulga as candidaturas barradas pela justiça eleitoral. No estado, 11.100 cidadãos solicitaram registro, sendo 368 candidatos a prefeito, 374 a vice-prefeito e 10.358 candidatos a vereador, sendo 446 em Cuiabá, dos quais 23 foram considerados inaptos ou deferidos com recurso, conforme o DivulgaCand Contas.

Na data de 20 de setembro o DivulgaCand Contas registrava 15.571 candidatos a prefeitos, 15.814 candidatos a vice-prefeitos e 431.967 candidatos a vereadores no país inteiro. As nossas eleições são verdadeiros combates, a eleição municipal é gigantesca, movimenta números expressivos; mais de 155.912 milhões de eleitores, quase meio milhão de candidatos nas 5.569 cidades do país. Ao todo, 29 partidos receberão R$ 4.961.519.777,00 somente do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, valor estabelecido pelo Congresso Nacional para gastos com a corrida eleitoral deste ano.

Esta será a maior eleição municipal de todos os tempos, entretanto, desse total de eleitores, aproximadamente 20,5 milhões não são obrigados a votar, são os maiores de 70 anos e as pessoas de 16 e 17 anos, ou seja, 1 em cada 7 eleitores não é obrigado a votar.  

As eleições municipais despertam muito interesse na turma de Brasília tanto que 83 deputados federais e 4 senadores entraram na disputa, apesar do ambiente ser favorável à reeleição dos prefeitos. Porém, nunca se tem como certa nenhuma movimentação no tabuleiro político eleitoral antes das eleições, com exceção do jovem prefeito de Recife, João Campos (PSB) que é, segundo pesquisas, o único candidato de capital com vitória assegurada no primeiro turno. O candidato tem 67% das intenções de votos. Em Mato Grosso, Kalil Baracat, prefeito de Várzea Grande tem a excelente pontuação de 57,9% das intenções de votos.

Dia 16 de setembro passado, 20 dias antes do 1º turno das eleições foi o prazo estipulado para que todos os pedidos de registro de candidaturas estivessem julgados e as decisões publicadas. Para quem efetivamente pretende ser candidato é necessário que não incida em nenhuma das cláusulas de inelegibilidade, que entre as causas mais comuns tem-se a ausência da quitação eleitoral, desincompatibilização de cargos nas datas previstas em lei ou incidência nas cláusulas da Lei da Ficha Limpa, que veta candidaturas de pessoas condenadas por determinados crimes ou improbidade administrativa, que por exemplo, impossibilitou a candidatura do Presidente Lula em 2018, no caso do tríplex e Fernando Haddad, à época, assumiu a candidatura. O ex-presidente Bolsonaro está inelegível por 8 anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, inclusive oficial, para divulgar informações falsas sobre o processo eleitoral brasileiro.

O combate a desinformação é prioridade para a Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral coloca à disposição do eleitor várias formas de denunciar as propagandas e campanhas irregulares, por exemplo, o aplicativo Pardal. Para denunciar especificamente a disseminação de notícias falsas, pode-se acionar o Sistema de Alerta de Desinformação Eleitoral – SIADE ou o SOS Voto, pelo telefone 1491. Em caso de dúvida se a informação divulgada pelo candidato é verdadeira ou falsa, recorra ao Fato ou Boato na capa do site do TSE, que faz conferência das informações e fontes das mesmas.

A Ministra Cármen Lúcia, Presidente do TSE disse que o voto é compromisso de esperança que se põe na urna para guardar a Democracia que construímos juntos, com todas as diferenças que nos fazem plurais na unidade que é o Brasil.

Os influenciadores e a falta de conecção com a realidade

Os influenciadores digitais são pessoas que criam conteúdo para a internet com o objetivo de atrair um grande público para o consumo, para fazer crescer o seu poder de influência nas decisões de compra e comportamentos dos seguidores que acumula.  Eles sempre existiram, mas nos últimos anos o termo influenciador se tornou uma indústria lucrativa e uma opção de trabalho. Anteriormente, as celebridades, sobretudo atores e atrizes famosos eram considerados influenciadores com status e credibilidade, no entanto, há alguns anos isso se tornou possível para o indivíduo comum com acesso da tecnologia.

No momento dois influenciadores estão nas mídias tradicionais brasileiras. Um se vendendo como candidato a prefeito da maior cidade de país, autodeclarando-se uma pessoa extremamente rica, que sabe falar com os nobres e com os otários e enriqueceu conduzindo sua vida entre três ingênuos pilares: “o primeiro passo é fechar a escassez. Depois, ter abundância e o terceiro é o transbordo, o momento em que estamos tão cheios de abundância, que estamos vazando por cima. 

Sobre a influenciadora, uma advogada que diz em bom som que gosta “de advogar para bandido, para a gente que faz coisas erradas e que está ‘noiado’”, está presa há uma semana, acusada de criar um site de apostas para lavar dinheiro de jogos ilegais, exibia-se a bordo de um jato particular e uma McLaren roxa. Repousa agora, nas dependências da Colônia Penal Feminina de Buíque, no Agreste de Pernambuco.

Os influenciadores podem ser encontrados praticamente em todos os setores, desde resenhas de livros, esportes, blogs de moda, alimentação, e seu conhecimento e compreensão de seu nicho os colocam em uma posição de poder e autoridade no mundo digital. Segundo pesquisa do instituto de Marketing Digital, 70% dos jovens confiam mais nos influenciadores do que nas celebridades tradicionais. Com tantos fãs sintonizando seus conteúdos diariamente, os influenciadores se tornaram uma ferramenta de marketing digital muito poderosa, superando os métodos de publicidades tradicionais.

Muitos influenciadores listados no Brasil, não influenciam em coisa alguma, apenas tem número elevado de seguidores, expõem detalhes de suas vidas privadas, para gerar grande engajamento. Entre os 24 maiores influenciadores globais do Instagram 2024, nenhum jornalista, nenhum escritor, nenhum grande ator ou atriz, nenhum jornal.  

A questão resvala na confiabilidade e autenticidade. Falta profissionalismo a muitos influenciadores, como a qualquer outro profissional. E o que pode ser percebido, é que a grande maioria prioriza seus extravagantes ganhos pessoais em vez de manter uma conexão honesta com seu público e com as marcas e as ideias que representam. Alguns influenciadores se concentram apenas em aumentar seu número de seguidores, o que é ligeiramente relacionado ao faturamento, sem dedicar atenção à construção de conexões significativas ou ao envolvimento com o seu público. A verdade é que muitos influenciadores não possuem ética, tampouco compartilham uma visão de mundo realista.

Em tempo de eleições, o universo digital está povoado de influencer político. Na política, o meio de comunicação tradicional ainda é a principal fonte de informação, por enquanto, porque os influenciadores focados na política estão agindo, tentando promover mudanças nas intenções de votos junto aos utilizadores das redes sociais que se sentem atraídos por opiniões de influenciadores. No ano passado, bons nomes da imprensa e do meio artístico foram reconhecidos e premiados como influenciadores de debates políticos.

O mundo avança imperfeito e perigoso

Em novembro de 2020, a polícia francesa intimou um casal para prestar depoimento. O homem estava sendo acusado por um segurança haver tirado fotos debaixo das saias de algumas mulheres no supermercado onde ele trabalhava, três meses atrás. Mas porque a mulher havia sido intimada a acompanhar o marido? Porque durante as investigações do caso a polícia encontrou um arquivo titulado “abusos” em um drive USB conectado ao computador do marido, que continha 20 mil imagens e filmes da esposa sendo sistematicamente estuprada pelo marido e por outros homens que ele recrutava.

A mulher era drogada até a inconsciência. Ela disse que mal se reconheceu nas imagens, mas o marido estava presente em todas os filmes e fotos dos estupros reiterados, cometidos contra seu corpo inerte. O inferno durou dez anos, a mulher se chama Gisèle Pelicot, tem 71 anos e nesta semana compareceu ao tribunal, onde renunciou ao direito ao anonimato, para que julgamento de seus algozes fosse realizado em público, para encarar 51 dos seus agressores, incluindo o ex-marido, no início dos julgamentos.

Parece tenso e desnecessário detalhar o caso? Não. Não podemos e não devemos escamotear a atrocidade cometida contra essa mulher que fora sacrificada em nome da perversão e da crueldade. Casada com Dominique Pelicot por quase 50 anos, várias vezes esteve doente, contaminada com doenças sexualmente transmissíveis, episódios de perda de memória, perda de peso. Destruída ouviu o marido confessar o crime e admitir ter recrutado mais de 100 homens ao longo dos anos para a violarem. O casal tem três filhos adultos, que estarrecidos acompanham a mãe no julgamento, onde ouviram o pai afirmar: “Eu a colocava para dormir, oferecia-a numa sala bate-papo adulto e filmava tudo”.

O mundo continua sendo uma terra hostil para as mulheres e essa semana, chocou-me o nível da perversidade do crime praticado contra a atleta olímpica de Uganda, Rebecca Cheptegei, que competiu na França mês passado, cujo namorado, queniano, num ato covarde de desmedida violência cobriu-lhe o corpo com gasolina e ateou fogo. Sexta-feira (6), na cidade de Jaciara um homem assassinou a tiros a ex-mulher na frente dos filhos, arrastou o corpo até a casa do namorado dela e o matou. Juntou os dois corpos e ateou fogo. Vês? A modalidade da perversidade é mesma no Quênia e em Mato Grosso.

A observação da multiplicidade das formas de violência, o espaço de tempo que sequer existe entre uma crueldade e outra geram desgaste emocional profundo nas mulheres. Há medo de romper, medo de falar, medo de ser desqualificada e julgada.

Não está fácil romper o ciclo da violência contra a mulher porque os agressores permeiam todos os espaços da vida social e familiar, porque os agressores também frequentam espaços onde se debate os direitos e liberdades da mulher, porque estamos debatendo o tema em ambientes majoritariamente repletos de mulheres e não são as mulheres que torturam, que ateiam fogo e que assediam. É de uma tristeza indescritível ver o Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Silvio Almeida ser demitido do cargo e sair pela porta do fundo, com reputação maculada com diversas acusações de assédio sexual.

Pelo que se lê, o ex-ministro deveria ter sido demitido há meses. Não se pode relativizar, ignorar a gravidade das denúncias numa questão tão delicada. E de só haver denúncias, mesmo antes de serem investigadas, já deveria ter sido afastado para produzir sua defesa com seus próprios meios, sem o uso da máquina pública. Aqui não cabe protecionismo por ser o acusado um homem negro. A luta é denunciar, cobrar punição pelos crimes cometidos contra as mulheres por homens de qualquer raça, credo ou posição social. 

Os cabos eleitorais com bom trabalho de base

Somos atraídos por políticos que nos inspiram e são bons em comunicar no que acreditam, porém, há uma leva de candidatos sem perfil, sem conteúdo, sem empatia e sem conexão com o eleitor, sem pautas prioritárias tentando conseguir votos para serem eleitos. Campanhas há certo tempo têm ligação muito intrínseca com as redes sociais, que devidamente impulsionadas podem proporcionar ao candidato, com ou sem conteúdo, uma visibilidade enorme.

Após duas semanas, vencidas as limitações da lei eleitoral, as dificuldades burocráticas e de planejamento, os candidatos estão nas ruas com adesivaço, bandeiraço, reuniões filtradas nas residências de apoiadores nos bairros mais distantes do centro de Cuiabá, tentando exibir campanhas volumosas. Liguei para um amigo, liderança importante no movimento comunitário e ouvi dele a confirmação de um comportamento que observo; os voluntários de campanha, fora do grupo familiar e de amigos, são pouquíssimos.

Me disse o líder comunitário que as mesmas pessoas frequentam reuniões de vários candidatos que disputam a vereador até que sejam contratadas como cabo eleitoral por um ou outro. É um engano crer que estas pessoas desenvolvam vínculo com o candidato e suas bandeiras. Quando surgiram os cabos eleitorais eram normalmente militantes dos partidos dos candidatos, hoje, considerados ultrapassados, a grande maioria são contratados, remunerados ou não e quase nunca tem ligação com a militância do partido e atuam na faixa intermediária fazendo a conexão entre o candidato e a população, grande parte, sem conhecimento das regras eleitorais, da linha ideológica do partido e do candidato para quem pede votos. Praticamente apenas o cabo eleitoral com bom trabalho de base em um bairro importante, abre portas para o candidato.  

Certa vez li uma entrevista com ex-governador de Rondônia e senador, Confúcio Moura, onde ele dizia: “sua campanha política inicia no dia que você nasce e vai crescendo a cada passo, de acordo com os sentimentos e ações que permeiam seu crescimento pessoal e sua posição política, que a eleição se ganha muito antes do pleito, com ações sociais, participando de reuniões em organizações de bairro.”

O passado do político tem que ajudá-lo a neutralizar a tempestade ininterrupta de ´fake news´, a falta de afinidade de muitos colaboradores que sequer conseguem repetir meia dúzia de propostas do candidato. A conquista do espaço eleitoral tem que refletir a identidade do candidato, porém, o tempo exíguo joga para as mídias sociais ou pessoas desqualificadas o papel de divulgar e promover as ações da campanha. Marcelo Vitorino, em artigo recente e direcionado a eleição municipal, disse que não adianta correr desordenadamente, queimando etapas, querendo estar em todos os lugares, sem antes sensibilizar e motivar o eleitor com suas propostas. A pressa é inimiga da vitória, ensina Vitorino.

Sexta-feira passada iniciou o horário político nos meios de comunicação tradicional e agora candidatas e candidatos aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador podem realizar propaganda eleitoral nas ruas, na internet e no horário eleitoral gratuito. Meios para se tornar conhecido tem, a propaganda eleitoral é uma ferramenta fundamental que permite que os candidatos apresentem suas propostas e ideias à população. Aí reside o problema!

Os vários níveis da participação política

Reclamações sobre a perda de interesse pela política são ouvidas por toda parte. Depois ouve-se o discurso sobre a crise de representação de inúmeras categorias. Em muitos casos a sub-representação deriva da não participação. Seria possível esquecer a política?

A política, antes, é o mundo que emerge entre nós, o mundo que emerge através das nossas interações uns com os outros, ou através das formas como as nossas ações e perspectivas individuais são agregadas em coletividades, embora alguns cientistas políticos a definam simplesmente como o exercício do poder, o poder como influência sobre as ações de outro, poder de moldar agendas e preferências políticas, ou como foi definida pelo cientista político Harold Lasswell: a política trata de “quem recebe o quê, quando e como”.

Faz realmente diferença em nossas vidas escolhermos quem nos governa. Benjamin Constant no livro Escritos de política disse ser a democracia a autoridade depositada nas mãos de todos. Os cidadãos possuem direitos individuais que estão acima da autoridade que os governa, como a liberdade individual, liberdade de opinião e liberdade religiosa. Para alguns, o critério central de uma democracia é o poder dos cidadãos escolherem o seu governo através de eleições competitivas; para outros, este fator é menos importante do que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos na obtenção de posições de liderança política; para outros, estes dois critérios perdem a importância se a participação efetiva dos cidadãos nos vários níveis da vida política não for alcançada.

Chega da visão fatalista de que não temos escolhas reais a fazer na política. Um voto não elege diretamente o prefeito, o vereador, mas se o seu voto se juntar a um número considerável de outros, o seu voto será sem dúvida importante no resultado eleitoral final. Todos podemos empreender ações para influenciar diretamente o envolvimento político através das instituições eleitorais. Precisamos nos envolver não apenas por causa dos ideais sublimes da democracia, mas porque é nossa responsabilidade como cidadãos. Devemos prestar mais atenção na verdade, nas propostas porque, gostemos ou não de política, os políticos serão eleitos, irão cobrar impostos e definir novas as regras que afetarão a vida de todos.

Precisamos ler, estudar para entender a efervescência singular da movimentação política, afinal recai sobre o mês de agosto a expectativa dos registros de candidaturas, acesso aos recursos do fundo partidário, abertura de contas, confecção de material visual, gravações decepção com aliados, rasteira partidária. Agosto parece não ter fim!

As pessoas normais não são especialistas na maioria das questões políticas, mas entendem bem as grandes divisões nas posições políticas de progressistas e conservadores, as redes sociais e a proliferação de canais de mídia através da Internet e da TV desempenharam um papel importante, permitindo que as pessoas se comunicassem com pessoas como elas, sem perder o olhar para os que pensam diferente. Ou seja, as pessoas estão gravitando nos espaços dos seus iguais, mas estão lendo sobre os outros candidatos também. Como li dias atrás, numa estratégia de cima para baixo, os partidos estão espalhando combustível dentro de seus campos, promovendo a divisão entre os candidatos em busca de assegurar crescimento das bancadas.

O panorama cultural de uma sociedade machista

O Ministério das Mulheres lançou a campanha “Feminicídio Zero – Nenhuma violência contra a mulher deve ser tolerada”  na comemoração dos 18 anos da Lei Maria da Penha (Lei 11.340), no momento em que não se pode negar o aumento nos casos de violência contra a mulher. O número 180, em que o governo federal recebe denúncias, registrou um aumento de 30% nos atendimentos de 2022 a 2023 e o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, aponta que todas as formas de violência contra a mulher aumentaram em 2023.

O senador Paulo Paim, presidente por aclamação da Comissão de Direitos Humanos do Senado, propõe uma revisão da Lei, dizendo que país não pode mais se calar diante desse cenário de violência, ódio e opressão contra a mulher. Um cenário de machismo, misoginia, preconceito, discriminação. A senadora Leila Barros, de acordo com a Agência Senado, acaba de relatar a lei que destina 5% do Fundo Nacional de Segurança Pública ao enfrentamento da violência contra a mulher. Leila está trabalhando, junto às Bancadas Femininas da Câmara e do Senado, para propor melhorias na lei.

A lei Maria da Penha cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, prevê a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.  Estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Ao longo dos anos a Lei recebeu algumas modificações e é considerada um divisor de águas na forma como o Brasil encara e pune os casos de violência contra a mulher.

Esta lei homenageia Maria da Penha, uma mulher que foi protagonista de um caso terrível de violência doméstica e familiar, sofreu duas tentativas de homicídio pelo ex-marido Marco Antônio Heredia Viveros, em 1983. A primeira tentativa foi com arma de fogo e a segunda por eletrocussão e afogamento. As tentativas de homicídio resultaram em danos irreversíveis à sua saúde. Sobrevivente, paraplégica, transformou sua tragédia e dor em luta e solidariedade. Tardou em cobrar a justiça, somente 19 anos depois, viu seu agressor ser condenado a seis anos de prisão, cumprindo apenas um terço da pena.

Por mais que tenha sido um divisor de águas no despertar para o problema da violência doméstica, por mais que vislumbre ações de acolhimento às mulheres vítimas de violência, por mais que tenha sido uma lei elaborada por muitas mãos, um grupo de trabalho com entidades civis, poder executivo, parlamentares, que entre tantas informações, trouxe o caso da Sra Maria da Penha Maia Fernandes, os homens não captaram a mensagem, tampouco se intimidaram com o recrudescimento da punição e segundo uma pesquisa feito pelo Senado Federal, poucas mulheres brasileiras, (apenas 24%) conhecem o teor e a abrangência da lei.

Nas páginas do Instituto Maria da Penha li que vivemos ainda sob o signo da cultura da violência e discriminação, peças que compõem o panorama cultural de uma sociedade que legitima, banaliza, promove e silencia diante da violência contra a mulher. Especificamente sobre a violência doméstica, é citado um estudo da psicóloga americana Lenore Walker, que identificou o ciclo da violência ocorre em três estágios sombrios e perceptíveis.

Aumento da tensão – Nesse primeiro momento, o agressor mostra-se tenso e irritado por coisas insignificantes, chegando a ter acessos de raiva. Ele humilha a vítima, faz ameaças e destrói objetos.

Ato de violência – Esta fase corresponde à explosão do agressor, a falta de controle chega ao limite e leva ao ato violento. A tensão acumulada se materializa em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial.

Arrependimento e comportamento carinhoso – Fase conhecida como “lua de mel”, e se caracteriza pelo arrependimento do agressor, que se torna amável para conseguir a reconciliação. A mulher se sente confusa e pressionada. Mas precisa ser encorajada a quebrar o ciclo o quanto antes.

O lugar mais alto do pódio é para todos os tipos de corpos

Quando você pensar em fazer um comentário preconceituoso, racista, pensa bem e não o faça. Acompanhando as notícias sobre os jogos Olímpicos, deparei-me com pessoas preocupadas, fazendo ironia comparando o desempenho maravilhoso da ginasta número 1 do mundo, Simone Biles e seu cabelo desalinhado nas apresentações. Todos os comentários que li são de mulheres. O conjunto que a ginasta põe diante dos nossos olhos para julgamentos, é seu corpo como instrumento de realizações incríveis na barra, no solo e no salto.

Criticar o cabelo de uma mulher negra aplaudida efusivamente pelo mundo inteiro não faz sentido.

Nem todas as atletas têm cara e corpo de atleta, segundo o imaginário popular. Criticada também nas mídias Beatriz Souza, a única medalhista de ouro do Brasil até o momento, uma mulher negra que não permitiu que seu corpo fora dos padrões estabelecidos a afastasse do universo das artes marciais. Pesando 135 quilos, é a única brasileira a conquistar uma medalha de ouro em competições individuais em sua estreia nos Jogos Olímpicos e deixa cravado uma mensagem de que o esporte e o mais alto lugar no pódio é para todos os tipos de corpos.

Os telespectadores dos Jogos assistiram o futebol e o hino argentino serem vaiados em Paris, numa retaliação as atitudes racistas, atravessadas de xenofobia exibidas pelos argentinos no final da Copa América, dias antes de começar as Olimpíadas, com insultos aos jogadores negros, filhos de migrantes que atuam na seleção francesa; “ Escute, rola a bola/ jogam na França, mas são todos de Angola/que bom que eles vão correr/ a mãe deles é nigeriana e o pai camaronês/mas no passaporte: francês”.

Numa expressão corajosa, diante de pessoas que mal sabem a localização da República Democrática do Congo, a boxeadora Marcelat Sakobi levou dois dedos às têmporas, simulando uma execução e a outra mão, calando-lhe a boca, denunciando a violência dos conflitos armados que até o ano passado, deixou 7 milhões de pessoas desabrigadas no país.  

Os Jogos de Paris estão sendo aclamados como as Olimpíadas da igualdade de gênero. O Comitê Olímpico Internacional divulgou que este ano alcançou a plena paridade de gênero, o que define o estabelecimento de uma cota para distribuir vagas igualmente para atletas femininos e masculinos. Os eventos desportivos internacionais progrediram significativamente, em comparação com a primeira vez que as mulheres competiram nos Jogos modernos em 1900.

Mesmo assim, os estereótipos de gênero persistem: um dia após o início dos Jogos, um comentador do canal Eurosport fez uma observação sexista sobre a equipe   de natação australiana que tinha acabado de garantir uma medalha de ouro, a emissora anunciou o desligamento do repórter dos Jogos Olímpicos.

No dia seguinte, um funcionário do COI, alertou as emissoras contra observações e imagens que remetem a vestígios sexistas de atletas femininas, como por exemplo, a forma que as câmeras enquadram os corpos de atletas homens e mulheres.

Problemas sempre vão existir onde se reúnem pessoas de culturas distintas, porém, julgamentos, ironias, xingamentos racistas tem a mesma conotação negativa em toda parte do mundo e devem ser evitados.

Os impactos do isolamento social

Robert Putnam é um cientista político americano da Universidade de Harvard, tem 83 anos. No ano 2000 ele escreveu o livro “Bowling Alone: ​​​​The Collapse and Revival of American Community”, no qual demonstrou com dados abundantes que a América estava de tornando uma nação de pessoas solitárias, que se esquivavam de se associar a organizações sociais, religiosas e políticas, por razões, entre outras, a perda de confiança nos outros indivíduos e nas instituições. O trabalho de Putnam atraiu a atenção da Academia, dos políticos e inclusive do presidente Bill Clinton, que na época, o convidou para uma reunião na Casa Branca. Comprei a edição atualizada do livro em inglês, onde Putnam observa que a nação se tornou mais dividida, mais solitária e menos confiante quanto ao caminho a seguir desde que escreveu o livro.  Ele alerta que o advento do isolamento social repercute em toda América e que as coisas só pioram.

O trabalho publicado no livro é sobre o poder das conexões, das intromissões nas coisas públicas, as críticas, o posicionamento firme diante de fatos públicos, dos escritos, colaboração em projetos sociais, políticos ou religiosos. Uma consequência marcante do declínio das conexões é a desconfiança generalizada do povo nas suas instituições democráticas. Putnam não considerou este problema limitado à esfera política. A incapacidade de as pessoas se conectarem com amigos, familiares e associações profissionais tem impacto na saúde, produtividade e melhoria nos serviços públicos.

Lembra Putnam que o voto é, de longe, a forma mais comum de atividade política, porém, votar não é necessariamente o único modo de participação política. Na verdade, se não estivermos engajados em um projeto, se não entendermos como de desenrola o processo político, quem está no controle dos partidos, quem são e o que pensam nossos representantes, estamos caminhando de encontro a um fato complexo e sem volta; a perda maciça de capital social, um vocabulário usado para definir as fortes relações comunitárias e a confiança mútua entre indivíduos, confiança na sociedade e no governo.

O debate poderoso vindo de todas as divisões da comunidade para ensinar e ampliar nossa identidade e reciprocidade está se diluindo ano após ano e 24 anos depois da publicação do livro, o que vê são partidos políticos financiadores de campanhas bem-organizadas e profissionalizadas. A comercialização das campanhas acaba produzindo contatos aleatórios em grupos de mídias sociais e o declínio do envolvimento do cidadão com o voto é perfeitamente compreensível no sentido de que a participação política tem sido paga e quanto mais nossas atividades dependem das ações dos outros, maior será a possibilidade de desistirmos e essa mentalidade impera em todos os níveis da hierarquia educacional.

As transformações sociais são inevitáveis e o estudo aponta que o isolamento social atinge todos as faces da nossa vida, em toda a América, embora saibamos que a solidão faz mal à saúde, nos torna vulneráveis aos apelos de argumentações nacionalistas e lembra Putnam que os recrutas fervorosos para o Partido Nazista na década de 1930, eram jovens alemães solitários.

Precisamos construir laços com pessoas diferentes, de geração diferente, de ponto de vista diverso, porque a vida não é vivida numa simples dimensão nem esperamos que tudo mude na mesma direção e intensidade, mas essas anomalias (solidão, diluição do capital social) nos dão pistas importantes do que pode estar acontecendo. Não vamos resolver a polarização, a desigualdade, o isolamento social até que, antes de tudo, comecemos a sentir que temos a obrigação de cuidar das outras pessoas. Somente conectando-nos com outros é que generalizamos nossas experiências.

Em entrevista, Putnam lamenta ter trabalhado durante a maior parte da vida acadêmica, alertando e demonstrando cientificamente a necessidade de se construir uma vida comunitária melhor, mais produtiva, mais igualitária e mais conectada, porém, aos 83 anos olha para trás e sente-se pessimista quanto ao futuro, essencialmente porque as pessoas não parecem dispostas a conviver, a juntar-se em projetos de pessoas que ameaçam suas próprias ambições.