A confiança na política não deve ser fé cega

2024 foi um ano marcante para as eleições, cerca da metade da população do mundo foi às urnas em 76 países, o maior número já registado. Também acabou sendo um ano difícil para os candidatos alinharem seus discursos aos seus partidos políticos tradicionais, resistentes às mudanças e modernização de pautas. Abalados pelo aumento dos preços, divididos por questões culturais e radicalismo político, irritados com a falta de solução para os problemas estruturais de sempre nas áreas da saúde, educação e segurança, os eleitores de toda parte enviaram uma mensagem de frustração.

Muitas pessoas ainda se sentem desconectadas de lideranças maiores, dos partidos e das instituições políticas na capital do estado ou Brasília e, compartilham a crença de que os partidos e líderes do establishment estão fora de contato com os cidadãos comuns, portanto, o eleitor tentou encontrar ressonância de seus sonhos e esperanças nas lideranças locais.

2025, um ano não eleitoral, um ano silencioso que traz maior fluidez em todos os trâmites e relações da vida pública, inclusive, é o ano onde sentiremos os efeitos das mudanças que foram chanceladas nas urnas ano passado e nem sempre veremos ou ouviremos, mas certamente é o ano de avaliação dos apoios políticos e financeiros concedidos nas eleições de 2024, de avaliar propostas para mudanças de partidos, articulações e composições nacionais visando disputas próximas. Há tratativas avançadas para a construção de novas federações, fusão permanente de partidos, troca no comando nacional de partidos importantes, visando ampliar as filiações e fortalecer minimamente o vínculo de confiança entre políticos e povo.

Li o relatório do Edelman Trust Barometer, uma empresa de comunicação global que estuda há mais de 25 anos, por meio de gerenciamento de reputação, a influência da confiança da sociedade no governo, na mídia, empresas e ONGs, lançado em Londres em 25 de janeiro passado, onde o ano de 2025 foi apresentado com uma leitura política preocupante, de um fato que não é novo.

A confiança na classe política foi mencionada como um fator crítico em toda parte do globo e explorada no relacionamento entre governos e as pessoas que dependem de seus serviços. A confiança nas instituições; mídia, governo e classe política em geral, continua a diminuir e a culpa é compartilhada com as próprias pessoas que foram pesquisadas e não conseguem sequer distinguir fatos de informação falsa, um universo de pessoas que se enquadram na categoria de ativismo hostil, sobretudo nas mídias sociais. Ou seja, são pessoas que lamentam, xingam e espalham notícias falsas induzidas por líderes radicais, algoritmos e robôs. 

O relatório encontrou pessoas cautelosas com governos que não cumprem promessas e veículos de mídia que priorizam a espetacularização da notícia em vez de divulgar e esclarecer os fatos relevantes. Ao final, os estudos veem no ceticismo uma força poderosa para a responsabilização e apontam que sem desconfiança, não mantemos as instituições honestas e as democracias fortes. Ainda bem!

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na abertura dos trabalhos semana passada declarou, que 2025 é o ano preparatório para as eleições de 2026. Portanto, um ano semi eleitoral. A Ministra Carmen Lúcia, sempre com apontamentos precisos disse que trabalha “com cuidado especial para garantir ao cidadão informação correta, o ano todo, para que haja, sempre, manifestação de liberdade, não exposição manipulada de ódios e violências”.

Em ano sem eleições, as pesquisas de opinião pública relacionadas a postulantes de candidaturas podem ser livremente encomendadas e divulgadas, sem registro na Justiça Eleitoral.  A artilharia montada em 2025 pelos políticos, na construção de suas reputações pessoais e políticas está apontada para as eleições de 2026 e o TSE vigilante, espera que as mulheres em número expressivamente maior se apresentem para ocupar espaços políticos importantes e não sejam abatidas pela violência política de gênero dentro dos partidos. O TSE promete empenho rigoroso no enfrentamento às ´fakes news` para que estas, não interfiram no resultado das eleições e para impedir que a desigualdade financeira promova, como tem sido, a derrota da representatividade das minorias.

Para conviver precisamos aterrizar no mundo

Douglas Rushkoff é um autor e documentarista que estuda a autonomia humana na era digital. O teórico da mídia, escritor, colunista e acadêmico americano, professor de Teoria da Mídia e Economia Digital na City University of New York, Queens College, onde ensina, discute e questiona a tecnologia, digitalidades e humanidade em nosso tempo. Suas teorias e compreensão nos ajuda a pensar em alternativas para um futuro que possa se renovar a partir desse momento em que que os humanos estão sendo desvalorizados na era digital.

No momento, há uma verdade incômoda no alinhamento da elite do Vale do Silício com o governo de Donald Trump. As empresas estão buscando tratamento especial, influência e desregulamentação. Isso basta para ‘dominar o mundo’. O dono da Amazon, Jeff Bezos, anos atrás disse que o presidente Trump era “perigoso”, cujo comportamento poderia destruir a democracia americana. O CEO da OpenAI, Sam Altman, já comparou Trump a Adolf Hitler. Pararam com demagogia e estavam enfileirados, sorridentes na posse do presidente americano.

O contraponto e enfrentamento de Douglas Rushkoff é com a premissa do Vale do Silício de que os seres humanos são o problema e a tecnologia é a solução, por isso, induzem os humanos a agirem como algoritmos. “Eu queria escrever um livro na era digital que nos ajudasse a realmente identificar e recuperar o que torna os seres humanos especiais, criativos, peculiares, imaginativos. A tecnologia não é algo ruim por si só. O problema surge quando tentam fazer com que os humanos operem da mesma maneira previsível, rápida e automatizada, cumprindo métricas predefinidas. Aí, perdemos os benefícios do que significa ser humano”.

Quando estamos online, estamos em um mundo criado por empresas que buscam extrair tempo, valor e dados, por todos os meios possíveis. Ele diz que as plataformas, sem exceção estão lá para, armazenar nossas informações, sobretudo enquanto consumidores e mais recentemente, diante da polarização vigente em toda parte do mundo, vigiar e explorar nossos ideais políticos. Rushkoff promove uma discussão baseada em como as midas, enquanto espaço de manobra, nos afasta da realidade, da nossa individualidade e humanidade, nos colocando em padrões pré-estabelecidos de consumidores de produtos que nos empurram.

A preocupação parece ser a teoria de importantes engenheiros digitais, de que em um tempo não tão distante, computadores superinteligentes e inteligência artificial serão capazes de induzir as ações e controlar vidas humanas. Há pesquisas que provam que a humanidade e a interação humana foram drasticamente afetadas pelas mídias sociais e plataformas como Facebook, Twitter, Instagram e YouTube e as pessoas não conseguem mais se comunicar normalmente. Cientistas e sociólogos combinaram um discurso sobre o que acontece quando as mídias sociais e a Internet afetam nosso potencial de humanidade e liberdade e destacam que a humanidade ainda é um grande problema neste mundo em evolução tecnológica.

Não devemos nos divorciar dos valores, dos fluxos e refluxos que nos tornam humanos, por isso, defende a humanidade como um jogo coletivo, e a necessidade de reocuparmos a realidade, policiando para manter a soberania humana e evitar que nos tornemos escravos da era digital. Não podemos deixar de lado o mundo que conhecemos, e mergulhar na ilusão de que temos acesso à pessoas que vivem distantes de nós, porque compartilhamos conteúdos nas mídias sociais. Temo pela transformação que o mergulho profundo e sem filtro na internet, pode causar. Minha estratégia, ingênua, talvez, é permanecer o mais humana possível e resistir, na alma, a pressão das corporações, que buscam lucros gigantescos, transformando pessoas anônimas e insignificantes em fenômenos lucrativos nas redes sociais.

O conselho de Rushkoff é simples: Quando as coisas começarem a acelerar descontroladamente, “pressione pausa, faça bloqueios, denuncie e se necessário, dê um tempo off line”.

Migração – uma longa e incerta travessia

Os Estados Unidos têm a maior população de brasileiros em todo o mundo, são mais de 2 milhões e 100 mil imigrantes, entre regulares e irregulares, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores. Somente no ano passado1.648 brasileiros foram deportados a partir da entrada ilegal pela fronteira com o México. Não encontrei dados sobre o número de pessoas que entram no país de avião, com visto de turista e tentam permanecer. Desde a campanha, o presidente Donald Trump prometeu leis duras contra os imigrantes, espalhou notícias falsas sobre imigrantes haitianos, dizendo que “em Springfield, eles estão comendo cachorros. As pessoas que chegaram estão comendo gatos. Elas estão comendo os pets das pessoas que vivem aqui”.

Elegeu-se presidente e iniciou o processo de deportação dois dias após a posse. Além disso, as primeiras ordens executivas de Trump incluíram a medida para acabar com a cidadania por direito de nascença e outra medida declarando a paralisação do programa de admissão de refugiados. Basicamente, isso significa que migrantes sem documentos presos nos portos de entrada não poderão solicitar asilo e enfrentarão um processo de remoção imediata.

Mas vejamos a condição de pessoas que estão no entorno mais próximo do presidente Trump. A esposa, Melania Trump nasceu na antiga Iugoslávia, hoje, Eslovênia, trabalhou um tempo ilegalmente nos Estados Unidos, de acordo com a investigação da agência Associated Press. Portanto, Barron, o filho querido de Trump é filho de uma imigrante. O vice-presidente americano, J.D. Vance, é casado com Usha, filha de imigrantes indianos. Marco Rubio, o Secretário mais importante do governo Trump é filho de imigrantes cubanos, que chegaram nos Estados Unidos ilegalmente, sem dinheiro e sem falar uma palavra em inglês. O maior influenciador e financiador da campanha, Elon Musk é sul-africano, nasceu em Pretória, na África do Sul, migrou para o Canadá e só depois veio para os Estados Unidos. Ou seja, considerados imigrantes indesejáveis nos Estados Unidos sob Trump, são os negros e pobres de origem hispânica e brasileira.

Arnold Schwarzenegger nasceu na Áustria, é ator, ex-governador da Califórnia, republicano, rompeu com Trump por não apoiar sobretudo a política de perseguição aos imigrantes, reconhecendo-se como um deles, condição que a turma mais próxima de Donald Trump preferiu ignorar.

O indivíduo que migra, regular ou não, coloca no contexto da migração a sua autonomia e a liberdade de buscar novos lugares para construir a vida, para produzir sua própria história. Desfaz-se do drama para buscar a liberdade. Sou uma estudiosa das migrações modernas, do movimento de pessoas pelo mundo, onde cerca de 3,6% da população do mundo vive em países diferentes de onde nasceram, movidos principalmente por razões econômicas e conflitos. O tema é extremamente complexo e envolto em películas de discriminação e preconceito étnico racial.

A imigração legal, de acordo com as leis migratórias de cada país, é, em geral, um processo lento, caro, mas possível e preferível. A exigência mais elementar é que se fale o idioma, que tenha todos os documentos e certificados traduzidos oficialmente para o inglês, apresentar um fiador, ‘sponser’, de preferência que seja o empregador, endereço de moradia, comprovar com extratos bancários, renda compatível a uma vida dolarizada. Feito tudo isso, muita paciência e reza para ter o visto concedido, o que não garante uma vida sem estranhamentos e acusações de roubar empregos e onerar os serviços públicos implantados para os locais.

A imigração ilegal não é uma condição boa para o imigrante, que não consegue acesso aos serviços públicos, sobretudo, educação e saúde, vive sob a tensão de ser abordado pelas autoridades e essas condições por si, já marginaliza o imigrante, cuja maioria, se muda com o intuito de trabalhar e ajudar às famílias que permaneceram em seus países. Muitos têm curso superior, mas não têm o registro de suas profissões para trabalhar nos Estados Unidos, por isso executam trabalhos que mesmo o americano pobre se sujeita, como cuidar de crianças, lavar pratos, limpar o chão e fazer turnos na madrugada nos bares e hospitais. Não são criminosos, não comem os animaizinhos de estimação, enfrentaram dilemas e perdas ao partir, pagam aos coiotes um valor bem maior do que pagariam numa passagem aérea e se sujeitam a uma longa e incerta travessia.

Não calar nada

Escrevo livremente neste espaço do RDNews há 12 anos. Aqui, torno público e dou ênfase às minhas pesquisas, estudos sobre questões de gênero, desigualdade social, processos migratórios e política.  A sociologia me encoraja a de me expor, me aproxima de muitos, me distancia de alguns poucos, me traz reconhecimento e críticas, que aceito e utilizo no meu processo de crescimento pessoal. Neste espaço, aprendi a liberar meus textos de padrões rígidos dos artigos acadêmicos ou científicos e ganhei visibilidade como cientista social.

Após a apresentação de trabalho publicado e processo seletivo, percebo a indescritível honra de adentrar no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, uma Casa centenária, fundada pelo então presidente do Estado de Mato Grosso e Arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa e entre seus membros estão destacados sobrenomes da sociedade e da política mato-grossense, comprometidos com a prestação de um trabalho contributivo para ajudar a preservar, acompanhar e narrar a história que Mato Grosso vai construindo.

A vida, o passado, a sensação profunda de pertencimento a região do Araguaia, onde nasci, em Ponte Branca, Barra do Garças, onde morei, levou-me naturalmente a escolher como patrono um homem que viveu mais de 50 anos às margens do Rio Araguaia, o bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, um migrante, evangelizador, defensor dos direitos humanos, sobretudo dos indígenas, que foi enviado ao Brasil em plena ditadura militar. Foi ordenado bispo e marcou a data com a divulgação de uma Carta Pastoral chamada Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social, onde denunciava que indígenas e trabalhadores viviam em regime de escravidão. Pela dureza de sua escrita, dizia: “Todos temos momentos de comunicação emocionada, intensa”.

Dom Pedro sofreu perseguições políticas, ameaças de morte, que ele respondia com a linha de uma poesia sua: “Eu morrerei de pé, como as árvores. Me matarão de pé”. Os governos militares abriram vários processos de expulsão do Brasil contra Dom Pedro, porque desconfiavam do envolvimento da Prelazia e do bispo com os movimentos da Guerrilha do Araguaia. Teve, porém, em todos os momentos, a defesa vigorosa do Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Permaneceu e fortaleceu a Prelazia, que respondia por 15 municípios e fazia divisa com Pará e Tocantins. Sua voz tornou-se nacional e internacionalmente respeitada. Escreveu vários livros. Contribuiu com a criação do Conselho Indigenista Missionário, CIMI e Comissão Pastoral da Terra. Teve sua vida retratada no filme “Descalço sobre a terra vermelha” e biografia escrita pela jornalista Ana Helena Tavares, “Um bispo contra todas as cercas: a vida e as causas de Pedro Casaldáliga”.

Ao completar 75 anos apresentou, conforme a tradição, pedido de renúncia à Prelazia. Eu o conheci em 2006, morando na casa pastoral, ativo nos trabalhos religiosos e comunitários, sendo visitado, entrevistado por pessoas de várias partes do mundo. Recebeu título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, deu nome ao Campus da Unemat em Luciara. Mais tarde foi acometido pelo Mal de Parkinson. Continuou com o trabalho pastoral.

Aos 92 anos, em tratamento em Batatais-SP, nos deixou, não sem antes tratar de seu próprio sepultamento. Pediu para ser enterrado em um pequeno cemitério, onde eram sepultados os indigentes, debaixo do pé de pequi. Assim foi feito!

Viveu e morreu com o lema que perseguiu:

Não ter nada.

Não levar nada.

Não poder nada.

Não pedir nada.

E, de passagem, não matar nada, não calar nada.

Somente o Evangelho como uma faca afiada.

Onde muitos veem a obsessão pelo pessimismo, vejo a dureza da vida

Li um artigo interessante essa semana, onde um psicólogo afirma que está havendo uma obsessão coletiva pelo pessimismo, que o mundo conectado está se tornando um lugar cada vez melhor e que essa obsessão é algo deslocado da realidade.

“Eu me permito ser um pouco alegre, porque me disseram que é bom para a saúde” Voltaire, filósofo iluminista frencês. Porém, eu substituiria a palavra pessimismo por otimismo, porque observo grande parcela da população e sem exceção, todas as mídias, cobrarem e exibirem um mundo de otimismo implacável, sem verificação da realidade e até mesmo negando a existência de problemas sociais crônicos, onde estão navegando coaches, líderes espirituais e mentores, hipoteticamente habilitados, induzindo as pessoas a acreditarem que viverão o paraíso na terra e num passe de mágica terão a vida transformada em uma sucessão de vitórias fáceis. O otimismo obsessivo diante da promessa de prosperar da noite para o dia, pode cegar para as duras realidades da vida, negligenciar riscos ou até mesmo negar a existência das nossas limitações.

Não fico listando as causas do fim do mundo, falo das coisas como elas são, falo das ameaças reais, da violência crônica que persegue as mulheres todos os dias e em todos os lugares, da dificuldade de se ocupar igualmente homens e mulheres os mesmos espaços públicos, do descaso diante de problemas sociais, velhos conhecidos de todos os políticos que poderiam inverter as estatísticas, falo da cara da miséria, da pobreza de oscila entre pobreza extrema e pobreza, que para a grande maioria da população esse é o limite da ascensão social. Narro sem ânimo as cenas de racismo e preconceito, porque eles se repetem à miudamente.

O pessimismo não é irrealista. Em sua essência, o pessimismo é a expectativa de que os piores resultados são mais prováveis ​​do que os melhores. Muitos   sociólogos argumentam que os humanos têm uma predisposição evolutiva para se concentrar em perigos e ameaças, pois essa sensibilidade foi historicamente vital para a nossa sobrevivência.  

No mundo digitalmente conectado, as mídias se encarregam de pesar a mão, e as formas como o pessimismo se manifesta é amplificada por algoritmos que priorizam más notícias, reforçando a percepção de que tudo está desmoronando e o otimismo exagerado pode desviar o foco das perspectivas reais de derrota, pode levar a ignorar riscos e envolver-se numa teia de ilusões. A verdade é que o mundo é cheio de desafios e perigos perpétuos, os problemas são tão vastos e complexos e não há um engajamento coletivo para resolvê-los, a perpetuação da desigualdade social, da violência, da reação significativa da natureza à sua destruição, tem consequências profundas na vida do otimista e do pessimista.  

Sejamos a razão. Tomando os últimos dias como exemplo, a narrativa é tensa e carregada, mas vamos relembrar o mínimo: O rateio aleatório de dinheiro público para servidores no Natal, época em que a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para o pão e presente para os filhos; criança sendo vítima de abuso de homem predador em local público, mulher amarrada, jogada ao Rio para morrer em agonia. Longe daqui, mas no mesmo planeta que habitamos, o fogo impiedoso arde e destrói uma cidade inteira. O que tem de novo nestas manchetes? Pessimismo? Não. As cenas são brutalmente reais, ainda assim, o sonho e a esperança operam diante de casos que cortam como uma navalha.  

Como suas escolhas definem seu futuro

Viver, como disse o filósofo e escritor francês Jean Paul Sartre, é isto: ficar se equilibrando o tempo todo entre escolhas e consequências. Temos que parar de colocar a culpa do que não conseguimos realizar no destino, na pouca fé e lembrar que tudo acontece como consequência das nossas escolhas, algumas equivocadas, de outras nos arrependeremos, outras nos orgulharemos e ainda algumas nos assombrarão para sempre.

O psiquiatra e psicanalista suíço Carl Jung disse uma vez: “Eu não sou o que aconteceu comigo, eu sou o que eu escolho me tornar”. Esta citação poderosa captura a essência da resiliência humana e o poder da escolha pessoal, enfatiza que nossas identidades não são gravadas em pedra por nossas experiências passadas, mas sim, são continuamente moldadas pelas decisões tomamos todos os dias. Esta citação serve como um lembrete que o passado, embora significativo é apenas um capítulo da vida, que embora possa nos moldar não nos definem na totalidade.

Dezembro e janeiro são meses que nos inspiram a exteriorizar as resoluções, promessas significativas de crescimento emocional, econômico, físico ou mental. Parece impossível chegar à passagem do ano sem idealizar como queremos que seja o novo ano. Como indivíduos, nos esforçamos para melhorar, mudar, ou de alguma forma alcançar aquilo que percebemos que nos falta. Nossa sociedade impiedosa, grita sobre as evidências do que nos falta: não somos bonitos o suficiente, ricos o suficiente, magros o suficiente, ambiciosos o suficiente, felizes o suficiente. No próximo momento já estamos traçando metas, corrigindo a rota para alcançarmos sucesso nessa sociedade que é rápida em rotular e categorizar o indivíduo com base em seu passado. 

Pois bem, em Sartre e Carl Jung, nossas escolhas são o acúmulo de decisões que tomamos, das ações, atitudes e crenças diárias. Todos os dias, fazemos escolhas e na grande tapeçaria da vida, cada fio conta para o crescimento e evolução pessoal ou não. Somos criaturas dinâmicas, em constante evolução e ao traçar metas assumimos a total responsabilidade pela realização delas, diante da maneira como enfrentamos os desafios, abraçamos as oportunidades e aprendemos com experiências decorrentes de nossas decisões. A filosofia pela qual nossas decisões definem nossas vidas se apresenta como uma perspectiva fortalecedora. Ela incentiva uma abordagem proativa à vida, nos incentiva ir além dos limites das forças externas e participar ativamente da criação ou reformulação do nosso destino.  

Na vida, tomamos decisões diariamente. Decisões relativamente fáceis, baseadas na tradição, no costume, na religião, mas as vezes, uma situação inesperada surge e exige que tomemos uma decisão diante de um cenário novo. Como você decide então?  Como você segue em frente? Como você decide o que fazer para atender aos seus melhores interesses? A filosofia e os estudos ensinam só nós podemos agir por nós mesmos, mas não existimos sozinhos. Haverá muitas pessoas ao seu redor lhe dando os “melhores” conselhos com as mais sinceras intenções. Alguns realmente parecem se importar com você.

É muita pressão! Há pessoas que nos influenciam e há pessoas que querem controlar nosso destino. Quem você escuta?

A maneira como você termina o ano é como o ano novo começa

Uma pluralidade de especialistas solicitados a conceituar como será a vida em 2025 acredita que mudanças sociais radicais tornarão a vida pior para a maioria das pessoas, à medida que maior desigualdade, crescente autoritarismo e desinformação desenfreada se instalam no horizonte do novo ano. A visão quase geral é que o relacionamento das pessoas com a tecnologia se aprofundará à medida que segmentos maiores da população dependerão mais de conexões digitais para trabalho, educação, assistência médica, transações comerciais e interações sociais essenciais. Isso foi descrito como um mundo “tele-tudo”. Eles escreveram sobre mudanças que podem reconfigurar realidades fundamentais, como a presença física das pessoas com outras e as concepções das pessoas sobre confiança, verdade e doenças.

O homem, que desde o princípio está condenado a existir fisicamente com outros homens e compartilhar com eles o mundo natural, não assimilou o rompimento dessa relação física e a saúde mental das pessoas já está sendo desafiada com esses processos de distanciamento promovido pela vida digital, que era muito estressante durante o isolamento social causado pela pandemia. Controlada a pandemia, o hábito do distanciamento e da vivência online foram incorporados ao nosso sistema de vida social, o tele-tudo porém, diminuirá mais ainda o contato pessoal e as conexões sociais.

A sobrecarga à saúde mental vem da disseminação de informações falsas, a manipulação aparentemente imparável da percepção, emoção e ação pública por meio de desinformação online, das mentiras e discurso de ódio deliberadamente engatilhados para propagar preconceitos e medos destrutivos, causarão danos significativos na formulação de raciocínio baseados em evidências. A desinformação será desenfreada: A propaganda digital é imparável, causa danos e é de rápida propagação e não há como reparar a reputação ou a mente atingida.

Enfim, o melhor e o pior da natureza humana tendem a ser amplificado em 2025. Todos os vivos hoje estão sob vigilância persistente de uma série de tecnologias, e as empresas de tecnologia não precisam mais de câmeras, de sinais de Wi-Fi a fios de cabelo, é possível reconhecer o indivíduo, sem passar por escaneamentos faciais. Dá medo!

A mesma conexão digital que gera empatia, traz conscientização sobre os males que a humanidade enfrenta e reação pública positiva às denúncias, acaba também sendo espaço impiedoso para declarações xenofóbicas, intolerantes e isso fará crescer as comunidades fechadas e polarizadas, que gravitam em torno de si mesmas, alimentando falsas crenças e sem liberdade para pensar e divergir. Aqui, o que critico é a rede de dependência do indivíduo à uma multidão, como uma necessidade social de pertencer a determinado grupo, em vez de viver imperturbável sua libertação.

Marcel Fafchamps, professor de economia e membro sênior do Centro de Democracia, Desenvolvimento e Estado de Direito da Universidade de Stanford, comentou sobre a ampliação da desigualdade e injustiça caracterizadas pela mudança da privacidade e inserção de ferramentas de tecnologias para controlar sem ética alguma a vida das pessoas, incluindo aplicativos de telefone que identificam ​​interações sociais e localizam as pessoas. Essas ferramentas, já são usadas por regimes totalitários para controlar melhor a população e como resultado, a democracia entrará na defensiva e sua disseminação poderá ser revertida em muitas partes do mundo e as próprias democracias infringirão mais as liberdades civis entrando em uma era pós-democrática.

Enfim, seja livre para ler, abstrair, crer ou divergir sobre a sensação que estudiosos tem do que nos consigna o ano que se aproxima.

Nossa realidade é ideológica

Slavoj Zizek é um filósofo e intelectual, nascido em uma cidade na antiga Iugoslávia, hoje parte da Eslovênia, com publicações interessantes sobre política, psicanálise e ideologia, sendo quase um conceito central em seus escritos. Zizek critica as teorias que definem ideologia como um sistema de crença que nos cega perseguindo o poder e a dominação, diz que não é possível viver sem ideologia.  

Assim, também em Zizek, a ideologia não é um sonho, uma ilusão que nós construímos para fugir de uma realidade insuportável. A função da ideologia não é nos oferecer um plano de fuga da realidade, mas ser um suporte para enfrentarmos e mudarmos a realidade. O que chamamos de realidade é extremamente ideológico e como Zizek coloca, a fantasia também está do lado da realidade.  

Para Zizek, a ideologia é a nossa realidade e não temos como escapar dela. A ideologia não é um fenômeno marginal utilizado para controlar as massas descontentes; não é apenas uma mera estratégia de poder, não é simplesmente uma falsa consciência, uma representação ilusória da realidade, mas sim, a realidade que não é imposta a nós. As ideologias nos oferecem maneiras de dar sentido ao que vivenciamos na sociedade e ajudam a ordenar nossos valores porque são forças poderosas que moldam as sociedades e tem o poder de motivar as pessoas a agir.

A ideologia, no caminho percorrido filosoficamente por Zizek, que inclui análises de Marx, Lacan, Hegel e outros, para exemplificar que no passado as relações entre as pessoas eram mediadas por uma teia de crenças ideológicas e superstições, as relações se davam entre o master e seus servos. Marx, inclusive entendia a ideologia como uma falsa consciência da relação de domínio entre as classes e vários autores pregaram o fim ou declínio da ideologia, mas estamos nós aqui, falando sobre o mal nenhum que ela traz.

Lembro que haver lido um discurso marcante do ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dizendo que as análises do mundo deveriam ser moldadas apenas pela realidade e não pela ideologia, pelas falsas crenças baseadas em como nós queremos que o mundo seja. Tony Blair, afasta a ideologia da realidade, como se a ideologia fosse algo tóxico.

Há muitas outras versões de crítica à ideologia, mas não se trata apenas de ver a realidade social como ela realmente é, de jogar fora os espetáculos distorcidos de ideologia; o ponto principal é ver como a própria realidade não pode reproduzir-se sem a mistificação ideológica. Entre estudos filosóficos profundos e discurso político, desconfio do político que critica a ideologia do adversário e cultiva a sua como se fosse a única a produzir análises sérias dos problemas do mundo.

O livro trouxe a negatividade da ideologia à discussão, alertando que o cinismo é um sintoma da própria ideologia e que o sujeito cínico é ciente da distância entre a máscara ideológica e a realidade social, mas ele ainda insiste em usar a máscara. Ele conhece muito bem a falsidade, tem plena consciência de um interesse particular oculto por trás de uma causa ideológica, mas ainda assim não renuncia a ela.

O valor da vida reside naquilo que a torna digna de ser vivida

A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em sua obra sobre o envelhecimento, disse que “nossa vida conserva um valor na medida que atribuímos valor à vida do outro, por meio do amor, da amizade, da indignação, da compaixão”. Vivendo numa sociedade competitiva, impiedosa e virtual. Mal temos tempo para nos indignar pelas injustiças que sofremos, é visível nossa indiferença com relação a vida e fatos da vida das pessoas que temos perto, na família, no trabalho, na vizinhança. Clóvis de Barros, filósofo brasileiro diz que viramos a cara e o coração imediatamente após sabermos de algum fato triste ou violência sofrida por pessoas próximas e que a compaixão é estreita porque já sofremos muito em nosso próprio nome e, por isso, nossa vida tem valido muito pouco.

Filósofos e teólogos buscaram fundamentar, de diferentes formas, o sentido e o valor da vida. A questão central aqui é a palavra valor, que no tempo contemporâneo está muito associada aos valores estabelecidos pela sociedade, pelo consumismo encorajado pela mídia, pela atenção obcecada pela aparência. Valor é com o que nos importamos. O problema é que as coisas com as quais nos importamos mudam quase todos os dias. Quando o significado distorcido de uma palavra se torna parte do uso habitual da sociedade, é muito difícil desfazer o mal-entendido.

Schopenhauer e Nietzsche numa mesma linha de pensamento nos apontam que a vida segue como vontade e desejo, e que estes são completamente cegos e insaciáveis. Mas, ao observar o outro como sendo uma manifestação igual a nós mesmos, vindos de uma mesma origem e em constante e infinito estado de interdependência, fica mais difícil de ignorá-lo.

Porque dizer que a vida humana tem um valor inestimável e que precisa ser cuidada e valorizada a qualquer custo, é repetir o senso comum. A grande questão é entender por que a vida de uma pessoa deve ser importante para o outro. Desde 2010, a ONU desenvolveu um índice para medir os valores humanos, as expectativas, sonhos e ambições da população. O Índice de Valores Humanos pesquisa a vivência das pessoas e pode orientar políticas públicas que tenham como meta o bem-estar e a qualidade de vida da população.

Somos, cada um de nós, criadores do valor que damos a nossa própria vida. O caminho que eu escolho percorrer é apenas meu, porém, cada passo que dou afeta de alguma maneira pessoas que estão ao meu redor. Posso escolher realizar mudanças positivas, vivendo com independência, cuidado, com consciência e compaixão. Como escolho adicionar valor a vida de outras pessoas depende dos valores que preservo em mim e isso deve ser trabalhado com habilidade para que eu possa valorizar a vida do outro sem resguardar a lealdade dos valores tribais nem tampouco me enebriar com a gratificação egoísta e puramente pessoal da contemporaneidade.

O amor empurra para ter, em relação ao valor da vida do outro, o mesmo respeito que você tem pelo valor da sua própria vida. O mais, seguindo o poeta Fernando Pessoa “Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias”.