Nossa realidade é ideológica

Slavoj Zizek é um filósofo e intelectual, nascido em uma cidade na antiga Iugoslávia, hoje parte da Eslovênia, com publicações interessantes sobre política, psicanálise e ideologia, sendo quase um conceito central em seus escritos. Zizek critica as teorias que definem ideologia como um sistema de crença que nos cega perseguindo o poder e a dominação, diz que não é possível viver sem ideologia.  

Assim, também em Zizek, a ideologia não é um sonho, uma ilusão que nós construímos para fugir de uma realidade insuportável. A função da ideologia não é nos oferecer um plano de fuga da realidade, mas ser um suporte para enfrentarmos e mudarmos a realidade. O que chamamos de realidade é extremamente ideológico e como Zizek coloca, a fantasia também está do lado da realidade.  

Para Zizek, a ideologia é a nossa realidade e não temos como escapar dela. A ideologia não é um fenômeno marginal utilizado para controlar as massas descontentes; não é apenas uma mera estratégia de poder, não é simplesmente uma falsa consciência, uma representação ilusória da realidade, mas sim, a realidade que não é imposta a nós. As ideologias nos oferecem maneiras de dar sentido ao que vivenciamos na sociedade e ajudam a ordenar nossos valores porque são forças poderosas que moldam as sociedades e tem o poder de motivar as pessoas a agir.

A ideologia, no caminho percorrido filosoficamente por Zizek, que inclui análises de Marx, Lacan, Hegel e outros, para exemplificar que no passado as relações entre as pessoas eram mediadas por uma teia de crenças ideológicas e superstições, as relações se davam entre o master e seus servos. Marx, inclusive entendia a ideologia como uma falsa consciência da relação de domínio entre as classes e vários autores pregaram o fim ou declínio da ideologia, mas estamos nós aqui, falando sobre o mal nenhum que ela traz.

Lembro que haver lido um discurso marcante do ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dizendo que as análises do mundo deveriam ser moldadas apenas pela realidade e não pela ideologia, pelas falsas crenças baseadas em como nós queremos que o mundo seja. Tony Blair, afasta a ideologia da realidade, como se a ideologia fosse algo tóxico.

Há muitas outras versões de crítica à ideologia, mas não se trata apenas de ver a realidade social como ela realmente é, de jogar fora os espetáculos distorcidos de ideologia; o ponto principal é ver como a própria realidade não pode reproduzir-se sem a mistificação ideológica. Entre estudos filosóficos profundos e discurso político, desconfio do político que critica a ideologia do adversário e cultiva a sua como se fosse a única a produzir análises sérias dos problemas do mundo.

O livro trouxe a negatividade da ideologia à discussão, alertando que o cinismo é um sintoma da própria ideologia e que o sujeito cínico é ciente da distância entre a máscara ideológica e a realidade social, mas ele ainda insiste em usar a máscara. Ele conhece muito bem a falsidade, tem plena consciência de um interesse particular oculto por trás de uma causa ideológica, mas ainda assim não renuncia a ela.

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