O valor da vida reside naquilo que a torna digna de ser vivida

A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em sua obra sobre o envelhecimento, disse que “nossa vida conserva um valor na medida que atribuímos valor à vida do outro, por meio do amor, da amizade, da indignação, da compaixão”. Vivendo numa sociedade competitiva, impiedosa e virtual. Mal temos tempo para nos indignar pelas injustiças que sofremos, é visível nossa indiferença com relação a vida e fatos da vida das pessoas que temos perto, na família, no trabalho, na vizinhança. Clóvis de Barros, filósofo brasileiro diz que viramos a cara e o coração imediatamente após sabermos de algum fato triste ou violência sofrida por pessoas próximas e que a compaixão é estreita porque já sofremos muito em nosso próprio nome e, por isso, nossa vida tem valido muito pouco.

Filósofos e teólogos buscaram fundamentar, de diferentes formas, o sentido e o valor da vida. A questão central aqui é a palavra valor, que no tempo contemporâneo está muito associada aos valores estabelecidos pela sociedade, pelo consumismo encorajado pela mídia, pela atenção obcecada pela aparência. Valor é com o que nos importamos. O problema é que as coisas com as quais nos importamos mudam quase todos os dias. Quando o significado distorcido de uma palavra se torna parte do uso habitual da sociedade, é muito difícil desfazer o mal-entendido.

Schopenhauer e Nietzsche numa mesma linha de pensamento nos apontam que a vida segue como vontade e desejo, e que estes são completamente cegos e insaciáveis. Mas, ao observar o outro como sendo uma manifestação igual a nós mesmos, vindos de uma mesma origem e em constante e infinito estado de interdependência, fica mais difícil de ignorá-lo.

Porque dizer que a vida humana tem um valor inestimável e que precisa ser cuidada e valorizada a qualquer custo, é repetir o senso comum. A grande questão é entender por que a vida de uma pessoa deve ser importante para o outro. Desde 2010, a ONU desenvolveu um índice para medir os valores humanos, as expectativas, sonhos e ambições da população. O Índice de Valores Humanos pesquisa a vivência das pessoas e pode orientar políticas públicas que tenham como meta o bem-estar e a qualidade de vida da população.

Somos, cada um de nós, criadores do valor que damos a nossa própria vida. O caminho que eu escolho percorrer é apenas meu, porém, cada passo que dou afeta de alguma maneira pessoas que estão ao meu redor. Posso escolher realizar mudanças positivas, vivendo com independência, cuidado, com consciência e compaixão. Como escolho adicionar valor a vida de outras pessoas depende dos valores que preservo em mim e isso deve ser trabalhado com habilidade para que eu possa valorizar a vida do outro sem resguardar a lealdade dos valores tribais nem tampouco me enebriar com a gratificação egoísta e puramente pessoal da contemporaneidade.

O amor empurra para ter, em relação ao valor da vida do outro, o mesmo respeito que você tem pelo valor da sua própria vida. O mais, seguindo o poeta Fernando Pessoa “Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias”. 

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