O inconcebível acontece com frequência

Para o filósofo e teórico político suíço, Jean-Jacques Rousseau, o homem como ser natural é um ser bom, “os homens não são naturalmente nem reis, nem grandes, nem cortesãos, nem ricos; todos nascem nus e pobres, sujeitos às misérias da vida, às tristezas, aos males, às necessidades, às dores de toda espécie; e finalmente todos estão condenados à morte. Eis o que é realmente do homem, eis o de que nenhum mortal está isento”. Para Rousseau, os homens deveriam ser forçados a ser humanos.

Pessoa em situação de rua não é anjo nem demônio, assim como nenhum de nós e não é isso que pretendo problematizar aqui. Estou falando de um assassino, de um assassinato com requinte de premeditação e banalização da dignidade e da vida humana. Ou você, numa avaliação simplista acha que matou-se o homem porque ele estava em situação de rua? Não. Matou-se um homem para saciar a sede de violência de um homem mau, que ansiava causar dor a alguém incapaz de fazer o mesmo com ele. É dito que o predador quando sai à caça, ele, covardemente atinge o alvo mais vulnerável, mas na ânsia de fazer o mal, poderia ter sido o filho de qualquer um de nós que estivesse usando a camisa da mesma cor da vítima porque o assassino não a conhecia.

Dizer que a violência faz parte do nosso processo evolutivo é uma simplificação tão exagerada quanto propagar que se romantiza a pobreza e as pessoas em situação de rua. Defender o direito à vida de uma pessoa em situação de rua não é romantizar a vida nas ruas, até porque, a cidade, não costuma ser generosa com essas pessoas. Estamos apavorados é com a convivência com o desprezível advogado e procurador que atirou, estamos atônitos com a facilidade com que o assassino, estudado, doutor, de classe social razoável transmuta de um mundo para outro, possivelmente, não pela primeira vez.

Eric Voegelin, filósofo alemão escreveu que o colapso em que se encontra o mundo é fruto da perda da consciência de experiências vitais para a ordem social e existencial. Neste quadro desolador, de deturpação dos valores surgem os homens de espíritos corrompidos, dotados de humanidade doente e desordenada, que Voegelin chama de pneumopatologia. É uma situação em que o indivíduo passa a viver uma realidade paralela, que é a ascensão das trevas: “o estúpido criminoso, não é um “psicopata”, mas algo mais profundo: ele sofre de uma doença do espírito, que acaba por enraizar-se em todo o seu ser.

Apesar de termos avançado muito como espécie e como sociedade, ainda há muitos que mantém os pés no nosso passado pré-histórico, cultivando a tendência de serem violentos e agressivos. Convencionalmente, entende-se que a violência é motivada por emoções negativas, como raiva e medo, mas há estudos que apontam que para muitos homens, a violência é uma arma poderosa e agradável de realização. E esse prazer é reforçado pelos sentimentos de poder e domínio.

Pessoa boa não mata. Homem de família? Todos os homens do mundo o são e alguns são maus e matam, a grande maioria, porém, são homens bons. O governador do estado de Mato Grosso e o presidente da Assembleia Legislativa repudiaram veementemente o crime brutal e vão acompanhar os desdobramentos legais e cobrar rigor na punição e aplicação da pena.

Nunca devemos pensar que o inconcebível não acontece. Acontece, com frequência.  

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