Quando beijares os teus, estás beijando um mortal

Como um bem supremo, tenho aprendido a distinguir o que depende de mim e o que não depende de meu esforço físico, espiritual ou mental. Tenho vivido tão ‘colada’ nesse processo de aceitação, que somente a pouco, aproximando o dia dos finados contabilizei minhas perdas mais profundas; nos últimos sete anos perdi pai, mãe e os dois irmãos mais jovens. Foram perdas que me despiram das certezas, de alguns planos, de afetos e em silêncio percebi que meu mundo encolheu. Escolhi, sem dramas, ajudar a minha alma a se recompor e viver em harmonia com o que é inevitável.

No Manual 3, Epicteto, filósofo grego diz: “Quando beijares os teus, lembra-te que estás beijando um ser mortal: assim, se um dia eles morrerem, não te perturbarás.” Não, não é sobre frieza, é a consciência da impermanência. O que depender de mim, responderei sempre com coragem e determinação, se não depender, procurarei aceitar com serenidade.

Que seja o que deve ser e que eu saiba estar em paz com isso. Se há uma ordem natural do universo ou uma razão divina para que as minhas perdas tenham ocorrido tão amiúde, creio talvez nas duas possibilidades seguindo os ensinamentos de Epicteto, para quem aceitar o destino e superar as perdas são atitudes essenciais para a libertação interior. A razão é o entendimento que meu sofrimento e minhas perdas não são maiores nem menores do que a dos outros e que a finitude a tudo atinge e o que importa não deve ser o que acontece comigo, mas a forma como reajo e supero o que surpreende.

Não somos donos do que nos é dado, apenas guardiões por um tempo imprevisto. Os que partiram antes de nós, não nos foram arrancados, a vida seguiu seu curso, essas pessoas cumpriram seus ciclos conforme uma ordem que não conhecemos. O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard refletiu em todos os seus escritos sobre a dor das perdas e a superação interior diante do sofrimento. Ele não glorifica o sofrimento, mas o entende como um momento em que ficamos diante de nós mesmos e conhecemos a verdade da existência. “A dor não é para nos destruir, mas para nos tornar mais profundos. É a beira do abismo que nossa alma desperta.”

Temos muito a aprender com a dor da perda e com o luto. Se sentires triste ao lembrar teus mortos, lembre-se que os sentimentos que estás vivendo passarão e ainda que vão e voltem, não podem durar para sempre. O texto sagrado do Budismo Tibetano, O Livro dos Mortos do Budismo é um guia espiritual que prepara para a morte, que é lido para orientar o espírito (a consciência) a alcançar a pacificação no instante da morte e escapar dos ciclos de sofrimento ao atravessar as transformações para renascer. ‘Quando o corpo adormece na morte, não há tempo, não há nomes, não há paredes, apenas a luz clara e pura até que a voz sussurra: Não temas. O que vês é o reflexo da tua mente. As imagens surgem, suaves ou terríveis, o reflexo do que você alimentou e carregou em vida: teus medos, teus amores, tuas boas ou más intenções.’

Eleva uma oração para seus mortos porque, ao final, se permanecer a luz, eles se libertarão. Se forem levados pelas sombras, terão que renascer para recomeçar o caminho.

Para quem não leu, não tem afinidade com a doutrina Budista soa estranho ler o livro do morrer para alguém que está morrendo ou que já morreu. A explicação Budista é simples, a consciência da pessoa que está morrendo ou que morreu quando é invocada pelo poder da oração, pode ler a nossa mente e sentir exatamente o que estamos sentindo e receber as práticas feitas em sua intenção.

Candidatos com forte marca pessoal

Nos dicionários de política, pragmatismo político é a estratégia em que candidatos tomam suas decisões baseados na conveniência e no que funciona politicamente para vencer a própria eleição em vez de seguirem os princípios ideológicos ou programáticos de seus partidos. A teoria, criticada como falta de coerência e de compromisso por uns, é justificada por outros, como a arte do possível, necessidade de se formar coalizões para vencer e governar.  Por isso nas eleições de 2024 vimos centenas de casos de políticos ideologicamente contrários, se unirem para eleger o mesmo candidato a prefeito, refletindo uma dinâmica considerada bizarra, se analisada de fora, mas necessária para dinâmica da política regional ou local.

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso perguntado certa vez se sua reeleição, considerada tranquila em 1998 iria favorecer politicamente seus aliados disse não acreditar que voto se transfere. Ele pontuou que no Brasil o personalismo é muito forte e que cada candidato entra para a disputa com sua biografia e esta não se transfere, tampouco pode ser fundida com a história dos partidos ao qual pertencem. Portanto, políticos fortes, que não dependem tanto de recurso partidário, tampouco do tempo de horário político do partido, correrão desatrelados, no sentido de sofrer menor controle das legendas e vão acabar, fazendo campanha centrada na robustez da própria imagem e na base construída, independente da máquina partidária ou da imagem de uma liderança maior no estado ou nacional.

Alguns meses nos separam das eleições de 2026 e o que temos colocado claramente é que as eleições acontecerão em um cenário que tem a esquerda unificada em torno do presidente Lula; a extrema-direita, ameaçando rachar, mas ainda sob a liderança do ex-presidente Bolsonaro e os conservadores divididos entre Lula e Bolsonaro. Lembremos que desde 2018 a polarização política entre democracia e autoritarismo vem pautando a política brasileira e deve ainda permear as eleições de 2026.

Esse cenário para 2026 é detalhado pelo Observatório Político e Eleitoral (OPEL)  uma iniciativa conjunta do Núcleo de Estudos sobre a Democracia Brasileira (NUDEB), do Laboratório de Partidos e Política Comparada (LAPPCOM) e do Grupo de Pesquisa Democracia e Teoria para realizar pesquisas sobre política e eleições, numa tentativa de compreender as dinâmicas do sistema político brasileiro e o comportamento das forças políticas durante os períodos eleitorais. O monitoramento cobre todos os estados nas eleições nacionais e as capitais nas municipais. O levantamento mostra acentuada melhora na avaliação do governo federal e que o presidente Lula pontua na frente de todos os eventuais candidatos lembrados, inclusive aumentando a vantagem em relação a alguns deles, considerados candidatos fortes, como o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

A Quaest também divulgou pesquisa na primeira semana de outubro a aponta praticamente resultado semelhante, fazendo uma ressalva interessante, através do seu diretor: “Lula não consegue captar toda sua aprovação, assim como a oposição não consegue captar toda a rejeição ao governo. É uma clara demonstração de que há uma parcela insatisfeita com todos os nomes, mas que acabará votando em um lado ou outro”.

O pragmatismo político na modernidade líquida, na análise do sociólogo Zygmunt Bauman se manifesta na fluidez e na falta de compromissos de longo prazo. Em vez de ideologias fixas, a política se torna um jogo de adaptação constante a interesses individuais e de curto prazo, marcada pela instabilidade, individualismo e pelas relações frágeis entre os políticos e os partidos ou lideranças nacionais.

Viver com alegria e distantes das coisas que nos aprisionam

O nosso conhecimento não vem necessariamente de fora, mas ele já se encontra de certo modo em nós, na nossa alma, ali reminiscente, já nasceu conosco. É uma questão, portanto, de redescobri-lo, reencontrá-lo em nós mesmos. E aí nós vamos achando no interior da nossa alma aquilo que é a verdade das coisas. O filósofo Clóvis de Barros, que é formado em Jornalismo e Direito, mestre em Ciência política e doutor em Ciências da Comunicação, exemplifica essa crença citando o diálogo de Platão, em que Sócrates conversa com um escravo de Menon, um jovem, que consegue responder com inteligência todos os questionamentos do filósofo. O iletrado escravo de Menon, demonstra inclusive por conta própria, o teorema de Pitágoras. Então, nesse sentido, a teoria da reminiscência mostra que tenho inteligência para entender o que se espera de mim e tenho liberdade para viver ou não em direção a esse propósito, porque o que preciso para aprender está dentro de mim.

O filósofo Clóvis de Barros, esteve em Cuiabá há uma semana e num encontro rápido, devido as recomendações de seus médicos para evitar contato próximo com pessoas, devido a sua condição de saúde, (há dois anos foi diagnosticado com ‘Doença de Behçet’, rara e incurável) pude dizer-lhe que sou assinante dos seus canais e recebo diariamente, as 6 horas manhã, suas reflexões matinais e que muitas vezes, a mensagem vem como uma ‘pedrada’ e destrói minha habitual arrogância de pensar que muito sei. Sorrindo, ele me disse: esse é meu objetivo: ‘criar nas pessoas condições psicológicas para enfrentar suas realidades entristecedoras’.

Algo deve ser o ponto de sustentação da vida que queremos eternizar. Não devemos viver somente na superfície, buscando crescimento profissional e dinheiro; sofrer, cair é parte inevitável da existência; aí, a filosofia de Clóvis de Barros vira conselho: “atribua valor a sua existência porque a vida não tem valor em si, quem dá valor é você; arrisque mais, tenha encontros tristes, sofra queda de potência; deixa que a sabedoria respingue em todos os momentos da vida; alinha a sua vida ao que você é; não se torne escravo das circunstâncias, mesmo que o que você é não pague todas as contas”. Enfático finalizou. ‘Eu escolhi ser professor, muitos escolheram ser poderosos senadores. Sou hoje, o professor dos senadores’. Ligeiramente arrogante, potente, sábio e profundo, com o estilo direto que o caracteriza.

Na palestra ele centrou na nossa pequenez, na insignificância que representamos diante do universo todo e ao mesmo tempo na graça que recebemos por fazermos parte do todo, que se deteriora e depois se reorganiza e o pouco que éramos minutos atrás, se reconstitui em outro lugar, em outro corpo, em outro todo. De repente, Clóvis ergueu a voz e se perguntou:

“Eu sou do tamanho de um grão de areia?  Não, menos, respondeu.

Por que tenho valor se sou tão pequeno? Porque você é uma parte do todo”.

Alertou sobre a imprevisibilidade da vida, a finitude, razão pela qual, não devemos fugir da realidade, não devemos ficar aterrorizados pela perda da nossa potência, da nossa significância; devemos entender as adversidades, passar de um estágio de vida para outro com mais alegria e distantes das coisas que nos aprisionam e apequenam. Falou da vocação humana para a alegria, que é nosso estágio mais potente. A alegria deve ser repetida, buscada em todas as coisas porque passar da alegria para o medo e tristeza é a pior equação possível. A tristeza das pessoas tem como causa a alegria que o triste vê no outro e entristecedores de plantão, estão em toda parte tentando nos derrubar.

Ao falar sutilmente sobre sua condição de saúde, ao contrário do senso comum, que fala de resiliência como um sentimento de aceitação diante do fracasso, Clóvis de Barros exibiu a sua resiliência como sinal de resistência e dignidade diante do ato de apanhar e ter forças para seguir em frente, se comprometendo com o que faz sentido e com a mania de colocar a esperança na frente do temor e do medo.

A democracia depende de pessoas que se recusam a ficar em silêncio

O presidente do Comitê Norueguês do Prêmio Nobel ao defender a escolha do nome da venezuelana Maria Corina Machado, para receber o Prêmio Nobel da Paz respondeu a imprensa, de modo enfático, parecendo dirigir-se ao presidente americano Donald Trump que se autodeclarava merecedor ao prêmio: ‘Vivemos em um mundo onde a democracia está em declínio, onde cada vez mais regimes autoritários estão desafiando normas e recorrendo a violência. Quando autoritários tomam o poder, é crucial reconhecer os corajosos defensores da liberdade que se levantam e resistem, que ousam dar um passo à frente apesar dos graves riscos e que nos lembram que a liberdade nunca deve ser considerada garantida, mas deve ser sempre defendida com palavras, coragem e determinação’.

A eleição presidencial na Venezuela ocorreu em 28 de julho de 2024 e o Conselho Nacional Eleitoral deu vitória a Nicolás Maduro. A oposição tem sido liderada pela ex-deputada Maria Corina, figura central da oposição ao regime desde o governo de Hugo Chavez. Maria Corina venceu as primárias da oposição na escolha de um nome para enfrentar Maduro com mais de 90% dos votos, mas foi impedida de disputar a presidência por uma decisão do Tribunal Supremo de Justiça (TSJ) do ano de 2014, que cassou seu mandato de deputada naquele ano e desde então, além de não poder exercer cargos públicos e tem sido sistematicamente perseguida.

O caráter revolucionário associado a Maria Corina Machado, uma mulher que elegeu-se a deputada mais votada do país quando disputou a eleição em 2010, fundou seu próprio partido, o Vente Venezuela e não se escondeu em nenhum momento desde que destacou-se como a voz mais potente nas denúncias dos abusos cometidos pelos regimes de Hugo Chávez e Nicolás Maduro, se manifesta em sua postura intransigente contra o regime chavista na Venezuela, liderando a luta por eleições livres e a transição para a democracia. Exerce a oposição de forma ruidosa e destemida, mobilizando esforços para desafiar e enfraquecer a autoridade personalista do governo de Nicolás Maduro. Outra voz importante que denuncia os casos de violação dos direitos humanos na Venezuela é a ONG Foro Penal.

Na América Latina, muitas mulheres se tornaram símbolos da luta pela democracia. Durante a ditadura militar no Brasil (1964–1985) as mulheres participaram ativamente da militância política em oposição ao regime; como a ex-presidente Dilma Rousseff e criaram movimentos de resistência, como o Movimento Feminino pela Anistia, ampliado depois, para o Comitê Brasileiro pela Anistia, liderado pela assistente social e advogada Terezinha Zerbini, que foi fundamental para pressionar o governo pela libertação de presos políticos e retorno dos exilados. Terezinha foi presa, mas continuou na luta até presenciar a conquista da anistia ampla, geral e irrestrita em 1979.

Na Argentina, as Mães da Praça de Maio se tornaram um símbolo sensível e poderoso pela cobrança de notícias de seus filhos desaparecidos pela ditadura nas décadas de 1970 e 1980, durante o regime do ditador argentino Jorge Rafael Videla.

No Chile, as mulheres criaram o Movimento de Mulheres pela Vida, que inspirou resistência política a ditadura de Augusto Pinochet. A ex-presidente Michelle Bachelet tem sua vida marcada pela violência de Pinochet, que mandou torturar até a morte, seu pai, um general da força aérea, que se opunha ao regime do ditador. Michelle, sua mãe e irmãs também foram presas e torturadas. Michelle Bachelet transformou a dor em força, elegeu-se presidente do Chile em 2006,  dedicou seu governo a reconciliação nacional, a promoção dos direitos humanos no país. Embora seja frequentemente citada, nunca recebeu o Prêmio Nobel da Paz.  

Para além da América Latina, nutro especial admiração pela vida da paquistanesa Benazir Bhutto, uma figura política símbolo da luta e resistência feminina contra regimes autoritários. Filha de um primeiro-ministro que foi deposto, preso e assassinado após um golpe militar, Benazir liderou o partido do pai, denunciou a perseguição, a repressão política no país, foi presa inúmeras vezes por defender a democracia, o direito das mulheres e educação para as crianças. Venceu. Foi a primeira mulher a governar o Paquistão, um país mulçumano. Foi eleita primeira-ministra duas vezes. Foi assassinada durante um comício em 2007. Indicada muitas vezes, nunca recebeu o Prêmio Nobel da Paz.

Não faltam exemplos de mulheres corajosas que enfrentaram os fuzis, a violência física, a repressão e as celas solitárias, quis, porém, Maria Corina dedicar o Prêmio a Donald Trump.

Faço o que é certo, aconteça o que acontecer

O sociólogo alemão, Max Weber, fez uma conferência em 1919 para demonstrar que muitas pessoas se dedicam a política por convicção e senso de responsabilidade para com a sociedade. A ideia central de Weber foi externar suas observações sobre a política exercida por vocação, por um chamamento interior, onde o político age segundo seus princípios morais e ideais, vive para a política, para o bem comum, sem, contudo, ignorar que o poder e bem comum entram em tensão frequentemente.

O político em Weber é responsável pelo que suas decisões causam. É a ética da responsabilidade. O cenário político do parlamento estadual está repleto de discussões necessárias para o bem comum; estão em pauta; a saúde mental, feminicídio, qualidade dos serviços de distribuição de energia, déficit habitacional, desigualdade social & riqueza. O povo está vindo, curioso, querendo conhecer seus direitos quanto a qualidade dos serviços distribuídos; o povo está vindo furioso, temendo ser despejado, cobrando políticas habitacionais humanizadas, políticas públicas para controlar a violência nas escolas, o avanço do feminicídio, o descontrole da saúde mental, que dias atrás, numa audiência foi demostrado a conexão entre o número de acidentes de trânsito e o descontrole emocional, causado pela negligência com a saúde mental dos motoristas. O parlamento estadual está com a agenda voltada para a ressonância das dores da sociedade.

É difícil estabelecer sentimento de compreensão diante das desigualdades sociais em um estado considerado tão rico. A política ideal de acordo com o estoicismo é aquela que respeita a razão, a justiça e a fraternidade. Marco Aurélio, imperador romano e filosofo estoico escreveu em seu livro chamado Meditações: “O que não é bom para a colmeia não é bom para a abelha.” A filosofia antiga e a sociologia moderna convergem quando expressam que a ação política deve ser orientada pela ética e não por paixões e que servir ao bem comum exige caráter e resistência moral diante das seguidas tentações do poder.

A política é para servir. Nenhuma dor, nenhuma invasão de área, nenhum feminicídio deve ser invisibilizado. Então, o parlamento pode se abrir ainda mais. De modo que, os temas que incomodam a sociedade, embora alguns tenham alto custo político, sejam endossados pela Casa Legislativa, mais do que se gasta tempo com discursos fragmentados que só confirmam o preconceito de muitos contra os desvalidos que precisam de políticas públicas. Não digo isso como uma crítica a políticos ou partidos específicos.

Faço parte do grupo de pessoas que acredita que a política é uma atividade nobre na qual as pessoas, em sua maioria, dão o seu melhor, muitas vezes com grande custo pessoal. Portanto, é apenas uma observação sobre esse tempo político estranho, proximidade de eleições, que nos afoga em desinformação e conteúdo de baixíssima qualidade no discurso e nas redes sociais.

Isso não é exclusivo da política. Falo de política, porque a vivo intensamente como cientista social. A diferença com a política é, que através dela decidimos quem controla o Estado, que é um dos principais instrumentos para melhorarmos nossas vidas juntos. Por isso, é especialmente importante que a política faça sentido e pareça uma atividade normal vista de fora, preferencialmente uma atividade exercida por vocação. A vida é futurista e acelerada, tudo muda ao nosso redor, não temos tempo para sermos nostálgicos.

O que a vida quer da gente é coragem

Vivo com a impressão de que avançamos muito na história e progredimos na vida. Guerra, política, religiões, economia e desigualdade social existem de alguma forma há milhares de anos. No entanto, é surpreendente que muitos não pensam nem se preocupam com as guerras, com as possibilidades de mudanças através da política. Porém, se as coisas mudaram para melhor, essa é uma pergunta que todos precisamos nos fazer continuamente.

Muitos países estão passando ou acabaram de passar por mobilizações gigantescas motivadas por questões internas, como França e Estados Unidos, Brasil, na Austrália, em solidariedade a situação humanitária na Faixa de Gaza e no Nepal, uma impressionante multidão de jovens, bem jovens, chamados de geração Z, ou seja, estudantes, mobilizados através das mídias sociais derrubaram o governo em 9 de setembro passado, após uma escalada de protestos contra a corrupção, nepotismo e um sem-número de proibições do uso das redes sociais. O primeiro-ministro renunciou, uma juíza assumiu o cargo e a vida segue.

É indiscutível que o jogo político pode mudar. Em ambientes democráticos, para que um governo funcione, o povo precisa mantê-lo sob controle e expressar suas reivindicações. As situações turbulentas, os momentos adversos podem ser transformados. E quando leio uma pesquisa Quaest, de 2025 que 38% entre pessoas não ricas declararam ser nenhum pouco interessadas em política. Cito, então, uma passagem do livro Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa, dita pelo personagem Riobaldo: “O correr da vida embrulha tudo, a vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Não importa se você mora no Florais, Alphaville ou no Pedra 90, Dr. Fábio ou Contorno Leste. Todos, sem exceção precisam de políticas públicas para si, para seus empregados ou familiares. O rasgo que se tornou a antigamente linda avenida Rubens de Mendonça interfere negativamente na minha vida, na sua e de todos. Não era onde os ricos desfilavam seus carrões? Contudo, ainda é, entre lama, poeiras, desvios e cones por onde passam os ônibus que transportam trabalhadores para o Centro Político, Shopping e comércios, levam os estudantes para as escolas e ambulâncias levando doentes. Como não se importar, não pronunciar uma palavra sobre isso?

Distanciamento ideológico não é a mesma coisa que indiferença ou apatia política. Donald Trump impôs sanções a exportação de produtos brasileiros, você minimamente leu o porquê dessa doidera? Sabe quem foi o anticristo que interferiu junto ao governo americano e incentivou a punição a milhares de exportadores brasileiros? Você entendeu por que é necessário defender a soberania do país diante de interferência estrangeira?

Dias atrás a Câmara Federal aprovou a PEC da blindagem, que proibia prisão e processo de parlamentares que cometessem qualquer tipo de crime, sem autorização prévia dos colegas deputados e senadores e a blindagem se estenderia ainda a presidentes de partidos políticos. Fomos salvos por uma multidão que foi às ruas e pela lucidez que paira sobre a grande maioria dos senadores brasileiros. O Senador Alessandro Vieira, relator da PEC, ao ler seu voto, absolutamente contrário, disse que a aprovação seria um abrigo seguro para criminosos se instalarem na Câmara e no Senado e citou a frase mencionada acima, tirada do livro de Guimarães Rosa.

A Conferência do Clima – COP30, desorganizada ou não, está se aproximando, com 180 países comprometidos em atualizar suas metas climáticas, entre as quais, cita-se investimento em energia limpa. A organização cumpre a expectativa de integrar os povos originários no preparo e na agenda das discussões e estender maior proteção as suas terras. O governo brasileiro vem com a promessa de combater rigorosamente e zerar o desmatamento até 2030. Vamos nos preparar, ler e questionar para quando novembro chegar?

Não somos todos iguais perante a lei

Qual é o limite do absurdo? Pelo texto da PEC da Blindagem ou da Impunidade, deputados e senadores não podem ser processados por desvio de verba, homicídio, propina ou qualquer outro crime. Qualquer ação penal só vai adiante se os ‘brothers’ concordarem, mesmo que sejam presos em flagrante por crimes inafiançáveis. Esse é o texto da PEC da Blindagem, que em curta compreensão exige o aval do Congresso Nacional, em votação secretíssima, para prisão e abertura de processos contra parlamentares. A impunidade que estava na eminência de se tornar plena e irrestrita vai seguramente ser barrada no Senado Federal, a Casa revisora, que graças a Deus, entre tantas atribuições importantes, revisa os projetos de lei que se iniciam na desgovernada Câmara dos Deputados, que num momento de extrema irresponsabilidade aprovou o texto absurdamente imoral, que, na opinião de parlamentares, violenta a Constituição Federal e coloca o Congresso à serviço do crime organizado.

Sem apoio no Senado, a PEC não deve ser aprovada nem na Comissão de Constituição e Justiça quando mais no plenário. O Senador Otto Alencar, médico, do PSD, que preside a CCJ, designou relator o Senador do MDB Alessandro Vieira, advogado, delegado de carreira e membro atuante da CCJ, que vem há dias criticando veementemente a PEC e já anunciou que sua relatoria será pela rejeição da proposta. Além de impopular, a PEC amplia o fosso que separa os políticos do cidadão comum, que não conta com tais regalias e muitas vezes sequer tem proteção quando é injustamente acusado de um delito.

Considerada indefensável, a PEC da Blindagem, provavelmente concebida para afastar o Supremo Tribunal Federal do Parlamento, mas segundo o senador Eduardo Girão, os deputados erraram na dose e criaram um veneno, com nuances de anonimato e negociatas a portas fechadas.

A população brasileira não aceitará esse retrocesso e pesa sobre o Senado e sobre o ombro do Senador Alessandro Vieira livrar o Brasil dessa vergonhosa mancha que fortaleceria a impunidade e reduziria a chance de a justiça agir sobre membros do legislativo, inclusive sobre parlamentares já investigados. Li que o parlamentar até pode ser preso em flagrante, mas o Congresso teria 24 horas para revogar a prisão, ou seja, a prisão seria rapidamente anulada.

Tradicionalmente sempre foi difícil processar e prender políticos no Brasil, especialmente quando ocupam posições de maior visibilidade, sobretudo porque o corporativismo é grande, os processos contra políticos são protelados até prescreverem, o que confirma o que eu escrevi pouco acima sobre a percepção de que os políticos são propositadamente bem menos alcançados pela lei do que o cidadão comum. Resgatamos pouquíssimos casos de políticos conhecidos presos desde 1988: O ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf, envolto em denuncias desde 1990, só foi preso 17 anos depois.

No caso do Mensalão, dentre centenas de nomes citados, poucos presos chegaram a cumprir pena, entre eles, José Dirceu, José Genoíno e Delúbio Soares. Nas denuncias da Lava Jato, considerada a maior investigação já ocorrida no Brasil, uma multidão de mais de 500 pessoas foi denunciada, mas poucos, como, Eduardo Cunha, Sérgio Cabral, Aécio Neves, Antônio Palocci, Geddel Vieira e o presidente Lula foram presos.

A tese da blindagem já ocorreu na Assembleia Legislativa de Mato Grosso em 2017, quando o deputado Gilmar Fabris foi preso, acusado de obstrução à justiça e por unanimidade, porém, com algumas abstenções, os deputados votaram pela revogação da prisão preventiva dele e, por conseguinte, restabeleceram o seu mandato.

41% dos mato-grossenses não se identificam com a direita, esquerda ou centro

Um novo ‘player’ no cenário das eleições de 2026, não significa esquentar figuras tradicionalmente conhecidas para disputar o executivo estadual.  Um novo jogador seria uma figura que despertaria o senso de novidade e alternativa viável, que se posicionaria como uma terceira via ou renovação plena. Não percebo nenhum movimento que indique a existência dessa figura. Um novo player, que não seja retratado com um aventureiro surge em tempos esporádicos, quase sempre para tirar votos de um grupo e redesenhar a campanha com a criação de um novo grupo, como ocorreu em 2002.

É de conhecimento de todos e confirmado pelo Instituto de Pesquisa DataSenado, em estudo do ano passado sobre o posicionamento político dos brasileiros, que Mato Grosso é uma das cinco unidades da federação, num grupo em que estão Rondônia, Santa Catarina, Paraná e Roraima, com maior número de eleitores de direita, cerca de 36%, 9% se declararam progressistas e 8% do centro, enquanto 41% não se identifica com nenhuma destas tipificações e 6% não quiseram responder. Chama atenção o número de mato-grossenses que não se consideram de direita, nem de esquerda e nem de centro. É por aí a campanha: sem player novo e alto investimento político para conquistar esses 41%.

Senão, vejamos, o caminho natural promove a candidatura do vice-governador Otaviano Pivetta, um político forte, prefeito que transformou a pacata Lucas do Rio Verde num importante polo do agronegócio do estado, foi deputado estadual, é vice-governador, com visibilidade e independência. As variáveis indicam que o grupo teria ainda as opções de fomentar as candidaturas do presidente da Assembleia Legislativa, deputado Max Russi, que está na política desde os 22 anos de idade quando se elegeu vereador em Jaciara, onde foi prefeito reeleito, é deputado no terceiro mandato e presidente da Assembleia Legislativa e segue com o projeto de recondução ao quarto mandato e Cidinho Santos, ex-prefeito, ex-presidente da Associação Mato-grossense dos Municípios e ex-senador, que parece mais disposto a investir o tempo e prestígio para eleger o amigo Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, presidente do País.

Por outro lado, o Senador Wellington Fagundes, político há décadas, deputado federal de cinco mandatos, senador reeleito com mais de 825 mil votos, que há tempos sonha e articula a candidatura ao executivo. São 2 grupos separados apenas pelo extremismo e polarização exacerbada que contaminou a política em anos recentes, mas que sempre estiveram próximos, compartilham ideais políticos e colocam em dúvida inclusive, o voto da maioria dos eleitores e o Senador Carlos Fávaro, que ganhou grande visibilidade presidindo entidade ligada ao agro, foi vice-governador do estado, secretário, elegeu-se senador, é ministro da agricultura e deve agregar no seu entorno uma federação progressista, com apoio do presidente da República.

As possibilidades recaem sobre homens conhecidos, com longa trajetória na política. Não são pessoas com tradição de ideário extremista, capazes de incitar cidadãos a invadir, saquear e defecar nas sedes dos poderes. Ao contrário, são homens que entendem que o estado precisa assentar as diferenças para avançar em pautas que nos envergonham, como a epidemia e quase tradição no estado de assassinar mulheres.

Com senso de observação aguçado pela sociologia e ciência política, não percebo nenhuma possibilidade da entrada de um novo ‘player’ na campanha para governo no próximo ano. Não creio que haja cenário, tampouco personagem para encampar tal novidade. Absolutamente diferente do cenário de 2002, quando um ‘player’ novo percebeu a saturação do protagonismo do governo de Dante de Oliveira, que politicamente ocupava demasiado espaço, em importância local e nacional e decretou o seu fim.

A tradição da não punição

Com mais de 20 livros publicados o historiador Carlos Fico, professor titular de História do Brasil da Universidade Federal do Rio de Janeiro, reconhecido como um dos maiores especialistas em ditadura militar do país, acaba de lançar o livro com o título “Utopia autoritária brasileira: como os militares ameaçam a democracia brasileira desde o nascimento da República até hoje”, onde analisa casos de impunidade de militares envolvidos em golpes, a falta de responsabilização após a Ditadura Militar. Essa tradição intervencionista perpetua a utopia autoritária que, segundo o autor, representa um risco contínuo para o futuro do país.  Desde a Proclamação da República, em 1889, nenhum presidente nem militares foram indiciados ou condenados pelo crime de tentativa de golpe de Estado.  

Em todos os casos em que a tentativa fracassou, houve anistia. Em 1904, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961. E agora temos essa tentativa que também fracassou. Então, não chega a surpreender que haja discussão acirrada sobretudo na Câmara Federal sobre a anistia aos envolvidos na trama de 08 de janeiro de 2023. É como uma tradição brasileira anistiar, contudo, é a primeiraParte superior do formulárioParte inferior do formulário vez, que um ex-presidente e militares de altas patentes são julgados por tentativa de golpe. E, nas entrevistas concedidas, o professor destaca o ineditismo de oficiais da Marinha e Exército terem sido admitidos como réus. Nas páginas iniciais do livro, o professor já contextualiza: o Exército brasileiro sempre desrespeitou a democracia.

No livro, o professor Fico defende que todas as crises institucionais no Brasil, desde a Proclamação da República em 1899, foram causadas pelos militares, que nunca foram punidos e narra a história do Marechal Hermes da Fonseca, presidente da República em 1910, que em 1922 foi preso por haver tentado depor o presidente Epitácio Pessoa. Abriu-se um inquérito, que não foi concluído, Hermes da Fonseca ficou 6 meses preso e não foi julgado porque morreu. No caso de militares que planejaram golpes, nenhuma investigação foi tão longe como estamos acompanhando, com a possibilidade de serem condenados à prisão. “Em todos os casos de tentativas de golpe e pronunciamentos militares contra presidentes nunca houve a efetiva punição de militares golpistas. Mesmo nos casos em que houve o início de alguma investigação, uma anistia acabou sendo aprovada no meio do caminho”, prenuncia o professor.

Por isso, o fato de haverem sido processados carrega um simbolismo grande, que deve repercutir dentro das Forças Armadas. Soará como um lembrete que militares não formam um poder garantidor da República, que não podem intervir na política e muito menos planejar a derrubada de presidente ou alinhar-se com golpes pelo não reconhecimento do resultado de eleições livres. Em bom momento o judiciário, sob pressão até do governo americano, dá lição de coragem porque a impunidade de militares a serviço de presidentes foi o que perpetuou a tradição golpista no Brasil, assegura o historiador. Entre os réus, há cinco militares, além de Bolsonaro, que já foi capitão do Exército.

O mundo está de olhos fixos na 1ª Turma do Supremo Tribunal Federal e incrivelmente percebemos que por parte dos advogados dos acusados não houve até o momento nenhuma negação veemente de tentativa de golpe, estão todos apostando nos questionamentos das provas materiais e negando o envolvimento de seus clientes, sobretudo do ex-presidente Jair Bolsonaro na trama. Não alegam cerceamento às provas, mas, de modo geral, questionam a delação do ajudante de ordens, Mauro Cid. Atentos e às vezes bem-humorados, advogados e ministros tem proporcionado momentos hilários, com citação de sogras, confusão entre voto ‘auditável e voto impresso’ e os impagáveis ‘pitos’ da ministra Carmem Lúcia nos advogados.

A semana segue com alta expectativa porque enquanto ocorre o julgamento no Supremo, a pauta da anistia aos condenados avança pressionando o Congresso, onde já alinhavam o texto do Projeto de Lei da Anistia, mas, segundo advogados experientes, é inconstitucional defender a anistia para crimes contra o Estado Democrático de Direito.

O investimento na prevenção da violência contra a mulher deve ter alta prioridade

A violência de gênero é um problema de longa data no Brasil e diante dos níveis alarmantes, sobretudo no estado, governo e população estão investindo esforço, pesquisas e políticas públicas para melhorar a aplicação das punições, mas, devem concentrar esforços para investigar e implantar ações que visem coibir a violência. Precisamos desesperadamente, aí incluo todos, fazer mais no que diz respeito à formulação, implementação e monitoramento de políticas eficazes de prevenção e proteção às mulheres, porque apesar do debate público sobre papéis de gênero e violência de gênero, não houve uma redução significativa no número de vítimas, nem, em termos gerais, aumentou o número de pessoas que buscaram ajuda.

No Senado Federal, parte da programação do ‘agosto lilás’ aconteceu uma sessão temática no Plenário, com representantes do parlamento, governo e sociedade civil para debater caminhos para além das leis específicas, como a Lei Maria da Penha e Lei do Feminicídio que consigam coibir a violência dentro dos lares. O debate reforçou que toda possibilidade de prevenção ao feminicídio passa pela elevação da condição social da mulher, com a participação maior de mulheres nos espaços econômicos de decisão, para retirá-las da posição subalterna que são colocadas nos relacionamentos.

Enquanto isso não ocorre, o relatório do Fórum Brasileiro de Segurança Pública divulgado em 2025, mostram com grande preocupação o aumento das taxas de violência e assassinato de mulheres no Brasil, onde uma pesquisa revelou que quase metade das mulheres brasileiras, cerca de 40,7%  com mais de 16 anos sofreram violência por parte de um parceiro ou ex-parceiro, a maioria da violência, 60 desses casos, aconteceram na casa da vítima casa, muitas na frente de familiares, incluindo crianças. A pesquisa mostra que o sentimento das mulheres agredidas é de solidão, abandono e desconfiança no estado para garantir a justiça e o recomeço de uma nova vida.

O Observatório Caliandra, ligado ao Ministério Público Estadual registrou 36 feminicídios em Mato Grosso até o momento. Os últimos dias foram críticos para as mulheres no estado: Larissa Bezerra teve a casa incendiada pelo ex-parceiro; a violência política mostrou o detestável vereador Gilson chamando prefeita Iraci Ferreira de ‘cachorra viciada’ na tribuna da Câmara Municipal; um homem assassinou a ex-namorada  Ana Paula Abreu com 18 facadas e enviou fotos para os familiares dela e para o próprio irmão; a estudante Jacyra Grampola foi morta pelo ex-namorado em Sorriso; a jornalista  Angélica Gomes foi agredida em plena rua, na frente de testemunhas, quando cobria um acidente de trânsito; encerrando a semana, a servidora pública Makiane Brito foi assassinada pelo ex-namorado, dentro de casa, na frente da mãe e da filha.

O Instituto Natura, o Senado Federal e a Associação Gênero e Número criaram uma plataforma e atualizaram dados do Mapa Nacional da Violência de Gênero, que mostram que o desafio continua gigantesco e não há sinal que indique a diminuição da violência contra a mulher. O estudo revela que a maioria dos casos de feminicídio são crimes que poderiam ser evitados se como sociedade, falássemos mais abertamente sobre o assunto. A dor causada pela violência é silenciosa, muitos casos não são denunciados por medo ou vergonha. A plataforma reforça a responsabilidade de todos, no sentido de intervir e questionar falas e atitudes ofensivas e agressivas ou subjetivas dirigidas às mulheres, indicando controle, ciúme excessivo e isolamento. É preciso dar a esses comportamentos, o nome real: violência.

Adianta acirrar a discussão em torno da prisão perpétua e pena de morte para o agressor ou assassino da mulher se não fazemos valer as penas vigentes no código penal? A prisão perpétua é proibida no Brasil pelo art. 5º, inciso XLVII, da Constituição Federal de 1988: “não haverá penas de caráter perpétuo”. Esse artigo faz parte dos núcleos protegidos pelas cláusulas pétreas (que não podem ser alterados) e isso significa que para a prisão perpétua e pena de morte fossem permitidos no Brasil, seria necessário romper a ordem constitucional, convocar uma Assembleia Constituinte e escrever uma nova Constituição. Impossível? Não, improvável. Ainda assim estaremos falando do assassino enquanto a pauta prioritária deve ser a proteção, a prevenção da violência e do crime contra a mulher.