A música vai além do campo do entretenimento e se consolida como linguagem política, que mobiliza afetos, constrói identidades coletivas e é excelente ferramenta de contestação, propaganda ou resistência, sobretudo em contextos autoritários. Na América Latina, canções conhecidas denunciaram ditaduras, quando o povo e a mídia foram silenciados. Na África do Sul, músicas foram armas simbólicas contra o apartheid. No Brasil, a música restabeleceu a verdade quando o discurso público foi reprimido. A atuação de cantoras e cantores reforçaram a ideia de que o poder também se constrói por símbolos compartilhados e poucos símbolos são tão poderosos quanto uma música cantada coletivamente em um espaço público.
“Pra não dizer que não falei das flores” música lançada em 1968, por Geraldo Vandré, mais do que uma música, virou um hino, um manifesto público cantado, o maior símbolo da resistência brasileira contra a ditadura militar. A letra é direta, um ato de convocação imediata para a luta, algo intolerável para o regime autoritário da época. “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A música foi censurada e Vandré, perseguido pelos militares, se exilou no Chile.
Foi Fafá de Belém a cantora que deu voz à rua e através dela a cultura assumiu a mediação entre o povo e os militares em um momento de transição incerta no País. A ditadura militar já durava vinte anos. Fafá trocou o palco pelos palanques de grandes comícios, onde cantava para multidões, ao lado de Dante de Oliveira e Ulysses Guimarães, transformando o hino nacional em um ritual cívico. Era uma artista popular, mas rompeu o silêncio confortável ao cantar nas Diretas Já, e ensinou que conquistar a democracia não é pauta apenas de políticos, mas do povo. Mesmo com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, o movimento das ´Diretas Já´ marcou o início irreversível da redemocratização. Fafá de Belém cantou e o país reaprendeu a falar. Quando a política brasileira adoeceu, a música falou por ela.
A cantora argentina Mercedes Sosa transformou suas músicas em hinos de resistência política no contexto da ditadura militar de seu país, 1976-1983, período de repressão violenta e desaparecimento de pessoas por parte dos governos militares. Usou a sua música Todo Cambia como linguagem alternativa de protesto, capaz de driblar a censura: “Muda o que é superficial, muda também o profundo. Muda o modo de pensar, muda tudo neste mundo”. Transformou a música Gracias a la Vida, escrita por Violeta Parra, em um hino à dignidade humana, em período de violações de direitos em quase toda América Latina. Foi presa e forçada a buscar exílio político. Mercedes Sosa não representava apenas o protesto, mas sobretudo a resistência, a ideia de que o regime muda, o político passa, o povo permanece.
Em Max Weber, a autoridade nem sempre é institucional, pode ser carismática, fundada na legitimidade moral da causa. O cantor Bruce Springsteen consolidou-se como uma autoridade legítima, que critica o governo americano desde o período de Ronald Reagan e mais duramente, os governos de Donald Trump. Tem sido uma das vozes mais contundentes da crítica moral e política à violência institucional, ao autoritarismo retórico e à diluição da democracia nos Estados Unidos sob Trump e pede sistematicamente o impeachment do presidente. Sua música e seus discursos são acusações diretas e intensas contra a violência. Desde que escreveu a letra de ´Born in the U.SA.` em 1982 crítica as guerras financiadas pelos Estados Unidos: “Então eles colocaram um fuzil na minha mão, me enviaram para uma terra estrangeira Para matar o homem amarelo. Eu nasci nos Estados Unidos”. O patriotismo de Bruce Springsteen é muito crítico e quando um artista com a legitimidade cultural de Springsteen denuncia políticas violentas, ele retira o monopólio do patriotismo das mãos do autoritarismo e nos lembra que democracia exige vigilância constante.