Cuidar da mente se transforma em aliado político

No contexto de pressão política, o equilíbrio interior se torna uma ferramenta de sobrevivência ética, emocional e estratégica porque a pressão política desequilibra os contextos e discursos e atua em camadas profundas devido à exposição constante ao conflito, à disputas, cobranças públicas tanto pessoalmente quanto nas redes sociais, além da sensação de urgência contínua. Claro que esse ambiente favorece ansiedade e desencadeia reações impulsivas.

Maquiavel em o Príncipe escreveu um tratado sobre o domínio de si e como manter o equilíbrio emocional no ambiente hostil da política. Em Maquiavel o governante precisa ter lucidez para governar a si mesmo antes de governar os outros. O maior perigo para o político não é o inimigo externo, mas, a vaidade, a impulsividade e o medo de perder. E o bom governante de Maquiavel não se deixa levar pela raiva, não se ilude com elogios e tampouco se deixa paralisar pelo medo.

Equilíbrio emocional é também o controle da imagem que alguns políticos preservaram ao longo de suas trajetórias e depois. O presidente americano Abraham Lincoln foi algumas vezes chamado de fraco antes de ser reconhecido um herói nacional, por haver conduzido os Estados Unidos num período de pressão externa. Sofreu ataques pessoais, derrotas militares. Manteve o controle. Escrevia cartas duras aos adversários que o atacavam, mas não as enviava; O símbolo mundial da luta contra a segregação racial e presidente da África do Sul, Nelson Mandela ficou preso por 27 anos e, ao sair, em vez de vingança ofereceu um projeto equilibrado de reconciliação nacional entre as raças. Gandhi enfrentou um império com jejum, resiliência e silêncio. Defendeu que o autocontrole tem que vir antes do domínio político. Historiadores estabelecem que eles tinham em comum o autocontrole emocional transformado em força política.

No Brasil, onde a política nacional costuma favorecer a retórica e o confronto, alguns líderes são lembrados pela temperança como Fernando Henrique Cardoso, que exerceu o poder mais pela articulação e convencimento do que pela emoção; Ulysses Guimarães, considerado o símbolo da serenidade e equilíbrio institucional. Liderou com autocontrole emocional tempos difíceis de ruptura e dizia que a democracia exige paciência e não emoções políticas descontroladas. Tancredo Neves, o mestre, cujo equilíbrio emocional e sua política de conciliação foram essenciais para reduzir as tensões nas negociações para a transição democrática. Michel Temer confundiu um pouco com seu perfil de reações calculadas, maquiavelismo puro, pois mesmo diante de um quadro quase permanente de impopularidade manteve baixo nível de reação emocional.

Para além da política e dos políticos, o equilíbrio interior deve ser pauta e objetivo de vida para evitar esgotamento mental e ações extremadas. Vamos reaprender a responder em vez de reagir, diferenciar ataques pessoais de disputas por ideais. Nem toda crítica exige resposta; nem todo ataque merece internalização e o silêncio, na maioria das vezes é autoproteção, não fraqueza. Precisamos valorizar os espaços de verdade, onde não precisamos performar nem vencer debates, ao contrário, podemos impor limites saudáveis, exercer menos autocrítica, sermos mais compreensivos. Cuidar da mente é fazer gestão do ego para não permitir que cargos e bens sejam confundidos com identidade.

A campanha nacional do Janeiro Branco estimula a reflexão sobre como lidamos com as emoções e sentimentos. Lembro de uma frase do médico cardiologista francês Frédéric Saldmann, que defende que devemos ser maiores por dentro e que cuidar da mente não é um luxo, porque o estresse crônico contamina o corpo, enfraquece o sistema imunológico, piora as doenças inflamatórias e aumenta risco cardiovascular. E que um corpo bem autorregulado, escolhas saudáveis repetidas são os remédios eficazes para preservar a saúde mental.

Deixe um comentário