Hoje, apoio não significa compromisso

 O sociólogo polonês Zygmunt Bauman exerceu grande influência no século XX, por seu trabalho sobre a modernidade líquida, caracterizada pela fluidez, incerteza e efemeridade nas relações pessoais e entre instituições sociais. Os laços são frouxos e reversíveis, o que é hoje pode não ser amanhã ou daqui a algumas horas. A ideia de modernidade líquida ajuda a entender a lógica impregnada nas campanhas eleitorais contemporâneas, onde reina a falta de referências duradouras, onde nada se solidifica por muito tempo e o espaço público está cada vez mais vazio de questões públicas.

A política, não escapa e tem se tornado fluida, incerta e fragmentada com a ascensão do individualismo e a desconfiança nas promessas de futuro, resultando em desengajamento social e promovendo o engajamento nas pautas de narrativas simplórias, mas de impacto rápido. Os impactos atingem o eleitor que muda de opinião com rapidez, geralmente influenciado pelas redes sociais, pela emoção do momento, por narrativas curtas e impactantes e seu voto deixou de ser fidelizado. Toda essa mudança de comportamento abre espaço para o discurso antissistema e identificação com lideranças líquidas, políticos reativos, mais performáticos do que pragmáticos.

Os efeitos da modernidade líquida na política se manifestam na quebra daquilo que antes era o eixo que sustentava uma candidatura: partido, ideologia e programas. Hoje, apoio não é compromisso, é circunstância. Os apoios duram enquanto são úteis. Quando a utilidade acaba, o apoio evapora e prevalecem a conveniência, o cálculo e o curto prazo. As campanhas eleitorais estão se tornando arenas de narrativas rápidas e de debates superficiais porque os ciclos de atenção dos eleitores são curtos.

Apoios políticos surgem e desaparecem rapidamente. Muitas demonstrações públicas de apoio, são apenas apoio eleitoral, não são compromissos pragmáticos. Temos visto políticos fazendo declarações públicas de apoio a candidatos em pré-campanha, fazem aparição conjunta, mesmo sabendo que daqui a pouco esse apoio pode ser inviabilizado pela estrutura partidária. As falas, as fotos de agora são apenas conveniência estratégica. Ficando firme na leitura de Bauman, assim como nas relações pessoais líquidas, o laço político frouxo evita obrigações, preserva a liberdade de entrar e sair de um projeto político sem culpa pelo rompimento. Na modernidade líquida, a política do vínculo não cria raízes, cria opções de fuga.

Em Bauman, a política reproduz a lógica das relações pessoais líquidas, onde os apoios duram enquanto geram vantagem, a confiança institucional é substituída por cálculo imediato, o vínculo político de lealdade existente tempos atrás deixa de ser compromisso e vira contrato informal, fácil de romper e o eleitor se relaciona com a política como consumidor: avalia, compra, experimenta candidato como produto e o descarta.

A política, na modernidade líquida privilegia o medo, o ressentimento. Entende por que a polarização não passa? Porque a política moderna e líquida deslegitima o diálogo e as alianças. Bauman não aponta nenhuma solução em 267 páginas do livro Modernidade líquida, faz apenas uma análise das condições cambiantes da vida social e política.

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