Conversa de homem para homem

Dia 06 dec dezembro, é o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência Contra as Mulheres e lamento que finalizamos o ano envoltas na mesma dor do ano passado, do ano retrasado…as mulheres continuam sendo espancadas, estupradas e assassinadas brutalmente todos os dias. Não há descanso, não se pode tirar o olho de quem está ao lado, porque geralmente é o agressor. É insano conviver com a estatística que insiste em anunciar Mato Grosso como o estado mais perigoso para mulheres e que apesar de algum esforço institucional, o estado cisma em manter-se firme no alto do ranking, os valentões estão em todas as classes sociais e evidencia falhas estruturais na educação familiar e escolar. 

É preocupante ler os estudos publicados, as entrevistas com relatos. A maioria das agressões ocorre na frente de outras pessoas, muitas vezes, de crianças. Estamos em plena campanha dos 21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres, reforçando campanhas e dando visibilidade aos casos, para que as mulheres machucadas na alma e no corpo sejam vistas, ouvidas e acolhidas e quem sabe, um dia distante, serão também protegidas. Os alertas disparados pelos botões de pânico, precedem a sinfonia fúnebre que se ouve no desfecho da maioria dos casos. O levante das mulheres que sobrevivem tem sido marcante, intenso e sem trégua. É preciso deixar as mulheres em paz, deixá-las vivas para viverem seus sonhos, criarem seus filhos, ocuparem espaços de poder. 

É preciso falar sobre o machismo, sobre as atitudes possessivas que marcam as relações e tem sido reproduzida ao longo do tempo. No Brasil a cada seis horas há um feminicídio. Não há casos isolados, muito pelo contrário, os episódios são distintos, porém seguem a mesma lógica: relações marcadas por controle excessivo, pelo desprezo à autonomia feminina, pelo deboche e críticas ácidas. 

Percebo com esperança branda um levante de homens tentando fortalecer a luta pelo fim da violência contra a mulher; o presidente Lula, o presidente da Assembleia Legislativa, Max Russi, artistas, homens famosos engrossando o coro das mulheres, que estão quase perdendo o fôlego com continuados gritos de socorro. Nas manifestações, as mulheres têm falado entre si, sofrendo abraçadas, porém distantes de tocar os seres que agridem e matam; os homens. É hora de os homens se unirem numa roda de conversa, de homem verdadeiro falando para homens e decidirem juntos que é hora de deixarem de ser predadores, de se comportarem como meninos birrentos, incapazes de lidar com frustrações ao ouvir um “não”. Não, o mundo não foi feito para satisfazer os desejos, para aceitar o comportamento egocêntrico e manipulador dos homens que agridem, estupram e matam. Homens adultos podem desenvolver habilidade de autorregulação emocional, podem aprender a considerar as necessidades e sentimentos das mulheres. Se aprenderam a ser maus, podem também aprender a amar para ensinar seus filhos, sobrinhos, netos a serem gentis, a aceitarem o ‘não’, a deixarem a mulher partir inteira, em busca de uma nova vida. 

As mulheres estão exaustas e precisam de ajuda masculina para que suas vozes atinjam o núcleo duro, que geralmente proteja o agressor, que ataca, é penalizado fracamente, desrespeita medida protetiva, não teme o aumento da pena e segue ameaçando com tortura emocional e destruição moral e física de mulheres. Não devemos esconder imagens e falas sobre a violência. Expô-las, publicizar é uma arma potente, quando não a única que a mulher tem. Em Mato Grosso, foi tornado público as agressões sofridas e a fala expressando a descrença na justiça e nas redes de apoio de uma jovem, que denunciou, sofreu represálias, denunciou, nada aconteceu com o agressor, até que ela usou as redes sociais para falar abertamente sobre o corpo e a alma machucados até o limite de suas forças.

Com as manifestações organizadas para o dia de hoje, a esperança brota lenta, desconfiada, mas pode ser o começo. Porque enquanto os homens se mantiveram calados, não foi possível avançar de forma ideal, desconstruir atitudes machistas e educar novas gerações de homens gentis.  

O paradoxo da escolha

Quando temos muitas opções, podemos nos sentir sobrecarregados pelas informações, tensos pela responsabilidade da decisão e podemos, no final, ver diminuída nossa satisfação com as escolhas que fazemos. Esse fenômeno é conhecido como o paradoxo da escolha. O brasileiro, agindo como se tivesse um sistema político bipartidário, decidiu livrar-se do paradoxo e embarcar na escassez e limitação das escolhas, radicalmente polarizadas, que classificam as pessoas: ou você é isso ou aquilo, ignorando os contextos, as abstrações, a tolerância com as diferenças, as mudanças, o amadurecimento e o respeito pelas escolhas individuais.

Essas condições podem colocar as pessoas em um ciclo vicioso de estratégias de polarização, aprofundando nossas amargas divisões e a retórica agressiva que tem caracterizado nossos debates sobre as eleições. A polarização, embora não seja novidade, ganhou intensidade. É um processo que simplifica a política, consolidando o campo político em apenas dois blocos opostos e cada vez mais imutáveis, divide o eleitorado em dois grupos que desconfiam um do outro. Perdeu-se o equilíbrio, as disputas eleitorais se tornaram implacáveis e a política está parecendo um jogo, onde o ganho de um lado tem que refletir a desmoralização e o esmagamento do adversário, que passa a ser o imoral, antidemocrático, o inimigo da nação.  

Ao ler um estudo sobre a polarização entre nações no livro escrito por Thomas Carothers e Andrew O’Donohue, Democracias Divididas: O Desafio Global da Polarização Política, é destacado que a ascensão de partidos populistas polarizou os sistemas democráticos, as mídias partidárias intensificaram as antigas ‘leves’ divergências, fazendo com que nossas diferenças pareçam maiores do que são efetivamente e Brasil, Estados Unidos e inúmeros países da Europa enfrentam fissuras políticas cada vez mais profundas e irremediáveis a curto prazo.

Tem sido acrescentado em alguns estudos um forte alinhamento de ideologia e religião com as divisões políticas, O Brasil é obviamente citado no estudo, por enfrentar crises sucessivas (econômica, moral, política) e atravessar um momento de debate político deteriorado, pulverizado por ataques pessoais, teorias conspiratórias e narrativas emocionais.

Eleições no Brasil sempre foram competitivas, os indivíduos são livres para expressar suas opiniões pessoais sobre temas políticos ou outros assuntos sensíveis sem medo de vigilância institucional, no entanto, os períodos eleitorais recentes foram afetados pelo medo da violência política, julgamentos e xingamentos. A retórica agressiva e divisionista tem contribuído para a sensação de medo entre muitos acostumados a discutir abertamente os seus direitos e preferências partidárias. Acontece que a polarização dá voz ao discurso de ódio, aumenta a violência política e não sabemos exatamente o que fazer para curar essas fraturas, que travam nossos diálogos sobre o cenário político.

Não desviemos o olhar das eleições de 2022 que foi marcada por uma competição acirrada entre partidos rivais e as campanhas, sobretudo majoritárias foram marcadas por desinformação, retórica agressiva nas redes sociais e serviços de mensagens online. A eleição de 2026 deve repetir o ambiente emocional de 2022 e enrijecer ainda mais a distância entre o campo progressista e conservador, o que reduz ou zera a possibilidade de surgir uma candidatura moderada, por ora. 

Nem todos os escândalos levam a perda de mandato

Na última eleição geral 2022 políticos conhecidos como Sônia Guajajara, Tarcísio de Freitas e o astronauta Marcos Pontes tiveram apontamentos de irregularidades no uso do recurso do fundo eleitoral e a prestação de contas foram aprovadas com determinação de devolução de recursos. Estamos falando das irregularidades com a aplicação de recursos públicos. Dois casos de candidatos conhecidos a Câmara Federal resultaram em perdas de mandatos; Deltan Dallagnol, eleito deputado federal pelo Paraná e Marcelo Crivella, eleito deputado federal pelo Rio de Janeiro. A maioria dos deputados que enfrentaram problemas com a justiça eleitoral, estão ainda confortavelmente exercendo seus mandatos, embora a fiscalização e a cultura democrática tenham se fortalecido e o eleitor bem-informado passa a acompanhar o comportamento público dos políticos, cujas reputações podem ser destruídas em horas.

O eleitor brasileiro, durante muito tempo, passou a mão na cabeça de políticos controversos e violentos, envoltos em uma imagem de dualidade entre mistério e realidade. Vindo de Alagoas, Tenório Cavalcante foi deputado estadual e federal pelo Rio de Janeiro. Figura emblemática, trajava sempre uma capa preta, indispensável para cobrir a metralhadora que sempre portava e carinhosamente a chamava de ´Lurdinha’. Sob o pretexto de proteger os pobres e a rede de distribuição de comida e remédios, criou grupos de justiceiros e teve o nome ligado a execuções sumárias de adversários políticos e extorsão. Continuou se elegendo deputado estadual por três mandatos consecutivos, do final da década de 1940 até final de 1950. Depois elegeu-se deputado federal. Perdeu a eleição ao governo do estado do Rio de Janeiro. Após doze anos sendo denunciado por chefiar grupos ligados a execuções, o coronel urbano Tenório Cavalcante foi retirado da cena política e entrou em declínio.

Outro caso escandaloso de personalidade violenta e controversa dentro do sistema político brasileiro surgiu nas eleições de 1994, com Hildebrando Pascoal, um Coronel da Polícia Militar do Acre, que foi eleito deputado federal, mesmo com conexão conhecida com organização criminosa e um grupo de extermínio. As denúncias de tortura, tráfico de drogas, execução de rivais, que aconteceram exatamente no exercício do mandato de deputado federal, como o caso de um homem que testemunhou contra ele e teve partes do corpo amputadas pelo próprio deputado, empunhando uma motosserra, chegaram a Brasília e a Câmara dos Deputados abriu uma CPI para apurar os casos e ainda assim, no auge das denúncias se elegeu deputado estadual pelo Acre. A Assembleia Legislativa do Acre cassou seu mandato e o deputado da motosserra foi preso condenado a mais de 100 anos de prisão.

No cenário atual, as transgressões continuam, transmutadas em transgressões simbólicas de comportamento, de elogio à vaidade e resvala na falta de decoro, como aconteceu com o candidato a prefeito de Brasnorte, que teve um vídeo íntimo vazado no período da campanha, o que lhe rendeu prejuízo pessoal e político. Para celebrar o que ele chamou de ´nova cara da política`, o prefeito de Canhoba (SE) publicou nas suas redes sociais um ensaio fotográfico onde aparece apenas de cueca preta. E cueca na política brasileira remete ao caso do Senador Chico Rodrigues, flagrado com dinheiro na cueca.

A prefeita de Marituba (PA) dançou forró de calcinha e sutiã e postou, justificando que a mulher pode ser trabalhadora, mãe, política e bonitinha. Roupa íntima para o convívio com os íntimos. A prefeita ameaçou processar quem repostou seu vídeo sexy, o STJ, no entanto entendeu que se o próprio político posta a imagem, está renunciando à expectativa de privacidade e tem que suportar os ataques e uso amplificado da imagem.

Ao findar este artigo, li sobre a prisão do ex-presidente Bolsonaro. Não comento decisões judiciais por absoluta falta de competência. Sou socióloga. E assim, sem recorrer a achismo, entendo que manifestações de defesa do ex-presidente em mídias sociais não ajuda muito. O que de fato, estão fazendo o partido e correligionários junto ao Judiciário sobre o julgamento e cumprimento da pena é o que conta. Prisão é problema da Justiça. Não há o que comemorar e causa desconforto enorme lembrar que, no atual período democrático brasileiro dos seis presidentes apenas Fernando Henrique Cardoso, Itamat Franco e Dilma não foram presos.

Não é cedo para falar das eleições de 2026

O momento presente não é tão cedo assim, porque sinais visíveis indicam que a campanha está tomando forma e os indícios são as reorganizações das forças políticas, as tensões diante dos anúncios de apoios de uns a outros, organização de chapas prováveis, o assédio aos prefeitos, os políticos circulando com mais assiduidade pelo interior do estado para inauguração de obras, visitas a feiras e para falar com a imprensa. O tom das conversas, discursos e publicações na mídia está ficando mais propositivo, fala-se de futuro, projeta um novo tempo, destacando os projetos e feitos que o candidato realizou no mandato. Quem não tem mandato ainda, está em atividade intensa nas redes sociais, se comparando com políticos de mandato, criticando-os, ao mesmo tempo que tenta participar do grupo político destes.

Em conversa com analista político dias atrás, compartilhamos o pensamento que não há de onde possa surgir um novo player na eleição em todo estado, portanto as análises devem recair sobre os nomes dos políticos conhecidos, cujos cargos a disputar podem ainda ser embaralhados. Ouvi que não está fácil antecipar fatos, prever resultados que se confirmem em 04 de outubro e que ironicamente está fácil perceber quem serão os derrotados no pleito de 2026.

As pesquisas de intenção de votos, estimuladas ou não que estão registradas são boas para consumo interno dos partidos, dos grupos políticos, porque sobre o resultado da eleição em si, ainda não dizem muito. As conversas formais entre os caciques estão acontecendo. As coligações e federações que foram definidas; como entre o União Brasil e Progressistas, que apresenta números estratosféricos com 109 deputados federais e 15 senadores, o que pode representar a maior força política do Congresso, domínio do horário eleitoral e volume surreal de investimento em campanhas, já que somados, terão 1 bilhão de reais de fundo eleitoral. Agora, como conciliarão os interesses nos estados, já é motivo de burburinho e ameaça de debandada. A União Progressista ainda aguarda homologação do Tribunal Superior Eleitoral, o que pode acontecer até seis meses antes das eleições.

A realidade política dos estados geralmente é ignorada nas articulações e formalização de alianças, sempre concebidas de cima para baixo, por isso noticia-se insatisfações, traições e debandadas e outras propostas de federações retrocederam por falta de consenso e afinidade ideológica entre os partidos.

Na prática, se quer ser ouvido e respeitado o político precisa convergir suas estratégias para que sejam percebidos sua estatura política e o alcance de sua liderança. Isso não é arrogância ou vaidade, é estar pragmaticamente em conexão com a sociedade que representa, inspirando com responsabilidade. Portanto, chiadeira, mudanças de partido, antecipações de candidaturas, construção de alianças, são movimentações naturais que agitam o cenário político em véspera de eleições.

Com ameaças de políticos tradicionais mudar o domicílio eleitoral para garantir a continuidade do poder em outro estado, fato, que embora legal, lança luz de desprezo nas lideranças locais, as eleições de 2026 exigem atenção redobrada. Atentos devem estar o povo e a justiça eleitoral de Mato Grosso, que foi muito elogiada esta semana, durante a celebração dos 93 anos do TRE MT e muito se falou dos desafios que o órgão tem que superar para cobrir a gigantesca proporção territorial do estado, para que os cidadãos possam exercer o direito de escolher seus candidatos. A expectativa, pelo visto tem-se cumprido quanto a rigidez na observação das leis e imputação de penas, porque estamos recebendo informações sobre vários vereadores eleitos em 2024, cujos mandatos estão sendo cassados pela Justiça Eleitoral, 1 ano depois.