Não é calar-se – é aprender a falar sem ferir

A Quaresma é um tempo de conversão espiritual de 40 dias. É uma prática muito antiga e esse tempo de penitência deve vir acompanhado de jejum, oração e caridade. Na Quarta-Feira de Cinzas, o Papa Leão XIV abriu o período da quaresma com a fala intitulada “Escutar e Jejuar. Quaresma como tempo de conversão”, propondo aos fiéis que ampliem o significado tradicional do jejum, geralmente um período em que os cristãos, em ato voluntário de renúncia, normalmente ligado à abstinência de carne ou outro alimento e estendam o jejum também para a língua, ou seja, jejuar também daquilo que sai da boca para ferir e destruir, que renunciem as atitudes que machucam, que os fiéis evitem as palavras agressivas, julgamentos precipitados, fofocas e calúnias, ironias que humilham, discursos de ódio ou desumanização do outro. O jejum também, como um exercício de autocontrole e civilidade.

A violência contemporânea, muitas vezes, começa na linguagem. Antes da exclusão social ou da violência física, existe a desqualificação verbal. Em termos sociológicos, o pedido do Santo Padre dialoga sobretudo com o mundo digital, onde as redes sociais amplificam ataques verbais; a polarização política transforma adversários em inimigos irreconciliáveis e a linguagem vira arma. Em tradições e contextos diferentes há uma convergência de que a violência começa antes do gesto, começa no discurso. O Budismo propaga a filosofia da “Fala Correta”, que é a prática de evitar palavras que causam sofrimento e perpetuam a ignorância. O Cristianismo, através do Papa Leão XIV prega que jejuar de palavras que ferem rompe ciclos de violência. A Filosofia socrática ensina sobre a responsabilidade racional antes de falar e filtra a fala pela verdade, bondade e utilidade.

Não é censura, é responsabilidade. É a difícil arte de abster-se de palavras ofensivas para desarmar a linguagem, um pedido para trocarmos a acusação pela escuta. É atribuído a filosofia socrática e é da tradição budista também, o uso do triplo filtro. Conta-se que alguém procurou Sócrates para contar algo sobre outra pessoa. Antes de ouvir, o filósofo utilizou três filtros: Filtro da Verdade: Você tem certeza de que isso é verdadeiro? Filtro da Bondade: O que você vai dizer é algo bom? Filtro da Utilidade: Isso é útil, é necessário que eu saiba? Mesmo uma verdade, dita sem caridade vira agressão, tecer comentários afoitos, sem empatia vira violência simbólica. O Papa não pede que os cristãos se calem, pede que se conscientizem que as palavras têm poder de levantar ou destruir. Cuidar das palavras é uma prática espiritual diária. Disse o Pontífice: “Comecemos por desarmar a linguagem, renunciando às palavras mordazes, ao juízo temerário, ao falar mal de quem está ausente e não pode se defender, às calúnias.”

A Fala Correta, que integra os ensinamentos atribuídos a Sidarta Gautama (o Buda), orienta como reduzir o sofrimento humano. A tradição sugere que em muitos casos, o silêncio pode ser mais sábio, mas ao optarmos por falar, não devemos distorcer a verdade, usar palavras divisivas para afastar as pessoas, não devemos insultar, humilhar ou simplesmente falar sem consciência do impacto que o comentário pode causar. Nem tudo precisa ser dito apenas por que é verdadeiro.  

Filhos como instrumento de vingança

Tragédias familiares merecem respeito e a observação dos limites éticos para se adentrar nas histórias alheias. No entanto, o crime ocorrido na cidade de Itumbiara, no estado vizinho de Goiás, onde um pai atirou contra os dois filhos e em seguida tirou a própria vida, precisa ser entendido no contexto da violência brutal e da frieza que dominaram o coração sedento por vingança de um homem adulto, consciente, de 40 anos. Não há que se ter complacência, sequer devemos explorar outros ângulos de acontecimentos anteriores ao crime. Duas famílias foram destroçadas pela crueldade e o único culpado pela tragédia diminuiu-se na covardia e tirou a própria vida, pela incapacidade total de responder pela atrocidade cometida.

Esse tipo de violência tem nome: violência vicária, que consiste na estratégica de ferir o outro através de quem ele mais ama e reúne os elementos que vimos no caso acima: crise conjugal, os filhos foram escolhidos como armas simbólicas ou instrumentos de chantagem psicológica e suicídio após o crime. Falar sobre essa tragédia é necessário para retirar dela o rótulo e o disfarce de apenas um ‘drama familiar’.

O pai teve tempo para escrever carta e publicá-la nas redes sociais, arrepender-se e apagar a mensagem, houve tempo para trazer galões de gasolina para incendiar a casa, se o plano 1, de assinar as crianças a tiros falhasse. Houve, portanto, frieza, premeditação. A história de `coitadinho, ninguém pensa na dor insuportável que ele estava sentindo’, não deve uma linha de reflexão válida porque a violência, o assassinato não pode ser a resposta ao que nos machuca. Um homem descontrolado, incapaz de lidar com suas emoções matou os filhos para destuir a mãe deles. Então, usar os filhos como instrumento de chantagem para amedrontar ou humilhar ou ainda, para manter o cônjuge homem ou mulher atados a relacionamentos falidos não é algo incomum.

Usar o filho como arma ou usar a arma contra o filho é uma dinâmica não apenas de crueldade, mas de disputa de poder e vingança emocional dentro das relações familiares, onde conscientemente assim articulam o pensamento: ‘Se não posso controlar meu parceiro, controlo aquilo de mais importante que o liga a mim, nesse contexto, o filho deixa de ser percebido com amor e torna-se a arma para ferir o outro, o instrumento da vingança final. Quem nunca ouviu uma destas frases antecederam as tragédias? “Ela nunca mais vai ser feliz ou ela vai sentir a minha dor”. O crime torna-se a mensagem de que a dor será para sempre. Tragédia semelhante aconteceu praticamente no mesmo dia na Bahia, onde um pai matou a filha de 15 anos e tirou a vida em seguida; aconteceu há dois anos com uma delegada de Polícia do estado do Pará, que teve os dois filhos do casal de 12 e 9 anos assassinados pelo ex-marido, que igualmente, tirou a própria vida.

Na lógica da vingança, da violência indireta, quem deveria proteger produziu o horror coletivo. Não, não foi uma explosão momentânea e sim, uma violência perturbadora, planejada para matar duas vezes. As crianças não eram alvos, mas se tornaram o instrumento para destruir a mãe psicologicamente, para sempre.

Com a mãe viajando, no abraço do pai estaria a segurança das duas crianças de Goiás, porém, pai não pensou nos filhos um só instante, tomou a sua dor como ‘a maior do mundo’ e atirou nos dois garotos, para fazer sangrar o coração da mãe. No Brasil não há um controle sistemático, estatístico para filicídio – pais que matam seus filhos – mas encontra-se registros do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do UNICEF que indicam centenas de casos de mortes intencionais. No contexto do crime conjugal indireto – matar o filho para atingir o parceiro ou parceira, as mães aparecem em casos de bebês e pais aparecem mais ligados a mortes de crianças maiores.

A música aprece quando a política abandona seus limites éticos

A música vai além do campo do entretenimento e se consolida como linguagem política, que mobiliza afetos, constrói identidades coletivas e é excelente ferramenta de contestação, propaganda ou resistência, sobretudo em contextos autoritários. Na América Latina, canções conhecidas denunciaram ditaduras, quando o povo e a mídia foram silenciados. Na África do Sul, músicas foram armas simbólicas contra o apartheid. No Brasil, a música restabeleceu a verdade quando o discurso público foi reprimido. A atuação de cantoras e cantores reforçaram a ideia de que o poder também se constrói por símbolos compartilhados e poucos símbolos são tão poderosos quanto uma música cantada coletivamente em um espaço público.

 “Pra não dizer que não falei das flores” música lançada em 1968, por Geraldo Vandré, mais do que uma música, virou um hino, um manifesto público cantado, o maior símbolo da resistência brasileira contra a ditadura militar. A letra é direta, um ato de convocação imediata para a luta, algo intolerável para o regime autoritário da época. “Vem, vamos embora, que esperar não é saber. Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”. A música foi censurada e Vandré, perseguido pelos militares, se exilou no Chile.  

Foi Fafá de Belém a cantora que deu voz à rua e através dela a cultura assumiu a mediação entre o povo e os militares em um momento de transição incerta no País. A ditadura militar já durava vinte anos. Fafá trocou o palco pelos palanques de grandes comícios, onde cantava para multidões, ao lado de Dante de Oliveira e Ulysses Guimarães, transformando o hino nacional em um ritual cívico. Era uma artista popular, mas rompeu o silêncio confortável ao cantar nas Diretas Já, e ensinou que conquistar a democracia não é pauta apenas de políticos, mas do povo. Mesmo com a derrota da Emenda Dante de Oliveira, o movimento das ´Diretas Já´ marcou o início irreversível da redemocratização. Fafá de Belém cantou e o país reaprendeu a falar. Quando a política brasileira adoeceu, a música falou por ela.

A cantora argentina Mercedes Sosa transformou suas músicas em hinos de resistência política no contexto da ditadura militar de seu país, 1976-1983, período de repressão violenta e desaparecimento de pessoas por parte dos governos militares. Usou a sua música Todo Cambia como linguagem alternativa de protesto, capaz de driblar a censura: “Muda o que é superficial, muda também o profundo. Muda o modo de pensar, muda tudo neste mundo”. Transformou a música Gracias a la Vida, escrita por Violeta Parra, em um hino à dignidade humana, em período de violações de direitos em quase toda América Latina. Foi presa e forçada a buscar exílio político. Mercedes Sosa não representava apenas o protesto, mas sobretudo a resistência, a ideia de que o regime muda, o político passa, o povo permanece.

Em Max Weber, a autoridade nem sempre é institucional, pode ser carismática, fundada na legitimidade moral da causa. O cantor Bruce Springsteen consolidou-se como uma autoridade legítima, que critica o governo americano desde o período de Ronald Reagan e mais duramente, os governos de Donald Trump. Tem sido uma das vozes mais contundentes da crítica moral e política à violência institucional, ao autoritarismo retórico e à diluição da democracia nos Estados Unidos sob Trump e pede sistematicamente o impeachment do presidente. Sua música e seus discursos são acusações diretas e intensas contra a violência. Desde que escreveu a letra de ´Born in the U.SA.` em 1982 crítica as guerras financiadas pelos Estados Unidos: “Então eles colocaram um fuzil na minha mão, me enviaram para uma terra estrangeira Para matar o homem amarelo. Eu nasci nos Estados Unidos”. O patriotismo de Bruce Springsteen é muito crítico e quando um artista com a legitimidade cultural de Springsteen denuncia políticas violentas, ele retira o monopólio do patriotismo das mãos do autoritarismo e nos lembra que democracia exige vigilância constante.

A construção do nós contra a violência

Violência não é entretenimento, não é brincadeira e não é aceitável sob nenhuma circunstância. As últimas semanas tem nos mostrado imagens duras de violência por toda parte do globo. É isso que temos? É isso que assistiremos. Não vale fugir da verdade difícil, tampouco suavizar a personalidade dos que estão por trás das notícias cruéis.

Violência de adolescentes é sintoma de negligência, não é acaso. Um grupo de jovens endemoniados de Florianópolis, movidos pelo tédio de suas vidas sem significado, buscaram no âmago de suas fantasias e desvios comportamentais, formas brutais de tortura e as testaram em uma cadela dócil, que há dez anos vivia na comunidade. Abandonada agonizando, foi socorrida e teve que ser eutanasiada devido à gravidade das lesões internas e externas. Situações dessa natureza afrontam nossos valores fundamentais de convivência social, de respeito à vida.

A diversão dos adolescentes chocou o mundo e rezemos para que a comoção que o caso gerou, faça a justiça agir no limite do rigor (quase nenhum) das medidas socioeducativas aplicadas a menores delinquentes e assassinos. Se não forem duramente punidos, os adolescentes que torturaram a cadela Orelha poderão eleger um humano, possivelmente a mulher com quem se relacionarem, como suas futuras vítimas de violência.

A trajetória de risco que esses adolescentes inspiram precisa ser interrompida pela educação, pela punição, ou ambos. A brutalidade deles não merece compreensão, relativização ou silêncio, principalmente porque a violência não surge do nada. É preciso ligar o alerta contra esses meninos maus, que não demonstraram nenhum sinal de culpa ou arrependimento e os pais de alguns dos envolvidos no crime de tortura contra a cadela, tentaram intimidar testemunhas. Li que a crueldade contra animais é sinal de alerta que aponta para falhas na educação emocional, na formação ética e estimula à demonstração de força e reconhecimento dentro do grupo ou dentro de um relacionamento.

Essa desorganização emocional aliada a traços perversos exige reflexão coletiva. A maioria dos nossos valores não são inatos. São aprendidos, quando estimulados. Educar as crianças, no sentido de formar consciência cidadã, fortalecer a educação emocional, a empatia e o respeito são cruciais. Pais e educadores precisam ensinar as crianças a lidar com seus impulsos, com suas raivas, para que na adolescência já sejam capazes de nomear seus sentimentos e controlar seus impulsos.

Um vídeo gravado por uma câmera de monitoramento, dois dias atrás, também em Santa Catarina, mostra uma senhora, sem nenhuma razão, agredindo verbalmente o vendedor de uma loja, descarrega-lhe uma série de xingamentos de cunho racista e encerra `não gosto de negro`. O preconceito, a falta de respeito não nasceram naquele momento. São condutas alimentadas. Foi registrado boletim de ocorrência e sua imagem está sendo divulgada para, pelo menos criar-lhe algum constrangimento.

Recentemente, em Várzea Grande, um homem atropelou violentamente uma senhora, percebeu o corpo destruído no asfalto e fugiu. Foi perseguido, trazido à cena do crime e justificou, possivelmente com ironia, que não atropelou a vítima, ela sim, colidiu com o carro em altíssima velocidade. O ser humano ali foi objetificado, sua dor, a dor dos familiares não foi reconhecida. O comportamento violento do assassino veio à tona; o homem já havia feito duas outras vítimas, com outras armas, em circunstâncias de violência extrema. Se não cumprir a pena adequadamente, a quarta vítima, no tiro ou no trânsito, será uma questão de tempo.

Blefes – na política contemporanea o riso circula rápido

Max Weber, em A política como vocação (1919) levantou questões sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade. A ética da convicção é baseada em princípios absolutos, na religião, por exemplo. A ética da responsabilidade se baseia no pragmatismo extremo, onde o político, avaliando os efeitos práticos de sua decisão, pode fazer uso de meios moralmente duvidosos para atingir um fim bom. Ou seja, o político pode omitir, dramatizar ou exagerar se isso evitar um mal maior.

O blefe na política é uma tática comum e pode ser analisado como estratégia de poder, risco calculado, um instrumento simbólico de autoridade ou sinal visível de decadência do poder real, é, sem dúvida, uma marca da política contemporânea onde líderes exageram apoios, dissimulam intenções ou prometem feitos irrealizáveis para ganhar vantagem eleitoral ou força nas negociações.

O blefe vira quase regra de jogo nas campanhas eleitorais. São grandes blefes de narrativas, de alianças, de compromissos. A campanha é, por natureza, tempo de narrativa, não de entrega. O blefe nesse período tem a intenção de criar expectativa, ganhar adesão, testar a força política e ganhar tempo até que chegue o momento das decisões. No Brasil, blefar não é considerado desvio moral, se assemelha a um desvio de linguagem, de discurso, porém, quando um político vem a público exaltar que tem a maioria, que ´fulano está fechado comigo´ ou que o povo pediu sua candidatura, revire os olhos e se pergunte: maioria, quem? Fulano, quem? O povo, quem?

A retórica inflada é blefe. O líder político que realmente está forte não precisa repetir que está forte. Políticos internacionais, nacional e local blefam descaradamente. O ex-presidente Fernando Collor, com o grande o blefe de ´caçador de marajás´ na campanha de 1989, construiu um antagonismo simples: o povo contra a elite corrupta, ocultando a realidade, onde ele próprio era parte da elite corrupta. Funcionou eleitoralmente, mas não se sustentou no governo. O ex-governador de São Paulo, Paulo Maluf não blefava pouco, ele se elegia e governava pelo blefe. Paulo Maluf, na época entendeu que o eleitor tolerava o blefe desde que o governo entregasse obras físicas. A engenharia substituiu o debate político, por muito tempo.

A imagem recente caricaturada do blefe é o presidente americano Donald Trump que anunciou o ´tarifaço´ como instrumento de coerção. Rapidamente o tarifaço virou um anúncio performático, sem sustentação, então, o mercado e os países pararam de levar a sério e a medida começou a cair em vários países. A ideia de “comprar” a Groenlândia, foi duramente criticada e ironizada no Fórum Econômico Mundial em Davos esta semana. A bravata de Trump, tentando mostrar que tem poder absoluto e pode comprar até territórios nada mais é do que a confusão que o presidente faz entre poder e espetáculo. Logo, o blefe do tarifaço é hoje tratado como bravata e a invasão da Groenlândia virou piada diplomática.

Quando o blefe vira motivo de riso e deboche, ele deixa de ser estratégia e passa a ser a exposição da fraqueza, o riso debochado é sintoma de esvaziamento do poder. Para Hannah Arendt, quando o poder se dissolve, sobra encenação, ameaça vazia e espetáculo. O deboche público é sinal de que o blefe não intimida mais. Na política contemporânea, o blefe desmontado vira conteúdo viral e o riso circula rápido.

Hoje, apoio não significa compromisso

 O sociólogo polonês Zygmunt Bauman exerceu grande influência no século XX, por seu trabalho sobre a modernidade líquida, caracterizada pela fluidez, incerteza e efemeridade nas relações pessoais e entre instituições sociais. Os laços são frouxos e reversíveis, o que é hoje pode não ser amanhã ou daqui a algumas horas. A ideia de modernidade líquida ajuda a entender a lógica impregnada nas campanhas eleitorais contemporâneas, onde reina a falta de referências duradouras, onde nada se solidifica por muito tempo e o espaço público está cada vez mais vazio de questões públicas.

A política, não escapa e tem se tornado fluida, incerta e fragmentada com a ascensão do individualismo e a desconfiança nas promessas de futuro, resultando em desengajamento social e promovendo o engajamento nas pautas de narrativas simplórias, mas de impacto rápido. Os impactos atingem o eleitor que muda de opinião com rapidez, geralmente influenciado pelas redes sociais, pela emoção do momento, por narrativas curtas e impactantes e seu voto deixou de ser fidelizado. Toda essa mudança de comportamento abre espaço para o discurso antissistema e identificação com lideranças líquidas, políticos reativos, mais performáticos do que pragmáticos.

Os efeitos da modernidade líquida na política se manifestam na quebra daquilo que antes era o eixo que sustentava uma candidatura: partido, ideologia e programas. Hoje, apoio não é compromisso, é circunstância. Os apoios duram enquanto são úteis. Quando a utilidade acaba, o apoio evapora e prevalecem a conveniência, o cálculo e o curto prazo. As campanhas eleitorais estão se tornando arenas de narrativas rápidas e de debates superficiais porque os ciclos de atenção dos eleitores são curtos.

Apoios políticos surgem e desaparecem rapidamente. Muitas demonstrações públicas de apoio, são apenas apoio eleitoral, não são compromissos pragmáticos. Temos visto políticos fazendo declarações públicas de apoio a candidatos em pré-campanha, fazem aparição conjunta, mesmo sabendo que daqui a pouco esse apoio pode ser inviabilizado pela estrutura partidária. As falas, as fotos de agora são apenas conveniência estratégica. Ficando firme na leitura de Bauman, assim como nas relações pessoais líquidas, o laço político frouxo evita obrigações, preserva a liberdade de entrar e sair de um projeto político sem culpa pelo rompimento. Na modernidade líquida, a política do vínculo não cria raízes, cria opções de fuga.

Em Bauman, a política reproduz a lógica das relações pessoais líquidas, onde os apoios duram enquanto geram vantagem, a confiança institucional é substituída por cálculo imediato, o vínculo político de lealdade existente tempos atrás deixa de ser compromisso e vira contrato informal, fácil de romper e o eleitor se relaciona com a política como consumidor: avalia, compra, experimenta candidato como produto e o descarta.

A política, na modernidade líquida privilegia o medo, o ressentimento. Entende por que a polarização não passa? Porque a política moderna e líquida deslegitima o diálogo e as alianças. Bauman não aponta nenhuma solução em 267 páginas do livro Modernidade líquida, faz apenas uma análise das condições cambiantes da vida social e política.

Cuidar da mente se transforma em aliado político

No contexto de pressão política, o equilíbrio interior se torna uma ferramenta de sobrevivência ética, emocional e estratégica porque a pressão política desequilibra os contextos e discursos e atua em camadas profundas devido à exposição constante ao conflito, à disputas, cobranças públicas tanto pessoalmente quanto nas redes sociais, além da sensação de urgência contínua. Claro que esse ambiente favorece ansiedade e desencadeia reações impulsivas.

Maquiavel em o Príncipe escreveu um tratado sobre o domínio de si e como manter o equilíbrio emocional no ambiente hostil da política. Em Maquiavel o governante precisa ter lucidez para governar a si mesmo antes de governar os outros. O maior perigo para o político não é o inimigo externo, mas, a vaidade, a impulsividade e o medo de perder. E o bom governante de Maquiavel não se deixa levar pela raiva, não se ilude com elogios e tampouco se deixa paralisar pelo medo.

Equilíbrio emocional é também o controle da imagem que alguns políticos preservaram ao longo de suas trajetórias e depois. O presidente americano Abraham Lincoln foi algumas vezes chamado de fraco antes de ser reconhecido um herói nacional, por haver conduzido os Estados Unidos num período de pressão externa. Sofreu ataques pessoais, derrotas militares. Manteve o controle. Escrevia cartas duras aos adversários que o atacavam, mas não as enviava; O símbolo mundial da luta contra a segregação racial e presidente da África do Sul, Nelson Mandela ficou preso por 27 anos e, ao sair, em vez de vingança ofereceu um projeto equilibrado de reconciliação nacional entre as raças. Gandhi enfrentou um império com jejum, resiliência e silêncio. Defendeu que o autocontrole tem que vir antes do domínio político. Historiadores estabelecem que eles tinham em comum o autocontrole emocional transformado em força política.

No Brasil, onde a política nacional costuma favorecer a retórica e o confronto, alguns líderes são lembrados pela temperança como Fernando Henrique Cardoso, que exerceu o poder mais pela articulação e convencimento do que pela emoção; Ulysses Guimarães, considerado o símbolo da serenidade e equilíbrio institucional. Liderou com autocontrole emocional tempos difíceis de ruptura e dizia que a democracia exige paciência e não emoções políticas descontroladas. Tancredo Neves, o mestre, cujo equilíbrio emocional e sua política de conciliação foram essenciais para reduzir as tensões nas negociações para a transição democrática. Michel Temer confundiu um pouco com seu perfil de reações calculadas, maquiavelismo puro, pois mesmo diante de um quadro quase permanente de impopularidade manteve baixo nível de reação emocional.

Para além da política e dos políticos, o equilíbrio interior deve ser pauta e objetivo de vida para evitar esgotamento mental e ações extremadas. Vamos reaprender a responder em vez de reagir, diferenciar ataques pessoais de disputas por ideais. Nem toda crítica exige resposta; nem todo ataque merece internalização e o silêncio, na maioria das vezes é autoproteção, não fraqueza. Precisamos valorizar os espaços de verdade, onde não precisamos performar nem vencer debates, ao contrário, podemos impor limites saudáveis, exercer menos autocrítica, sermos mais compreensivos. Cuidar da mente é fazer gestão do ego para não permitir que cargos e bens sejam confundidos com identidade.

A campanha nacional do Janeiro Branco estimula a reflexão sobre como lidamos com as emoções e sentimentos. Lembro de uma frase do médico cardiologista francês Frédéric Saldmann, que defende que devemos ser maiores por dentro e que cuidar da mente não é um luxo, porque o estresse crônico contamina o corpo, enfraquece o sistema imunológico, piora as doenças inflamatórias e aumenta risco cardiovascular. E que um corpo bem autorregulado, escolhas saudáveis repetidas são os remédios eficazes para preservar a saúde mental.

A dificuldade de criar consensos e a estabilidade de pequenos acordos

O tempo não precisa ser perdido alimentando ressentimentos. O segredo é manter os pés em movimento até que a paisagem mude, porque nenhum sentimento ou posicionamento é definitivo. Li um poema do poeta austríaco Rainer Maria Rilke que diz que nenhum sentimento que temos é permanente. Nem o pavor paralisante de uma derrota nem a euforia de uma vitória. Tudo passa. A alegria e a tristeza e tudo o que há entre elas. Cada sofrimento, cada luta logo se transforma, por isso nenhuma experiência isolada, nenhum posicionamento deve definir a sua vida inteira. “Deixe tudo acontecer com você: a beleza, o terror, a dor, a surpresa. Apenas continue.”

A  vida implica convivência, envolve sentimentos e sofrimentos. A vida pede sentido. A vida é finita.

Embora não exista uma sociedade plenamente consensual, o esforço para criar consenso não significa eliminar o antagonismo, tão necessário para nosso crescimento pessoal, basta ter compromisso com a escuta de contextos adversos. Porém, temos vivenciado que o diálogo contemporâneo tem sido tensionado por conversas que não buscam o reconhecimento das diferenças, a convivência pacífica com o desacordo, busca sim, mobilizar ressentimentos, medos e desconfianças.

Veremos que os desafios do ano novo não são novos; estamos há quase 10 anos mergulhados em dissenso, promovendo o esvaziamento do convívio público com muitas pessoas, envoltos em diálogos assimétricos, onde a maioria fala a partir de seus próprios conceitos e privilégios, enquanto deveríamos reconhecer a legitimidade do outro como interlocutor, mesmo que seja de ideais que nos desafiam.

Muito de nossos pensamentos e emoções não são baseados e nem sequer reflexos de fatos que estão acontecendo, são mais, ruídos de crenças e histerias.

Falamos em apostar mais no diálogo, porque o consenso sempre causou desconfiança e desconforto aos estudiosos, como a belga Chantal Mouffe, uma crítica, que acredita que busca cega pelo consenso pode calar a diversidade, alongar a conformidade e para ela a pluralidade de ideias deve estar acima da perseguição de um estilo de vida consensual. Sem consenso, porém abraçando cada movimento, cada tempo com harmonia, valorizando o diálogo, com respeito a expressão da vontade do outro. Se não alcançamos o consenso, que saibamos viver com a estabilidade de pequenos acordos.

Enquanto o consenso tem caráter exigente e distante, quase uma ficção, o diálogo possível não precisa levar a concordância, mas a possibilidade de coexistência com o conflito, com o desacordo e com as diferenças.

Em 2026, ano de eleições gerais vozes dissonantes vão ecoar por toda parte do país para falar sobre política. Lembremos que a política é mantida pela ação e palavra de pessoas que pensam diferentes, comungam crenças diferentes, o que torna o diálogo mais importante do que os acordos. O dialogo sem ruído, pressa e julgamento ganha força por promover consensos temporários, revisáveis, indispensáveis numa campanha política e na vida social, onde temos falado muito e escutado pouco e nos fechado em certezas próprias, para evitar desilusão. Novamente, o poeta: “Deixe tudo acontecer com você: a beleza, o terror.  Apenas continue.” E as desilusões vão ficando para trás.

Ainda que não nos reconheçamos como partes de um projeto de vida comum, que tenhamos disposição para conviver com as diferenças de gênero, raça, cultura, religião e modo de vida, porque as diferenças se não são absorvidas podem ser retratadas, não como parte da pluralidade e sim, como ameaças, que abrem caminhos para discursos de ódio, posições autoritárias e idolatria.

O desafio é grande, os espaços digitais, que são ferramentas essenciais para construir e reconstruir vínculos se tornaram, muitas vezes, arenas de debates irresponsáveis e normalização do divisionismo.  Se não há como evitar as mídias sociais, passemos a utiliza-las em convivência respeitosa.

Quando o debate vira entretenimento, o essencial desaparece

No livro 1984, o fabuloso George Orwell, ensina que “enquanto as pessoas discutem detalhes insignificantes sobre um tema, deixam de perceber que o essencial está sendo decidido sem elas.” É uma forma eficiente de controle político desviar para a superficialidade as discussões e campanhas públicas e políticas. Tem-se falado muito para evitar falar sobre o essencial, que são as denúncias de corrupção, do índice absurdo  de feminicídio, da falta creches, das obras inacabadas. Em meio a tantas prioridades, no estado, na capital do estado e no país é inaceitável que se cobre alinhamento político a um par de chinelos mais do que se cobre políticas públicas de proteção às mulheres.

Hannah Arendt, ao analisar os regimes totalitários mostra enfaticamente como a política perde a importância quando o debate público é substituido por ruídos e banalidades.’ Quando os fatos deixam de importar, qualquer tema irrelevante é jogado no centro de um debate só para ocupar espaço na mídia. Tem-se falado muito de coisas que não ameaçam o poder e tampouco lhe acrescenta coisa alguma. Desvia-se o debate sobre problemas sérios para criar conflito e para tranformar a política em espetáculo.

Resistir a divisão e a espetacularização da política é um exercício de maturidade democrática. Sabemos todos que os chinelos nunca foram alvos da discussão, seu entorno, sim; os bilionários Moreira Salles que detém a marca e as ligações e preferências saudáveis por certos artistas. Isso não tira da empresa o símbolo do estilo de vida brasileiro, alegre, colorido, despojado e as propagandas, além de focar em vender chinelos, quase sempre têm mostrado a pluralidade cultural, social e simbólica do país, o que via de regra, provoca identificação com aquela ideia de que todo mundo usa.

Nem tudo na vida resvala na politica, nem tudo reflete o pensamento raso de quem se divide, no clássico: eu estou de um lado, eles estão do outro. As pessoas adultas seguirão caminhando com o pé direito e esquerdo, ou dando ‘seus pulos’ com os dois pés para sobreviver.

A política não precisa ocupar todos os vazios da experiência humana; temos família, amigos, celebrações, estudos, conversas triviais que não precisam estar impregnadas de manifestação política. Em tempo de incompreensão, é preciso abrandar a radicalização; discordar sem hostilizar, debater sem desumanizar e reconhecer que a identidade de marcas e de pessoas  não se esgota em suas posições políticas e que a linguagem do pensamento crítico não é o ódio. As pessoas precisam de espaço para existir sem ter que tomar partido e se posicionar ou dar explicações o tempo todo.

No sentido figurado,  o excesso de enquadramentos divisionistas e polarizados está causando um profundo cansaço, a convivência cotidiana está se tornando tensa e o ano eleitoral que se aproxima promete deixar de ser apenas um tempo de debate mas um contexto de redução de diálogo e apostas no conflito.

Em tempo de preparação para as eleições de 2026, a ideologia política não deve assumir esse caráter doentio, essa devoção, porque mais do que falar bem ou mal de uma marca, o que percebemos foi o culto nada saudável aos políticos que alimentam a divisão, a polarização e acabam levando os seguidores a se afastarem dos princípios básicos de  respeito e empatia. Sem discussões e paranoias, há outras marcas de chinelo no mercado. Ninguém se importa se você não se sente confortável usando havaianas. Simplesmente mude, sem paixão, porque isso não é sobre política. É um conteúdo aleatório trazido à tona propositalmente para cooptar e alienar a sua mente. 

Observar o tempo político para não perder o momento

O conflito é inerente à democracia. Muitos teóricos políticos, a exemplo da filósofa alemã Hannah Arendt argumentam que a democracia envolve inerentemente desacordo e o choque de interesses conflitantes. Suprimir o conflito pode mascarar desequilíbrios de poder e silenciar a necessária luta política, potencialmente servindo aos interesses daqueles que já estão no poder. Quando o silêncio se torna conveniente demais, significa que a pluralidade não está sendo expressa e a cientista política belga Chantal Mouffe, considera que não há necessidade da busca excessiva por consenso e que a democracia não elimina o confronto, ela o civiliza.

O contexto importa: em nosso estado, o momento apropriado para o confronto está sendo empurrado para frente o máximo possível. A ideia é que “ainda não é hora para o confronto.” Ainda não estamos no momento: “ou você está conosco ou está contra nós.” O tempo de maturação, de arranjos políticos, análises dos riscos e convencimento está no ar. E esse tempo possibilita vivenciar incríveis revelações, sobretudo de políticos mais experientes. Um prefeito com quem conversei essa semana, demonstrou a flexibilidade e contradição que está havendo na construção das candidaturas: aliado de um tradicional político do estado, é filiado a um partido que não é o do padrinho político e apoiará firmemente e publicamente o processo de reeleição de um deputado de linhagem política e partido que não tem nada a ver com as duas situações citadas.

Há planos A, B e outros que avançam sem confirmações para não serem pegos de surpresa e para não gerar desconforto se não se consumarem. É uma posição de estratégica que reconhece tanto os riscos quanto as potenciais necessidades do confronto político mais na frente. Nos Discursos sobre a Primeira Década de Tito Lívio, Maquiavel nos ensina que postergar confrontos políticos costuma ser um erro estratégico, que o conflito e o confronto são valiosos instrumentos políticos e o político deve estar vigilante para não perder o tempo certo de enfrentar o adversário, de fortalecer sua posição e não frustrar a própria base, embora seja muito comum a crença que não brigar preserva o capital político. Sobre esse pensamento, tem-se dito que na política, quem tenta agradar a todos, perde o respeito de todos.

No tempo certo, é essencial escolher quais confrontos comprar e quais evitar para consolidar a imagem de comando. Essa foi a estratégia da política alemã Angela Merkel, que diante das várias eleições que disputou raramente entrou em confrontos e adiava ao máximo entrar em campanha porque se colocava como uma líder acima de qualquer disputa, fazia campanhas curtas, econômicas porque considerava sua autoridade já consolidada. Isso é para poucos, no Brasil, comportamento semelhante teve Fernando Henrique Cardoso, convencido que sua personalidade já bastava para torná-lo um estadista.

A discordância e a dissidência construtivas são vitais para o bom funcionamento de grupos e sociedades, elas podem servir como um mecanismo de autonomia e equilíbrio dentro dos picos historicamente altos de polarização que estamos vivenciando. A consistência ideológica partidária está fluída pela diversidade de opiniões dentro dos partidos em diferentes questões políticas e rigidez nenhuma com membros que exibem comportamentos desviantes. O discurso ainda está claramente dúbio entre um e outro lado e a expectativa de afirmações de candidaturas majoritárias entra para 2026, num silêncio, diria, estratégico, sem grande cobrança de alinhamento.