A sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana

Começo escrever destacando o valor da reflexão, o processo de olhar para trás e aprender com o que fizemos, antes de seguir em frente. Dessa forma, podemos aplicar pequenos passos para a melhoria da caminhada. A felicidade é subjetiva, não objetiva, e o que definimos como sendo a felicidade pode ser debatido ‘ad infinitum’. A ansiedade, diante do nosso tempo conturbado, associada à nossa crescente compreensão da brevidade da vida, pode ser a principal razão pela qual aparentemente e incessantemente nos tornamos buscadores da felicidade.

A maioria dos livros de sociologia, sem dúvida, debate os tópicos tradicionais e inevitáveis ​​de “estratificação social”, “socialização”, “papéis”, ‘status’, ‘classe’, ‘racionalização’, só para mencionar alguns. Embora todos esses tópicos consagrados pelo tempo tenham mérito, relevância e potência sociológica, é raro que alguém considere a ‘felicidade’ como uma preocupação fundamental dos sociólogos. Na maioria dos índices de livros de sociologia, a felicidade quase nunca aparece.

Comecemos por considerar se a felicidade ou a busca da felicidade pode encontrar alguma justificação no discurso da sociologia e se a sociologia tem um vocabulário adequado para capturar experiências de felicidade. Considerando-se uma disciplina crítica, a sociologia, quase sempre desconfia da felicidade humana. De forma provocativa, posso sugerir que a sociologia de fato prospera com base no fato de que as pessoas, fatalmente ou no contexto social, devem ser de alguma forma, infelizes e se revezam em algum tipo de estado de infelicidade; ou seja, são reprimidos, alienados, oprimidos, sem liberdade, impotentes, miseráveis.

Nos últimos anos, a chamada ‘sociologia das emoções’ ganhou posição como uma preocupação promissora no campo da sociologia. Em vários autores, entre os quais, Zygmunt Bauman, encontramos referências relativamente frequentes a emoções como solidariedade, compaixão, amor, medo, liberdade e felicidade, dando início, gradualmente, a reflexão sobre a importância social das emoções, estudos que nunca foram proibidos, mas foram largamente ignorados em tempos anteriores.

Perguntado se a sociologia pode ajudar as pessoas e na verdade também os próprios sociólogos a alcançar a felicidade, Bauman respondeu que a felicidade não consiste em estar livre de problemas, mas em enfrentá-los, combatê-los e superá-los.

Sociólogos estão realmente preocupados em identificar as muitas enfermidades e males enfrentados pela sociedade contemporânea. O sociólogo americano, naturalizado canadense, Robert Stebbins sugeriu uma agenda para uma chamada “sociologia positiva” que, em vez de focar sobretudo no que parece estar errado na sociedade, mostra mais preocupação com o estudo sobre como as pessoas podem organizar suas vidas de modo que essas vidas se tornem substancialmente gratificantes, realizadas e felizes.

O sociólogo tem inúmeros trabalhos publicados, destacando que o lazer é o caminho para uma vida feliz.  O lazer pode ser casual, onde exercemos atividade prazerosa no tempo livre, como leitura, caminhar, conversar com amigos; lazer sério, que é a busca por uma atividade interessante, hobbies, atividades voluntárias, que valorizam a construção de um mundo social e o lazer baseado em realização de projeto, que pode ser evento que evidencia a criatividade e a habilidade para gerar a autorrealização, como eventos esportivos, festivais artísticos.

Viver diariamente com o risco da desaprovação

Aaceitação de mim, das partes não curadas da minha alma, da impossibilidade de ser forte por muito tempo é uma perspectiva que abro para viver o próximo ano, com meus pontos defeituosos, minhas opiniões, minha voz. Aprender a tomar tempo, tomar distância, emancipar meu destino para confrontar as fatalidades. O sociólogo Zygmunt Bauman diz que a sociologia é hoje mais necessária do que nunca, que os sociólogos são especialistas em compreender aquilo a que estamos fadados porque conhecem a rede complexa das causas que provocam as fatalidades. E para operar neste mundo, é preciso entender como o mundo opera. 

Percebo que um espectro paira sobre esse tempo da nossa existência: pessoas desgastadas, mortalmente fatigadas, assustadas pela precariedade de seus destinos, abandonadas a seus tormentos mentais e agonias da indecisão, que tem transformado a alegria de viver num medo paralisante do risco e do fracasso. Arthur Schopenhauer, com a crueza habitual, diz que a primeira metade da vida, vive-se uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, é dominada pelo sentimento de receio que só o sofrimento e rejeição é real.

É sobre esse incômodo de caber num determinado espaço, de direcionar a vida por onde não olhem de soslaio, esse peso desgastante do medo do desprezo, é sobre a importância que damos ao fato de sermos modernos, de estarmos sempre à frente do tempo, num estado de transgressão, críticas e cobrança constantes. Ao corpo adicionaram padrão, a idade tem padrão, os relacionamentos têm padrão. E a sociologia de Anthony Giddens diz que viver uma vida baseada em impulsos momentâneos, modismos, críticas e cobranças, sem práticas sociais habituais e saudáveis é condenar-se a uma existência sem sentido.

Encaixar é tentar se adaptar a um mundo que não é o seu. Pertencer é habitar o mundo como quem você é de verdade. E você nunca se encaixará onde não pertence. Emagrecer para receber elogios, dizer sim para receber agradecimentos são táticas consistentes de transgressão aos nossos limites. Quando você tenta se encaixar, você deixa padrões aleatórios medirem onde você vai chegar, observando se você é bonita o suficiente, inteligente o suficiente, magra o suficiente ou rica o suficiente. Sair desse ciclo falido de cobranças, não significa que você irá extingui-lo, significa que o medo de fracassar e não caber em espaços almejados não mais controlarão sua vida. Viver no meio de uma multidão de pessoas, com valores e estilos de vida em competição, sem garantia alguma de estarmos seguindo o que é certo, é um preço alto a ser pago com nossa desordem psicológica.

Como socióloga, tenho conseguido diagnosticar e revelar fontes sociais de infelicidade, as causas estruturais dos sofrimentos que se multiplicam nos espaço sociais.  Bauman, porém, alerta que compreensão e diagnósticos sociológicos não é o mesmo que cura, trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Percebe então, que minha preocupação repousa em que suas escolhas sejam verdadeiramente livres do peso das críticas e cobranças?

As mudanças que podem ter efeito poderoso em nós

Acontecimentos pessoais, política, religião, atos de guerra e epidemias podem alterar inesperadamente a nossa relação com o mundo que nos rodeia. Esta é uma das coisas boas da condição humana, a maneira como moldamos nosso mundo diante das mudanças que somos forçados a absorver. Se as mudanças tecnológicas conseguiram proporcionar a emancipação do homem comum, agora é necessário criar um mundo mais relevante, num cenário mais existencialista, o ser humano com seu todo, livre, responsável por sua existência.  

Apesar dos últimos anos terem sido marcados por progressos significativos em vários domínios, como a ciência, a medicina e a tecnologia, ao mesmo tempo, o número de problemas na sociedade atual tem estagnado ou aumentado constantemente, conforme uma lista elaborada pela ONU sobre os 10 maiores problemas do mundo atual e suas possíveis soluções, as quais, se foram tentadas, falharam.

Estudo realizado pela Fundação Getúlio Vargas, Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e Banco Mundial, em parceria com o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome, aponta, talvez, o único dado positivo das pesquisas que li durante a semana. 3 milhões de famílias beneficiárias do programa Bolsa Família saíram da pobreza extrema neste ano. Em Mato Grosso, ainda há 265 mil famílias que recebem o benefício do Governo Federal.

Em julho de 2023 foi publicado o Anuário Brasileiro de Segurança Pública com dados produzidos pelas Polícias e Tribunais de Justiça dos estados brasileiros, que mostraram o crescimento dos feminicídios, das violências sexuais, das agressões em decorrência de violência doméstica, bem como dos acionamentos ao número de emergência, indicando o crescimento de todas as formas de violência contra mulheres.

Os números reforçam a tese de que o Estado brasileiro tem falhado na tarefa de proteger as meninas e mulheres: os feminicídios e homicídios femininos tiveram crescimento de 2,6% este ano, 1.902 mulheres foram assassinadas e os estupros apresentaram crescimento de 16,3%. Percebe-se pelos noticiários, pelas vezes que nos assustamos e que reagimos indignadas que os assassinatos e as demais formas de crimes contra a vida de mulheres tiveram crescimento.

As questões ambientais, outro tema que ocupa a lista de grandes problemas mundiais, de forma direta e transversal, mas aqui no Brasil, podemos tratá-los como tragédias anunciadas, repetidas de tempo em tempo, sem punição e sem reparo de danos causados. No ano de 2015 assistimos perplexos, uma das maiores tragédias ambientais do país, que matou 19 pessoas em Mariana, MG, soterradas na lama tóxica dos rejeitos de minério de ferro. 8 anos depois, nenhum réu foi punido criminalmente e os crimes ambientais, como a lama tóxica que percorreu quase 600km, devem prescrever em até um ano. 

Se a justiça tivesse agido, punido diretores da empresa Samarco, possivelmente teria barrado a ganância e o descaso com vidas humanas pelas grandes corporações e não teria acontecido Brumadinho quatro anos depois, deixando um rastro de 270 pessoas mortas. Quatro anos depois de haver causado a tragédia, a empresa Vale registrou um aumento expressivo (33,6%) nos lucros líquidos.

Presenciamos a tragédia anunciada em Maceió semana passada. Vidas foram poupadas graças a ação rápida e vigilante da prefeitura, porque entre vidas, de pessoas da classe média baixa e pobres, o mundo corporativo sempre fará a opção pela expansão de seus negócios. Enfim, as mudanças que podem ter o efeito poderoso sobre nós e nossa existência neste planeta, estão acontecendo a passos de formiga e sem vontade.

Grandezas e misérias da política

Manuel Azaña Díaz foi um dos políticos e oradores mais importantes na política espanhola do Século XX, doutor em Direito, um jornalista excepcional e escritor premiado. Foi deputado, ministro e presidente da Segunda República Espanhola, em 1936. Um crítico enérgico contra a ditadura, foi vigiado e caluniado por agentes do general Franco. Numa conferência histórica na cidade de Bilbao, proferiu um discurso intitulado ‘Grandezas e Misérias da Política’.

Encontrei informações sobre a preciosidade desse discurso, ao fazer uma busca de leituras interessantes para melhorar a argumentação em temas de política. O discurso, contextualizado em época e condição política, é uma corajosa declaração de apoio à mudança, quase um texto legislativo, argumentando hipóteses sobre como tornar a vida pública menos exposta às incertezas do sistema.

Com a profundidade, que lhe era peculiar, sobretudo por ter tido uma vida intelectual intensa, Azaña cobrou em discurso, a coerência entre o ideal político e os projetos de poder. Um político não deve ser apenas um líder ou um estadista, passando constantemente por processos de votação. São os políticos, verdadeiramente, pessoas que vivem sujeitos a ir da glória da superioridade à inferioridade do defeito. Grandezas e misérias marcam trajetória dos políticos e dos jogos políticos e ele, que prima pelas qualidades morais além do personagem do político, não crê que haja responsabilidade pública sem vocação ou inteligência.

Azaña foi publicamente contra os líderes privilegiados, amparados pela força dos grupos políticos, que estendiam proteção a elite política espanhola, defendeu a democracia, como incentivo à participação da população daquela época, nas decisões políticas. Um sistema político democrático, não pode ser sustentado em benefício de um grupo em detrimento de outro e deve ser estabelecido numa base coerente entre a política e a sociedade. Disse: “Sou um democrata e não sou apenas um republicano, sou um democrata porque acredito que é a única forma de tirar os políticos da posição privilegiada na qual estão deitados há séculos.”

Disse isso, com a propriedade de quem estabeleceu um espaço para ampliar as bases de um projeto republicano, já que criticava as formações de poder incapazes de reconhecer o talento do país e de seus filhos, para ficar, de forma menor, fazendo a vergonhosa política convertida em distribuição de cargos.

Promoveu grandes comícios por acreditar que a mobilização política era a base para a transformação da própria política, um eixo de mudança e modernização. Disse que a sua candidatura nunca foi capricho pessoal, nem honra a um grupo, nem uma transação de princípios abandonados, ele estava determinado a contribuir com a renovação da raiz até a folha da política. E a colaboração não era para o presente, mas para o futuro, para que fosse calmo, fecundo e glorioso para quem governa e para o povo.

Podem me matar em nome do ódio, ainda assim, vou me levantar

No site do Senado Federal já é possível acessar a 10ª edição da pesquisa de opinião nacional, ‘Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher’ realizada pelo Instituto DataSenado em parceria com o Observatório da Mulher a cada dois anos e tem por objetivo ouvir mulheres brasileiras acerca de aspectos relacionados à desigualdade de gênero e agressões contra mulheres no país. O levantamento mostra que 30% das mulheres já sofreram algum tipo de violência doméstica ou familiar provocada por um homem. Enquanto 64% das mulheres que recebem mais de seis salários-mínimos declararam ter sofrido violência física, esse índice chega a 79% entre as vítimas com renda de até dois salários-mínimos.

A pesquisa é restrita à violência no âmbito familiar, porque há uma comissão formada para estudos e apresentação de soluções, vindos de todos os segmentos da sociedade, para garantir segurança e integridades às mulheres e as crianças, que tem presenciado muitos dos assassinatos. Fora do círculo familiar, os índices seguem escandalosos. A violência contra mulheres e meninas sempre permeou escamoteada ou visível em todos os ambientes sociais, inclusive nas escolas e  universidades. Essa semana foi divulgado o caso do professor do tradicional Colégio São Gonçalo, assediando insidiosamente meninos e meninas, manifestando o mal uso do poder e admiração, que certamente os professores têm e exercem sobre os alunos.

Também essa semana, uma estudante do curso de relações internacionais da Universidade Estadual da Paraíba, surpreendeu a reitoria e o público presente na abertura de um fórum internacional, ao usar o microfone para denunciar por assédio moral e sexual um dos mais famosos professores da instituição, professor doutor em ciência política, com estudos publicados e discursos enfocando a diminuição da violência, a construção da paz. Em ambos os casos, os professores foram afastados de suas funções em sala de aula, foi aberto processo de sindicância e tal. Punições iniciais brandas, apenas um sopro diante de tantos abusos.

As quatro mulheres selvagemente assassinadas na cidade de Sorriso mancharam de forma indelével nossa reputação como um estado violento, que tem sido incapaz de fazer o enfrentamento real da violência contra as mulheres. O assassino, foragido da justiça, condenado por vários crimes, inclusive na cidade vizinha, transitava e trabalhava livremente na imponente cidade de Sorriso.

Com força devemos repudiar a libertação prematura, menos de um ano de encarceramento do assassino da ex-namorada e seu atual namorado, cometido pelo filho de um eminente político. Todo e qualquer avanço, depende muito da punição severa aplicada aos casos, sobretudos dos que ganharam destaque na mídia. A notícia da prisão domiciliar do assassino de um duplo homicídio, com narrativas artificiais é um balde de água gelada em toda luta das mulheres pelo direito de continuarem vivas depois de romper relacionamentos abusivos.

De uma forma ou outra, a semana foi marcante em decepções acerca do tema. Maya Angelou, a extraordinária escritora americana, me vem à mente com um risco de esperança no verso:

“Pode me atirar palavras afiadas,

dilacerar-me com seu olhar,

você pode me matar em nome do ódio,

mas ainda assim, como o ar, eu vou me levantar.”

Vote no garantidor de um futuro melhor

Dizem alguns estudiosos que a ciência política brasileira não tem dado a devida atenção às estratégias de comunicação das candidaturas, especialmente no que se refere à função de conduzir e mediar o diálogo político entre os candidatos e os eleitores. Não há diálogo. A disputa eleitoral tem sido, na verdade, disputa entre estratégias de convencimento, em um debate que se dá entre interpretações sobre o mundo atual, se ele está bom ou ruim, comparações sobre os mundos futuros que as campanhas prometem e sobre quem pode garantir a realização de um mundo futuro melhor. Enfim, as campanhas têm o objetivo de persuadi o eleitor a votar em determinado candidato e rejeitar seus adversários.

Os processos eleitorais têm sido entendidos como um processo de comunicação política de duas vias, onde candidatos e eleitores estabelecem um pacto fundamentado numa troca de intenções: os eleitores querem que seus desejos, interesses e demandas sejam atendidas e os políticos querem ser eleitos. Nos processos eleitorais, a ideia de convencer a maioria é complexa, pois os candidatos transitam, o tempo todo, entre mundos possíveis, atuais e futuros.

A estrutura dessa argumentação que arranjei se baseia em duas vertentes: se o candidato for oposição ao atual prefeito “o mundo atual está ruim, mas ficará bom se de votarem em mim”, ou se o candidato for continuação ou apoiado pelo atual prefeito: “o mundo atual está bom e ficará ainda melhor”. Sempre reforço que é fundamental e boa estratégia de campanha sustentar a credibilidade do candidato como garantidor de um futuro melhor. O livro de Thomas Holbrook, Do Campaigns Matter? é um trabalho exemplar elaborado para avaliar a importância das campanhas nas eleições americanas. Eu responderia que as campanhas são importantes, em toda parte e em todos os níveis de eleições.

Nos comentários de matérias políticas podemos perceber que as campanhas são importantes para o eleitor, que tem aprendido que é uma boa estratégia o candidato reduzir ao máximo a quantidade de temas em debate, de forma que os temas sejam aqueles que ele tem maior domínio; o eleitorado aprendeu a rejeitar o discurso destrutivo e a prática de alguns governantes de interromper as obras dos outros para fazer as suas. O eleitor aprendeu que isto é um desperdício, de tempo elaborando novos projetos e de recursos públicos.  

Os eleitores aprenderam que as mensagens negativas ou falsas de ataques a outros candidatos não são eficazes como foram anos atrás, onde algumas pessoas influentes na condução de campanhas eleitorais se caracterizavam pelos ataques pessoais negativos ao candidato da oposição. As ‘fakes news’ estão ainda absurdamente imbricadas no processo eleitoral, apesar de estarem sendo firmemente combatidas pela justiça e percebidas pelo leitor de bom senso.

As campanhas são tão importantes, que nos salvam da ignorância sobre o que está sendo feito na nossa própria cidade, sobre a economia local, os problemas. Estabelece ligações entre as informações sobre os candidatos e as questões sociais, as atitudes e crenças dos eleitores, que precisam ser encorajados a participarem do processo eleitoral, para calibrar um pouco mais as forças representativas nos cargos de poder. O perfil médio dos deputados federais em exercício do mandato são homens, brancos, com patrimônio de 1 milhão de reais ou mais.

Quer mudança? Aceite, ouça, opine, se envolva para não ter que votar com zero entusiasmo, no menos ruim.

Teor de pessimismo, na política e no cotidiano

A fadiga que sentimos não é tanto do trabalho acumulado, mas de um cotidiano feito de rotina e de vazio. O que mais cansa não é trabalhar muito. O que mais cansa é viver pouco, viver sem sonhos.’ Mia Couto, escritor moçambicano.

Fadiga é sentir os sentimentos genuínos colapsarem pela distância sempre mantida entre os avanços que almejamos e o pouco que nos é concedido, através das lutas diárias. O que cansa é perceber a transmutação dos atos de violência contra as mulheres para um movimento de manipulação, invalidação de sentimentos e comportamentos através da crítica destrutiva e chantagem. O ciclo na violência se arrasta de um ano para o seguinte, alterado em sua forma e intensidade. O Laboratório de Estudos de Feminicídios registrou 1.153 feminicídios de janeiro a julho deste ano, uma média diária de 3,81 feminicídios consumados. 

O cotidiano sofreu um processo mudança positivo no caso de violência contra a mulher praticado por jogadores de futebol. No ano de 2013, o jogador Robinho foi acusado de cometer crime sexual contra uma jovem na Itália. Não foi preso lá e fugiu para o Brasil. A justiça Italiana o condenou a 9 anos de prisão em 2020. A justiça brasileira não pode extraditá-lo. Resultado? Nunca cumpriu pena lá tampouco aqui. Já o jogador Daniel Alves está preso desde janeiro na Espanha pelo mesmo crime e diante da inflexibilidade das autoridades, já admite confessar o crime. Se condenado, pode ficar até 15 anos preso.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio escreveu um ensaio onde diz que somos o que fazemos, mas somos, principalmente, o que fazemos para mudar o que somos. Diz que vivemos em plena cultura da aparência, onde o contrato de casamento importa mais que o amor, o funeral mais que o morto, as roupas mais do que o corpo e a missa mais do que Deus. 

Por isso cansa tomar conhecimento que o racismo agora é exposto em uma mensagem deixada no aplicativo de entrega. Uma senhora pediu que não mandassem uma pessoa negra fazer a entrega da refeição. Uma desconfortável afirmação que a cor das mãos poderia sujar a comida. A cor, estamos sempre recorrendo as estatísticas para não sermos injustos. Um estudo denominado Pele Alvo: a bala não erra o negro, realizado pela Rede de Observatórios da Segurança, divulgado na última quinta-feira, mostra que a cada 100 mortos pela polícia em oito estados brasileiros, 65 eram negros, ou seja, 87%.

Cansa o frenesi político deslocado da realidade em ano de decisões eleitorais. E no ano de 2024, mais de 70 países, onde vivem mais da metade da população mundial terão eleições. Aqui no Brasil, as eleições municipais ainda ocorrerão em clima de polarização entre o ex-presidente e o presidente, que devem se engajar nas disputas locais com discursos inflamados servem para influenciar eleitores desavisados, com pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos.

Estamos vivendo sob o signo da singularidade. Um fenômeno onde as pessoas tendem a se importar menos com as atrocidades em massa do que com as tragédias particulares. Estamos diante de uma profusão de imagens trágicas das guerras na África, Europa e Oriente Médio e nenhum dos grandes líderes mundiais, nenhuma organização internacional tem se colocado como um jogador intransigente para colocar um fim nos conflitos, que devem adentrar 2024.

No mundo físico, já sabemos que uma guerra só termina com a completa aniquilação do mais fraco.

A força da máquina pública é gigante

Uma pesquisa, divulgada recentemente, feita no estado de São Paulo, pela APPC Consultoria e Pesquisa, revela que quase 50% dos eleitores paulistas estão muito interessados nas eleições de 2024, algo que evidentemente gostei de tomar conhecimento. A decisão de efetivamente participar das eleições ou simplesmente votar é um fenômeno complexo, que envolve causas múltiplas e não vou aqui creditar apenas as questões ideológicas porque ainda não nos libertamos das influências de familiares, religiosos, amigos e patrões para votarmos inteiramente sob nossa própria inspiração.

Algumas dificuldades serão enfrentadas pelos partidos, que se agruparam em federações no ano de 2022. (uma variante mais elaborada das antigas coligações). Para a próxima eleição, esses partidos terão que lançar candidaturas conjuntas, para prefeito e vereadores, ou seja, a federação tem que ser mantida por pelo menos quatro anos, em que pese a cultura da baixa duração dos casamentos políticos.

A baixa representatividade feminina na política brasileira ainda é um fato constrangedor. Verificando as estatísticas publicadas pelo Tribunal Superior Eleitoral, sobre os números das últimas eleições municipais de 2020, é difícil explicar como pôde, um contingente feminino de 52% do eleitorado ter elegido 4.750 (87.9%) prefeitos e apenas 651 prefeitas (12%); 48.265 vereadores (84%) e apenas 9.196 (16%) vereadoras.

Esperamos que haja mudança significativa no número de mulheres eleitas em Mato Grosso no próximo ano, porque no ano de 2020 apenas 15 municípios elegeram prefeitas e na Capital, dos 25 vereadores eleitos, há apenas duas mulheres. Ouros 54 prefeitos de MT já foram reeleitos e estão fora da disputa, mas nas próximas eleições, com o poder da máquina pública ainda nas mãos terão chances de interferirem no processo e fazerem seus sucessores, controlando a agenda e a mídia a favor dos candidatos do grupo, o que quebra a paridade, torna o pleito desigual, mas é fato corriqueiro nas eleições brasileiras. 

Há tempos eu li o caso de um prefeito de Itabaiana, cujo filho candidatou-se a deputado estadual no estado de Sergipe. A propaganda eleitoral do candidato a deputado adotou a cor azul em todas as peças publicitárias e ficou conhecida como “a onda azul”. E o que fez o pai prefeito para empurrar a campanha do filho? Pintou todos os prédios públicos, praças e meio-fio da cidade de azul, balões azuis subiam aos céus nas inaugurações públicas e a cor foi adotada também no site e nas mídias sociais do município. O Ministério público, atento, identificou que o então prefeito utilizou a cor para deliberadamente tornar desigual a disputa e promover a campanha do filho e denunciou ambos.

Não adiantou a defesa alegar que o azul era cor do uniforme do time da cidade, do brasão… Azul é uma cor linda, lamentável que a corrente azul que atravessou a cidade tenha sido bancada com recursos públicos. Aplausos para o Tribunal Superior Eleitoral, que cassou o deputado eleito com o protagonismo descarado do pai, houve retotalização dos votos para a Assembleia Legislativa de Sergipe, que teve sua configuração alterada. O prefeito concluiu o mandato e ainda elegeu o sucessor.

Querer não é poder

O povo sempre cria perspectivas de melhoras quando uma eleição se aproxima, embora saibamos que mudanças não ocorrem com a simples troca de governante.

As Eleições Municipais de 2024 serão realizadas no dia 6 de outubro, em primeiro turno, e no dia 27 do mesmo mês, em segundo turno. As eleições ocorrerão em 5.569 municípios brasileiros, dos quais 142 em Mato Grosso. Neste sábado, 04 de novembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) realiza um procedimento técnico de migração de bancos de dados para um novo servidor, visando a segurança das eleições.

Vivenciamos o momento em que os partidos despertam, as visitas aos pretensos candidatos se intensificam, fazem listas, promovem cortes, cortejam, tentam demonstrar certo controle no que serão as eleições de 2024. Mas lembro-lhes de um ensinamento de Napoleão Bonaparte: “O diretório murmurará e decretará o que lhe aprouver; eu, porém, continuarei sendo o que sou e meu exército me obedecerá”. Assim se comportarão os candidatos já testados nas urnas, com boa reputação política e sólida base eleitoral.

Em 1927, a cidadezinha de Palmeiras dos Índios (AL) elegeu seu mais famoso prefeito, Graciliano Ramos de Oliveira, o renomado escritor de Vidas secas e Memórias do Cárcere, entre muitas outras. Ele não participou da campanha eleitoral, não abraçou pessoas nas ruas, não fez promessas, não se envolveu em articulações políticas para a escolha dos vereadores, não negociou favores com os fazendeiros, cujo poder se sobrepunha às leis. Graciliano Ramos foi eleito em 7 de outubro de 1927, como candidato único. Todos renunciaram diante da sua inabalável reputação.

Na Assembleia Legislativa, as conversas, nem tão iniciais apontam que pelo menos três deputados confirmarão suas candidaturas para o pleito de 2024. Dos 24 parlamentares estaduais da atual legislatura apenas cinco, Barranco, Júlio, Max, Moreto, Nininho se elegeram deputados depois de terem passado pelo crivo do executivo de seus municípios. Wilson Santos elegeu-se prefeito após ter cumprido mandatos de deputado estadual e federal.

Saindo do parlamento para a disputa local, os deputados já sabem o que os esperam para construir o caminho da vitória. As campanhas, por mais que mudem iniciam sempre com o questionamento íntimo sobre as reais condições para se pleitear a vaga de prefeito. Aí entram as condições financeiras, a atuação consciente como cidadão, base eleitoral, apoio de grupos políticos diversos e importantes. Ainda assim, querer não é poder!

Na disputa existem atores concorrentes que precisam ser analisados para serem vencidos. A construção de aliança prévia com os apoiadores para amplificar a mensagem, ganhar novos acessos as redes sociais, enfim, contar sua história para um número cada vez maior de pessoas dependem muito da reputação, ou seja, do juízo de valor que as pessoas fazem sobre a sua figura pública. Marcelo Vitorino, um expert em Marketing Político tem cursos excepcionais sobre a construção de reputação política e nãos se trata de criar um personagem e sim, organizar a identidade, evidenciar os pontos marcantes já que o eleitor busca identificação de valores semelhantes aos seus nos representantes políticos.

Nesse momento em que o eleitor está ainda espreitando desconfiado, é melhor ser verdadeiro e preparar-se para enfrentar as dificuldades que serão postas a prova, as ameaças, a propagação das notícias falsas a seu respeito e de familiares, sem perder o foco e a fé.

A justiça pode ser afável

O triste episódio envolvendo a cabelereira Sylvia Mirian Tolentino de Oliveira, que perdeu o filho assassinado com dez tiros e, durante a audiência de instrução, na presença do assassino e seu advogado recebeu voz de prisão do juiz que conduzia o caso é uma matéria que teve grande repercussão na imprensa local e nacional, e merece ser publicada, republicada, analisada e criticada pelas pessoas que nutrem um mínimo de consideração pela dor do outro.

Como pode um homem, supostamente pai, não compreender a indignação de uma mãe que é colocada em frente ao assassino do filho? Um advogado, que em entrevista, sem nenhuma convicção, dizer que se sentiu ameaçado com as palavras de D. Sylvia? Quanto melindre por causa das palavras subjetivas ditas pela mãe da vítima, que teve a vida revirada e grita por justiça!

O reparo do lamentável caso deve vir através da ação imediata do Ministério Público, que atento, pediu afastamento do juiz, por entender que ele agiu claramente parcial, garantindo os direitos apenas do réu durante a audiência. À D. Sylvia coube o tolhimento de seus direitos e a humilhação pública. 

Precisamos falar sobre um meio de furar essas bolhas de arrogância que permeiam o judiciário e não somente o judiciário e apoiar pessoas, que mesmo dentro de sua simplicidade as desafiam, sobretudo num momento em que se propaga a justiça restaurativa, conciliação e empatia para resolver conflitos. A mediação é tida como um procedimento que se vale da empatia, um caminho lúcido e razoável para que as partes minimizem os efeitos da indignação e dor e de forma recíproca cheguem a um ponto comum para resolver o processo.  

Os Juízes não são seres diferentes dos humanos, não são infalíveis e erram, embora esse reconhecimento vá contra o imaginário alimentado pela própria justiça do juiz mítico, implacável, como se ao vestir a toga, a subjetividade dos pensamentos e ação dos magistrados desaparecessem, para que não se igualem aos outros seres humanos.

Mas justiça não combina com desumanidade, com indiferença. Há pouco tempo viralizou o vídeo de um magistrado, humildemente ouvindo atento uma senhora analfabeta lhe contando como conseguiu assinar o documento. Certamente o respeito e afabilidade do magistrado com a senhora não interferiu na decisão do processo.

É evidente e minhas palavras não retiram a grandeza e profundidade do cargo, tenho dois amigos juízes, por quem nutro a mais absoluta admiração, sob o ponto de vista profissional e comportamental. Me perdoem se os comprometo de alguma forma citando-os, mas Dr. Jamilson Haddad e Yale Mendes são dois homens afáveis e corteses, que proferem suas sentenças, que interferem no destino das pessoas, sem, contudo, desqualificá-las ou ignorarem suas indignações e dores.

Não custa ter empatia pela dor da D. Sylvia e esperar que o desfecho do caso seja revestido de humanidade, ainda que seja depois de toda a exposição da audiência de instrução na mídia.