Problema feminino não é mero complemento

ACâmara dos Deputados comemorou com a devida honra os 10 anos de criação da Secretaria da Mulher na Casa, que hoje tem uma bancada de 92 deputadas (já incluída Gisela Simona) num universo de 513 parlamentares. A sub-representação ainda é gritante, já que a União Interparlamentar indica que a participação de mulheres nos parlamentos global é de 26%. Por aqui, patinamos em míseros 17%.

Embora o percentual de mulheres eleitas seja menor do que o de homens, os indicadores da Câmara Federal, publicados pela Agência Câmara de Notícias, registram que as deputadas apresentam mais projetos, proporcionalmente que os homens. Desde a criação da Secretaria da Mulher, em 2013, até o final de 2022, as leis aprovadas a partir de proposições e articulação da bancada feminina, que já foi chamada de “Bancada do Batom”, tem pautas ligadas a saúde, combate às diversas formas de violência, educação, mercado de trabalho, assistência e garantias de direitos.

Pois bem, é inegável que o cenário da participação da mulher na política está longe de ser o ideal e volto a um passado recente para lembrar da pré-campanha do Senador americano Bernie Sanders, principal rival de Joe Biden no Partido Democrata às eleições de 2020, onde também concorria, uma mulher, a senadora Elizabeth Warren. Com um discurso alinhado às pautas femininas foi Bernie Sanders o escolhido pelas mulheres famosas em seus trabalhos e discursos pela igualdade de tratamento, pagamento e prestígio a homens e mulheres nas mesmas condições de classe e de trabalho.

 A filósofa Nancy Fraser, professora de Filosofia e Política, sempre apontou as mulheres como as principais responsáveis ​​pela segurança e sobrevivência das famílias e das comunidades. De acordo com Fraser, as mulheres são as responsáveis ​​globalmente pela criação da próxima geração, tentando proteger as crianças quando fogem da violência em casa e enfrentam as fronteiras militarizadas que prendem até crianças.

Ela liderou um movimento intenso demonstrando às mulheres que embora a Senadora Warren fosse um nome respeitável, o discurso e as pautas que ela defendia não representavam os ideais femininos e feministas, da grande maioria dos trabalhadores com salários baixos. E as mulheres representavam essa maioria e aumento do salário-mínimo, aumentaria a liberdade feminina, tanto em casa quanto no trabalho. E dar as mulheres mais direitos nas negociações, daria a elas uma arma mais poderosa na luta contra o assédio e agressão sexual, sobretudo nos locais de trabalho. Puxou coro para que o apoio das mulheres fosse para o candidato que havia pautado o aumento do salário-mínimo, questões de gêneros, uma colocação da mulher por inteira dentro da sociedade como mote principal da campanha.

Criticada por apoiar um candidato homem, Nancy Fraser justificou: “Não nos interpretem mal. Gostaríamos de ver uma mulher presidente tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não pode nos custar a chance de construir um movimento que possa realmente melhorar a vida da grande maioria das mulheres”.

O respeito às pautas femininas não é prioritário em país nenhum, mas ganham relevância, cobranças e impulsionam positivamente a agenda dos grandes líderes. Ainda, um complemento. Ao final, Bernie Sanders recuou à candidatura e para apoiar Joe Biden, o fez assumir publicamente os compromissos assumidos com as lideranças femininas e feministas, apresentadas a ele pela filósofa Nancy Fraser.

Daqui há pouco começa a campanha para 2024 e não basta escolher uma candidata ou candidato que tenha alguma proposta feminina no seu programa. Precisamos apoiar uma campanha comprometida com a mudança estrutural que as mulheres precisam. 

Momentos de desconexão com a dureza da labuta

Assisti a aula magna do sociólogo italiano Domenico de Masi essa semana, ofertada pelo Instituto Conhecimento Liberta, onde ele reafirma a beleza da tese que o tornou famoso há duas décadas, conhecida como O Ócio Criativo, defendendo que precisamos incorporar em nossas rotinas a meditação e a reflexão, que precisamos de momentos de tranquilidade para refletir sobre nós mesmos, sobre nosso destino. “Temos a necessidade de amizade, de amor, de brincadeira e de beleza. Temos a necessidade da convivência. Essas necessidades não exigem dinheiro ou riqueza. Não é uma questão econômica, é uma questão de doação. Ao doar meu amor, não reduzo meu poder amoroso, pelo contrário, saio fortalecido”.

No livro há uma passagem em que De Masi fala que um executivo acerta nove em dez tentativas e segue gerenciando satisfatoriamente seu negócio. O indivíduo criativo faz o oposto: erra nove em dez tentativas, mas, quando acerta muda o mundo, abrindo novas possibilidades inovadoras. O ócio criativo consiste na possibilidade de realizar trabalhos nos quais o trabalhador desenvolve uma atividade que, ao mesmo tempo, é um trabalho com o qual ele cria riqueza, é estudo com o qual ele cria conhecimento, e é jogo com o qual ele cria bem-estar e brincadeira. Pode ser o trabalho da dona de casa, do sacerdote, do artista, do profissional, do padre, de quem desenvolve um trabalho com TI, com diversão, alegria e ensinamentos.

De Masi perpassa pelas mudanças experimentadas pelo mundo, fala das condições de vida consideradas ideais pelo filósofo Platão, em O banquete: “Conviver com um grupo de amigos criativos, paixão pela beleza e pela verdade, liberdade carismática e tempo à disposição sem a angústia de prazos e vencimentos improrrogáveis”. O ócio é, em certos casos, a liberdade de ter controle sobre o tempo. Aristóteles acreditava que a vida com tempo suficiente para ponderar o que é essencial, era mais suscetível de conduzir a felicidade do que a vida do comerciante ou do político muito ocupado.

Faz o contraponto, ao falar da cada vez mais rápida escalada das novas tecnologias, que alcançará uma população mais longeva, “em média, o ser humano viverá de 780 mil a 790 mil horas (atualmente, a média é de 730 mil horas); marcada pela inteligência artificial, que se sobreporá a grande parte do trabalho intelectual realizado hoje”. No entanto, De Masi não reclama e diz que o avanço das tecnologias melhorou nossa qualidade de vida e propiciou, inclusive, a palestra dele, baseado em sua residência em Roma, para o público brasileiro. 

Assisti a aula e dias depois, um episódio reforçou minha crença que precisamos transportar a alegria que transborda nos momentos de ócio para nossas atividades diárias. Precisamos espreitar a vida que acontece num ambiente, ainda que não seja o nosso, dançar ao ritmo da música eletrônica de Alok ainda que tenhamos sido contratados para limpar o chão da área do show. A diarista Luzimar, trabalhadora de limpeza da festa onde o DJ tocava, foi filmada dançando alegremente com a vassoura e a pá na mão, em frente ao palco. A alegria da moça não durou. Luzimar não estava “fazendo nada”. Apenas emprestou alegria ao trabalho e não foi entendida.    

Ela perdeu a diária que receberia pelo dia de trabalho e a empresa postou justificando: “O pessoal da limpeza tem que ter postura, não é pago para ficar dançando”.  

Alok fez apelo nas mídias sociais para localizar Luzimar e reparar a punição sofrida pela diarista, além de ofertar-lhe uma ajuda bem mais significativa do que uma diária. Percebe, que por aqui não se pode sequer dançar com a vassoura enquanto se varre o chão?

Não seja normal. Seja você.

Maya Angelou, uma das escritoras americanas mais premiadas de sua geração, subverteu a normalidade de sua época, ao tornar-se, aos 17anos a primeira motorista negra de ônibus em São Francisco. Numa época em que não era comum, assumiu-se mãe solteira. Alguns anos depois, tornou-se a primeira negra roteirista e diretora em Hollywood. E mesmo depois de morta, torna-se, em 2022, a primeira mulher negra a ter o rosto em uma moeda norte-americana e proclamou com orgulho suas palavras: “Se você está sempre tentando ser ‘normal’, nunca saberá o quão incrível você pode ser.”

Normal pode ser semelhante ao usual, médio, típico ou esperado. Normal implica em conformidade com um padrão preconcebido, que pode limitar seu potencial. Você pode nunca alcançar o extraordinário, desde que opte por permanecer comum. Normal geralmente não significa estender os limites. Normal geralmente não significa pensar fora da caixa. Normal geralmente não significa alcançar a grandeza. Atos normais, rotineiros, não mudam o mundo.

O mundo ‘normal’ sugere que existe uma maneira certa e errada de ser uma pessoa e não há. Existe um espectro de comportamento aceitável na sociedade e ele é vasto e varia muito. As pessoas geralmente querem ser aceitas socialmente e o caminho considerado mais fácil é se encaixar no comportamento da multidão. Para fazer isso, você pode se sentir pressionado a pensar e se comportar de uma determinada maneira.

As pessoas não são facilmente categorizadas, e isso é ótimo. A vida humana é muito orgânica para ser rigidamente classificada. Normal pode ser mais uma abstração do que uma experiência humana. Se esforçar para viver dentro da normalidade pode restringir a criatividade, o prazer, a graça. Ser curioso e criativo, ao contrário, requer correr riscos. Preocupar-se em viver de acordo com um padrão individual coloca a ênfase, o brilho da pessoa no resultado.

O conceito de normalidade é mais um ideal subjetivo do que realidade. Cada cultura desenvolve seu próprio código sobre o que é normal. A normalidade é um enigma e uma ilusão. O que uma cultura pode considerar comum, outra pode achar incomum. Em situações cotidianas, as pessoas julgam a normalidade tomando os outros como sua própria referência de comportamento normal. Nesse sentido, a normalidade aos olhos dos outros, quando você tenta ser o que outra pessoa considera normal, pode perder uma parte de sua essência no processo de imitação.

Imagine o tédio que seria, se na vida fossemos iguais, se possuíssemos características e qualidades únicas. Rótulos são úteis para mercadorias, mas não se encaixam no mundo confuso das emoções humanas e traços de personalidade.  Se o normal é equiparado ao status quo, então a anormalidade torna-se igual à inconformidade.

 Todo mundo é único à sua maneira, mas o que torna algumas pessoas tão diferentes de todas as outras? Muitas vezes as diferenças são usadas para tornar os outros inferiores e insignificantes, porém, os relacionamentos autênticos começam com o reconhecimento, compreensão e aceitação das nossas anormalidades.

Vivemos em uma era de migração em massa

ORelatório de Migração Mundial de 2022 das Nações Unidas, registra que havia 281 milhões de migrantes internacionais em 2020, o equivalente a 3,6% da população global, dos quais, 1,3 milhões residem no Brasil. O indivíduo que migra, coloca também no contexto da migração a sua autonomia para produzir sua própria história num determinado lugar, que não o seu nacional. Mal compreendidos e nem sempre aceitos, em muitos países os migrantes são frequentemente acusados pelo aumento da criminalidade, queda dos salários, falta de emprego e até da ruptura social e cultural.

18 de junho é o Dia Nacional do Migrante. Migrante é toda pessoa que se transfere do seu lugar habitual para outro lugar, região ou país. 

Sempre articulei a migração como um processo de expressão de liberdade, liberação do sofrimento, início da fuga, alimentação da esperança. É importante observar que a migração quando se dá em deslocamento forçado, em virtude de fuga de guerra, de devastação por terremotos, envolve uma decisão tomada olhando para a terra destruída, para os perigos eminentes que a situação determina, para o sofrimento decorrente do rompimento com a família, com as tradições, de um momento para outro. Além disso, trata-se de um tipo de migração que não favorece o retorno no curto prazo, e nesse ínterim se o migrante pensa, sente ou é acometido por um sentimento de saudade insuportável, pelo desejo de voltar, ele entra num momento nostálgico de reflexão: Voltar para onde?

Muitas famílias são abatidas pela tragédia dos relacionamentos que se perdem na distância e no tempo, por isso é muito importante a portaria que foi publicada em abril passado pelo governo brasileiro, sobre a concessão de autorização de residência prévia e a respectiva concessão de visto temporário para fins de reunião familiar para nacionais haitianos com vínculos familiares no Brasil.

A maioria dos migrantes fogem da miséria que lhes é familiar para se aventurarem no mundo desconhecido, onde se lançam numa travessia cujo fim desconhecem.

A falta de humanidade tem gerado notícias absolutamente devastadoras sobre a travessia de muitos migrantes. Dias atrás, na costa da Grécia, o naufrágio de barco pesqueiro lotado de migrantes, deixou cerca de 80 mortos e 500 pessoas ainda estão desaparecidas. Foi relatado que mulheres e crianças eram a maioria dos passageiros do barco. Sempre, após uma tragédia os altos comissários da ONU se reúnem em condolências, ressaltam a necessidade de punir severamente os traficantes de seres humanos e pedem aos países que abram rotas seguras de migração. No entanto, nada muda!

Os atritos provocados pela migração não são problemas novos; eles estão profundamente enraizados na história humana e me atualizando sobre os números da migração, deparei-me com um relatório, que mostra que indivíduos muito ricos também migram. Cerca de 1,2 mil brasileiros, com patrimônio avaliado em mais de US$ 1 milhão, vão migrar para outros países ainda em 2023.

Para onde vão os milionários?

Austrália é o paraíso escolhido pela maioria dos afortunados. Deve receber mais de 5,2 mil novos ricos, do mundo, em seu território.

Reparação

Há 4 dias morreu o sociólogo francês Alain Touraine e seu livro “Podemos Viver Juntos?” transversalmente resvala ao tema da reparação às injustiças, ao tempo em que deixa lições inesquecíveis, rejeitando a ideia romântica de que agora vivemos juntos como iguais, compartilhando os mesmos valores sociais e culturais. Touraine afirma que, na verdade, nossas diferenças estão cada dia mais intensificadas. Estamos, segundo o sociólogo, “vivendo o desaparecimento de todas as linguagens, discursos e instituições que nos protegiam. Estamos nos tornando pessoas dessocializadas e indiferentes às lutas dos outros e que hoje, vivemos todos, sob o critério do prazer, da utilidade e do interesse. Não nos interessamos por nada que não seja do nosso interesse.”

Toda injustiça deixa como legado a tendência de naturalização do mal praticado e é difícil admitir a falência do pensamento em compreender a desordem atual e criar reflexões a partir das novas conexões que dispomos. É difícil rever o modo como pensamos, o modo como capturamos em conceitos o que já admitimos com nossos sentimentos e atitudes.

A reparação das ofensas e violências forjada na luta dos movimentos sociais, da cobrança sistemática de parte da sociedade, que não adormece diante das injustiças e atrocidades cometidas, não necessariamente precisa ser financeira, mas em investimentos em programas de ação afirmativa no longo prazo, para que se possa mudar a forma de pensar que justificou a escravidão e ainda justifica o racismo, a violência doméstica, abusos sexuais e outras formas de injustiça e agressão, como  os casos recentes de assédio do padre de Primavera do Leste, os casos dos estupros cometidos pelo pastor em São Paulo, que amedrontava os meninos alegando que o diabo pegaria suas almas caso não fizessem sexo com ele.

Há o caso recente de racismo contra o jogador brasileiro Vini Jr na Espanha e há o caso dessa semana, onde uma senhora branca impede a passagem de um jovem negro cadeirante no corredor do ônibus e ao ser interpelada, ela questiona: “Estamos na floresta?”

Não seria necessário perguntar o que ela quis dizer com isso. Ela não quis dizer, ela disse e reproduziu os comentários racistas ouvido pelo jogador dias atrás, sem constrangimento algum, sendo filmada.

No caso da violência doméstica já se aplica práticas reparadoras concretas: “Verifico que a ofendida suportou malefícios causados pela violência sofrida na condição de mulher, transtornos e aborrecimentos que lhe causaram sofrimento, fato que causa lesão à dignidade subjetiva da vítima, configurando danos morais,” diz o trecho de uma decisão judicial favorável à vítima.

Sim, financeiramente é possível cobrar reparação na justiça, embora nem sempre seja possível, de forma justa precificar a dor vivenciada. Mas a crueldade, o preconceito, a violência, o assédio precisam deixar de existir na mente doente dos acusados. O estupro é um ataque e quem o pratica, sobretudo em ambiente religioso, onde o tema é considerado tabu, sabe que raramente será denunciado. Como reparar a mente perturbadora de homens que habitam este vasto mundo onde os controles sociais estão debilitados e a fronteira entre o normal e o patológico, o permitido e o proibido perdem sua nitidez?

A indiferença não é apenas o pecado mas também a punição

“O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. O oposto da arte não é a feiura, é a indiferença. O oposto da fé não é heresia, é indiferença. E o oposto da vida não é a morte, é a indiferença.”  Elie Wiesel, romeno, prêmio Nobel da Paz e escritor.

A maioria das pessoas não se importam com o que você passa e algumas secretamente torcem pelo seu fracasso, pelo seu fim. A indiferença é próxima da apatia, é a sensação de não estar interessado, de não se importar de qualquer maneira, uma tendência do egoísmo moderno. De certa forma, ser indiferente ao sofrimento é o que torna o ser humano, desumano.

Li uma entrevista densa e emocionante do cantor Gilberto Gil, sobre a ameaça de morte da filha Preta Gil, diagnosticada com câncer de intestino. É um drama particular, familiar, uma dor lacerante vivenciada solitariamente por milhares de famílias brasileiras. Pensei: quem, além da família e alguns amigos se importam? Conectei-me ao texto belíssimo do escritor Elie Wiesel, onde ele reflete sobre o perigo da indiferença, ‘considerando-a tão tentadora quanto sedutora’, porque nos ajuda a desviar o olhar dos que sofrem, dos que são vítimas e assim, não precisamos estar envolvidos na dor e no desespero de outra pessoa. A nossa indiferença reduz o outro, o que sofre, a uma abstração.

Talvez a maior causa da indiferença no mundo de hoje seja a normalização da dor, causada pela doença, pela violência, pela pobreza; temas que são manchetes nas primeiras páginas de nossos jornais todos os dias e nem a todos causa inquietação. Afinal, a indiferença é mais perigosa do que a raiva e o ódio. A raiva às vezes pode ser criativa. Escreve-se um grande poema tomado pela ira, alguém faz algo especial pelo bem de outros porque está indignado e furioso com tanta injustiça. A raiva pode levar a denúncia e ao desarme. A indiferença não provoca resposta. A indiferença não é uma resposta. A indiferença está contida no silêncio.

Devemos lutar contra a normalização da dor de qualquer origem, contra a sedução da indiferença, embora, individualmente não possamos fazer muito, a maioria de nós pode fazer mais para honrar a humanidade dos outros.

Cada um de nós pode desenvolver seu próprio plano de ação contra a própria indiferença. Não somos capazes de reconhecer cada coração que sangra de dor por um familiar que enfrenta a batalha contra o câncer ou outra doença, mas podemos reconhecer e demonstrar empatia por aqueles que moram próximos, por aqueles que trabalham no mesmo ambiente que nós e externar solidariedade e compaixão por todos que nos chamaram à atenção e compartilharam seus dramas, no mínimo, como reconhecimento de suas existências e humanidades.

Elie Wiesel me apavora quando diz: “Mas é isso que devemos fazer: não dormir bem quando as pessoas sofrem em qualquer lugar do mundo, que não consigo alcançar. Não dormir bem quando alguém é perseguido. Não dormir bem quando as pessoas estão com fome. Não dormir bem quando há pessoas doentes e não há ninguém para ajudá-las. Não dormir bem quando alguém em algum lugar precisa de você.”

Racismo em toda parte, contra Vini Jr. na Espanha e haitianos em Cuiabá

A Universidade de York, no Canadá publicou um estudo na revista Science, onde aponta que a maior parte das pessoas diz que desaprova qualquer ato racista, mas muitos sequer apresentam sinal de desconforto ou reagem com indiferença ao presenciar a injustiça. O problema emerge quando em vez de acreditar que minha identidade é única, o que é verdade para todos os seres, eu acredito que sou um ser supremo.

   Vinicius Jr. joga pelo Real Madrid, na Espanha e tem sofrido repetidos ataques racistas de torcedores de times rivais, como o próprio jogador desabafou: “não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. O racismo, é normal na liga de futebol da Espanha”. Em janeiro deste ano, simularam o enforcamento de um boneco que usava a camisa de Vini Jr.

Desta vez, o jogador decidiu gritar, apontar para os racistas e a repercussão foi enorme na Espanha e mundo afora. Manifestação de apoio surgiu de estrelas da música, do esporte, de políticos importantes, como o Primeiro-ministro da Espanha e dos torcedores brasileiros. Postura firme teve o treinador do Real Madrid logo após o final do jogo contra o Valência, quando na entrevista coletiva lhe fizeram uma pergunta sobre futebol, ele disse: ‘‘Não quero falar sobre futebol. Eu quero falar sobre o que acabou de acontecer aqui neste estádio”.

A partir daí, a atenção dada ao intolerável caso de racismo, pode ser divisor de águas na luta contra o racismo no futebol. As autoridades locais nunca haviam agido tão rapidamente contra os torcedores que insultaram os jogadores, e nunca os dirigentes do futebol haviam punido um clube com tamanha severidade pelo comportamento racista de seus torcedores, como a multa aplicada ao Valência, a maior que um clube espanhol já recebeu, o time teve também, parte de seus assentos no estádio fechados por 5 jogos.

Diante dos holofotes, o jogador Vinicius Jr, apontou o dedo para aqueles que o xingaram em Valência e apesar de haver contabilizado apoios importantes, poucos espanhóis entrevistados por um jornal inglês, admitem que algo pode mudar daqui para frente. Apesar da prisão de sete torcedores, até o momento, ninguém jamais foi a julgamento na Espanha por ataques racistas a um jogador.

O incidente envolvendo o jogador brasileiro, me fez lembrar de um passado recente, ano de 2012, quando estabeleci o primeiro contato com um grupo de haitianos que havia chegado a Cuiabá, buscando trabalho nas obras da Copa do Mundo, sobretudo na construção da Arena Pantanal.

Decidi dedicar meu tempo e afeto para tornar menos sofrida a história de suas diásporas. Nas observações entrevistas que fiz, ficava cada vez mais claro que os haitianos estavam vivendo entre si, sem nenhuma oportunidade de entrar na vida da sociedade cuiabana, porque o Cuiabano não se dignou a dar-lhes importância.

Os haitianos, negros, diariamente confundidos com africanos pelas ruas de Cuiabá, esperavam que a qualquer momento os muros rompessem e eles pudessem participar efetivamente da vida social e cultural de Cuiabá. Embora não estivessem, por imposição segregados a um espaço físico, a condição econômica desfavorável encarregou-se de fazê-lo. Havia e ainda há vários minis Haitis espalhados pela capital. Os cuiabanos não xingaram os negros haitianos nem expressaram grosseira xenofobia. Os cuiabanos ficaram distantes, indiferentes. Cuiabanos de um lado, os haitianos de outro.

O racismo se alimenta da indiferença!

Pouco a pouco, o pouco se torna muito

Normalmente, quando traçamos nosso plano para a vida, colocamos a bandeira de chegada no final e pensamos: ‘Quando eu chegar lá, vou comemorar’. Faz todo o sentido se esperamos ter uma linha reta até a vitória, porém, de forma alguma, precisamos esperar atingir o objetivo para ser feliz, podemos comemorar as pequenas vitórias que teremos pelo caminho e ser feliz a partir da largada. Isso nos dará motivação para continuar avançando ao enfrentarmos obstáculos.

A professora Teresa Amabile, da Harvard Business School e o pesquisador Steven Kramer são autores do livro “O Princípio do Progresso”, onde revelam o segredo por trás das pessoas efetivamente produtivas; o progresso. Em entrevista ao jornal The New York Times, a professora ensina que mesmo que não saibamos como receber um elogio ou mesmo que não andemos recebendo reconhecimento externo, ainda podemos nos beneficiar psicologicamente, se festejarmos nossas conquistas sozinhos, mesmo que não sejam avanços ou sucessos enormes, são significativos e devemos no sentir feliz por isso. Amabile diz que “precisamos abraçar o poder dessas pequenas vitórias e aprender a ficar à vontade com o reconhecimento e elogios”.

Enfatizando o poder das pequenas vitórias, o estudo mostra que os pequenos passos são cumulativos, não apenas na prática, mas também emocionalmente. O progresso, por menor que seja, contribui para a alegria, engajamento e criatividade. E não são necessárias ferramentas ou circunstâncias especiais. Gerenciar a vida, o tempo para o progresso tem muito mais a ver com a atitude do que com dinheiro ou equipamentos.

Os pesquisadores dizem que a pesquisa é inequívoca e que à medida que a vida interior da pessoa é inconstante, o mesmo acontece com o desempenho pessoal e profissional. E progredir no trabalho é o estimulante mais poderoso para ter uma vida interior profissional de sucesso e que celebrar cada vitória, não importa o tamanho do progresso obtido é fundamental e cada vez que atingirmos uma marca significativa, devemos encontrar uma maneira de celebrar, de vibrar e responder os elogios, como um presente que merecemos por estarmos trabalhando incansavelmente para alcançar um objetivo maior.

Às vezes não temos nosso trabalho reconhecido, por mais que nos esforcemos, nem sempre somos notados e recebemos tapinhas nas costas nos parabenizando, por isso não devemos nos sentir arrogantes ou convencidos quando aceitamos e respondemos afirmativamente a um elogio. No entanto, mesmo na ausência de reconhecimento, é possível nos sentirmos imensamente felizes por avançarmos em um trabalho que é significativo para nós.

O poder dos contratempos para aumentar a frustração é mais de três vezes mais forte do que o poder do progresso para diminuir a frustração, alertam os autores. Sabemos que vamos encontrar nosso quinhão de obstáculos desde a partida até a linha de chegada, às vezes parece que não estamos fazendo nenhum progresso, desanimamos e falhamos. Todos nós falhamos e o fracasso não significa que não teremos sucesso no futuro. Significa apenas que ainda não estamos lá.

Embora eu seja uma pessoa com o hábito de parar e refletir sobre minhas ações, não tenho o hábito de comemorar minhas pequenas vitórias diárias, observo agora que é fácil perceber que nos dias em que reconheço e me alegro com minha vida, com minhas pequenas conquistas, me sinto mais confiante e feliz.

É, como diz o clichê, a vida não é sobre o destino, é sobre a jornada. Quando deixamos de fazer uma pausa e reconhecer nossos pequenos sucessos, é muito provável que sintamos fadiga e a sensação de que estamos andando em círculo. Mas quando fazemos questão de parar para comemorar e nos presentear pelas pequenas coisas que conseguimos, alimentamos nossos propósitos e a confiança.

Tornamos a vida mais complicada do que precisa ser

O filósofo grego Epicuro aconselhou que devemos nos concentrar no prazer, porque o prazer é essencial à felicidade. Mas ele deixa logo claro, numa carta a um discípulo, que não se refere ao prazer “dos dissolutos e dos crápulas” e sim ao prazer que liberta de desejos e necessidades. Epicuro não é o único a dizer que não devemos tornar a vida mais complicada do que precisa ser. De um modo geral, todas as tradições de sabedoria se concentram em nos ajudar a encontrar tranquilidade ou pelo menos, amenizar o sofrimento.

Na abordagem de Epicuro, encontrar a tranquilidade começa pelo trabalho para domar o medo e ansiedade. Precisamos primeiramente identificar as causas de nossas ansiedades e então precisamos de argumentos para nos mostrar que essas ansiedades são infundadas.  De acordo com Epicuro, muitos de nossos medos e ansiedades resultam de não conseguirmos ver as coisas como elas realmente são. O conhecimento de como funciona o mundo acabaria por nos libertar.

É uma questão interessante para contemplar demoradamente: Tenho tudo o que preciso?

Epicuro divide o que precisamos em três categorias: coisas básicas, que é o essencial para nossa sobrevivência física, comida, água, abrigo; é sobre isso, as exigências da natureza. São as coisas naturais e necessárias. 

Se você quiser além do mero essencial, o que é perfeitamente razoável, está tudo bem. O desejo por essas coisas cresce a partir dos nossos desejos naturais e básicos, mas vai além de comida, água e abrigo, o que Epicuro chamava de coisas naturais, mas não necessárias.

Depois, há todo o resto: tudo o que presumivelmente pensamos que precisamos para viver uma vida feliz, coisas, antinaturais e desnecessárias.

É desafiador ver que as únicas coisas de que realmente precisamos são “naturais e necessário.” Todo o resto é mero acessório. Uma vez que sabemos que temos tudo o que precisamos, devemos apreciar intencionalmente o que temos, porque aquele que não se contenta com o pouco que tem, se contenta com nada.

Uma das minhas citações favoritas de Fiódor Dostoiévski aponta para uma ideia semelhante, “a maior felicidade é conhecer a fonte da infelicidade.” Nós precisamos de algum sofrimento para tornar a felicidade possível. E a maioria de nós tem sofrimento suficiente dentro e ao nosso redor de si. Nós não temos que criar, inventar mais dificuldade. A maioria de nós vive vida estressante, indo e vindo e às vezes chegando a lugar nenhum, buscando aprovação e confirmação de outras pessoas sobre nossos atos.

Se existem várias coisas que se interpõem em nosso caminho dificultando o sucesso e a realização, uma delas é a tendência de tornar as coisas mais complicadas do que são, porém se você souber fazer bom uso da lama, poderá cultivar lindas flores de lótus nela, se você souber fazer bom uso do sofrimento, poderá produzir grandes momentos de superação e felicidade, seguindo regrinhas universais de não viver para agradar as pessoas e não ter medo de amar o caminho que está trilhando e a vida que está vivendo – cada passo, cada minuto.

A justiça feminina, uma batalha de afirmação diária

Um grande número de mulheres no Judiciário deve humanizar a justiça, esse é o pensamento comum quando comemoramos a posse de uma mulher em alto cargo na justiça. Entretanto, o Poder Judiciário brasileiro é composto, em sua maioria, por magistrados do sexo masculino, tendo, no final de 2022 38,8% de magistradas em atividade. Porém, nunca é demais realçar a relevância do direito à igualdade.

O julgamento de uma ação de fraude na cota de gênero, ocorrido numa cidade do Ceará, incendiou o debate na sessão do Tribunal Superior Eleitoral – TSE essa semana. A ministra Carmen Lúcia, do alto de seus 17 anos no STF, enquadrou o novato ministro Kássio Nunes, com apenas 2 anos de casa, quando este falou sobre a candidata supostamente ‘laranja’ envolvida na ação. O ministro não viu nada demais no fato de uma candidata ter tido apenas 9 votos, disse ser difícil a busca pelo voto, que ele sentia empatia por esse tipo de mulher, coitada, pobre que se candidata e é abandonada pelo partido.

De pronto, rebateu a ministra dizendo que as mulheres não podem tratadas como “coitadas” e devem ter seus direitos respeitados no processo eleitoral. “O que nós queremos não é empatia, é respeito aos nossos direitos. E é essa a educação que a justiça eleitoral tem a tradição de oferecer, e de reconhecer a mulher como pessoa dotada de autonomia.  Nós não queremos ser coitadas, queremos ser cidadãs iguais. A desigualdade, ministro, está nesse tipo de tratamento, finalizou a ministra. 

Que a ministra Carmen Lúcia que chegou na mais alta corte de justiça do país, seja a inspiração para as mulheres que estão comandando a justiça no estado de Mato Grosso.

Li algumas entrevistas sobre mulheres magistradas e pude perceber que muitas chegaram à cúpula do poder porque tiveram a rigidez e firmeza como marcas de suas trajetórias. O fato é que, bravas ou não, as magistradas estão ocupando altos cargos e ao cumprirem seus mandatos tem deixado o caminho pavimentado para que outras mulheres permaneçam nos cargos. Assim fizeram as desembargadora Maria Helena Póvoas e Maria Aparecida ao deixarem a presidência e a vice-presidência do Tribunal de Justiça, dando lugar a desembargadora Clarice Claudino e Maria Erotides, respectivamente.

A presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargadora Clarice Claudino foi empossada com um discurso sobre lançar o olhar para o ser humano, disse ser entusiasta na disseminação da cultura da pacificação social, por meio da implantação de políticas públicas e, também, da construção de soluções adequadas por meio do diálogo, da amorosidade e da compreensão do ser humano em sua integralidade.  

Num ano pré-eleitoral é importante saber quem coordenará a próxima eleição. O Tribunal Regional Eleitoral – TRE também está sob comando feminino. Foram empossadas presidente e vice as desembargadoras Maria Aparecida Ribeiro e Serly Marcondes Alves, respectivamente, para comandar uma casa onde 52% do quadro de servidores efetivos é mulher. 

Duas mulheres comandarão as eleições municipais no estado de Mato Grosso, de olho nos 141 municípios, observando a regra de 2020, quando o TSE estendeu a reserva de gênero de 30% para as mulheres candidatas nas proporcionais também sobre a constituição dos diretórios e comissões provisórias dos partidos políticos nos municípios, além de investir na luta contínua contra a prática do lançamento das candidaturas femininas ‘laranjas’, mulheres que não tem chance alguma de vencer a eleição mas emprestam seus nomes para os partidos cumprirem a lei e acessarem recurso do fundo partidário.

Esperamos que a Justiça nas mãos das mulheres nas eleições de 2024 seja baseada na obediência à cota de gênero e em caso de fraudes, que as punições venham em enxurrada de anulações de mandatos.