Ostentar não faz parte do estilo de vida dos bilionários

Ostentação é comprar aquilo que você não quer, para mostrar pra quem você não gosta com o dinheiro que você não tem”. Esse aforismo cuja autoria desconheço vem de encontro com a ideia do filósofo e economista americano Thorstein Veblen, sobre o impulso que move o consumo exibicionista no livro `A Teoria da Classe Ociosa`, publicado em 1899. Por classe ociosa, entende-se pessoas que não trabalhavam, porém, sustentavam e ostentavam alto padrão de vida através da riqueza acumulada pela família.

Veblen critica o jogo, a religião, a moda e até a escolha dos animais domésticos baseadas no status vigente. Identifiquei a questão dos animais domésticos no condomínio onde moro. A raça, a roupa dos cachorrinhos são inegavelmente exibidas como símbolo de status. O autor destaca ainda, a importância econômica dos hábitos nos diferentes grupos, ressalta o peso que a história, a sociedade e as instituições têm na difusão dos comportamentos de consumo que exalta a ostentação. A crítica recai no exibicionismo e não no uso do luxo, o autor justifica que pela sua natureza, o desejo de riqueza não se extingue em indivíduo algum.

O sentido de ostentação desempenhado pela vestimenta não é conveniente nem inconveniente, todavia a realização das semanas da moda nas mais cosmopolitas cidades do mundo, como Milão, Paris, Nova Iorque e Londres semanas atrás trouxe uma observação interessante. O show, a ostentação não são prestigiados pelos homens ou mulheres considerados mais ricos do mundo e seus familiares. A moda ostentação atrai celebridades multimilionárias e influencers ou, alguém viu Warren Buffet, Jeff Bezos, Bill Gates, Jorge Paulo Lemann e seus familiares disputando a primeira fila dos desfiles?

Simultaneamente e talvez não propositadamente o jornal The New York Times publicou uma matéria interessante sobre a forma discreta de viver adotada pelos americanos realmente ricos, trocando a ostentação pelo luxo silencioso. A matéria cita além dos nomes que citei acima, Elon Musk, Mark Zuckerberg, como bilionários, cujos estilos de vida passam longe da ostentação. Warren Buffet, vive na mesma casa desde a década de 1950, Jeff Bezos mora numa casa pré-fabricada, de baixo valor de mercado, Zuckerberg e Elon Musk já são conhecidos por seus estilos despojados.

Há, segundo a matéria, uma tendência por quem é verdadeiramente bilionário de até se consumir o luxo, mas em silêncio, nada deve ser notado. Destoou feio dessa tendência de discrição, a atriz americana Jennifer Lopez que também esteve nos noticiários dias atrás, saindo da academia ostentando uma bolsa, considerada a mais cara do mundo, uma Birkin, da Hermès, que custa algo em torno de 2 milhões de reais. Então, percebe a diferença entre os verdadeiramente ricos e celebridades que ostentam?  

A ostentação de riqueza não é apenas desaprovada nos níveis mais altos de riqueza, é também evitada, diz Stellene Volandes, editora-chefe da mais antiga revista que retrata a vida luxuosa dos ricos que querem se distanciar dos holofotes e dos posts ostentação. A discrição é um valor-chave, é um código, onde você pode demonstrar status sem parecer que está demonstrando, ensina.

Autora de vários livros, criticando o exibicionismo e não o luxo, Volandes diz que sempre haverá aquelas pessoas que se cobrem com símbolos de status, como diamantes e bolsas com logomarca aparecendo.

Nossa maior fonte de preocupação

Os brasileiros se preocupam mais com pobreza e desigualdade social, crime e violência e corrupção do que com inflação, mudanças climáticas, conflito militar entre nações. Essa é a conclusão de uma pesquisa global realizada em 29 países entre fevereiro e março deste ano pela Ipsos, empresa de pesquisa e inteligência de mercado fundada na França há quase 50 anos. A pobreza e a desigualdade social formam o tema apontado como mais problemático para 41 % dos brasileiros entrevistados. Além do Brasil, Bélgica, Holanda e Japão consideram a pobreza e desigualdade como sua maior fonte de preocupação.

A percepção do problema da pobreza e suas inaceitáveis nuances faz sentido, sobretudo numa semana em que o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), provocado por partidos políticos, expôs uma das preocupações e dificuldades mais urgentes; como lidar com a população em situação de rua, vítima frequente de violação maciça de direitos humanos. O Ministro determinou que em 120 dias o governo federal deve apresentar um diagnóstico atual da população, com identificação do perfil, procedência e suas necessidades, além de um plano de monitoramento e ação, com medidas que respeite as especificidades dos diferentes grupos familiares.

A população em situação de rua é vítima visível do combo desigualdade social, pobreza, desemprego, abandono e violência. O Ministro também determinou que estados e municípios proíbam remoção compulsória das pessoas em situação de rua e os mantenham, juntamente com seus pertences e animais de estimação nos abrigos institucionais.

Ao todo, nos 29 países pesquisados a preocupação relativa à pobreza e desigualdade social chega a 34%. Os analistas da pesquisa destacam uma diferença entre as preocupações dos países de renda baixa, média e alta. Entre os países mais pobres, a corrupção, o desemprego, a pobreza extrema estão entre os mais discutidos internamente. Essas preocupações aparecem nos países de renda média, em menor grau, porque já articulam outras discussões. Já nos países ricos, a maior preocupação é com o estado da economia mundial, o aquecimento global e a guerras.

No Brasil, enquanto permanecermos andando em círculos, acumulando indignidades e equívocos para erradicar a pobreza em todas as suas dimensões não teremos tempo, ânimo ou argumentos para adentrarmos outros discussões, como por exemplo, mudanças climáticas. Irônico, mas desde a Constituição de 1934, a noção de dignidade humana já estava incorporada no ordenamento jurídico brasileiro. Continua no papel, bem cortado no Art.6º da Constituição Federal: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015).

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, lê-se no artigo 25: “Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle”. 

Tudo seco, apenas no papel.

A violência contra a mulher não é um processo inevitável

Os números e estudos sobre a violência contra a mulher desmentem a ideia de que o perigo está em cruzar com um estranho em uma rua escura. “Em 84% dos casos de estupro, o estuprador é uma pessoa próxima e em 65%, o estupro foi cometido dentro de casa”, dados do Instituto Patrícia Galvão.

A violência contra a mulher segue adicionando requintes de sadismo e crueldade ao ato de subjugar e humilhar a mulher. Essa semana, em Primavera do Leste, na frente de outra criança, um homem agrediu um bebê de apenas três meses de idade. A cena aterrorizante foi gravada pela mãe, que também foi agredida pelo marido. Quanto mais chorava, mais apanhava o bebê, que apresentou lesões na cabeça. Segundo relatos da mulher, o casal já havia se separado devido as agressões que sofria, sem, no entanto, haver denunciado antes.

No estado vizinho de Goiás, um médico, ginecologista, de 73 anos, com cara de avô confiável foi preso em Goiânia após denúncias de uma série de crimes sexuais contra pacientes, depois que o marido de uma das mulheres, que o denunciou por crime sexual entrou abruptamente no consultório do médico e deferiu-lhe alguns socos.  A partir do episódio, que foi amplamente noticiado, muitas outras mulheres se encorajaram a denunciar as violações que sofreram em consultas com o ginecologista ao longo dos anos. Alguns casos, datam de 1994, já devem estar criminalmente prescritos.

O fato em Goiás aconteceu no mesmo momento em que um outro médico ginecologista recebia a sentença de ter que cumprir 35 anos e 11 meses de prisão por crimes sexuais contra 45 vítimas, que eram pacientes.

Fora do Brasil, a situação envolvendo médicos se repete. Dois meses atrás, um famoso oncologista americano estava proferindo uma palestra, num centro médico lotado, quando foi interrompido e agredido, ao vivo, pelo marido de uma paciente, de quem ele teria abusado sexualmente durante uma consulta médica.

Citei casos ocorridos recentemente em casa e no consultório médico porque envolvem relacionamentos que deveriam ser de confiança mútua, porém, percebe-se nos que os médicos sentiam o consultório como um campo seguro para praticar os crimes, ficavam a sós com as vítimas, com portas trancadas e confiavam no silêncio das mulheres, visto que há estudos que comprovam que 8 em cada 10 vítimas não denunciam, o que mostra como o trauma, a vergonha e o medo da exposição são barreiras para que as mulheres vítimas de violência denunciem, o mesmo sentimento de controle acontece dentro de milhares de casas.

A Comissão de Constituição e Justiça do Senado aprovou um Projeto de Lei que determina o afastamento imediato do lar de homens que usam violência sexual, moral e patrimonial contra as mulheres, o que já está previsto na Lei Maria da Penha, contudo a proposta da senadora Danielle Ribeiro, inclui outras formas de agressão, que foram se incorporando as práticas de violência, como, a vingança pornográfica virtual, difusão de informações falsas, vulgarização da vida privada, entre outras…

Medidas propostas transformadas em leis há centenas, a efetividade destas não está em questionamento, porque um artigo aqui, outro ali vai fechando o cerco contra os agressores, vai derrubando por terra a tese de que isso ‘vai dar em nada’. Um dia dá, como o caso do médico de Goiás, que desde 1994 assediava e violava pacientes, 29 anos depois, está preso.

Não e não penso que as mulheres tenham que ter jogo de cintura para sair das situações de violência, pelo simples fato de que as situações de violência não deveriam mais acontecer. A violência contra a mulher não é um processo inevitável e pode ser prevenida com mais educação e punição cada vez mais rigorosa.

A sustentável paixão por Milan Kundera

Milan Kundera, excepcional romancista, ensaísta, poeta e crítico político tcheco, morreu essa semana, em Paris aos 94 anos. Ele é terrivelmente direto, muito contundente, por isso recusa as consolações do sentimentalismo ou da moralidade, viu e escreveu o que os escritores anteriores não puderam ver ou dizer. O foco dos romances de Kundera é sua luta com questões de conhecimento, a complexidade do ser e uma incerteza inquietante. “Parece-me que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar a entender, responder a perguntar, de modo que a voz do romance dificilmente pode ser ouvida sobre a ruidosa tolice das certezas humanas”.

Peso e leveza, riso e esquecimento, repetição e mudança, política e sexo, para Kundera, o que a ficção faz é dizer ao leitor que as coisas não são tão simples quanto se pensa, embora nunca tenha se visto como um homem político, um moralista, um liberal, conservador ou um escritor famoso. Ele se considerava simplesmente, um novelista.

É senso comum imaginar que um escritor de tal densidade, seriedade e brilhantismo deveria ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura em algum momento de sua longa vida. Afinal, ganhou muitos prêmios importantes. Talvez tenha sido seu estilo de escrita que fez com que a Academia o visse indicado em várias ocasiões, mas nunca lhe concedeu o prêmio. Segundo alguns críticos literários, Milan Kundera se tornou um contador de verdades inconvenientes para a era moderna talvez haja algo nisso que tenha perturbado o Comitê do Nobel de Literatura.

á li queixas de mulheres, que seu tom e narração de cenas de sexo, a representação das mulheres pode ser apresentada como masculinidade ultrapassada. Não me abalou o encanto com seus romances e ensaios, a maioria de inspirações autobiográficas.

Kundera nasceu e cresceu na Tchecoslováquia, hoje República Tcheca, ocupada pelos nazistas, depois viu a antiga União Soviética invadir seu país, sob o regime comunista. Foi membro ativo do Partido Comunista. Kundera sabia sobre opressão e desumanidade. Escreveu que o totalitarismo não é apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso, a promessa de um mundo onde todos viveriam em harmonia.

Desencantou-se com o comunismo, foi uma das principais vozes do movimento Primavera de Praga em 1968, pedindo liberdade de expressão e direitos iguais para o povo tcheco. Foi expulso do Partido Comunista sob alegação de pregar o anticomunismo e trair os ideais dos governantes de seu país. Exilou-se na França e quatro anos depois o governo tirou-lhe a cidadania tcheca. Em 2019, 40 anos depois, o governo tcheco restabeleceu sua cidadania e de sua esposa.

A partir da França, continuou escrevendo e atacando o regime comunista, como no Livro do Riso e do Esquecimento, onde narra que um grupo de comunistas fiéis ao regime dançam em um círculo, se eleva no ar e paira sobre a cidade sorrindo. ‘Eles riem o riso dos anjos enquanto abaixo deles, os carrascos estão matando presos políticos’.

No seu romance mais conhecido, A Insustentável Leveza do Ser, escrito em 1984 adaptado para o cinema anos depois, Milan Kundera destila sua indignação contra a política totalitária, tornando o cenário da Primavera de Praga e a brutalidade do regime soviético sobre a Tchecoslováquia um dos temas centrais da história. Adiciona com genialidade uma narrativa erótica que sugere que o sexo despreocupado e livre pode nos permitir viver plenamente o momento, que isso pode nos levar a trocar o peso do eterno pela leveza de estar vivo, aqui e agora, o conflito que pode existir em cada um de nós entre o desejo de autenticidade e o dever de lucidez.

Milan Kundera é um escritor de frases poderosas. No ensaio ‘Inimizade e Amizade’, Milan Kundera fala sobre a amizade e desavenças políticas. “Em nosso tempo, as pessoas aprenderam a subordinar a amizade ao que se chama de convicções. É preciso muita maturidade para entender que a opinião que defendemos é apenas a hipótese que defendemos, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas mentes muito limitadas podem declarar ser uma certeza ou uma verdade. Ao contrário da lealdade a uma convicção, a lealdade a uma amizade é uma virtude, talvez a única virtude, a última que resta. Na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é das amizades feridas e nada é mais tolo que sacrificar uma amizade pela política”.

Problema feminino não é mero complemento

ACâmara dos Deputados comemorou com a devida honra os 10 anos de criação da Secretaria da Mulher na Casa, que hoje tem uma bancada de 92 deputadas (já incluída Gisela Simona) num universo de 513 parlamentares. A sub-representação ainda é gritante, já que a União Interparlamentar indica que a participação de mulheres nos parlamentos global é de 26%. Por aqui, patinamos em míseros 17%.

Embora o percentual de mulheres eleitas seja menor do que o de homens, os indicadores da Câmara Federal, publicados pela Agência Câmara de Notícias, registram que as deputadas apresentam mais projetos, proporcionalmente que os homens. Desde a criação da Secretaria da Mulher, em 2013, até o final de 2022, as leis aprovadas a partir de proposições e articulação da bancada feminina, que já foi chamada de “Bancada do Batom”, tem pautas ligadas a saúde, combate às diversas formas de violência, educação, mercado de trabalho, assistência e garantias de direitos.

Pois bem, é inegável que o cenário da participação da mulher na política está longe de ser o ideal e volto a um passado recente para lembrar da pré-campanha do Senador americano Bernie Sanders, principal rival de Joe Biden no Partido Democrata às eleições de 2020, onde também concorria, uma mulher, a senadora Elizabeth Warren. Com um discurso alinhado às pautas femininas foi Bernie Sanders o escolhido pelas mulheres famosas em seus trabalhos e discursos pela igualdade de tratamento, pagamento e prestígio a homens e mulheres nas mesmas condições de classe e de trabalho.

 A filósofa Nancy Fraser, professora de Filosofia e Política, sempre apontou as mulheres como as principais responsáveis ​​pela segurança e sobrevivência das famílias e das comunidades. De acordo com Fraser, as mulheres são as responsáveis ​​globalmente pela criação da próxima geração, tentando proteger as crianças quando fogem da violência em casa e enfrentam as fronteiras militarizadas que prendem até crianças.

Ela liderou um movimento intenso demonstrando às mulheres que embora a Senadora Warren fosse um nome respeitável, o discurso e as pautas que ela defendia não representavam os ideais femininos e feministas, da grande maioria dos trabalhadores com salários baixos. E as mulheres representavam essa maioria e aumento do salário-mínimo, aumentaria a liberdade feminina, tanto em casa quanto no trabalho. E dar as mulheres mais direitos nas negociações, daria a elas uma arma mais poderosa na luta contra o assédio e agressão sexual, sobretudo nos locais de trabalho. Puxou coro para que o apoio das mulheres fosse para o candidato que havia pautado o aumento do salário-mínimo, questões de gêneros, uma colocação da mulher por inteira dentro da sociedade como mote principal da campanha.

Criticada por apoiar um candidato homem, Nancy Fraser justificou: “Não nos interpretem mal. Gostaríamos de ver uma mulher presidente tanto quanto qualquer outra pessoa. Mas isso não pode nos custar a chance de construir um movimento que possa realmente melhorar a vida da grande maioria das mulheres”.

O respeito às pautas femininas não é prioritário em país nenhum, mas ganham relevância, cobranças e impulsionam positivamente a agenda dos grandes líderes. Ainda, um complemento. Ao final, Bernie Sanders recuou à candidatura e para apoiar Joe Biden, o fez assumir publicamente os compromissos assumidos com as lideranças femininas e feministas, apresentadas a ele pela filósofa Nancy Fraser.

Daqui há pouco começa a campanha para 2024 e não basta escolher uma candidata ou candidato que tenha alguma proposta feminina no seu programa. Precisamos apoiar uma campanha comprometida com a mudança estrutural que as mulheres precisam. 

Momentos de desconexão com a dureza da labuta

Assisti a aula magna do sociólogo italiano Domenico de Masi essa semana, ofertada pelo Instituto Conhecimento Liberta, onde ele reafirma a beleza da tese que o tornou famoso há duas décadas, conhecida como O Ócio Criativo, defendendo que precisamos incorporar em nossas rotinas a meditação e a reflexão, que precisamos de momentos de tranquilidade para refletir sobre nós mesmos, sobre nosso destino. “Temos a necessidade de amizade, de amor, de brincadeira e de beleza. Temos a necessidade da convivência. Essas necessidades não exigem dinheiro ou riqueza. Não é uma questão econômica, é uma questão de doação. Ao doar meu amor, não reduzo meu poder amoroso, pelo contrário, saio fortalecido”.

No livro há uma passagem em que De Masi fala que um executivo acerta nove em dez tentativas e segue gerenciando satisfatoriamente seu negócio. O indivíduo criativo faz o oposto: erra nove em dez tentativas, mas, quando acerta muda o mundo, abrindo novas possibilidades inovadoras. O ócio criativo consiste na possibilidade de realizar trabalhos nos quais o trabalhador desenvolve uma atividade que, ao mesmo tempo, é um trabalho com o qual ele cria riqueza, é estudo com o qual ele cria conhecimento, e é jogo com o qual ele cria bem-estar e brincadeira. Pode ser o trabalho da dona de casa, do sacerdote, do artista, do profissional, do padre, de quem desenvolve um trabalho com TI, com diversão, alegria e ensinamentos.

De Masi perpassa pelas mudanças experimentadas pelo mundo, fala das condições de vida consideradas ideais pelo filósofo Platão, em O banquete: “Conviver com um grupo de amigos criativos, paixão pela beleza e pela verdade, liberdade carismática e tempo à disposição sem a angústia de prazos e vencimentos improrrogáveis”. O ócio é, em certos casos, a liberdade de ter controle sobre o tempo. Aristóteles acreditava que a vida com tempo suficiente para ponderar o que é essencial, era mais suscetível de conduzir a felicidade do que a vida do comerciante ou do político muito ocupado.

Faz o contraponto, ao falar da cada vez mais rápida escalada das novas tecnologias, que alcançará uma população mais longeva, “em média, o ser humano viverá de 780 mil a 790 mil horas (atualmente, a média é de 730 mil horas); marcada pela inteligência artificial, que se sobreporá a grande parte do trabalho intelectual realizado hoje”. No entanto, De Masi não reclama e diz que o avanço das tecnologias melhorou nossa qualidade de vida e propiciou, inclusive, a palestra dele, baseado em sua residência em Roma, para o público brasileiro. 

Assisti a aula e dias depois, um episódio reforçou minha crença que precisamos transportar a alegria que transborda nos momentos de ócio para nossas atividades diárias. Precisamos espreitar a vida que acontece num ambiente, ainda que não seja o nosso, dançar ao ritmo da música eletrônica de Alok ainda que tenhamos sido contratados para limpar o chão da área do show. A diarista Luzimar, trabalhadora de limpeza da festa onde o DJ tocava, foi filmada dançando alegremente com a vassoura e a pá na mão, em frente ao palco. A alegria da moça não durou. Luzimar não estava “fazendo nada”. Apenas emprestou alegria ao trabalho e não foi entendida.    

Ela perdeu a diária que receberia pelo dia de trabalho e a empresa postou justificando: “O pessoal da limpeza tem que ter postura, não é pago para ficar dançando”.  

Alok fez apelo nas mídias sociais para localizar Luzimar e reparar a punição sofrida pela diarista, além de ofertar-lhe uma ajuda bem mais significativa do que uma diária. Percebe, que por aqui não se pode sequer dançar com a vassoura enquanto se varre o chão?

Não seja normal. Seja você.

Maya Angelou, uma das escritoras americanas mais premiadas de sua geração, subverteu a normalidade de sua época, ao tornar-se, aos 17anos a primeira motorista negra de ônibus em São Francisco. Numa época em que não era comum, assumiu-se mãe solteira. Alguns anos depois, tornou-se a primeira negra roteirista e diretora em Hollywood. E mesmo depois de morta, torna-se, em 2022, a primeira mulher negra a ter o rosto em uma moeda norte-americana e proclamou com orgulho suas palavras: “Se você está sempre tentando ser ‘normal’, nunca saberá o quão incrível você pode ser.”

Normal pode ser semelhante ao usual, médio, típico ou esperado. Normal implica em conformidade com um padrão preconcebido, que pode limitar seu potencial. Você pode nunca alcançar o extraordinário, desde que opte por permanecer comum. Normal geralmente não significa estender os limites. Normal geralmente não significa pensar fora da caixa. Normal geralmente não significa alcançar a grandeza. Atos normais, rotineiros, não mudam o mundo.

O mundo ‘normal’ sugere que existe uma maneira certa e errada de ser uma pessoa e não há. Existe um espectro de comportamento aceitável na sociedade e ele é vasto e varia muito. As pessoas geralmente querem ser aceitas socialmente e o caminho considerado mais fácil é se encaixar no comportamento da multidão. Para fazer isso, você pode se sentir pressionado a pensar e se comportar de uma determinada maneira.

As pessoas não são facilmente categorizadas, e isso é ótimo. A vida humana é muito orgânica para ser rigidamente classificada. Normal pode ser mais uma abstração do que uma experiência humana. Se esforçar para viver dentro da normalidade pode restringir a criatividade, o prazer, a graça. Ser curioso e criativo, ao contrário, requer correr riscos. Preocupar-se em viver de acordo com um padrão individual coloca a ênfase, o brilho da pessoa no resultado.

O conceito de normalidade é mais um ideal subjetivo do que realidade. Cada cultura desenvolve seu próprio código sobre o que é normal. A normalidade é um enigma e uma ilusão. O que uma cultura pode considerar comum, outra pode achar incomum. Em situações cotidianas, as pessoas julgam a normalidade tomando os outros como sua própria referência de comportamento normal. Nesse sentido, a normalidade aos olhos dos outros, quando você tenta ser o que outra pessoa considera normal, pode perder uma parte de sua essência no processo de imitação.

Imagine o tédio que seria, se na vida fossemos iguais, se possuíssemos características e qualidades únicas. Rótulos são úteis para mercadorias, mas não se encaixam no mundo confuso das emoções humanas e traços de personalidade.  Se o normal é equiparado ao status quo, então a anormalidade torna-se igual à inconformidade.

 Todo mundo é único à sua maneira, mas o que torna algumas pessoas tão diferentes de todas as outras? Muitas vezes as diferenças são usadas para tornar os outros inferiores e insignificantes, porém, os relacionamentos autênticos começam com o reconhecimento, compreensão e aceitação das nossas anormalidades.

Vivemos em uma era de migração em massa

ORelatório de Migração Mundial de 2022 das Nações Unidas, registra que havia 281 milhões de migrantes internacionais em 2020, o equivalente a 3,6% da população global, dos quais, 1,3 milhões residem no Brasil. O indivíduo que migra, coloca também no contexto da migração a sua autonomia para produzir sua própria história num determinado lugar, que não o seu nacional. Mal compreendidos e nem sempre aceitos, em muitos países os migrantes são frequentemente acusados pelo aumento da criminalidade, queda dos salários, falta de emprego e até da ruptura social e cultural.

18 de junho é o Dia Nacional do Migrante. Migrante é toda pessoa que se transfere do seu lugar habitual para outro lugar, região ou país. 

Sempre articulei a migração como um processo de expressão de liberdade, liberação do sofrimento, início da fuga, alimentação da esperança. É importante observar que a migração quando se dá em deslocamento forçado, em virtude de fuga de guerra, de devastação por terremotos, envolve uma decisão tomada olhando para a terra destruída, para os perigos eminentes que a situação determina, para o sofrimento decorrente do rompimento com a família, com as tradições, de um momento para outro. Além disso, trata-se de um tipo de migração que não favorece o retorno no curto prazo, e nesse ínterim se o migrante pensa, sente ou é acometido por um sentimento de saudade insuportável, pelo desejo de voltar, ele entra num momento nostálgico de reflexão: Voltar para onde?

Muitas famílias são abatidas pela tragédia dos relacionamentos que se perdem na distância e no tempo, por isso é muito importante a portaria que foi publicada em abril passado pelo governo brasileiro, sobre a concessão de autorização de residência prévia e a respectiva concessão de visto temporário para fins de reunião familiar para nacionais haitianos com vínculos familiares no Brasil.

A maioria dos migrantes fogem da miséria que lhes é familiar para se aventurarem no mundo desconhecido, onde se lançam numa travessia cujo fim desconhecem.

A falta de humanidade tem gerado notícias absolutamente devastadoras sobre a travessia de muitos migrantes. Dias atrás, na costa da Grécia, o naufrágio de barco pesqueiro lotado de migrantes, deixou cerca de 80 mortos e 500 pessoas ainda estão desaparecidas. Foi relatado que mulheres e crianças eram a maioria dos passageiros do barco. Sempre, após uma tragédia os altos comissários da ONU se reúnem em condolências, ressaltam a necessidade de punir severamente os traficantes de seres humanos e pedem aos países que abram rotas seguras de migração. No entanto, nada muda!

Os atritos provocados pela migração não são problemas novos; eles estão profundamente enraizados na história humana e me atualizando sobre os números da migração, deparei-me com um relatório, que mostra que indivíduos muito ricos também migram. Cerca de 1,2 mil brasileiros, com patrimônio avaliado em mais de US$ 1 milhão, vão migrar para outros países ainda em 2023.

Para onde vão os milionários?

Austrália é o paraíso escolhido pela maioria dos afortunados. Deve receber mais de 5,2 mil novos ricos, do mundo, em seu território.

Reparação

Há 4 dias morreu o sociólogo francês Alain Touraine e seu livro “Podemos Viver Juntos?” transversalmente resvala ao tema da reparação às injustiças, ao tempo em que deixa lições inesquecíveis, rejeitando a ideia romântica de que agora vivemos juntos como iguais, compartilhando os mesmos valores sociais e culturais. Touraine afirma que, na verdade, nossas diferenças estão cada dia mais intensificadas. Estamos, segundo o sociólogo, “vivendo o desaparecimento de todas as linguagens, discursos e instituições que nos protegiam. Estamos nos tornando pessoas dessocializadas e indiferentes às lutas dos outros e que hoje, vivemos todos, sob o critério do prazer, da utilidade e do interesse. Não nos interessamos por nada que não seja do nosso interesse.”

Toda injustiça deixa como legado a tendência de naturalização do mal praticado e é difícil admitir a falência do pensamento em compreender a desordem atual e criar reflexões a partir das novas conexões que dispomos. É difícil rever o modo como pensamos, o modo como capturamos em conceitos o que já admitimos com nossos sentimentos e atitudes.

A reparação das ofensas e violências forjada na luta dos movimentos sociais, da cobrança sistemática de parte da sociedade, que não adormece diante das injustiças e atrocidades cometidas, não necessariamente precisa ser financeira, mas em investimentos em programas de ação afirmativa no longo prazo, para que se possa mudar a forma de pensar que justificou a escravidão e ainda justifica o racismo, a violência doméstica, abusos sexuais e outras formas de injustiça e agressão, como  os casos recentes de assédio do padre de Primavera do Leste, os casos dos estupros cometidos pelo pastor em São Paulo, que amedrontava os meninos alegando que o diabo pegaria suas almas caso não fizessem sexo com ele.

Há o caso recente de racismo contra o jogador brasileiro Vini Jr na Espanha e há o caso dessa semana, onde uma senhora branca impede a passagem de um jovem negro cadeirante no corredor do ônibus e ao ser interpelada, ela questiona: “Estamos na floresta?”

Não seria necessário perguntar o que ela quis dizer com isso. Ela não quis dizer, ela disse e reproduziu os comentários racistas ouvido pelo jogador dias atrás, sem constrangimento algum, sendo filmada.

No caso da violência doméstica já se aplica práticas reparadoras concretas: “Verifico que a ofendida suportou malefícios causados pela violência sofrida na condição de mulher, transtornos e aborrecimentos que lhe causaram sofrimento, fato que causa lesão à dignidade subjetiva da vítima, configurando danos morais,” diz o trecho de uma decisão judicial favorável à vítima.

Sim, financeiramente é possível cobrar reparação na justiça, embora nem sempre seja possível, de forma justa precificar a dor vivenciada. Mas a crueldade, o preconceito, a violência, o assédio precisam deixar de existir na mente doente dos acusados. O estupro é um ataque e quem o pratica, sobretudo em ambiente religioso, onde o tema é considerado tabu, sabe que raramente será denunciado. Como reparar a mente perturbadora de homens que habitam este vasto mundo onde os controles sociais estão debilitados e a fronteira entre o normal e o patológico, o permitido e o proibido perdem sua nitidez?

A indiferença não é apenas o pecado mas também a punição

“O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. O oposto da arte não é a feiura, é a indiferença. O oposto da fé não é heresia, é indiferença. E o oposto da vida não é a morte, é a indiferença.”  Elie Wiesel, romeno, prêmio Nobel da Paz e escritor.

A maioria das pessoas não se importam com o que você passa e algumas secretamente torcem pelo seu fracasso, pelo seu fim. A indiferença é próxima da apatia, é a sensação de não estar interessado, de não se importar de qualquer maneira, uma tendência do egoísmo moderno. De certa forma, ser indiferente ao sofrimento é o que torna o ser humano, desumano.

Li uma entrevista densa e emocionante do cantor Gilberto Gil, sobre a ameaça de morte da filha Preta Gil, diagnosticada com câncer de intestino. É um drama particular, familiar, uma dor lacerante vivenciada solitariamente por milhares de famílias brasileiras. Pensei: quem, além da família e alguns amigos se importam? Conectei-me ao texto belíssimo do escritor Elie Wiesel, onde ele reflete sobre o perigo da indiferença, ‘considerando-a tão tentadora quanto sedutora’, porque nos ajuda a desviar o olhar dos que sofrem, dos que são vítimas e assim, não precisamos estar envolvidos na dor e no desespero de outra pessoa. A nossa indiferença reduz o outro, o que sofre, a uma abstração.

Talvez a maior causa da indiferença no mundo de hoje seja a normalização da dor, causada pela doença, pela violência, pela pobreza; temas que são manchetes nas primeiras páginas de nossos jornais todos os dias e nem a todos causa inquietação. Afinal, a indiferença é mais perigosa do que a raiva e o ódio. A raiva às vezes pode ser criativa. Escreve-se um grande poema tomado pela ira, alguém faz algo especial pelo bem de outros porque está indignado e furioso com tanta injustiça. A raiva pode levar a denúncia e ao desarme. A indiferença não provoca resposta. A indiferença não é uma resposta. A indiferença está contida no silêncio.

Devemos lutar contra a normalização da dor de qualquer origem, contra a sedução da indiferença, embora, individualmente não possamos fazer muito, a maioria de nós pode fazer mais para honrar a humanidade dos outros.

Cada um de nós pode desenvolver seu próprio plano de ação contra a própria indiferença. Não somos capazes de reconhecer cada coração que sangra de dor por um familiar que enfrenta a batalha contra o câncer ou outra doença, mas podemos reconhecer e demonstrar empatia por aqueles que moram próximos, por aqueles que trabalham no mesmo ambiente que nós e externar solidariedade e compaixão por todos que nos chamaram à atenção e compartilharam seus dramas, no mínimo, como reconhecimento de suas existências e humanidades.

Elie Wiesel me apavora quando diz: “Mas é isso que devemos fazer: não dormir bem quando as pessoas sofrem em qualquer lugar do mundo, que não consigo alcançar. Não dormir bem quando alguém é perseguido. Não dormir bem quando as pessoas estão com fome. Não dormir bem quando há pessoas doentes e não há ninguém para ajudá-las. Não dormir bem quando alguém em algum lugar precisa de você.”