Racismo em toda parte, contra Vini Jr. na Espanha e haitianos em Cuiabá

A Universidade de York, no Canadá publicou um estudo na revista Science, onde aponta que a maior parte das pessoas diz que desaprova qualquer ato racista, mas muitos sequer apresentam sinal de desconforto ou reagem com indiferença ao presenciar a injustiça. O problema emerge quando em vez de acreditar que minha identidade é única, o que é verdade para todos os seres, eu acredito que sou um ser supremo.

   Vinicius Jr. joga pelo Real Madrid, na Espanha e tem sofrido repetidos ataques racistas de torcedores de times rivais, como o próprio jogador desabafou: “não foi a primeira vez, nem a segunda, nem a terceira. O racismo, é normal na liga de futebol da Espanha”. Em janeiro deste ano, simularam o enforcamento de um boneco que usava a camisa de Vini Jr.

Desta vez, o jogador decidiu gritar, apontar para os racistas e a repercussão foi enorme na Espanha e mundo afora. Manifestação de apoio surgiu de estrelas da música, do esporte, de políticos importantes, como o Primeiro-ministro da Espanha e dos torcedores brasileiros. Postura firme teve o treinador do Real Madrid logo após o final do jogo contra o Valência, quando na entrevista coletiva lhe fizeram uma pergunta sobre futebol, ele disse: ‘‘Não quero falar sobre futebol. Eu quero falar sobre o que acabou de acontecer aqui neste estádio”.

A partir daí, a atenção dada ao intolerável caso de racismo, pode ser divisor de águas na luta contra o racismo no futebol. As autoridades locais nunca haviam agido tão rapidamente contra os torcedores que insultaram os jogadores, e nunca os dirigentes do futebol haviam punido um clube com tamanha severidade pelo comportamento racista de seus torcedores, como a multa aplicada ao Valência, a maior que um clube espanhol já recebeu, o time teve também, parte de seus assentos no estádio fechados por 5 jogos.

Diante dos holofotes, o jogador Vinicius Jr, apontou o dedo para aqueles que o xingaram em Valência e apesar de haver contabilizado apoios importantes, poucos espanhóis entrevistados por um jornal inglês, admitem que algo pode mudar daqui para frente. Apesar da prisão de sete torcedores, até o momento, ninguém jamais foi a julgamento na Espanha por ataques racistas a um jogador.

O incidente envolvendo o jogador brasileiro, me fez lembrar de um passado recente, ano de 2012, quando estabeleci o primeiro contato com um grupo de haitianos que havia chegado a Cuiabá, buscando trabalho nas obras da Copa do Mundo, sobretudo na construção da Arena Pantanal.

Decidi dedicar meu tempo e afeto para tornar menos sofrida a história de suas diásporas. Nas observações entrevistas que fiz, ficava cada vez mais claro que os haitianos estavam vivendo entre si, sem nenhuma oportunidade de entrar na vida da sociedade cuiabana, porque o Cuiabano não se dignou a dar-lhes importância.

Os haitianos, negros, diariamente confundidos com africanos pelas ruas de Cuiabá, esperavam que a qualquer momento os muros rompessem e eles pudessem participar efetivamente da vida social e cultural de Cuiabá. Embora não estivessem, por imposição segregados a um espaço físico, a condição econômica desfavorável encarregou-se de fazê-lo. Havia e ainda há vários minis Haitis espalhados pela capital. Os cuiabanos não xingaram os negros haitianos nem expressaram grosseira xenofobia. Os cuiabanos ficaram distantes, indiferentes. Cuiabanos de um lado, os haitianos de outro.

O racismo se alimenta da indiferença!

Pouco a pouco, o pouco se torna muito

Normalmente, quando traçamos nosso plano para a vida, colocamos a bandeira de chegada no final e pensamos: ‘Quando eu chegar lá, vou comemorar’. Faz todo o sentido se esperamos ter uma linha reta até a vitória, porém, de forma alguma, precisamos esperar atingir o objetivo para ser feliz, podemos comemorar as pequenas vitórias que teremos pelo caminho e ser feliz a partir da largada. Isso nos dará motivação para continuar avançando ao enfrentarmos obstáculos.

A professora Teresa Amabile, da Harvard Business School e o pesquisador Steven Kramer são autores do livro “O Princípio do Progresso”, onde revelam o segredo por trás das pessoas efetivamente produtivas; o progresso. Em entrevista ao jornal The New York Times, a professora ensina que mesmo que não saibamos como receber um elogio ou mesmo que não andemos recebendo reconhecimento externo, ainda podemos nos beneficiar psicologicamente, se festejarmos nossas conquistas sozinhos, mesmo que não sejam avanços ou sucessos enormes, são significativos e devemos no sentir feliz por isso. Amabile diz que “precisamos abraçar o poder dessas pequenas vitórias e aprender a ficar à vontade com o reconhecimento e elogios”.

Enfatizando o poder das pequenas vitórias, o estudo mostra que os pequenos passos são cumulativos, não apenas na prática, mas também emocionalmente. O progresso, por menor que seja, contribui para a alegria, engajamento e criatividade. E não são necessárias ferramentas ou circunstâncias especiais. Gerenciar a vida, o tempo para o progresso tem muito mais a ver com a atitude do que com dinheiro ou equipamentos.

Os pesquisadores dizem que a pesquisa é inequívoca e que à medida que a vida interior da pessoa é inconstante, o mesmo acontece com o desempenho pessoal e profissional. E progredir no trabalho é o estimulante mais poderoso para ter uma vida interior profissional de sucesso e que celebrar cada vitória, não importa o tamanho do progresso obtido é fundamental e cada vez que atingirmos uma marca significativa, devemos encontrar uma maneira de celebrar, de vibrar e responder os elogios, como um presente que merecemos por estarmos trabalhando incansavelmente para alcançar um objetivo maior.

Às vezes não temos nosso trabalho reconhecido, por mais que nos esforcemos, nem sempre somos notados e recebemos tapinhas nas costas nos parabenizando, por isso não devemos nos sentir arrogantes ou convencidos quando aceitamos e respondemos afirmativamente a um elogio. No entanto, mesmo na ausência de reconhecimento, é possível nos sentirmos imensamente felizes por avançarmos em um trabalho que é significativo para nós.

O poder dos contratempos para aumentar a frustração é mais de três vezes mais forte do que o poder do progresso para diminuir a frustração, alertam os autores. Sabemos que vamos encontrar nosso quinhão de obstáculos desde a partida até a linha de chegada, às vezes parece que não estamos fazendo nenhum progresso, desanimamos e falhamos. Todos nós falhamos e o fracasso não significa que não teremos sucesso no futuro. Significa apenas que ainda não estamos lá.

Embora eu seja uma pessoa com o hábito de parar e refletir sobre minhas ações, não tenho o hábito de comemorar minhas pequenas vitórias diárias, observo agora que é fácil perceber que nos dias em que reconheço e me alegro com minha vida, com minhas pequenas conquistas, me sinto mais confiante e feliz.

É, como diz o clichê, a vida não é sobre o destino, é sobre a jornada. Quando deixamos de fazer uma pausa e reconhecer nossos pequenos sucessos, é muito provável que sintamos fadiga e a sensação de que estamos andando em círculo. Mas quando fazemos questão de parar para comemorar e nos presentear pelas pequenas coisas que conseguimos, alimentamos nossos propósitos e a confiança.

Tornamos a vida mais complicada do que precisa ser

O filósofo grego Epicuro aconselhou que devemos nos concentrar no prazer, porque o prazer é essencial à felicidade. Mas ele deixa logo claro, numa carta a um discípulo, que não se refere ao prazer “dos dissolutos e dos crápulas” e sim ao prazer que liberta de desejos e necessidades. Epicuro não é o único a dizer que não devemos tornar a vida mais complicada do que precisa ser. De um modo geral, todas as tradições de sabedoria se concentram em nos ajudar a encontrar tranquilidade ou pelo menos, amenizar o sofrimento.

Na abordagem de Epicuro, encontrar a tranquilidade começa pelo trabalho para domar o medo e ansiedade. Precisamos primeiramente identificar as causas de nossas ansiedades e então precisamos de argumentos para nos mostrar que essas ansiedades são infundadas.  De acordo com Epicuro, muitos de nossos medos e ansiedades resultam de não conseguirmos ver as coisas como elas realmente são. O conhecimento de como funciona o mundo acabaria por nos libertar.

É uma questão interessante para contemplar demoradamente: Tenho tudo o que preciso?

Epicuro divide o que precisamos em três categorias: coisas básicas, que é o essencial para nossa sobrevivência física, comida, água, abrigo; é sobre isso, as exigências da natureza. São as coisas naturais e necessárias. 

Se você quiser além do mero essencial, o que é perfeitamente razoável, está tudo bem. O desejo por essas coisas cresce a partir dos nossos desejos naturais e básicos, mas vai além de comida, água e abrigo, o que Epicuro chamava de coisas naturais, mas não necessárias.

Depois, há todo o resto: tudo o que presumivelmente pensamos que precisamos para viver uma vida feliz, coisas, antinaturais e desnecessárias.

É desafiador ver que as únicas coisas de que realmente precisamos são “naturais e necessário.” Todo o resto é mero acessório. Uma vez que sabemos que temos tudo o que precisamos, devemos apreciar intencionalmente o que temos, porque aquele que não se contenta com o pouco que tem, se contenta com nada.

Uma das minhas citações favoritas de Fiódor Dostoiévski aponta para uma ideia semelhante, “a maior felicidade é conhecer a fonte da infelicidade.” Nós precisamos de algum sofrimento para tornar a felicidade possível. E a maioria de nós tem sofrimento suficiente dentro e ao nosso redor de si. Nós não temos que criar, inventar mais dificuldade. A maioria de nós vive vida estressante, indo e vindo e às vezes chegando a lugar nenhum, buscando aprovação e confirmação de outras pessoas sobre nossos atos.

Se existem várias coisas que se interpõem em nosso caminho dificultando o sucesso e a realização, uma delas é a tendência de tornar as coisas mais complicadas do que são, porém se você souber fazer bom uso da lama, poderá cultivar lindas flores de lótus nela, se você souber fazer bom uso do sofrimento, poderá produzir grandes momentos de superação e felicidade, seguindo regrinhas universais de não viver para agradar as pessoas e não ter medo de amar o caminho que está trilhando e a vida que está vivendo – cada passo, cada minuto.

A justiça feminina, uma batalha de afirmação diária

Um grande número de mulheres no Judiciário deve humanizar a justiça, esse é o pensamento comum quando comemoramos a posse de uma mulher em alto cargo na justiça. Entretanto, o Poder Judiciário brasileiro é composto, em sua maioria, por magistrados do sexo masculino, tendo, no final de 2022 38,8% de magistradas em atividade. Porém, nunca é demais realçar a relevância do direito à igualdade.

O julgamento de uma ação de fraude na cota de gênero, ocorrido numa cidade do Ceará, incendiou o debate na sessão do Tribunal Superior Eleitoral – TSE essa semana. A ministra Carmen Lúcia, do alto de seus 17 anos no STF, enquadrou o novato ministro Kássio Nunes, com apenas 2 anos de casa, quando este falou sobre a candidata supostamente ‘laranja’ envolvida na ação. O ministro não viu nada demais no fato de uma candidata ter tido apenas 9 votos, disse ser difícil a busca pelo voto, que ele sentia empatia por esse tipo de mulher, coitada, pobre que se candidata e é abandonada pelo partido.

De pronto, rebateu a ministra dizendo que as mulheres não podem tratadas como “coitadas” e devem ter seus direitos respeitados no processo eleitoral. “O que nós queremos não é empatia, é respeito aos nossos direitos. E é essa a educação que a justiça eleitoral tem a tradição de oferecer, e de reconhecer a mulher como pessoa dotada de autonomia.  Nós não queremos ser coitadas, queremos ser cidadãs iguais. A desigualdade, ministro, está nesse tipo de tratamento, finalizou a ministra. 

Que a ministra Carmen Lúcia que chegou na mais alta corte de justiça do país, seja a inspiração para as mulheres que estão comandando a justiça no estado de Mato Grosso.

Li algumas entrevistas sobre mulheres magistradas e pude perceber que muitas chegaram à cúpula do poder porque tiveram a rigidez e firmeza como marcas de suas trajetórias. O fato é que, bravas ou não, as magistradas estão ocupando altos cargos e ao cumprirem seus mandatos tem deixado o caminho pavimentado para que outras mulheres permaneçam nos cargos. Assim fizeram as desembargadora Maria Helena Póvoas e Maria Aparecida ao deixarem a presidência e a vice-presidência do Tribunal de Justiça, dando lugar a desembargadora Clarice Claudino e Maria Erotides, respectivamente.

A presidente do Tribunal de Justiça de Mato Grosso, desembargadora Clarice Claudino foi empossada com um discurso sobre lançar o olhar para o ser humano, disse ser entusiasta na disseminação da cultura da pacificação social, por meio da implantação de políticas públicas e, também, da construção de soluções adequadas por meio do diálogo, da amorosidade e da compreensão do ser humano em sua integralidade.  

Num ano pré-eleitoral é importante saber quem coordenará a próxima eleição. O Tribunal Regional Eleitoral – TRE também está sob comando feminino. Foram empossadas presidente e vice as desembargadoras Maria Aparecida Ribeiro e Serly Marcondes Alves, respectivamente, para comandar uma casa onde 52% do quadro de servidores efetivos é mulher. 

Duas mulheres comandarão as eleições municipais no estado de Mato Grosso, de olho nos 141 municípios, observando a regra de 2020, quando o TSE estendeu a reserva de gênero de 30% para as mulheres candidatas nas proporcionais também sobre a constituição dos diretórios e comissões provisórias dos partidos políticos nos municípios, além de investir na luta contínua contra a prática do lançamento das candidaturas femininas ‘laranjas’, mulheres que não tem chance alguma de vencer a eleição mas emprestam seus nomes para os partidos cumprirem a lei e acessarem recurso do fundo partidário.

Esperamos que a Justiça nas mãos das mulheres nas eleições de 2024 seja baseada na obediência à cota de gênero e em caso de fraudes, que as punições venham em enxurrada de anulações de mandatos.

Quais opções os pais que trabalham tem?

As creches, além de garantir formação educacional para as crianças fazem parte da busca das mulheres por igualdade de direitos no mercado de trabalho. Dados do IBGE mostram que o nível de ocupação profissional das mulheres tem relação direta com a frequência de seus filhos nas creches. A luta por creches no Brasil foi protagonizada por uma organização de mulheres feministas e teve início no Brasil, nos anos 1970, no Congresso das Metalúrgicas em 1978 e depois o tema protagonizou o Congresso Mulher Paulista, no ano seguinte. Há, inclusive um dia instituído como Dia Nacional de Luta por Creches, 12 de outubro, quando celebramos o Dia das Crianças.  

 Por mais que o Poder Público tenha ampliado a quantidade de creches e pré-escolas, a demanda não é suprida de forma satisfatória. É comum ouvir notícias sobre as filas para conseguir vaga nas creches públicas em que pese a forma categórica em que a Constituição Federal Brasileira, de 1988 determina que é dever do Estado para com a educação da criança de 0 a 6 anos, o atendimento em creche e pré-escola, o que é reafirmado no Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA e na A Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB, que ordena que as instituições de educação infantil criadas e mantidas pela iniciativa privada, pertencem ao sistema municipal de ensino, responsabilidade da Prefeitura.

Para atuar na área da educação de modo geral, é preciso de uma autorização de funcionamento e supervisão da Secretaria Municipal de Educação. Deve-se montar um processo que cumpra algumas exigências, tais como: ter propostas pedagógicas, plano de educação, além de prova de habilitação profissional dos colaboradores. Cuidados, muitas vezes negligenciados pelas vistorias apressadas do poder público.

Verificando notícias recentes sobre maus-tratos nas creches públicas e privadas no estado de Mato Grosso, há uma variedade de denúncias nas cidades de Canarana, Lucas do Rio Verde, Cuiabá, Sorriso e outros. Em Sorriso, uma creche foi fechada após ser denunciada em 2022 e há duas semanas, surgiu um novo e inaceitável caso de maus-tratos contra crianças. Um casal proprietário de um berçário e hotel infantil privado no município foi preso e indiciado pela Polícia Civil pelos crimes de tortura e castigo, ameaça, maus-tratos e omissão. Ex-funcionárias do estabelecimento procurados pela polícia confirmaram as denúncias feitas pelos pais das vítimas e entregaram imagens gravadas de cenas de violência contra as crianças e relataram as ameaças feitas pelos donos da creche caso denunciassem. 

Porém, mesmo considerando que a vida de várias crianças poderia estar sob risco, escolheram se omitir, lamentavelmente! A violência física, sexual e emocional bem como a negligência contra crianças são crimes, e é dever de todos denunciá-las. É por meio do silêncio que a violência prospera e funciona.  

Lendo a entrevista com a delegada, relatando os episódios de tortura que constam no inquérito, dá um mal-estar sufocante, porque não há como um casal, conciliar jornada de trabalho e cuidados com filhos pequenos sem contar com os serviços de creches privadas ou públicas. A maioria das famílias atualmente tem poucas opções para garantir os cuidados com filhos pequenos. Podem pagar uma babá ou podem ficar em casa e cuidar de seus filhos, mas isso é cada vez mais difícil, já que a maioria das famílias depende da renda de pelo menos duas pessoas para sobreviver. Portanto, a opção não é temer ou evitar o serviço prestado pelas creches públicas ou privadas e sim, cobrar do poder público municipal a fiscalização responsável dos serviços delegados que estão sob a sua responsabilidade e denunciar práticas de maus-tratos imediatamente ao percebê-las ou tomar conhecimento.

Açoite

Jesus levou 39 chibatadas pouco antes da sua crucificação. Essa é a primeira imagem que nos vem a mente quando se fala em açoite, depois vem a imagem dos escravos. Por mais de 300 anos os escravos trazidos para o Brasil foram açoitados e humilhados publicamente pelos seus senhores, mas desde 1886, dois anos antes da Abolição da escravidão, o parlamento brasileiro aprovou uma lei que aboliu a aplicação da pena de açoites em pessoas escravizadas.

Nos dias atuais, 137 anos após a aprovação da lei, no Rio de Janeiro, uma senhora com comportamento desprovido de lastro na humanidade se exibe empunhando a guia e coleira de um cachorro e desfere açoites num homem negro, entregador de comida.

A chibatada doeu na alma e remete-me a tantas outras situações em que somos açoitados na nossa civilidade e educação por pessoas carregadas de ódio, racismo e outros preconceitos, pessoas que se armam com argumentação conspiratória para justificar as atitudes desprezíveis, quando flagrados pela mídia ou confrontados pela Justiça, como ocorreu no caso do jovem açoitado. As milhares de reações de repúdio à agressão demonstram que estamos lentamente entendendo que a cor da pele, tampouco a condição social deveriam determinar como uma pessoa deve ser tratada.

A desconcertante cena do açoite, que faz lembrar a aquarela ‘Açoite em praça pública’, de Jean-Baptiste Debret, não demora será justificada como um surto psicótico seletivo da agressora, que em outras ocasiões já havia chamado o entregador de negro, macaco e favelado. Não é tão incomum o fato de pessoas se colocar acima dos outros, demarcar seus territórios e dele excluir quem não tem a mesma condição de raça, sobretudo. Esses rompantes de violência física e verbal são típicos de pessoas que vivem com a

crença de que suas necessidades, desejos e expectativas são de extrema importância, e dos outros, são irrelevantes. A empatia, um comportamento social que pode ser aprendido, é uma parte fundamental da construção de conexões sociais significativas.

São chibatadas que transversalmente abrem feridas em nossos lombos, sobrecarregados pela responsabilidade de educar, de dar ao mundo cidadãos melhores, mais humanos, empáticos ou pelo menos, mais tolerantes.

O preconceito tem duas fontes, diz o filósofo Mário Sérgio Cortella: a covardia e a tolice. O intolerante em relação a etnia, cor da pele, orientação sexual, religião e extrato econômico tem medo de ser o que é. Ele só se eleva quando rebaixa o outro. Necessita ver que o outro não serve e não presta para ele poder valer alguma coisa.  

Melhor que o caso foi parar na polícia, a agressora teve que prestar depoimento, será processada por injuria racial, porque além da violência física, os xingamentos eram específicos sobre a cor da pele do entregador. Situações gritantes de desrespeito contra os trabalhadores informais de delivery, em geral, homens, jovens, pretos e pardos, de classe C e D, não podem ser minimizadas e devem ser denunciadas. 

Ainda que a punição não seja exemplar, a exposição do caso, induz à reflexão e aflora sentimento de repúdio. A agressora foi banida da plataforma de delivery e o entregador, que fazia seu trabalho em uma bicicleta, ganhou uma moto da empresa para a qual presta serviço.

Faz de conta que ainda é cedo

Avantagem de começar a falar do próximo pleito eleitoral, em tempo considerado cedo, é que abre espaço para a participação efetiva na política de grandes massas de cidadãos que, de outra forma, permaneceriam excluídas. Sabemos que uma eleição é sempre mais do que quem ganha e quem perde. E embora pareça cedo para se pensar no próximo ano, entendo que o momento é perfeito para os partidos, que querem influenciar a eleição de 2024, irem moldando seus planos, avaliando a capilaridade do quadro de candidatos, abrindo portas para agregar novos grupos políticos.

Nas 141 cidades do estado o burburinho começou e não são somente os derrotados que estão pensando na próxima eleição. Tem gente grande no páreo, querendo viver experiências políticas no executivo, em 2024, sem contar com os prefeitos que pleiteiam a reeleição, sem precisar iniciar do zero um processo de construção local, embora ter mandato não seja sinônimo de ser reeleito.

Lembramos que em 2008, o então prefeito de Rondonópolis, Adilton Sachetti, perdeu a reeleição para o atual prefeito, José do Pátio e em Sorriso, Dilceu Rossato, perdeu a reeleição para Chico Bedin, que em 2012, perdeu a reeleição para o próprio Rossato.

Chamo à atenção dos candidatos a prefeito que cumprem mandatos ou exercem cargos fora de suas cidades, sobretudo na distante Brasília. Na última eleição, em 2020, dos 69 parlamentares federais que disputaram as eleições municipais no país, apenas 12 venceram nas urnas. Em Sinop-MT, o deputado federal Juarez Costa perdeu a eleição para Roberto Dorner, deputado Emanuelzinho perdeu em Várzea Grande para Kalil. Portanto, vantagem percebida para quem está presente nos bairros, no dia a dia com a população.

Eleições têm elementos que se repetem em todas e o cientista político Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP, assinala que a indecisão é um desses elementos, mais de 30% dos eleitores do país seguem indecisos até o momento final, porque esse eleitorado foge das candidaturas requentadas e fica esperando uma novidade que não consegue encontrar nos nomes tradicionais. Outra verdade que não muda e sempre é a peça-chave das eleições são as alianças, as famosas coligações partidárias, que ampliam o tamanho e a diversidade dentro de uma candidatura. Para complicar, há a possibilidade da fusão entre alguns partidos.

Cuiabá, uma cidade tricentenária, com mais de 320 bairros, segundo a concessionária de abastecimento de água e 115 registrados no poder municipal, conta com cerca de 6 a 7 pré-candidatos a prefeito. A disputa para a prefeitura sempre foi palco de grandes construções políticas, cito os bairros porque, desde a eleição do ícone maior da política mato-grossense Dante de Oliveira, a prefeito de Cuiabá, em 1985, tem-se estabelecido uma relação simbiótica entre as campanhas a prefeito e as associações de bairros.

A importância da participação dos líderes comunitários era exaltada pelo próprio Dante que em 1992 elegeu-se novamente prefeito da capital, candidato por uma frente ampla, com coordenação e participação efetiva de presidentes de associações de bairros. Por ironia, Dante não concluiu os mandatos nas duas vezes que venceu a eleição em Cuiabá. Na primeira eleição, renunciou para ser ministro e na segunda para candidatar-se ao governo do estado.

Demanda tempo com qualidade para visitar o máximo possível dos 431.107 eleitores espalhados por mais de 300 bairros, a maioria com idade de 45 a 60 anos, sendo 54%, mulheres.

2024 está realmente batendo à porta. O Tribunal Superior Eleitoral, sob o comando do ministro Alexandre de Moraes, reuniu todos os presidentes regionais dos TREs do país semana passada, para planejar e alinhar as ações para as eleições municipais, visando sobretudo atacar o que foi a grande preocupação da eleição anterior; a desinformação e as notícias falsas e desfazer a ideia errônea de que a liberdade para agressões, discursos de ódio e antidemocráticos são práticas permitidas no ambiente virtual.

Estar presente no mundo e a sanidade mental

Eu quero estar presente no mundo, saber o que está acontecendo, mas o teor das notícias e a velocidade com que elas se propagam estão causando a mim e tantos outros, um nível preocupante de descompensação emocional. Afirmo que meu desejo de estar bem-informada está atualmente em desacordo com meu desejo de permanecer sadia.

Tem sido um ano desafiador em termos de notícias ruins, pesadas e difíceis de superar. Em apenas 3 meses, 2023 já mostrou a cara perversa da violência com o ataque às instituições em Brasília em 08 de janeiro, a chacina de Sinop, em fevereiro, a fúria das águas no litoral de São Paulo, que deixou um rastro de destruição e 65 mortos, o ataque a Escola em SP, que matou uma professora e desde então, deixou uma inacreditável marca de 279 ameaças de ataques em escolas paulistas, conforme informação da Polícia Civil e entramos abril com a tragédia na creche em Santa Catarina, que deixou 4 crianças mortas e outras feridas. Não há outro nome senão uma epidemia de notícias devastadoras.

E em um mundo onde as más notícias surgem em alta em 2023, essas são apenas algumas das manchetes mórbidas, com vítimas fatais, que dominaram o noticiário de janeiro até agora. Entretanto, não são apenas as notícias de ataques, desastres naturais com vítimas que chocam, acrescenta-se os casos macabros dos trabalhadores resgatados em situação de escravidão, 85 pessoas somente no Rio Grande do Sul, esse ano, a denúncia, que está sendo apurada pela Polícia Federal, da atuação de grupos neonazistas no sul do país. 

É preciso dosar, equilibrar o tempo lendo notícias com o tempo lendo um bom livro, afinal, gerenciar a energia e o bem-estar não é egoísmo e sim, prevenção a um mal, considerado uma espiral negativa, apelidada de “doomscrolling” – uma tendência de insistir na busca por notícias ruins, tristes e deprimentes, que pode prejudicar a saúde mental. Estudos associaram o consumo de más notícias ao aumento da angústia, ansiedade e depressão, mesmo quando as notícias em questão são relativamente mundanas. Li um artigo do Dr. Graham Davey, professor emérito de psicologia da Universidade de Sussex, UK, com mais de 140 artigos científicos publicados nas revistas e jornais especializados, sobre a exposição a más notícias, que podem fazer com que as preocupações pessoais pareçam maiores e até causar “reações agudas de estresse e alguns sintomas de transtorno de estresse pós-traumático que podem durar muito tempo”. Diz ainda, que “os sentimentos de medo, tristeza e indignação desencadeados por manchetes negativas podem manter as pessoas presas em um padrão de monitoramento frequente”. Um preocupante quase vício.

Não há em mim a necessidade artificial de estar ‘por dentro’ das coisas e não considero a opção de desativar, e sim, equilibrar, o sininho que notifica a chegada das notícias, porque notícias boas chegam também, não com a mesma velocidade, não com a mesma ênfase. Li, que, em 2023, a primeira mulher preta chega no cargo máximo da Marinha Brasileira; apesar do problema de saúde recente, o Papa Francisco visitou na Sexta-Feira Santa uma casa de detenção de menores e lavou os pés de 12 jovens em privação de liberdade; o ator Brad Pitt comprou algumas pequenas casas ao lado da sua mansão, numa delas, morava um idoso, de 90 anos, que havia ficado viúvo. O ator decidiu deixar o vizinho continuar morando de graça até morrer.  O vizinho viveu até os 105 anos.   

 As notícias pinçadas para divulgação, boas ou ruins não têm poder de explicar o mundo, são bolhas estourando na superfície de um mundo mais profundo, portanto, cuidado com a forma como você consome as notícias que recebe.

Sem vocação para a felicidade

Os países que têm a população mais feliz no mundo são nórdicos e governados por mulheres, Finlândia, Dinamarca, Islândia, Noruega, Suécia. O estudo do “World Happiness Report de 2023”, com pesquisa feita pela Gallup classifica a felicidade de 150 nações, com base em uma média de três anos, considerando elementos que incluem além da renda e expectativa de vida, os indivíduos foram questionados sobre o apoio social que recebem por parte de familiares e amigos quando enfrentam problemas, sobre o exercício dos direitos humanos, a liberdade de escolher o que fazer com a vida, envolvimento com instituições de caridade, sobre o nível de confiança nas instituições governamentais e privadas e como age em caso de percepção de corrupção.

As mulheres que lideram os países citados são jovens como a primeira-ministra finlandesa Sanna Marin, uma figura feminista, que faz manchete por comportar-se naturalmente como uma jovem de 37 anos, que dança e bebe com amigos até tarde da noite, fala contra o sexismo e rebate tentativas de desmerecê-la por ser muito jovem. Mais da metade do seu ministério é composto por mulheres, que aprovaram uma nova lei que concede até sete meses de licença remunerada para cada novo pai.

São mulheres que governam com um olho no sistema de tributação, saúde e educação e o outro, voltado para o apoio às vítimas de agressão sexual, fazem pronunciamentos contundentes contra o sexismo e a discriminação no local de trabalho, seus países ocupam as primeiras posições nas questões. de igualdade de gênero, mantém em seus governos política de garantia de que todas as crianças até a idade escolar estejam frequentando uma creche e os pais, com renda menor, podem reivindicar o subsídio do governo de até 75% dos custos com os cuidados da criança. Não surpreende que nesses países cerca de 96% de todas as crianças estejam matriculadas na educação infantil.

E como estamos nós? No Brasil onde se ganha eleição falando de economia e não de políticas de bem-estar, ainda estamos mitigando a pobreza e sem conseguir garantir sequer o direito à educação da primeira infância, previsto na Constituição Federal, conforme o Art. 208 – O dever do Estado com a educação será efetivado mediante a garantia de: […] IV – educação infantil, em creche e pré-escola, às crianças até 5 (cinco) anos de idade. Na questão de igualdade de gênero estamos na 78ª posição entre 144 países e entre os 25 países da América Latina, patinamos na 22ª posição.

A redução da pobreza e a garantia dos direitos previstos na Constituição é um estica/encolhe inadmissível. O progresso social do Brasil está sempre ameaçado pelo medo de se implementar reformas que podem aumentar a inclusão e isso resultar em aumento de custos fiscais e penalizar os que pouco se importam com o bem-estar e felicidade das pessoas.

Por mais ingênuo que possa parecer, o ex-senador Cristovam Buarque, embalado pelo ativismo do Movimento Mais Feliz, tentou que fossemos cidadãos felizes apenas alterando o texto da Constituição Federal. Apresentou uma Proposta de Emenda à Constituição – PEC 19/2010, chamada de PEC da Felicidade, que alteraria o artigo 6º da Constituição Federal para incluir a frase “a busca da Felicidade” no texto e o artigo passaria a ser escrito: “São direitos sociais essenciais, à busca da felicidade, a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição”. Em meio a zombaria geral, a PEC foi arquivada.

É elementar que garantir, de fato, os direitos sociais ao cidadão, tira-lhe um peso aflitivo dos ombros, mas até hoje, 35 anos depois de promulgada a nossa Constituição a classe política e a justiça não conseguiu sequer fazer cumprir o que, originalmente está escrito lá. Assim, enquanto caminhamos um passo, nossa felicidade, enquanto nação, caminha mil passos adiante. No ranking dos países com a população feliz, o Brasil caiu da 38ª posição para 49ª em 2023.

Estamos exaustos

Asociedade do século XXI transformou-se na sociedade de cobrança por desempenho e nós, nos tornamos sujeitos forçados a aceitar todas as tarefas e realizá-las a qualquer custo. O filósofo Byung-Chul Han, nascido sul-coreano e radicado na Alemanha escreveu um livro sobre o que ele denominou de “sociedade do cansaço”, o adoecimento de uma sociedade que sofre sob o excesso de positividade, individualismo, competição e consumo excessivo. A consequência de todo esse sistema de cobrança de desempenho foi pior saúde mental – pior sono, menos calma, mais ansiedade.

Uma sociedade que atribui e cobra do ser humano as qualidades do computador (multitarefa, velocidade, desempenho) não seria a causa do fenômeno generalizado dos esgotamentos mentais, dos infartos da alma?

Diz Han, que a técnica temporal de sermos multitarefas (multitasking) não representa nenhum progresso civilizatório. A multitarefa não é uma capacidade para a qual só seria capaz o homem na sociedade trabalhista e de informação pós-moderna. Trata-se de um retrocesso. A multitarefa está amplamente disseminada entre os animais em estado selvagem. Trata-se de uma técnica de atenção, indispensável para sobreviver na vida selvagem. “Um animal ocupado no exercício da mastigação de sua comida tem de ocupar-se ao mesmo tempo também com outras atividades. Deve, no mínimo, cuidar para que, ao comer, ele próprio não acabe comido”.

O sujeito escravo da busca pelo bom desempenho em todas as atividades da vida, encontra-se em guerra constante consigo mesmo. Diante da preocupação em viver bem reagimos com hiperatividade, com a histeria do trabalho acelerado, da visibilidade, da boa performance, não é de admirar que as pessoas estejam se sentindo sobrecarregadas e exaustas.

A sociedade do desempenho e a sociedade a mil por hora geram um cansaço e esgotamento excessivos. Esses estados psíquicos são característicos de um mundo que se tornou pobre em negatividade e que é dominado por um excesso de positividade quanto a cumprir todas as tarefas, no menos espaço de tempo e a qualquer custo.

É possível associar o estudo da ‘sociedade exausta’ à depressão e síndrome de burnout, descrevendo como consequência da nossa incapacidade de dizer não e de, no fundo, não ser capaz de fazer tudo. Uma forma de autodestruição que nos vence com um colapso nervoso ou esgotamento.  A Síndrome de Burnout expressa a consumação da alma e a ilusão de acreditar que quanto mais ativos nos tornamos tanto mais livres e felizes seremos.

O que causa o esgotamento é a pressão pelo desempenho, pela realização pessoal e a ideia turva de que a felicidade somente será atingida se tivermos sucesso individual.  A lamúria do indivíduo exausto de que nada é possível só se torna possível numa sociedade que crê que nada é impossível.

O vencedor do Prêmio Nobel de Literatura de 2019, Peter Handke, também escreveu um Ensaio sobre o cansaço, diferencia os graus de fatiga e fala sobre um estado onde nem todos os sentidos estariam extenuados e levaria o homem para um abandono especial, para um não fazer o que não suporta, para ao final, sugerir uma reavaliação da vida, dedicar a momentos de contemplação e fugir das pressões e artimanhas do ego que nos escraviza.