Se o afobado come cru, o atrasado perde o trem

Há quem diga que está cedo para articulações políticas, pesquisas, tomadas de decisões visando as próximas eleições. Luiz Carlos Mendonça de Barros, engenheiro e economista, foi presidente do BNDES e ministro das Comunicações do governo FHC, escreveu uma belíssima crônica, em 2003, respondendo a uma comunicação do governo recém-eleito de Lula, que pedia calma e dizia que a política econômica havia acabado de assumir e estava sendo cobrada de forma afobada e que ‘o afobado come cru’. Mendonça de Barros não perdoou o uso de uma metáfora popular na fala do presidente. Escreveu que a sociedade e os que entendem a função de presidente da República esperam uma certa liturgia na comunicação do governo e completou, recorrendo também a sabedoria popular; se o ‘afobado come cru’, o ‘atrasado perde o trem’.

Discutiam ali, o orçamento, liquidez monetária, controle de inflação, rentabilidade de investimentos e Mendonça de Barros escreveu que o excesso de confiança de Lula na qualidade de sua gestão era perigoso e ingênuo, e, novamente recorreu a uma metáfora popular, dizendo que ‘é preciso de alma e porrete’ para enfrentar os descompassos da economia. As metáforas utilizadas na crônica encaixam perfeitamente no momento político que vivemos, há pouco mais de um ano das eleições. É preferível comer cru a perder o trem e é igualmente preferível se lançar transparente e corajosamente nas articulações do que alimentar recuo especulativo e frouxidão.

Em momentos de crise de confiança na política, seja por motivação interna ou externa, quando se pensa no Brasil de hoje em dia e nas próximas eleições, poucos se sentem tranquilos. Estamos transitando entre os extremos, com o volume emocional ligado muito alto. Nos dividimos entre; animados ou desanimados; com medo ou com confiança no futuro; triste ou feliz; seguro ou inseguro; com mais medo ou com mais esperança. A violência simbólica da discussão política presencial ou, mas mídias sociais é creditada as campanhas publicitárias e equipes de mídia dos candidatos, segundo o psicólogo brasiliense Gilberto Godoy, para quem as eleições têm sido dominadas por raiva, medo e discursos emocionais, onde um é bom, e o outro é mau. Um presta, e o outro não presta.

Por essa razão não é cedo para explorar e massificar nomes que em lugar do medo, possam transmitir a esperança. Não é cedo para afinar o discurso que, em vez da divisão, do comportamento radical e intolerante pregue a promoção do bem-estar social, da construção de casas, escolas, creches, hospitais. Não é cedo para mostrar aos 2,6 milhões de eleitores que você não é só retórica, que você, candidato, discute ideias e planos e não apenas emoções, impressões e fantasias.

Em Cuiabá, semana passada, o presidente do Supremo Tribunal Federal, Ministro Luís Roberto Barroso, lembrou que a polarização entre grupos políticos rivais sempre tensionou as eleições no Brasil; nos anos 1930 a 1964, o período de Getúlio Vargas trouxe polarização entre o PTB e UDN, com o PSD, tentando, sem sucesso, a conciliação. No período mais recente, houve a polarização entre o PT e PSDB e agora PT e PL (ou bolsonarismo). Observamos que a polarização, contudo, se deu muito mais em torno de figuras políticas fortes, como, Vargas, Lula e Bolsonaro do que em torno de conteúdo e pautas partidárias.

A cura é falar mais e mais sobre política para melhorar a qualidade do voto, para assegurar que as divergências não reproduzam radicalismos, ódios ou paixões violentas, para que, enfim, as relações voltam a ser reconstruídas com equilíbrio e civilizadamente.

Exposição nenhuma é conteúdo fofo

Não existe um ‘influenciador’ que eu siga e da grande maioria nunca ouvi falar. Considero, no verbo presente, uma perda de tempo. Ao conversar com meu neto de 11 anos, ele disse que conhece e assiste vídeos do Felca e nunca havia ouvido falar em Hytalo tampouco em Kamilinha. Alívio! Após o vídeo denúncia vir à tona, me informei demoradamente sobre o ocorrido, sobretudo lendo especialistas e governo dada a seriedade e gravidade do tema exposto. Nas mídias, há tempos, o pediatra brasileiro Daniel Becker, palestrante, consultor do UNICEF e da OMS, docente da Universidade Federal do Rio de Janeiro, tem sido uma voz ativa nas denúncias e na defesa do desenvolvimento infantil saudável e tem denunciado que crianças pobres têm sido manipuladas para monetizar conteúdos perniciosos.

Mas, quem prestou atenção nos gritos e argumentos do Dr. Becker pela aprovação do Projeto de Lei 2628/2022, de autoria do Senador Alessandro Vieira, que dispõe sobre a proteção de crianças e adolescentes em ambientes digitais? O Senado fez o trabalho cuidadoso, com apoio da sociedade civil, das entidades de proteção à criança. A polarização absurda, que se sobrepõe a tudo neste país, fez com que parlamentares de vários partidos conseguissem evitar que o PL 2628/2022 fosse votado, temendo que sua aprovação calasse seus discursos de ódio e desinformação na internet.

O Dr. Becker tem lutado, arrebanhado apoios para a aprovação do Projeto de Lei que regulamenta as redes sociais, visando auxiliar no combate a esse tipo de exposição e exploração. Diz ele que o Projeto de Lei foi amplamente discutido com especialistas, ele próprio participou e orientou alguns trechos, porque teme que os riscos trazidos pela internet, de modo geral, sejam completamente naturalizados e sejam tratados como parte inevitável da vida moderna. A pré-adolescente que foi submetida a realizar uma cirurgia para colocar prótese nas mamas, o rebolado para impressionar homens adultos babões, é apenas uma das formas de adultização, que junto a outras são como uma amputação da infância, a extirpação de um período da vida, que geralmente dura 12 anos.

Agora, a pergunta incômoda: ‘Por que não ouviram o Dr. Daniel? Especialista sério, pediatra, pesquisador, professor, que tem colocado suas falas de forma incisiva, às vezes acusatórias aos parlamentares que não se preocupam em pautar o Projeto de Lei 2628/2022, que regulamenta o mundo digital e seus conteúdos nocivos, aos pais, que tudo consentem, ora por comodismo, outra por vantagens financeiras e quase nunca por ignorância. Porque as mídias não ampliaram a voz do Dr. Daniel Becker, assim como fizeram com esse moço que denunciou?  O ‘influenciador’ Felca, agiu pelo bem, prestou um serviço de utilidade pública, tem mérito, claro, mas percebe-se que ele travou uma guerra direta com nome e sobrenome para atingir outro ‘influenciador’, que já deveria ter sido observado, denunciado e tirado do ar, se o Projeto de Lei tivesse sido aprovado na Câmara dos Deputados.

Falhamos todos. Lamentavelmente a sociedade, as mídias, a classe política e o governo estão optando por dar credibilidade a quem ganha mais ‘likes’ nos seus vídeos, sejam de denúncias ou outra abordagem qualquer. Numa mesma rede social, dr. Daniel tem apenas 1 milhão e oitocentos mil seguidores, o ‘influenciador’ tem mais de 17 milhões.

Agora, muitos pegarão carona no vídeo, que acumula mais de 36 milhões de visualizações, o PL deve ser pautado e votado. Enquanto isso, resta perguntar onde andam os Conselheiros Tutelares, os guardadores do Estatuto da Criança e do Adolescente, que não se levantaram sequer para questionar a hipocrisia das redes sociais, que dizem não permitir contas de crianças abaixo de 13 anos, mas abre-lhes a participação literal em contas alheias, de conteúdo notadamente exploratório sexual e financeiramente. Li o comentário de um pai que administra a conta de conteúdo comportado da filha, embora seja uma criança de 10 anos. Ele diz que todos os dias, atinge o limite de bloqueios de homens adultos pervertidos, enviando mensagens inapropriadas para a criança e ainda assim, mantém a conta ativa.

Ao falarmos da exposição de crianças na internet, não nos limitemos a criticar os pobres. Cantores famosos postam a rotina de suas crianças, dirigindo carros, fazendo dancinhas, em momentos constrangedores ou íntimos de birras e choros atrás de engajamento. Isso é exploração. No esquecido Estatuto da Criança e do Adolescente reza que a criança deve ter protegida sua dignidade, a imagem e o desenvolvimento.

Pacificação política

Uma frase importante sobre a crise institucional ocorrida nesta semana foi escrita numa manifestação, inclusiva muito criticada da Ordem dos Advogados do Brasil, mas salvo a frase: “Não se constrói democracia sabotando o próprio país. Ataques à soberania nacional são inadmissíveis. A liberdade de expressão é um valor constitucional, mas não pode servir de escudo para práticas antidemocráticas.” Sabotagem contra o Brasil tem ocorrido há certo tempo, quando o delírio e paixão injustificável pelos Estados Unidos, levou um deputado brasileiro a tramar contra a soberania e interesses nacionais e recentemente, nesta semana, a sabotagem ganhou o contorno de indisciplina com parlamentares amotinados na Câmara e no Senado, durante dois dias, desmoralizaram suas próprias lutas e pautas devido ao formato de circo imposto momentaneamente nos plenários, quando tentaram impor negociações de interesses pessoalizados, atrapalhando votações de interesse do povo.

Quando finalmente o presidente da Câmara, Hugo Mota conseguiu oficialmente restabelecer os trabalhos, ainda no meio do tumulto, fez um pronunciamento: “Nós não podemos negociar a nossa democracia, o nosso país, que tem que estar sempre em primeiro lugar, e não deixarmos que projetos individuais, projetos pessoais ou até projetos eleitorais possam estar à frente daquilo que é maior do que todos nós, que é o nosso povo, que é a nossa população que tanto precisa das nossas decisões.”

Em todos os aspectos, a democracia não é um regime onde tudo é permitido. A democracia envolve limites e a submissão da lei. E apesar da obstrução de pauta ser um instrumento democrático previsto no regimento das duas Casas, a presepada sem precedentes, que paralisou o parlamento, foi pautada pelo excesso, falta de educação, num momento em que todos os parlamentares deveriam estar negociando acordos para pacificar o Brasil. Estamos todos, eleitores, sociólogos, cientistas políticos, exaustos desse clima desequilibrado, com diálogos interrompidos por ofensas e ataques de políticos nacionais, em tentativas de abalar a soberania nacional.

O que o governo de muitos países e do Brasil tem reforçado é que seus países são soberanos e nós deveríamos nos orgulhar e lutar para que a independência do nosso país seja uma pauta inegociável. As tentativas de desmoralizar as instituições tem um único propósito, negociar e pressionar para livrar o ex-presidente das medidas cautelares impostas pela justiça e garantir continuidade do mandato de um parlamentar que há quase cinco meses não comparece ao trabalho e se autoexilou em outro país. A ausência sem justificativa a um terço das sessões é uma das hipóteses que prevê perda de mandato.

Caminhamos para eleições gerais daqui há um ano, com demandas urgentes em nosso estado, como a violência brutal contra a mulher, o crescimento e dominação das facções criminosas, a conclusão da obra de duplicação da BR-163, que todos os dias registra acidentes com vítimas fatais, como a colisão frontal entre uma carreta e ônibus, que deixou 11 mortos no local e vários feridos, inclusive em estado grave. Não podemos ficar aqui esticando a corda da polarização, torcendo contra a vitalidade da democracia brasileira e agindo contra nossos mercados comerciais, aplaudindo medidas de retaliação e intromissão estrangeira. O mercado caça jeito, novos parceiros surgem, como uma companhia aérea da Dinamarca que comprou 45 jatos da Embraer e pediu preferência para comprar mais 10, companhia aérea mexicana adquiriu 20 aeronaves brasileiras, a China está ampliando significativamente as importações do café brasileiro e autorizou recentemente 183 novas empresas brasileiras a exportar café para o país, além disso, vários itens que estavam sobretaxados tiveram as tarifas revistas e retiradas.

Portanto, a vida segue, a diplomacia opera dentro de suas lógicas e devemos parar de superestimar a hostilidade e recorrência à violência política e organização de motins desrespeitosos e violentos, que tiveram que ser negociados com pulso firme pelas lideranças partidárias.

O que nós queremos é que o debate seja restabelecido.

O amor não pode ser perigo mortal

Se o amor muitas vezes machuca, não dá para mensurar a dor que o ódio é capaz de provocar. Em tempo em que predomina a aspereza, a necessidade de machucar, de diminuir e ofender, o espetáculo da grosseria, da violência está no meio das discussões, novamente e sempre. Não temos controle sobre o outro, embora acreditemos que conhecemos profundamente as pessoas com quem nos relacionamos, a quem atribuímos expectativa sobre nossa felicidade. O amor de quem te ama não está sobre seu controle. Ame-o de volta, mas concentre-se nas coisas que estão sob seu controle. Assim, se perder o amor, não perderá a identidade.

A raiva é uma emoção destrutiva, mas causa raiva e repulsa contar os socos, olhar para o rosto desfigurado de uma jovem mulher que foi brutalmente espancada, sabendo o namorado que a cena brutal estava sendo filmada e poderia ser usada contra ele. Logo no dia seguinte, aqui perto, tiros calaram os sonhos de uma migrante que fez sua travessia com as filhas em busca de uma vida melhor no Brasil. Mas logo aqui? O quinto país do mundo que mais mata mulheres, com arma branca, tiro, socos. O estado de Mato Grosso há dois anos é o estado brasileiro onde mais se mata mulheres. 2,5 casos por 100 mil habitantes, a maior taxa de feminicídio do país. Mato Grosso tem 2 cidades entre as dez mais matam mulheres no país, Sorriso e Tangará da Serra e os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025, confirma ainda que os assassinos dormem ao lado.

Em geral, a violência parte de homens com vínculos afetivos com as vítimas. E o uso das câmeras de celular que poderiam aumentar o risco de o agressor ser identificado e denunciado não causa intimidação. A violência é um espetáculo que não tem freio. Numa cidade de Mato Grosso, há dias atrás, o ex-companheiro atacou a ex-mulher sob as vistas de dois outros homens que passavam pela rua e calmamente escolhiam o melhor ângulo para filmar as agressões e tentativa de assassinato.

A cantora Joelma sempre nas mídias performando alegremente, revela para a mesma mídia o inferno que viveu durante 18 anos de um relacionamento repleto de abusos físicos, psicológicos e materiais. As idas e vindas, as promessas rompidas, o ciclo se repetindo, com olhos roxos, lábio partido, ameaça de ser jogada pela janela de um hotel. Essas denúncias dão visibilidade ao tema e reforçam a urgência de discutirmos a prevenção e a conscientização sobre a violência contra a mulher.

Ocorre que as famílias não conversam sobre a violência, a escola não encaixa o tema na grade escolar, as medidas de segurança pública não conseguem antecipar medidas de proteção, sobretudo porque a violência é mascarada com cenas de arrependimento, choro, promessas e as agressões são trancadas dentro dos lares, como um segredo de família, é o que sente o corregedor nacional do Ministério Público, o procurador Ângelo Fabiano Farias da Costa, que quase solitariamente colocou o combate à violência doméstica como a prioridade absoluta de sua gestão. O dr. Ângelo tem viajado pelo Brasil, analisando de que forma o Ministério Público pode se tornar mais ágil, oferecer rede de proteção efetiva, mais conscientização das mulheres para que busquem apoio e medidas protetivas o quanto antes. 64% das vítimas de feminicídio são mortas dentro de casa.

Por mais que o tema da violência contra a mulher tenha ganhado destaque em todas as mídias, nas políticas públicas dos governos, o procurador registra que não há nenhum arrefecimento, os números e as imagens continuam assustadores.

O Senado italiano não buscou meio termo para tratar o tema, recrudesceu a pena o máximo possível e aprovou, por unanimidade, 161 votos favoráveis e nenhum contra a pena de prisão perpétua, para quem comete feminicídio. O projeto precisa ainda ser aprovado na Câmara Baixa. Há prisão perpétua no sistema jurídico italiano e a pena já foi aplicada em 2024 depois de grande mobilização e pressão diante do assassinato da jovem Giulia Cecchettin, morta pelo ex-namorado.

Cenários complexos

Adentramos um período caracterizado por incerteza e insegurança econômica e política, sobretudo. Como escreveu Zygmunt Bauman nada mais parece fixo e a própria tecnologia que avançou como uma perspectiva de progresso inadiável, propaga tanta informação, que não podemos absorvê-la para descobrir o que está realmente acontecendo. Qualquer um, de qualquer lugar pode usar a tecnologia para qualquer propósito, sem respeito algum às instituições e aos especialistas. Ao falar sobre os avanços tecnológicos, o sociólogo e escritor brasileiro Sérgio Abranches observa que a democracia permaneceu analógica enquanto a sociedade se tornou digital.

Em uma longa entrevista a um respeitado veículo de comunicação sobre economia, Abranches analisou detalhadamente o fluxo dos desacertos políticos atuais e inicialmente já deixou claro que com esse congresso que elegemos nenhuma reforma estrutural jamais acontecerá. Acusa o legislativo brasileiro de colocar a faca no pescoço do executivo nas discussões e chantagens que envolvem as emendas parlamentares, utilizadas, grosso modo, para alimentar processo de reeleição dos parlamentares.

Um estudo publicado pelo Instituto Não aceito Corrupção revela que foram destinados 106 bilhões de reais em emendas em nos últimos 5 anos, ignorando completamente os indicadores sociais  dos municípios.

A crônica política, segundo Abranches gira em torno de uma versão do ‘conflito entre os poderes da República, na qual são protagonistas uma Presidência que não está funcionando a pleno vapor, um Congresso dominado pelo centrão, conglomerado de partidos amorfos, hospedeiros de caciques expoentes do fisiologismo e um Judiciário intrometido.

Ao falar sobre os grupos grandes no Congresso Nacional, como o antigo e sempre oportunista centrão, Abranches observa o grupo não age coletivamente e que os interesses pessoais e paroquiais tornam o grupo inerte politicamente, mas voraz na ocupação de cargos e nem por isso, responde com lealdade ao governo, nem mesmo quando em votação está algum projeto de interesse público. De acordo com Sérgio Abranches, o poder Judiciário está sendo forçado a intervir e preencher as lacunas, tentando corrigir as omissões de um poder Legislativo fraco, que não responde nem se provocado.

Abranches confirma a percepção que citei acima de que uma transformação rumo a incerteza, exaustão e insatisfação está acontecendo em toda parte e esta transformação está diminuindo a capacidade dos governos, mesmo os mais democráticos de atender as necessidades da população. Esses sentimentos negativos concentram insatisfação até com a democracia, porque ela não está sendo representativa nem está levando avanços a população brasileira.

No fim das contas, esse cenário marcado por insatisfação e insegurança traz enorme volatilidade eleitoral, o que pode beneficiar ou prejudicar qualquer candidato. Elaborar estudos ouvindo as pessoas falar sobre política está ficando perigoso para quem preza o respeito pelo pensamento alheio e a imprevisibilidade pode ter um impacto significativo nas perspectivas políticas do Brasil de 2026. Por ora, a situação política do Brasil em 2025 é uma mistura complexa de oportunidades, desafios e desconfiança.

A soberania e o rigor da lei em oposição a ideologia

Antes de tudo, cito Norberto Bobbio, para quem a soberania de um país é absoluta, perpétua, indivisível, inalienável e imprescritível. Embora, no momento estejamos cercados de adversários e vendedores da nossa soberania, vamos entendê-la não como um retorno ao estado absoluto, mas como uma vitória do constitucionalismo.

Percebemos que a busca por uma colaboração internacional cada vez mais estreita e às vezes, promíscua em termos políticos, com alianças construídas fora das relações institucionais, caso recente entre Brasil e Estados Unidos, onde a ideologia baseada em narrativas que não merecem credibilidade falou mais alto e levou o presidente americano a invadir nossa fronteira com agressões verbais, com estabelecimento de medidas coercitivas ao impor taxas alfandegárias de 50% aos produtos brasileiros e vetar a concessão de visto americano para ministros, verbalizando em alto e bom som, que as medida podem ser revistas num possível recuo do judiciário para beneficiar o ex-presidente da república, em aliado, sem utilidade outra, senão facilitar a entrada atropelada de Trump no maior país e mais importante economia da América Latina. Tarifaço e veto a vistos são moedas para negociação política.

Vale lembrar que a parceria Trump-Bolsonaro começou em 6 de janeiro de 2021, quando Donald Trump perdeu a eleição presidencial para Joe Biden nos votos e seus aliados, alegando que a eleição fora fraudada promoveram ataque sem precedentes ao Capitólio, quebrando móveis, símbolos nacionais, a ordem vigente, desrespeitando a Constituição. Foram todos processados e muitos presos. Em 2022, ao perder a eleição no Brasil, o ex-presidente Bolsonaro copiou o presidente americano derrotado e iniciou uma ladainha interminável, sem provas de que a eleição havia sido fraudada. Liderou então, o movimento de manter pessoas alienadas acampadas ou ao relento na porta dos quartéis. Reuniu-se durante meses, fato comprovado por vários colaboradores, em depoimento à justiça, tentando elaborar uma minuta de ordem para um golpe de estado, apoiado por alguns cabos e soldados. Faltou apoio de militares graduados, faltou apoio político, mas a violência dos atos de 8 de janeiro de 2023, copiado dos apoiadores do derrotado Trump, culminou com prisões e processos dos participantes dos atos violentos contra as instituições brasileiras. Tempo depois, as pessoas que serviram de marionetes na porta dos quartéis foram abandonadas à própria sorte e chamadas pelo ex-presidente de ‘malucos’.

Porém, a eleição perdida em 2022, tem nome: COVID-19. Ao ignorar a ciência, protelar até não poder mais para comprar as vacinas, ao debochar, ao vivo na televisão das pessoas morrendo sem ar, pelo agravamento do quadro da doença, ao chamar a dor do luto das pessoas de mimimi. Em depoimento no Senado, o diretor do Instituto Butantan disse que o Brasil poderia ter sido o primeiro país do mundo a promover a vacinação, porque ofereceu vacinas ao Ministério da Saúde em julho de 2020 e somente em janeiro de 2021, depois de muita negligência, o governo brasileiro resolveu agir. Bolsonaro enterrou junto aos mortos pela pandemia, aí incluo meu pai, sua chance de reeleição.

Curtindo a vida nos Estados Unidos, num autoexílio, sem trabalhar, está o filho, deputado licenciado, Eduardo Bolsonaro, inflando o ego megalomaníaco do presidente americano com narrativas fantasiosas, influenciando o entorno do presidente Trump para que a administração americana imponha sanções ao Brasil.  Patriota? Na verdade, ele mira o próprio umbigo, buscando certo protagonismo para alavancar sua candidatura à presidente do Brasil em 2026. Não é pelo pai dele, não é pelo Brasil e sim, por um projeto pessoal de poder.

O mimimi causado pelo cumprimento da ordem judicial, de colocar tornozeleira eletrônica em Bolsonaro, diante de possibilidades concretas de ele deixar o país e se autoexilar nos Estados Unidos, sob a proteção de Trump, não faz sentido. Nesse caso, é mimimi mesmo. O ex-presidente Fernando Collor, de 75 anos, usa o adereço e passa bem.

A premonição de Jair Bolsonaro de que deve ser preso até final de agosto é uma revisita dele aos atos que praticou quando era livre e poderoso.

Desconstrução de narrativas

Antes das eleições, os cientistas sociais e políticos são convidados a avaliar uma série de cenários e, oportunamente, surgem uma gama de futuristas, analistas políticos e outros prognosticadores sobre os possíveis rumos das eleições de 2026. Em um momento político marcado por desinformação, ameaças de interferências externas, algumas medidas econômicas impopulares há sinais para uma evidência de que as eleições podem ser imprevisíveis.

As ameaças à democracia geradas pelas últimas campanhas são significativas e é preciso intensificar os esforços para monitorar a interferência e a violência disseminadas online, visando as próximas eleições. O que estamos vendo é que a desinformação e potenciais incitações à violência partem de vários políticos, que em tese, deveriam envidar esforços para preservar os valores democráticos.

Diversos estudos que antes demonstravam que cidadãos atentos às informações das pesquisas ajustavam suas previsões na direção que elas apontavam, hoje refletem que a influência das pesquisas na intenção do voto não é necessariamente forte. O momento, portanto, ainda é de manter as expectativas baixas, para não perder quando se espera ganhar e ter que suportar tanto o desconforto da imprevisibilidade quanto um resultado que não corresponde às suas próprias preferências. A literatura sobre expectativas eleitorais e avaliações políticas de partidos ou candidatos está repleta de exemplos de pensamento inflado e positivo.

Em sete meses o cenário estará visível a olho nú e ficarão à mostra os perfis polidos com honestidade e as ranhuras e rachaduras maquiadas em outros. Por ora, aproximam-se as eleições, os candidatos chovem e os eleitores pululam, como escreveu Lima Barreto, no livro “Coisas do Reino do Jambon: sátira e folclore, onde ele critica as lutas políticas e o verdadeiro combate que são travados em nossas eleições.

Ouvi uma conversa de pessoas jovens sobre dúvidas quanto à própria falta de informações para votar. Elas diziam que não acompanham a política de perto, porém, estão sobrecarregadas com a informação disponível e não sabem o que é confiável e o que não é. Mesmo assim, o número de eleitores jovens em Mato Grosso cresceu consideravelmente. Quando as pessoas estão confusas e não sabem em quem confiar, elas ficam vulneráveis e acabam encontrando narrativas alternativas ‘atraentes’ que não encontram nos grandes veículos de comunicação. Indivíduos com visões cínicas sobre política também devem, logicamente, demonstrar menos confiança no processo eleitoral e estar menos satisfeitos com a democracia.

Se aceitamos, como a maioria dos sociólogos, que as representações e ideias culturais desempenham um papel ativo na formação da realidade social e sob certas condições, as teorias sociais podem afetar o comportamento das pessoas e a aparência da sociedade. E na medida em que as ações que as teorias inspiram são controversas, seu uso político pode ser também, o uso político de teorias sobre eleições deve ser flexível. Porque quem entra na política sabe exatamente o tamanho de suas expectativas e potencialidades, mas os cosméticos do marketing podem agregar muitas coisas para mudar substancialmente um perfil.

Falha de coordenação política

No ano de 2002 presenciamos a formação de um grupo político díspar, pessoal e politicamente com um objetivo único e focado: eleger o outsider, empresário milionário, Blairo Maggi governador de Mato Grosso e derrotar o grupo político que dominava todos os setores e espaços de poder do estado, liderado por Dante de Oliveira, exímio articulador político e visionário. Como foi possível domar a vaidade, a difusão de interesses entre políticos experientes e poderosos, como Jonas Pinheiro, Jayme Campos, Roberto França, Percival Muniz? Para citar apenas o senador e os que estavam efetivamente governando as 03 maiores cidades do Estado.

Seria possível o agrupamento de políticos poderosos, de diferentes ideologias e interesses, em torno de um nome hoje? Considerando que o prefeito de Cuiabá a prefeita de Várzea Grande e prefeito de Rondonópolis não detém a experiência e expressão política de Roberto França, Jayme Campos e Percival Muniz respectivamente.

Diferentes partidos políticos obviamente têm diferentes ideologias políticas, o mesmo acontece entre as pessoas que partilham o mesmo grupo e até partido político. Cientistas políticos que estudam campanhas adaptaram dos estudos teóricos da economia um conceito chamado falha de coordenação (coordination failure), que descreve a situação oposta do que citei acima, em que indivíduos ou grupos não conseguem cooperar ou agir em conjunto, mesmo que isso seja altamente interessante ou questão de sobrevivência do grupo no poder.

Cientistas políticos analisam que as falhas de coordenação se concentram nos motivos pelos quais um projeto de poder pode dar errado no sentido de manter o grupo político unido para vencer as eleições. Um dos problemas que surge é o lançamento incompreensível de dois candidatos com posicionamentos semelhantes, que juntos poderiam ter apoio da maioria dos eleitores, competindo contra um candidato adversário de um campo ideológico diferente. A divisão dos votos dos iguais é a oportunidade que a oposição espera para virar o jogo e já começam os ruídos sobre 2026.

Alertam também sobre a ineficiência para se barrar os conflitos de interesses dentro do grupo político, quando a liderança política fraca permite que os interesses pessoais influenciem as decisões ou ações de forma a comprometer o projeto de poder do grupo, em detrimento da vaidade de alguns. 

A falha de coordenação surge porque os políticos, considerando o momento não trabalham em conjunto, não são capazes de estabelecer o consenso e garantir que todos façam a mesma escolha. Ou seja, poderiam atingir um resultado equilibrado, mas não cedem a ponto de canalizar os interesses no mesmo sentido. Isto pode levar a um resultado inesperado e favorecer a eleição de candidato que corre por fora e aparenta estar isolado e em desvantagem.

Para a eleição de 2022, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso recebeu 499 Requerimentos de Registros de Candidaturas dentro do prazo previsto. Eram quatro candidatos ao cargo de governador e seus respectivos vices, sete candidatos a senador com os respectivos suplentes, 156 candidatos (as) a deputado (a) federal e 314 para o cargo de deputado(a) estadual. Imagino como será a inflação de candidatos em 2026, a costura política e divisão de poder para que todos caibam nos grupos políticos já instituídos ou a audácia política de um ou outro para se iniciar um projeto de poder novo.

A violência é de todos e está em toda parte

A violência é um problema social que afeta a todos os povos, independentemente da raça, idade, condição socioeconômica e cultura. A violência é tão antiga quanto todas as sociedades. A violência na sociedade existe em todos os lugares e conforme definição da Organização Mundial da Saúde é o uso intencional de força física ou poder, em forma de ameaça ou real, com alta probabilidade de causar danos, ferimentos e morte. 80% das mortes por violência ocorrem fora das áreas de conflitos armados.

Diante da impressionante, alarmante e repugnante incidência de violência ocorrida esta semana, independentemente de classe social, cor, raça, idade e método da violência, deparamos com a notícia de um adolescente de 14 anos, que usou a arma do próprio pai para matá-lo e também a mãe e o irmão ainda bebê porque os pais não permitiram que ele viajasse sozinho do interior do Rio de Janeiro para uma cidade de Mato Grosso para conhecer pessoalmente uma namorada virtual. Ao ser apreendido declarou não haver arrependimento algum.

Uma mãe e o padrasto agrediram brutalmente uma criança de menos de 2 anos; um homem jovem apunhalou a esposa e a filha de 7 anos enquanto ambas dormiam. A mulher não resistiu, a criança encontra-se hospitalizada em estado grave. Ontem, um homem foi flagrado por câmeras de segurança, andando pelas ruas segurando uma faca, havia acabado de tirar a vida da esposa e fugia com a tranquilidade de quem sabe que a justiça é pouca.

A sociedade brasileira foi construída em moldes violentos em praticamente todas as instâncias sociais numa cultura herdada, diluída no cotidiano. Fica evidente que tudo que se tem feito até agora não tem sido o suficiente para erradicar o fenômeno da violência tão evidente, em uma cultura caracterizada pelo machismo, possessividade, falta de dignidade humana e pela certeza da pena pouca, da frouxidão das leis e pela mania absurda de normalizar os atos selvagens de seres humanos.

O Papa Francisco, ao tratar da violência, citou o excesso de controle, a possessividade como arma inimiga do bem, que mata o afeto. Disse que a violência decorre, em parte pela pretensão de possuir o afeto do outro, da busca de uma segurança absoluta que mata a liberdade e sufoca a vida, tornando-a um inferno.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir narra a execução do condenado Damiens, condenado por tentativa contra Luís XV. foi submetido a um suplício público brutal, que incluía queimaduras com tochas de cera e com metais derretidos e esquartejamento. Tirado da carroça, seu corpo foi puxado e desmembrado por quatro cavalos. Os membros consumidos pelo fogo.

O sofrimento do corpo de Damiens foi exibido para intimidar a população e comunicar que a mão do estado era dura para punir. Com a transição para o Estado Moderno, os suplícios foram substituídos pela punição moderna. Cada nação construiu seu código de punição, as penas passaram a ser calculadas de acordo com a gravidade do crime e o grau de periculosidade do criminoso. Os corpos assassinos deixaram de ser punidos e passaram a ser vigiados por sentinelas e agora a tarefa está a cargo das câmeras.

Não, não vamos voltar a era dos suplícios, deve haver medidas que contemplem o vigiar e o punir rigorosamente.

Trocar a velha ignorância por conhecimento

Precisamos trazer novas perspectivas para os relacionamentos abalados pela divisão política, religiosa e outras e para os que se incomodam com a polarização que permeia as tentativas de se manter uma conversa generosa com familiares e amigos. Lembrando que uma das características dos humanos é a capacidade de atualizar suas próprias crenças e promover atualização na mente de outras pessoas. Todos nós temos o poder de renunciar às velhas crenças e trocar a velha ignorância por conhecimentos novos.

Quando as pessoas têm a capacidade de mudar, mas há pouco incentivo para mudanças, elas permanecem praticamente as mesmas de uma geração para outra, mas quando a pressão para se adaptar aumenta, o ritmo da evolução aumenta também. Anos atrás, milhares de pessoas, comungando um pensamento conspiratório e se posicionaram contra a vacinação contra a Covid-19. Nem ao perceberem, inclusive em seus meios familiares, o aumento escandaloso do número de mortes, refizeram seus comentários. A ciência se fez ouvir forte, divulgou os protocolos científicos rigorosos e as etapas de testes antes de as vacinas serem aprovadas, diante disso, muitos reviram seus pontos de vistas polarizados, atravessados por conteúdos políticos ignorantes e aceitaram se vacinar e estimularam a vacinação dos seus

Para ver o mundo de uma maneira, você precisa ter conhecimento de outras maneiras de se viver, para interpretar a cultura, a religião e a política de uma maneira, você precisa ter ou ter tido conexão com várias culturas, religiões e ideais políticos. Para a Sociologia, a maioria das mudanças sociais ocorrem quando grande parte de uma população quebra a resistência e muda completamente o modo de pensar sobre determinado tema depois de décadas e isso se transforma em uma mudança social generalizada. 

“Como as mentes mudam” é um livro fascinante do jovem jornalista e escritor americano David McRaney, que explora o que acontece no cérebro quando ele passa de uma forma de pensar para outra, reforçando o peso da ciência por trás das crenças, valores e atitudes. O autor recorre a vários comportamentos que que passaram por questionamentos polarizados, divididos tensamente como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, repudiado com preconceito e violência, é hoje protegido por leis em muitos países e mesmo onde o casamento não é legalizado, há aceitação. Cita também que não somente algumas pessoas, mas várias nações saíram de uma situação de fumar até dentro de aviões para o banimento do cigarro até em bares e restaurantes. Como essas mentes mudaram?

Fatos e evidências não bastam para mudar a opinião de uma pessoa ou de uma comunidade, o autor explora o poder da persuasão e da autoconfiança como fontes poderosas para alterar a realidade formada no cérebro.  A autoconfiança é fruto do conhecimento e persuasão é definida cientificamente é o ato de mudar a mente sem coerção. Não é tampouco, uma tentativa de desmerecer intelectual ou moralmente a pessoa que você tenta convencer. Ou seja, quando a pessoa com quem você discute sente-se livre para rejeitar suas preferências, é onde a persuasão ética opera. 

Sob argumentos carregados de polarização, ódio político e movidos por informações falsas muitos brasileiros defendem que não houve nada senão atos de vandalismo no dia 08 de janeiro de 2023. Como bem disse McRaney, um dos maiores problemas que as pessoas enfrentam para enxergar a realidade e mudarem seus pensamentos é a metralhadora giratória de fake news, teorias conspiratórias e discurso de ódio criados para alimentar o caos. Entretanto, entre os incitadores já há quem diga que era apenas uma manifestação que tomou rumo de uma tragédia, mas que ele não concorda com atos de vandalismo. O que levou essa mente a mudar?