O flagelo da fome assombra o Brasil

Mais de 33 milhões de brasileiros estão vivendo em situação desumana de fome, expressada na pesquisa como Insegurança Alimentar Grave. Em números reais, significa dizer que 14 milhões de novos brasileiros deixaram de ter o que comer nos últimos 2 anos. Em 2020 eram 19,1 milhões, hoje, atingimos o escandaloso número de 33,1 milhões de irmãos famintos.

A Insegurança Alimentar e a fome, propriamente dita, entre crianças e adolescentes tem sido sistematicamente denunciadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pelos seus impactos perversos e imediatos sobre o desenvolvimento das potencialidades físicas e sociais dos jovens atingidos. Em entrevista, o sociólogo e ex-relator da ONU Jean Ziegler chama-nos à responsabilidade: “Cada um de nós é responsável por cada criança que morre de fome”.

Num relatório comovente e transparente a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), contribui para dar visibilidade a tamanha miséria e vulnerabilidade e quem sabe contribui para o debate fundamentado sobre a rompante desigualdade social vigente no Brasil. Em um ano de eleições, tomara que esses dados divulgados e amplamente comentados nas mídias entrem nas agendas dos candidatos, para que retomem o enfrentamento da fome e da pobreza como política de estado.

Eu não saberia descrever a sensação de fome e ao ler o relatório na sua integralidade, nem alegro-me por isso. E entristece-me mais reler um artigo que escrevi comovida neste espaço em 2011, quando um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) anunciava que o Brasil, naquele ano, pelo segundo ano consecutivo, liderava o ranking dos países com a melhor performance no combate à fome. Felizes, lembrávamos do Instituto Ação da Cidadania, iniciado lá atrás pelo Betinho, que a cada entrevista reafirmava que “quem tem fome, tem pressa”.

Hoje, cá estamos, em um retrocesso intolerável e inaceitável convivendo com 33 milhões de brasileiros que não tem o que comer. De acordo com o relatório, o Brasil regrediu ao patamar da década de 1990. Sabemos que a situação foi crescendo até seu ápice. Desde 2015 a Ação Cidadania vem testemunhando e alertando que fome estava voltando com força devido ao desmonte das redes assistenciais, a exclusão completa, a invisibilidade de milhares, que não foram absorvidos por nenhum programa de auxílio do governo.

Os dados assombram a ONU que durante anos em suas reuniões de cúpula tem fixado a inalcançável meta de acabar com a pobreza e a fome. É preciso tratar o assunto com o governo brasileiro, que ao longo dos anos não promoveu a expansão da rede de assistência social, tampouco criou mecanismos eficientes para proteger as pessoas com maior vulnerabilidade. Na sociedade não há sequer significativo debate sobre o tema.

O Brasil ocupa hoje a 24ª posição entre os países com maior número de milionários no mundo, são 207 mil pessoas, com fortuna acima de 1 milhão de dólares

Eleições e suas idiossincrasias

Para cientistas políticos e sociólogos, o site do TSE é leitura obrigatória, sobretudo no período eleitoral. Essa semana me detive na leitura sobre as peculiaridades eleitorais de vários países pelo mundo, narradas por um observador internacional. Diz ele que numa região de floresta na Índia vive um ermitão e apesar de ser o único habitante do lugar, ele tem sua própria zona eleitoral, com uma urna eletrônica para si. O Governo indiano garante que toda comunidade tenha pelo menos uma urna eletrônica a cada dois quilômetros. 

É interessante observar que a Índia modernizou o sistema de votação, utilizando a urna eletrônica, mas vale-se de método tradicionalmente simples para evitar que um eleitor vote duas vezes, ao sair da cabine de votação, o eleitor tem um dos dedos carimbados, com uma tinta que não sai facilmente, durante vários dias.

A Espanha tem uma curtíssima campanha de apenas 15 dias, sem horário eleitoral no rádio e televisão e não se vota nos candidatos, mas nos partidos. A Suécia tem registrado uma participação eleitoral alta e constante, na casa dos 80% desde a década de 50. No Japão, os candidatos não usam números de identificação e o eleitor precisa escrever o nome completo do candidato na cédula, sem rasuras.

No Equador, uma vitória do movimento feminista estabeleceu que nos locais de votação as filas são separadas por gênero, para evitar que as eleitoras sejam pressionadas.

Um fato marcante citado por Scandiucci, chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do TSE, ocorreu em novembro de 2020 na eleição americana. Em vários centros de votação, jovens que estavam votando pela primeira vez, eram anunciados pela mesa receptora e recebidos com palmas e muita comemoração, numa ação divertida e pedagógica para incentivar e valorizar o voto dos jovens.

No Brasil, uma grande dificuldade é estimular o jovem a votar. No ano de 2020 os maiores porcentuais de ausência entre os cidadãos obrigados a votar foram registrados entre os eleitores de 18 a 29 anos. Os motivos apontados por especialistas passam obviamente, pelo desencanto com a política e já ouvi de um jovem a alegação de que o sistema político está muito desgastado para ser consertado pelo voto, ou seja, não acreditam no poder transformador do voto.

Na outra ponta, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara Federal tem debatido a importância da participação da pessoa idosa no processo eleitoral, como um forma de manter a pessoa idosa ativa na escolha de seus representantes, exercendo o exercício da cidadania.

Como manter os jovens e as pessoas idosas motivados a participar do processo eleitoral num universo permeado pela desinformação, falsos relatos, notícias publicadas e encaminhadas fora do contexto, narrativas difamatórias, acusações falsas, julgamentos preconceituosos, teorias conspiratórias que em nada valorizam o voto?

O TSE, segue com o propósito de reverter o quadro de desânimo e promete dedicar o mês de junho para esclarecer o efeito nefasto da desinformação e das fakes news, que levam cidadão a acreditar em informações distorcidas ou inventadas para prejudicar determinado candidato.

Coisas inatingíveis

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e por ser este um problema secular, sistêmico, sustentado pela má distribuição de renda, dorme esquecido num canto, enquanto discute-se amenidades. No senso de 2020, o IBGE apontou o Brasil na sétima posição entre os países mais desiguais do planeta.

Um país onde os 10% mais ricos detém 43% da renda nacional e tem a segunda maior concentração de renda entre os mais de 180 países. O problema, embora urgente, parece ter solução inatingível. Como escreveu Mário Quintana, “se as coisas são inatingíveis… ora! não é motivo para não quere-las…Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas”.

A cada campanha eleitoral que se inicia renasce a esperança de ver temas considerados direitos básicos assegurados pela Constituição serem pautas prioritárias dos candidatos, como investimento em saúde, cultura, lazer, educação, todavia continuamos andando em círculos, envoltos no mar de desigualdade, pobreza extrema, racismo, violência, desemprego, precariedade da saúde, falta de habitação, etc.

Um jornal local publicou essa semana que o alarmante número de 361 mil mato-grossenses não tem acesso à moradia digna. São cidadãos que não possuem acesso ao crédito formal, que não conseguem assumir compromisso mensal de pagamento de parcelas, porque sua condição como trabalhador é instável. Estes são os mesmos que sobrevivem com o auxílio do cartão Ser Família, da distribuição de cestas básicas, de cobertores, enfim, de soluções emergenciais, porém, paliativas.

Mesmo ratificado na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal, considerada a Constituição Cidadã, o acesso à moradia, no Brasil, em Mato Grosso, é um direito assegurado só no papel, não um programa de governo, infelizmente! Em Mato Grosso mais de 140 mil famílias vivem com renda mensal abaixo de R$ 150, o que contrasta sensivelmente com o PIB elevado do estado.

Nos boletins diários da Câmara Federal, onde dão destaques aos projetos aprovados, há pequenos e significativos avanços aqui e acolá, como a distribuição de absorventes higiênicos sobretudo para meninas de baixa renda e realização do centésimo seminário para abordar a importância da participação da mulher na política. Assuntos que perdem a relevância diante da violência praticada pelo aparato do estado na morte do jovem Genivaldo de Jesus, no estado de Sergipe, ocorrida essa semana. Ele morreu asfixiado pelo uso excessivo de spray de pimenta e gás lacrimogêneo aplicado já dentro da viatura, quando ele já estava imobilizado. Genivaldo era negro.

Assim, com episódios recorrentes do aumento da pobreza, falta de moradia digna, precariedade por falta de investimento na saúde pública, falta de oportunidades de emprego, a pandemia escancarou o péssimo quadro de desigualdade social e econômica vigente no Brasil. O cenário dos sonhos seria o governo continuar assistindo quem precisa, com uma renda mínima decente e gerar trabalho e renda para a grande maioria que quer ter sua própria capacidade de trabalho e viver exclusivamente dela e não depender de favores do Estado, que quase sempre, falha na proteção aos seus.

Não vamos esperar 150 anos

É senso comum entre a classe política a afirmação que os partidos encontram dificuldade para encontrar mulheres com perfis de candidatas. O fato é que a atividade política é, desde sempre, uma atividade predominantemente masculina e no estado de Mato Grosso a baixa representatividade é evidente. Em toda a história do parlamento estadual, apenas 13 mulheres se elegeram deputadas.

A Secretaria da Mulher da Câmara Federal, segundo a Agência Câmara de Notícias, fez levantamento após as últimas eleições gerais em 2018 e confirma que houve evolução de 52,6% no número de mulheres eleitas com relação a 2014. Um avanço inegável, mas, que ao ser traduzido em números, continua preocupante. Ao todo, em todo país, apenas 290 candidatas foram eleitas.

 percentual de mulheres eleitas foi infinitamente inferior aos 30% das candidaturas femininas registradas. De acordo com o demógrafo José Eustáquio do IBGE, se o avanço da participação feminina continuar no ritmo atual, a paridade entre os sexos nos espaços municipais demorará ainda 150 anos para ser alcançada.

A efetiva participação da mulher no processo eleitoral pode ser expressa nos números abaixo:

No ano de 2018, as mulheres eram 52,50% do eleitorado e apenas 16,11% de candidatas foram eleitas. Na última eleição, em 2020 as mulheres representavam 52,50% do eleitorado e 15,80% foram eleitas, 77 deputadas federais, 161 deputadas estaduais e 7 mulheres foram eleitas senadoras.

A Agência Patrícia Galvão, que produz dados e divulga conteúdos sobre os direitos das mulheres brasileiras, revela que para as eleições de 2022 a presença das mulheres no eleitorado chega a 53%, contra 47% dos homens, uma diferença de 8,5 milhões de eleitores.

Com dados mais otimistas do que o IBGE, diz também que, se o país não tivesse adotado o sistema de cotas e se não houver ampla insistência na construção de candidaturas femininas, apenas no ano de 2118, as mulheres alcançarão a igualdade na representação política com os homens.

Embora haja muitas mulheres engajadas em projetos sociais, em atividades de organização de equipes de campanhas, eleitas não há o suficiente, porque são preteridas no processo de escolha e muitas quando são escolhidas não são acolhidas no processo de construção de suas campanhas, até mesmo devido a problemas inerentes a sua condição feminina e com isso o Brasil fica patinando entre os países com o mais baixo percentual de cadeiras ocupadas por mulheres nos parlamentos mundo afora e vemos aqui ao lado, a Bolívia como o país que tem a maior representação das américas, de mulheres no parlamento, porque os partidos, por iniciativa própria, destinam 50% de suas vagas para as mulheres.

No ano de 2020, uma campanha veiculada pelo TSE trazia a seguinte mensagem: “Quando uma mulher tem voz ativa, ela incentiva outras a falarem também. Quando uma mulher lidera, ela incentiva outras a liderarem também. Quando uma mulher ocupa um cargo público, ela incentiva outras a ocuparem também. Quando uma mulher defende seus direitos, incentiva outras a defenderem também”.

Quais reformas?

Tratar de reformas sempre causou rusgas no meio político. Essa semana os ex-presidentes Lula e Temer trocaram farpas por causa da reforma trabalhista executada no governo de Michel Temer, que se exalta dizendo que não retirou e sim, acrescentou vários direitos aos trabalhadores, enquanto Lula promete, que se eleito for vai revogar parte da reforma aprovada em 2018.

Os deputados não conseguem fazer andar a reforma política, reforma eleitoral e querem agora, em pleno ano eleitoral trabalhar a proposta de mudança na forma de governo, instalando no país, o semipresidencialismo, um sistema segundo o qual, o poder do presidente é compartilhado com um primeiro ministro, escolhido pelo presidente, com aprovação do Congresso Nacional. A intenção da mudança, dizem, é aprimorar a democracia e favorecer a participação do cidadão, o que não é bem verdade, porque não estão dando visibilidade ao tema.

No entanto, a Câmara dos Deputados tem sido palco de rodadas de discussões sobre a propositura ouvindo além de parlamentares, consultores e cientistas políticos. auxiliados por um conselho consultivo do qual fazem parte os ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim e Ellen Gracie, e o ex-presidente da República Michel Temer, além de renomados professores da Universidade de Ciências Sociais de Coimbra, Portugal.

A Agência Câmara publicou a fala de um especialista em sistemas de governo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Marcelo Leonardo Tavares, que  defendeu que, para alterar o sistema de governo no Brasil, seria necessária concretizar a tão sonhada e esperada reforma eleitoral. Ele também sugere que se faça uma nova consulta à população sobre o assunto, tal como ocorreu em 1993, quando o povo votou pela manutenção do presidencialismo.

O grupo de trabalho tem 120 dias para concluir os estudos mas certamente não concluirão e o  prazo será dilatado para novas rodadas de discussões e contratações de consultorias caríssimas. O povo, ah o povo! Comenta-se por aí que tal propositura visa única e exclusivamente diluir o poder do próximo presidente da República, temendo que este seja Lula. Pelo acompanhamento das discussões o que é claro, é que não há nenhum clamor do povo quanto a uma mudança no sistema de governo e portanto, isso não deve ser algo enfiado goela abaixo dos cidadãos brasileiros.

A reforma política está emperrada no Congresso Nacional há três décadas, por pura falta de vontade política dos parlamentares. Foram aprovados projetos de lei isolados, tratando de temas restritos com as alegações repetidas de que não há interesse para esse tipo de tramitação na Casa. Intriga a celeridade dada a proposta de se alterar a forma de governo iniciado em março desse ano na Câmara dos Deputados, imediatamente criou-se um grupo de trabalho, que começou a promover reuniões, ainda que entre a elite política e altos cidadãos para debaterem o tema reservadamente, dentro das paredes de uma das salas de comissões da Câmara.

Sabemos que o Parlamento dificilmente avança nas pautas polêmicas em ano eleitoral, o Congresso Nacional já entra em marcha lenta e os parlamentares devem deixar a análise de projetos importantes e reformas estruturantes para o ano que vem, por enquanto vão se concentrar na disputa de outubro e tentar atrair votos para se reelegerem, no mais, só pautas paroquiais e de consenso, em todas as Casas Legislativas do País. Tem sido assim desde a redemocratização do país em 1988.

As propostas de reformas devem ser apresentadas quando há insatisfação de grande parte da população sobre determinado tema. Já ouviste em alguma mesa alguém reclamando da nossa forma de governo e clamando por semipresidencialismo? 

O voto transforma sussurro em grito

Posicionar-se politicamente não significa permitir que as pessoas te usem como uma caixa de ressonância para expressar a opinião e opção delas.

A participação política é algo tão incrível quanto ameaçador. Li tempos atrás uma entrevista em que o ex senador republicano Fran Millar, disse não concordar e ter se preocupado com a decisão do governo americano de facilitar o acesso ao voto nas eleições, ampliando o número de urnas e locais de votação, sobretudo em regiões da periferia. Segundo o Senador, isso poderia elevar o número de eleitores negros e outras minorias e poderia promover mudanças não desejadas nos redutos Republicanos, além disso, o Senador disse que preferiria receber votos de pessoas mais educadas do que dos africanos americanos. A esta altura o Senador americano, derrotado, deve ter aprendido que na pequena cabine de votação o valor do voto é absolutamente igual.

A verdade sobre a política é encontrada onde nem todos se preocupam ou tem habilidade para enxergar. No livro O sinal e o ruído, o autor e estatístico Nate Silver diz que as pessoas gostam de política porque gostam de estatísticas, de previsões, tanto do tempo quanto do futuro e que mais de 90% dos fatos políticos são previsíveis, mas que ironicamente, a maioria das previsões são erradas, sobretudo devido às incertezas que permeiam todo o processo eleitoral. O autor tornou-se famoso nos Estados Unidos depois de fazer vários prognósticos corretos sobre o vencedor da corrida presidencial em 49 dos 50 estados americanos.

Falamos muito sobre política na superficialidade, fazemos prognósticos baseados em achismos e por isso  a desinformação política é uma grande preocupação no período que antecede as eleições de outubro próximo. O Brasil é o sexto país no mundo com maior número de usuários de mídias sociais. Com mais de 147 milhões de usuários no país, o WhatsApp é um veículo muito popular e o mais eficaz para disseminar narrativas falsas e desinformação entre os eleitores brasileiros, sem deixar grandes pegadas digitais, o que significa que é impossível saber quantas pessoas viram um conteúdo ou como exatamente o conteúdo viajou, por meio de prints e compartilhamento.

Foi exatamente o que vivenciamos nos períodos críticos da Covid-19. Pesquisadores da Universidade de Pelotas descobriram que a desinformação, alarmes e notícias falsas eram em grande parte transmitidas a partir de bases pró-Bolsonaro, em grupos de WhatsApp. O Telegram tem sido, cada vez mais usado em divulgação para o mesmo fim, com a vantagem que os grupos podem ter 200 mil membros (os grupos do WhatsApp são limitados a 256). É importante ter critério quanto a escolha da fonte de informação que vai alimentar você e sua família.

O período de pré-campanha efetivamente começou e ao perceber a movimentação, você pode estar se perguntando se a sua participação política realmente pode fazer a diferença. Afirmo que sim. A começar, busque informação confiável, seu voto é o passaporte para seu futuro pelos próximos quatro anos. Não votar ou tratar com displicência o voto é rejeitar sua capacidade de influenciar a forma como sua vida será afetada pelas ações governamentais, que via de regra e nunca de forma linear, atingem todos. Individualmente seu voto pode parecer apenas um sussurro, mas quando o seu voto se soma com outros, o sussurro vira grito e todos ouvem.

Sentimento de distanciamento

O Instituto de Pesquisa do Senado Federal vem há mais de 10 anos aplicando pesquisa quantitativa nacional para estruturar o panorama político do país e avaliar a opinião dos brasileiros sobre democracia e alguns dos principais temas em debate no país. No final de 2021, o levantamento foi realizado em todas as regiões do país. O fato relevante é que apesar de parecer em queda vertiginosa, o índice de interesse dos entrevistados pela política, foi considerado razoável, 53% manifestaram-se atentos ao desenrolar das construções de candidaturas, embora ao mesmo tempo tenham demonstrado falta de compreensão sobre as regras do sistema político brasileiro.

Uma mulher jovem, entrevistada em Curitiba disse que a falta de conhecimento sobre o sistema político é, em parte devido às mudanças constantes das regras e também, um jogo de alienação mantido pelo político, a quem interessa resguardar seus interesses e que uma maior consciência política por parte da população poderia trazer mudanças não desejadas pelo complexo sistema político, que hoje, favorece a manutenção do poder nas mãos dos mesmos em detrimento da renovação nas casas parlamentares, sobretudo.

Outro fator apontado nas respostas sobre a participação na vida política foi a desilusão proveniente da percepção de que a política em muito pouco, tem sido transformadora da realidade e pouco se discute sobre as demandas urgentes da sociedade. Por demandas urgentes podemos citar a má qualidade da educação pública, falta de investimento no SUS, descontrole da economia, percebido no preço do gás de cozinha, alimentos e combustíveis. São pautas que vão e voltam envolvidas em discussões superficiais e paliativas.

Decepcionados, muitos entrevistados não foram capazes sequer de lembrar em quem votaram para o senado nas eleições passadas. Questionados pela razão do esquecimento, muitos reforçaram o sentimento de distanciamento, não físico, da política nacional.

Consenso houve quando a pergunta girou sobre as principais fontes de notícias que tem influenciado o eleitor brasileiro: redes sociais, sem dúvida! As razões vão desde a agilidade com que as notícias são atualizadas ao direcionamento de comentários feitos pelos jornalistas.

Um entrevistado, homem colocou que as mídias sociais são mais isentas do que os canais fechados, além de permitir que se leia posicionamentos diferentes sobre o mesmo tema. A maioria dos entrevistados apontaram que as principais fontes de disseminação de fake news são amigos e familiares, em cerca de 73% dos casos.

A maior parte dos entrevistados avaliam que a TV tradicional é tendenciosa e distorce as informações para atender interesses de determinados grupos econômicos e políticos. Ao contrário da internet, que permite ao cidadão buscar informações livremente, a TV é vista como manipuladora. Como consequência, perde a credibilidade de grande parcela dos entrevistados.

Devemos caminhar no sentido de restabelecer o interesse do cidadão na política, em níveis, que não seja de encantamento, mas de participação e engajamento. Longe daqui, a comunidade acadêmica brasileira de estudantes de Harvard e do MIT, em Boston, nos Estados Unidos, fez o que muitos entrevistados pelo DataSenado reclamaram não ver por aqui, se reuniu para discutir os desafios e caminhos para o Brasil, na Brazil Conference 2022.

No centro de tudo, financiando e palestrando estava o Sr. Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do país, que do alto de seu mundo paralelo, inatingível para 99% dos brasileiros, encarregou-se de falar sobre a situação da educação no Brasil. Falou que só através da educação pode-se melhorar a desigualdade brasileira e propôs-se a discutir fórmulas de tornar a educação mais efetiva e os jovens brasileiros mais competitivos no contexto global. Falou também o óbvio, “que a educação pública brasileira é de péssima qualidade, que os alunos brasileiros sempre ficam nos últimos lugares em testes de interpretação de texto, matemática e que o problema não é de falta de recurso, é mal gerenciamento do investimento, gasta-se muito em ensino superior, quando a solução está na base”.

Perguntado sobre a política e as eleições brasileiras, esnobou. Disse não se interessar por política, nas escorregou nas palavras e finalizou: “Temos uma eleição em curso no Brasil  e no ano que vem, teremos um “novo” presidente.

Falsos especialistas – efeito Dunning-Kruger

Antes de ter a chance de processar um acontecimento, já estamos nas redes sociais fazendo uma leitura superficial de todas as opiniões apressadas já publicadas, quer seja sobre a guerra na Ucrânia, vidas particulares de personalidades ou a “graça constitucional” concedida pelo presidente Bolsonaro ao deputado e aliado político.

Muitas vezes, me pergunto se devo me manifestar sobre determinado tema, para depois não sentir aquela pontada de arrependimento por não haver lido antes sobre o assunto, por ter sido superficial, irônica ou por não ter sido clara na minha posição. Li o post do ex-procurador da República, ex-senador e ex-governador Pedro Taques sobre a “graça constitucional” concedida pelo presidente. Pedro Taques é um dos maiores constitucionalista do país, quem sou eu para comentar abaixo? Aplaudi!

Interação quente simplesmente não vale a pena. Antes de comentar um tópico, não se auto censure, respire, analise se o comentário não criará problema ou controvérsia inútil promovida pelo momento de calor, além disso não abra mão de demonstrar empatia diante das dificuldades dos outros antes de clicar em postar o comentário.

A reflexão é sobre o que há por trás do motivo pelo qual nos sentimos compelidos a avaliar, opinar e a participar de quase tudo nos dias de hoje, sem esquecer, portanto, que somos criaturas sociais. Criaturas sociais, seres emocionais, impulsivos, opinativos que querem entrar em contato, querem fazer parte da tribo, se solidarizar, criticar e comungar com outras pessoas usando o maior megafone que já possuímos; as mídias sociais, que de ruim, apresenta o fato da falta de hierarquia, onde a opinião de todos é tratada da mesma forma.

Os psicólogos americanos David Alan Dunning e Justin Kruger, em estudo, que tornou célebre no ano de 1999, demonstraram que pessoas com baixa habilidade em uma tarefa tendem a superestimar suas competências, sobretudo, em público. O efeito Dunning-Kruger é o nome dado ao um fenômeno quando alguém sabe pouco sobre um assunto e já se julga especialista. Enquanto isso, os especialistas de fato reconhecem que o tema é muito mais complexo do que eles próprios supunham inicialmente. Essa é a tendência dos menos competentes ou versados em um assunto superestimar suas habilidades, creditarem a si títulos de especialistas e apresentarem resultado de suas próprias pesquisas.

Por exemplo, no momento presente, sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, ler artigos dos especialistas militares, funcionários de relações exteriores, é muito útil para formar a opinião sobre a invasão e bombardeios que já duram dois meses. Ao contrário disso, a maioria das pessoas nas mídias sociais acredita que sua opinião é equivalente a de um estrategista militar. Isso perpetua o problema que leva os não especialistas a fornecer conselhos de “nível especializado”.

Em vez de correr para postar, corra para ler e entender que o fato da Ucrânia contar com apoio da ONU, OTAN, União Europeia, dezenas de países importantes como Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, França, Canadá não significa o fim da guerra. A ONU acusa a Rússia de crimes de guerra e a Rússia segue acirrando tensões, cometendo crimes e causando grande impacto na geopolítica da região, diante da alegação dúbia de muitos líderes de governos de que é preciso evitar um confronto militar direto com a Rússia. 

Aprecio debates e conversas saudáveis com as pessoas on-line ou presencial sobre tópicos diversos e não acho que a internet seja um ambiente “terra de ninguém”, onde as discussões possam prosperar, sem responsabilidade.

Tenho milhares de dúvidas, procuro novas fontes ou amigos que tenham um ponto de vista mais especializado sobre o assunto que quero comentar, aproveito para aprender, formar minhas próprias opiniões e munida com informações corretas, posto, sempre.

Excesso e moderação

Os autores clássicos concordavam com a importância da moderação mas também deixavam claro que não é uma virtude fácil. Tácito a chamou de “a mais difícil lição de sabedoria”, Horácio ligava a moderação a todas as coisas boas mas difíceis de alcançar na prática. Platão destacou tanto a importância quanto a dificuldade da moderação em A República, onde a definiu como a virtude que nos permite temperar nossas paixões, emoções e desejos. Aristóteles na Ética a Nicômaco, definiu a moderação como um meio-termo entre extremos, uma virtude que “um mestre de qualquer arte está sempre buscando”. É uma virtude desafiadora.

A moderação como temperança também ocupa um lugar-chave na tradição cristã, na qual é considerada, juntamente com a prudência, uma virtude cardeal. O teólogo cristão São Tomás de Aquino, argumentava que a moderação não é incompatível com fortaleza, coragem e sabedoria. Ninguém pode ser sábio e corajoso sem ser, ao mesmo tempo, moderado.

Na visão comum, a moderação é comparada à indecisão, fraqueza, oportunismo e covardia. Aos olhos de quem defende essa interpretação, a moderação aparece como uma virtude branda, incoerente e indesejável, o oposto da firmeza e clareza de propósito. “A moderação se vê como bela”, disse Friedrich Nietzsche, “apenas porque não sabe que aos olhos do imoderado ela parece negra e sóbria e, consequentemente, feia”.

O tempo recente nos apresenta a hipermodernidade, como uma cultura paradoxal, que combina o excesso e a moderação, o tempo acelerado, a vida em regime de urgências, os horários estão cheios e a vida tem que ir além do mundo do trabalho, precisamos de divertimento, lazer, alimentar o espírito. Surgem aí as construções mais personalizadas dos usos do tempo: uma necessidade de melhor organização individual da vida.

Em Os Tempos Hipermodernos, Gilles Lipovetsky, filósofo francês, teórico da hipermodernidade, elege temas como individualismo, o exagero, a ética, moda como as  características de uma sociedade de consumo estabelecida sob o signo do excesso, um frenesi de mudança, insegurança em relação ao futuro, com a proliferação de estudos, mestrados, doutorados, pesquisas e desenvolvimentos de medicamentos e terapias para garantir que a sociedade hipermoderna tenha um futuro conciliador. A despeito de comportamentos excessivos, há o outro lado das pessoas, investindo na vida saudável e na paz interior. Logo, se de um lado há o excesso, o consumo exagerado, a correria, a competitividade, de outro há a recomposição de certa ordem no comportamento, esse paradoxo, essas normas contraditórias são características marcantes da hipermodernidade.

Lipovetsky analisa a procura atual pela leveza na vida, sem no entanto dispensar a obsessão pela performance profissional e pelo reconhecimento social e incrivelmente prova que estes paradoxos se sustentam. Apesar de toda atribulação, de estarmos sempre à beira de um furacão, estamos, ao mesmo tempo criando sistemas para tornar a vida mais leve, investindo em instâncias de leveza, tanto no mundo digital, no divertimento, no lazer, na espiritualidade.

Por isso o sucesso do budismo, da ioga, das práticas esportivas, das atividades artísticas. A medida que a pressão da vida privada fica mais difícil, as pessoas vão buscar cada vez mais meios de aliviar o peso de sua vida com atividades psicoespirituais que funcionam como uma espécie de remédio. Isso vai continuar porque não há alternativa. A novidade do mundo hipermoderno é justamente essa busca pela moderação, porque sabemos que amanhã haverá ainda mais competição, mais peso e aí, serão consumidos mais antidepressivos e espiritualidade.

Se nossos excessos se dão por medo, como de perdermos o emprego, de nos tornarmos irrelevantes, de deixarmos como herança aos nossos filhos uma vida precária, é praticamente inevitável que respiremos essa atmosfera de desassossego, ansiedade e confusão por muito tempo, a menos que aprendamos a ajustar as velas do navio para o modo moderação, para evitar que ele naufrague em tempos de excesso.

Reconfiguração das forças políticas

Deputadas e deputados federais ou estaduais que pretendiam trocar de partido antes das eleições 2022 tiveram 30 dias para fazê-lo sem perder o mandato por infidelidade partidária. Chama-se a esse “arranjo” de janela partidária, que terminou no dia 1º de abril passado, entre desconfortos e construção de novos projetos. Essa regra está prevista em lei e o entendimento é que o mandato dos parlamentares (deputados e vereadores) pertence aos partidos e não aos candidatos eleitos. Toda essa reviravolta partidária que ocorreu na última semana mostra a complexidade do sistema eleitoral brasileiro, da qual os parlamentares têm se aproveitado para se reacomodar no sistema.

Do ponto de vista político, os parlamentares devem mudar de partido quando  perceberem que seus pontos de vistas não mais estão alinhados com a linha de conduta adotada pelo partido ao qual estão filiados, porém, n prática, a decisão e os critérios da mudança de partido tem muito mais a ver com a possibilidade de se aumentar as chances de se eleger ou para juntar-se interessadamente ao grupo dos líderes nacionais que apoiam. Essa contextualização justifica o reposicionamento de muitos parlamentares federais e estaduais que migraram para o PL, partido do Presidente da República, que da noite para o dia se tornou a maior bancada da Câmara Federal no momento, saltou de 33 para 78 deputados.

De muito bom, houve a significativa diminuição no número de partidos que disputarão as eleições em outubro próximo. Na última eleição geral de 2018, 30 partidos elegeram representantes, com as fusões e trocas de legendes, o número de partidos caiu para 23.  

Praticamente nada na política é constante, as mudanças de partido ocorrem antes mesmo da abertura da janela partidária, principalmente nos casos de fusão de partidos e registro de novos partidos, o que não implica em perda de mandato para quem migra. Não é um troca-troca fechado em si mesmo, segundo o cientista político João Beato a troca de partido no ano eleitoral permite uma reconfiguração das forças políticas no cenário das eleições, sem que partidos ou mandatários sejam prejudicados, por outro lado, uma mudança de partido ocorrida em decisão solitária, pode influenciar negativamente o eleitor, colocando o candidato em risco de perder, sobretudo projetos de reeleição, se a mudança não for discutida com os apoiadores políticos.

Os dirigentes partidários do estado atravessaram meses em conversas públicas e de bastidores para a construção de candidaturas fortes, de puxadores de votos para eleger uma boa bancada na Assembleia Legislativa e pelo menos um deputado federal, o que muda radicalmente a configuração do partido em termo nacional e é responsabilidade de todos os dirigentes ajudar a cumprir a cláusula de desempenho, que fixa número de deputados federais eleitos para que os partidos possam ter acesso e quanto receberão do fundo eleitoral partidário.

No estado tenta-se construir, até o momento, sem sucesso, um grupo de oposição para disputar contra o governador Mauro Mendes, que com o caixa equilibrado segue para uma agenda recheada de lançamentos e inaugurações de obras. Dos 24 parlamentares estaduais, 11 mudaram de partido, aproveitando a janela partidária: Allan Kardec, que concorre a deputado federal, Sebastião Rezende, Xuxu Dal Molin, Dr. Gimenez, Wilson Santos, João Batista, Faissal, Elizeu, Claudinei, Cattani e Ulysses.

Uma das principais discussões no país neste momento trata da nova tentativa de construir uma terceira via como alternativa à polarização entre Bolsonaro e Lula. Há tempo porque nenhuma construção em andamento traz somente elementos novos. Há composições com políticos que vem de eleições bem sucedidas para governo e senado, outros não foram bem sucedidos, mas o nome ficou massificado. E a eleição é a soma de todos esses contrastes e arranjos.