O bem que eu não fiz

Não sou uma pessoa dominada pelos humores, pelas paixões e pelo acaso, sigo, às vezes, sem habilidade para dançar a música da conveniência e da exibição, mas falha e imperfeita, pego-me outras tantas vezes, vigiando a mediocridade minha e dos outros diante de impasses intoleráveis.

É tão fácil seguir quanto não seguir um objetivo estipulado especialmente quando não há nenhuma punição vinculada, a não ser o risco da não realização de um sonho, de um projeto ou de uma promessa. Temos um álibi forte para nossos fracassos de 2021, o mesmo que tivemos em 2020 e sabe Deus se não estaremos falando da mesma coisa em 2022: pandemia!

Sim, estes são tempos difíceis! A pandemia elevou o nível das desigualdades sociais, os impactos locais e globais da fome trazem a cada dia traz um novo lembrete dos desafios que enfrentamos. E isso é apenas no mundo externo! Nosso universo interior é complexo, absorve toda essa diversidade de problemas, dores miúdas e frustrações. No mais, é abaixar a cabeça e admitir; o bem que eu não pratiquei foi porque eu me omiti, porque não entendi a urgência, porque não priorizei o outro e até porque não me importei o suficiente.

Como sempre, há a escolha das prioridades e há as coisas que simplesmente deixamos para trás. Pequena, que sou, não ofereço cuidados de saúde a quem necessita; não estou na linha de frente em defesa do clima; pessoalmente, não forneço comida a quem tem fome. O impacto do meu trabalho e da minha voz não são tão potentes e imediatos quanto sempre quis que fosse. Mas tenho estendido minhas mãos e ampliado minha voz em favor de um mundo mais fraterno, de mais igualdade, menos julgamentos e mais acolhimentos. Gosto de acreditar que entre todas as histórias que contei aqui aos domingos, ao longo do ano, uma possa ter tocado seu coração, despertado um desejo, uma inspiração.

Faltando cinco dias para o fim do ano eu estou me perguntando em que eu desejo que o mundo melhore no próximo ano, no que eu preciso melhorar e as possibilidades são infinitas! Mas chegaremos no final do próximo ano com resultados insignificantes se continuarmos culpando a pandemia, a falta de tempo, a falta de dinheiro pela nossa pífia atuação em favor da vida mais justa e digna, o que é possível quando nos interessamos em conhecer o trabalho feito pelo outro. Aceito que não preciso protagonizar, líderar um projeto para entrar nele com todo meu coração.

Fui descobrindo coisas, me juntando à pessoas mais anjos do que gente, que pregam e fazem o bem o tempo todo. Através de uma amiga evangélica, tomei conhecimento que a população de rua em Cuiabá, tem um protetor incansável, um padre, que sem interromper suas ações em tempo de pandemia sequer por um dia, arrecada comida, roupa, dinheiro para comprar os itens necessários e distribuir todas as noites, onde há irmãos amotinados com medo e fome nas periferias e centro da cidade. Regra simples para colaborar com o projeto, não fazer da ação postagens para se redimir diante de Deus e dos homens.

Mulheres ajudam mulheres a saírem do ciclo da violência doméstica e assumirem o comando de suas vidas e emoções. Recontamos suas histórias, registramos os talhos na pele, choramos juntas. As denúncias são encaminhadas, a justiça é cobrada antes que a morte vença essa guerra, desigual em força e propósitos. Dentro das especificidades do grupo, cada mulher doa o que sabe, o que pode alcançar, o que pode contribuir para amenizar senão resolver uma situação grave colocada.

No bairro Pedra 90, um jovem visionário, quase sozinho produz cultura com o propósito de promover a inclusão social. Não é sorte, é utilizando a criatividade que ele transborda bons sentimentos nos cursos de teatro, aulas de dança, sessão de cinema e de leitura que oferece para os jovens da região. As vezes, ele pede apenas o compartilhamento do trabalho dele. 

Haverá distrações e momentos de dúvida, mas a hora de enxergar a dor do outro, de colaborar com algum projeto que não pode ser apenas um processo, mas sim, uma atitude de toda a jornada, é agora! Só precisamos reenquadrar as prioridades e parar de ter atitude de desconfiança para com o diferente, em qualquer aspecto da condição humana!

Estarei mais inteira e disponível nas minhas lutas. Calma e tranquila, sem reagir a maldade gratuita, não por fraqueza, mas por acreditar que a minha serenidade seja necessária para o outro vencer o mal dentro de si.

É possível adiar o fim do mundo

Ideias para adiar o fim do mundo” é o título de uma palestra do fabuloso ativista indígena Ailton Krenak. Claro que esse título é uma provocação mas há muito de uma ideia de apocalipse no ar que respiramos atualmente. E a proposta de Krenak para adiar o fim do mundo é exatamente para que possamos ter tempo de contar ou viver mais uma história. É o tempo que precisamos para aprender lutar pela sobrevivência com respeito, com reconhecimento às lutas dos outros, para ampliarmos nossa cultura e vivermos uma relação amorosa com os nossos iguais, com todos e com a natureza.

Prestar atenção no que ele fala é mais urgente do que nunca!

A ideia central da palestra, que tornou-se um livro, lançado em 2019 é alertar para o que muitos já perceberam, a autodestruição da vida humana nesse lindo planeta azul. As palavras, quando otimista de Krenak falam de um agir urgente sobre um mundo que agoniza e propõe uma virada de perspectiva para iniciarmos, em coletividade, um processo de transformação social, cultural, ambiental para salvarmos não apenas as populações originárias ameaçadas em todo mundo, como a dele próprio. Ele fala sobre todos nós, que somos abraçados por este espaço mágico chamado Terra, mas alerta que não somos os únicos seres que o planeta abraça.

Ele conta sobre um pesquisador europeu que foi aos Estados Unidos visitar um território indígena. Ele havia pedido que alguém da aldeia intermediasse o encontro dele com uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, a anciã estava imóvel diante de uma rocha. O pesquisador esperou bastante até que finalmente perguntou: “Ela não vai conversar comigo, não?” o interlocutor respondeu: “Vamos esperar, ela está conversando com a irmã dela”. “Mas é uma pedra”, disse o pesquisador e o facilitador da conversa disse: “Qual é o problema, é a irmã dela!

Krenak nos tira a sensação da qual sempre nos gabamos, de sermos os donos do planeta e torce para que o casulo humano imploda  e se abra para uma visão de vida não limitada. Krenak encantou Lisboa com essa fala, proferida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde entre uma metáfora e outra falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que ainda experimentam o simples prazer de estarem vivos, cantando, dançando e fazendo chover, gerando, sem querer, grande intolerância na humanidade que ele chama de zumbi, aqueles que não toleram tamanha leveza, felicidade e fruição.

Ao longo do texto ele se mostra convencido que precisamos partir para a construção de uma nova humanidade, porque, do jeito que as desigualdades e injustiças se instalam, vivemos, o que ele chama de uma condenação antecipada do fim do mundo. E uma das ideia para adiar o fim do mundo é, diante da certeza que estamos em queda como civilização, aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. É indispensável que reflitamos sobre o começo, o fim e com sorte, que tenhamos algum tipo de recomeço.

A crise da qual Krenak fala refere-se à nossa humanidade, a nossa experiência como seres humanos.  O mundo está atravessando muitas crises; terremotos, epidemias, a incontida violência contra mulheres e meninas, crise climática, conflitos em larga escala, invasões, massacres e guerras, além da fome que traz em seu bojo crises humanitárias devastadoras.

É muito importante viver a experiência de circular pelo mundo, de poder contar uns com os outros, promover mudanças na forma de vida, sem jamais recorrer a práticas desumanas contra qualquer outro ser. O que Krenak faz em suas palestras é questionar qual o mundo estamos deixando para as futuras gerações e compartilhar a idéia de um outro mundo possível.

Para quem não conhece Ailton Krenak, ele é um líder indígena mineiro, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas. Discursou no Congresso Nacional, durante as discussões sobre os direitos indígenas na Assembleia Constituinte. Palestrante, reconhecido nacional e internacionalmente, foi o grande sucesso da Festa Literária Internacional de Parati – FLIP 2019, quando lançou o livro “Ideias para adiar o fim do mundo”.

Polarização e o sonho da terceira via

O jogo político de 2022 efetivamente começou. Tento me recluir para ler, pensar, matutar bem a questão, sedimentar minha posição para o ano que vem. Vejamos o que já temos colocado no tabuleiro:

O presidente Bolsonaro já definiu o novo partido (PL), pelo qual disputará à reeleição, o ex-presidente Lula, segue fiel ao partido dos Trabalhadores e ambos aguardam a confirmação das candidaturas que brigam entre si pelo posto cobiçado de terceira via das eleições presidenciais.

Os tucanos escolheram o governador João Dória para ser candidato a presidente, Ciro Gomes não entra em disputa interna no partido, onde é candidato praticamente unânime, o ex-juiz Sérgio Moro, filiou-se ao Podemos e entrou definitivamente na disputa.

Na última semana, o MDB apresentou a senadora Simone Tebet como candidata a presidente. Mulher sensível e engajada, presidiu a Comissão de Justiça no Senado. Se ela se apropriar de um discurso destemido, contemplando as pautas de interesse do público feminino, pode fazer bonito na eleição, considerando a lógica de que as mulheres são detentoras de 52% dos votos.

Detalhes, uns atraentes, outros intrigantes são adicionados aos arranjos para viabilizar as candidaturas majoritárias; de um lado, ideologias que polarizam crônicamente as discussões e do outro lado, as tais federações que devem unir num bloco só vários partidos para reforçar determinadas candidaturas. No âmbito da polarização, pelo que temos percebido nas pesquisas, Bolsonaro e Lula somados deixam espaço apenas para mais um candidato com chance de ser bem votado e interferir no resultado do primeiro turno. Esse voto, no terceiro colocado, será o voto útil, ao qual muitos amigos e analistas tendem convergir como opção.

Muito difícil porém, combinar esta estratégia com os eleitores não ideológicos, que embora queiram evitar um segundo turno polarizado entre Lula e Bolsonaro, estão espalhados e alheios, esperando as pesquisas sinalizarem crescimento real de Dória, Ciro, Moro, Simone, Mandeta ou quem mais surgir.

Localmente, não vivemos o cenário de polarização e a reeleição do governador Mauro Mendes é aparentemente tranquila, se o prefeito Emanuel Pinheiro não entrar efetivamente na disputa, como candidato, ele próprio. Nomes do agro, depois do case de sucesso do Blairo Maggi, vão surgir sempre, mas eleição de governador não é assim tão simples; eu quero, eu vou.

Como sabemos, Blairo era um nome conhecido nacionalmente como empresário, destacou-se quando foi suplente do senador Jonas e viabilizou-se politicamente com apoio de grandes nomes da política de Mato Grosso. Balbinotti, sem grupo de apoio, contando com possível amizade à distância com o presidente da República, não segura uma candidatura ao governo, deve estar ensaiando vôo para a Câmara Federal.

O prefeito Zé do Pátio é considerado um forte candidato ao governo, embora não tenha admitido isso ainda, viria apoiado por uma frente progressista vigorosa e protegido pela figura jurídica da federação, que obrigaria diversos partidos a apoiá-lo em nome da manutenção e fortalecimento da candidatura do ex-presidente Lula.

Mas, intempestivo, começou mal, atropelou o Partido dos Trabalhadores ao anunciar a criação de um comitê pró-Lula e avocar para si a coordenação da campanha no Estado, onde o Partido dos Trabalhadores tem uma bancada respeitavel de deputada federal (Rosa Neide) e dois deputados estaduais (Lúdio Cabral e Valdir Barranco).

Fora da majoritária observa-se o espaço que pode ser deixado na disputa de deputado federal com a saída do deputado Neri Geller para concorrer ao Senado. O grupo PSD/PP, que tem se mantido unido e ampliado a força com a eleição do senador Carlos Fávaro, não deve abrir mão de manter o espaço e tem cacifado o deputado Neri para acirrar o embate com o senador Wellington Fagundes em torno da única vaga oferecida ao Senado.

O senador Wellington Fagundes tem o palanque reforçado pelo correligionário Bolsonaro, o que é importante num estado que tem 141 municípios e 122 deles deram vitória a Bolsonaro em 2018.

Porém, a realidade hoje é outra depois de 616 mil mortos pela Covid e descontrole no aumento do custo de vida, com a gasolina em alta de 40% no ano de 2021, empurrando a inflação de setembro para 10,25%, o maior índice dos últimos 27 anos. Isto sim, pode ser determinante numa eleição.

Lembramos que análise política não deve ser guardada nem para a semana seguinte. Retrata o momento em que a conversa acontece e muito pouco além.

Qual é a minha cruz?

Estamos desde o dia 20 de novembro vivenciando a campanha 21 dias de ativismo pelo fim da violência contra a mulher. Internacionalmente a campanha começa dia 25 de novembro, dia Internacional da não violência contra a mulher,  porém no Brasil a data foi antecipada para 20 de novembro, dia da consciência negra.  A campanha busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão perpetrados contra as muheres.

A violência contra as mulheres constitui uma manifestação das relações de poder historicamente desiguais entre homens e mulheres e é usada como uma ferramenta de opressão, impondo o domínio e a discriminação das mulheres em todos os cantos da sociedade. O feminicídio, que é o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres, ocorre muito no âmbito familiar, nas relações afetivas, e é uma violência que não esconde a estratégia de humilhar, desmoralizar o ser feminino e se estende por todas as culturas, classes sociais e localidades do planeta.

A violência doméstica é uma das violações dos direitos humanos mais generalizadas e devastadoras. Mulheres são mortas no local onde deveriam estar mais seguras. Elas são mortos em suas próprias casas, na maioria das vezes pela pessoa em quem mais confiam e na frente de filhos pequenos.

Semana passada os jornais locais estamparam a noticia de um agressor de mulher, filho de um desembargador. Qual é a relevância de se dizer quem é o pai do agressor? Tudo o que é publicizado a respeito da violência contra a mulher, cada detalhe, amplia o debate, dá visibilidade ao tema, traz novas perspectivas e novo público para as discussões sobre a violência endêmica contra as mulheres e o aparato criado pelo sistema para coibir-la; a Lei Maria da Penha, medidas protetivas, botão de pânico, o novo tipo penal; a violência psicológica contra a mulher.

O noticiário tem sido intenso, com mulheres que foram brutalizadas, espancadas, ameaçadas a não denunciarem, ameaçadas a permanecerem no relacionamento violento e depois mortas.  1 em cada 3 mulheres em todo o mundo sofre violência física por parte de seu parceiro íntimo. Isso significa que todos nós, certamente conhecemos mais de uma mulher que sofre ou sofreu violência doméstica. Olhe a sua volta. O abuso se dá de muitas formas, em muitos casos não lesiona o corpo, definha a alma. Afeta muitas pessoas, não importa onde estejam no mundo e as crianças que crescem nessas famílias costumam ser vítimas de abusos também e carregam marcas pela adolescencia e vida adulta.

No ano de 2020, o Brasil  registrou 105.821 denúncias de violência contra a mulher. Em 2019 o Brasil ocupava o quinto lugar no mundo em feminicídios, com 50% dos casos cometidos por parceiro íntimo. Ainda há o estigma da denúncia. Se você relatar um estupro, é sobre o que você estava vestindo. Se você denunciar assédio sexual, é sobre o que você fez para provocá-lo. Se você relatar abuso, é sobre a dinâmica de seu relacionamento. Até quando as mulheres vão se levantar todos os dias e se perguntarem: qual é a minha cruz de hoje?

Na moderna América, um deputado republicano do estado da Virginia fez uma apologia ao estupro ao dizer textualmente que o estupro pode ser um ato bonito (rape can be beautiful) se deste ato resultar o nascimento de uma criança. Um  senador, tentando corrigir o incorrigível nas declarações do outro, disse que as mulheres rotineiramente fabricam histórias de violência e estupro para obterem vantagens.

A América não me inspira. Em “A educação do príncipe cristão”, Erasmo de Roterdã, teólogo e filósofo holandes, escreveu que as virtudes mais elevadas para ser um homem ideal, seriam as virtudes consideradas fracas: a clemência, prudência, gentileza, civilidade, sobriedade, temperança, integridade e a equidade”. Por mais homens brancos, negros, ricos, pobres, iletrados, formados dotados de virtudes fracas!

Ninguém está seguro até que todos estejam seguros

A pandemia não chegou ao fim. Não estamos liberados do uso de máscara em local fechado, temos que ser vacinados e as normas sanitárias estabelecidas continuam vigentes, embora percebamos um relaxamento desproporcional das norma de biosegurança, considerando o “inferno” que estamos vivendo há quase 2 anos. O que vou relatar agora está nas capas dos maiores jornais do mundo e no site da Organização Mundial da Saúde este final de semana; os países estão lutando para impedir a entrada de uma nova variante da covid, batizada de Ômicron, com casos confirmados na África do Sul, Bélgica, Egito e líderes globais reconhecendo o quanto estamos vulneráveis. O alerta ao mundo foi feito por cientistas sul-africanos.

A descoberta é muito recente e o rastreamento do novo vírus está sendo feito especialmente na África, em Botsuana, onde pesquisadores indicam que pode ter ocorrido uma mutação genética, com suposta capacidade do vírus se disseminar mais rapidamente do que a variante Delta, amplamente conhecida. Outra grande preocupação é saber se as vacinas até aqui produzidas e aplicadas serão eficazes para conter a propagação dessa variante, considerada altamente infecciosa e evitar mortes.

Cientistas alertam que a nova variante não precisa de muita ajuda para encontrar as dezenas de milhões de pessoas que estão desprotegidas, sem vacinação completa. E enquanto houver partes do globo com baixas taxas de vacinação, continuaremos a ter criadouros ideais para novas variantes.

Todos os lugares do mundo, das metrópoles aos vilarejos foram alcançados pela pandemia do coronavírus, porém, nem todos foram alcançados pela vacinação. Agora, a realidade de um mundo globalizado não apenas pelas relações comerciais, mas ligado também pelas misérias volta a nos assombrar. Sob muitos aspectos essa nova situação muda definitivamente nossa ideia de lugar, de segurança. Para onde tentarmos ir, não encontraremos terra segura, esta epidemia está a nos acompanhar por onde andarmos. Se os cientistas a debelam de uma forma, o vírus se transmuta e ressurge numa terra que muito provavelmente tenha sido negligenciada ou esquecida.

Para quem decidiu sair e viver a vida, virando a página da tragédia das 614 mil mortes e mais de 22 milhões de casos no país, apresentando a narrativa de que a pandemia essencialmente chegou ao fim, seria bom um recuo mental e reavivar as imagens das unidades de terapia intensiva colapsadas, os anúncios dos números assustadores de mortes diárias incluindo aí, familiares de muitos de nós.

Pode parecer uma ideia atraente acreditar que atingimos o equilíbrio, porque ansiamos voltar à vida normal, mas isso vai de encontro à realidade da existência de uma pandemia que continua latente. Existe uma realidade ruim eclodindo hoje na Africa que pode ser irradiada para muitas outras populações, inclusive a nossa.

Além disso, vale relembrar as entrevistas de cientistas, infectologistas e virologistas afirmando que  novas variantes continuariam a evoluir, mas com os cortes das verbas do fundo para a ciência, a comunidade científica brasileira não tem recurso (equipamento e reagentes) para fazer pesquisas para entender se as variantes são mais ou menos virulentas. Entretanto, virologistas mundo afora estão voando em alta velocidade para entender se as propriedades e o potencial da nova variante pode evitar a imunidade das vacinas e das pessoas que já foram infectadas.

A narrativa cruel de que “todos vamos morrer um dia e não adianta fugir dessa realidade e que temos que deixar de ser um país de maricas”, não pode se repetir, caso o monitoramento da nova variante mostre que ela tem potencial para causar surto em países com alta taxa de cobertura da vacina.

Longa caminhada até a liberdade

Foi estabelecido a data de 20 de Novembro como dia nacional de Zumbi e Consciência Negra. A data é uma homenagem póstuma à Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil colonial, o quilombo dos Palmares, no Estado de Alagoas. Por muitos anos, Zumbi, nascido presumidamente em 1655, foi o comandante da resistência dos negros contra a escravidão. Poucos estados, entre os quais, Mato Grosso adotaram a data como feriado em todos os municípios.  A luta contra o racismo é um estado de vigilância permanente e na contemporaneidade encontra representação na figura de um homem que fez da luta contra o racismo a razão de sua vida, Nelson Mandela!                                               

“Long Walk to Freedom” – Longa caminhada até a liberdade é a autobiografia do ex-presidente sul-africano Nelson Mandela, uma das pessoas mais influentes do planeta no século XX. O livro relata a vida de Mandela desde seus primeiros anos, até as experiências amargas vividas nos 27 anos que passou na prisão, maioria do tempo em Robben Island sob o governo severo do apartheid. Desde jovem, morando no interior, Mandela se destacava academicamente e ao mesmo tempo ia construindo sua identidade nos movimentos contra o regime segregador que governava a Africa do Sul. Frequentou a única Universidade de Direito que permitia o ingresso dos negros. Mais tarde formou-se também em Artes. Envolveu-se profundamente nos movimentos de boicote liderados pelos negros, participava de reuniões políticas nos comitês de partidos de oposição (ANC). Assim, o Nelson Mandela ativista chegou em Joanesburgo e Pretória. 

Envolvido em discussões diárias sobre os abusos do governo, a segregação e indignidades. Incitou greves, deixou o país ilegalmente para denunciar no exterior, as atrocidades cometidas pelo governo contra seus cidadãos negros. Foi preso e na sua defesa, disse no tribunal: “Durante a minha vida tenho-me dedicado a esta luta do povo africano. Lutei contra a dominação branca e lutei contra a dominação negra. Tenho acalentado o ideal de uma sociedade democrática e livre em que todas as pessoas vivam juntas em harmonia e com oportunidades iguais. É um ideal pelo qual espero viver e alcançar. Mas se for preciso, é um ideal pelo qual estou preparada para morrer ”.

Mandela foi considerado culpado neste julgamento e condenado à prisão perpétua. Sofreu retaliações na própria prisão. Havia restrição em tudo que era para ele, correspondência, visitas.

No entanto  começou haver uma grande pressão internacional sobre a África do Sul, por parte de governos e da ONU, que recomendou ao governo que concedesse anistia a todas as pessoas que se opunham ao apartheid. O governo porém, seguiu promovendo segregação, propagando ódio e exclusão dos negros da vida política e espaços de poder no país.

Na prisão, Mandela lutou contra a crueldade dos carcereiros, organizou uma greve de fome para melhorar as condições de vida em Robben Island. No final, os guardas aderiram à greve. Mandela também usou seu tempo na prisão para educar outras pessoas. Ele fundou um tipo de universidade dentro da prisão, com um programa organizado por prisioneiros políticos do ANC. Conseguiu escrever muitos depoimentos relatando sua situação e a do país, os quais foram conseguiram chegar às mãos de líderes de outros países e assim a pressão pelo fim do apartheid ganhou importantes adeptos.

Finalmente em 1980, a campanha “Mandela Livre” foi criada e ganhou o mundo. O Governo tentou negociar a liberdade de Mandela com o fim dos movimentos e greves dos negros. Mandela recusou. A popularidade do líder negro cresceu e o presidente da Africa do Sul quis se encontrar com ele e juntos começaram a elaborar um plano para enfraquecer e desmantelar o apartheid. Mandela deixou a prisão em 11 de fevereiro de 1990, após cumprir 27 anos.

Mandela ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1993, graças a sua vida de luta pelos direitos da África Negra. Em seguida, ele inicia uma campanha eleitoral. Presidiu a Africa do Sul de 10 de maio de 1994 até 16 de junho de 1999. Morreu em 5 de dezembro de 2013.

Voltando ao cenário alarmante brasileiro, li no site do Senado um artigo recente, que começa dizendo que “o Negro continuará sendo oprimido enquanto o Brasil não se assumir um país racista. E que no Brasil, ser negro significa ser mais pobre do que o branco, ter menos escolaridade, receber salário menor, ser mais rejeitado pelo mercado de trabalho e assim, ter menos oportunidade de chegar à cúpula do poder político e aos postos de comando na iniciativa privada, além de ser vítima preferencial da violência urbana, ter mais chances de ir para a prisão e consequentemente morrer mais cedo. 77% dos jovens assassinados no Brasil são negros. A cada 23 minutos, um jovem negro é assassinado. São 63 mortes por dia, que totalizam 23 mil vidas negras perdidas pela violência letal por ano.

A conferência da reputação global das marcas

Uma das ideias dominantes na nossa sociedade é a idéia generalizada da escassez, da falta de recursos suficientes, comida ou qualquer outra coisa para suprir a demanda de todos. Milhares de pessoas insistem dizer que, com quase oito bilhões de pessoas no planeta (7.906.439,177), a escassez é uma realidade num futuro próximo. 

As soluções para crises globais estão sob a responsabilidade dos líderes mundiais e das grandes corporações. Foi clara e contundente a chamada à uma consciência climática global feita pelo Secretário-geral da ONU, António Guterres ao saudar os líderes presentes na Conferência do Clima, no Reino Unido: “É hora de dizer chega! Chega de brutalizar a biodiversidade. Chega de nos intoxicar com carbono. Escolha a ambição. Escolha a solidariedade. Escolha proteger nosso futuro e salvar a humanidade”.

Jeff Bezos, o famoso fundador da Amazon, goza de boa reputação e discursou na COP 26 anunciando que criou o “Bezos Earth Fund”, uma organização para financiar e administrar projetos climáticos, para investir recursos em empresas que assumem essa pegada de mudança climática. Bezos, que foi duramente criticado, inclusive pelo Principe William por gastar dinheiro com viagem ao espaço em vez que colaborar com a solução dos problemas na terra disse que o fundo que criou vai investir na restauração de paisagens e na transformação de sistemas alimentares em várias partes do mundo.

A reputação das corporações está sendo usada para estimular o progresso sustentável. Escrevi dias atrás sobre reputação de mandato político e assistindo os discursos e entrevistas dos líderes políticos e empresariais, percebo que a palavra “reputação” permeou as rodas de conversas das altas cúpulas na COP 26. Todas as metas sugeridas que avançarem, o êxito será creditado ao zelo e ao medo que as grandes corporações tem com suas reputações. Um investidor, admitiu em entrevista que as marcas maiores e mais bem estabelecidas tem medo do papel que uma má reputação no quesito ambiental pode desempenhar nos lucros, no conceito e na durabilidade das empresas.

Assistindo videos sobre a conferência, percebi um certo ambiente de lobby propositivo que rolou nos bastidores da conferencia, onde outro investidor arriscou dar o nome de capitalismo consciente a esse momento em que os governos e grandes corporações experimentam quando conciliam investimentos com exigências de endurecimento ao cumprimento das metas de desenvolvimento sustentável. Mais de 30 das maiores corporações do mundo assinaram um documento prometendo não mais investir em atividades que desmatam as florestas e 141 mandatários de países, incluindo o Brasil, assinaram documento com a promessa de reduzir o desmatamento embutido no comércio gobal de alimentos.

Enfim, a reputação de qualquer governo e das grandes corporações está intrinsicamente associada a uma série de valores e a excelencia operacional não é mais suficiente. Na conferência do clima falou-se o tempo todo na responsabilidade por melhorar a reputação da política climática diante da população para que a população jovem escolha cada vez mais trabalhar para empresas que tenham propósito e compromisso com as mudanças climáticas.

Ao final, especialistas desiludidos disseram que o ideal seria que nenhum tipo de acordo tivesse sido assinado na conferência porque os políticos já se mostraram totalmente incapazes de cumprir tratados e que senão o povo, ninguém mais pode construir algo para salvar o mundo. E ouviu-se, nos momentos finais da conferência a voz da jovem ativista da Uganda, Vanessa Nakate, endereçada aos líderes políticos: “Eu estou aqui implorando para vocês nos mostrarem que estamos errados”.

Em busca da batida perfeita

Conheci o sociólogo Fábio Gomes num seminário sobre reputação política no mandato, em Brasília, 2019. A palestra veio de encontro a um tema que sempre considerei muito importante e o meio político, muitas vezes, vira-lhe a cara, a construção da reputação de mandato, para que eventos esporádicos, mesmo que arranhem a imagem, não destruam a reputação.

Fabio disse que “a imagem é pontual, todo mundo vê, são notícias quentes, que todo mundo comenta. A reputação é uma construção sólida, é o que estrutura a imagem, o que as vêzes, nem é percebido. A imagem arranhada, restaura. Reputação arranhada é difícil restaurar, quase sempre, é fim de jogo”.

Metáforas e lendas mitológicas foram utilizadas para fazer a distinção entre imagem e reputação (não são sinônimos). Imagem política é reforçada por um fato acertado aqui, um fato errado acolá. Reputação é a soma do tempo, a média que se tira da história de vida, a média dos factuais, onde erros podem ser relevados diante dos acertos e nem sempre determinam baixa na reputação.

Ele diz que estamos em busca da batida perfeita na política. Políticos não devem fazer discurso em cima do que não lê, o contexto da reputação leva em conta a a vida como ela é, o mundo da vida real, a construção do discurso, do conhecimento, das expectativas que são criadas. Não se constroi boa reputação política sendo do tipo “eu faço, eu resolvo, eu falo e você curte e compartilha porque eu tenho a batida política perfeita”.

No ambiente polarizado que engoliu o diálogo, o bom senso, o filtro, a própria razão, os indivíduos aceitam e reproduzem todo conteúdo vindo de seus líderes políticos, como se estivessem ouvindo a batida perfeita, o sociólogo recorreu a lenda mitológica de Zeus, o rei dos deuses, Hera, sua esposa e Eco, uma contadora de histórias. Hera desconfiou que Zeus a traia com Eco. Jogou Eco no Vale das Penitências com a maldição de que ela nunca mais pronunciaria uma palavra espontânea. A partir da maldição, Eco só repetiria o que ouvisse.

Alí, circulando no vale, Eco conheceu Narciso, por quem se apaixonou mas devido a maldição não conseguiu se comunicar com o belo jovem que ao perceber que Eco so repetia o que ouvia, afastou-se. Desiludida, Eco embrenhou-se numa caverna e definhou até a morte, deixando apenas sua voz ecoando pelo vale. A maldição de Eco pode ser percebida em muitos processos de comunicação política entre o lider e os seguidores.

Construir e reforçar a reputação para que esta seja submetida aos filtros ideológicos e sociais dos seguidores é um trunfo do qual, poucos lídere políticos se valerão porque não investiram tempo e discernimento na busca pelo bem comum, pelo diálogo com menos militância e paixão e mais razão,
maior percepção da realidade e menos subjetivismo, mais compromisso com a verdade, tolerância às ideias divergentes.

Não, não estou falando de um mito grego, mas de políticos que existem e que honestamente admitem não ter encontrado a batida perfeita, não estão aprisionados e amaldiçoados com a perda da palavra espontânea e não disparam bala mágica com mensagens que não podem ser questionadas ou contrariadas.

Políticos que não gostam de ser contrariados se comunicam com seus eleitores baseados na “teoria da bala mágica” ou seja, apostam que suas mensagens são tiros certeiros que adentram a mente dos seguidores sem encontrar resistência, da mesma forma que uma bala penetra a pele e se aloja sem dificuldade no corpo da vítima. Segundo essa teoria, a mensagem política deve surtir o efeito de uma bala disparada por uma arma de fogo. Não importa o conteúdo, são precisas e os indivíduos que as recebem, são vulneráveis e facilmente manipuláveis.

Epidemia de homicídios de crianças e adolescentes

A violência não é um estigma da sociedade contemporânea, porém, a cada tempo ela se manifesta de forma diferente. Envolvidos numa polarização que muitas vezes extrapola o campo político, os brasileiros vão fazendo vistas grossas ao repulsivo fato de que o Brasil está passando por uma epidemia de homicídios de crianças e adolescentes.

Com farto material, adquirido graças à lei de acesso à informação, os boletins de ocorrências de mortes violentas e violência sexual contra crianças e adolescentes, em todo o país, de 20016 a 2020 foram criteriosamente analisados por pesquisadores do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do UNICEF (Fundo das Nações Unidas para a Infância. As informações foram sistematizadas e tornadas públicas e amplamente divulgadas nos maiores meios de comunicação do país, esta semana.

É estarrecedor perceber que a posição do Brasil no contexto internacional não muda, pelo contrário, reflete uma prática política estagnada e desunamizada, o que contrasta com a política adotada por muitos outros países que trabalham desde a origem dos problemas e não registram sequer um caso de violência contra suas crianças e adolescentes. Não é nosso caso, portanto o que os números revelaram foi que:

  • 35 mil crianças e adolescentes foram assassinadas no Brasil entre 2016 e 2020;
    7 mil crianças e adolescentes são mortas em média por ano no país; 19 por dia.
    Número de morte de crianças até 4 anos aumentou 27% em 2020;
    Meninos negros são a maioria das vítimas em todas as faixas etárias 

Para traçar um simples paralelo, realçamos que os Estados Unidos, país igualmente grande, com população maior do que a do Brasil, registra em média 3 mil mortes violentas de crianças e adolescentes por ano.

O Ceará é o estado brasileiro com o maior índice de violência intencional contra crianças e adolescentes. Mato Grosso é o 16º estado que mais mata na faixa dos 14 a 19 anos.

Com os dados nas mãos foi possível perceber que a características das mortes seguem um padrão diferenciado considerando a faixa etária. Crianças de até 9 anos são vítimas de violência doméstica e, acima de 10 anos, da violência urbana, alimentada pelas desigualdades sociais abissais, relações familiares envoltas em negligência, alcoolismo, envolvimento com o tráfico de drogas. O ambiente exercerá influência decisiva sobre o indivíduo, durante toda sua vida.

O ineditismo e detalhamento da pesquisa é surpreendente. Até 9 anos, 40% das crianças foram mortas dentro de casa; 56% eram negras e 33%, meninas. Sobre morte de crianças dentro de casa, lembremos do caso do menino Henry, de 4 anos, que foi torturado e morto pelo padastro, o vereador Jairinho, do menino Samuel, que desapareceu em Rondonópolis, no ano de 2019 e há informação de que o ex-marido da avó o teria matado, a menina Nicolly, de 4 anos, assassinada durante uma chacina na zona rural de Lucas do Rio Verde, em 2020. São casos que tiveram grande repercussão nacional e local e que fazem parte da estatística apresentada na pesquisa.

Há uma desconfiança quanto aos dados registrados da violência sexual. A grande maioria são crimes cometidos dentro de casa, por parentes ou namorados de familiares e nesse contexto, o ano de 2020 expôs as crianças a uma convivência maior com os possíveis agressores, onde no dia a dia verificou-se constantes incidentes de violência. Entre uma análise e outra, percebe-se o reflexo da violência doméstica no desenvolvimento das crianças, que tornam-se adolescentes vulneráveis ou violentos.

As periferias precisam de atenção. As escolas precisam notificar os abandonos, pois as análises sugerem forte ligação entre a desistência escolar e a cooptação pelo mundo do tráfico e daí, o risco do adolescente ser vítima de homicídio. De toda forma, dar visibilidade a estes dados da violência doméstica,  do abuso e negligência sugere que pelo menos há eficácia nas estratégias de denúncia propostas pelas redes de proteção. E é exatamente isso que o estudo recomenda; que não devemos justificar nem banalizar a violência contra crianças e adolescentes, e sim denunciar.

Problemas indesculpáveis

Se aos olhos do mundo os pobres têm pouco valor, são eles que nos abrem o caminho para o céu; eles são nosso passaporte para o paraíso. Nos pobres encontramos a presença de Jesus, que, embora rico, tornou-se pobre por nós”, disse o Papa Francisco, numa homilia meses atrás, quando convidou 1.500 pessoas pobres para almoçar. Alertando que a indiferença com os pobres é um grande pecado.

Os pobres e as minorias têm sido apontados como os alvos da retórica de conservadores, que  argumentam que o insolúvel problema da pobreza é que “aquelas pessoas” não levantam cedo para trabalhar duro, “aquelas pessoas” têm muito filhos, “aquelas pessoas” ficam sentadas bebendo, esperando os auxílios emergenciais.

Este tipo de discurso visa principalmente reprimir os trabalhadores para que não nutram qualquer simpatia pelos pobres e também para incutir no trabalhador o medo de cair na pobreza, o risco de ter que depender dos benefícios governamentais e serem também tratados como seres insignificantes. Esse discurso encolhe o pobre, rouba-lhe a cidadania, os direitos e a esperança.

Duas crianças Yanomami morreram afogadas em Roraima, semana passada, suspeitas recaem sobre os danos irreparáveis causados no rio pelo uso sistemático de grandes máquinas nas áreas de garimpo, onde os invasores se instalam. As dragas podem ter sugado as crianças, que sabiam nadar, mas estavam no momento, próximas de dragas flutuantes, que igualmente rasgam o fundo dos rios, sugando terra a procura de ouro e outros minérios.

Foi uma tragédia anunciada. Um detalhado documentário (mais um) foi elaborado com título sugestivo aos problemas da região: “Cicatrizes na Floresta: Evolução do garimpo ilegal na TI Yanomami em 2020”, traz dados sobre a evolução da degradação florestal causada pelo garimpo ilegal, sobretudo nos anos recentes. O documento traz denúncias, aponta com fotos os locais onde as dragas estão instaladas. É um grito de socorro da Terra Indígena Yanomami. Mas providência nenhuma foi tomada. E o que temos visto é a intensificação da exploração clandestina do ouro, que coincide com  a fragilização das políticas de proteção territorial das Terras Indígenas, deixando-as vulneráveis à invasões.

São Paulo, a mega metrópole do país produz riqueza, mas também produz e ignora seus pobres. Pessoas em situação de rua comem porque entre eles, caminhando pelas ruas e becos há 35 anos, está Padre Júlio Lancelotti. O padre que crê que a mudança só virá com a humanização das pessoas, não apenas com a religião. Mas a justiça do estado, como insituição, não se humanizou,  negou a liberdade a uma mãe que roubou alguns itens de comida porque os filhos passam fome.

O defensor público tentou, alegou a aplicação do “princípio da insignificância”, diante do valor dos produtos furtados. Autoridades paulistas seguiram impassíveis e indiferentes. O caso foi ao STJ, o ministro que relatou o habeas corpus impetrado pela Defensoria Pública de São Paulo, revogou a prisão da mulher, com base em entendimento divulgado em 2004 pelo STF (Supremo Tribunal Federal) conhecido como “princípio da insignificância”. A norma orienta juízes a desconsiderar casos em que o valor do furto é irrelevante ao ponto de não causar prejuízo.

Citei apenas dois casos e explorei a palavra “insignificância” em dois aspectos: são tratados como insignificantes, os pobres e as minorias e insignificante foi o valor dos alimentos furtados em São Paulo. Mas todas as semanas há vários relatos de casos em que pobres e minorias são ignorado pela população e pelos poderes constituídos. Resta a inspiração de que em toda parte haja um ser que os acolhem, ouvem, alimentam e os defendem. 

Como disse Padre Júlio: “Se nesse mundo excludente você não tiver uma dose de rebeldia é porque se adaptou a este modelo”. Não nos adaptemos!