Como é ser negro no Brasil

Eu tive a sorte de ser negro em pelo menos quatro continentes e em cada um desses é diferente ser negro e; é diferente ser negro no Brasil. Evidente que a história de cada um de nós tem a ver com a maneira como cada um de nós agimos como indivíduo, mas a maneira como a sociedade se organiza dá as condições objetivas para que a situação possa ser tratada analiticamente permitindo o consequente, um posterior tratamento político. Porque a política para ser eficaz depende de uma atividade acadêmica… acadêmica eficaz! A política funciona assim! A questão negra não escapa a essa condição. Ela é complicada porque os negros sempre foram tratados de forma muito ambígua. Essa ambiguidade da-se pelo fato de que o brasileiro tem enorme dificuldade de exprimir o que ele realmente pensa da questão.

O professor Florestan Fernandes e o professor Otavio Ianni, escreveram ambos que os Brasileiros, de um modo geral, não têm vergonha de ser racista, mas têm vergonha de se dizer que são racistas. E acho que isso é algo permanente das relações inter-étnicas no Brasil e que traz uma dificuldade de aproximação da questão e da análise, inclusive dos próprios negros, que podem se deixar possuir por uma forma de reação puramente emocional diante da questão, dentro do problema, quando é necessário buscar, analisar, a condição do negro dentro da formação social brasileira. Porque a política não se faz no mundo, não é no mundo que dita as regras da política que se faz em cada país. E não é o outro continente. Não é o olhar para a África que vai ajudar na produção de uma política brasileira para o negro, nem um olhar para os Estados Unidos que vai também permitir essa produção de uma política. É o estudo do negro dentro da sociedade brasileira. É evidente que esse estudo passa pela categoria que se chama “formação socioeconômica”, a qual eu modifiquei propondo a categoria de “formação socioespacial”, porque eu creio que o território tem um papel muito grande na compreensão do que é uma nação.

A formação socioeconômica tem relações com todo o mundo. É evidente que o porte africano no Brasil vai ter um papel na compreensão com o que se passa no Brasil, como o aporte europeu e hoje o aporte estadunidense. Mas isso resulta numa produção que se chama “o Brasil”. É nele que eu quero estar como brasileiro integral! É nele que devemos estar, todos, independente da nossas origens étnicas, como brasileiros integrais, sem servos olhados vesgamente em função de nossa, repito, origem étnica. Por conseguinte esse tipo de aproximação que eu privilegio naquilo que eu faço, e faço pouco porque não sou um especialista da questão negra. Eu sou apenas um negro a mais no Brasil que tem uma experiência de ser negro, mas que não sou especialista da questão negra.

O meu trabalho, como todo mundo sabe, é outro, eu me especializei em outra coisa, é a minha história, mas não sou indiferente a essa questão, longe disto. Creio que as contribuições teóricas que por ventura tenha elaborado para o entendimento da sociedade possa ser de alguma valia no tratamento da questão do negro no Brasil; que não será resolvido se os negros forem sozinhos na luta. A luta dos negros só pode ter eficácia se envolver todos os brasileiros, inclusive os negros, mas não só os negros. Não cabe aos negros, aliás, fazer essa luta.

Essa luta tem que ser feita sobretudo por todos. Creio que essa etapa seguinte, a de reclamar para que todos participem; e não só em um dia ou uma semana. Eu não tenho simpatia por treze de maio e nem semana do mês de novembro, porque tenho uma enorme dificuldade em aceitar que o país celebre uma semana, celebre um dia e os resto dos 357 dias se descuide da questão. Eu creio que é importante que haja esses dias no sentido de mobilização. Só que a mobilização não é obrigatoriamente aquilo que produz a consciência.

Com frequência a mobilização cria um elã emocional e o que permite uma luta continuada é a produção da consciência que não pode ser, digamos, obtida em um dia, treze de maio, uma semana, semana da consciência negra, por que não é questão de consciência negra, é questão de consciência nacional; o negro sabe perfeitamente a sua situação. É por isso que eu me recuso a vir em reuniões como essa, ou quando me convidam na imprensa ou na televisão, a ficar choramingando, “ah nós somos assim, somos acolá, nós estamos em baixo”. Todo mundo sabe disso, então vamos usar o tempo para outro tipo de preocupação.

Inclusive como estava dizendo a um colega da Bahia, da gloriosa universidade da Bahia, onde eu fui aluno, o que para mim é uma grande satisfação intelectual e moral, que a questão passa por aí, da questão do negro brasileiro, porque assim que me intitulo, eu sou um negro brasileiro, não quero ser outra coisa se não um negro brasileiro, mas quero ser um brasileiro integral. A luta que tem que ser feita passa por criar uma consciência nacional e não, digamos, nos limitarmos a uma produção de uma consciência negra, porque os negros já estão cansados de saber qual é sua condição na sociedade. Para isso é necessário preparar outro discurso.

Eu estou muito mal satisfeito com a maior parte dos discursos dos movimentos negros porque são repetitivos e são pobres e não são mobilizadores realmente, exceto para choramingas. De que adianta continuar dizendo que os negros ganham menos no mercado de trabalho? Muito pouco! Todo mundo já sabe disso. Com pequenas variações é a mesma coisa sempre. De que adianta sair dizendo que há um preconceito aberto ou larvar? Todo mundo sabe disse, inclusive aqueles que comentam sabem que estão sendo preconceituosos; muitos não sabem. Ai entra o papel de outro discurso, que é o discurso da conscientização a partir de novas palavras de ordem. Por exemplo, peço desculpa por falar de mim mesmo, mas quando nessa entrevista que tive o prazer de dá ao Roberto D’Avila que me perguntou a respeito do ressentimento dos negros em relação a sociedade branca, eu disse, não, ao contrário, são os brancos que têm o ressentimento com relação os negros que conseguem ascender socialmente, que já era um ensaio de produzir um outro discurso. Eu não vou aceitar discutir que os negro tem ressentimento por uma maneira muito simples: porque o nosso ressentimento, se existe, ele não é eficaz, ele não tem poder. O ressentimento que tem eficácia é do que tem poder. Então quando eu falo que é o branco que tem ressentimento, e tem, em relação ao negro que triunfa, não digo o branco em geral, mas um bonito grupo de pessoas brancas . É para exatamente reverter o discurso. É um exemplo de, como creio, que haveria que trabalhar nessa coisa do discurso que acho muito importante, inclusive para a recriação daquilo que repetem com muita frequência, a questão da autoestima. A autoestima pode ser parcialmente enfrentada a partir de outro discurso também. É isso, por isso, que não perdoo o governo federal, e aos governos estaduais, que não põem recursos jornalísticos à disposição da produção do discurso da autoestima, o que não custaria muito, mas que tem que ver com as condições de nosso tempo, que tem que ser analisada e se propor outra coisa.

(Milton Santos)

 

Paciência com a política

Para cultivar paciência é preciso que haja algo que nos tire do sério. E o que, em tese, não falta em nosso dias são pessoas que criam problemas e assuntos que nos aborrecem.

Infelizmente, não somos, nem tampouco vivemos cercados por pessoas gentis e amorosas que conseguem ser adversários em ideias e modo de vida dentro dos limites éticos e civilizados. Na maioria das vezes, as pessoas opinam e retrucam simplesmente por falar. Elas realmente não têm nada de importante a dizer, mas têm medo do ostracismo e do silêncio.

Falar sobre política tem sido sim, um risco sério de envolvimento em situações mal interpretadas, patrulhamento, exposições maldosas e, sobretudo, cobranças, mesmo quando a questão não é colocada no sentido de estar à favor ou contra por razões partidárias ou ideológicas.

Nem as críticas pontuais são bem recebidas. Porém, é exatamente esta rigidez que nos desafia a ter paciência, superar o diletantismo e exprimir as indagações sobre os rumos que perseguimos.

No jogo democrático, para construir a unidade do Estado que queremos, é preciso esgotar a reflexão, a argumentação; valer-se da experiência, da inteligência e do traquejo para envolver-se nos diálogos quase sempre ásperos que rolam por ai.

O momento é de eleições, a pauta é conduzida mais especificamente pelos políticos, porém o protagonismo é do cidadão, que até mesmo sentado no banco de reservas, tenta escalar o time que sonha colocar em campo.

Novos grupos políticos oxigenam o processo eleitoral, contribuem para uma reação orgânica, convocação e inclusão de novos atores. Assim, o eleitor ganha a oportunidade de conferir a solidez do projeto em curso no Estado.

Ser genuinamente adulto e responsável nas relações políticas é saber conter o impulso de verbalizar impropérios quando somos contrariados. Se o discurso de um não agrada, tente ouvir outro e afastar-se dos discursos abusivos, divisores e recheados de fofocas e inverdades.

As intervenções contraproducentes podem até nos conduzir a uma direção oposta à que estamos tentando caminhar porque o discurso de ódio leva as pessoas a lutarem entre si e, definitivamente, não acrescenta nada no sentido de formular um pensamento político de valor.

Dá certa ânsia perceber o processo político destituído de relevância, sem nenhum plano de reestruturação dos partidos. Entretanto, mesmo frente a tantos desafios, a verdade sobre a política não se traduz numa verdade desagradável e negativa. Como todo processo heterogêneo e dinâmico, as coisas harmonizam e desarmonizam e não precisam ser reforçadas com discursos impacientes e intempestivos.

O interesse pela política cresce, a fé diminui

Considero o voto nulo um ato muito extremo. Porém, infelizmente vários indicadores mostram que os eleitores não estão em conformidade com os candidatos, menos ainda com os partidos.

É difícil de prever, mas, segundo analistas, não será surpresa se tivermos o maior índice de votos brancos e nulos desde a volta das eleições diretas no país. Segundo uma sondagem do Datafolha, feita no final de janeiro, um de cada três brasileiros pretende anular o voto para presidente nas próximas eleições.

Em seu discurso de despedida, Barack Obama disse que foi nas ruas que ele presenciou o poder da fé e a dignidade silenciosa dos trabalhadores, que ele aprendeu que a mudança só acontece quando as pessoas comuns se envolvem, se engajam e se reúnem para exigí-la.

Em tempos de dificuldades, quando o país parece desmanchar-se à nossa frente devido a fraqueza política, as coligações fragmentadas, eleitores divididos e mídia tendenciosa, é que precisamos nos envolver efetivamente no processo eleitoral e votar com responsabilidade. Senão, essas deficiências serão exploradas por candidatos fortes, carismáticos e interesseiros.

Os eleitores estão pressionados. As pesquisas, mesmo refletindo a verdade, são canos condutores para levar o eleitor ao resultado que pretendem impor: ao desânimo e a falta de fé. Mas há algo de estranho sobre esse momento em que o interesse na política cresce nas mídias enquanto a fé na política diminui.

As redes sociais invadiram a vida das pessoas, dominaram os conteúdos políticos, fazendo circular matérias verdadeiras e falsas. E queiramos ou não, todos nós nos tornamos produtores dos conteúdos que alimentam as redes sociais.

Tocqueville, quando escreveu sobre a liberdade e a igualdade, revelou-se temeroso quanto a tirania que a maioria poderia exercer sobre as minorias, o que acarretaria no desenvolvimento de uma sociedade intolerante que definiria os hábitos e valores de tal forma personificados, que excomungaria as manifestações que escapariam do que essa maioria estabelece como a verdade dos fatos.

Reconhece essa tirania em algum momento quando se expõe um pouco mais nas redes sociais? Mas, vejamos por outro lado. Está mais fácil fazer-se ouvido, tornar uma voz que pode influenciar o voto.

Se usadas com honestidade, as mídias sociais podem ajudar a virar o jogo e evitar que nos conformemos em votar em eventuais bombeiros. A imprensa livre tem um papel extremamente forte nesse processo, partindo da forma como divulga os escândalos, como acompanha os projetos públicos em andamento nas casas legislativas, como coloca-se contra à corrupção, sem contudo, criminalizar a atividade política e os políticos.

Fora da política? Não.

Na história política recente do Brasil muitos empresários destacados conseguiram trocar, porque é impossível conciliar, a direção dos negócios por cargos eletivos importantes, embora seja mais comum ver políticos ampliando o poder e tornando-se empresários poderosos.

Certo é que Blairo estimulou muitos empresários de Mato Grosso a entrar na política, embora os interesses dos empresários e dos políticos nem sempre sejam coincidentes.

O discurso foi sendo ajustado ao longo dos anos, à atenção focada no exercício da política como governador, senador e ministro e um espaço temporal de 16 anos não pode ser chamado de aventura.

Econômico nas palavras, gestos e dinheiro, passou mais de 7 anos almoçando no próprio palácio para otimizar tempo e dinheiro. Manteve programas do governo anterior, inovou com as parcerias para construir estradas, com a criação dos núcleos sistêmicos, com as visitas regulares aos municípios do interior e instalação de gabinete itinerante desde o Parque Indígena do Xingu até Vila Bela.

Dizem que deu atenção exagerada ao agronegócio. Pode ter dado, porque essa além de ser uma atividade que ele domina, é a vocação do Estado, a maior fonte de renda desde muito antes de ser governador.

Como ministro recuperou os valores das exportações brasileiras e, atuando firmemente, conseguiu estabilizar os efeitos aparentemente devastadores da Operação Carne Fraca. Recuperou mercados afetados e abriu novos após derrubar as medidas restritivas impostas pelos mercados internacionais.

Dizem também que ainda hoje falta-lhe certa sensibilidade e que o discurso absurdamente direto muitas vezes causa desconforto ao interlocutor. Isso porém prova que o poder não lhe alterou muito o discurso nem o modo de ser.

Sem teatralidade, vem dando sinais que precisa de um tempo para si, para a família e para as empresas e eis que formaliza o que tinha dito com toda a intenção: não disputar as eleições de 2018.
Fora da política? Não.

Como um dos maiores empresários do país não pode estar fora do cenário político, nem mesmo depois que entregar o cargo de ministro. Muitas mudanças devem acontecer pré e pós eleição; combinações, articulações, composições e os espaços vazios vão sendo ocupados nas esferas estaduais e nacionais.

A vaga de senador que aparentemente já lhe pertencia está devolvida ao Estado e uma meia dúzia de postulantes vão tentar se viabilizar para postulá-la. Todas as outras esferas da disputa das eleições no Estado, sofrerão revés, serão abastecidas com uma nova ordem de configuração devido ao tamanho do espaço que Blairo ocupa na política de Mato Grosso.

A fila anda e muitos cidadãos que marchavam anos atrás reclamando das políticas do governo, compondo movimentos sociais, estão agora engrossando as fileiras de candidatos. Espaço político não se mantém vazio.

Um sai, outro ocupa e um novo momento político com Blairo pode até acontecer, mas será um momento novo, uma composição política nova. O modelo político sucateado que ai está não agrada a muitos, poucos porém podem dar-se ao luxo de dizer: por ora chega!

O Brasil não é ilha da fantasia

Que susto foi esse que levou a mídia e a sociedade, em grande parte, diante da politização do carnaval de 2018 e do enredo de algumas escolas de samba do Rio de Janeiro e a entrada em cena de novos protagonistas?

Não foram apropriações culturais desgarradas, vagando em cenários indiferentes. Essas doutrinas sem lastros do politicamente correto e patrulhamento excessivo ameaçam a diversão do povo.

Sim, a maioria absoluta sai para se divertir durante o carnaval e se o enredo do samba agrega algum valor político ou ético, ótimo! Senão, samba-se do mesmo jeito! No caso do Rio de Janeiro o desfile é um campeonato, é preciso jogar para ganhar!

Mas claro, que no contexto macro da grande festa popular que é o carnaval, é importante retratar os cenários de exclusão, repressão, o preconceito e a ineficiência do Poder Público. Por que alguns se aborrecem e travam batalhas ideológicas com inimigos políticos? Para que desqualificar os compositores de samba, os carnavalescos? Maus elementos e gente honrada existe em toda comunidade.

É muito mimimi! Queriam que o Brasil fosse retratado falsamente como uma ilha da fantasia e prosperidade?

No ano de 2018, não há como não fazer críticas sociais, como não falar do papel da migração estrangeira, do papel gigante do Estado, da criminalidade organizada, que em parte banca até escolas de samba.

Não há mais eficiência o bastante para esconder a face real do nosso país e não será apenas o carnaval, que sistematicamente reproduzirá críticas, citando os filhos abandonados pela Pátria, policiais assassinados, a mídia manipuladora, a farra dos guardanapos de Sérgio Cabral e esposa. Na contramão do denuncismo, uma rainha de bateria trocou as plumas por uma fantasia feita de cacos de vidros. Você bateu palmas para este ato ecologicamente correto?

A perplexidade e falso moralismo não cabem no momento em que nossos olhares devem estar atentos a toda forma de narrativa que apresente o retrato da nossa sociedade, seja romances, filmes ou expressões populares.

Uma artista se fantasiou de índia e bastou para explodir sobre ela críticas ácidas, até que uma liderança indígena veio a público defender a liberdade de qualquer pessoa fantasiar-se e desta forma, divulgar e homenagear os povos indígenas.

A Amazônia já foi mostrada como um mito de natureza exuberante e tempos depois denunciaram o desmatamentos de áreas gigantescas e massacres de povos indígenas.

Em linhas gerais, a exposição ajuda a construir um diagnóstico da noção de realidade nacional e se remete alguns a promover questionamentos quanto às mazelas exibidas, aplausos!

Porém, sabemos que a realidade é muito mais complexa e nenhum pouco mais bonita do que o que foi mostrado na avenida e que muitas verdades ainda são desconfortáveis para os privilegiados.

Enfim, deixa que falem, que verbalizem, que fantasiem-se do que quiserem. O carnaval sempre foi uma festa associada ao excesso e transgressão e passado os 4 dias, a rotina volta a vida de todos, independentemente das expectativas que criaram.

Se não agora, quando?

Embora seja mais fácil e até uma prática seguir o caminho da menor resistência, nem sempre é o que interessa. Sigo lendo e participando de discussões políticas, sem temer o Estado como máquina que instrumentaliza a distribuição do medo, mas ansiando como todo brasileiro pela oportunidade de usar meu voto como meu grito por um país melhor.

Não é preciso uma inteligência extraordinária para ler, ver e entender que o Estado precisa de reformas e não basta reformar o que é direito do pobre, do assalariado pequeno e deixar intactas as vantagens do alto funcionalismo e empresariado.

O debate político não está extemporâneo, aliás, é um debate que não deve ser interrompido em tempo algum, pois é um instrumento contundente para sacudir a paralisia institucional da curta e engessada campanha eleitoral.

Os diagnósticos e prognósticos são refeitos todos os dias, a realidade de um grupo se desfaz e soma-se à outro “da noite pro dia”. E não é que falta elementos para quem analisa, é que a coisa é dinâmica mesmo, as conversas travam ou evoluem com muita rapidez.

O governador Pedro Taques em nenhum momento foi candidato único. Houve sempre um e outro nome colocado na disputa; Antônio Joaquim, Carlos Fávaro, Wellington Fagundes, Mauro Mendes e Jayme Campos se estiveram posicionados e aguardando para entrar em campo.

E tem o Blairo, ora citado em projeto nacional, ora reeleição a senador; a verdade é que o pêndulo dele desestrutura qualquer candidatura construída em lado oposto.

Eu não vejo o movimento renovação dos deputados federais e estaduais com tanta clareza e facilidade como colocam alguns analistas e políticos. No ano de 2014, 11 novos deputados, cerca 48% integraram o Parlamento estadual frustrando uma estimativa divulgada de que a renovação se daria em torno de 70%. Índice absolutamente irreal para nossos padrões de relacionamentos à base do compadrio. Diante disso, o nível de renovação deve manter-se.

É uma pena que não tenha havido um movimento interpelador para trazer à esfera política novos ares, novos discursos e muitos atores novos, capazes de derrubar o confortável quórum de sustentação do Executivo.

O cenário nacional não vai descortinar-se para o que já não tenha sido discutido. Ciro Gomes e Bolsonaro estão com os nomes colocados há mais de 2 anos, Marina Silva e Alckmin vivem em permanente campanha, o ex-presidente Lula deve ficar fora e Luciano Huck está se exibindo no Caldeirão, enquanto FHC fala por ele. Já Meireles orbita em torno do poder desde 2003.

Não existe essa história de político não convencional envolvido no processo eleitoral. Os movimentos durante este período nem sempre são suaves. Política não é coisa para cidadãos que assustam-se com dificuldades, com ataques regulares.

Conflitos políticos e teorias de conspirações não desmoronam a ordem cívica e nem podem ser usados como sinais que a democracia falhou. São problemas menos graves do que os índices de violência contra as mulheres, do que a guerra civil que mata as crianças no Rio de Janeiro e hospitais sucateados mendigando repasses.

Lamentavelmente milhares de pessoas votam para cumprir a obrigação; os que vendem o voto ou votam por interesse tem um preço e depois de pagos, encerra-se o compromisso com o candidato.

E os que votam porque acreditam no político, porque querem mudanças, porque têm confiança e esperança? Milhares votam porque esperam que o sistema possa protegê-los com boas leis, com políticas públicas honestas e capazes de ação substantiva sobre a vida do homem e porque acreditam na decência das instituições públicas.

Sei que é terça-feira de carnaval. Mas se você não vem para o debate agora, vem quando?

Transições

A transição é como nascimento. Quando você começa a se sentir apertado e desconfortável, quando não há mais espaço no útero é hora de entrar no mundo grande.

Pode haver inquietação e incômodo. Mas as transições são mudanças que ocorrem naturalmente, e não apenas, no percurso de vida do homem. É o encerramento de um ciclo e entrada em outro como um fenômeno permanente e universal, mas que pode ser constituído dentro de práticas flexíveis e nem sempre temos que viajar muito longe para experimentar elementos novos no processo de transição.

A maioria dos eventos da vida são iniciados com o estresse da transição, por abandonar um estágio conhecido e talvez confortável para misturar sentimentos de excitação e medo ao iniciar um ciclo novo.

As transições são mudanças de status e processos transformadores, que podem se dar de forma confiável, afirmativa e discreta. O sociólogo Zygmunt Bauman, porém, vê a sociedade pós-moderna ser caracterizada por mudanças radicais, por uma constante derrubada de paradigmas e tradições desde a economia, cultura e ciclos de relacionamentos.

Para Bauman, vivemos um período de transição irregular, em que estamos perdendo apreço aos elementos estáveis, que nos garantem equilíbrio para passarmos por transformações e deslocamentos e, assim, a incerteza ocupa lugar cada vez mais central no modo de vida contemporâneo.

Alguns momentos de transição podem ser muito desconfortáveis, sobretudo se causados por perdas ou por diagnósticos inesperados. As escolhas e o ânimo podem ser irrevogavelmente alterados por algumas mudanças.

Mas aqui falamos da transição que dá seguimento a vida. A transição de pular para o momento seguinte e não ficar sapateando em cima da infelicidade conhecida por temer algo completamente desconhecido, que habita do outro lado da rotina. É preciso coragem para atravessar de um lugar para outro.

Em algum momento, a inevitabilidade do movimento de ir para a frente vai acontecer. Chega um ponto em que não há retorno e a transição para o próximo ponto tem que ser feita consciente que a absorção das mudanças não pode significar uma aceitação cega e sem critérios. Entender e seguir as transições da vida é não importar-se em regressar, uma vez ou outra, com uma derrota sobre os ombros.

Li um artigo escrito na década de 1960, que tentava conceituar a ligação entre estresse e as transições inevitáveis da vida. Embora os eventos estressantes atinjam todos os seres, as mulheres, idosos, membros de minorias e pessoas economicamente desfavorecidas experimentaram níveis mais elevados de estresse, dado as condições desiguais que encontravam quando precisavam demonstrar esforço na direção de um objetivo.

Deve continuar assim. Resta certo que o momento de se entrar na escola, por exemplo, antecipou-se, o momento do casamento retardou-se, o tempo de vida alongou-se.

Racismo de classe

O homem livre é o homem consciente de suas possibilidades e de seus limites em sua relação com os outros. Não é apenas pela superação da ignorância, mas também pelo agir pautado pelo zelo coletivo, que nos tornamos livres e responsáveis enquanto cidadãos.

A rigor não precisamos descer ao nível de sermos indiferentes à vida alheia, assim como não devemos nos apropriar da vida alheia no sentido do que é importante ou insignificante. Na justa medida devemos ser espectadores, imparciais quanto aos julgamentos e estimular que as diferenças e valores venham a prevalecer para nos tornar cada vez mais, seres singulares, com gosto e estilos de vida próprios, seja excêntrico, sofisticado, “farofeiro” ou moderado.

Nós somos capazes de nos alegrar com o que acontece com os outros, entretanto, estamos navegando na estreiteza da mente, que faz com que olhemos para todas as experiências a partir das nossas próprias. Estamos exercendo vigilância aterrorizadora nas vidas alheias, para expor e perpetuar nossas diferenças sociais e reafirmar nosso estilo de vida sobre o do outro.

Transferimos para as fotos a busca das confirmações que precisamos para partir para os atos deliberados de bisbilhotice nas digitais sociais, que foram deixadas nos destinos, nas roupas, comida, praias e hotéis por onde passaram nossos amigos e conhecidos.

Em que pese termos tantas questões prementes e profundas para discutir, no mundo descortinado pelas mídias sociais não há vestígios de preocupação nem satisfação de uns pela felicidade dos outros. O que há num plano minimamente civilizado, são comparações, comentários desmerecedores, julgamentos preconceituosos e uma pontinha de inveja e deboche e assim no exercício vulgar de rotular os chiques e os bregas, os grupos foram passando a foto de um político com a família e amigos, comentando “com tantos lugares para ir, viu onde foram passar as férias?”

É impressionante como somos denunciados, estigmatizados, categorizados e julgados pelo estilo de vida que exibimos. Isso fica mais evidenciado no período pós final de ano, onde dado aos excessos de bebidas, gastos e exposição das superficialidades, ouvimos e às vezes fazemos coro aos comentários sobre como as pessoas que ascendem social e economicamente, escolhem gastar seu dinheiro.

Se de um lado temos as escolhas consideradas mal inspiradas por uns, do outro confirma-se o racismo de classe, denotado na arrogância dos que pensam que tudo tem que estar no seu campo de interesse e só merecem ascender na vida quem tem planos para as frivolidades do mundo ilusório.

Quando vamos aprender a cuidar de nossas próprias vidas e parar de nos desestruturar dentro de papéis conflituosos que só servem para desviar o foco das ações centrais?

À sombra das árvores

O visual da sociedade, mesmo em eventos triviais, apresenta nuances intrinsecamente paradigmáticas e interpretativas. Compartilhando o mesmo assunto observa-se semblantes convictos, oposição, feição fatalista, resignada, indiferente. Essa pluralidade de expressões e feições quando sinceras são a essência da nossa humanidade.

Ao longo de um ano passamos por várias experiências alegres e dolorosas, em algum momento fomos rejeitados, nos isolamos, renascemos influentes e enfrentamos os fenômenos da vida cotidiana, sem que nossos destinos tenham sido alterados por forças invisíveis, sobrenaturais e incontroláveis.

Não é uma moda nova observar a vida acontecendo. É meu trabalho trazer o entendimento e interpretação aos episódios da vida, tais como o amor, a intimidade, música, política, consumo, ansiedade, violência, gênero, sexo, relacionamentos.

Georg Simmel, sociólogo alemão, foi uma espécie de precursor desse tipo de sociologia, que depois abandonou, e mais recentemente Zygmunt Bauman encampou o formato de conceber fatos da vida cotidiana como assunto central de seus estudos e tornou-se o guru da filosofia e sociologia que abordam as diversas formas de relações no fluxo e volatilidade da modernidade.

Na minha rua, curta, estreita e de mão única há sete barracas de cachorro quente e uma de churrasquinho, e é impressionante como a vida acontece de forma plena nesse ambiente a céu aberto. Casais namoram, crianças brincam, diálogos rudes, cenas de ciúmes, constrangimento, reconciliação, o beijo e a lua. Não é necessário distribuir questionário para saber o que pensam. Melhor sentar e olhar em volta cultivando a imaginação e buscando o dialógo.

Este final de semana os temas recorrentes foram a estação de ônibus climatizada inaugurada pelo prefeito Emanuel Pinheiro. Não falaram mal e querem uma igual nos bairros onde moram. Sobre a ministra do Trabalho que foi condenada a indenizar empregado em ação onde foi acusada do não pagamento de direito trabalhista, consideram uma vergonha mas dizem que no Brasil é assim mesmo, esse tipo de gente (políticos) não faz leis para cumprir.

Os frequentadores da praça voltam-se uns para os outros e se fecham em confidências enquanto comem. É fato que as aparências nos fornecem impressões sobre as pessoas, mas isso não implica expressar julgamentos, tampouco adentrar na extensão de seus infortúnios.

A atitude humana nos espaços coletivos é vulnerável ao modismo e a superficialidade, sem dúvida, mas é pulsante, indeterminada e espontânea. Em casa, o quadro pode mudar com a voz dos atores de jornais e novelas, no qual mistura-se a rotina e não impulsiona transformação alguma e, como observa Machado de Assis, é neste estado médio que é a condição vulgar da vida humana.