As pessoas são mais sensíveis à perspectiva de perder do que de ganhar

Difícil prever o que pode vir pela frente. Ano de eleições é complexo e interessante. O risco de perder o que se tem atormenta muito mais os políticos do que a excitação de ganhar de novo ou algo novo.

Como imaginar a vida sem pessoas batendo-lhe às portas, sem reuniões para participar, discursos, viagens, pedidos de empregos, de interferência, de usar a influência? Vês? Não é o poder que corrompe, mas o medo. O medo de perder o poder corrompe aquele que o exerce.

Fenômenos políticos são fascinantes e muitas vezes reveladores. Este ano porém, acho que todos os políticos estão aterrorizados pelo medo de perder as eleições. O medo de perder a eleição paralisa. Imagina desmantelar-se toda uma rede de relacionamentos, confiança, troca de favores, promessas e exposições! Sentir o olhar pesado do eleitor perguntando porque perdeu e devolver o olhar desafiador questionando se realmente votou.

Por mais que se desconfie, que se vigie o voto, não é possível tê-lo como certo. Voto é expectativa do cumprimento de uma promessa, uma confissão de dívida sem nota promissória assinada.

Não se enganem pensando que os escândalos envolvendo políticos não tenham deixado fantasmas assombrando uns e outros e, no quesito escândalo, nenhum partido, nenhuma instituição foi mais favorecida do que a outra e poucos homens transitam em público, livres de terem dedos apontados para si, como ocorreu com o Ministro Gilmar Mendes, meses atrás ao passear pelas ruas de Lisboa, Portugal, onde ele pretende morar.

Há quem viva com esse medo da humilhação pública. Isso ocorre porque os insultos tem sido revidados, embora às vezes divididos em campos partidários, onde as pessoas acham que devem humilhar cidadãos do lado contrário e nunca de seu próprio lado. Todavia é bom acompanhar o movimento dos corpos lânguidos em conluio no ano de eleição e por mais que pareça que os lados estão estabelecidos e os adversário dominados, atente-se para possíveis quebras de paradigmas e sintomas de avivamentos de traições.

Pode ser que o ano inicie sem debates vigorosos, sem articulações com musculatura suficiente para promover mudanças importantes; devemos continuar ignorando os partidos e votando nos indivíduos.

Nessa lógica, os políticos candidatos à reeleição já exercem força sobre os partidos, tem votos personalizados, são independentes e donos absolutos de suas campanhas. Mas por trás do entusiasmo, brota a natureza inevitável da desconfiança diante de desafios radicais e tempestades típicas das estações eleitorais.

Por ora, os confrontos políticos estão concentrados nos bastidores e somente quando os atores avançarem para o palco principal a especulação acabará. O que se segue é apenas o esforço para manter alimentada a fúria das mídias sociais.

Desconstrução

Diferentes de muitos não me preocupo apenas em construir meu ser, que foi acumulando saberes, crenças, descrenças, amor e desamor nas estradas da vida. Há muito em mim, que não foi agregado propositadamente, não me reconheço em muitas fases de andar e calar.

O que busco há certo tempo é livrar meu corpo e meu espírito de fardos, pessoais e sentimentais. Busco leveza. Uso para escrever nos jornais, as palavras que uso para falar comigo mesma. Se aconselho, sugiro, a intenção não é mostrar que sei e sim, mostrar a luz que enxergo quando a escuridão se faz mansa e latente.

Porque andar em linha reta, aceitar o peso de tudo que vivi, do que vivo e por certo, viverei não acrescenta a doçura que busco no viver. Estou deixando para trás o peso de tudo que não me faz sorrir mais, crer mais, sonhar mais. E assim tem sido, porque nem tudo que foi edificado no meu caminho leva-me ao lugar que almejo chegar. Houve o momento de juntar conhecimento, experiências e tralhas.

Livro-me agora do que excede à minha necessidade espiritual.

Descubra o que o Ano Novo reserva para você

Li um anúncio sobre a venda de um livro com as previsões de como será o ano de 2018 para pessoas de todos os signos, com dose generosa de bons acontecimentos, realizações de sonhos adormecidos, encontros inesperados. É forçoso acreditar que a leitura do destino esteja ali tão destacada no signo e destinada a pessoas distantes e distintas.

Acerca do futuro digo que as coisas acontecerão dentro dos limites do que escolhermos ou do que não pudermos evitar. Mas quem conhece o céu assegura que os alinhamentos dos astros interferem irremediavelmente nas nossas vidas e através de estudos de uma série de fatores é possível que os astrólogos ante vejam algumas possibilidades.

Um líder espiritual indiano diz que no plano sensível a vida pode ser uma combinação de destino e livre arbítrio. A chuva é o destino, molhar-se ou não, é sua escolha.

Previsível, a existência não é. Pense como seria a vida condicionada a levantar, deslocar para o trabalho, almoçar, trabalhar mais, assistir televisão, dormir, levantar… Nutrir a rotina pode ser confortável, mas logo os dias vão se esticar numa linha infinita atrás de nós, e a vida desprovida de significados é o anúncio que já não estamos mais vivendo.

Acontecimentos externos e alheios nos desviam de nossos caminhos, aproxima-nos de pessoas, tira-nos pessoas. A imprevisibilidade da vida faz curvas extraordinárias exatamente porque não precisamos exercer controle aborrecido sobre nosso destino na terra. Os problemas não são insuperáveis, ser feliz todos os dias não é tarefa realizável para o ser humano, mas o caráter importa e precisamos decidir que neste ano não aceitaremos a mentira, o fanatismo, o preconceito, a ignorância nem a mesquinhez.

No ano que passou recebemos e compartilhamos muitas mensagens com receita pronta ensinando tudo: como ter paz, meditar, reconciliar, viver com simplicidade, reconquistar a auto-estima. As mensagens de boas festas foram quase todas neste sentido: Shakespeare disse isso e aquilo, sobreviver, orar, amar e perdoar.
Ele não deve ter dito nada disso!

Mas sabe? Nem os astrólogos nem Shakespeare podem fazê-lo entrar em contato com sua verdadeira essência e torná-lo útil. Somente a generosidade ensina-nos a perder o medo de sermos bons e à medida que a nossa fé amadurece, podemos aprender a humildade e mudamos, reconhecendo claramente as fraquezas e virtudes nossas e dos outros.

O banal e o raro

É fato banal que a maior parte das riquezas estão concentradas nas mãos de uma minoria absurda e que a desigualdade produzida, embora de conhecimento de todos, seja escancarada apenas a cada divulgação de pesquisa e relatório sobre o tema; que ainda assim, os governos aprovam isenção e concedem benefícios indevidos às empresas dirigidas por empresários milionários.

É fato banal que a educação, um direito básico de toda criança, tenha sido sistematicamente negligenciada pelo Estado.

Não adianta a consciência de que o país precisa se envolver num esforço coletivo para avançar no combate à extrema pobreza, a violência, ao racismo se vamos seguindo o fluxo condenando em público, mas na prática, pouco ou quase nada fazemos para provocar diálogos sobre estes temas. Ainda há algo de desorientação no debate de questões sociais básicas.

É inegavelmente raro o aceno dos governantes no sentido de promover a reversão desses quadros, embora todos sabem que somente políticas públicas podem reverter a realidade social no âmbito das diversidades, das desigualdades e tensões e que a urgência é uma questão de sobrevivência.

Expressamos sentimento de terror diante da violência sem sentido. Mas em nosso Estado ainda existe e é praticado o crime de mando, a pistolagem, e somos apresentados a números fabulosos de índices de redução da criminalidade.

Raramente a violência bate à porta dos que detém o poder e em alguma medida quando isto acontece, a resposta é imediata.

É banal corremos riscos por situações que almejamos e que não se realizarão por que estão fora do contexto em que construímos nossas vidas e não raro, registramos o desequilíbrio e a frustração. O contraponto entre o que se quer e o que se pode ter é que todos estão sempre desafiados pelo que se desconhece, pelo insondável e inesperado.

É raro ficarmos presos em boas conversas, afastados dos ruídos, considerando os pensamentos e sentimentos das outras pessoas. Mesmo em conversas que parecem profundas provavelmente estamos vendo e experimentando apenas o que está na superfície.

Estamos perdendo o hábito do recolhimento, da oração, do silêncio, da música, da meditação, de fotografar a natureza com o olhar e salvar na memória os bons momentos. Porque são raros os lampejos de tempo que tiramos para nos reconciliar com nosso “eu” interior, buscarmos a cura e reacendermos a fé.

É precioso, porém raro, permanecer aberto e vulnerável. Pois raros são os homens que no curso dos tempos modernos se deixam capturar pela realidade complexa e surpreendente de viver em um mundo desencantado.

Interpretando o sociólogo brasileiro Octavio Ianni, raros são os homens que “almejam a vida sem carências, sem alienações, plural, múltipla, colorida, sonora, em movimento, como se estivesse nascendo novamente”.

Poder extraordinário

Ter um candidato não significa tomar alguém, como modelo. Não há como buscar em outro o reflexo do nosso caráter, das nossas relações, das circunstâncias, das durezas econômicas e sociais que vivemos.

Não deve haver ansiedade por trás da escolha do homem adequado em quem votar, até porque é necessário separar o homem dos rótulos que colam nele, com a finalidade de distorcer a imagem e saciar a sede de espetacularização da política, muitas vezes apresentada como teatro que para conquistar a audiência das massas se vale de episódios burlescos.

Estamos todos meio bravos, meio atentos, meio descontentes e não aceitamos mais condutas estranhas às nossas convenções e, ainda assim, estamos meio esperançosos e tentando enviar mensagens aos políticos expressando, embora sem exatidão, a raiva e a frustração diante do engessamento dos nossos sonhos, da frustração pelo distanciamento e falta de enfrentamentoquando se vota projetos e temas mais complexos e polêmicos.

Uma forma absolutamente informal, de se perceber em que nível está o pavio do cidadão está nos comentários escritos após entrevistas com políticos. Há rasgos enormes de descontentamento, sugestões e acusações, que precisam ser ouvidos e respondidos.

Neófitos em política podem desprezar os comentários, mas os que entendem e fazem política com apreço à opinião pública, passam os olhos nas mensagens subliminares ou explícitas ali escritas.

Penso que a pessoa que se importa em vir a público, embora às vezes usando nome fictício por temor, merece atenção porque deve sentir na pele a falta de proteção aos seus direitos e está buscando um meio de fazer sua mensagem chegar o mais longe possível, não é o caso de um mero expectador que adora polêmicas.

O que encontro no cidadão que participa da atividade política é a incorporação da insistência em não se tornar invisível, de elevara voz para cobrar benefícios sociais num sistema que sempre nos empurra para distante do centro do poder.

Ainda assim, insiste em ser ouvido, cobra explicações, mostra-se cioso de suas obrigações, sua condição social e de suas prerrogativas e que estas quando infringidas impulsionam-te a protestar e agir e intervir com razão, sem hipocrisia e indiferença.

Vinicius de Moraes escreveu que a maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo, e que não dá a quem pede o que ele pode dar de amor, de amizade e de socorro.

Algumas pessoas são reais, algumas são falsas

Causou certa perplexidade a investigação feita e divulgada pela rede inglesa BBC acerca da escandalosa quantidade de perfis falsos ativos nas redes sociais. Talvez a estranheza maior tenha vindo da confirmação que há empresas brasileiras especializadas no ato de espalhar um exército de perfis falsos para difundir ideias ou plantar notícias inverídicas sobre políticos brasileiros com a intenção de arrebanhar seguidores e manipular a mente destes.

Obviamente a plataforma das redes sociais, que vieram para democratizar o acesso à palavra é voltada para atender pessoas reais, usando identidades legítimas.

Existem grandes nomes em diversas áreas, pessoas inteligentes, inovadoras e respeitadas que compartilham democraticamente suas experiências de conteúdo legítimo e diversificado com amigos reais e virtuais.

Vivemos em uma era na qual tudo muda muito rapidamente e a internet nos deu linguagem e compreensão para os novos significados desse mundo veloz que entre outras coisas, nos possibilita resgatar o relacionamento com pessoas queridas que vivem distantes.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman disse que as redes sociais, colocando em parêntese o fato de oferecer serviços úteis e prazerosos, são armadilhas perigosas, sobretudo porque dão vozes a todo tipo de gente e não favorece o diálogo real porque muita gente usa-as para ampliar seus conhecimentos e não estão interessados em diversificar, em abrir a mente, mas ao contrário, atuam na superficialidade e se fecham em suas zonas de conforto.

Abaixo a censura! A saída é usar anticorpos para saber separar as pessoas e notícias falsas das verdadeiras. Porque pessoas dissimuladas há em toda parte, não é algo inerente ao mundo virtual, uma nacionalidade, raça, gênero ou etnia.

Seres falsos estão entre as famílias, no ambiente de trabalho, entre os “pseudos” amigos, enfim. Muitas pessoas que conhecemos na vida real são tão “fakes”que não podem trazer seus pensamentos à luz e dar-lhes vida. Em algum lugar da internet li que algumas pessoas são reais. Algumas pessoas são boas. Algumas pessoas são falsas e algumas pessoas são muito boas em ser falsas.

É comum presenciarmos insultos e faltas de respeito com quem se expressa no sentido contrário da manada nas redes sociais, porém o escritor italiano Umberto Eco, surpreendeu pela forma rude com que referiu-se às redes sociais ao receber um prêmio na Universidade de Turim, no ano de 2015.

Eco criticou “a disseminação da informação que dá direito à palavra a uma legião de imbecis e promove o idiota da aldeia a detentor da verdade”. Mas enfim, ideia do famoso escritor é apenas a ideia dele. E a crítica, descontextualizada talvez, mas absolutamente desconectada da realidade, soa pretensiosa, preconceituosa e sectária.

O mundo tanto real quanto virtual deve ser visto de forma particularizada, com detalhes, expondo as diferenças saudáveis e nunca de forma generalizada, porque o preconceito e a arrogância se manifestam nas generalizações.

Eu não existo sem você, você não existe sem mim

Há uma tendência relativamente nova de contemplar novos horizontes para se obter uma imagem mais realista da condição humana ou da nossa existência social, o que significa extrapolar os limites da interação e liberdade para mostrar que na vida nada é completamente determinado nem tampouco gratuito.

Essa abordagem sociológica crítica propõe que a análise dos eventos sociais, mesmo complexos, sejam feitos no nível mais real e óbvio do dia a dia, entre a banalidade e a frugalidade dos encontros e conversas que permeiam a rotina das pessoas.

Conceitua-se que nem sociedade nem indivíduos são entidades separadas, completas e autônomas. Então, eu não existo sem você, você não pode existir sem mim e do relacionamento bom ou ruim que temos extraímos ou evitamos os substratos que nos moldam.

Um paradigma que oferece nova perspectiva para o debate sobre como e, em que ambiente, ocorrem, são percebidos e registrados os fatos que narram a nossa existência, sem a crença arrogante que somos indivíduos de importância e qualidade excepcionais além de independentes.

A situação indissociável entre o homem e a sociedade foi compreendida pelo sociólogo alemão Norbert Elias, segundo o qual, para viver, cada pessoa é um elo na cadeia de interdependência que a liga a outras pessoas e, quanto maior é o intercâmbio entre as pessoas, mais estreitamente elas são ligadas e uma só pode sustentar sua existência, em conjunto com muitas outras.

Norbert Elias propõe compreender a formação dos indivíduos a partir da observação do lugar social que eles ocupam, de suas relações com as regras, com o constrangimento das pulsações e emoções que estão sujeitos.

Desde antes de nascer somos dependentes de uma rede de relações. Agora adultos, tentemos observar de quantas pessoas dependemos para realizar nossas ações diárias, pois é nessa incorporação de seres humanos na interação com outros seres humanos que acontece nossa formação, em todos os níveis.

Os elos, embora nem sempre visíveis, são construídos com a soma dos nossos relacionamentos; com quem conhecemos, com quem falamos, de quem nos tornamos amigos, com quem trabalhamos e com quem nos casamos.

Assim, o conceito de existência interdependente traz a mensagem de que o mundo social não é senão um campo cheio de encontros, contatos, interações, relacionamentos, vínculos sociais, laços de amor e de intimidade, de interesses e de cooperação, de concorrência ou consenso.

Enfim, a arte de lidar com pessoas nos molda a mentalidade e os traços e os laços vão sendo definidos no trabalho, na igreja, no supermercado, na manifestação política, no sofá onde nos sentamos para assistir televisão e, portanto, sempre inclui relacionamentos com outras pessoas, mesmo com aquelas que estão presentes apenas em pensamentos e com as quais travamos conversa interna e íntima.

Certo é que deixamos um pouco de nós e carregamos um pouco do outro nesse processo lindo de viver ultrapassando as barreiras do estabelecido para ampliar as teias das nossas interdependências.

A cor da sua pele não deve determinar seu futuro

Esta é uma semana em que muito se fala sobre as questões raciais, rendem homenagens aos negros mas é impressionante como o preconceito tem se mantido latente ao longo dos séculos.

Foi estabelecido a data de 20 de Novembro como dia nacional de Zumbi e Consciência Negra. A data é uma homenagem póstuma à Zumbi dos Palmares, líder do maior quilombo do Brasil Colonial, o quilombo dos Palmares, no Estado de Alagoas.

E, por muitos anos, Zumbi foi o comandante da resistência dos negros contra a escravidão. No Senado não deram relevância a figura de Zumbi e a data foi aprovada apenas para comemoração e não para entrar na relação de feriados nacionais.

Mato Grosso, desde o final do ano de 2002, através de uma lei de autoria das lideranças partidárias determina feriado em todos os municípios, talvez porque o Estado conhece bem a história de quilombos e quilombolas desde que Vila Bela da Santíssima Trindade foi a Capital do Estado e abrigou talvez o mais destacado dos quilombos; o do Quariterê, construído numa área escondida e longe da cidade; abrigava os escravos que fugiam das senzalas, subsistiam de plantações e era governado pela rainha Teresa de Benguela que exercia forte influência sobre negros e índigenas contra a escravidão.

O quilombo do Quariterê foi invadido num cerco militar, famílias foram assassinadas e os sobreviventes levados presos para serem torturados em Vila Bela. Teresa suicidou-se no caminho.

Vila Bela, uma cidade que visitei várias vezes, tem a maioria da população declarada negra, resistiu ao ostracismo quando a capital mudou-se para Cuiabá e marcou sua história na cultura das festas de origem africanas, como o chorado e congo, que atraem multidões para assistir os ritos dramáticos, os cantos lúgubres que homenageiam os santos católicos.

De Vila Bela ao complexo territorial de Mata Cavalo, em Nossa Senhora do Livramento, uma comunidade onde vivem desde o ano de 1800 cerca de 300 famílias descendentes de escravos. Os quilombolas vivem em eterna vigilância, pois são constantemente ameaçados por fazendeiros da região.

E agora, em outubro passado, a comunidade de Pequizeiro, dentro da região quilombola de Mata Cavalo foi invadida pela Polícia Federal para promover o despejo (que chamaram de ação de desocupação de área) em favor de ação movida por fazendeiros. As famílias arrancadas da área recorreram.

Houve manifestação significativa favorável à permanência dos quilombolas na área, porque afinal, Mata Cavalo é a casa de Seo Antônio Mulato, um senhor apaixonante de mais de 110 anos de idade, que adora contar “causos”. das brigas que empreendeu para que os filhos e outras crianças pudessem frequentar a escola.

Lugar exato onde conheci Seo Antonio Mulato no dia da inauguração da escola na comunidade, que homenageava a filha dele, a professora Tereza Conceição Arruda, falecida.

Campo para exercer o preconceito racial não deveria existir em Mato Grosso, um Estado onde 60% da população é negra e parda e Cuiabá é uma Capital com maioria da população também negra, mas trata esses filhos como o resto do país: os negros são os mais atingidos pelo desemprego, a quem são oferecidos os menores salários exatamente por ter escolaridade mais baixa que os brancos; quase todas as empregadas domésticas são negras, moram nas periferias onde a saúde pública, a educação e a segurança não chegam. É muito difícil ascender social e financeira nesse universo de desigualdades, fruto de políticas públicas tendenciosas, senão preconceituosas.

Todos querem ser candidatos

Mesmo no sistema político notadamente apodrecido, “todo mundo” quer ser candidato; em que pese as razões legítimas para muitos não confiarem na política; o fato é que as histórias geradas ou engrandecidas pela mídia nos últimos anos não esfriaram o frisson de tentar uma cadeira ou continuar a carreira política.

Seria o idealismo, ideologia, o fascínio pelo para exercer o poder de mando e influenciar pessoas ou porque querem mudar o mundo?

Ser candidato não é fácil desde a filiação partidária, porque a relação dos candidatos com os partidos é mais caracterizada pelo desinteresse (de ambas as partes) do que pelo acolhimento e abraço a determinadas candidaturas.

O começo deve ser sempre devagar e com cautela. Afobados, mesmo com patrimônio financeiro considerável e espólio político interessante são esmagados pelo sistema, pelo jogo de bastidor comandado pelos caciques que puxam o protagonismo político para si. Um exemplo clássico? Dória.

Não diria que o país perde grande coisa com o enfraquecimento da campanha de Dória, mas o partido perde uma grande oportunidade de abertura de atrair um público novo, de refrescar as discussões políticas. Mas quem quer inovação?

Creia-me, a maioria dos políticos não são tipos comuns. São homens de lideranças concentradas nos seus redutos, não gostam de vida sossegada, não abrem mão da continuidade, do conforto dos gabinetes, do staff generoso que só fala o que o chefe quer ouvir.

Tentar mostrar os políticos e os possíveis candidatos como pessoas comuns serve apenas para diminuir o fosso que separa o povo da política, para diminuir certo ressentimento. Tipos comuns não acabam na liderança de movimento algum. Por outro lado, tipos comuns não tem a privacidade invadida nem tem seus gestos, declarações, roupas e interações examinados por um microscópio julgador nem são dominados pelo clima tenso de opinião sobre seus projetos.

Há quem queira ser político porque quer acabar com “essa história”de usar o dinheiro da classe média para implantar programas para beneficiar os pobres,(ignoram que isso chama-se programa de inclusão social); há quem queira ser político porque é possível reconstruir uma nova “direita”no país, com segurança baseada no “tu me matas ou te mato” e queimando em praça pública bruxas que falam em igualdade de gênero.

Há quem queira ser candidato porque a saúde está um caos, como se fosse possível analisar a saúde desconectada da transversalidade que a envolve, sobretudo, a educação e economia. Enfim, há muitos que querem se submeter a votação no ano de 2018 mas não tem discurso para enfrentar uma multidão de no mínimo 20 mil pessoas.

Tudo se articula no discurso do mundo político, onde os recursos públicos embora pareçam inesgotáveis, não o são. Aqui, a votação da PEC dos teto dos gastos (Projeto de Emenda Constitucional) que já recebeu mais de 40 emendas parlamentares, depende da aprovação em segunda votação para entrar em vigor. Brasília aprovou a Reforma Trabalhista, que desde o dia seguinte enfrenta contestação na justiça. Esse mundo que você quer salvar é feito de desigualdades; falta moradia; pessoas ficam semanas em cadeiras de fio no corredor do pronto-socorro esperando que um médico de alma caridosa o escolha para salvar; a educação não é acessível a todos e o desenvolvimento humano é tragicamente afetado pelas diversas crises econômicas e políticas que atravessamos.

Não vai acontecer, nem agora nem no curto prazo nenhuma refundação da Republica brasileira, mas seria bom, para começar, discutir o respeito ao contraditório e tentar conter o discurso de ódio, porque senão como os homens públicos irão a público defender suas propostas?

A tensa separação dos poderes

São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. É o que consagra a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 2º, tratando da separação de Poderes no estado brasileiro.

Porém, não é de hoje que as disputas entre os Poderes, sobretudo a flexibilização da fronteira entre a política e o Judiciário, afetam o equilíbrio das relações institucionais.

Logo após a independência do Brasil, foi adotada a separação dos quatro Poderes que existiam: Legislativo, Executivo, Judiciário e o poder moderador, exercido pelo imperador,  que tinha autonomia para interferir nos outros três.

Com a proclamação da República em 1889, extinguiu-se o poder moderador e a autonomia dos Poderes foi violada até a constituição de 1988, que definiu de forma clara as prerrogativas de cada um com respeito às suas atribuições e o exercício estrito às suas funções.

Apesar de toda clareza do texto constitucional, são várias as passagens que autorizam o exercício de uma função por um poder que, em regra, seria de outro, sem que, com isso, se caracterize usurpação de competência de um poder por outro, o que explicita que a independência não é lá tão absoluta assim.

Pode ser a contemporânea flexibilização dos costumes, novas formas de relacionamento e até a ampliação das atividades políticas e as devidas implicações legais; a verdade é que não há mais uma rigidez na separação efetiva de Poderes.

O Legislativo chiou, encorpou e ganhou a queda-de-braço. Peitou o SFT, alegando que o mesmo não tem prerrogativa para afastar parlamentares do mandato, porque isso feriria exatamente o princípio de autonomia dos poderes.

Agora o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros Jayme de Oliveira entende que a real violação da independência dos Poderes está no fato de o Legislativo estar expedindo alvará de soltura, o que segundo ele afronta integralmente o Judiciário.

Há quem advogue, por exemplo, o ministro Barroso, que o Supremo Tribunal Federal tem desempenhado um papel ativo na vida institucional brasileira e que certa interferência é salutar para evitar desmandos por parte de um poder em relação ao outro.

Reconhecidamente antagônicos, o ministro Gilmar Mendes usou um termo coloquial para se expressar sobre o ativismo Judiciário. Disse que essas interferências estão transformando isso aqui (o Brasil) numa terra sem dono, com investigações criminais para tudo quanto é lado e o STF acaba, em muitos casos, jogando (e julgando) para agradar a opinião pública.

Eu, leiga, aqui escrevo levando em conta as provocações que tenho lido, a reação, quase sempre destemperada de todas as partes quando reclamam. Diante das animosidades, o que não se pode perder é o respeito recíproco, nem permitir que a prepotência se sobreponha à ética do diálogo.