Tudo nos diz respeito

Somos hóspedes de uma passagem. E não devemos parar no meio de uma passagem. Precisamos, então, nos arriscar, educar para o enfrentamento, para perder o medo que se tem hoje, até das situações cotidianas, como atravessar as ruas, tomar um ônibus, medo de aceitar as falhas, de aceitar-se. Medo… de quase tudo.

Porém, a chave paradoxal para nossos acertos é admitir os erros de forma saudável e autêntica. Devemos ser seres com interrogação constante e fazer dos questionamentos e tentativas, o eixo das nossas existências, considerando as informações críticas que nos ajudam a aprender e adaptar-nos às novas experiências.

Em qualquer idade e tempo não há nada de errado quando vacilamos, quando ficamos abaixo das expectativas que muitos consideram realistas. Enfrentar momentos de decepção, preocupação sem varrer lixos emocionais para debaixo do tapete é como explorar as frustrações, tornando-as um exame de autoconhecimento, uma luta interna para aprender a correr riscos e preencher o vazio de identidade que acomete principalmente indivíduos jovens.

Seja qual for a vida escolhida, sempre há riscos envolvidos e é preciso coragem para se virar nesse mundo de códigos e regras, que tentam controlar seres instáveis, deslocados e muito ocupados, a maior parte do tempo. Banalidades e rotinas nos levam a parar de sonhar, a trafegar comodamente por vias confortáveis de mão única.

Entretanto, não é certo ficarmos alheios àquilo que diretamente nos diz respeito. E tudo nos diz respeito, da vida à morte, tudo afeta nossa essência flexível, instável, remanescente das incoerências de que somos todos dotados.

No mundo de incertezas temos que sair por aí, buscando resolver os problemas de um só golpe, e como não falhar se sequer sabemos se, por inércia ou intencionalmente, vamos empurrando para outras pessoas e contextos a causa e consequência das nossas inevitáveis frustrações.

A culpa, contudo, não é dos outros, mas pode ser uma somatória de tudo: rusgas do passado, traumas de infância, a sociedade que é má, a falta de oportunidade, de saúde ou educação. Não transfira os problemas. Escolha reconhecer os erros, não temer recomeços e ir em busca de novas perspectivas para a vida que está morna.

Se falhar, não perpetue no sofrimento e interrogue as questões mais controvertidas que podem ter causado frustração e mude. A coragem de mudar, assumir riscos é essencial em qualquer altura da vida. E não estamos falando de saltar de pára-quedas, e, sim, arriscar o que se sabe e o que se tem em troca de uma chance de reinventarmos nossas vidas.

Aceitar, enfim, que viver é ter que conviver com ideias contraproducentes, inábeis e erradas e que muitas vezes, diante da complexidade que é viver, é impossível não fracassar. Mas não desista de seus sonhos e que nunca lhe falte ousadia para arriscar!

2016 – O ano que desmantelou-se

Houve muitas forças nos dividindo em 2016, de pessoa para pessoa, de partido para partido, de grupo para grupo. Não se pôde gozar do direito à dúvida. Tivemos que ser contra ou a favor das ideias, estar com ou contra determinada pessoa ou grupo político.

De certa forma, essa é uma analogia apropriada para o desempenho decepcionante do ano de 2016, e não há receita do que é necessário fazer para combater a instabilidade financeira e o agravamento do mal-estar econômico e político que pode e deve irromper no ano de 2017.

Foi um ano ruim em todos os aspectos, considerando o desempenho local ou  global. Um período economicamente frustrante, de crescimento insuficiente e disperso, onde o governo brasileiro não conseguiu ajustar seus gastos e não sabe o que inventar para gerenciar a economia.

Isso combinado com o progresso insuficiente nas questões centrais das reformas estruturais prometidas aqui no Estado e no município também.

Enfim, as condições econômicas se mantiveram difíceis, e a política da revolta acabou acentuando-se por toda parte. A economia e a política tornaram-se cada vez mais interligadas em um ciclo problemático e ameaçador, que já dura mais do que as pessoas podem suportar, no sentido de viverem arrochados. A desigualdade nos mobiliza, os discursos controversos tentam esconder a disparidade gigante entre o que os poderosos dizem e a vida que as pessoas levam. 2016 foi um ano de desastre atrás de desastre, que levou-nos a experimentar e viver sob certa onda de imensa inquietação nacional e global e local.

Será que não há um caminho de equilíbrio entre o capitalismo e a solidariedade, o respeito pela força de trabalho e o compromisso com a educação, saúde e segurança para amenizar a fúria do que foi o ano de 2016?

A arrogância e a ignorância não combinam com esse quadro impressionante de desmantelamento. É hora de ser humilde, repensar, ouvir as pessoas, optar por mudanças, o que não significa sucumbir aos incitadores do quanto pior melhor, nem se deixar levar pelo modismo de menosprezar a verdade e esconder-se atrás das mídias para disseminar maldades e boatos. Não foi fácil habitar no universo on line em 2016. As coisas feitas e ditas se espalharam velozes e distantes antes que tivessem tempo de encobri-las ou nega-las.

Lá fora, embora seja muito cedo para julgar, provavelmente a possível aliança entre os presidentes Trump e Putin mudará inexoravelmente o cenário político internacional, fortalecendo homens de verborragia truculenta e ações igualmente temidas. Por certo, a impetuosidade de ambos respaldará a carnificina promovida pelo ditador Sirio Bashar al-Assad.

E como resistir ao nacionalismo global e o avanço desses líderes autoritários? É preciso fazê-lo, de uma forma ou de outra, utilizando os contrapesos inibidores do exagero: as ruas, a imprensa e os tribunais.

Tomara que eu tenha argumentos impecáveis e abundantes para defender o ano de 2017.

Reconciliação

A reconciliação é um processo de cura de relacionamentos que requer partilha de verdade, pedido de desculpas com o fim de reconhecer e reparar danos passados. A reconciliação requer uma ação construtiva também para abordar os legados em curso que tiveram impactos destrutivos sobre a educação, a cultura, investimentos na área de segurança e saúde, na administração da justiça e de oportunidades de prosperidade.

A reconciliação deve criar uma sociedade mais equitativa e inclusiva, fechando as lacunas nos resultados sociais que existem. Para algumas pessoas, reconciliação é o restabelecimento de um estado que já foi conciliatório e depende de vontade política, transparência e investimento considerável em diálogo para a reconstrução da confiança, que esvaiu-se.

Reconciliar não é esquecer as falcatruas, fraudes, caixa dois nas campanhas, os privilégios os atos secretos do Congresso Nacional e as ações corruptas da maioria de seus membros. Reconciliar não é tomar como verdade a santificação que a mídia promove de alguns ou a satanização de outros, não é ficar indiferente ao genocídio na longínqua cidade de Aleppo, não é esquecer os refugiados que morreram em suas travessias. Reconciliar é dar as mãos para resolver tudo isso, em que pese a dificuldade de conciliar os conflitos e as diferenças, numa sociedade moderna e individualista.

A racionalidade existe para sobrepor em força a emoção contida nas ideologias, mas há pouco…quase nenhum grau de confiança no momento em que abusos e erros políticos conduzem nossas vidas a um rumo temido e imprevisível. De alguma forma precisamos sentar e corajosamente falar sobre  a política pública que não chega na ponta, sobre as modalidades novas de violências, sobre porque a culpabilidade e a impunidade de muitos afetam a existência de todos nós.

A urgente expansão do diálogo público rumo a possibilidade de reconciliação nacional é fundamental para nossa sobrevida sã nos próximos anos.

A relação entre o governo e o povo está se deteriorando quando precisa avançar. Sem verdade, justiça e honestidade não pode haver uma verdadeira retomada da confiança, pois que, reconciliação não tem a ver com fechar um triste capítulo do passado mas, encontrar novos caminhos forjados na verdade e na justiça social para prosseguir. E quais são os bloqueios para a reconciliação?

Talvez seja nossa incapacidade, como cidadãos e dos governos em reconhecer o distanciamento e a ruptura do relacionamento. Mas tão importante quanto reconciliar é promover a cura do povo acometido pela descrença e desânimo diante das promessas vãs de dias melhores.

Não há nada melhor para uma socióloga cheia de sonhos, dizer algo que indica a existência de uma porta. Isso dá volume ao meu senso de propósito na missão pública que exerço, de analisar, vigiar e quando possível interferir nos acontecimentos sociais.

Não sugeriria, , nem por um minuto que as injustiças, as desigualdades e as exclusões que estão vivas na vida cotidiana devam ser relevadas; pelo contrário, sugiro que as pessoas se recusem a ser esmagadas por essas forças estranhas que vem patrolando nossos direitos e apresento a reconciliação porque ao lado das más razões, existem também boas razões para se acreditar no homem.

Somos platéia

O exemplo de obediência às leis deve vir da casa que as cria e da casa que as guarda. Se os ministros e políticos não tratam as lei com respeito, não esperem que o cidadão o faça.

Num dado momento da implementação do plano de saúde alternativo para os americanos, conhecido como Obamacare, o presidente Obama enfrentou dificuldades de aceitação do projeto por parte da Suprema Corte e contratou uma pesquisa para saber como os cidadãos reagiriam a uma suposta desobediência a uma recomendação da Suprema Corte. 26% dos entrevistados, uma minoria, claro, mas ainda assim um número significativo para os padrões americanos, disseram que o presidente deve ser capaz de desconsiderar as decisões da corte federal, sempre que uma intervenção negativa se der no caminho de ação que o presidente considera importante para o país. Como se vê, o descrédito na mais alta corte de justiça não é uma exclusividade do Brasil.

Mas e o resto de nós? Seria uma coisa ruim para o país se o povo começasse a fazer essa pergunta. Para as pessoas quererem obedecer à lei por razões que vão além de evitar a punição, várias coisas devem ocorrer. Em primeiro lugar, as pessoas devem acreditar que, em geral, as leis são justas. Em segundo lugar, elas devem sentir-se confiantes de que todos vão obedecer também. Exemplos são definidos no topo.

Seria muito melhor viver em uma sociedade em que as leis são justas, e que as pessoas as seguem por obrigação moral, mas tal sociedade requer um grau de autodisciplina e honestidade por parte de seus membros, e especialmente de seus líderes e nossa classe política não possui esses traços e quanto as consequências da prática de atos ilícitos, estas são sofridas por alguns, poucos.

A mais alta corte de justiça do país se dá o direito e isso tem sido recorrente, de bater boca, no mais vulgar modo de faze-lo e publicamente seus membros  se destratam, passando recibo de despreparados para exercer tal função. E os outros, por que não se reúnem, advertem e punem? Silenciaram-se. Mas vejamos; os ministros, alguns de saber culto, outros, segundo me relataram, de filosofia e teoria rasas, são cidadãos indicados pelos políticos, nomeados por presidentes eleitos pelo voto direto meu e seu. Homens e mulheres que assinam o termo de posse e esperam que a qualquer momento a fatura seja cobrada.

E onde está a culpa do cidadão que não é um dos iluminados do congresso nem da Corte e tampouco dirige uma grande empresa? Em tudo, desde o princípio! Não podemos lutar contra a corrupção, praticando atos ilegais, travando batalhas de egos e ganância pelo poder. Em vez de sermos transformados por leis ou governança, a verdadeira mudança tem acontecer dentro de nós. Devemos ser justos, vigiar e cobrar!

Distrações

Dias atrás eu escrevi: “Já é dezembro”, depois repreendi a mim mesma entendendo ser falha grave não haver percebido o passar do tempo. Onde andei tão distraída? O que ocupou-me de tal forma a mente, que segui os dias sem reparar-lhes? Nunca mais há de ser assim. Nunca mais hei de espantar-me com o passar do tempo, com a natural chegada de dezembro.

Por mais que a vida seja imprevisível, que o caos seja registrado em quase todas as partes, por mais que tenhamos sido remetidos a viver emoções variadas, em estados mentais extremamente desafiadores, o passar do tempo, porém, não pode ser furtivo, tampouco a mente pode estar tão absorta em devaneios ou realidades que prendem e cegam. Um dia após o outro, as velas precisam ser ajustadas, para que o barco siga em paz e não seja vitimado pelas inesperadas turbulências das águas.

Dezembro chega sob o medo ou tristeza, frustração, firmeza, quietude interior, almas restauradas, assim como sentimentos que vem e passam, instabilidade, impermanência.E não é hora de sentar-me confortável entre cânticos e decorações para inventariar perdas e ganhos. Um ano é um tempo tão longo para ser mensurado apenas por ações concretas. E o quanto sonhei? E o rosário que desfiei pela paz, pela liberdade, pela natureza, pela segurança, por melhor salário, pela saúde, pelo fim da corrupção, pela defesa dos valores que acredito?

Dezembro chega sem assombros. Traidores, infiéis, delatores, semi deuses, anjos, arcanjos também sobrevivem o passar do ano. Assim, como restos a pagar, passam de um ano para outro, sorrateiros, vaidosos, inflados por um ego implacável. De janeiro a dezembro fomos atraídos para debates intensos, onde tivemos que nos valer da liberdade de escolher, de criticar, omitir, esconder, votar e eleger.

Um ano onde a palavra democracia e liberdade foram exaustivamente usadas, manipuladas e até mal tratadas. Impeachment, governo novo, cassação, eleição roubaram nossas atenções, limitaram a percepção de que fomos vendados e arrastados por caminhos que bem conhecemos. Não há grandes novidades nesse e o cansaço toma conta de quem viveu o ano, mesmo não estando intensamente atenta ao passar dos dias.

O descuido e distração, pelos quais culpei-meinicialmente podem tersalvado-me de enveredar por atritos desnecessários, concessões indesejadas, para sanar minhas próprias necessidades.Se falei demais, devo ter falhado no ato de ouvir, mas não quis percorrer segura o caminho do meio. Levei em consideração muitas ideias contraproducentes, inacabadas, mas quis discernir o que aceito e o rejeito, em termos éticos.

O texto é sobre não deixar-se distrair por paixões ou emoções, não apegar-se a um viver carregado de rotina que atrapalha perceber o passar dos dias. Sim, chegou dezembro! Como todos, comprei coisas que não usei, culpei-me por não estar constantemente com amigos que verdadeiramente amo. Interrompi muito do meu viver, com imagens, mensagens, superficialidades. Esse tempo não recupero mais!

O círculo vicioso da violência

Dia 25 de Novembro, foi instituído o dia Internacional da Eliminação da Violência Contra a Mulher. Uma semana antes, a apresentadora da TV portuguesa Cristina Ferreira, lançou o livro “Sentir”, no qual revela ter sido assediada sexualmente em vários momentos de determinadas fases de sua carreira.

Não a conhecia, tampouco li o livro, mas assustei-me com os comentários que li logo abaixo da matéria sobre o lançamento do livro.

Muitos, inúmeros homens demonstraram ignorância e conduziram as palavras pelo caminho da brutalidade. Concluíam, sem nenhum constrangimento, que via de regra, as mulheres reclamam, mas gostam de sofrer assédios e que somente conseguem ascender profissionalmente, as que se sujeitam a dormir com seus chefes, em troca de favores e promoções.

Razão esta, segundo o comentário, que leva os rostinhos bonitinhos e atributos mais abaixo, serem altamente levados em conta na hora das contratações.

Alguns senhores, pude senti-los irritados, chegam a dizer que as mulheres já deveriam estar acostumadas e saber lidar com o assédio e aceitá-lo como parte natural do processo de ascensão profissional feminina. Outros, sem perder tempo argumentando diz que isso tudo é invenção da cabeça histérica das mulheres para irritar os homens.

Causa-me estremeção a mentalidade misógina que existe arraigada nas sociedades de quase todas as partes do mundo. Entendo que o tema não pode ser tratado com leveza. É inaceitável a tendência de desvalorização ou banalização do ato do assédio, dos olhares insinuantes e comentários jocosos dos chefes, de membros da família, dos falsos amigos, nas residências e nos espaços públicos.

Não, não acho que as mulheres tenham que ter jogo de cintura para sair dessas situações pelo simples fato de que elas (as situações constrangedoras) não deveriam acontecer. Não, não é somente na horizontal que as mulheres ascendem.

Circula nas redes sociais um vídeo, onde um jovem ucraniano parte para cima da namorada e durante alguns minutos desfecha-lhe golpes no rosto, na cabeça, chutes e não satisfeito, arrasta-a pelos cabelos até a entrada do elevador. O fato ocorreu recentemente, numa cidadezinha espanhola.

As autoridades locais perceberam que não havia registro policial desse espancamento e de posse das imagens gravadas por um circuito interno, foi atrás da história. A mulher temia sofrer mais violência e ser extraditada se denunciasse. O valentão está preso e sem direito ao pagamento de fiança.

O feminicídio, que é o assassinato de mulheres pelo fato de serem mulheres, ocorre muito no âmbito familiar, nas relações afetivas, e é uma violência que tem a estratégia de humilhar, desmoralizar o ser feminino e se estende por todas as culturas e localidades.

Os números do último relatório da ONU mostram que, numa proporção mundial, uma em cada três mulheres já foram vítimas de violência física ou sexual. As autoridades no tema, embora reconheçam que há muito por fazer no enfrentamento da dolorosa sequência de crimes, dizem que a violência contra a mulher não é um processo inevitável e pode ser prevenida com mais educação e punição exemplar.

O Ministério Público, em parceria com o governo, Assembleia e Tribunal de Contas lançou ontem o projeto “Homens que Agradam, Não Agridem”, destinado a fortalecer o enfrentamento à violência contra mulheres.

Juízes e ativistas

Vivendo e aprendendo. Aprendendo a ter mais zelo com as palavras, com julgamentos e emissão de valores. Aprendendo a ler e ignorar os pensamentos agressivamente tolos, sombrios e copiados descolados do contexto em que foram produzidos e colados na rapidez que caracteriza a apoteose das mídias sociais e não tão somente estas.

Parece que estamos relativizando os excessos, o fatalismo para demonstrar estreita relação com o ativismo.

Alguns pequenos textos postados ou comentários se assimilam à advertências ou esquemas elaborados em realidades distantes para atrair a atenção e não são convites para discutir com graça e ironia determinado tema.

Essa realidade, fundamentalmente, favorece as retóricas, as opiniões excessivamente otimistas ou pessimistas, mas não a profundidade dos temas. E do que falamos quando nos expomos, senão da vida densa com crenças e descrenças, histórias de tristezas e doenças, cura e resiliência? E do que falamos senão das aspirações, dos amores que perdemos e achamos, de suposições e reordenações de nossas prioridades?

Escrever, comentar e sublimar as qualidades pessoais, democráticas e multiétnicas não é tarefa fácil para quem o faz com honestidade, porque as vezes vacilamos entre um valor e outro e isso é natural pois que estamos num momento de embate excepcional contra a intolerância, preconceito, violência, pobreza…mesmo assim, o discurso de deliberada aceitação não é válido, se não trouxer junto um processo reflexivo de determinar qual é o serviço que posso oferecer para ajudar a reorganizar as prioridades dos outros também.

Entendo que precisamos pensar com muito cuidado sobre a forma como as teorias que vão parar nas mídias, são construídas. Em muitos momentos, nos ocorrem ideias ousadas, impactantes, porém o mais importante é saber quais as consequências que essa ideia produzirá na vida das pessoas. Falar por falar, para “causar”, para prolongar discurso inócuo, acho perda de tempo.

Afirmações reproduzidas como verdades politicamente corretas caem por terra a todo momento, tanto tratando-se de política quanto da vida cotidiana.

Os choques que levamos são necessários para alterar nossa compreensão do mundo e do nosso lugar nele. Olhamos em volta e nos vemos cercados por indivíduos de rostos diferentes, condições econômicas desiguais e como reagimos?

Somos realmente tão acolhedores e flexíveis, revolucionários e vanguardistas como a imagem que vendemos de nós mesmos? Estar sentado ao lado de um negro pobre e imigrante realmente não te incomoda, sente um ímpeto em ajudar?

O pluralismo social, racial, de gênero e religioso é hoje efetivo e base da revolução praticamente permanente, que revira nosso cotidiano. Em anos recentes, estamos sendo provocados a nos manifestarmos a cada click que dão por aí e sinceramente, não tenho opinião formada sobre tudo, porém creio que o ideal é reagir sem regressões e respeitar o modo de viver de cada um.

Constrangimento democrático

A democracia não baseia-se somente na seleção de governantes através do voto popular, onde respeita-se a decisão da maioria. Há vários outros indicadores que conceituam o Estado democrático. Democracia contempla a divergência de interesses, de opiniões, de valores e o acesso ao voto, quando votar significa liberdade, é apenas um dos mecanismos eficientes do jogo democrático.

A democracia pode ser explicada como um sistema em que os partidos favoritos periodicamente perdem as eleições, segundo um dos mais proeminentes cientistas políticos da atualidade, o polonês Adam Przeworski.

O processo democrático converge para a compaixão, acolhimento, oportunidades, diversidade cultural, racial, religiosa; por conseguinte, ninguém deve ser humilhado por causa de baixo status econômico, raça, credo, sexo e etnia; converge também os conflitos para a reconciliação pela confiança nas pessoas e nas instituições públicas.

Democracia, em tese deve gerar um estado que valoriza a igualdade, estabelece a proximidade entre o Poder Público e a sociedade através da participação dos movimentos sociais. A cultura democrática preocupa-se em promover o bem-estar social aos que precisam. E a maioria precisa por causa de um coletivo de fracassos públicos e privados.

Quase a metade dos países do mundo tem governos “ditos” democráticos. A maioria porém, enquadra-se no que cientistas políticos chamam de democracia imperfeita, devido a uma série de fatores que vai da falta de interesse na política, negação de liberdade civil para discussões de temas polêmicos antes das votações, negação ao pluralismo no processo eleitoral, influência de potências estrangeiras na política local e outros indicadores, adotados pelos editores do grupo “Economist Intelligence Unit”, algo semelhante ao que faz “The Freedom House”, no processo de catalogar como anda a democracia no mundo.  Nesse grupo de democracias imperfeitas, encontra-se o Brasil, África do Sul, Argentina, Chile, países europeus como Polônia, Romênia, Israel, Filipinas e outros.

Já democracias plenas existem apenas 28 no mundo e a lista é encabeçada pela quinta vez consecutiva, pela Noruega, eleita a melhor democracia do mundo, Suécia, Dinamarca, Finlândia, seguidos por Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Japão, Austrália, Canadá…dois países da América Latina fazem parte do seleto grupo; Uruguai e Costa Rica.

Dos 85 países restantes, cerca de 30 apresentam forma de governo híbrida, alternando fase democrática e autoritária. É o que se vê na Turqia, Equador e Quenia. Os outros são regimes autoritários sem nenhuma indicação de avanço que reflita liberdade, caso dos países do Oriente Médio, a Tailândia.

A democracia, considerando condições e circunstâncias, às vezes constrange. Os cidadãos tomam decisões que não parecem compatíveis com certos valores democráticos.  Pensou na eleição americana?

Pois é, a democracia plena permite que um cidadão, com discurso protecionista, hostil, misógino, sem conhecimento do poder criativo da diversidade se eleja prometendo levantar muros, execrando muçulmanos, negros e imigrantes.

Não será a primeira vez que a democracia americana permitirá que o candidato menos votado pelo voto direto seja sagrado vitorioso. O caso mais recente aconteceu quando o também democrata Al Gore venceu George Bush na votação popular e perdeu no colégio eleitoral. Mas lá, as regras são claras e o povo (sistema) americano efetivamente escolheu Trump.

Segundo o estudo citado, quase todas as democracias precisam e passam por aprimoramento para desgarrar-se de velhos conceitos e introduzir um novo tipo de sociedade: mais colaborativa, pacífica e igualitária.

Mistérios da morte e vida após a morte

Milhares de pessoas passam pelos cemitérios no dia de Finados desde que a data foi institucionalizada a partir do século 13, para prestar homenagem aos parentes e amigos que partiram. O Livro Tibetano do Viver e do Morrer ensina que está na natureza de todas as coisas que tomaram forma, se dissolverem novamente.

O ensinamento Budista destaca que no momento em que atingimos maturidade espiritual entendemos a vida como um processo onde todas as coisas são impermanente e imutáveis e, que o ciclo da existência há de cessar a qualquer momento.

Assim como é natural que pessoas que amamos morram, é natural que o sentimento de dor passe. Seja qual for o sentimento que estamos experimentando, vai passar.

Ao morrer, os corpos são reabsorvidos de volta à essência dos elementos que os criaram, então, o corpo material se dissolve em luz e desaparece completamente. É um processo conhecido como o “corpo do arco-íris” ou “corpo de luz”.

Os mortos tibetanos recebem ajudas espirituais por 49 dias, período em que o espírito passa por 3 estágios, chamados bardo. Parentes e amigos se revezam em atividades respeitosas, silenciosas para auxiliar a família a suportar a perda, para homenagear o morto com ofertas de significados profundos e orações em seu nome. Passado os 49 dias de preparação, a morte, que é inevitável, pode não significar o fim.

Os povos indígenas do Xingu compartilham a visão de que os mortos não querem ver os vivos agindo de forma triste ou que se isolem. O ritual do Kuarup é uma reverência belíssima aos espíritos dos mortos, para agradecer pela convivência e libera-los para viverem no mundo dos espíritos.

Como nos anos anteriores, meu pai, 91 anos, viajou 500 km para visitar o túmulo do filho, porém, chegar ao cemitério localizado próximo ao bairro Parque Cuiabá foi uma saga no mínimo, intrigante. Trânsito completamente engarrafado. Como a pista é larga, formou-se duas filas, que a todo minuto sofria a intervenção de um motorista sem consciência, que tentava ultrapassar pela direita, pela esquerda, pelo centro. Derrotado, entrava na fila e seguia o cortejo.

Plástico, tocos de cigarros, papel, pedaço de comida eram atirados pelas janelas. Carros cheios de crianças, nos quais os pais descontavam o estresse que estavam enfrentando em mais de 1 hora para se percorrer o trecho. Ao longo do caminho, tudo lhe é oferecido: velas, flores de plástico, refrigerante, cerveja, frango assado, sim, havia duas máquinas de assar frango ao longo do caminho.

Lá dentro, espaço com densa área verde, que inspira o silêncio, a quietude. Mas que nada!  Pessoas passam para lá e para cá, olhando as fotografias nas lápides fazendo comentários.

Mulheres arrastam crianças agarradas aos salgados e latas de refrigerantes. O fogo arde ao lado porque as velas são acesas em lugares impróprios, apesar de haver por toda parte, os espaços seguros para acendê-las.

Seja qual for o significado que se dá a este dia, a educação, o respeito e a serenidade são os componentes a existir em qualquer hipótese, sobretudo quando somos tangidos pela glorificação da dúvida quanto ao supremo significado e mistérios da vida e da morte e da vida após a morte.

Política e acolhimento

A abundância de matérias sobre a eleição municipal talvez desaconselhe essa abordagem, mas preciso dizer que:

É preciso haver clara aceitação das dificuldades que são inerentes à administração pública, saber que os serviços que necessitam ser executados eficientemente, esbarram na burocracia e em dificuldades de ordem social e econômica. Vale dizer, portanto, que não se pode, ao iniciar a transição, alegar ignorância dos problemas que encontrará pela frente.

.A ausência de oposição entre Emanuel e Mauro é um fato extremamente positivo, porém não deve ser fácil substituir um prefeito que deixa o cargo com mais de 80% de aprovação. O elevado índice é reflexo da seriedade e comprometimento com que Mauro Mendes trata a coisa pública.

Não será preciso inventar a roda. Basta que não se quebre o circulo de ações propositivas que estão disseminadas por Cuiabá.

Não custa lembrar que as ações públicas realizadas pelos políticos não devem ser direcionadas aos holofotes. Não vivemos, como muitos dizem, em estado permanente de campanha. Agora é deixar para trás as tensões, as pressões, as falas engessadas e entregar-se ao exercício, que deve ser delicioso, de preencher a vida dos cuiabanos com mais educação, saúde, segurança e lazer.

Não há que preocupar-se com a falta de cooperação do governo. Após as eleições, as diferenças devem ser relevadas e o regime de colaboração entre esferas diferentes de poder está acima das arestas criadas pelas diferenças partidárias, nem sempre bem digeridas durante o processo eleitoral. As boas relações são as bases para uma igualmente boa governabilidade.

Vencer uma eleição para o Executivo deve ser muito bom. O executivo tem poder de mando, de execução de obras, de transformação da realidade local. O Executivo é a ponta que leva asfalto aos bairros, enche os postinhos de medicação, as escolas, de merenda, as praças, de atividades recreativas.

Cuida para fazer uma gestão inclusiva, onde os migrantes, os trabalhadores das ruas tenham um lugar na sua administração. Acolha todos indistintamente, porque há um fenômeno chamado abstenção, alargando-se a cada eleição.

E esse declínio da participação popular, sem uma leitura acurada, é transmutado na descrença na política, no descrédito dos partidos, no enfraquecimento da militância, na perda de credibilidade dos políticos.

A Fundação Mundial “World Mayor”, que coordena a votação do melhor prefeito do mundo, a cada dois anos, cuja eleição está marcada para dezembro, esclarece que há uma mudança no perfil dos prefeitos que estão sendo votados: são os prefeitos que abraçam as cidades não como problemas que precisam ser resolvidos, mas que tenham demonstrado compaixão, coragem e visão para abrir as portas de suas cidades para imigrantes, que tenham coragem para lutar contra o preconceito e mesmo em face de impopularidade se dedicam para governar uma sociedade incluída e participante.

A sensação é o jovem engenheiro Brita Hagi Hasan, prefeito da cidade mais perigosa do mundo, Aleppo, na Síria. Um prefeito que passa o tempo todo caminhando entre os escombros causados pela ferocidade dos bombardeios das forças de Bashar-al-Assad, tentando oferecer serviços mínimos aos sitiados de Aleppo. Refletindo por ai, não deve ser tarefa difícil governar Cuiabá.