Desconstrução de narrativas

Antes das eleições, os cientistas sociais e políticos são convidados a avaliar uma série de cenários e, oportunamente, surgem uma gama de futuristas, analistas políticos e outros prognosticadores sobre os possíveis rumos das eleições de 2026. Em um momento político marcado por desinformação, ameaças de interferências externas, algumas medidas econômicas impopulares há sinais para uma evidência de que as eleições podem ser imprevisíveis.

As ameaças à democracia geradas pelas últimas campanhas são significativas e é preciso intensificar os esforços para monitorar a interferência e a violência disseminadas online, visando as próximas eleições. O que estamos vendo é que a desinformação e potenciais incitações à violência partem de vários políticos, que em tese, deveriam envidar esforços para preservar os valores democráticos.

Diversos estudos que antes demonstravam que cidadãos atentos às informações das pesquisas ajustavam suas previsões na direção que elas apontavam, hoje refletem que a influência das pesquisas na intenção do voto não é necessariamente forte. O momento, portanto, ainda é de manter as expectativas baixas, para não perder quando se espera ganhar e ter que suportar tanto o desconforto da imprevisibilidade quanto um resultado que não corresponde às suas próprias preferências. A literatura sobre expectativas eleitorais e avaliações políticas de partidos ou candidatos está repleta de exemplos de pensamento inflado e positivo.

Em sete meses o cenário estará visível a olho nú e ficarão à mostra os perfis polidos com honestidade e as ranhuras e rachaduras maquiadas em outros. Por ora, aproximam-se as eleições, os candidatos chovem e os eleitores pululam, como escreveu Lima Barreto, no livro “Coisas do Reino do Jambon: sátira e folclore, onde ele critica as lutas políticas e o verdadeiro combate que são travados em nossas eleições.

Ouvi uma conversa de pessoas jovens sobre dúvidas quanto à própria falta de informações para votar. Elas diziam que não acompanham a política de perto, porém, estão sobrecarregadas com a informação disponível e não sabem o que é confiável e o que não é. Mesmo assim, o número de eleitores jovens em Mato Grosso cresceu consideravelmente. Quando as pessoas estão confusas e não sabem em quem confiar, elas ficam vulneráveis e acabam encontrando narrativas alternativas ‘atraentes’ que não encontram nos grandes veículos de comunicação. Indivíduos com visões cínicas sobre política também devem, logicamente, demonstrar menos confiança no processo eleitoral e estar menos satisfeitos com a democracia.

Se aceitamos, como a maioria dos sociólogos, que as representações e ideias culturais desempenham um papel ativo na formação da realidade social e sob certas condições, as teorias sociais podem afetar o comportamento das pessoas e a aparência da sociedade. E na medida em que as ações que as teorias inspiram são controversas, seu uso político pode ser também, o uso político de teorias sobre eleições deve ser flexível. Porque quem entra na política sabe exatamente o tamanho de suas expectativas e potencialidades, mas os cosméticos do marketing podem agregar muitas coisas para mudar substancialmente um perfil.

Falha de coordenação política

No ano de 2002 presenciamos a formação de um grupo político díspar, pessoal e politicamente com um objetivo único e focado: eleger o outsider, empresário milionário, Blairo Maggi governador de Mato Grosso e derrotar o grupo político que dominava todos os setores e espaços de poder do estado, liderado por Dante de Oliveira, exímio articulador político e visionário. Como foi possível domar a vaidade, a difusão de interesses entre políticos experientes e poderosos, como Jonas Pinheiro, Jayme Campos, Roberto França, Percival Muniz? Para citar apenas o senador e os que estavam efetivamente governando as 03 maiores cidades do Estado.

Seria possível o agrupamento de políticos poderosos, de diferentes ideologias e interesses, em torno de um nome hoje? Considerando que o prefeito de Cuiabá a prefeita de Várzea Grande e prefeito de Rondonópolis não detém a experiência e expressão política de Roberto França, Jayme Campos e Percival Muniz respectivamente.

Diferentes partidos políticos obviamente têm diferentes ideologias políticas, o mesmo acontece entre as pessoas que partilham o mesmo grupo e até partido político. Cientistas políticos que estudam campanhas adaptaram dos estudos teóricos da economia um conceito chamado falha de coordenação (coordination failure), que descreve a situação oposta do que citei acima, em que indivíduos ou grupos não conseguem cooperar ou agir em conjunto, mesmo que isso seja altamente interessante ou questão de sobrevivência do grupo no poder.

Cientistas políticos analisam que as falhas de coordenação se concentram nos motivos pelos quais um projeto de poder pode dar errado no sentido de manter o grupo político unido para vencer as eleições. Um dos problemas que surge é o lançamento incompreensível de dois candidatos com posicionamentos semelhantes, que juntos poderiam ter apoio da maioria dos eleitores, competindo contra um candidato adversário de um campo ideológico diferente. A divisão dos votos dos iguais é a oportunidade que a oposição espera para virar o jogo e já começam os ruídos sobre 2026.

Alertam também sobre a ineficiência para se barrar os conflitos de interesses dentro do grupo político, quando a liderança política fraca permite que os interesses pessoais influenciem as decisões ou ações de forma a comprometer o projeto de poder do grupo, em detrimento da vaidade de alguns. 

A falha de coordenação surge porque os políticos, considerando o momento não trabalham em conjunto, não são capazes de estabelecer o consenso e garantir que todos façam a mesma escolha. Ou seja, poderiam atingir um resultado equilibrado, mas não cedem a ponto de canalizar os interesses no mesmo sentido. Isto pode levar a um resultado inesperado e favorecer a eleição de candidato que corre por fora e aparenta estar isolado e em desvantagem.

Para a eleição de 2022, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso recebeu 499 Requerimentos de Registros de Candidaturas dentro do prazo previsto. Eram quatro candidatos ao cargo de governador e seus respectivos vices, sete candidatos a senador com os respectivos suplentes, 156 candidatos (as) a deputado (a) federal e 314 para o cargo de deputado(a) estadual. Imagino como será a inflação de candidatos em 2026, a costura política e divisão de poder para que todos caibam nos grupos políticos já instituídos ou a audácia política de um ou outro para se iniciar um projeto de poder novo.

A violência é de todos e está em toda parte

A violência é um problema social que afeta a todos os povos, independentemente da raça, idade, condição socioeconômica e cultura. A violência é tão antiga quanto todas as sociedades. A violência na sociedade existe em todos os lugares e conforme definição da Organização Mundial da Saúde é o uso intencional de força física ou poder, em forma de ameaça ou real, com alta probabilidade de causar danos, ferimentos e morte. 80% das mortes por violência ocorrem fora das áreas de conflitos armados.

Diante da impressionante, alarmante e repugnante incidência de violência ocorrida esta semana, independentemente de classe social, cor, raça, idade e método da violência, deparamos com a notícia de um adolescente de 14 anos, que usou a arma do próprio pai para matá-lo e também a mãe e o irmão ainda bebê porque os pais não permitiram que ele viajasse sozinho do interior do Rio de Janeiro para uma cidade de Mato Grosso para conhecer pessoalmente uma namorada virtual. Ao ser apreendido declarou não haver arrependimento algum.

Uma mãe e o padrasto agrediram brutalmente uma criança de menos de 2 anos; um homem jovem apunhalou a esposa e a filha de 7 anos enquanto ambas dormiam. A mulher não resistiu, a criança encontra-se hospitalizada em estado grave. Ontem, um homem foi flagrado por câmeras de segurança, andando pelas ruas segurando uma faca, havia acabado de tirar a vida da esposa e fugia com a tranquilidade de quem sabe que a justiça é pouca.

A sociedade brasileira foi construída em moldes violentos em praticamente todas as instâncias sociais numa cultura herdada, diluída no cotidiano. Fica evidente que tudo que se tem feito até agora não tem sido o suficiente para erradicar o fenômeno da violência tão evidente, em uma cultura caracterizada pelo machismo, possessividade, falta de dignidade humana e pela certeza da pena pouca, da frouxidão das leis e pela mania absurda de normalizar os atos selvagens de seres humanos.

O Papa Francisco, ao tratar da violência, citou o excesso de controle, a possessividade como arma inimiga do bem, que mata o afeto. Disse que a violência decorre, em parte pela pretensão de possuir o afeto do outro, da busca de uma segurança absoluta que mata a liberdade e sufoca a vida, tornando-a um inferno.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir narra a execução do condenado Damiens, condenado por tentativa contra Luís XV. foi submetido a um suplício público brutal, que incluía queimaduras com tochas de cera e com metais derretidos e esquartejamento. Tirado da carroça, seu corpo foi puxado e desmembrado por quatro cavalos. Os membros consumidos pelo fogo.

O sofrimento do corpo de Damiens foi exibido para intimidar a população e comunicar que a mão do estado era dura para punir. Com a transição para o Estado Moderno, os suplícios foram substituídos pela punição moderna. Cada nação construiu seu código de punição, as penas passaram a ser calculadas de acordo com a gravidade do crime e o grau de periculosidade do criminoso. Os corpos assassinos deixaram de ser punidos e passaram a ser vigiados por sentinelas e agora a tarefa está a cargo das câmeras.

Não, não vamos voltar a era dos suplícios, deve haver medidas que contemplem o vigiar e o punir rigorosamente.

Trocar a velha ignorância por conhecimento

Precisamos trazer novas perspectivas para os relacionamentos abalados pela divisão política, religiosa e outras e para os que se incomodam com a polarização que permeia as tentativas de se manter uma conversa generosa com familiares e amigos. Lembrando que uma das características dos humanos é a capacidade de atualizar suas próprias crenças e promover atualização na mente de outras pessoas. Todos nós temos o poder de renunciar às velhas crenças e trocar a velha ignorância por conhecimentos novos.

Quando as pessoas têm a capacidade de mudar, mas há pouco incentivo para mudanças, elas permanecem praticamente as mesmas de uma geração para outra, mas quando a pressão para se adaptar aumenta, o ritmo da evolução aumenta também. Anos atrás, milhares de pessoas, comungando um pensamento conspiratório e se posicionaram contra a vacinação contra a Covid-19. Nem ao perceberem, inclusive em seus meios familiares, o aumento escandaloso do número de mortes, refizeram seus comentários. A ciência se fez ouvir forte, divulgou os protocolos científicos rigorosos e as etapas de testes antes de as vacinas serem aprovadas, diante disso, muitos reviram seus pontos de vistas polarizados, atravessados por conteúdos políticos ignorantes e aceitaram se vacinar e estimularam a vacinação dos seus

Para ver o mundo de uma maneira, você precisa ter conhecimento de outras maneiras de se viver, para interpretar a cultura, a religião e a política de uma maneira, você precisa ter ou ter tido conexão com várias culturas, religiões e ideais políticos. Para a Sociologia, a maioria das mudanças sociais ocorrem quando grande parte de uma população quebra a resistência e muda completamente o modo de pensar sobre determinado tema depois de décadas e isso se transforma em uma mudança social generalizada. 

“Como as mentes mudam” é um livro fascinante do jovem jornalista e escritor americano David McRaney, que explora o que acontece no cérebro quando ele passa de uma forma de pensar para outra, reforçando o peso da ciência por trás das crenças, valores e atitudes. O autor recorre a vários comportamentos que que passaram por questionamentos polarizados, divididos tensamente como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, repudiado com preconceito e violência, é hoje protegido por leis em muitos países e mesmo onde o casamento não é legalizado, há aceitação. Cita também que não somente algumas pessoas, mas várias nações saíram de uma situação de fumar até dentro de aviões para o banimento do cigarro até em bares e restaurantes. Como essas mentes mudaram?

Fatos e evidências não bastam para mudar a opinião de uma pessoa ou de uma comunidade, o autor explora o poder da persuasão e da autoconfiança como fontes poderosas para alterar a realidade formada no cérebro.  A autoconfiança é fruto do conhecimento e persuasão é definida cientificamente é o ato de mudar a mente sem coerção. Não é tampouco, uma tentativa de desmerecer intelectual ou moralmente a pessoa que você tenta convencer. Ou seja, quando a pessoa com quem você discute sente-se livre para rejeitar suas preferências, é onde a persuasão ética opera. 

Sob argumentos carregados de polarização, ódio político e movidos por informações falsas muitos brasileiros defendem que não houve nada senão atos de vandalismo no dia 08 de janeiro de 2023. Como bem disse McRaney, um dos maiores problemas que as pessoas enfrentam para enxergar a realidade e mudarem seus pensamentos é a metralhadora giratória de fake news, teorias conspiratórias e discurso de ódio criados para alimentar o caos. Entretanto, entre os incitadores já há quem diga que era apenas uma manifestação que tomou rumo de uma tragédia, mas que ele não concorda com atos de vandalismo. O que levou essa mente a mudar?  

A política na terapia

Sim, a política está piorando a saúde mental das pessoas. É o que mostram estudos e pesquisas feitas no Reino Unido e Estados Unidos. No Brasil, em Mato Grosso, em meio à polarização política que não cessa e a aproximação das eleições, a política se tornou uma fonte significativa de estresse para muitos políticos e eleitores, empresários, professores e efetivos das forças de segurança. Em audiências públicas durante a semana, foram feitos relatos de servidores adoecidos por falta de melhores condições de trabalho, pela tensão e risco que a própria profissão os expõe e notadamente há a falta do apoio emocional efetivo e humanizado por aqueles que estão em posição de oferecer políticas públicas que possa minimamente reparar-lhes a vulnerabilidade.

A política coletiva ou individual tem um custo diário. Seria interessante ver até que ponto a política cotidiana afeta a saúde mental dos cidadãos de outros países menos polarizados ou com sistemas políticos diferentes. O cientista político americano Kevin Smith, da Universidade de Nebraska disse que muitas pessoas veem a política como algo que exige um conjunto significativo de custos para sua saúde social, emocional, psicológica e até física, ou seja, as pessoas estão se envolvendo na política e criando um problema de saúde pública.

Médicos ligados a Associação Psiquiátrica Americana, relataram que nunca conversaram tanto sobre política com seus pacientes, como nos últimos anos e que a política divisionista adotada em vários países (citados Brasil e Estados Unidos) tem afetado a saúde mental e trazido temas políticos para as salas de terapias como uma fonte significativa de ansiedade e negatividade, sobretudo entre os mais jovens, politicamente engajados e de oposição ao governo. Ouvidos nos relatos, os pacientes admitem que a política faz parte das razões, pelas quais, buscam a terapia.

A política não é algo que afeta as pessoas apenas a cada quatro anos durante as eleições, ela está infiltrada na vida cotidiana e tem severo impacto no nosso dia a dia. A política moderna, suas controvérsias diárias, alguns graus de incivilidade impõem um fardo emocional constante, faz desenvolver doenças, especialmente transtornos de ansiedade, depressão e do sono e os indivíduos que percebem altos níveis de polarização são mais propensos a relatar o desenvolvimento de transtornos depressivos.

Há dias leio um estudo da Queens University sobre a relação da política com o estresse, ansiedade e depressão. Os políticos não estão imunes. O estresse, ansiedade citados envolve o trato com a política, o discutir política e fazer política. Mas algo se perdeu na maneira como as pessoas pensam sobre política e o que nos é devido por coexistirmos em sociedade. Na realidade, estamos nos estressando, discutindo, divergindo de pessoas que nunca conhecemos e nunca conheceremos.

Sem paciência para terapia, tampouco competência para terapeuta, creio que a grande maioria de nós não quer viver num ambiente dividido e contencioso. Temos muito mais em comum do que diferenças, mas é uma tendência humana nos categorizar, rotular e dividir. O processo de adulterar e desumanizar nossos semelhantes é um mal antigo e isso nos leva a olhar para o sofrimento dos outros sem compreensão e empatia.

Dois egos em conflito

A sua peculiar maneira de falar, certa vez, o presidente americano Donald Trump, tentou explicar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia: “Às vezes, você vê duas crianças brigando feito loucas, elas se odeiam, brigam em um parque e você tenta separá-las, elas, porém, não querem ser separadas. Às vezes, é melhor deixá-las brigar um pouco.” Hoje, com essas palavras, poderia estar falando de si e de seu ex-amigo bilionário Elon Musk, que se envolvem numa briga, com trocas de insultos públicos.

Embora a mídia americana e observadores políticos venham especulando que Donald Trump e Elon Musk acabariam se desentendendo, poucos previram a velocidade e a ferocidade com que a briga explodiu nas redes sociais. Afinal, trata-se do relacionamento político conveniente de dois homens com egos gigantes, que não suportam ser contrariados.

Elon Musk financiou parte da campanha de Trump e emprestou-lhe a imagem do homem visionário que abriria o caminho da vida em Marte. A poderosa aliança política e empresarial iniciou com a solidariedade e promessa de apoio de Elon Musk a Donald Trump logo após a tentativa de assassinato do presidente americano. De acordo com o site de monitoramento de financiamento de campanha Open Secrets, ao longo do último ano, as doações de Musk a Trump e outros republicanos foram enormes, totalizaram US$ 290 milhões de dólares. Por isso Elon Musk fala de ingratidão.

 A rixa entre o presidente e seu ex-assessor, Elon Musk, veio à tona, após o bilionário da tecnologia criticar o projeto de lei de impostos e gastos públicos, peça central do governo de Trump. Aí, o parquinho literalmente pegou fogo. Trump decepcionado com as críticas anunciou isso que poderia ser o fim de seu ótimo relacionamento com o bilionário. Musk não demorou e acusou o presidente de ingratidão, acrescentando inclusive, que sem ele Trump teria perdido a eleição.

Esses relacionamentos que incluem financiamento político, contratos governamentais, relações pessoais torna complicado o fim da aliança e, independentemente do rumo que a discussão tome, têm o potencial de prejudicar a ambos de várias maneiras. Segundo matérias veiculadas na mídia americana, embora conhecesse o projeto de lei dos gastos desde a sua concepção, Elon Musk estava em pleno lobby no Senado, o que é legal nos Estados Unidos desde 1946, contra o próprio governo, argumentando que o projeto aumentaria irresponsavelmente a dívida dos Estados Unidos e chamou o projeto de abominação repugnante.

Trump defende-se acusando Elon Musk de estar chateado porque seus negócios privados seriam afetados e ameaçou cortar os contratos governamentais de Elon Musk. O parquinho continuará em chamas. Elon Musk deu a entender que poderá investir muito dinheiro na oposição a Trump, inclusive aventando a possibilidade de criar um partido. Trump pode não ter muita vantagem sobre o homem mais rico do mundo no curto prazo. Cancelar ou rescindir contratos governamentais seria um processo legal complicado e demorado, e por algum tempo, o governo dos EUA continuará fazendo negócios significativos com as empresas de Elon Musk.

O que acontece quando a pessoa mais rica do mundo e o político mais poderoso têm uma briga tão acirrada? O mundo está observando e não é um cenário bonito. Donald Trump e Elon Musk voltaram seus megafones um contra o outro em uma guerra de acusações, mentiras, exageros e ameaças. O preço das ações da Tesla despencou 14% dia 04 de junho, porém, Musk insiste no pedido de impeachment de Trump e o desafiou a cortar abruptamente o financiamento de suas empresas.

A arte de comer pelas beiradas

Muitos de nós anunciamos nossos planos antes mesmo de eles estarem finalizados, por isso transmitimos meias verdades, rascunhos e tentativas de acertos. Geralmente as pessoas antecipam seus projetos para avaliar as validações, para obter comentários em retorno e para carimbar a ideia como sua antes que outro o faça. Observe que em se tratando de política, quando os projetos são demasiadamente antecipados, perde-se tempo dando explicações, justificando as escolhas, defendendo posições que não foram avaliadas pelas bases e partidos ainda.  Quando ninguém percebe nossos movimentos, ninguém pode pará-los.

Ao passo que, se os movimentos políticos forem canalizados em viagens, participação em eventos abertos, entrevistas que não comprometam a integridade do processo eleitoral que se avizinha, acaba-se conseguindo uma boa divulgação da imagem, dos projetos e abre-se caminho para a aproximação de novas pessoas, sem que esse comportamento, por ora, fale em candidatura e voto. Percebo também que, uma quase exigência do agir político é a urgente necessidade de forçar a ocupação ou ampliação dos espaços de participação e fala e somente há silêncio num espaço de fala.  

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, atravessamos um momento político proibitivo. Não é hora de mudar de partido, não é hora de definir candidatura ou cargo eletivo, não é hora de descartar companheiro, tampouco, aliar-se a outros. Por isso, todo movimento precipitado agora, expõe e atrai a ira, a cobiça de adversários e próprios correligionários, além de atiçar denúncias ao TRE sobre precipitações ao observar a Lei Eleitoral. Embora o político não precise fazer malabarismo para ter sua imagem destacada, para pedir votos explicitamente, ele tem apenas o curto período de 40 dias.

Na política, manter segredos, chega a ser uma subversão, porém, os cientistas políticos temem que a antecipação de movimentos políticos, impactem na construção do projeto futuro, devido aos desgastes naturais trazidos pelos comentários e julgamentos e pelo afastamento de pessoas que se sentiram preteridas no arranjo geral. Na essência, o momento certo de movimentar-se é quando as construções de candidaturas estão sólidas, a mensagem sobre quem vai atuar onde esteja clara para todos e as estratégias para mobilizar tempo, recurso e discurso estejam disponíveis no cenário, pois é impossível, no jogo político, esconder o conflito, os mascaramentos e as resistências. Então, Para que ocupar-se disso agora?

O melhor é estar correndo por fora, conversando muito com o comando nacional ou regional do partido, com a popularidade em alta, ocupando espaços importantes. Ou como diria o inesquecível Leonel de Moura Brizola: “melhor é comer o mingau pelas beiradas”. Comer pelas beiradas é uma expressão, bastante popular, quer dizer; avançar aos pouquinhos. Aprendemos com nossas avós que mingau quente deve ser comido pelas beiradas, para não queimar. A expressão cai como uma luva quando falamos sobre política. Na política, há partidos e políticos que passaram décadas no poder comendo pelas beiradas, fazendo articulações seguras e sem alarde para preservar as posições conquistadas.  Lição de sabedoria.    

Um vende a cura, a outra vende a sorte grande e outras enganam a si mesmas

O tolo é caracterizado pela falta de discernimento, pela incapacidade de perceber o sofrimento e as causas da sua existência, e pela adesão à crenças e comportamentos que o levam a um ciclo de vida artificial. O tolo geralmente se perde em minúcias, mesquinharias e de todo tipo de banalidades. A autorreflexão, introspecção e contemplação não fazem o menor sentido para um tolo, porque ele não pensa existencial e profundamente sobre vida.

O tolo subestima os dilemas existenciais, pois, não vê nada além de si mesmo, vive completamente embrulhado em seu conteúdo egoísta e raso. Em Espinosa, o tolo é uma figura amoral, é aquele que não consegue compreender a realidade e, portanto, permanece preso em um ciclo de superficialidades. Platão, por exemplo, utilizava a figura do tolo para criticar a sofística e defender a busca pela verdade através da razão. Uma célebre frase atribuída a Platão afirma que “o sábio fala porque tem algo a dizer e o tolo porque precisa dizer algo.” Ao não compreender a verdade, o tolo age de forma impulsiva e egoísta, atraindo sofrimento para si e muitos em seu entorno.   

Escrevo essa introdução sobre o tolo, para falar sobre a influenciadora Vírgina Fonseca, o falso profeta, missionário Miguel Oliveira e sobre pessoas adultas pais e mães de bebês reborn, criaturas que adotam bonecas hiper-realistas, como se filhos fossem.

Tão jovem e já aprendiz de charlatão, o mini missionário Miguel Oliveira não deve ser nenhum instrumento de Deus para a realização de curas e milagres. Deve ser sim, um enganador, explorador da fé, da crença e da vulnerabilidade das pessoas para a obtenção de doações, de forma enganosa e abusiva. No púlpito da igreja disse que quanto mais rápido a doação for feita, na mesma velocidade o milagre chega até o fiel. Rasgou laudos médicos, prometeu cura de doenças graves, como câncer. Acabou denunciado ao Ministério Público pelo Conselho Tutelar, afastado das pregações e das mídias sociais pela justiça, porém profetizou um retorno ‘assustador’.

Já tramita, na Câmara dos Deputados, um Projeto de Lei (PL nº 1341/23), que criminaliza e pune o charlatanismo religioso e quem promover, divulgar ou realizar falsos milagres, curas ou outras manifestações supostamente sobrenaturais com o intuito de obter vantagens financeiras.

Virginia Fonseca, arrolada para ser ouvida na CPI das Bets, com acusação de criar falsas expectativas e negligenciar informações sobre os malefícios do jogo, que banca sua vida de luxo, não é muito diferente do profeta Miguel. Mente, engana, explora a boa-fé de pessoas vulneráveis e se mostrou indiferente e ignorante ao ser ouvida no Senado, alegando que sequer percebe o mal que causa na vida das pessoas, porque considera o jogo um complemento de renda. O profeta vende a cura, a subida aos céus, a influenciadora vende a ‘sorte grande’, o dinheiro fácil à custa do vício e do comprometimento da miserável renda familiar em jogos de azar.

Há uma linha de explicação que os bebês reborns são usados ​​por razões terapêuticas, como perda de filhos, ansiedade, estresse e depressão, transtorno bipolar. Mas há também histórias ridículas, que não me causam outra reação senão o riso debochado, como o relato de uma advogada que foi procurada para regulamentar a “convivência” de uma mãe com a boneca e impedir que a ex-companheira da cliente tivesse acesso à “filha reborn”. São demandas reais”, disse a advogada. Mulheres de condutas ilícitas e antiéticas, simulam a maternidade para obter vantagens indevidas em serviços prioritários. Já há várias leis tramitando mirando o uso indevido desses bonecos em serviços públicos e privados.

Minha perplexidade diante desses seres estranhos que ocuparam a mídia recentemente, na verdade, meu pesadelo, é que essas pessoas votam e influenciam votos.

A campanha tornou-se permanente

Com tanto artifício por toda parte, talvez não se possa confiar em ninguém. Lembre-se, porém, que o encolher de ombros substitui o voto. Todo bom escritor e todo bom político compreende a poder de uma boa história, a anedota que arranca riso, a metáfora reveladora. Uma narrativa forte é, na sua forma mais elementar, um ato de sedução e na maioria das seduções, a emoção e carisma superam a lógica. Os políticos precisam ouvir histórias como forma de acumular conhecimento e refletir sobre as possíveis respostas para as questões que afligem as pessoas. É preciso ouvir e contar histórias para processar o cenário em que as informações são colhidas. E onde e quando se ouve histórias? Todos os dias e por toda parte.

Baseado no livro “A Campanha Permanente e seu futuro”, de Norman Ornstein e Thomas E. Mann, participei de um webinário sobre o tema. Os autores citam o talento do presidente americano Franklin Roosevelt para o uso político contínuo no rádio, e talento de John Kennedy para tirar partido da televisão, em aparições quase diárias, e, a destreza verbal de Bill Clinton, seu intelecto aguçado e a energia para explorar as tecnologias da informação e distribuição de conteúdo a seu favor o tempo todo. Clinton fez campanha como candidato ininterruptamente mais do que a grande maioria das pessoas no país. Ele concorreu com sucesso para advogado geral do estado do Arkansas, disputou seis campanhas para governador e venceu cinco, concorreu e venceu duas vezes à presidência dos Estados Unidos. O que aconteceu em termos de técnicas de campanha e refinamentos durante esse período de Clinton foi a campanha permanente, sem tréguas, sem interrupção do discurso de um para outro mandato.  Mas não é apenas a linha temporal da vida política de Clinton que é relevante para a continuidade das campanhas, é, na verdade, a impossibilidade de se manter homens com o mesmo perfil, agindo de uma forma nas campanhas e de outra, moderados, durante seus mandatos.

O termo “campanha permanente” foi popularizado pelo jornalista Sidney Blumenthal, jornalista, ex conselheiro da Casa Branca, destacando uma mudança na dinâmica do poder político, levando os políticos a envolverem-se em atividades políticas que repercutem no sentimento público ao longo de seus mandatos o tempo todo. Claro que há controvérsia. Os críticos argumentam que há necessidade de uma distinção mais clara entre campanha e mandato, embora não haja como fazer campanha sem vislumbrar o mandato, tampouco estar no mandato e não desejar prosseguir nele. Os candidatos se encaixam em um fluxo contínuo de eventos públicos e os políticos com mandatos os criam e participam desses eventos.

A interpretação mais profunda da realidade e a presença política física são fatores que ajudaram a dar origem a uma ideia defendida de que os políticos devem se envolver continuamente em atividades de campanha para entrar efetivamente dentro dos problemas cotidianos. A teoria sugere que os políticos pós-modernos combinem governança com a necessidade de manter boa movimentação, tratando assim seu tempo no cargo como uma campanha contínua. Isso envolve viagens, participações mais frequentes em eventos de visibilidade nas mídias, além de comunicação contínua com o público.

Qual é o resultado da transformação da política e dos assuntos públicos em um ciclo de campanha de 24 horas por dia? Por um lado, o público é regularmente presenteado com uma imagem de deslocamentos, exposição de conflitos, posições de desacordos, contendas sobre questões políticas e sociais, mais do que se pode ver, pode de fato, quando as câmeras e os microfones estão desligados dentro dos gabinetes.  

Há muita pressão extra e desnecessária

Fui criada em uma cultura que me ensinou que o papel mais importante que eu deveria assumir na vida era ser mãe.  Antes dos vinte anos, casei-me e tive dois filhos. Escrever sobre meus triunfos sem mencionar nenhuma das minhas inúmeras dificuldades com a maternidade seria hipocrisia, porque a maternidade é composta de momentos de profunda alegria e profunda insegurança e cansaço. À medida que o Dia das Mães se aproxima, lembro-me da importância de exercermos a compaixão e empatia com todas as mulheres que tentam desesperadamente conciliar suas próprias deficiências com a mãe que idealizaram e que são cobradas a ser.

Falar de maternidade sincera não é falar de atitudes brilhantes, renúncias recheadas de amor. A beleza da maternidade transcende a estética e se manifesta na força, na resiliência e transformação que a mulher experimenta ao tornar-se mãe. A maternidade é um período de profunda mudança, onde a mulher se reinventa e expande a sua capacidade de amar. Enquanto, a frustração, o estresse, a ansiedade, a dúvida e a sobrecarga são reflexos de uma cultura confusa que ainda não descobriu o quanto a saúde e o bem-estar das mães são essenciais para manter a família toda no eixo.

Assisti um vídeo do pediatra brasileiro Daniel Becker, abordando a complexidade da experiência da maternidade, reconhecendo que nem sempre é um período fácil e prazeroso e que é importante apoiar as mães em seus desafios. Ele compartilha mensagens enfatizando a necessidade de termos um olhar e atitude de empatia quando visitamos uma pessoa que acaba de dar à luz. Ele diz: “Visite a mãe e não bebê. Leve uma refeição gostosa, cuide da criança para a mãe descansar um pouco, lave a louça”.

É preciso muito mais do que esforço esporádico para ensinar os filhos sobre justiça, solidariedade, tolerância e amor, é preciso certa maturidade (não necessariamente, idade) para conseguir conciliar mamadeira, choradeira com a carreira. No Brasil, 2,3 milhões de crianças de até 3 anos de idade não frequentam creches por dificuldade de acesso a vagas num contraditório momento em que uma proporção maior lares são chefiados por mães solo, aqueles em que a pessoa de referência é uma mulher com filho.

A maternidade é difícil, é exaustiva. Mas, é a experiência mais gratificante e incrível que uma mulher viverá. Felizmente, cada vez mais, os pais estão desempenhando um papel ativo na criação dos filhos e nas tarefas domésticas, embora no tempo atual ainda vigore, geralmente, o padrão de maternidade sobrecarregada, esperando que as mães entretenham seus filhos, levando-os de uma atividade para outra, trabalhe fora e cuide da casa, fazendo tudo isso em perfeito equilíbrio.

Porém, não existe uma maneira única de ser mãe, e as narrativas sobre a maternidade perfeita perpetuadas pela sociedade, são profundamente prejudiciais e irreais.

Meu marido era pediatra, havia, portanto, muita pressão para que eu me enquadrasse nos propósitos neonatais que a pediatria ainda hoje espera das mães: a expectativa que as mães amamentem por, pelo menos seis meses.

Minha primeira grande divergência. Não me senti confortável amamentando e interrompi o processo nos primeiros dias, apesar de ouvir e acreditar em todas as alegações do benefício que o ato de amor traria para o bebê, mas eu não superei a tempo o estranhamento à cena e não amamentei nenhum dos dois filhos.

Encerrei o assunto sem culpa e sem julgamentos. Decidimos que nossos filhos jamais, por razão nenhuma seriam castigados. Não foram. Podem aí, considerar-me ter sido uma mãe leniente. Tentei ser uma mãe feliz, não perfeita!