Espaços luminosos ou opacos?

Há várias contribuições para o plano de governo dos candidatos a prefeitos, sobretudo no sentido de tornar as cidades mais humanas, valorizando os espaços de uso comum e tentando, de certa forma, abolir a tendência ou a lógica dos projetos que marcam a divisão entre centro e periferia.

O arquiteto Jaime Lerner, que foi governador do Paraná por dois mandatos e prefeito de Curitiba por três, lança um livro com ensinamentos valiosos sobre mobilidade e racionalidade no uso dos espaços públicos e, em entrevista, acerta um alvo: os candidatos que pretendem ir além de administrar recursos e obras carimbadas com selo do governo federal.

Diz ele que os gestores continuam a incentivar a criação de bairros distantes, que são alcançados apenas por carro, muitos nem linha de ônibus tem.

Lembra Lerner que mobilidade significa colocar moradia perto dos locais onde se acha emprego, pois levar infraestrutura para longe custa uma fortuna e a dependência de carro leva esta categoria de residentes, a se endividar para adquirir automóvel. A onda é explorar a dinâmica da cidade humana e promover soluções para os problemas urbanos e não sublinhar problemas deletérios.

Lerner condena a moda de se criar uma mini cidade dentro dos condomínios, onde se tem espaço para tudo, dentro dos limites dos muros altíssimos e convivência limitada a classes sociais distintas. Em vez disso, propõe, a reorganização de determinadas ruas, para que sejam espaços vivos, de cultura, compras e lazer, só assim, as pessoas sentirão vontade de viver suas cidades. Poucos exemplos em Cuiabá: talvez São Gonçalo Beira Rio e a Praça da Mandioca.

Ao comparar as gestões de prefeito e governador, assegura ter sido melhor prefeito, pois pode trabalhar diretamente com a sociedade e  as experiências mostraram resultados com menos tempo, o que permitiu que as equipes trabalhassem mais rápido e mostrando resultados efetivos em vez de  gastar tempo adaptando projetos nacionais, concebidos sem análise acurada das especificidades locais.

Ao estudar Geografia Humana tive a oportunidade de despertar para os ensinamentos do grande mestre, o geógrafo Milton Santos, que diz que a vida metropolitana deve sempre ser refeita, tanto na forma quanto no dinamismo, para não acabar compartilhando espaços plenos de tédio, angústia e medo.

Assegura que os condomínios caros são construídos longe do centro da cidade, justamente para empurrar os pobres para mais para longe ainda. E aí, voltamos ao Jaime Lerner, quando falou que os espaços públicos da periferia há muito são demarcados por obras de escolas, creches, postos de saúde e igrejas, que funcionam sem nenhum sentido de rede solidária.

Ser prefeito da cidade de Cuiabá hoje é não temer abraçar as adaptações rumo a modernidade, o que significa, entre outras coisas, construir um futuro atraente, mais informal e democrático para seus residentes. Hoje em dia, nos meios de aferição da qualidade de vida nas cidades, o que conta, não é o número de carros que trafegam pelas ruas e sim, o planejamento para tornar a vida dos seres humanos mais feliz.

Poder local

É comum não nos darmos conta dos direitos que temos, do modo como não os reivindicamos e os exercemos. É neste contexto que participar das eleições não é apenas fazer valer um direito, mas também uma forma de manifestar poder e exercer a cidadania que nos permite ter a nossa quota na escolha de quem vai governar nossa cidade nos próximos quatro anos.

Ainda que as pessoas expressem maior apreço pelo cenário nacional é nas eleições municipais que se inicia de fato o processo político nacional.

A experiência que se acumula legislando ou exercendo cargo no Executivo dos municípios é que mais tarde, dá realce a vida dos que aspiram voos mais altos. O poder local é que proporciona a implementação das políticas públicas com interface direta com o cidadão, visando assegurar proteção e atendimento básico, com prestação de serviço que vai desde a coleta do lixo, distribuição de estacionamento público, saúde, transporte, escola. É o desenvolvimento aliado à justiça social.

A melhor maneira de tornar-se influente no lugar onde se vive e trabalha, é participar da política local, atitude que além de fornecer o impulso necessário para revigorar a rede da democracia, é o melhor momento para se colocar, dar voz aos planos e sonhos e para fazer cobranças.O exercício da cidadaniaentretanto, não se limita a liberdade de expressar atendência política, de votar, enfim.

Porém, é nesse contexto quase familiar que a cidadania se confirma, que a escolha do Prefeito deve pairar.Para que o prefeito possa efetivamente, desempenhar bem suas funções, é necessário transformar o serviço público em “serviço para atender bem o público”, com profissionalização e humanização.

Vivemos tempos difíceis, é preciso cuidar da população com carinho, lembrando que projetos para cultura e esporte são instrumentos inclusivos indispensáveis para a plena afirmação da dignidade humana em todas as dimensões.

Agora, por mais que sejamos capazes de elaborar uma extensa lista de razões pelas quais estamos cansados de votar, pode-se tentar uma estratégia nova, invertendo a ordem do desânimo e aprimorando a participação, cedendo ideias, projetos, estando atentos ao que falam e se nos ouvem.

Tomando esse conjunto de cuidados, alerte-se ainda para o fato que agora muitos candidatos exploram o poder financeiro, os amigos influentes, os supostos padrinhos com elevado grau de dignidade, mas não é nessa conjuntura de palanque imponente que devemos votar.

Apesar da dependência ainda usual dos municípios brasileiros pelas transferências de repasses estaduais e federais, a descentralização está cada vez mais na ordem do dia dos municípios.

Aprende-se a confiar

Haveria uma ingenuidade otimista em admitir que a confiança é uma habilidade que pode ser estimulada e aprendida? Ativar o botão para o modo “confiar” num momento de mudança política, leva a reflexão sobre a área que temos sido ativos, os valores que temos negligenciado, sobre as escolhas que temos feito e sobre quem temos prejudicado com nossas convicções e consciência tardia. Não há como corrigir o que já foi. Aprende-se.

Sem querer adotar uma opinião depreciativa, aprende-se que o homem contemporâneo não avalia as consequências de sua mente excitada e indolente. Aprende-se que a corrupção é rasteira e nem sempre dá sinal que está instalando-se.

Aprende-se que os governantes colocam os interesses pessoais acima dos interesses de todos os outros cidadãos, que sabem fazer uso do mal e que o povo nem sempre é moralmente bom e honesto e em muitos casos, aprecia ser seduzido. Aprende-se…por isso é difícil confiar no bom senso dos homens.

Aprende-se que o ideal de igualdade de oportunidades não é sempre um ideal atraente, pois o vulgo nos cobra acúmulo de riqueza, prazeres, boa posição, obediência às leis divinas. Sob muitos aspectos a vida cotidiana torna-se cada vez mais difícil. É grande a pressão e as formas de errar são abundantes.

Nosso hábito tem sido a desconfiança, a alegação que as experiências vividas mais provocam do que aliviam o sofrimento. A sociedade contemporânea tem sido marcada por um contínuo esvaziamento de sentido e cada vez mais os indivíduos sentem-se desconfiados, motivados a isolar-se num sofrimento ético. Ainda assim, é preciso confiar.

Aprende-se a confiar como um caminho possível, ainda que entre suspiros e preocupações, mas as relações recíprocas são as únicas a assegurar condições nas quais podemos gozar de paz verdadeira e duradoura. Aprende-se a confiar lentamente, dependendo de exercícios e práticas a esse respeito.

Entretanto, confiança não é instintiva. A vida com intencionalidade nos joga em algum nível de desconfiança, de insatisfação. A vida nos instiga a desconfiar do inesperado. São as agruras da própria existência humana.

Então, uma relação real deve vislumbrar a confiança como a essência e o sentido da vida e mais do que uma questão de tempo, a confiança se estabelece não permitindo lacuna entre o que se deve ser e o que é.  E isso vale para todas as estâncias da vida.

E eu com isso?

Nada. Nenhum evento da vida deve ser ignorado. Há uma estranha e inegável simbiose em tudo que nos acontece. Um fato está intrinsicamente ligado a um problema mal resolvido ou a um caso de sucesso, ao amor que negamos ou ao amor que doamos. É disso que é feito nossos dias.

Um pequeno pedaço de papel jogado na rua. Não. Não é pequeno exemplo de displicência. É falta de educação cidadã, é falta de importar-se com as consequências ambientais que bueiros entupidos podem causar. Falar aos cotovelos é falta de zelo com as palavras, é sobretudo, arrogância de quem pensa que pode sobrepor seu modo rude de agir sobre outros. É bom lembrar sempre que as verdades de uns pouco, ou quase nada dizem a outros.

Civilidade e respeito mútuo são elementos vitais para construirmos uma rede de relações saudáveis, com debates vigorosos, discussões ideológicas, desacordos, sem que isso cause desconforto algum. Dentro desse prisma devemos nos sentir encorajados e encorajar outros a falar, escrever, ouvir, aprender, sem medo da censura, do gatilho pronto a ser puxado pelos que prezam viver nas zonas confortáveis e evitam explorar questões difíceis de confronto.

Mundo pequeno, mentes estreitas não toleram a criação, as perspectivas de exploração do florescimento de ideias novas. Apesar disso, sigamos compromissados  com a liberdade, com a controvérsia, com a pluralidade.

Superação

A palavra superação foi muito utilizada nos últimos dias para falar sobre a vida dos muitos atletas que disputaram as Olimpíadas e que trouxeram consigo suas histórias de vidas marcadas por tragédias pessoais, como: guerra, abandono, pobreza extrema e tentativas de suicídio.

Os obstáculos são parte da vida e ninguém escapa deles. Porém, lendo a história de vida de alguns, percebe-se que o dom de acreditar no que parece improvável é uma das características dos vencedores. Afinal para que serve uma espada nas mãos de um covarde?

O caminho da superação passa por deixar para trás as condições históricas de privações, de ausência de oportunidades para lançar-se com destemida força para sair do ciclo de pobreza e de dor que aprisiona.

No caso dos atletas brasileiros, o governo deu um empurrãozinho com a implantação do programa Bolsa Pódio, lançado em 2012. Considerando a equipe de 14 judocas convocados para os Jogos Olímpicos, 13 são inscritos no programa e os atletas que disputaram esse modalidade contaram também com a instalação do maior e mais bem equipado centro de treinamento das Américas, construído no interior da Bahia.

Não reli para saber se houve alteração, mas no total, 34 atletas olímpicos estavam inscritos para receber o aporte financeiro do programa governamental.

Agora precisamos invocar o espírito de superação em outras áreas da vida. Quem sabe seja possível após votar o impeachment, após as eleições municipais, após a cassação do Eduardo Cunha, observarmos que continuam crônicos os problemas na saúde, na educação, na segurança e que estamos cansados de viver ressacas nacionais que dão em nada, ondas de ufanismo, exibição de grandeza deste Brasil que parecia destinado a dar certo como a maior economia da América do Sul e parte do grupo de países de economias emergentes, chamados BRICS, junto com Índia, China, África do Sul e Rússia.

Na próxima quinta (25) o Senado faz a votação do processo de impedimento definitivo da Presidente Dilma. Temer assume oficialmente a presidência e sobre ele penderá o peso da superação do ciclo da corrupção e da estabilização econômica e política do país. Como cidadãos brasileiros estamos observando para ver como o Brasil emerge desta grave crise e com que força buscará punir os congressistas arrolados em processos escandalosos se eram estes a base do pilar que sustentava o governo de Dilma, deixaram-na vulnerável e passaram a apoiar o governo do presidente Michel Temer.

Superação é um conceito imprescindível quando falamos em construir o futuro. Vale ressaltar que a corrupção no Brasil não pode ser eliminada examinando e punindo um escândalo de cada vez. Superar este flagelo exige mais do que a troca de presidente.

Exige votação da reforma política, de uma nova estrutura de Estado apoiado por valores como a transparência, responsabilidade e princípios éticos com a coisa pública. Qualquer coisa menos que isso é mera encenação política.

A breve vitória dos refugiados

Uma delegação entrou em campo vitoriosa desde a abertura dos Jogos Olímpicos, na última sexta: a dos refugiados. Aplaudida por longos minutos e aclamada nos jornais do mundo inteiro como o tiro certeiro do Comitê Olímpico Brasileiro. A pequena delegação de 10 atletas carrega estigmas, cicatrizes e dramas imensuráveis.

Dentre estes está o judoca PopoleMisenga, nascido na República Democrática do Congo, que vive no Brasil desde 2013, quando veio participar de campeonato mundial de judô e desertou para fugir de um estado de conflito armado que não tem fim.

Aos 9 anos de idade, Popole, já órfão de mãe, sobreviveu a um ataque que vitimou membros da sua família, fugiu e passou uma semana escondido na floresta até ser resgatado e levado para uma instituição na capital Kinshasa. Ao ser entrevistado, Popole chora e conta que tem dois irmãos, cujos rostos ele não se lembra mais.

É importante observar que a migração, quando se dá em virtude de fuga de guerra, de devastação por terremotos, envolve uma decisão tomada olhando para a terra destruída, para os perigos eminentes que a situação determina, para o sofrimento decorrente do rompimento com a família, com as tradições, de um momento para outro.

Além disso, trata-se de um tipo de migração que não favorece o retorno, no curto prazo, porque as condições para um país se refazer do caos se dão em um processo demorado, leva muitos anos e, nesse ínterim, se o refugiado pensa, sente ou é acometido por um sentimento de saudade insuportável, pelo desejo de voltar, ele entra num momento nostálgico de constatação.

Voltar para onde? O seu lugar foi destruído, sua casa não existe mais. Muitos de seus familiares estão mortos. Então, voltar para quem?

O estrangeiro ainda causa desconfiança, medo, o que leva os migrantes a conviverem com o drama dos deslocamentos clandestinos, que os expõem a sobreviverem em espaços precários e marginalizados. Apenas alguns conseguem acenderem-se socialmente. A maioria, dissolve-se na multidão, anônimos.

Dentre os haitianos destaco Joseph Handerson, um antropólogo que defendeu tese de doutorado em Antropologia Social, na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com o tema da diáspora haitiana e tem se tornado uma referência no tema migratório, sendo solicitado como palestrante em todos os fóruns que tem ocorrido no Brasil e no exterior.

Para o antropólogo Handerson, quando o haitiano parte, isso não é um ato solitário, pois, ele não parte sozinho, ele parte com a lembrança forte dos seus e com a idéia fixa de ajudar os que ficaram.Joseph Handerson mora em Macapá, onde é professor na Universidade Federal.

Há mais de 3 anos participo de reuniões, grupos de estudos, audiência pública e convivo com muitos amigos refugiados haitianos e nenhum deles fez a travessia pelo fascínio por novas experiências em terras brasileiras. O fluxo migratório haitiano foi empurrado pelo terremoto devastador ocorrido em 2010.

Os refugiados haitianos que moram em Cuiabá vivem uma relação em certo grau ainda indefinida com a cidade. Muito mais vivem entre si, carregando suas tradições e culturas, esperando que a qualquer momento os muros se rompam e eles possam efetivamente serem percebidos e incluídos na vida social e cultural as cidade. Por ora,estão estabelecendo apenas as relações necessárias para se organizarem e viverem aqui.

Estão vivendo um momento em que não falta outra coisa senão serem tratados como iguais.

Não existe base

As campanhas eleitorais devoram tempo, energia e muito recurso. Os momentos que antecedem as convenções são tensos, instáveis e criam uma divisão generalizada entre membros dos partidos e a própria população. Especula-se muito, vazam alguns nomes propositadamente como forma de avaliar a aceitação da pessoa como candidato, ou faz-se conjecturas de possíveis coligações.

Os ciclos eleitorais quase não se fecham. Termina uma eleição já estamos envolvidos em outro momento de ebulição das críticas, das discussões, das promessas. É preciso ouvir, refletir criticamente sobre os problemas que enfrentamos sem radicalismo e sem esconder-se atrás do escudo da neutralidade.

Momentos eleitorais demandam decisão. Porém, nem sempre pode-se declarar a preferência. Para preservar-se e preservar emprego sobretudo.

O período é conturbado. As pessoas atacam a partir de suas perspectivas ideológicas, o que dificulta compreender com precisão como o jogo esta sendo jogado. Nada se sabe ao certo. E essa é a tática. Usar termos abstratos, evasivos para não dar “nomes aos bois” e proteger o projeto.

Amigos se estranham. São colocados de lados opostos num jogo onde grupos entrincheirados ditam as regras nos bastidores. À luz, faz-se silêncio, prometem ouvir e respeitar “as bases”. Nas convenções e momentos pré-convenções, onde os acordos são firmados, não existe base. A maioria dos eleitores são incapazes de exercer qualquer influência apreciável nos debates e nas tomadas de decisões. Os partidos vem para as convenções com chapas fechadas, martelo batido!

Os nomes dos candidatos a vice-prefeitos são experimentados dependendo do grupo onde a conversa acontece. Cada nome que nada agrega! Minimamente deveriam ter votos, dinheiro, bom trânsito no meio político, serviço prestado à cidade. Vice é posição importante dada as vicissitudes da vida, dos projetos, das possibilidades futuras. Exemplo? Michel Temer.

Os nomes dos vereadores que já se lançaram somam o triplo das vagas que as Câmaras municipais oferecem. E todos postam-se vitoriosos. Como? Mentindo para você! Ninguém sai do nada, do mais puro anonimato sonhando ser vereador.

Tem que haver um certo nível de comprometimento, um passado dedicado a alguma causa social, um campo de conhecimento que permita pelo menos discernir o que é atribuição do legislativo municipal. Muitos candidatam-se mirando cargos no executivo municipal, outros simplesmente compram  votos.

Política,espaço de poder masculino

Se alguém te disser para ficar longe da política e mesmo que se enumere mil razões para que você o faça, não vire as costas para a realidade de que as mulheres são a maioria dos eleitores brasileiros, que existem no país mais de 6 milhões de mulheres a mais do que homens, que quase 40% destas mulheres são efetivamente as responsáveis pelo sustento de suas famílias.

Considere ainda que a expectativa de vida das mulheres elevou-se a um patamar de mais de 77 anos em média e, embora tenha se registrado aumento da participação das mulheres no processo eleitoral de 2014, os números ainda estão bem abaixo do que preceitua a própria lei eleitoral e poucas, muito poucas mulheres se elegeram. Estranho? Nem tanto, num país onde não se cumpre o estabelecido nos estatutos partidários nem na legislação.

A lei eleitoral brasileira está morta, inexiste. O Ministro do STF Marco Aurélio, embora pregue punição aos partidos pelo descumprimento da lei, laconicamente reconhece que, na prática, os partidos não investem e nem garantem condições mínimas de estruturas de campanhas para as mulheres candidatas, preferem registrar candidatas fictícias para burlar a lei que os obriga a preencher o mínimo de 30% das vagas com mulheres, a fazer o repasse de pelo menos 5% dos recursos do fundo partidário para criação de programas de promoção e difusão da participação política das mulheres. Parece pouco, mas nem isso acontece.

Não é bem verdade que o voto é nossa única arma e oportunidade para mudar, para indicar o rumo que queremos para nossa cidade e para nosso país. Certamente há mil outras formas de atuação que também fazem a diferença, que podem promover mudanças substanciais. O consenso é que as mudanças precisam acontecer nas bases onde mulheres valorosas são líderes comunitárias, presidentes de clubes de serviços, organizadoras de reuniões.

A participação feminina não pode continuar nesse desempenho pequeno, não atingindo sequer a marca dos 10% na Câmara Federal, mas alimentando a ilusão de uma participação legítima, quando no máximo, servimos para legitimar as candidaturas masculinas. Ciente dessa necessidade, a Secretaria da Mulher da Câmara dos Deputados tem promovido encontros e incentivado a ampliação da participação feminina na política de modo geral.

Mas com o corporativismo masculino instalado no Congresso Nacional, qualquer mudança que realmente altere as regras do jogo para torná-lo igualitário, parece improvável. Este ano, tem eleições para as Câmaras Municipais e os números que o País apresenta são vergonhosos. De todos os vereadores eleitos no Brasil, apenas 12% são mulheres e na eleição de 2014 cinco estados não elegeram nenhuma mulher para a Câmara Federal e entre eles está nosso querido estado de Mato Grosso. (os outros são: Sergipe, Paraíba, Espírito Santo e Alagoas).

Pelo que se ouve e se vê, as mulheres continuarão no backstage, organizando comitês, reuniões, balançando bandeiras e pregando cartazes.

Senso de urgência

Anúncios sugerem que devemos sempre escolher o caminho da felicidade; que devemos nos amar antes de amar os outros; dar a volta por cima e recomeçar dos escombros; escolher um estilo de vida saudável, exemplificado pela imagem de uma bela mulher de branco, em pose de yoga numa praia. Como? Alguém em sã consciência optaria por um caminho oposto à felicidade?

A ideologia da urgência é o sintoma de uma vida vivida sem perder tempo com coisas de pouca importância. Significa redirecionar energia para gastar com o que dá sentido à vida; significa parar de sonhar, sonhar e sonhar com o que não se tem, com o que pode-se levar anos para conseguir e não viver para desfrutar. O que é importante deve ser também urgente para nós.

Estado de urgência não significa arroubos de precipitação. E talvez, por não compreender que a impermanência permeia todos os aspectos da vida, nos lançamos em atitudes cegas, numa luta de caráter implacável e o que se segue é a corrida para se ter qualquer chance no futuro. Mas se falamos em impermanência, pode nem haver futuro.

A urgência de se viver não deve nos empurrar para carreiras lucrativas, que não sejam igualmente fontes de prazer. Ao fecharmos os olhos, não podemos estar receosos de adentrar os períodos inevitáveis da rebeldia, da transformação, do comprometimento, do envelhecimento e da morte. Os ciclos se cumprem, quer você viva com assombroso pesar do passar das horas, engajando-se em várias direções ou não.

Os rigores do trabalho, da falta de tempo, a precariedade da vida cotidiana, consumida pela incerteza, levam-nos a um esforço solitário para sobreviver, respondendo às expectativas que nascem nos outros. Tudo é feito num desatino que justifica-se pela busca desesperada pela realização pessoal. Isto é absolutamente perturbador, até porque sabemos que não temos controle exato pelo desenrolar de nossas próprias vidas.

Avilta-nos a ideia de que temos sido coisa alguma em função da própria vontade e sim, em função das oportunidades que temos tido. Entretanto, a mera sobrevivência não pode ser o único norte a justificar a vida.

Devemos estar cientes e aceitar que nosso tempo não é para ser consumido ignorando os assuntos problemáticos, perdendo-nos em distrações artificiais.

É fina a linha que define o estado de urgência e os momentos frenéticos que passamos a andar em círculos, estressados, ansiosos, irritados e doentes. Viver com significativo senso de urgência é redimensionar a vida, mudar as prioridades, estar firme no presente e não tomar nada como garantido.

Bagagens desnecessárias

Tenho amigos indianos que ajudam-me a interpretar textos sobre Budismo. Estudamos em inglês através de um site que compartilhamos, aos sábados bem cedinho devido ao fuso horário. Mona é imprescindível para meus estudos e meu propósito de viver e morrer sem sofrimentos desnecessários.

Estávamos lendo um trecho do belo “Livro Tibetano de Viver e Morrer”, quando Mona falou sobre o sonho de “todos” os indianos: morrer em Varanasi, a cidade mais sagrada da índia, enorme e localizada as margens do mais sagrado ainda, Rio Ganges.

Kashi Labh Mukti Bhawan, fundada em 1908, é uma das três casas na cidade onde as pessoas se hospedam para esperar a morte. Fazendeiros ricos, despem-se de suas fortunas e hospedam-se lado a lado de pobres indigentes que também aguardam pacientemente a hora de partir.

É um lugar, segundo Mona, onde não entra-se com bagagens materiais e o propósito da casa é também livrar as pessoas das bagagens e dos sobrepesos emocionais ou espirituais que carregam. Há paz, silêncio e preces. Os amigos espirituais leem poemas de amor, executam musicas e ficam em volta repetindo mantras, inspirando um ambiente sem pavores.

Nos momentos finais, famílias são chamadas para resolver conflitos, para perdoar e serem perdoados e depois, velar o morto, que quase sempre parte antes de duas semanas na casa.

Certa vez, ao entrevistar o administrador da casa, Mona, ouviu que as pessoas deveriam deixar pelos caminhos as bagagens desnecessárias, pois a vida é um ato de escalar montanhas e as ilusões, os arrependimentos e amarguras que carregamos afeta a escalada e influência todo o ambiente por onde transitamos.

Porém, a maioria das pessoas vai acumulando bagagem material e espiritual e no final não sabem como livrar-se delas e vão carregando o peso concentrando-se apenas nos aspectos negativos da vida.

Ensina que devemos agir sobre o que realmente importa, que devemos vigiar nossas condutas e trabalhar no sentido de sermos justos, compassivos, verdadeiros e honestos cada vez que somos desafiados.

E se é de viver em paz que estamos falando, precisamos reduzir os conflitos, alguns criados pela própria mente. É fundamental compreender porque as pessoas maltratam umas as outras, por que muitos caminhos já foram tentados para trazer a paz ao mundo; criaram organizações, assinaram tratados em reuniões internacionais intermináveis, mas ainda há dificuldades e desacordos. Ainda assim, a ganância pelo poder pesa sobre os ombros dos homens e o ódio joga um contra o outro.

Há como mudar as leis, mas a verdadeira mudança tem que acontecer dentro das pessoas, como um compromisso de não se dobrar ao peso do desespero  e lutar com determinação contra a opressão causada pelas incompatibilidades das ideologias, das crenças e dos comportamentos inadequados.