O mundo avança imperfeito e perigoso

Em novembro de 2020, a polícia francesa intimou um casal para prestar depoimento. O homem estava sendo acusado por um segurança haver tirado fotos debaixo das saias de algumas mulheres no supermercado onde ele trabalhava, três meses atrás. Mas porque a mulher havia sido intimada a acompanhar o marido? Porque durante as investigações do caso a polícia encontrou um arquivo titulado “abusos” em um drive USB conectado ao computador do marido, que continha 20 mil imagens e filmes da esposa sendo sistematicamente estuprada pelo marido e por outros homens que ele recrutava.

A mulher era drogada até a inconsciência. Ela disse que mal se reconheceu nas imagens, mas o marido estava presente em todas os filmes e fotos dos estupros reiterados, cometidos contra seu corpo inerte. O inferno durou dez anos, a mulher se chama Gisèle Pelicot, tem 71 anos e nesta semana compareceu ao tribunal, onde renunciou ao direito ao anonimato, para que julgamento de seus algozes fosse realizado em público, para encarar 51 dos seus agressores, incluindo o ex-marido, no início dos julgamentos.

Parece tenso e desnecessário detalhar o caso? Não. Não podemos e não devemos escamotear a atrocidade cometida contra essa mulher que fora sacrificada em nome da perversão e da crueldade. Casada com Dominique Pelicot por quase 50 anos, várias vezes esteve doente, contaminada com doenças sexualmente transmissíveis, episódios de perda de memória, perda de peso. Destruída ouviu o marido confessar o crime e admitir ter recrutado mais de 100 homens ao longo dos anos para a violarem. O casal tem três filhos adultos, que estarrecidos acompanham a mãe no julgamento, onde ouviram o pai afirmar: “Eu a colocava para dormir, oferecia-a numa sala bate-papo adulto e filmava tudo”.

O mundo continua sendo uma terra hostil para as mulheres e essa semana, chocou-me o nível da perversidade do crime praticado contra a atleta olímpica de Uganda, Rebecca Cheptegei, que competiu na França mês passado, cujo namorado, queniano, num ato covarde de desmedida violência cobriu-lhe o corpo com gasolina e ateou fogo. Sexta-feira (6), na cidade de Jaciara um homem assassinou a tiros a ex-mulher na frente dos filhos, arrastou o corpo até a casa do namorado dela e o matou. Juntou os dois corpos e ateou fogo. Vês? A modalidade da perversidade é mesma no Quênia e em Mato Grosso.

A observação da multiplicidade das formas de violência, o espaço de tempo que sequer existe entre uma crueldade e outra geram desgaste emocional profundo nas mulheres. Há medo de romper, medo de falar, medo de ser desqualificada e julgada.

Não está fácil romper o ciclo da violência contra a mulher porque os agressores permeiam todos os espaços da vida social e familiar, porque os agressores também frequentam espaços onde se debate os direitos e liberdades da mulher, porque estamos debatendo o tema em ambientes majoritariamente repletos de mulheres e não são as mulheres que torturam, que ateiam fogo e que assediam. É de uma tristeza indescritível ver o Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Silvio Almeida ser demitido do cargo e sair pela porta do fundo, com reputação maculada com diversas acusações de assédio sexual.

Pelo que se lê, o ex-ministro deveria ter sido demitido há meses. Não se pode relativizar, ignorar a gravidade das denúncias numa questão tão delicada. E de só haver denúncias, mesmo antes de serem investigadas, já deveria ter sido afastado para produzir sua defesa com seus próprios meios, sem o uso da máquina pública. Aqui não cabe protecionismo por ser o acusado um homem negro. A luta é denunciar, cobrar punição pelos crimes cometidos contra as mulheres por homens de qualquer raça, credo ou posição social. 

Os cabos eleitorais com bom trabalho de base

Somos atraídos por políticos que nos inspiram e são bons em comunicar no que acreditam, porém, há uma leva de candidatos sem perfil, sem conteúdo, sem empatia e sem conexão com o eleitor, sem pautas prioritárias tentando conseguir votos para serem eleitos. Campanhas há certo tempo têm ligação muito intrínseca com as redes sociais, que devidamente impulsionadas podem proporcionar ao candidato, com ou sem conteúdo, uma visibilidade enorme.

Após duas semanas, vencidas as limitações da lei eleitoral, as dificuldades burocráticas e de planejamento, os candidatos estão nas ruas com adesivaço, bandeiraço, reuniões filtradas nas residências de apoiadores nos bairros mais distantes do centro de Cuiabá, tentando exibir campanhas volumosas. Liguei para um amigo, liderança importante no movimento comunitário e ouvi dele a confirmação de um comportamento que observo; os voluntários de campanha, fora do grupo familiar e de amigos, são pouquíssimos.

Me disse o líder comunitário que as mesmas pessoas frequentam reuniões de vários candidatos que disputam a vereador até que sejam contratadas como cabo eleitoral por um ou outro. É um engano crer que estas pessoas desenvolvam vínculo com o candidato e suas bandeiras. Quando surgiram os cabos eleitorais eram normalmente militantes dos partidos dos candidatos, hoje, considerados ultrapassados, a grande maioria são contratados, remunerados ou não e quase nunca tem ligação com a militância do partido e atuam na faixa intermediária fazendo a conexão entre o candidato e a população, grande parte, sem conhecimento das regras eleitorais, da linha ideológica do partido e do candidato para quem pede votos. Praticamente apenas o cabo eleitoral com bom trabalho de base em um bairro importante, abre portas para o candidato.  

Certa vez li uma entrevista com ex-governador de Rondônia e senador, Confúcio Moura, onde ele dizia: “sua campanha política inicia no dia que você nasce e vai crescendo a cada passo, de acordo com os sentimentos e ações que permeiam seu crescimento pessoal e sua posição política, que a eleição se ganha muito antes do pleito, com ações sociais, participando de reuniões em organizações de bairro.”

O passado do político tem que ajudá-lo a neutralizar a tempestade ininterrupta de ´fake news´, a falta de afinidade de muitos colaboradores que sequer conseguem repetir meia dúzia de propostas do candidato. A conquista do espaço eleitoral tem que refletir a identidade do candidato, porém, o tempo exíguo joga para as mídias sociais ou pessoas desqualificadas o papel de divulgar e promover as ações da campanha. Marcelo Vitorino, em artigo recente e direcionado a eleição municipal, disse que não adianta correr desordenadamente, queimando etapas, querendo estar em todos os lugares, sem antes sensibilizar e motivar o eleitor com suas propostas. A pressa é inimiga da vitória, ensina Vitorino.

Sexta-feira passada iniciou o horário político nos meios de comunicação tradicional e agora candidatas e candidatos aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador podem realizar propaganda eleitoral nas ruas, na internet e no horário eleitoral gratuito. Meios para se tornar conhecido tem, a propaganda eleitoral é uma ferramenta fundamental que permite que os candidatos apresentem suas propostas e ideias à população. Aí reside o problema!

Os vários níveis da participação política

Reclamações sobre a perda de interesse pela política são ouvidas por toda parte. Depois ouve-se o discurso sobre a crise de representação de inúmeras categorias. Em muitos casos a sub-representação deriva da não participação. Seria possível esquecer a política?

A política, antes, é o mundo que emerge entre nós, o mundo que emerge através das nossas interações uns com os outros, ou através das formas como as nossas ações e perspectivas individuais são agregadas em coletividades, embora alguns cientistas políticos a definam simplesmente como o exercício do poder, o poder como influência sobre as ações de outro, poder de moldar agendas e preferências políticas, ou como foi definida pelo cientista político Harold Lasswell: a política trata de “quem recebe o quê, quando e como”.

Faz realmente diferença em nossas vidas escolhermos quem nos governa. Benjamin Constant no livro Escritos de política disse ser a democracia a autoridade depositada nas mãos de todos. Os cidadãos possuem direitos individuais que estão acima da autoridade que os governa, como a liberdade individual, liberdade de opinião e liberdade religiosa. Para alguns, o critério central de uma democracia é o poder dos cidadãos escolherem o seu governo através de eleições competitivas; para outros, este fator é menos importante do que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos na obtenção de posições de liderança política; para outros, estes dois critérios perdem a importância se a participação efetiva dos cidadãos nos vários níveis da vida política não for alcançada.

Chega da visão fatalista de que não temos escolhas reais a fazer na política. Um voto não elege diretamente o prefeito, o vereador, mas se o seu voto se juntar a um número considerável de outros, o seu voto será sem dúvida importante no resultado eleitoral final. Todos podemos empreender ações para influenciar diretamente o envolvimento político através das instituições eleitorais. Precisamos nos envolver não apenas por causa dos ideais sublimes da democracia, mas porque é nossa responsabilidade como cidadãos. Devemos prestar mais atenção na verdade, nas propostas porque, gostemos ou não de política, os políticos serão eleitos, irão cobrar impostos e definir novas as regras que afetarão a vida de todos.

Precisamos ler, estudar para entender a efervescência singular da movimentação política, afinal recai sobre o mês de agosto a expectativa dos registros de candidaturas, acesso aos recursos do fundo partidário, abertura de contas, confecção de material visual, gravações decepção com aliados, rasteira partidária. Agosto parece não ter fim!

As pessoas normais não são especialistas na maioria das questões políticas, mas entendem bem as grandes divisões nas posições políticas de progressistas e conservadores, as redes sociais e a proliferação de canais de mídia através da Internet e da TV desempenharam um papel importante, permitindo que as pessoas se comunicassem com pessoas como elas, sem perder o olhar para os que pensam diferente. Ou seja, as pessoas estão gravitando nos espaços dos seus iguais, mas estão lendo sobre os outros candidatos também. Como li dias atrás, numa estratégia de cima para baixo, os partidos estão espalhando combustível dentro de seus campos, promovendo a divisão entre os candidatos em busca de assegurar crescimento das bancadas.

O panorama cultural de uma sociedade machista

O Ministério das Mulheres lançou a campanha “Feminicídio Zero – Nenhuma violência contra a mulher deve ser tolerada”  na comemoração dos 18 anos da Lei Maria da Penha (Lei 11.340), no momento em que não se pode negar o aumento nos casos de violência contra a mulher. O número 180, em que o governo federal recebe denúncias, registrou um aumento de 30% nos atendimentos de 2022 a 2023 e o último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, aponta que todas as formas de violência contra a mulher aumentaram em 2023.

O senador Paulo Paim, presidente por aclamação da Comissão de Direitos Humanos do Senado, propõe uma revisão da Lei, dizendo que país não pode mais se calar diante desse cenário de violência, ódio e opressão contra a mulher. Um cenário de machismo, misoginia, preconceito, discriminação. A senadora Leila Barros, de acordo com a Agência Senado, acaba de relatar a lei que destina 5% do Fundo Nacional de Segurança Pública ao enfrentamento da violência contra a mulher. Leila está trabalhando, junto às Bancadas Femininas da Câmara e do Senado, para propor melhorias na lei.

A lei Maria da Penha cria mecanismos para coibir e prevenir a violência doméstica e familiar contra a mulher, prevê a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher e estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência doméstica e familiar.  Estão previstos cinco tipos de violência doméstica e familiar contra a mulher na Lei Maria da Penha: física, psicológica, moral, sexual e patrimonial. Ao longo dos anos a Lei recebeu algumas modificações e é considerada um divisor de águas na forma como o Brasil encara e pune os casos de violência contra a mulher.

Esta lei homenageia Maria da Penha, uma mulher que foi protagonista de um caso terrível de violência doméstica e familiar, sofreu duas tentativas de homicídio pelo ex-marido Marco Antônio Heredia Viveros, em 1983. A primeira tentativa foi com arma de fogo e a segunda por eletrocussão e afogamento. As tentativas de homicídio resultaram em danos irreversíveis à sua saúde. Sobrevivente, paraplégica, transformou sua tragédia e dor em luta e solidariedade. Tardou em cobrar a justiça, somente 19 anos depois, viu seu agressor ser condenado a seis anos de prisão, cumprindo apenas um terço da pena.

Por mais que tenha sido um divisor de águas no despertar para o problema da violência doméstica, por mais que vislumbre ações de acolhimento às mulheres vítimas de violência, por mais que tenha sido uma lei elaborada por muitas mãos, um grupo de trabalho com entidades civis, poder executivo, parlamentares, que entre tantas informações, trouxe o caso da Sra Maria da Penha Maia Fernandes, os homens não captaram a mensagem, tampouco se intimidaram com o recrudescimento da punição e segundo uma pesquisa feito pelo Senado Federal, poucas mulheres brasileiras, (apenas 24%) conhecem o teor e a abrangência da lei.

Nas páginas do Instituto Maria da Penha li que vivemos ainda sob o signo da cultura da violência e discriminação, peças que compõem o panorama cultural de uma sociedade que legitima, banaliza, promove e silencia diante da violência contra a mulher. Especificamente sobre a violência doméstica, é citado um estudo da psicóloga americana Lenore Walker, que identificou o ciclo da violência ocorre em três estágios sombrios e perceptíveis.

Aumento da tensão – Nesse primeiro momento, o agressor mostra-se tenso e irritado por coisas insignificantes, chegando a ter acessos de raiva. Ele humilha a vítima, faz ameaças e destrói objetos.

Ato de violência – Esta fase corresponde à explosão do agressor, a falta de controle chega ao limite e leva ao ato violento. A tensão acumulada se materializa em violência verbal, física, psicológica, moral ou patrimonial.

Arrependimento e comportamento carinhoso – Fase conhecida como “lua de mel”, e se caracteriza pelo arrependimento do agressor, que se torna amável para conseguir a reconciliação. A mulher se sente confusa e pressionada. Mas precisa ser encorajada a quebrar o ciclo o quanto antes.

O lugar mais alto do pódio é para todos os tipos de corpos

Quando você pensar em fazer um comentário preconceituoso, racista, pensa bem e não o faça. Acompanhando as notícias sobre os jogos Olímpicos, deparei-me com pessoas preocupadas, fazendo ironia comparando o desempenho maravilhoso da ginasta número 1 do mundo, Simone Biles e seu cabelo desalinhado nas apresentações. Todos os comentários que li são de mulheres. O conjunto que a ginasta põe diante dos nossos olhos para julgamentos, é seu corpo como instrumento de realizações incríveis na barra, no solo e no salto.

Criticar o cabelo de uma mulher negra aplaudida efusivamente pelo mundo inteiro não faz sentido.

Nem todas as atletas têm cara e corpo de atleta, segundo o imaginário popular. Criticada também nas mídias Beatriz Souza, a única medalhista de ouro do Brasil até o momento, uma mulher negra que não permitiu que seu corpo fora dos padrões estabelecidos a afastasse do universo das artes marciais. Pesando 135 quilos, é a única brasileira a conquistar uma medalha de ouro em competições individuais em sua estreia nos Jogos Olímpicos e deixa cravado uma mensagem de que o esporte e o mais alto lugar no pódio é para todos os tipos de corpos.

Os telespectadores dos Jogos assistiram o futebol e o hino argentino serem vaiados em Paris, numa retaliação as atitudes racistas, atravessadas de xenofobia exibidas pelos argentinos no final da Copa América, dias antes de começar as Olimpíadas, com insultos aos jogadores negros, filhos de migrantes que atuam na seleção francesa; “ Escute, rola a bola/ jogam na França, mas são todos de Angola/que bom que eles vão correr/ a mãe deles é nigeriana e o pai camaronês/mas no passaporte: francês”.

Numa expressão corajosa, diante de pessoas que mal sabem a localização da República Democrática do Congo, a boxeadora Marcelat Sakobi levou dois dedos às têmporas, simulando uma execução e a outra mão, calando-lhe a boca, denunciando a violência dos conflitos armados que até o ano passado, deixou 7 milhões de pessoas desabrigadas no país.  

Os Jogos de Paris estão sendo aclamados como as Olimpíadas da igualdade de gênero. O Comitê Olímpico Internacional divulgou que este ano alcançou a plena paridade de gênero, o que define o estabelecimento de uma cota para distribuir vagas igualmente para atletas femininos e masculinos. Os eventos desportivos internacionais progrediram significativamente, em comparação com a primeira vez que as mulheres competiram nos Jogos modernos em 1900.

Mesmo assim, os estereótipos de gênero persistem: um dia após o início dos Jogos, um comentador do canal Eurosport fez uma observação sexista sobre a equipe   de natação australiana que tinha acabado de garantir uma medalha de ouro, a emissora anunciou o desligamento do repórter dos Jogos Olímpicos.

No dia seguinte, um funcionário do COI, alertou as emissoras contra observações e imagens que remetem a vestígios sexistas de atletas femininas, como por exemplo, a forma que as câmeras enquadram os corpos de atletas homens e mulheres.

Problemas sempre vão existir onde se reúnem pessoas de culturas distintas, porém, julgamentos, ironias, xingamentos racistas tem a mesma conotação negativa em toda parte do mundo e devem ser evitados.

Os impactos do isolamento social

Robert Putnam é um cientista político americano da Universidade de Harvard, tem 83 anos. No ano 2000 ele escreveu o livro “Bowling Alone: ​​​​The Collapse and Revival of American Community”, no qual demonstrou com dados abundantes que a América estava de tornando uma nação de pessoas solitárias, que se esquivavam de se associar a organizações sociais, religiosas e políticas, por razões, entre outras, a perda de confiança nos outros indivíduos e nas instituições. O trabalho de Putnam atraiu a atenção da Academia, dos políticos e inclusive do presidente Bill Clinton, que na época, o convidou para uma reunião na Casa Branca. Comprei a edição atualizada do livro em inglês, onde Putnam observa que a nação se tornou mais dividida, mais solitária e menos confiante quanto ao caminho a seguir desde que escreveu o livro.  Ele alerta que o advento do isolamento social repercute em toda América e que as coisas só pioram.

O trabalho publicado no livro é sobre o poder das conexões, das intromissões nas coisas públicas, as críticas, o posicionamento firme diante de fatos públicos, dos escritos, colaboração em projetos sociais, políticos ou religiosos. Uma consequência marcante do declínio das conexões é a desconfiança generalizada do povo nas suas instituições democráticas. Putnam não considerou este problema limitado à esfera política. A incapacidade de as pessoas se conectarem com amigos, familiares e associações profissionais tem impacto na saúde, produtividade e melhoria nos serviços públicos.

Lembra Putnam que o voto é, de longe, a forma mais comum de atividade política, porém, votar não é necessariamente o único modo de participação política. Na verdade, se não estivermos engajados em um projeto, se não entendermos como de desenrola o processo político, quem está no controle dos partidos, quem são e o que pensam nossos representantes, estamos caminhando de encontro a um fato complexo e sem volta; a perda maciça de capital social, um vocabulário usado para definir as fortes relações comunitárias e a confiança mútua entre indivíduos, confiança na sociedade e no governo.

O debate poderoso vindo de todas as divisões da comunidade para ensinar e ampliar nossa identidade e reciprocidade está se diluindo ano após ano e 24 anos depois da publicação do livro, o que vê são partidos políticos financiadores de campanhas bem-organizadas e profissionalizadas. A comercialização das campanhas acaba produzindo contatos aleatórios em grupos de mídias sociais e o declínio do envolvimento do cidadão com o voto é perfeitamente compreensível no sentido de que a participação política tem sido paga e quanto mais nossas atividades dependem das ações dos outros, maior será a possibilidade de desistirmos e essa mentalidade impera em todos os níveis da hierarquia educacional.

As transformações sociais são inevitáveis e o estudo aponta que o isolamento social atinge todos as faces da nossa vida, em toda a América, embora saibamos que a solidão faz mal à saúde, nos torna vulneráveis aos apelos de argumentações nacionalistas e lembra Putnam que os recrutas fervorosos para o Partido Nazista na década de 1930, eram jovens alemães solitários.

Precisamos construir laços com pessoas diferentes, de geração diferente, de ponto de vista diverso, porque a vida não é vivida numa simples dimensão nem esperamos que tudo mude na mesma direção e intensidade, mas essas anomalias (solidão, diluição do capital social) nos dão pistas importantes do que pode estar acontecendo. Não vamos resolver a polarização, a desigualdade, o isolamento social até que, antes de tudo, comecemos a sentir que temos a obrigação de cuidar das outras pessoas. Somente conectando-nos com outros é que generalizamos nossas experiências.

Em entrevista, Putnam lamenta ter trabalhado durante a maior parte da vida acadêmica, alertando e demonstrando cientificamente a necessidade de se construir uma vida comunitária melhor, mais produtiva, mais igualitária e mais conectada, porém, aos 83 anos olha para trás e sente-se pessimista quanto ao futuro, essencialmente porque as pessoas não parecem dispostas a conviver, a juntar-se em projetos de pessoas que ameaçam suas próprias ambições.

O fenômeno da violência em suas múltiplas formas

Quando se anuncia a divulgação pública do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, um misto de muita aflição e pouca esperança toma conta de quem tem o hábito lê-lo e consultá-lo. O Anuário se baseia em informações fornecidas pelas secretarias de segurança pública estaduais, pelas polícias federal, civis e militares e outras fontes oficiais da Segurança Pública. Além de ser um alerta, a publicação traz conhecimento, incentiva a avaliação das políticas públicas em execução e promove o debate qualificado sobre a formas de violência percebidas no país e indica caminho para preveni-las, evidenciando que as complicações transversais da violência perpassam por elevação de gastos nas áreas da segurança, saúde, educação, assistência social e outras.

A 18ª edição do Anuário saiu esta semana, com 404 páginas e as informações não se distanciam muito do que lemos e percebemos no dia a dia e o cenário segue desalentador para mulheres em todas as regiões do país e lá estamos nós, o estado de Mato Grosso entre os 17 estados com índices de feminicídios acima da média nacional.

No Brasil, somando todas as modalidades de violência sofrida, 1milhão, duzentos e trinta e oito mil mulheres foram vítimas de agressão em 2023; 1.467 mulheres foram mortas por razões de gênero, o maior número já registrado desde a publicação da lei nº 13.104/2015, que tipifica o crime de feminicídio e 12 das mulheres mortas tinham medida protetiva contra o agressor no momento em que foi morta. Enquanto estudava o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2024, uma mulher jovem de 26 anos foi cruelmente assassinada na zona rural de Nova Mutum. Existir enquanto mulher tem sido uma sina perigosa, porque a violência explodiu em todos os contextos analisados. As agressões em contexto de violência doméstica aumentaram, assim como, o número de mulheres ameaçadas que registraram a ocorrência junto à polícia.

Enquanto não for possível reverter a reação agressiva dos homens em resposta aos avanços dos direitos e da igualdade de gênero, a violência contra a mulher pode continuar aumentando.

O sentimento é de vergonha, mas o Fórum Brasileiro de Segurança Pública ao divulgar para a sociedade o Anuário, revela que o Brasil atingiu um novo recorde de estupros. Com a estatística atualizada foram 83.988 vítimas; o país registrou 1 crime de estupro a cada 6 minutos segundo os registros policiais e a maioria das vítimas são crianças, estupradas dentro de casa, os abusos continuam sendo descobertos após reiterados episódios de violência sexual. A pena para o estuprador, por sua vez, não sobre, continua a mesma, é de no máximo 15 anos, na hipótese em que a vítima for menor de 14 anos,

Pela primeira vez o Fórum Brasileiro de Segurança Pública analisou as taxas de estupro por município, e apresentou a lista das 50 cidades com maiores taxas de violência sexual para as cidades com população igual ou superior a 100 mil habitantes. A maior taxa de estupro e estupro de vulnerável do país recai sobre a capital nacional do agronegócio, Sorriso, aqui no estado, com 113,9 estupros para cada 100 mil habitantes, seguida de Porto Velho, capital de Rondônia. É preciso aprofundar os estudos, debruçar sobre as pesquisas para entender o que está acontecendo com Sorriso e porque sua população ainda não promoveu um levante contra esse estado de destruição da reputação de uma cidade promissora. O governador Mauro Mendes afirma que tem feito investimento robusto na segurança pública e atribui os índices de violência à disputas entre organizações criminosas. Outros fatores, claro, devem ter contribuído para elevar a cidade de Sorriso a tão vergonhoso ranking. Entre os municípios com elevadas taxas de estupro em Mato Grosso, os dados citam Cuiabá, Sinop e Tangará da Serra.

Há leis, prisões são feitas, todavia, existem dois fatores angustiantes: considerando todas os casos e faixas etárias, familiares são os agressores em mais de 64% dos casos de violência sexual no país. Segundo, não há reeducação das pessoas privadas de liberdade, abrindo margem para a cooptação por parte das mais de 72 facções que atuam no sistema prisional do país. Ou seja, os governos perderam a capacidade de controlar os espaços de privação de liberdade de 852.010 pessoas e grande parte está a serviço do crime organizado. Negligência grande, caos inevitável!

Excesso de polarização deixa pouco espaço para debater ideias

A polarização é percebida sobretudo quando os candidatos usam suas estratégias muito mais para ativar a rejeição dos outros que para trazer uma agenda propositiva. A polarização de campanhas anteriores está ainda vigente da campanha de 2024 e isso incomoda quem espera espaço para conversas propositivas, pautas de real necessidade e interesse da população.

Os candidatos só pensam em se posicionar de um lado ou de outro. Em Brasília ficam contando e publicando, recontando e republicando que as bancadas lideradas por Lula e Bolsonaro são as que apresentam maior número de candidatos a prefeitos. Só na Câmara Federal 23 deputados do PL declararam ser candidatos a prefeitos e 19 do PT. Aliados dos dois partidos divulgam que ao todo cerca de 66 municípios brasileiros deverão ter um congressista aliados de um e outro concorrendo ao pleito, sobretudo nas capitais e maiores colégios eleitorais.

O eleitor acabou sendo devorado pelo partidarismo, pelo personalismo das duas ondas. Sem racionalidade, não quer sequer escutar propostas, para ter argumento para travar debate.

Estudos internacionais há muito indicam que cada US$ 1 (dólar) investido em crianças nos seus primeiros anos de vida resulta em um retorno futuro de US$ 17 para a sociedade. Priorizar os investimentos na educação infantil é fundamental para o crescimento econômico de qualquer país, então, vamos falar sobre educação infantil nas campanhas. O TSE publicou essa semana uma análise do cientista político Murilo Medeiros, da UNB, que reforça a responsabilidade do município na oferta da educação de base, que vai desde a creche, a pré-escola e ensino fundamental.

Esse é o desafio maior e deveria ser a preocupação maior dos novos postulantes a gestores dos municípios: prover um processo de aprendizagem de qualidade diante das limitações financeiras rotineiramente impostas aos municípios. O cientista político oferece a análise que uma criança bem acolhida em creches e pré-escolas, posteriormente, será um estudante com notas mais altas e um trabalhador com mais chance de inserção no mercado de trabalho. Investir na educação infantil é o verdadeiro caminho da prosperidade nacional.

A menos de 3 meses das eleições há uma série de matérias divulgando pesquisas e análises sobre as prioridades, de modo geral, para as eleições de 2024. Para Renato Dorgan, cientista político, especialista em estratégia política do Instituto Travessia, haverá cobranças dos eleitores sobre a gestão da prefeitura e a mobilidade urbana. As pesquisas indicam que voltaremos a discutir a cidade e sua conservação, diante das reclamações de ônibus lotados e da percepção de piora da segurança pública, principalmente nas cidades dominadas por facções. Segurança pública, embora não seja atribuição direta do prefeito é uma preocupação destacada nas pesquisas.

A bolha na qual vivem a maioria dos parlamentares em Brasília, sobretudo na Câmara dos Deputados, está nada preocupada com a pauta das eleições municipais. Acabam de votar e aprovar com folga a PEC da Anistia, que concede perdão vergonhoso aos partidos políticos, para que passem a borracha em suas dívidas, a maioria são multas por irregularidades cometidas em eleições, como prestação de contas, fraudes com candidatas laranjas e tudo mais. Votação de políticas erráticas, de críticas merecidas.

No caso da votação da PEC da Anistia não houve polarização, aliados do presidente e do ex-presidente se uniram na patuscada.

Parlamentares de 20 países defendem o protagonismo da mulher na POLÍTICA

Os dados do Observatório Nacional da Mulher na Política apontam que o Brasil tem um dos menores índices de representação de mulheres nos parlamentos do mundo. Ocupa a posição 133 entre 173 países. A Secretaria da Mulher da Câmara Federal promove estudos e pesquisas para entender as razões e traçar estratégias para superar a sub-representação das mulheres na política brasileira, uma arena que tem sido historicamente dominada pelos homens.

A verdade inconveniente no Brasil é que os partidos políticos são parte central do problema, já que são a porta de entrada para a política formal, uma vez que recrutam e selecionam candidatos para os cargos eletivos. Nesta perspectiva, é tentador perguntar se há urgência na pauta dos partidos em abrir a porta à participação igualitária das mulheres, pois é onde elas precisam transitar primeiro antes de irem para uma disputa.

Apesar da nossa insignificância no ranking mundial, o Brasil sediou um encontro inédito, liderado e conduzido por mulheres que reuniu 170 parlamentares de 20 países (do G-20) no primeiro encontro de representantes mulheres das melhores economias do mundo. O encontro, coordenado pela Deputada Federal Benedita da Silva, coordenadora da Bancada Feminina na Câmara, aconteceu em Maceió, semana passada, sob o lema “Construindo um Mundo Justo e um Planeta Sustentável”. Também estavam presentes, representantes de organismos internacionais importantes, como ONU, Mercosul, União Europeia, para em coro defenderam a ampliação da participação feminina nas agendas globais do G20, com foco na justiça climática e no combate às desigualdades.

O Presidente da Câmara dos Deputados, Arthur Lira recepcionou as parlamentares, afirmando que é preciso consolidar a participação feminina na política, na economia e na sociedade. A agenda incluiu debate acalorado sobre o aumento da representação feminina nos espaços de tomada de decisão, promoveu discussões sobre avanços legislativos e políticas públicas para as mulheres. O encontro foi pensado como um espaço e uma oportunidade para ampliar a participação das mulheres legisladoras em debates que estão no centro das atenções no mundo todo e celebrado como um marco na construção de uma forte rede global de mulheres brigando pelo protagonismo delas nas decisões políticas. E a coordenadora Benedita da Silva afirmou “que as mulheres não querem ser mais. Tampouco permitiremos ser menos, ou menores. Como mulheres parlamentares temos a missão de desafiar os estereótipos”.

É importante incluir a agenda das mulheres no centro de debates que acontecem no mundo, porque as mulheres parlamentares e profissionais de qualquer área tem se queixado da sobrecarga no contexto atual da divisão do trabalho, onde além do trabalho formal, ainda cuidam da casa e são, na maioria, responsáveis pela educação dos filhos. As parlamentares concordam que um novo cenário de lutas precisa ser construído e os principais eixos perpassam pela busca de compensação pelos impactos das mudanças climáticas; pelo comprometimento dos parlamentares em buscar junto aos países parte do G20, a inclusão dos direitos das mulheres nas pautas políticas e nos orçamentos; recomendar que os parlamentares adotem postura de reconhecimento das desigualdades de gênero; que facilitem financiamentos de programas para promover a igualdade entre homens e mulheres.

É muito importante fortalecer os parlamentos para apoiar a adoção de cotas, reserva de assentos e financiamento para aumentar a participação das mulheres no poder e alcançar a paridade em cargos eleitos e administrativos.

Desde 2015 todas as mulheres do planeta podem votar. No Brasil apenas 45 cidades brasileiras têm maioria de vereadoras nas câmaras municipais e ainda temos mais de três mil câmaras municipais que não têm sequer uma vereadora.