O descortinamento de um ato macabro

Cinco anos atrás vivenciamos o pânico de ter a morte nos espreitando à porta, devido ao processo pandêmico que demoramos a entender e a responder com responsabilidade e efetividade. No período que durou o isolamento social, o anúncio quase escandaloso do número de mortes diárias, os procedimentos de cura tão incertos quanto dolorosos, o medo de toda população do planeta se resumia ao medo de perder pessoas queridas e morrer a qualquer momento infectado pelo vírus da Covid-19.

Depois da pandemia, voltamos a perceber os outros medos que antes afloravam, retornamos ao medo insistente do recrudescimento da brutalidade contra a mulher, da necessidade mórbida de fazer o outro sangrar até despedaçar o corpo.  

O recente caso da adolescente Emelly Sena, chocou o perito criminal a ponto de ele interromper seu trabalho para se recompor emocionalmente. Foi um crime gravíssimo, onde todos os métodos de crueldade foram aplicados impiedosamente no corpo frágil e vulnerável de uma menina, de 16 anos, que estava prestes a dar à luz. Emelly foi premeditadamente atraída para o local do crime, barbaramente atacada, amarrada, enforcada, mutilada, teve a filha Liara arrancada do ventre com uma faca. A assassina abriu uma cova, depositou o corpo inerte da adolescente, limpou a cena do crime, cuidou do recém-nascido. Uma cena macabra imbricada à outra, de forma assustadora!

A ideia de que uma mulher possa ser violenta, que chegue até mesmo a matar, parece-nos perturbadora. No entanto, esse crime que acaba de afrontar nossa dignidade humana, foi cometido, declaradamente por uma mulher, possivelmente com a colaboração de um ou mais homens. Os homens cometem crimes em proporção muito maior do que as mulheres, se envolvem em mais delitos graves e agressões. A natureza feminina é de cuidar, não de ferir. E, geralmente, costuma ser assim. A violência tem sido uma especialidade masculina, mas algumas mulheres pervertem a sua própria biologia e mostra-se encaixada no mundo perverso da violência, da brutalidade.

É muito doloroso, é tenso e exaustivo ler sobre uma morte hoje, outra, amanhã logo cedo. Um pacto nacional entre parlamentares e autoridades que dirigem os órgãos de educação, segurança pública, sistema prisional, poder judiciário, saúde, direitos humanos, mães e pais precisa movimentar o país urgentemente para institucionalizar mecanismos de proteção às mulheres, porque até aqui, percebemos que não houve efetividade os bons projetos de leis, o que não desmerece as tentativas de isolar e punir os assassinos de mulheres, independente do sexo.

Crime, parcialmente resolvido, no entanto, nem a atenção da equipe médica do Hospital Santa Helena, ao minuciosamente examinar a falsa mãe e acionar a polícia, nem o trabalho perfeito, rápido e técnico das forças policiais impedirão novos casos de violência.

Onde encontraremos a fórmula de educar os homens e mulheres para que sejam bons, para que olhem uns aos outros com amor e empatia, se não, pelo menos com misericórdia? Causa estranheza e inquietação que entre os sete criminosos que marcaram a sociedade brasileira recentemente, um importante jornal destacou três mulheres; Suzane von Richtofen, Eliza Matsunaga e Ana Jatobá. Acrescentemos aí, Nataly Helen.

Até aqui nada foi concedido, tudo foi fruto de lutas

As mulheres são, pela primeira vez em cinco décadas, maioria em todas as grandes regiões do Brasil. As mulheres são mais escolarizadas que os homens, apesar de terem conquistado representatividade como gestoras, apenas 38% exercem cargos de liderança. Das 142 prefeituras de Mato Grosso, apenas 13 são administradas por mulheres. O estado tem a maior participação feminina nas Câmaras Municipais de sua história, das 1.404 vagas para vereador, 277 mulheres foram eleitas, cerca de 20% do total. Cuiabá elegeu 8 vereadoras. Há avanços aqui, retrocessos ou estagnação ali. Essa maioria da população brasileira, ainda sofre com agressões, ameaças, preconceitos, feminicídio e desigualdade salarial.

A história das mulheres foi, durante muito tempo, contada a partir do relato dos homens uma vez que a palavra era concedida somente a eles. Contam que no século XVII, havia uma crença sobre a mulher na sociedade francesa: “um animal imperfeito, sem fé, sem lei, sem medo, sem consistência”.

A incompletude citada e falta de autonomia da mulher seguiu sendo explorada pejorativamente, mesmo resguardando contexto histórico, por filósofos e sociólogos, como o francês Auguste Comte, que inicialmente descreveu as mulheres como seres biologicamente inferiores aos homens cuja missão natural era educar os filhos e zelar pelo lar para mais tarde, propor a transformação da humanidade a partir da educação das mulheres. Em Jean-Jacques Rousseau, a mulher tem mais espírito, o homem mais gênio, a mulher observa, o homem raciocina. Rousseau aconselhava que: “um deve ser ativo e forte, o outro passivo e fraco; para que um queira e possa, basta que o outro resista pouco.”

Na introdução do livro O Segundo Sexo, a filósofa francesa, Simone de Beauvoir, cita o filósofo grego Aristóteles, para quem “a mulher é fêmea em virtude de certa carência de qualidades, devemos considerar o caráter das mulheres como sofrendo de certa deficiência natural”. O filósofo alemão Arthur Schopenhauer, arremata afirmando que “a mulher sofre de uma miopia intelectual que lhe permite, por uma espécie de intuição, ver de uma maneira penetrante as coisas próximas; mas o seu horizonte é limitado, escapa-lhe o que é distante”.

O tempo passou, a participação feminina começou a ganhar destaque em algumas esferas da vida em sociedade. Porém, Simone de Beauvoir, em 1949, abordou a posição secundária da mulher em relação ao homem na sociedade da época. Uma das frases mais marcantes do livro é: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”, que serviu para a filósofa ilustrar que os papéis que associamos às mulheres não são dados a elas inerentemente, em virtude de sua biologia, mas são construídos socialmente, através de lutas e levantes diante da opressão que sofreram. As mulheres aprenderam o que devem ser na vida, que tipo de papéis podem ou não desempenhar.

Betty Friedan, jornalista e psicóloga americana escreveu “A Mística Feminina”, lançado em 1963, denunciando o vazio existencial da vida das mulheres, com a limitação de seus papéis sociais, o que deu início a uma fase radical do movimento de luta por direitos iguais entre homens e mulheres e o lançamento do livro reforçou o movimento de libertação das mulheres das amarras machistas. O livro causou forte impacto na discussão apaixonada sobre o papel das mulheres na sociedade moderna. Simone de Beauvoir e Betty Friedan são leituras imprescindíveis para se entender o contexto em que as lutas por oportunidades e reconhecimento aconteceram e para que as mulheres sigam vigilantes àquilo que tem direito, porque até aqui, quase nada foi oferecido e sim, fruto de conquistas.

A liberdade gozada pelas mulheres é o que é hoje porque o movimento feminista foi o que foi no passado. O que passou a médica e mulher admirável, ex-presidente do Chile, Michelle Bachelet, para do alto de sua experiência dizer que uma mulher na política, muda a mulher. Muitas mulheres na política, mudam a política.

O caminho está sendo pavimentado, com muitas mulheres interessantes ocupando espaços políticos. Uma deputada americana certa vez foi perguntada, com ironia por um colega parlamentar sobre a “incoerência” de ser mãe e deputada ao mesmo tempo, ao que ela respondeu: “Tenho um cérebro e um útero e sei usar os dois”. Quando uma mulher aspira um cargo político, a direção de uma empresa, a presidência de um país, ela o faz pelas mesmas razões que qualquer homem, porque ela entende e firmemente acredita que é capaz de executar bom trabalho.

Que diplomacia é essa?

No ano de 2004 fiz a primeira visita ao Palácio Itamaraty, sede do Ministério das Relações Exteriores, em Brasília, no antigo Departamento de Relações Federativas. O governo brasileiro se preparava para receber o presidente da Rússia, Vladimir Putin, em visita oficial ao país naquele ano e eu precisava aprender a receber autoridades estrangeiras em visita ao estado de Mato Grosso e os códigos de comportamento em caso de viagem oficial ao exterior. Exatamente dez anos depois, no ano de 2014, voltei ao Palácio Itamaraty para me preparar para receber as autoridades estrangeiras que viriam para assistir a Copa do Mundo em Cuiabá, além de vários embaixadores, o vice primeiro-ministro da Rússia, Arkaduy Dvorkovitvh e a Presidente do Chile, Michelle Bachelet. Graças a colaboração de um diplomata enviado para Cuiabá, conduzimos as agendas governamentais sem nenhum embaraço.

Henry Kissinger, ex-secretário de estado norte americano escreveu o livro ‘Diplomacia’, onde descreve o método estabelecido para influenciar as decisões e o comportamento de governos e povos estrangeiros por meio do diálogo, negociação e outras medidas que não envolvam violência. A arte da diplomacia, visa proteger os interesses nacionais, promover a paz e estabilidade internacional, além de fortalecer relações bilaterais e multilaterais entre os Países. O presidente americano Donald Trump, certamente não leu Kissinger, pois, deixa claro, por suas atitudes, que pouco sabe sobre diplomacia.

Em menos de 2 meses na presidência dos Estados Unidos, Donald Trump tentou constranger várias nações estrangeiras. Aleatoriamente começou a se referir ao Golfo do México, como Golfo americano; em um telefonema desrespeitoso para a primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen propôs comprar a Groenlândia, a maior ilha do mundo, um território autônomo da Dinamarca, muito rica em recursos naturais, incluindo metais de terras raras, que não está à venda. Trump apresentou ao primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, uma solução, que passa longe da diplomacia, para resolver o conflito entre israelenses e palestinos. Os Estados Unidos assumiriam o controle da Faixa de Gaza, realojaria os palestinos em alguns países e transformaria a área num resort de luxo, a “Riviera do Oriente Médio”.

Em encontro tenso, na última sexta-feira, o presidente americano, com dedo em riste, desferiu ataques grosseiros, para constranger e humilhar o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, que viajou a Washington para tratar de tema sensível, a guerra. Assunto reservado, que deveria ter sido tratado entre os chefes de estado, sem plateia e sem imprensa. Zelensky pergunta a Trump: que tipo de diplomacia se trata aqui? Trump faltou respeito do começo ao fim do encontro. Prevaleceu a arrogância e vaidade em tempo real.

A Casa Branca convidou um chefe de estado para reunião e tentou submetê-lo a pressão e chantagem. Donald Trump pressionou Zelensky a fechar um acordo sobre o acesso dos Estados Unidos aos minerais estratégicos da Ucrânia. Um acordo, segundo Trump, para compensar a grande ajuda que os EUA forneceram à Ucrânia desde a invasão da Rússia em 2022, Zelensky rejeitou e deixou a Casa Branca sem assinar o documento. Em manifestação pública, líderes de vários países se solidarizam com Zelensky após o bate-boca e reforçam a base de apoio à Ucrânia.

Plantaram até um jornalista aliado para constranger o presidente ucraniano perguntando-lhe a razão de não estar usando terno no Salão Oval da Casa Branca, quando Elon Musk frequenta o local diariamente de camiseta e com uma criança pendurada no pescoço. Que “dress code” é esse?

O processo incivilizado da violência contra a mulher

O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) assinou semana passada, um acordo de cooperação com a plataforma de entregas iFood para combater a violência contra a mulher. A plataforma vai capacitar profissionais que realizam entregas para que eles reconheçam pedidos silenciosos de socorro de mulheres que enfrentam situações de violência doméstica. Durante a assinatura do acordo, o presidente do CNJ e do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luís Roberto Barroso, disse que a violência doméstica no Brasil é uma “epidemia”, e a sociedade precisa ser mobilizada em prol do tema.

Chamou à atenção do mundo inteiro a atitude de uma famosa cantora mexicana chamada Alicia Villarreal, que ao final de um show, esta semana, ao agradecer o público, ergueu a mão, dobrou o polegar sobre a palma e fechou os dedos sobre ele, num sinal amplamente divulgado para pedir ajuda em casos de violência doméstica. O gesto feito em público, numa feira agropecuária, falou por si, se espalhou e ganhou manchete nos principais jornais, que logo noticiaram que havia uma semana a artista tinha registrado uma denúncia contra o marido e foi vista dando entrada em um hospital, com ferimentos aparentes, a cantora entrou com pedido de divórcio.

Em áudio divulgado após seu assassinato, é possível ouvir a jornalista Vanessa Ricarte, de Campo Grande, MS, reportar a um amigo, também jornalista, o seu desapontamento e esgotamento emocional com o atendimento que recebera quando foi registrar a ocorrência de violência doméstica e pedir medida protetiva contra o noivo na Delegacia Especializada em Atendimento à Mulher. A jornalista relatou falta de acolhimento e de orientação e atendimento frio. Mesmo assim, requereu medida protetiva e acompanhada pelo amigo para quem ligara, foi para casa retirar suas coisas. O noivo estava na casa e atacou Vanessa e o amigo, que conseguiu escapar. Vanessa tinha apenas 42 anos.

Se uma jornalista teve essa percepção do atendimento desleixado, sem empatia alguma, imagine o tratamento que é dado a mulheres humildes, sem esclarecimento para fazer essa leitura das entrelinhas do que ela viveu enquanto denunciava. Percebe então, por que muitas são desencorajadas a finalizar a queixa e o pedido de medida protetiva?

Ao final do áudio, ouve-se Vanessa angustiada: “Eu que tenho instrução fui tratada dessa maneira, imagina uma mulher vulnerável lá no meu lugar. Essas que vão para as estatísticas do feminicídio”. Lamentavelmente, Vanessa também virou estatística.

Mato Grosso registrou um aumento significativo nas denúncias de violência contra a mulher em 2024, mesmo assim, mais de 80 crianças ficaram sem mães no período. Muitas mulheres não dimensionam a potencialidade do agressor, vão levando o relacionamento à diante. Porém, em todos os papéis que tratam do tema, há uma tese compartilhada: “Todo agressor de violência doméstica é um potencial feminicida”.

A violência contra a mulher é uma ameaça ao bem-estar de seus filhos. No primeiro mês do ano, em Mato Grosso 2 crianças de três e oito anos de idade perderam a mãe, assassinada pelo marido, na frente das crianças. O assassino foi morto pela polícia e ao perderem pai e mãe, as crianças foram encaminhadas para o Conselho Tutelar, até que algum parente se ofereça para cria-las.

Esta semana saiu a sentença de um assassino, dois anos após o feminicídio cometido contra a esposa na cidade de Cotriguaçu, onde o indivíduo cumpre pena. Ao receber a sentença, a defesa alegou incidente de insanidade mental do réu a ponto de não compreender a gravidade do ato que praticou. A realização do exame, obviamente foi negada.

Cada indivíduo pode ter um modelo de comportamento e pensamento em termos de gênero, mas precisamos questionar e refletir sobre nosso comportamento, pode revelar em que altura da vida, adotamos subconscientemente ou não, uma maneira sexista de pensar.

Ameaça a uma lei de iniciativa popular

A  Lei da Ficha Limpa, implementada em 2010 como um marco no combate à corrupção política no Brasil é um dos raros casos de projetos de iniciativa popular que se transforma em lei. O projeto foi encabeçado por entidades que fazem parte do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), e mobilizou vários setores da sociedade brasileira, entre categorias profissionais, sindicatos e igrejas. Foram obtidas mais de 1 milhão e 600 mil assinaturas em apoio. Pois bem, lamentavelmente esta Lei está no centro de um debate sobre possíveis alterações para propositalmente enfraquecer sua eficácia.  Lei Complementar nº 135, de 2010, também chamada Lei da Ficha Limpa determina que o político que se torna inelegível fica impedido de se candidatar nas eleições que se realizarem durante o restante do mandato que ocupava e nos oito anos seguintes ao término da legislatura.

Nos últimos dias, a Lei da Ficha Limpa voltou ao centro dos debates por conta de um projeto de lei, de autoria do deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), que visa reduzir o período de inelegibilidade de políticos condenados, de oito para apenas dois anos. O absurdo reside no fato de que toda movimentação, aplicação de mudanças jurídicas questionáveis seria para beneficiar o ex-presidente Bolsonaro, que seria reabilitado para disputar a eleição de 2026.

Em entrevista procurador do Ministério Público de São Paulo e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, Roberto Livianu, doutor em direito pela USP, diz que a mudança na Lei da Ficha Limpa seria um escárnio para a sociedade brasileira e nesta iniciativa pode-se encontrar tudo menos a defesa do interesse público. Diz que ‘os políticos estão legislando em causa própria e não observando às necessidades da sociedade’. 

A ideia da Lei da Ficha Suja é tirar de circulação, por um período, os maus políticos, já que o período de oito anos corresponde a dois ciclos eleitorais. As leis devem ser elaboradas no interesse da sociedade, não em casuísmos. Ao ser perguntado sobre a lamúria de Bolsonaro de que a Lei da Ficha Limpa só serve para punir a direita, Roberto Livianu desmistificou a choradeira afirmando que ao longo dos anos, políticos de diversas ideologias tiveram seus direitos políticos restringidos com base na aplicação desta lei. Disse que a aplicação da legislação não é exclusiva a um único grupo político. ‘Se for feita uma análise mais aprofundada, fica evidente que esse argumento é completamente insustentável. Dizer que a lei está voltada para a direita, é inconsistente. Essa afirmação tem um caráter ignorante’. Dados da área de estatística do TSE mostra que o percentual de barrados é baixo. No ano de 2024, tivemos 463 mil candidatos no país, dos quais, 1,9 mil foram barrados pela Lei da Ficha Limpa.

O presidente do Instituto Não Aceito Corrupção relembra que a última manobra para sabotar a Lei da Ficha Limpa, foi feita pela Deputada Dani Cunha, filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, numa tentativa de trazer o pai de volta ao cenário político. É bem isso, querem enfraquecer as leis boas para garantir retorno rápido dos violadores da lei, por abuso de poder político ou econômico e uso indevido dos meios de comunicação, que consideram 8 anos de afastamento das eleições, uma eternidade.

O risco de aprovação existe, já que a inelegibilidade atinge políticos de quase todos os partidos e o presidente da Câmara, recém-empossado, deputado Hugo Mota, na primeira entrevista já declarou que acha justo encurtar a pena para 2 anos. 2025 começa com tentativas de fragilizar o controle sobre a corrupção e a impunidade com a Lei da Ficha Limpa tornando todo mundo em ficha limpa.

A confiança na política não deve ser fé cega

2024 foi um ano marcante para as eleições, cerca da metade da população do mundo foi às urnas em 76 países, o maior número já registado. Também acabou sendo um ano difícil para os candidatos alinharem seus discursos aos seus partidos políticos tradicionais, resistentes às mudanças e modernização de pautas. Abalados pelo aumento dos preços, divididos por questões culturais e radicalismo político, irritados com a falta de solução para os problemas estruturais de sempre nas áreas da saúde, educação e segurança, os eleitores de toda parte enviaram uma mensagem de frustração.

Muitas pessoas ainda se sentem desconectadas de lideranças maiores, dos partidos e das instituições políticas na capital do estado ou Brasília e, compartilham a crença de que os partidos e líderes do establishment estão fora de contato com os cidadãos comuns, portanto, o eleitor tentou encontrar ressonância de seus sonhos e esperanças nas lideranças locais.

2025, um ano não eleitoral, um ano silencioso que traz maior fluidez em todos os trâmites e relações da vida pública, inclusive, é o ano onde sentiremos os efeitos das mudanças que foram chanceladas nas urnas ano passado e nem sempre veremos ou ouviremos, mas certamente é o ano de avaliação dos apoios políticos e financeiros concedidos nas eleições de 2024, de avaliar propostas para mudanças de partidos, articulações e composições nacionais visando disputas próximas. Há tratativas avançadas para a construção de novas federações, fusão permanente de partidos, troca no comando nacional de partidos importantes, visando ampliar as filiações e fortalecer minimamente o vínculo de confiança entre políticos e povo.

Li o relatório do Edelman Trust Barometer, uma empresa de comunicação global que estuda há mais de 25 anos, por meio de gerenciamento de reputação, a influência da confiança da sociedade no governo, na mídia, empresas e ONGs, lançado em Londres em 25 de janeiro passado, onde o ano de 2025 foi apresentado com uma leitura política preocupante, de um fato que não é novo.

A confiança na classe política foi mencionada como um fator crítico em toda parte do globo e explorada no relacionamento entre governos e as pessoas que dependem de seus serviços. A confiança nas instituições; mídia, governo e classe política em geral, continua a diminuir e a culpa é compartilhada com as próprias pessoas que foram pesquisadas e não conseguem sequer distinguir fatos de informação falsa, um universo de pessoas que se enquadram na categoria de ativismo hostil, sobretudo nas mídias sociais. Ou seja, são pessoas que lamentam, xingam e espalham notícias falsas induzidas por líderes radicais, algoritmos e robôs. 

O relatório encontrou pessoas cautelosas com governos que não cumprem promessas e veículos de mídia que priorizam a espetacularização da notícia em vez de divulgar e esclarecer os fatos relevantes. Ao final, os estudos veem no ceticismo uma força poderosa para a responsabilização e apontam que sem desconfiança, não mantemos as instituições honestas e as democracias fortes. Ainda bem!

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), na abertura dos trabalhos semana passada declarou, que 2025 é o ano preparatório para as eleições de 2026. Portanto, um ano semi eleitoral. A Ministra Carmen Lúcia, sempre com apontamentos precisos disse que trabalha “com cuidado especial para garantir ao cidadão informação correta, o ano todo, para que haja, sempre, manifestação de liberdade, não exposição manipulada de ódios e violências”.

Em ano sem eleições, as pesquisas de opinião pública relacionadas a postulantes de candidaturas podem ser livremente encomendadas e divulgadas, sem registro na Justiça Eleitoral.  A artilharia montada em 2025 pelos políticos, na construção de suas reputações pessoais e políticas está apontada para as eleições de 2026 e o TSE vigilante, espera que as mulheres em número expressivamente maior se apresentem para ocupar espaços políticos importantes e não sejam abatidas pela violência política de gênero dentro dos partidos. O TSE promete empenho rigoroso no enfrentamento às ´fakes news` para que estas, não interfiram no resultado das eleições e para impedir que a desigualdade financeira promova, como tem sido, a derrota da representatividade das minorias.

Migração – uma longa e incerta travessia

Os Estados Unidos têm a maior população de brasileiros em todo o mundo, são mais de 2 milhões e 100 mil imigrantes, entre regulares e irregulares, conforme dados do Ministério das Relações Exteriores. Somente no ano passado1.648 brasileiros foram deportados a partir da entrada ilegal pela fronteira com o México. Não encontrei dados sobre o número de pessoas que entram no país de avião, com visto de turista e tentam permanecer. Desde a campanha, o presidente Donald Trump prometeu leis duras contra os imigrantes, espalhou notícias falsas sobre imigrantes haitianos, dizendo que “em Springfield, eles estão comendo cachorros. As pessoas que chegaram estão comendo gatos. Elas estão comendo os pets das pessoas que vivem aqui”.

Elegeu-se presidente e iniciou o processo de deportação dois dias após a posse. Além disso, as primeiras ordens executivas de Trump incluíram a medida para acabar com a cidadania por direito de nascença e outra medida declarando a paralisação do programa de admissão de refugiados. Basicamente, isso significa que migrantes sem documentos presos nos portos de entrada não poderão solicitar asilo e enfrentarão um processo de remoção imediata.

Mas vejamos a condição de pessoas que estão no entorno mais próximo do presidente Trump. A esposa, Melania Trump nasceu na antiga Iugoslávia, hoje, Eslovênia, trabalhou um tempo ilegalmente nos Estados Unidos, de acordo com a investigação da agência Associated Press. Portanto, Barron, o filho querido de Trump é filho de uma imigrante. O vice-presidente americano, J.D. Vance, é casado com Usha, filha de imigrantes indianos. Marco Rubio, o Secretário mais importante do governo Trump é filho de imigrantes cubanos, que chegaram nos Estados Unidos ilegalmente, sem dinheiro e sem falar uma palavra em inglês. O maior influenciador e financiador da campanha, Elon Musk é sul-africano, nasceu em Pretória, na África do Sul, migrou para o Canadá e só depois veio para os Estados Unidos. Ou seja, considerados imigrantes indesejáveis nos Estados Unidos sob Trump, são os negros e pobres de origem hispânica e brasileira.

Arnold Schwarzenegger nasceu na Áustria, é ator, ex-governador da Califórnia, republicano, rompeu com Trump por não apoiar sobretudo a política de perseguição aos imigrantes, reconhecendo-se como um deles, condição que a turma mais próxima de Donald Trump preferiu ignorar.

O indivíduo que migra, regular ou não, coloca no contexto da migração a sua autonomia e a liberdade de buscar novos lugares para construir a vida, para produzir sua própria história. Desfaz-se do drama para buscar a liberdade. Sou uma estudiosa das migrações modernas, do movimento de pessoas pelo mundo, onde cerca de 3,6% da população do mundo vive em países diferentes de onde nasceram, movidos principalmente por razões econômicas e conflitos. O tema é extremamente complexo e envolto em películas de discriminação e preconceito étnico racial.

A imigração legal, de acordo com as leis migratórias de cada país, é, em geral, um processo lento, caro, mas possível e preferível. A exigência mais elementar é que se fale o idioma, que tenha todos os documentos e certificados traduzidos oficialmente para o inglês, apresentar um fiador, ‘sponser’, de preferência que seja o empregador, endereço de moradia, comprovar com extratos bancários, renda compatível a uma vida dolarizada. Feito tudo isso, muita paciência e reza para ter o visto concedido, o que não garante uma vida sem estranhamentos e acusações de roubar empregos e onerar os serviços públicos implantados para os locais.

A imigração ilegal não é uma condição boa para o imigrante, que não consegue acesso aos serviços públicos, sobretudo, educação e saúde, vive sob a tensão de ser abordado pelas autoridades e essas condições por si, já marginaliza o imigrante, cuja maioria, se muda com o intuito de trabalhar e ajudar às famílias que permaneceram em seus países. Muitos têm curso superior, mas não têm o registro de suas profissões para trabalhar nos Estados Unidos, por isso executam trabalhos que mesmo o americano pobre se sujeita, como cuidar de crianças, lavar pratos, limpar o chão e fazer turnos na madrugada nos bares e hospitais. Não são criminosos, não comem os animaizinhos de estimação, enfrentaram dilemas e perdas ao partir, pagam aos coiotes um valor bem maior do que pagariam numa passagem aérea e se sujeitam a uma longa e incerta travessia.

Não calar nada

Escrevo livremente neste espaço do RDNews há 12 anos. Aqui, torno público e dou ênfase às minhas pesquisas, estudos sobre questões de gênero, desigualdade social, processos migratórios e política.  A sociologia me encoraja a de me expor, me aproxima de muitos, me distancia de alguns poucos, me traz reconhecimento e críticas, que aceito e utilizo no meu processo de crescimento pessoal. Neste espaço, aprendi a liberar meus textos de padrões rígidos dos artigos acadêmicos ou científicos e ganhei visibilidade como cientista social.

Após a apresentação de trabalho publicado e processo seletivo, percebo a indescritível honra de adentrar no Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso, uma Casa centenária, fundada pelo então presidente do Estado de Mato Grosso e Arcebispo Dom Francisco de Aquino Corrêa e entre seus membros estão destacados sobrenomes da sociedade e da política mato-grossense, comprometidos com a prestação de um trabalho contributivo para ajudar a preservar, acompanhar e narrar a história que Mato Grosso vai construindo.

A vida, o passado, a sensação profunda de pertencimento a região do Araguaia, onde nasci, em Ponte Branca, Barra do Garças, onde morei, levou-me naturalmente a escolher como patrono um homem que viveu mais de 50 anos às margens do Rio Araguaia, o bispo emérito da Prelazia de São Félix do Araguaia, Dom Pedro Casaldáliga, um migrante, evangelizador, defensor dos direitos humanos, sobretudo dos indígenas, que foi enviado ao Brasil em plena ditadura militar. Foi ordenado bispo e marcou a data com a divulgação de uma Carta Pastoral chamada Uma Igreja da Amazônia em Conflito com o Latifúndio e a Marginalização Social, onde denunciava que indígenas e trabalhadores viviam em regime de escravidão. Pela dureza de sua escrita, dizia: “Todos temos momentos de comunicação emocionada, intensa”.

Dom Pedro sofreu perseguições políticas, ameaças de morte, que ele respondia com a linha de uma poesia sua: “Eu morrerei de pé, como as árvores. Me matarão de pé”. Os governos militares abriram vários processos de expulsão do Brasil contra Dom Pedro, porque desconfiavam do envolvimento da Prelazia e do bispo com os movimentos da Guerrilha do Araguaia. Teve, porém, em todos os momentos, a defesa vigorosa do Arcebispo de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Permaneceu e fortaleceu a Prelazia, que respondia por 15 municípios e fazia divisa com Pará e Tocantins. Sua voz tornou-se nacional e internacionalmente respeitada. Escreveu vários livros. Contribuiu com a criação do Conselho Indigenista Missionário, CIMI e Comissão Pastoral da Terra. Teve sua vida retratada no filme “Descalço sobre a terra vermelha” e biografia escrita pela jornalista Ana Helena Tavares, “Um bispo contra todas as cercas: a vida e as causas de Pedro Casaldáliga”.

Ao completar 75 anos apresentou, conforme a tradição, pedido de renúncia à Prelazia. Eu o conheci em 2006, morando na casa pastoral, ativo nos trabalhos religiosos e comunitários, sendo visitado, entrevistado por pessoas de várias partes do mundo. Recebeu título de Doutor Honoris Causa da Unicamp, deu nome ao Campus da Unemat em Luciara. Mais tarde foi acometido pelo Mal de Parkinson. Continuou com o trabalho pastoral.

Aos 92 anos, em tratamento em Batatais-SP, nos deixou, não sem antes tratar de seu próprio sepultamento. Pediu para ser enterrado em um pequeno cemitério, onde eram sepultados os indigentes, debaixo do pé de pequi. Assim foi feito!

Viveu e morreu com o lema que perseguiu:

Não ter nada.

Não levar nada.

Não poder nada.

Não pedir nada.

E, de passagem, não matar nada, não calar nada.

Somente o Evangelho como uma faca afiada.

Onde muitos veem a obsessão pelo pessimismo, vejo a dureza da vida

Li um artigo interessante essa semana, onde um psicólogo afirma que está havendo uma obsessão coletiva pelo pessimismo, que o mundo conectado está se tornando um lugar cada vez melhor e que essa obsessão é algo deslocado da realidade.

“Eu me permito ser um pouco alegre, porque me disseram que é bom para a saúde” Voltaire, filósofo iluminista frencês. Porém, eu substituiria a palavra pessimismo por otimismo, porque observo grande parcela da população e sem exceção, todas as mídias, cobrarem e exibirem um mundo de otimismo implacável, sem verificação da realidade e até mesmo negando a existência de problemas sociais crônicos, onde estão navegando coaches, líderes espirituais e mentores, hipoteticamente habilitados, induzindo as pessoas a acreditarem que viverão o paraíso na terra e num passe de mágica terão a vida transformada em uma sucessão de vitórias fáceis. O otimismo obsessivo diante da promessa de prosperar da noite para o dia, pode cegar para as duras realidades da vida, negligenciar riscos ou até mesmo negar a existência das nossas limitações.

Não fico listando as causas do fim do mundo, falo das coisas como elas são, falo das ameaças reais, da violência crônica que persegue as mulheres todos os dias e em todos os lugares, da dificuldade de se ocupar igualmente homens e mulheres os mesmos espaços públicos, do descaso diante de problemas sociais, velhos conhecidos de todos os políticos que poderiam inverter as estatísticas, falo da cara da miséria, da pobreza de oscila entre pobreza extrema e pobreza, que para a grande maioria da população esse é o limite da ascensão social. Narro sem ânimo as cenas de racismo e preconceito, porque eles se repetem à miudamente.

O pessimismo não é irrealista. Em sua essência, o pessimismo é a expectativa de que os piores resultados são mais prováveis ​​do que os melhores. Muitos   sociólogos argumentam que os humanos têm uma predisposição evolutiva para se concentrar em perigos e ameaças, pois essa sensibilidade foi historicamente vital para a nossa sobrevivência.  

No mundo digitalmente conectado, as mídias se encarregam de pesar a mão, e as formas como o pessimismo se manifesta é amplificada por algoritmos que priorizam más notícias, reforçando a percepção de que tudo está desmoronando e o otimismo exagerado pode desviar o foco das perspectivas reais de derrota, pode levar a ignorar riscos e envolver-se numa teia de ilusões. A verdade é que o mundo é cheio de desafios e perigos perpétuos, os problemas são tão vastos e complexos e não há um engajamento coletivo para resolvê-los, a perpetuação da desigualdade social, da violência, da reação significativa da natureza à sua destruição, tem consequências profundas na vida do otimista e do pessimista.  

Sejamos a razão. Tomando os últimos dias como exemplo, a narrativa é tensa e carregada, mas vamos relembrar o mínimo: O rateio aleatório de dinheiro público para servidores no Natal, época em que a maioria dos brasileiros não tem dinheiro para o pão e presente para os filhos; criança sendo vítima de abuso de homem predador em local público, mulher amarrada, jogada ao Rio para morrer em agonia. Longe daqui, mas no mesmo planeta que habitamos, o fogo impiedoso arde e destrói uma cidade inteira. O que tem de novo nestas manchetes? Pessimismo? Não. As cenas são brutalmente reais, ainda assim, o sonho e a esperança operam diante de casos que cortam como uma navalha.