Os diversos crimes que mancham nossa reputação como sociedade

Os dias têm sido pesados em Mato Grosso. Parece haver a intenção de alguns cidadãos de atuar firmemente para que o estado não saia do ranking que lidera de estado violento, o que mais matou mulheres no ano passado, segundo o relatório publicado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública.

Na cidade de Peixoto de Azevedo, um crime brutal foi cometido por Wendel Santos, que apareceu em vídeo esfaqueando a própria esposa, diante da câmera de segurança da casa, na frente da própria filha e do filho da vítima. Percebeu-se no registro das câmaras que a mulher já sofria violência doméstica e em um episódio brutal de enforcamento, havia desmaiado.  Cinco meses atrás a vítima havia postado aparentemente feliz, anunciando que estava noiva do assassino.

Atos de violência cometidos contra motoristas de aplicativos tem sido percebidos no estado, porém, a bandidagem resolveu elevar o nível da violência, da preocupação e medo. Três motoristas foram encontrados mortos em três dias, vítimas do mesmo procedimento cruel dos marginais.  Usaram uma mulher para chamar os carros, anunciavam assalto e com ou sem reação da vítima, a matavam. Três bandidos e a mulher foram presos, confessaram os crimes e também o instinto de serial killer, já que a intenção do grupo era assassinar um motorista por dia. A classe política se reuniu com as forças de segurança, para em conjunto com a classe de motoristas encontrar uma solução para tornar as corridas menos arriscadas.

Em Belo Horizonte, diante das ameaças que os motoristas sofriam, uma comissão foi criada na Câmara Municipal para discutir formas de proteger a vida desses trabalhadores. A maior aposta recaiu sobre a instalação de um botão de pânico que pudesse ser acionado pelo celular quando o motorista se sentisse ameaçado. A tecnologia já estaria disponível nas plataformas, mas a Polícia Militar mineira afirma que não tem capacidade para processar toda informação, nem estrutura para atendimento de cada acionamento de um botão de pânico e que o correto seria que as próprias plataformas monitorassem o sistema e acionassem a PM sempre que necessário. 

O terceiro caso estarrecedor são os crimes ambientais cometidos por um barão da pecuária, no município mato-grossense de Barão de Melgaço. O malfeitor possui 11 propriedades dentro do Pantanal Mato-grossense e com auxílio de grandes advogados e engenheiros florestais, já tentou alterar até o curso de um rio.  Esse cidadão se chama Claudecy Oliveira Lemes e é imputado a ele o mais grave dos  crimes ambientais: desmatou uma área de 81 mil hectares no Pantanal Mato-grossense, utilizando uma mistura de 25 agrotóxicos, inclusive o veneno conhecido como agente laranja, que os soldados americanos despejaram sobre as florestas do Vietnã para desmatá-las por completo e não servirem de esconderijo para os vietnamitas. E mesmo que não seja exatamente esse veneno, há o crime.

O desmatador está preso? Claro que não. Onde, nesse país, você viu fazendeiro rico ser levado preso por crimes ambientais? Apesar de que o Ministério Público Estadual firmemente recorreu da decisão frouxa do juiz que negou o pedido de prisão do cidadão, imputando-lhe algumas restrições óbvias.

Li o Termo de Ajustamento de Conduta que o fazendeiro havia assinado com o Ministério Público e Secretária de Estado de Meio Ambiente, em 2022, referente a três inquéritos civis datados de 2019, 2020, 2022, originários de autos de infração. Ao assinar o Termo de Ajustamento de Conduta, o fazendeiro se comprometeu a fazer reposição florestal, o que era uma mentira, porque o agrotóxico usado impede o crescimento da vegetação nativa para sempre e ganhou um presente: o arquivamento dos três inquéritos.

Provavelmente o caso veio à tona agora, devido ao descumprimento de alguma cláusula do documento, como talvez, o não pagamento da vultosa multa aplicada, R$ 21.386.550,00 (vinte e um milhões, trezentos e oitenta e seis mil e quinhentos e cinquenta reais). O que entristece é perceber que os desmatamentos ocorriam nessa proporção alarmante, com conhecimento das autoridades desde o ano 2019, ano de abertura do primeiro inquérito.

O político é o reflexo da sociedade que o elege

Oex-presidente Barack Obama, ao participar do evento “Cidadão Global”, em 2017, disse que muitas pessoas dizem que odeiam os políticos e os governos, mas que a política e o governo são reflexos de nós mesmos. Se uma sociedade é saudável, a política também será, se a sociedade está doente, a política também será.

Após seis anos foram presos pela Polícia Federal, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chiquinho Brazão, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Brazão, irmão do deputado e Rivaldo Barbosa, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro na época do crime, em 2018, acusados de serem os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Marielle foi assassinada porque tentava impedir que grupos das milícias ocupassem espaços de representação política nas comunidades, infiltrando nas associações, fazendo intermediação política inclusive com os poderes constituídos na cidade do Rio de Janeiro.

A prisão do deputado federal Chiquinho Brazão, ocorrida em março passado, precisou ser chancelada pela Câmara Federal, que conforme explica a Agência Câmara de Notícias, a Constituição Federal prevê que um deputado só pode ser preso em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, a Câmara precisa referendar a prisão por maioria absoluta, em votação aberta.

A Câmara dos Deputados colocou a votação no plenário e 277 parlamentares votaram a favor de manter preso e sem fiança o deputado Chiquinho Brazão. Por incrível que possa parecer houve 129 deputados, dos quais, 5, de Mato Grosso, Abílio Brunini, Amália Barros, Coronel Assis, Coronel Fernanda e José Medeiros, votaram pela libertação do mandante do crime e 28 outros se abstiveram de votar. Para manter a prisão preventiva, são necessários 257 votos, ou seja, a maioria absoluta dos membros da Câmara.

Apesar do chulo argumento de sair em defesa das prerrogativas do Congresso Nacional frente ao Supremo Tribunal Federal, a maioria da bancada bolsonarista de todos os estados votou favorável a soltura do mandante do assassinato. ‘Votei pelo respeito à Carta Magna e pelas prerrogativas dos deputados federais, blábláblá…´  

A classe política é, sem tirar nem pôr, o reflexo da sociedade que a elege. E assassinos com assento no Parlamento federal não é novidade alguma. Em 1963, o pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello, o ex-senador Arnon de Mello, foi armado ao Senado Federal para matar um adversário político, Silvestre Péricles. Atirou, errou o alvo e acertou José Kairala, que estava no último dia de suplência de outro parlamentar. Arnon de Mello foi preso em flagrante e ficou detido durante sete meses. No final do processo, ele foi inocentado e voltou para as suas atividades de senador da República e seguiu a vida, sendo um mau exemplo.

Em 1998, o médico e deputado federal Talvane Albuquerque Neto, foi condenado por ser o mandante do assassinato da deputada federal eleita Ceci Cunha, morta a tiros horas depois de ter sido diplomada, junto com três parentes. Albuquerque Neto foi condenado a 103 anos de prisão. Para a Justiça, o motivo do crime foi político: com a morte de Ceci, o médico assumiria o seu mandato; motivação semelhante já originou tentativa de assassinato aqui em Cuiabá, lembram?

Ao pesquisar os casos relembrei a macabra história do ex- coronel e Deputado Federal Hildebrando Pascoal, que torturava suas vítimas, cortando-as em partes com motosserra. Foi denunciado em 1997, preso em 1999, condenado a mais de 100 anos de prisão por fazer parte de grupo de extermínio e tráfico de drogas.  

Na história bem recente do Parlamento federal tivemos o caso perverso da parlamentar, pastora e mandante de crime, Flordelis, que foi condenada a 50 anos de prisão pelo assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, morto dentro da garagem da própria casa com mais de 30 tiros, no meio do mandato da ex-deputada.

A mais velha e menorzinha das quatro irmãs

Começo o artigo revelando uma grande frustração. Não nasci em Cuiabá! Há 10 anos sou cidadã cuiabana, através do título concedido pelo vereador, hoje presidente da Câmara, Chico 2000. Amanhã, 08 de abril, Cuiabá completa 305 anos, com 650.912 mil habitantes, segundo senso de 2022. É a mais velha e menos populosa das capitais do Centro-Oeste brasileiro. Campo Grande tem 124 anos, 898 mil habitantes; Goiânia tem 90 anos e 1.437.366 mil habitantes e Brasília, a caçulinha com 63 anos tem 2.817.381 mil habitantes. O estado do Tocantins ao ser emancipado de Goiás passou a pertencer a região norte do país, devido a semelhança de vegetação e clima com outros estados da região norte, com os quais faz divisa, como o Pará.

Sou uma mato-grossense, nascida numa cidade às margens do Rio Araguaia, uma condição sine qua non para minha existência. Ponte Branca, divisa com o Estado de Goiás, antigamente conhecida como Alcantilado do Araguaya, ainda que pequena, ostenta a grandeza do Rio que a corta é próxima de Barra do Garças, onde morei e de onde parti em 1990, rumo à Capital, onde grande parte da minha família já morava.

Minhas memórias de Cuiabá são, portanto, de um passado recente, mas nem por isso desimportante. Desde os anos 1980 eu estava sempre por aqui. Sem tempo para adaptações, aprendi a caminhar pelas ladeiras, pelas ruas tortas e estreitas. Descobri a cultura rica de Cuiabá pelas mãos de uma importante produtora cultural e cineasta, Glorinha Albués, que fazia projetos para elevar a arte, o cinema, as festas de santo, a poesia, para ocupar os quintais tradicionais, como o da D. Domingas Leonor.

As manifestações musicais, o Siriri, Cururu, Rasqueado e Lambadão, fui aprendendo a identificar e apreciar com o Dr. João Elóy nos eventos promovidos pela prefeitura de Cuiabá, já organizados por mim, como coordenadora de cerimonial, na gestão do mais ilustre de todos os cuiabanos, o ex-deputado estadual e federal e ex-prefeito Roberto França.

Radialista e comentarista esportivo à beira do gramado, Roberto França contava muitas histórias sobre futebol em Cuiabá. Ouvi muito falar do dia memorável que marcou a história do nosso futebol, quando o Santos, com Pelé escalado para jogar contra o Dom Bosco, desembarcou no aeroporto Marechal Rondon, no ano de 1965. Roberto França era ainda um jovem de 16 anos. Uma multidão de cuiabanos invadiu a pista e Pelé deixou o aeroporto no carro do governador. No hotel, um Pelé humilde e simpático saía a porta, atendia os fãs, em delírio, como conta também o pesquisador José Augusto Tenuta. No estádio Dutrinha, o Dom Bosco foi goleado por 6X2. Ninguém chorou! Viram o rei, em pessoa!

No quente mês de outubro de 1991 outra visita ilustre, cheia de simbolismo da fé que arrebata o coração dos cuiabanos, de uma cidade católica, porém carregada das peculiaridades e sincretismo que permeia a questão da religiosidade no Brasil. Desembarca e beija o solo mato-grossense, São Papa João Paulo II, que presidiu a Santa Missa para mais de 200 mil pessoas, junto com Dom Bonifácio Piccinini. O Senador Jayme Campos governava o Estado.

Conheci pessoalmente políticos importantes em Cuiabá, como Leonel Brizola e Mário Covas, trabalhei nas visitas oficiais dos presidentes Fernando Henrique Cardoso, Dilma, Temer, Lula e Michelle Bachelet em visitas oficiais a Mato Grosso, oficialmente hospedados em Cuiabá. Destaco um e outro, como o ato de filiação do governador cuiabano Dante de Oliveira ao PSDB, em 1997, em Cuiabá, organizado por Roberto França, com a presença do então governador de São Paulo, Mário Covas, a inauguração da Ponte Sérgio Mota, no ano de 2002, com o prefeito Jayme Campos caminhando para o centro da ponte, partindo de Várzea Grande, Roberto França, do lado de Cuiabá, caminhando rumo ao centro, onde os esperava para declarar inaugurada a ponte, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, acompanhado pelo governador Dante de Oliveira, pela viúva do ex-ministro das Comunicações Sérgio Mota e pelo embaixador da Itália no Brasil.

No mês de maio de 2009, o presidente da Fifa, Joseph Blater anunciou e apresentou Cuiabá ao mundo como uma das cidades sedes da copa do mundo de 2014. Blairo Maggi era o governador do Estado. Participei de todos os estágios da realização da Copa do Mundo em Cuiabá, onde muito se discutia se deixaria legado ou não para a cidade. Deixei aos pessimistas, os resmungos e me dediquei a minha missão de receber os organizadores da Copa em Cuiabá, promover encontros com embaixadores e chefes de delegações. Quando foi divulgada a tabela dos jogos, alegrei-me e tratei de aprender, treinar para receber com zêlo e competência a mulher que mais me inspirava na política, a médica e presidente do Chile, Michelle Bachelet, que passou 12 horas em Cuiabá.

Feliz 305 anos Cuiabá!

Se você é neutro em situações de violência, você escolheu o lado do agressor

O mundo é um lugar caótico em Hobbes, Saramago, Galeano, entre tantos outros filósofos e escritores.

Vivemos num mundo que é um desastre autêntico, disse José Saramago em entrevista a Jô Soares. José Saramago, escritor português, morreu na Espanha no ano de 2010. Aos 78 anos de idade, ganhador de um prêmio Nobel, saudável, disse que simplesmente não se conformava com o mundo em que vivia, que o mundo que poderia ser, não inteiramente justo, porque sabia que Justiça absoluta não existia, mas queria que fosse um pouquinho mais humano, que a desumanidade não fosse tanto quanto era, que a exclusão social, não fosse tanto quanto era, que o abandono de continentes inteiros, guerras completamente absurdas tornavam o mundo uma angústia total.  Sem ilusão, foi isso que ele tentou passar aos seus leitores.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio disse que o mundo nunca esteve tão louco, no sentido feio da palavra loucura, louco no sentido de um mundo que destina seus maiores recursos e suas maiores energias ao extermínio de si próprio, do planeta, da casa onde vivemos. Galeano alerta que precisamos recuperar a visão horizontal, solidária, respeitar os demais e saber que por sorte, somos todos diferentes nesse mundo e não temos o direito de impor aos demais nossa própria verdade como se fosse a única verdade possível.

Thomas Hobbes, filósofo inglês, compartilhou uma visão extremamente pessimista da natureza humana, descreve o mundo em estado de natureza como um ambiente caótico, onde a competição, o conflito e a busca pelo interesse próprio dominam os homens. Em sua obra mais importante, “Leviatã” (1651), Hobbes argumenta que, na ausência de um poder capaz de intimidar todos os homens e de um contrato social para frear as ações egoístas, os seres humanos seriam naturalmente propensos ao conflito, a competição e violência. O homem em estado de natureza seria um lobo lutando contra outro lobo, fadado a uma vida solitária, embrutecida e curta. 

O ativista político e pelos direitos humanos, formado em sociologia, o americano Martin Luther King lutou contra a segregação racial nos Estados Unidos, promoveu marchas e bradou durante anos, diante de uma multidão de negros que sofriam injustiça racial que quem aceita o mal sem protestar coopera com ele e quase todos os seus discursos eram encerrados assim: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Duas situações de violência me pesaram os ombros semana passada e as revelo aqui. Pessoas “muito boas” silenciaram quando o jogador Vini Jr. desabou em choro em uma entrevista coletiva, alertando que não aguenta mais os xingamentos racistas dirigidos a ele, sobretudo na Espanha. O choro de Vini Jr. repercutiu no mundo do futebol, com alguns afagos solidários e com a expressão de desprezo do ex-goleiro da seleção do Paraguai, Chilavert, que criticou o choro do atacante brasileiro dizendo que futebol é coisa de macho e que o Brasil é país mais racista que ele conhece.

Em Cuiabá, no centro da cidade, uma senhora de 80 anos foi morta, roubada e abusada por um homem que trabalhava ao lado de sua casa. Não há exatamente uma palavra que descreva tamanha indignação e repulsa ao fato. Se tentasse, eu descreveria horror e pavor exalando de seus olhinhos incrédulos. Nem tudo é sobre nós e os nossos. Temos que ter a mesma disposição para cobrar quando a violência é praticada contra outros também. Não pode existir em nossa consciência zonas silenciosas, onde certos delitos repousam invisíveis.

Não é possível nos mantermos constantemente em crise de medo, por isso, fazer menos do que podemos, não serve para o mundo.

Para chegar à ressureição não se pode viver aterrorizado pela morte

Há melancolia quando percebemos que tudo o que nós valorizamos no mundo, um dia, eventualmente, vai se extinguir. O início e o fim da vida são caracterizados pela vulnerabilidade, perplexidade e ricas oportunidades. Em ambos os casos estamos entrando em um novo território, o mundo da vida e o mundo da morte.

Mas para cada existência, a verdade básica é que tudo muda. Impermanência significa transformar e caminhar para a dissolução, mas ao contrário de um ser um processo doloroso, é justamente ela que possibilita a renovação, o renascer de alguma forma ou pode se ficar em uma morte apenas. A percepção da impermanência, a sensação profunda de que tudo, passa misericordiosamente, é reconfortante.

Entramos na Semana Santa e é inevitável falar sobre o processo da morte, como um ciclo infindável de vida, nascimento e sofrimentos, aos quais estamos sujeitos pelo simples fato de estarmos vivos. Quinta-feira próxima se comemora a Última Ceia, na qual Jesus Cristo, na noite em que foi entregue, ofereceu a Deus Pai o seu Corpo e Sangue e os entregou para os Apóstolos, mandando-lhes também oferecer aos seus sucessores. Ocorreu também a cerimônia do Lava-Pés que lembra o gesto humilde de Jesus na Última Ceia, quando lavou os pés dos seus apóstolos.

Na sexta-feira, o silêncio, o luto, o jejum celebram a morte de Jesus Cristo.  Ao contrário do que muitos pensam, o dia não deve ser vivido em clima sofrimento, mas de profundo luto e respeito diante da morte do Senhor. O luto diante da morte é o início do processo de cura e precisa de tempo. A nossa dor diante da morte decorre da nossa inabilidade em lidar com o transitório, com o que não podemos controlar, com o que finda.

A morte é uma viagem inevitável para o desconhecido e como toda viagem, será melhor se você estiver preparado. Para chegar à ressureição, não se pode correr da morte, tampouco desmerecê-la ou viver aterrorizado por ela. A morte não é aniquilação e perda. Esses dias santos que virão, talvez sejam oportunidades para momentos mais contemplativos, olhando mais profundamente para ver o que só pode ser visto na introspecção, quando se olha impiedosamente para dentro de si mesmo para medir o amor que temos doado, o bem que temos feito aos outros e a nós também.

Pessoas morrem despreparadas, assim como vivem despreparadas para viver. Para refletir sobre a vida e morte de Jesus, de familiares e amigos temos que estar em paz, em silêncio e em prece, despidos dos sobrepesos emocionais ou espirituais desnecessários. Precisamos nos acostumar a olhar para a experiência da dor, da doença, da perda, como partes da vida, pois a vida é um ato de escalar montanhas e as ilusões, os arrependimentos e amarguras que carregamos afeta a escalada e influência todo o ambiente por onde transitamos.

Com cerca de 2.2 bilhões de seguidores no mundo, o Cristianismo é a maior religião do planeta. Dom Paulo Evaristo Arns, falecido cardeal-arcebispo de São Paulo, disse certa vez, em uma mensagem pela Semana Santa, que Páscoa significa passagem de um tempo de escravidão e dureza para outro de liberdade, com paz e justiça social e que o bom cristão é bom o ano inteiro, não é a proibição de comer carne uma ou duas vezes por ano que vai mudar seu comportamento.

Apesar dos avanços, as mulheres vão para disputa em desvantagem

As as eleições de 2024 a ministra Cármen Lúcia estará à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), teremos então, uma mulher conduzindo as eleições, uma mulher que acredita que é possível garantir um ambiente seguro para as mulheres, sem violência política, acredita que as urnas eletrônicas são confiáveis e que assegura que os votos colocados nelas serão contabilizados e apurados e quem for proclamado eleito, será empossado.

Para incentivar a participação feminina na política, a Comissão Gestora de Política de Gênero do TSE criou o projeto ParticipaMulher, que reúne informações sobre a história do voto feminino, como e quem são as primeiras mulheres a conquistar espaços de relevância no meio político e notícias que abordam a progressão dessa participação.

Apesar dos avanços e esforços, fato é que, as candidatas vão para a eleição em desvantagem, como tem sido neste país que ainda tem 14 municípios que não elegem nenhuma mulher vereadora desde a virada do século, no ano de 2000. Das 5.568 câmaras municipais, 842 são compostas integralmente por homens.

As eleições municipais deste ano, comandadas também em Mato Grosso por uma mulher, são uma oportunidade de aumentar esse número, para que haja proteção real a cota de gêneros, combate as tentativas de fraudes dos partidos políticos em relação à cota de gênero, para que avancemos no sentido de chegar a uma participação cada vez mais paritária entre homens e mulheres na política brasileira e o princípio de tudo é o apoio dos partidos políticos às candidaturas femininas.

O levantamento publicado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que a participação de mulheres não correspondeu a um terço das vagas em nenhuma das 26 capitais. Já para vice-prefeitas, houve aumento significativo, foram 3.985 mulheres, o que corresponde a 21,2% do total das candidaturas femininas registradas, em todos os níveis. 30 municípios brasileiros elegeram a primeira mulher vereadora em 20 anos.

As chapas formadas somente por mulheres (concorrendo a prefeita e a vice-prefeita), como ocorreu em Jaciara, com Andréia e Zilá, em Santo Antônio de Leverger com Francieli e Giseli, correspondem pouco mais de 2% do total de chapas registradas em 2020. As chapas em que as mulheres assumiram a disputa para prefeitura, mas com um homem como vice, corresponderam a 11% do total.

Porém, o número de vitórias é bem maior para as chapas com homens na disputa pela chefia da prefeitura e mulher como vice. A pós-doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo Teresa Sacchete, explica que o aumento de candidaturas com mulher de vice não está nem um pouco associado ao fortalecimento de candidaturas femininas ou capacitação das mulheres para que em uma próxima eleição, elas possam ser cabeças de chapa. Ela acredita que as mulheres foram colocadas na posição de vice estrategicamente para que o candidato possa utilizar maior fatia dos fundos de financiamento partidário.

O que prevaleceu mesmo nas eleições municipais de 2020 foi a supremacia dos homens nas prefeituras. As chapas compostas apenas por homens representaram 73% das vitórias. Apenas 651 prefeitas foram eleitas, contra 4.750 prefeitos. Vereadoras eleitas foram 9.196 contra 48.265 vereadores, ou seja 84% de homens nas Câmaras Municipais.

Discursos poderosos de uma luta inacabada

A justiça é representada por uma mulher, a própria ideia de justiça, de democracia com a balança é feminina e no entanto, nós continuamos em desvalor profissional, social, econômico e é exatamente sob a égide de uma Constituição que 35 anos depois de seu primeiro momento de vigência, estampou expressamente que homens e mulheres são iguais em direitos e obrigações  nos termos dessa Constituição e mesmo sendo obrigação atuar igualmente as possibilidades desta construção conjunta muitas vezes nos é negada. Dizem que nós fomos silenciosas historicamente, Mentira! Nós fomos silenciadas, mas sempre continuamos falando, embora, muitas vezes não sendo ouvidas. Trecho de discurso da Ministra Carmen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal, hoje, a única mulher na atual composição do STF que tem 11 integrantes.

A Ministra, disse ainda que o país precisa pensar sob o prisma da promoção da paz. Um país que assassina milhares de mulheres precisa muito que todos nós comecemos a pensar na construção da paz e não apenas no combate à violência. E citou os números assustadores dos feminicídios consumados e tentados.

Trechos do discurso postado numa mídia do STF, recebeu comentários misóginos, deselegantes e polarizados. Sobre comentários maldosos após a fala de uma mulher, a Ministra disse que o discurso de ódio contra as mulheres tem se acentuado e que é um discurso de ódio diferente do discurso contra os homens. É sexista e de costumes, para atingir a família. Apontou que esses comentários são enormemente prejudiciais num momento em que há um esforço centrado pela maior participação das mulheres na política e o medo da exposição diante de ataques de misoginia, preconceito e sexismo as afastam da disputa. 

Dez anos atrás, a atriz Emma Watson, conhecida e querida por ter feito o papel da eterna Hermione da saga Harry Potter lançou a campanha HeForShe, um projeto que visa a participação de homens na luta das mulheres por igualdade de gênero. Em um evento para a apresentação da campanha realizado na ONU, ela pronunciou um discurso poderosíssimo, onde falou sobre o feminismo e liberdade. Disse que precisamos ver gênero como um espectro, ao invés de dois conjuntos de ideais opostos., que devemos nos esforçar e parar de nos definir pelo que não somos e nos definir pelo que somos. O projeto HeForShe é baseado no propósito de liberdade e convida os homens a se engajarem na luta para emancipar suas esposas, filhas, irmãs do preconceito existente.

Disse a atriz que os homens estão aprisionados em estereótipos de gênero e quando eles conseguirem se libertar, as coisas irão mudar para as mulheres como consequência natural. Se os homens não precisam ser agressivos a fim de serem aceitos, as mulheres não se sentem compelidas a serem submissas.

Enquanto a discriminação e as desigualdades persistirem, enquanto as meninas e mulheres forem menos valorizadas, sendo mal pagas para executarem o mesmo trabalho que homens, submetidas a violência dentro e fora de suas casas, o potencial humano para criar um mundo pacífico e próspero não será realizado.  O fato é que a discriminação existe. No contexto global, apenas a Islândia teve a coragem de se declarar como um país onde as mulheres conseguiram igualdade de gênero em todas as etapas de suas vidas.

Normalmente, mulheres não tem as mesmas oportunidades que os homens e as mulheres que não se conformam com o sistema, que tentam quebrar os padrões normatizados, são chamadas de descontroladas e feministas. O fato é que uma mulher que aspira um cargo político, a direção de uma empresa, o faz pelas exatas mesmas razões que qualquer homem. Basicamente, porque ela entende e firmemente acredita que é capaz de fazer trabalho.

A rádio Mulher de Bafatá

Um animal imperfeito, sem fé, sem lei, sem medo, sem consistência”. Ditado francês do século XVII sobre as mulheres. Era uma época em que a violência era realizada com total apoio de homens brutalmente poderosos. Por muito tempo, as mulheres não foram ouvidas ou acreditadas quando ousavam falar a verdade diante do poder desses homens.

A violência contra as mulheres assume muitas formas. Pode ser físico, sexual ou emocional. Pode ser público ou privado, online ou offline, perpetrado por um estranho ou por um parceiro íntimo. Independentemente de como, onde ou por que acontece, tem graves consequências a curto e longo prazo para as mulheres e jovens vítimas de violência e assédio sexual, práticas que transcendem qualquer cultura, geografia, raça, religião, política ou local de trabalho.

Na longínqua Guiné-Bissau, um país africano, a violência contra mulheres é muita e as denúncias eram poucas. Para facilitar as denúncias, da união de várias associações de mulheres com uma parlamentar surgiu a Rádio Mulher de Bafatá, uma tentativa de emancipar e dar voz as mulheres da região leste da Guiné-Bissau. Muito difundida na Guiné e no exterior, a rádio só de mulheres está, há algum tempo, movimentando uma região onde elas sofrem discriminação e violência frequentemente, inclusive a mutilação genital. A ONU, reconheceu que a rádio funciona como um instrumento pedagógico de difusão dos direitos humanos.

A seguir, apenas um flash, um recorte mínimo do que lemos na semana que antecede o dia Internacional da Mulher no Brasil: A fala eloquente e misógina do vereador Noé Monteiro de Barros, aqui de Mato Grosso, de que não há mulher bonita na cidade onde ele mora, como se função de vereador fosse legislar sobre padrões de beleza.

Em Mato Grosso, casos de feminicídios ocorreram recentemente em Cáceres, Santo Antônio de Leverger, Peixoto de Azevedo. Mato Grosso terminou o ano de 2023 como o terceiro estado com maior taxa de feminicídio no Brasil, 90% superior à média brasileira e segunda maior taxa de estupros.

No interior de São Paulo ocorreu o caso mais brutal. Uma mulher denunciou o marido por violência, conseguiu medida protetiva e trancou-se em casa, mas horas depois, ele invadiu a casa, a matou e arrancou-lhe coração.

Um casal discute no trânsito, nas ruas de Porto Alegre, RS, o homem brutalmente toma o bebê dos braços da mãe e o atira pela janela do carro em movimento. A mãe abriu a porta e se jogou do carro para socorrer o bebê de apenas 11 meses. A mulher está internada em estado grave, com traumatismo craniano, o bebê sobrevive até o momento.

Falando de mulheres, no mês da mulher, li a matéria extraordinária sobre a professora emérita da Faculdade de Medicina do Bronx, o bairro mais pobre de Nova Iorque, a americana Ruth Gottesman, que doou 1 bilhão de dólares para quitar as mensalidades de todos os alunos matriculados e manter para sempre a gratuidade do curso de medicina, onde ela, doutora em Educação, trabalhou por 50 anos. Foi inevitável fazer uma comparação com os investimentos feitos por homens bilionários.  

Apesar de fazerem doações a instituições de caridade e bolsas de estudos, Elon Musk pagou 44 bilhões de dólares pela vaidade de comandar o Twitter, que hoje tem valor de mercado de 19 bilhões. Jeff Bezos investe 1 bilhão de dólares por ano para colocar sua nave espacial em órbita em voos que duram apenas 10 minutos.  

Não é admissível nenhum poder de um lado apenas

Filósofos importantes e bem difundidos no Brasil como Auguste Comte e Rousseau pensavam de modo parecido sobre mulheres, considerando-as menos capazes de compreender os assuntos complexos da política, os quais só os homens poderiam dominar. Já o filósofo inglês Stuart Mill foi deputado em 1865, escreveu ensaios apoiando a liberação das mulheres e acreditava que se as mulheres fossem social e politicamente emancipadas, elas seriam mais bem educadas e teriam melhor percepção sobre as coisas. Mill criticava o princípio que regulava as relações sociais e políticas entre os sexos e dizia que isso era um grande obstáculo ao progresso humano.

Stuart Mill trocou cartas por quase uma década tentando convencer o francês Auguste Comte de que a pouca inclinação das mulheres, de seu tempo, para as questões públicas era fruto da educação que recebiam, o que poderia e deveria ser mudado, porém o francês não mudou de opinião. Para Comte, as mulheres eram biologicamente inferiores aos homens e a sua única missão era educar os filhos e zelar pelo lar. Mill, irritado, escreveu um livro criticando duramente o pensamento de Comte e encerrou o ciclo de troca de cartas.

Os políticos e a elite intelectual brasileira liam muito John Stuart Mill e o filósofo era muito citado nos debates entre parlamentares. O escritor José de Alencar, era um deles e quando foi deputado, em 1861, reconheceu que as mulheres não poderiam ser impedidas de participar da política, porque elas tinham interesse no que acontecia na sociedade. No discurso favorável à participação da mulher na política, disse: “A civilização um dia concederá esse direito. Então, essa parte da humanidade que, na vida civil, comunga em nossa existência, não há de ser esbulhada de toda a comunidade política; aquelas que são esposas, mães, filhas e irmãs de cidadãos, e têm senão maior, tanto interesse na sociedade como eles, não serão uma excrescência no Estado. Participarão da vida política por seus órgãos legítimos.”

Em 1879, a Câmara dos Deputados voltou a discutir o sistema eleitoral brasileiro e não faltou citação as obras e pensamento do Stuart Mill sobre o voto feminino. Ocasião em que o Deputado Cézar Zama, médico e escritor se pronunciou convencido de que a igualdade em matéria de política fosse concedida às mulheres.  Apressadamente o Deputado Freitas Coutinho, respondeu: Deus nos livre disso!

Deus os livrou por algum tempo, porém em 24 de fevereiro de 1932, há exatos 92 anos foi instituído, através de decreto, o voto feminino no Brasil. Inicialmente limitado às mulheres casadas, com autorização expressa dos maridos. A data celebrada em 24 de fevereiro de 1932, incorporado a Constituição de 1934, foi um grande passo na luta pela igualdade, pelo direito de a mulher expressar-se politicamente.

Mulheres como Bertha Lutz, que fundou a Federação Brasileira para o Progresso Feminino, considerada a primeira organização feminista brasileira; a advogada Almerinda Farias Gama, que foi a única mulher aceita delegada na Assembleia Constituinte de 1934, Celina Guimarães, a primeira mulher a registrar-se como eleitora no Brasil; a professora Leolinda Daltro, que fundou o Partido Republicano Feminino em 1910. Essas mulheres lideraram movimentações importantes no sentido de sensibilizar os políticos a apresentarem projetos de lei em favor da liberação do voto feminino.

Atitudes e percepções negativas impactam a vida das pessoas

Estamos vivendo um tempo de glorificação e obsessão pela juventude e beleza física. Estamos julgando baseados na perpetuação de estereótipos e isso pode afetar nosso senso de identidade, nossa autoestima e nossas atitudes em relação ao envelhecimento e acabar moldando a nossa visão em relação as pessoas mais velhas e as nossas próprias preocupações sobre envelhecer digna e produtivamente.

Mal iniciou fevereiro e as manchetes indicavam que as mulheres não viveriam tempo de trégua no ano 2024. Julia Roberts, a belíssima e conceituada atriz americana, compartilhou recentemente no Instagram um momento familiar, tomando café com a sobrinha Emma Roberts. Originalmente, a foto pretendia simplesmente ilustrar um momento cheio de ternura entre Júlia e a sobrinha, mas virou alvo de ataques de ódio contra a estrela de 56 anos.

“Postei uma foto com minha sobrinha, tirada numa manhã de um fim de semana que ela havia dormido na minha casa. Tínhamos acabado de acordar, estávamos tomando chá, tendo uma manhã adorável”.

Porém, após postar a foto, Julia Roberts recebeu uma enxurrada de comentários desagradáveis, ​​insultando sua aparência, criticando que ela está envelhecida demais, que parecia horrível. Julia Roberts, magoada se posicionou: “Sou uma mulher de 56 anos, mãe de três filhos. Eu sei quem sou, mesmo assim fiquei muito triste por que as pessoas não conseguiram perceber o sentido do post, a doçura, a alegria luminosa e absoluta que emergiu da foto.” 

As reações à idade de Julia Roberts são alarmantemente comuns na sociedade atual, que muitas vezes cobra padrões de beleza irrealistas e permanentes. Celebridades são particularmente suscetíveis a tais ataques, porém o que mais a surpreendeu a atriz foi o fato de as pessoas terem se sentido “obrigadas” a expressar insatisfação com a aparência dela.

A atriz Sharon Stone, 66 anos, disse em entrevista recente que se lembra das inúmeras vezes que ouviu que estava “velha demais” para muitos papéis, aos quarenta anos. Hoje, olha para suas fotos com quarenta e poucos anos com profunda admiração pela beleza que exibia e diz: “Eu, parecia uma velha? Oh meu Deus! Somente anos depois dos quarenta, mãe de 3 filhos, Sharon Stone iniciou seu processo de reconciliação, mudança e compreensão sobre quem ela realmente era. Hoje diz sentir-se emocionada, grata e nem um pouco envergonhada por estar velha.

A incapacidade da sociedade em aceitar o processo de envelhecimento, aumento de peso e a imposição de padrões de beleza pouco saudáveis ​​são problemas sobre os quais precisamos falar. Combater eficazmente este fenômeno passa por promover a ideia de respeito e aceitação da diversidade de aparência e de idade.

No Brasil, país onde cerca de 11% da população tem mais de 65 anos, há certo tempo, sobretudo no período pré-carnaval, as pessoas têm pegado pesado com duas mulheres maravilhosas, Viviane Araújo, aos 48 anos, quinze anos como rainha da Escola de Samba Salgueiro, tem consciência que o preconceito quanto à idade existe e diz que já ouviu várias vezes comentários que ela já deu e que já parece cansada.

Paola Oliveira foi duramente atacada praticamente todos os dias do ano de 2023, porque engordou, porque fez 41 anos.  Como disse Júlia Roberts, as pessoas se sentiram “obrigadas” a se manifestar numa foto que Paola postou em ensaio da escola de samba: “É impossível não perceber que ela deu uma engordada. Velha e gorda, braço de merendeira. A idade chegou”, criticou um perfil feminino. Sororidade zero!