Não seguirás a multidão para fazeres o mal

Quando você adota os padrões e os valores de outra pessoa você abre mão de sua própria integridade e se torna, na medida de sua rendição, menos ser humano, escreveu Eleanor Roosevelt em um texto sobre conformidade. No entanto, a conformidade não é apenas uma estratégia de sobrevivência, mas também algo institucionalmente doutrinado em nossa cultura.

O escritor e pensador dinamarquês Soren Kierkegaard (1813 – 1855), celebrado como o primeiro verdadeiro filósofo existencialista contemplava a continuada tensão entre o indivíduo e a multidão. Sua obra, que a rigor é sobre a religião cristã e lida com temas como a fé, o desespero e a angústia, não soou diferente quando escreveu The diary of Soren Kierkegaard, um curto ensaio, onde ele considera o quanto nossa incapacidade de contemplação silenciosa das coisas e dos fatos nos separa de nosso verdadeiro eu e, em vez disso, nos leva a adotar passivamente, sem contrapontos, os ideais dos outros.

Se outras pessoas fazem isso, significa que isso está certo e eu devo fazer também. Certo? Não. Isso se chama o princípio da prova social, quando, para determinar o que é correto precisamos olhar para o que outras pessoas estão fazendo e o que necessitamos mesmo é despertar o espírito humano individual do transe da multidão.

O ponto central do ser humano é sua unidade exclusiva, cada ser humano tem uma realidade infinita, e é orgulho e arrogância de uma pessoa não respeitar a individualidade de seu semelhante. O papel vital das minorias é ser um antídoto para o pensamento arrasador e grupal da maioria, teoriza Kierkegaard levantando a questão do indivíduo e da multidão.  “A verdade está sempre com a minoria, e a minoria é sempre mais forte que a maioria, porque a minoria é geralmente formada por quem realmente tem opinião, enquanto a força da maioria é ilusória, formada pelas gangues que não têm opinião”.  

A evolução do mundo tende a mostrar a importância absoluta da categoria do indivíduo à parte da multidão, cada um é um indivíduo, que, embora viva num mundo conectado e compartilhado deve conduzir-se lado a lado da liberdade, da vontade. Entretanto impressiona perceber pessoas que se deixam guiar inertes, que reverberam discurso de ódio, sem reflexão, percepção e sentimento enquanto nem mesmo a fé está livre da dúvida.

“Não seguirás a multidão para fazeres o mal”. Êxodo 23:2

Interesses pessoais e a grandeza do estado

Embora estejamos (povo e instituições) acostumados a realizar eleições, Charles-Alexis de Tocqueville, pensador e político liberal francês, adverte: “é sempre necessário considerar o tempo que precede imediatamente a eleição e aquele durante o qual ela se realiza como uma época de crise nacional”. O homem contemporâneo pode ter se esquecido de Tocqueville, que também chama à atenção para a importância do princípio da participação popular, onde é importante a vigilância do cidadão aos políticos que elegem para que a vontade popular não seja corrompida.

Séculos mais tarde, estamos envolvidos num momento de pré-eleições gerais e o sentimento é um misto de tensão pela advertência citada acima e alegria por entender o momento como convite para a participação efetiva em uma festa democrática, para a libertação da política alienada e tosca que não me representa e votar com a esperança de estar contribuindo para diminuir o fosso que separa o poder da sociedade e o fosso que separa o capital dos visíveis bolsões de pobreza.  

“O espírito democrático pode fazer maravilhas, mas não produzirá mais que um governo sem virtude e sem grandeza, se cada um de seus membros estiver mais preocupado com seus assuntos privados do que com as questões públicas; mais com seus interesses pessoais do que a grandeza do seu estado”, ensina Tocqueville, para quem os indivíduos ocupados exclusivamente com coisas de interesses pessoais, se entregam a uma certa cegueira social e esse comportamento gera indiferença para com a gestão da coisa pública.

Estamos sempre nos perguntando quem será afetado e beneficiado pelas ações dos políticos. Tocqueville aponta a política como um meio de reconduzir os homens uns aos outros, obrigando-os a saírem de seus confortos individuais para se ajudarem mutuamente. A partir daí, os homens aprendem a submeter a sua vontade à dos outros e a transformar seus esforços particulares em ação para o bem comum. Como outras associações, a política tem a missão de fazer com que os homens se unam para a concretização de objetivos, que seriam impensáveis de serem realizados sem a comunhão dos esforços.

Em geral uma ação política que reflete na felicidade de pessoas de uma comunidade distante e pobre, não repercute minimamente aqui na capital ou nas cidades mais ricas; uma escola que ensina uma criança quilombola ou indígena em uma comunidade longínqua e esquecida não recebe nenhum reconhecimento pelo esforço, pelos quilômetros vencidos. Embora os homens sejam mais facilmente notados quando estão inseridos num contexto coletivo e solidário, as dificuldades do outro são percebidas apenas nos seus arredores, não além.

Se não agora, quando você vai votar para se sentir representado? Deputados, senador, governador e presidente devem ter propostas de ações que cheguem em todas as comunidades e cidades, que o bem-estar proporcionado a uma região do estado seja aclamado nas outras regiões, que os irmãos que não precisarem mais ir para a fila dos ossinhos sejam exaltados como fruto do esforço coletivo dos homens e mulheres desse estado tão rico.  

A presença de religiosos tem se tornado saliente na política

Na eleição de 2018, religiosos, sobretudo evangélicos foram decisivos na eleição do presidente Bolsonaro. Segundo uma pesquisa do Datafolha, 7 emcada 10 votaram nele. Nas eleições de outubro próximo haverá, cerca de 640 candidatas e candidatos que se intitularam religiosos, são pastores, pastoras, bispos, irmãos, apóstolos, padres e missionários, lembrando ainda que nem todos os religiosos assumem o sacerdócio como profissão.

A agenda dos candidatos está congestionada de encontros com famosos líderes evangélicos de igrejas tradicionais, como Edir Macedo, R.R. Soares, Silas Malafaia, amigos pessoais do presidente. Do outro lado, o ex-presidente Lula conta com apoiadores religiosos mais progressistas e menos famosos como Ariovaldo Ramos e Henrique Vieira, pastor evangélico, que foi vereador na cidade do Rio de Janeiro.

Onde estão os homens ungidos com a missão de cuidar da alma do povo? Muitos estão em campanha eleitoral tentando se eleger a um cargo eletivo ou empenhados em transferir votos de suas igrejas para determinados candidatos. Em Mato Grosso, um pastor da Igreja Assembleia de Deus é candidato ao governo do estado.

De acordo com uma pesquisa do Instituto de Estudos da Religião, lançar candidaturas com apelo religioso traz bons resultados para os partidos políticos. Na eleição passada, de 2020, as candidaturas que mobilizaram a religião de forma direta foram vencedoras, principalmente porque os candidatos circularam por muitos espaços religiosos, falando com os frequentadores numa linguagem familiar e se valeram da proximidade com altos escalões do governo federal, cargos notadamente ocupados homens ‘extremamente’ evangélicos.

A maioria dos líderes religiosos mais influentes, têm declarado nas mídias que continuam apoiando Bolsonaro, por uma série de motivos que vão desde os compromissos públicos com a proteção da família tradicional à defesa da isenção de impostos para as igrejas. E esses líderes se posicionam e falam abertamente sobre suas escolhas políticas e eleitorais, batendo firme para influenciar o voto de seus rebanhos, fugindo do que idealmente seriam seus propósitos.

Cientistas políticos estão debruçados em dados e observações que investigam a fundo o voto evangélico e creem que nas pequenas igrejas de bairros mais periféricos, os pastores estão abandonando a discussão eleitoral para evitar acirramento das discussões dentro da comunidade e pela necessidade dos pastores voltarem aos seus trabalhos de base, ligados às aflições da vida familiar, como, endireitar os casos de desvios, buscar vagas em hospitais, buscar trabalho, moradia.

Se a religião detém autoridade política, sua ambição é ampliá-la e não é para cumprir nenhuma missão divina, motivada a reformar a sociedade sob a orientação espiritual. Tanto a religião quanto a política têm um objetivo comum: explorar a fé para adquirir poder político. Existe, claro, grupos de pessoas que desejam mudanças em suas vidas cotidianas e ao mesmo tempo não desejam abandonar a religião. Essas pessoas tornam-se partidárias e dão tanto à religião quanto à política uma nova interpretação no sentido de equilibrar o domínio que uma tenta exercer sobre a outra.

Representatividade comprometida

Sub-representatividade compromete avanços. Não sou eu quem estou dizendo isso. É isso. A política é uma poderosa ferramenta de transformação social. É importante estar aberto ao diálogo e as novas ideias, minimizar o confronto, parar de reclamar que está tudo ruim e não ter medo de mudar de posição. 

Através dos economistas ouve-se que o tema que moverá essa eleição será a economia. A situação econômica vai influenciar muito o eleitor na hora de firmar seu voto. Não há como ignorar a pobreza extrema, o bendito sai e entra do Brasil no mapa da fome das Nações Unidas. Uma nação marcada pela estarrecedora notícia que há mais de 33 milhões de pessoas sem ter o que comer almeja mudança e ataque direto à causa, que é de conhecimento de todos os brasileiros: a desigualdade social. 

Aliás, desigualdade é uma palavra que permeia a vida de milhares de brasileiros. A desigualdade no nosso estado e no país é gritante na questão de gênero, na condição social e representatividade política. O que temos percebido são as pessoas conservadoras, brancas, influentes alegando que as minorias estão pautando as discussões políticas e as minorias reclamando que não são ouvidas e enfrentam dificuldades imensas para ocupar os espaços de poder. A desigualdade representativa em todos os poderes, principalmente no legislativo é uma realidade incontestável aqui no estado e em todo o país, onde grupos importantes são sub representados. 

Hoje, na Câmara Federal e no Senado apenas 17,8% dos nossos parlamentares são negros, embora estes representem 55% da população. Registramos avanços, mas só mesmo quem tem a grandeza de se colocar no lugar do outro ou quem vive as dores de suas necessidades, da fome ao preconceito pode formular políticas para melhorar suas vidas.

A falta de políticas públicas que contemple o cidadão negro, humilde, morador de periferia se justifica pela falta de representatividade dessa população no Congresso Nacional, onde estas pautas são concebidas. Estende a outras populações, como mulheres, indígenas, LGBTQIA+ o mesmo problema de representatividade ou falta de empatia às suas causas, o que inegavelmente resulta na falta de políticas públicas afirmativas para as populações excluídas de participarem das eleições, ou que participam sem recurso e apoio dos partidos. Lamentavelmente não será a eleição de 2022 que vai promover uma mudança radical nesse cenário e abrir espaço significativo aos excluídos, mas isso é um processo que precisa ser iniciado com educação, discussões profundas para sensibilizar as pessoas em posições de decisão e poder e principalmente, o eleitor.

Talvez o eleitor tenha se cansado de bater nas mesmas teclas todas as eleições: saúde, educação, segurança…e perceber que nestes quesitos as mudanças são lentas, muitas vezes imperceptíveis, avança-se num determinado governo, retrocede no seguinte, mas é possível sim, que o governo se comprometa com a solução de muitos problemas sociais, potencializando os investimentos em educação de qualidade, as eleições são uma oportunidade para o eleitor cobrar isso.

A vida das mulheres chefes de famílias

De que mulheres estamos falando quando discorremos sobre o mito da fragilidade feminina, que justificou historicamente a ‘proteção’ dos homens sobre as mulheres?

A antropóloga americana Ruth Landes chegou ao Brasil em 1939 e mesmo sendo seguida de perto pela polícia da ditadura de Getúlio Vargas, conseguiu fazer um estudo profundo sobre as mulheres brasileiras, em Salvador, na Bahia, que acabou transformando-se no livro A Cidade das Mulheres, onde traz a percepção que a autora denominou de um verdadeiro matriarcado econômico e cultural. A autora partiu da atuação destacada das mulheres dentro dos terreiros de candomblé e das vendedoras nos mercados da cidade, que como mulheres chefes de famílias pobres, precisavam trabalhar para sustentar a si mesmas e a seus filhos.

Ruth acompanhou a rotina de várias mulheres soteropolitanas e as descreveu como mulheres fortes, confiantes, que administravam açougues, quitandas, estavam atrás dos balcões de doces e frutas e nas barracas das feiras, onde vendiam especiarias, sabão e comida típica. Ao despedir-se para retornar aos Estados Unidos, ouviu da amiga brasileira: “pelo menos agora, você pode dizer-lhes que aqui não há onças passeando pelas ruas”. A antropóloga acrescentou: “vou falar-lhes isso, mas vou falar sobretudo das mulheres, penso que elas engrandecem o Brasil”.

Esse arranjo familiar pode ou não incluir um marido ou companheiro. Segundo pesquisa do IBGE, é menor a proporção das famílias chefiadas por mulheres onde há um cônjuge. Fato é que as mulheres ocupam um espaço cada vez maior no mercado de trabalho e contribuem cada vez mais com a renda das famílias, quando não são a única fonte de renda existente na casa.

  É claro que as mulheres, nem de longe, alcançaram a verdadeira igualdade no local de trabalho. A discriminação baseada no gênero reflete no salário menor e o assédio sexual ainda persiste em todas as classes e níveis de trabalho. De acordo com uma matéria publicada na Revista Forbes, cerca de 60% das mulheres ganhariam mais se recebessem o mesmo que os homens com níveis de educação e horas de trabalho equivalentes.

Enfim, as pesquisas mostram o que é facilmente perceptível, que mesmo sendo responsáveis pelo sustento de suas famílias, as mulheres brasileiras ganham cerca de 27% a menos do que os homens, o que leva muitas a buscarem complemento de renda com atividades remuneradas, como manicure, venda de lanches, após exaustivo dia de trabalho.                                                               

Institutos como IBGE e IPEA se debruçam em números para mostrar essa realidade, que vem aumentando a cada dia. Ou seja, há cada vez mais mulheres chefiando famílias, a grande maioria se desdobra nas múltiplas funções por necessidade financeira, porém as análises mais recentes sobre o tema apresentam uma mudança nos papéis familiares e o principal indutor dessa mudança é a maciça inserção das mulheres no mercado de trabalho.

A estratificação das análises mostra que não há uma causa que tenha levado uma grande proporção de mulheres a sustentarem sozinhas a família, há sim, uma série de fatos conectados entre si, que vão desde o empoderamento feminino no sentido de despertar a consciência e encorajar às mulheres a empreenderem, a se lançarem como seres autônomas e capazes até as questões recorrentes de rompimento de laços familiares. Resulta disso, que as mulheres estão aprendendo a ser cada vez menos vulneráveis socialmente.

Números impressionantes

Quando se fala de eleições no Brasil, os números impressionam. Mais de 156 milhões de eleitores (156.454.011) estão aptos a comparecer às urnas para escolher o presidente da República, um terço do senado (27 senadores ou senadoras), 513 deputados ou deputadas federais e estaduais. O TSE aponta que houve um crescimento de mais de 6% no eleitorado desde a eleição de 2018 e também aumentou o contingente de brasileiros que votarão no exterior, são hoje 697 mil pessoas.

O cadastro eleitoral aponta que, novamente, as mulheres são a maioria dos eleitores, ao todo, são 82.373.164 eleitoras, o que significa 52,65% do total de pessoas aptas a votar. A grande maioria dos eleitores tem idade entre 25 e 44 anos, 2 milhões de jovens com idade entre 16 e 17 anos são os novos eleitores; a nossa região Centro-Oeste representa pouco mais de 7% dos eleitores do país e a cidade de Araguainha-MT, tem o segundo menor colégio eleitoral do país.

Quando eu disse que os números impressionam, refiro-me também aos valores que serão investidos pelo governo federal nos partidos para financiar candidaturas pelo país. O Fundo Especial de Financiamento de Campanhas distribuirá a absurda quantia de quase 5 bilhões de reais (4.961.519.777,00) a 32 partidos registrados, submetidos a aplicação de critérios estabelecidos, baseados na representatividade obtida pelo partido na Câmara Federal e no Senado na eleição anterior. O Partido Novo foi o único partido que oficialmente renunciou ao direito de receber qualquer quantia.

O prazo para registro das candidaturas termina nesta segunda-feira, 15 de agosto. Na terça-feira, começa efetivamente a propaganda eleitoral dos candidatos, incluindo aos serviços de mídias digitais já iniciados, as caminhadas, carreatas, distribuição de material já com número do candidato para massificar, esse período de propaganda intensa segue até 1º de outubro, véspera do primeiro turno das eleições.

Dia 26 de agosto, tem início o horário eleitoral gratuito no rádio e na televisão, algo que tem sido alvo de críticas por parte de alguns e gerado expectativa positiva por parte de outros.

Muitos candidatos afoitos incorrerão em erros, como sempre, mas não podem decididamente alegar falta de publicidade dada às regras eleitorais e da propaganda eleitoral, especificamente. As inovações foram enumeradas pelo TSE e publicadas em resoluções, cartilhas, seminários gratuitos, presenciais e on-line nas sedes regionais para elucidar as dúvidas quanto o que é permitido ou vedado no período eleitoral. 

Ao eleitor, tão somente a este cabe manter na mente todos os problemas que afetam a sua vida e de milhares de brasileiros antes de entrar na cabine de votação; a pobreza, a corrupção, os serviços precários de saúde e educação devem ser elementos considerados na hora de votar.

Segundo Antônio Lavareda, presidente do conselho científico do Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas (Ipespe), o aumento da inflação e da miséria faz eleitor se preocupar mais com a economia na hora de votar. Problemas relacionados ao bem-estar financeiro, como inflação, miséria e desemprego, voltaram ao topo das preocupações do eleitor. E esse é um cenário que deve dificultar a tentativa de reeleição do presidente Bolsonaro.

E por falar em números que impressionam, finalizamos lembrando que há no país, 33,1 milhões de brasileiros passando fome e é para estes irmãos que devemos olhar antes de decidir nosso voto.

É muito difícil arejar os grupos políticos

A política é um espaço por onde passam todos os acontecimentos. A política não é nada mágica; são pessoas tomando decisões em nome de outras pessoas e se você quer uma política melhor, mude as pessoas que estão tomando as decisões. Fácil falar! Renovação, embora pareça, não é pauta.

Thomas Hobbes, filósofo inglês, quando escreveu Leviatã afirmou: “Considero como inclinação geral de toda a humanidade um desejo perpétuo e irrequieto de poder e mais poder, que cessa apenas com a morte”. Séculos mais tarde, Friedrich Nietzsche, filósofo alemão, em Assim falou Zaratustra reforçaria a sede do homem pelo poder: “Onde encontrei vida, ali encontrei vontade de poder; e até mesmo na vontade do servo encontrei a vontade de ser senhor”.

Quando se trata de política, a fase atual é de pessimismo, falta de confiança nos partidos e nos políticos, polarização irritante, inflação, discursos moldados em tons de ódio, preconceito e deboche, pouca entrega, quase nada, sobretudo do governo federal em terras mato-grossenses.

Aí então, acreditando que na democracia há espaço de divergência, de independência e inovação, surgem candidatos que propagam discurso de franqueza com a realidade estadual e nacional, tentando fazer política com grandeza, reconhecendo os bons mandatos, a boa administração do estado e valorizando o eleitor. Candidatos que se colocam para promover a política, discutir os problemas, manter a sedução e esperança permeando nossos dias.

Pouco compreendidos são preteridos quando se colocam em rota de colisão com políticos tradicionais e compadrios de grupos de poder mas na verdade isso é muito comum e os homens agem assim sempre que podem. Não é fácil ter espaço para novas lideranças em um grupo político, no sentido de ser respeitado e valorizado nos movimentos futuro do grupo. Em uma eleição, desenha-se o cenário e os atores preferidos da próxima eleição, com participação de aliados, do grupo e dos compadres.

Mesmo quando o candidato se torna um importante ‘player’, quando cresce com independência num espaço já ocupado por políticos tradicionais tem que lidar com a desconfiança dos que habitam em estado distante e de lá pressionam e interferem nos palanques daqui. O candidato que que se distancia da polarização, que cresce e aparece paga o preço. O novo está prejudicado. Parece que agrada ao povo, a garantia dos milhões despejados pelas emendas parlamentares, reforçadas pelas vultosas quantias do imoral orçamento secreto.

No contexto da política atual, precisei voltar a Max Weber, sociólogo alemão, que escreveu sobre a política como vocação e dedicou aos políticos vocacionados três qualidades: paixão, senso de responsabilidade e senso de proporção, o que dá ao bom político a exata noção da sua missão. Weber reconhece que o político pode viver ‘da política’, quando a política é a fonte de sobrevivência do indivíduo e pode viver ‘para a política’, quando o indivíduo se entrega à política independente do ganho financeiro.

Por mais políticos por vocação, indivíduos que vivam para a política, que se dedicam à política como objetivo de vida, equilibrando seu sucesso, sacrificando suas convicções, se o contexto exigir.

Sou por acaso o guardião do meu irmão?

No caos de nossas vidas diárias, podemos ficar presos no vai-e-vem dos compromissos, na agitação do mundo e esquecer o quem realmente queremos ser e o que queremos fazer. Decidi que eu não quero desviar o olhar dos sofrimentos alheios e me pergunto: como uma pessoa comum como eu posso fazer a diferença no mundo de outras pessoas? Então, lembro-me de uma bela fala do ator Robin Williams: “Eu não sei quanto valor eu tenho nesse universo mas eu sei que fiz algumas pessoas mais felizes do que elas teriam sido sem mim e desde que eu sei disso, eu sou tão feliz quanto preciso ser”.

Bondade e caridade são as duas características humanas básicas, naturalmente, no universo moral, elas transbordam. A solidariedade é nossa única saída diante dos problemas e sofrimentos alheios. É quando fazemos o bem que reconhecemos nossa humanidade.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no livro A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas, relata o comentário do filósofo naturalizado francês Emmanuel Lévinas sobre a resposta de Caim quando Deus lhe perguntou onde estava Abel. Caim respondeu, zangado, com outra pergunta: Sou por acaso guardião do meu irmão? O filósofo Lévinas diz que é claro que eu sou o guardião do meu irmão e quer que eu admita ou não, sou o guardião do meu irmão porque o bem-estar dele depende do que eu faço ou do que eu deixo de fazer.

E somente uma pessoa moral reconhece essa dependência e aceita a responsabilidade que ela implica. No momento em que questiono e renuncio a minha responsabilidade deixo de ser um ser moral. A dependência de meu irmão é o que me faz um ser ético, solidário. A dependência, a responsabilidade e a ética caminham juntas.

Se para Lévinas, nosso ponto de partida deve ser sempre a ética, a alteridade Bauman entende que deve ser a solidariedade. Para ambos o homem não é pastor de outro ser, é o guardião. O homem é um ser para acolher o outro. Ambos apostam que para evitar a desumanidade, só resta escutar a voz do outro, olhar o rosto humano e reparar em sua fragilidade. E então, a única coisa que resta é a bondade individual de um homem para com outro homem.

Longe de ser um santo, tanto o homem ético quanto o homem solidário devem ajudar a carregar em suas costas o sofrimento do desvalido, das minorias, dos famintos, dos sem esperança. O problema da ética e da solidariedade não é o simples reconhecimento da alteridade, mas a obrigação de se colocar no lugar do outro, o que hoje também entendemos como empatia.

Lévinas tem muito a ensinar sobre a humanização da sociedade contemporânea e por falar tanto em sentir a dor do outro, colocar-se no lugar do outro, tem sido citado como um filósofo da alteridade, da ética, do sagrado e da transcendência.

“Se o sofrimento do outro não me afeta, é porque algo me impede de ver seu rosto e a visão do rosto, quando acontece, sempre surpreende, pois caracteriza a visão do outro nunca antes percebida e isso rompe a indiferença. É sagrado quando deixo de ficar lado a lado com o meu irmão para ficar cara-a-cara”.

De olho na expressão facial

Foi com o estudo dos gestos das mãos que Paul Ekman iniciou suas pesquisas sobre a comunicação não-verbal em seres humanos e, na época já havia uma discussão sobre a expressão facial no contexto dos estudos sobre comportamentos emocionais, algo que havia sido iniciado lá atrás com Charles Darwin, quando publicou o livro “A expressão das emoções no homem e nos animais”.

Em tempo de discursos eleitoreiros, “fake news” e muito jogo de cena é muito importante prestar atenção e perceber quando uma ação facial é espontânea e genuína ou apenas uma expressão posada, controlada e dissimulatória.

Paul Ekman, um dos maiores especialistas do mundo no campo das emoções, dedicou sua vida a pesquisar emoções e a desenvolver ferramentas para nos ajudar a perceber nossa vida emocional e dos outros. Ele iniciou as pesquisas acreditando que expressão e gesto eram aprendidos socialmente e podiam variar de uma cultura para outra, porém ao avançar nos estudos e trabalho de campo, foi ficando evidenciado que independente da sociedade e cultura em que se vive, os indivíduos, igualmente provocados, vão reagir movendo os mesmos músculos da face e cita que, inacreditavelmente, um rosto pode produzir mais de dez mil expressões.

Pesquisas realizadas por vários anos e diferentes pesquisadores, além de Ekman, confirmaram a existência de 7 emoções básicas que possuem expressões faciais universais. São elas: alegria, tristeza, raiva, aversão, surpresa, medo e desprezo. Vivenciando essas emoções nosso corpo, sobretudo nossa face sinaliza para os outros se estamos levemente ou profundamente deprimidos irritados ou furiosos, se abrimos um sorriso apenas educado ou acolhedor.

As emoções são o que motivam as decisões importantes que tomamos e determinam a qualidade dos momentos que vivemos. A leitura deixa enfático que organizamos nossas vidas para maximizar a experiência de emoções positivas e minimizar a experiência de emoções negativas. Nem sempre conseguimos, mas é isso que tentamos fazer o tempo todo.

Sinais de emoção surgem e são perceptíveis quase instantaneamente quando uma emoção começa. Quando estamos tristes, por exemplo, nossas vozes ficam automaticamente mais suaves e baixas, e os cantos de nossas sobrancelhas são puxados para cima. A pesquisa mostrou que os sinais vocais de emoção são, assim como os do rosto, sinais universais. Na tristeza há grande perda do tônus ​​muscular, a postura cai, sem ação. No desprezo há um impulso de evitar o objeto desprezado, na surpresa e no assombro há atenção fixa no objeto que causa a emoção.  

Notadamente algumas pessoas são muito mais emotivas que outras e por incrível que possa parecer a pesquisa revela que não nos emocionamos de modo perceptível com tudo; não estamos nas garras da emoção que afeta os músculos da face o tempo todo. Também vivemos momentos de relaxamento total!

Adentrando a transversalidade do tema, um estudo recente rejeita o uso de injeções de toxina botulínica, o famoso botox, utilizado para diminuir os sinais de envelhecimento na face, porque deixa o rosto rígido e promove a paralisia temporária dos músculos, impedindo que a emoção cause transformação facial perceptível.

PAUL EKMAN é professor de psicologia no departamento de psiquiatria da Faculdade de Medicina da Universidade da Califórnia, em São Francisco. Especialista em expressão, fisiologia da emoção e engano interpessoal. Autor premiado, ele recebeu o Prêmio de Contribuição Científica Distinta da Associação Americana de Psicologia.

As virtudes das diferenças

O Brasil é formado por um bom contingente de pessoas jovens, são mais de 47 milhões de pessoas habitando um país grande demais para não ter futuro, que não pode seguir errando, apostando na luta em vez do diálogo, insistindo no embate e não no entendimento, na divergência em vez da convergência, no antagonismo em vez da empatia para com o diferente.

Ás vezes é necessário certo recolhimento, um olhar distanciado para pensar, observar, sentir o pulso do país, tentar farejar no ar o rumo certo e encontrar uma forma de alinhar o rumo do barco desgovernado que se transformou o país nos últimos anos.

Talvez ainda esteja meio cedo para muitos definir, outros, assim como eu, não precisam se preocupar com a decisão e a esperança amadurecidas, ainda que faltem 76 dias para as eleições. Não vingará a tão propalada terceira via projetada em tantos perfis, nomes que sobem e descem insignificantes na escala das pesquisas. O voto não migrará dos dois polos polarizados para convergir ao centro. Fato incontornável é que a grande maioria do eleitorado está dividida entre Lula e Bolsonaro, mais ou menos 45% com Lula, 30% com o presidente e ninguém com capacidade de captar algo próximo dos 25% restantes.

Essa convergência não chegou sequer perto de existir. Principalmente porque Ciro Gomes, que tem sido o terceiro nome mais evidente não se encaixa no perfil pacificador, não esboçou nenhuma mudança e seguiu, como sempre, brigando com todo mundo, com Lula e com Bolsonaro, mas também com Dória e Moro.

Do outro lado, entre Lula e Bolsonaro, nenhuma dúvida. Bolsonaro, foi se mostrando na presidência uma pessoa desarrazoada, instalou no país uma insânia passional com desvarios violentos e sempre disparando a verborragia que lhe é peculiar contra a Justiça Eleitoral.

Não tenho como me opor ao movimento Lula Alckmin, não quero me opor a esta aliança que parecia improvável e se converteu numa extraordinária relação de respeito, porém estarei sempre propensa a reclamar dos erros e dos excessos, sem adentrar na questão da hegemonia petista de um projeto de poder duradouro.

 Acredito muito nas virtudes das diferenças que se unem em prol de um projeto nacional, na complementaridade de várias tendências políticas capazes de caminhar juntas sem a necessidade de incitar a destruição política do adversário.

Ainda que, dentro da minha reconhecida insignificância, vivendo momentos de declarada intolerância política, de ameaça de não aceitação do resultado desfavorável das urnas, eu confio que Lula, agora que caminha para o ciclo final da sua vida, se mostre ainda maior do que foi quando governou o país, o que é vital para um país que não suporta mais desastres políticos e econômicos, um país que precisa reduzir o custo do Estado que se abre em benesses eleitoreiras, um país em que o ideal da sua juventude hoje, é ter a oportunidade de ir embora.