Os sete sapatos sujos

Ler o extraordinário escritor moçambicano Mia Couto causa-me certo desconforto. São histórias de pertencimento a um chão duro, um país pobre, uma terra sonâmbula e é nesse cenário que ele escreve livros, textos e palestras, colocados em palavras para expressar que os desafios são infinitamente maiores que a esperança e ainda assim, ciente de que dar futuro a um povo custa muito dinheiro e vontade, ele falou da dificuldade que temos de pensar em nós mesmos como sujeitos, como ponto de partida e como destino final dos nossos sonhos numa bela palestra, que  assisti sem respirar na Universidade de Brasília, no ano de 2019. Mia falou dos sete sapatos sujos que precisamos descalçar e deixar na soleira da porta, ao adentramos o mundo que queremos ter.

O primeiro sapato a ser deixado do lado de fora da porta é a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas, do sistema, da guerra, do preconceito, da geografia. Certamente muitas pessoas nos causaram sofrimentos, mas a responsabilidade de livrar-se deles sempre residiu dentro da casa, escondido num longo processo de desresponsabilização. Olhamos para nós mesmos com benevolência mas cobramos dos outros que nos olhem com dignidade.

O segundo sapato é a ideia de não enxergar o êxito como resultado do esforço, do trabalho, do investimento no longo prazo. Atribuímos o bem e mal que nos acomete à forças invisíveis que comandam o destino.

O terceiro sapato é o preconceito de que quem critica é um inimigo, é a intolerância com quem pensa diferente.  Muito do debate de ideias é substituído pela agressão verbal e demonização de quem pensa de modo diverso.

O quarto sapato é a ideia que mudar as palavras muda a realidade, viver à reboque de preocupações de ordem cosmética. Mudanças de comportamento importam mais do que banir o uso de determinadas palavras, consideradas preconceituosas do dicionário.

O quinto sapato é a vergonha de ser pobre e o culto das aparências expressado na atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de prosperidade, que acaba reforçando a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferencia dos mais pobres. A arrogância e o exibicionismo são emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.

O sexto sapato é a passividade perante a injustiça. Estamos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra nós, contra os nossos, contra a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os outros, como se persistisse em nós zonas silenciosas de injustiça, onde certos delitos permanecem invisíveis.

O sétimo sapato é a ideia de que para sermos modernos temos que viver como os outros, temos que criar familiaridade com o mundo virtual, com os sinais do que é internacional. Aceitamos este apelo à imitação porque sentimos vergonha de sermos quem somos.

Mia Couto provoca os políticos, a cultura herdada e nunca recriada, mas provoca sobretudo as pessoas que se debulham em lamúrias.

O pior analfabeto

Imagine você pegar um livro, ler e não conseguir compreender o enredo, tomar um medicamento e não entender a posologia e contra-indicações, visitar uma cidade e não ter conhecimento algum desde a sua fundação.

Dentro da premissa que uma população plenamente alfabetizada seja a base central para promover o bem-estar e uma democracia que funcione bem, o Brasil está mal colocado. No Brasil, três em cada dez brasileiros são analfabetos funcionais, pessoas incapazes de organizar suas próprias ideias para expressá-las.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO –, é considerada alfabetizada a pessoa capaz de ler e escrever pelo menos um bilhete simples no seu idioma. Dentro desse conceito, a UNESCO define analfabetos funcionais como sendo as pessoas com menos de quatro anos de estudo. Mesmo que essas pessoas saibam ler e escrever frases simples, elas não possuem discernimento necessário para absorverem informações plenas, para tomarem decisões baseadas em leituras e estudos.

No passado a alfabetização era como uma ferramenta utilizada pela burocracia dos estados, comércio e pela igreja, que através da leitura, expandiam seus poderes e exerciam controle sobre o povo. Mas a partir do século 19 a instrução, sobretudo através da leitura tornou-se habilidade obrigatória para os indivíduos serem capazes de ter controle sobre as suas vidas.

Aprender a ler e escrever é o passo inicial do saber. Mas ler, ouvir e escrever são processos mais profundos, não apenas sons, repetições e vocabulário. Serve enfim, como instrumento para proteger as pessoas da exposição e exploração.

Estudando técnicas de persuasão eleitoral constata-se que a grande mídia e profissionais de marketing político optam por adotar um formato que concilia mensagens repetidas, ingênuas e de fácil memorização visando encantar exatamente os indivíduos que não assimilam além do que ouvem e que não leem nem discutem política ao longo do ano. O analfabetismo político, uma insuficiência que atinge a sociedade brasileira em todas as classes, germina onde falta leitura, abstração, onde a manipulação lenta e gradual deforma os valores.

Sobre o analfabeto político, há um texto atribuído a Berthold Brecht, poeta e dramaturgo alemão: “O pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo da vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas.

O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce a prostituta, o menor abandonado, e o pior de todos os bandidos, que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Amazônia – o ‘lugar errado’ do mundo

Oque nos comove? A floresta devastada? Os povos originários? A ausência do Estado? A morte de Bruno e de Dom? pergunta a historiadora e filósofa Janice Theodoro, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP em artigo publicado essa semana.

São quatro questionamentos imbricados sobre a violência que hoje representa o Brasil muito mais do que o samba e futebol. Embora a proteção aos defensores de direitos humanos no Brasil esteja amparada pelo Decreto nº 9.937/2019, que instituiu o Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos, Comunicadores e Ambientalistas, o Brasil foi nomeado em quarto lugar como o país que mais mata ativistas ambientais no mundo. Mary Lawlor, relatora Especial das Nações Unidas, em fala sobre a situação dos defensores dos Direitos Humanos enfatizou que, no Brasil, há violência sistemática contra lideranças indígenas e defensores de direitos humanos devido ao que considera um ambiente favorável para a ação de mineiros, madeireiros, grileiros e pecuaristas.

Os relatórios também apontam que persistem os assassinatos de ativistas porque as investigações dos casos ficam travadas na esfera estadual e que a  impunidade e a ausência de responsabilização na maioria dos casos permanece como uma característica do problema da violência na Amazônia.

O cruel assassinato de Dom Phillips e Bruno Pereira remete sobretudo à história de Chico Mendes e Dorothy Stang, também assassinados na Amazônia. Chico Mendes, seringueiro no Acre, sindicalista e ativista respeitado, liderou manifestações nos anos 1970 para conter o desmatamento na Amazônia. Suas ações pela preservação, o levou a ser premiado pela ONU e assassinado no Brasil, em 1988 em frente à sua casa, em Xapuri, no Acre.

Os autores do crime, pai e filho fazendeiros planejavam transformar uma área defendida por Chico Mendes em uma grande propriedade da família. Sua morte foi uma reação a sua luta como sindicalista pelos direitos dos seringueiros e povos indígenas da Amazônia.

O poderoso Diretor Geral da Polícia Federal à época, Romeu Tuma, foi para o Acre acompanhar pessoalmente a apuração do assassinato, José Sarney, presidente, fez discurso inflamado das Nações Unidas, criou o Ibama, os assassinos, pai e filho se entregaram à polícia e foram condenados a 19 anos de prisão.

A missionária americana, naturalizada brasileira, dedicou-se por décadas a luta pela proteção ambiental e pelos direitos de pequenos trabalhadores rurais. Ameaçada de morte inúmeras vezes, a missionária dizia: “Não vou fugir nem abandonar a luta desses agricultores que estão desprotegidos no meio da floresta. Eles têm o sagrado direito a uma vida melhor numa terra onde possam viver e produzir com dignidade, sem devastar”. Relatou as ameaças ao Secretário Nacional de Direitos Humanos. Não adiantou. Dorothy foi assassinada com sete tiros. Presidente à época, Lula disse que não descansaria enquanto não prendessem os responsáveis pelo assassinato.

A ministra do Meio Ambiente, Marina Silva instalou seu gabinete no Pará, para acompanhar o desfecho do caso. Mais de cinco outros defensores dos povos originários e da floresta foram assassinados recentemente, conforme citação nos noticiários recentes.

E até aqui, qual tem sido a reação do governo brasileiro diante do brutal assassinato de Dom e Bruno? Frases desconexas como: “o inglês é mal visto na Amazônia”, “eles embarcaram numa aventura, num lugar errado e deveriam tomar cuidado”, contrastam com a mensagem enviada por Bruno a uma ONG:  “Estou indo ao Javari de novo. Tem muita coisa acontecendo lá. O garimpo está violento novamente no entorno da terra indígena, muito próximo dos isolados.  Perseguição e tentativa de intimidar não sou só eu que estou recebendo, tem muita gente junto, mas tudo isso vai passar, eu espero, tudo isso vai passar”.

O flagelo da fome assombra o Brasil

Mais de 33 milhões de brasileiros estão vivendo em situação desumana de fome, expressada na pesquisa como Insegurança Alimentar Grave. Em números reais, significa dizer que 14 milhões de novos brasileiros deixaram de ter o que comer nos últimos 2 anos. Em 2020 eram 19,1 milhões, hoje, atingimos o escandaloso número de 33,1 milhões de irmãos famintos.

A Insegurança Alimentar e a fome, propriamente dita, entre crianças e adolescentes tem sido sistematicamente denunciadas pelo Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), pelos seus impactos perversos e imediatos sobre o desenvolvimento das potencialidades físicas e sociais dos jovens atingidos. Em entrevista, o sociólogo e ex-relator da ONU Jean Ziegler chama-nos à responsabilidade: “Cada um de nós é responsável por cada criança que morre de fome”.

Num relatório comovente e transparente a Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), contribui para dar visibilidade a tamanha miséria e vulnerabilidade e quem sabe contribui para o debate fundamentado sobre a rompante desigualdade social vigente no Brasil. Em um ano de eleições, tomara que esses dados divulgados e amplamente comentados nas mídias entrem nas agendas dos candidatos, para que retomem o enfrentamento da fome e da pobreza como política de estado.

Eu não saberia descrever a sensação de fome e ao ler o relatório na sua integralidade, nem alegro-me por isso. E entristece-me mais reler um artigo que escrevi comovida neste espaço em 2011, quando um relatório da Organização das Nações Unidas para Alimentação e Agricultura (FAO) anunciava que o Brasil, naquele ano, pelo segundo ano consecutivo, liderava o ranking dos países com a melhor performance no combate à fome. Felizes, lembrávamos do Instituto Ação da Cidadania, iniciado lá atrás pelo Betinho, que a cada entrevista reafirmava que “quem tem fome, tem pressa”.

Hoje, cá estamos, em um retrocesso intolerável e inaceitável convivendo com 33 milhões de brasileiros que não tem o que comer. De acordo com o relatório, o Brasil regrediu ao patamar da década de 1990. Sabemos que a situação foi crescendo até seu ápice. Desde 2015 a Ação Cidadania vem testemunhando e alertando que fome estava voltando com força devido ao desmonte das redes assistenciais, a exclusão completa, a invisibilidade de milhares, que não foram absorvidos por nenhum programa de auxílio do governo.

Os dados assombram a ONU que durante anos em suas reuniões de cúpula tem fixado a inalcançável meta de acabar com a pobreza e a fome. É preciso tratar o assunto com o governo brasileiro, que ao longo dos anos não promoveu a expansão da rede de assistência social, tampouco criou mecanismos eficientes para proteger as pessoas com maior vulnerabilidade. Na sociedade não há sequer significativo debate sobre o tema.

O Brasil ocupa hoje a 24ª posição entre os países com maior número de milionários no mundo, são 207 mil pessoas, com fortuna acima de 1 milhão de dólares

Eleições e suas idiossincrasias

Para cientistas políticos e sociólogos, o site do TSE é leitura obrigatória, sobretudo no período eleitoral. Essa semana me detive na leitura sobre as peculiaridades eleitorais de vários países pelo mundo, narradas por um observador internacional. Diz ele que numa região de floresta na Índia vive um ermitão e apesar de ser o único habitante do lugar, ele tem sua própria zona eleitoral, com uma urna eletrônica para si. O Governo indiano garante que toda comunidade tenha pelo menos uma urna eletrônica a cada dois quilômetros. 

É interessante observar que a Índia modernizou o sistema de votação, utilizando a urna eletrônica, mas vale-se de método tradicionalmente simples para evitar que um eleitor vote duas vezes, ao sair da cabine de votação, o eleitor tem um dos dedos carimbados, com uma tinta que não sai facilmente, durante vários dias.

A Espanha tem uma curtíssima campanha de apenas 15 dias, sem horário eleitoral no rádio e televisão e não se vota nos candidatos, mas nos partidos. A Suécia tem registrado uma participação eleitoral alta e constante, na casa dos 80% desde a década de 50. No Japão, os candidatos não usam números de identificação e o eleitor precisa escrever o nome completo do candidato na cédula, sem rasuras.

No Equador, uma vitória do movimento feminista estabeleceu que nos locais de votação as filas são separadas por gênero, para evitar que as eleitoras sejam pressionadas.

Um fato marcante citado por Scandiucci, chefe da Assessoria de Assuntos Internacionais do TSE, ocorreu em novembro de 2020 na eleição americana. Em vários centros de votação, jovens que estavam votando pela primeira vez, eram anunciados pela mesa receptora e recebidos com palmas e muita comemoração, numa ação divertida e pedagógica para incentivar e valorizar o voto dos jovens.

No Brasil, uma grande dificuldade é estimular o jovem a votar. No ano de 2020 os maiores porcentuais de ausência entre os cidadãos obrigados a votar foram registrados entre os eleitores de 18 a 29 anos. Os motivos apontados por especialistas passam obviamente, pelo desencanto com a política e já ouvi de um jovem a alegação de que o sistema político está muito desgastado para ser consertado pelo voto, ou seja, não acreditam no poder transformador do voto.

Na outra ponta, a Comissão de Defesa dos Direitos da Pessoa Idosa da Câmara Federal tem debatido a importância da participação da pessoa idosa no processo eleitoral, como um forma de manter a pessoa idosa ativa na escolha de seus representantes, exercendo o exercício da cidadania.

Como manter os jovens e as pessoas idosas motivados a participar do processo eleitoral num universo permeado pela desinformação, falsos relatos, notícias publicadas e encaminhadas fora do contexto, narrativas difamatórias, acusações falsas, julgamentos preconceituosos, teorias conspiratórias que em nada valorizam o voto?

O TSE, segue com o propósito de reverter o quadro de desânimo e promete dedicar o mês de junho para esclarecer o efeito nefasto da desinformação e das fakes news, que levam cidadão a acreditar em informações distorcidas ou inventadas para prejudicar determinado candidato.

Coisas inatingíveis

O Brasil é um dos países mais desiguais do mundo e por ser este um problema secular, sistêmico, sustentado pela má distribuição de renda, dorme esquecido num canto, enquanto discute-se amenidades. No senso de 2020, o IBGE apontou o Brasil na sétima posição entre os países mais desiguais do planeta.

Um país onde os 10% mais ricos detém 43% da renda nacional e tem a segunda maior concentração de renda entre os mais de 180 países. O problema, embora urgente, parece ter solução inatingível. Como escreveu Mário Quintana, “se as coisas são inatingíveis… ora! não é motivo para não quere-las…Que tristes os caminhos, se não fora a presença distante das estrelas”.

A cada campanha eleitoral que se inicia renasce a esperança de ver temas considerados direitos básicos assegurados pela Constituição serem pautas prioritárias dos candidatos, como investimento em saúde, cultura, lazer, educação, todavia continuamos andando em círculos, envoltos no mar de desigualdade, pobreza extrema, racismo, violência, desemprego, precariedade da saúde, falta de habitação, etc.

Um jornal local publicou essa semana que o alarmante número de 361 mil mato-grossenses não tem acesso à moradia digna. São cidadãos que não possuem acesso ao crédito formal, que não conseguem assumir compromisso mensal de pagamento de parcelas, porque sua condição como trabalhador é instável. Estes são os mesmos que sobrevivem com o auxílio do cartão Ser Família, da distribuição de cestas básicas, de cobertores, enfim, de soluções emergenciais, porém, paliativas.

Mesmo ratificado na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Federal, considerada a Constituição Cidadã, o acesso à moradia, no Brasil, em Mato Grosso, é um direito assegurado só no papel, não um programa de governo, infelizmente! Em Mato Grosso mais de 140 mil famílias vivem com renda mensal abaixo de R$ 150, o que contrasta sensivelmente com o PIB elevado do estado.

Nos boletins diários da Câmara Federal, onde dão destaques aos projetos aprovados, há pequenos e significativos avanços aqui e acolá, como a distribuição de absorventes higiênicos sobretudo para meninas de baixa renda e realização do centésimo seminário para abordar a importância da participação da mulher na política. Assuntos que perdem a relevância diante da violência praticada pelo aparato do estado na morte do jovem Genivaldo de Jesus, no estado de Sergipe, ocorrida essa semana. Ele morreu asfixiado pelo uso excessivo de spray de pimenta e gás lacrimogêneo aplicado já dentro da viatura, quando ele já estava imobilizado. Genivaldo era negro.

Assim, com episódios recorrentes do aumento da pobreza, falta de moradia digna, precariedade por falta de investimento na saúde pública, falta de oportunidades de emprego, a pandemia escancarou o péssimo quadro de desigualdade social e econômica vigente no Brasil. O cenário dos sonhos seria o governo continuar assistindo quem precisa, com uma renda mínima decente e gerar trabalho e renda para a grande maioria que quer ter sua própria capacidade de trabalho e viver exclusivamente dela e não depender de favores do Estado, que quase sempre, falha na proteção aos seus.

Não vamos esperar 150 anos

É senso comum entre a classe política a afirmação que os partidos encontram dificuldade para encontrar mulheres com perfis de candidatas. O fato é que a atividade política é, desde sempre, uma atividade predominantemente masculina e no estado de Mato Grosso a baixa representatividade é evidente. Em toda a história do parlamento estadual, apenas 13 mulheres se elegeram deputadas.

A Secretaria da Mulher da Câmara Federal, segundo a Agência Câmara de Notícias, fez levantamento após as últimas eleições gerais em 2018 e confirma que houve evolução de 52,6% no número de mulheres eleitas com relação a 2014. Um avanço inegável, mas, que ao ser traduzido em números, continua preocupante. Ao todo, em todo país, apenas 290 candidatas foram eleitas.

 percentual de mulheres eleitas foi infinitamente inferior aos 30% das candidaturas femininas registradas. De acordo com o demógrafo José Eustáquio do IBGE, se o avanço da participação feminina continuar no ritmo atual, a paridade entre os sexos nos espaços municipais demorará ainda 150 anos para ser alcançada.

A efetiva participação da mulher no processo eleitoral pode ser expressa nos números abaixo:

No ano de 2018, as mulheres eram 52,50% do eleitorado e apenas 16,11% de candidatas foram eleitas. Na última eleição, em 2020 as mulheres representavam 52,50% do eleitorado e 15,80% foram eleitas, 77 deputadas federais, 161 deputadas estaduais e 7 mulheres foram eleitas senadoras.

A Agência Patrícia Galvão, que produz dados e divulga conteúdos sobre os direitos das mulheres brasileiras, revela que para as eleições de 2022 a presença das mulheres no eleitorado chega a 53%, contra 47% dos homens, uma diferença de 8,5 milhões de eleitores.

Com dados mais otimistas do que o IBGE, diz também que, se o país não tivesse adotado o sistema de cotas e se não houver ampla insistência na construção de candidaturas femininas, apenas no ano de 2118, as mulheres alcançarão a igualdade na representação política com os homens.

Embora haja muitas mulheres engajadas em projetos sociais, em atividades de organização de equipes de campanhas, eleitas não há o suficiente, porque são preteridas no processo de escolha e muitas quando são escolhidas não são acolhidas no processo de construção de suas campanhas, até mesmo devido a problemas inerentes a sua condição feminina e com isso o Brasil fica patinando entre os países com o mais baixo percentual de cadeiras ocupadas por mulheres nos parlamentos mundo afora e vemos aqui ao lado, a Bolívia como o país que tem a maior representação das américas, de mulheres no parlamento, porque os partidos, por iniciativa própria, destinam 50% de suas vagas para as mulheres.

No ano de 2020, uma campanha veiculada pelo TSE trazia a seguinte mensagem: “Quando uma mulher tem voz ativa, ela incentiva outras a falarem também. Quando uma mulher lidera, ela incentiva outras a liderarem também. Quando uma mulher ocupa um cargo público, ela incentiva outras a ocuparem também. Quando uma mulher defende seus direitos, incentiva outras a defenderem também”.

Quais reformas?

Tratar de reformas sempre causou rusgas no meio político. Essa semana os ex-presidentes Lula e Temer trocaram farpas por causa da reforma trabalhista executada no governo de Michel Temer, que se exalta dizendo que não retirou e sim, acrescentou vários direitos aos trabalhadores, enquanto Lula promete, que se eleito for vai revogar parte da reforma aprovada em 2018.

Os deputados não conseguem fazer andar a reforma política, reforma eleitoral e querem agora, em pleno ano eleitoral trabalhar a proposta de mudança na forma de governo, instalando no país, o semipresidencialismo, um sistema segundo o qual, o poder do presidente é compartilhado com um primeiro ministro, escolhido pelo presidente, com aprovação do Congresso Nacional. A intenção da mudança, dizem, é aprimorar a democracia e favorecer a participação do cidadão, o que não é bem verdade, porque não estão dando visibilidade ao tema.

No entanto, a Câmara dos Deputados tem sido palco de rodadas de discussões sobre a propositura ouvindo além de parlamentares, consultores e cientistas políticos. auxiliados por um conselho consultivo do qual fazem parte os ex-ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) Nelson Jobim e Ellen Gracie, e o ex-presidente da República Michel Temer, além de renomados professores da Universidade de Ciências Sociais de Coimbra, Portugal.

A Agência Câmara publicou a fala de um especialista em sistemas de governo e professor da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) Marcelo Leonardo Tavares, que  defendeu que, para alterar o sistema de governo no Brasil, seria necessária concretizar a tão sonhada e esperada reforma eleitoral. Ele também sugere que se faça uma nova consulta à população sobre o assunto, tal como ocorreu em 1993, quando o povo votou pela manutenção do presidencialismo.

O grupo de trabalho tem 120 dias para concluir os estudos mas certamente não concluirão e o  prazo será dilatado para novas rodadas de discussões e contratações de consultorias caríssimas. O povo, ah o povo! Comenta-se por aí que tal propositura visa única e exclusivamente diluir o poder do próximo presidente da República, temendo que este seja Lula. Pelo acompanhamento das discussões o que é claro, é que não há nenhum clamor do povo quanto a uma mudança no sistema de governo e portanto, isso não deve ser algo enfiado goela abaixo dos cidadãos brasileiros.

A reforma política está emperrada no Congresso Nacional há três décadas, por pura falta de vontade política dos parlamentares. Foram aprovados projetos de lei isolados, tratando de temas restritos com as alegações repetidas de que não há interesse para esse tipo de tramitação na Casa. Intriga a celeridade dada a proposta de se alterar a forma de governo iniciado em março desse ano na Câmara dos Deputados, imediatamente criou-se um grupo de trabalho, que começou a promover reuniões, ainda que entre a elite política e altos cidadãos para debaterem o tema reservadamente, dentro das paredes de uma das salas de comissões da Câmara.

Sabemos que o Parlamento dificilmente avança nas pautas polêmicas em ano eleitoral, o Congresso Nacional já entra em marcha lenta e os parlamentares devem deixar a análise de projetos importantes e reformas estruturantes para o ano que vem, por enquanto vão se concentrar na disputa de outubro e tentar atrair votos para se reelegerem, no mais, só pautas paroquiais e de consenso, em todas as Casas Legislativas do País. Tem sido assim desde a redemocratização do país em 1988.

As propostas de reformas devem ser apresentadas quando há insatisfação de grande parte da população sobre determinado tema. Já ouviste em alguma mesa alguém reclamando da nossa forma de governo e clamando por semipresidencialismo? 

O voto transforma sussurro em grito

Posicionar-se politicamente não significa permitir que as pessoas te usem como uma caixa de ressonância para expressar a opinião e opção delas.

A participação política é algo tão incrível quanto ameaçador. Li tempos atrás uma entrevista em que o ex senador republicano Fran Millar, disse não concordar e ter se preocupado com a decisão do governo americano de facilitar o acesso ao voto nas eleições, ampliando o número de urnas e locais de votação, sobretudo em regiões da periferia. Segundo o Senador, isso poderia elevar o número de eleitores negros e outras minorias e poderia promover mudanças não desejadas nos redutos Republicanos, além disso, o Senador disse que preferiria receber votos de pessoas mais educadas do que dos africanos americanos. A esta altura o Senador americano, derrotado, deve ter aprendido que na pequena cabine de votação o valor do voto é absolutamente igual.

A verdade sobre a política é encontrada onde nem todos se preocupam ou tem habilidade para enxergar. No livro O sinal e o ruído, o autor e estatístico Nate Silver diz que as pessoas gostam de política porque gostam de estatísticas, de previsões, tanto do tempo quanto do futuro e que mais de 90% dos fatos políticos são previsíveis, mas que ironicamente, a maioria das previsões são erradas, sobretudo devido às incertezas que permeiam todo o processo eleitoral. O autor tornou-se famoso nos Estados Unidos depois de fazer vários prognósticos corretos sobre o vencedor da corrida presidencial em 49 dos 50 estados americanos.

Falamos muito sobre política na superficialidade, fazemos prognósticos baseados em achismos e por isso  a desinformação política é uma grande preocupação no período que antecede as eleições de outubro próximo. O Brasil é o sexto país no mundo com maior número de usuários de mídias sociais. Com mais de 147 milhões de usuários no país, o WhatsApp é um veículo muito popular e o mais eficaz para disseminar narrativas falsas e desinformação entre os eleitores brasileiros, sem deixar grandes pegadas digitais, o que significa que é impossível saber quantas pessoas viram um conteúdo ou como exatamente o conteúdo viajou, por meio de prints e compartilhamento.

Foi exatamente o que vivenciamos nos períodos críticos da Covid-19. Pesquisadores da Universidade de Pelotas descobriram que a desinformação, alarmes e notícias falsas eram em grande parte transmitidas a partir de bases pró-Bolsonaro, em grupos de WhatsApp. O Telegram tem sido, cada vez mais usado em divulgação para o mesmo fim, com a vantagem que os grupos podem ter 200 mil membros (os grupos do WhatsApp são limitados a 256). É importante ter critério quanto a escolha da fonte de informação que vai alimentar você e sua família.

O período de pré-campanha efetivamente começou e ao perceber a movimentação, você pode estar se perguntando se a sua participação política realmente pode fazer a diferença. Afirmo que sim. A começar, busque informação confiável, seu voto é o passaporte para seu futuro pelos próximos quatro anos. Não votar ou tratar com displicência o voto é rejeitar sua capacidade de influenciar a forma como sua vida será afetada pelas ações governamentais, que via de regra e nunca de forma linear, atingem todos. Individualmente seu voto pode parecer apenas um sussurro, mas quando o seu voto se soma com outros, o sussurro vira grito e todos ouvem.

Sentimento de distanciamento

O Instituto de Pesquisa do Senado Federal vem há mais de 10 anos aplicando pesquisa quantitativa nacional para estruturar o panorama político do país e avaliar a opinião dos brasileiros sobre democracia e alguns dos principais temas em debate no país. No final de 2021, o levantamento foi realizado em todas as regiões do país. O fato relevante é que apesar de parecer em queda vertiginosa, o índice de interesse dos entrevistados pela política, foi considerado razoável, 53% manifestaram-se atentos ao desenrolar das construções de candidaturas, embora ao mesmo tempo tenham demonstrado falta de compreensão sobre as regras do sistema político brasileiro.

Uma mulher jovem, entrevistada em Curitiba disse que a falta de conhecimento sobre o sistema político é, em parte devido às mudanças constantes das regras e também, um jogo de alienação mantido pelo político, a quem interessa resguardar seus interesses e que uma maior consciência política por parte da população poderia trazer mudanças não desejadas pelo complexo sistema político, que hoje, favorece a manutenção do poder nas mãos dos mesmos em detrimento da renovação nas casas parlamentares, sobretudo.

Outro fator apontado nas respostas sobre a participação na vida política foi a desilusão proveniente da percepção de que a política em muito pouco, tem sido transformadora da realidade e pouco se discute sobre as demandas urgentes da sociedade. Por demandas urgentes podemos citar a má qualidade da educação pública, falta de investimento no SUS, descontrole da economia, percebido no preço do gás de cozinha, alimentos e combustíveis. São pautas que vão e voltam envolvidas em discussões superficiais e paliativas.

Decepcionados, muitos entrevistados não foram capazes sequer de lembrar em quem votaram para o senado nas eleições passadas. Questionados pela razão do esquecimento, muitos reforçaram o sentimento de distanciamento, não físico, da política nacional.

Consenso houve quando a pergunta girou sobre as principais fontes de notícias que tem influenciado o eleitor brasileiro: redes sociais, sem dúvida! As razões vão desde a agilidade com que as notícias são atualizadas ao direcionamento de comentários feitos pelos jornalistas.

Um entrevistado, homem colocou que as mídias sociais são mais isentas do que os canais fechados, além de permitir que se leia posicionamentos diferentes sobre o mesmo tema. A maioria dos entrevistados apontaram que as principais fontes de disseminação de fake news são amigos e familiares, em cerca de 73% dos casos.

A maior parte dos entrevistados avaliam que a TV tradicional é tendenciosa e distorce as informações para atender interesses de determinados grupos econômicos e políticos. Ao contrário da internet, que permite ao cidadão buscar informações livremente, a TV é vista como manipuladora. Como consequência, perde a credibilidade de grande parcela dos entrevistados.

Devemos caminhar no sentido de restabelecer o interesse do cidadão na política, em níveis, que não seja de encantamento, mas de participação e engajamento. Longe daqui, a comunidade acadêmica brasileira de estudantes de Harvard e do MIT, em Boston, nos Estados Unidos, fez o que muitos entrevistados pelo DataSenado reclamaram não ver por aqui, se reuniu para discutir os desafios e caminhos para o Brasil, na Brazil Conference 2022.

No centro de tudo, financiando e palestrando estava o Sr. Jorge Paulo Lemann, o homem mais rico do país, que do alto de seu mundo paralelo, inatingível para 99% dos brasileiros, encarregou-se de falar sobre a situação da educação no Brasil. Falou que só através da educação pode-se melhorar a desigualdade brasileira e propôs-se a discutir fórmulas de tornar a educação mais efetiva e os jovens brasileiros mais competitivos no contexto global. Falou também o óbvio, “que a educação pública brasileira é de péssima qualidade, que os alunos brasileiros sempre ficam nos últimos lugares em testes de interpretação de texto, matemática e que o problema não é de falta de recurso, é mal gerenciamento do investimento, gasta-se muito em ensino superior, quando a solução está na base”.

Perguntado sobre a política e as eleições brasileiras, esnobou. Disse não se interessar por política, nas escorregou nas palavras e finalizou: “Temos uma eleição em curso no Brasil  e no ano que vem, teremos um “novo” presidente.