A maneira como você termina o ano é como o ano novo começa

Uma pluralidade de especialistas solicitados a conceituar como será a vida em 2025 acredita que mudanças sociais radicais tornarão a vida pior para a maioria das pessoas, à medida que maior desigualdade, crescente autoritarismo e desinformação desenfreada se instalam no horizonte do novo ano. A visão quase geral é que o relacionamento das pessoas com a tecnologia se aprofundará à medida que segmentos maiores da população dependerão mais de conexões digitais para trabalho, educação, assistência médica, transações comerciais e interações sociais essenciais. Isso foi descrito como um mundo “tele-tudo”. Eles escreveram sobre mudanças que podem reconfigurar realidades fundamentais, como a presença física das pessoas com outras e as concepções das pessoas sobre confiança, verdade e doenças.

O homem, que desde o princípio está condenado a existir fisicamente com outros homens e compartilhar com eles o mundo natural, não assimilou o rompimento dessa relação física e a saúde mental das pessoas já está sendo desafiada com esses processos de distanciamento promovido pela vida digital, que era muito estressante durante o isolamento social causado pela pandemia. Controlada a pandemia, o hábito do distanciamento e da vivência online foram incorporados ao nosso sistema de vida social, o tele-tudo porém, diminuirá mais ainda o contato pessoal e as conexões sociais.

A sobrecarga à saúde mental vem da disseminação de informações falsas, a manipulação aparentemente imparável da percepção, emoção e ação pública por meio de desinformação online, das mentiras e discurso de ódio deliberadamente engatilhados para propagar preconceitos e medos destrutivos, causarão danos significativos na formulação de raciocínio baseados em evidências. A desinformação será desenfreada: A propaganda digital é imparável, causa danos e é de rápida propagação e não há como reparar a reputação ou a mente atingida.

Enfim, o melhor e o pior da natureza humana tendem a ser amplificado em 2025. Todos os vivos hoje estão sob vigilância persistente de uma série de tecnologias, e as empresas de tecnologia não precisam mais de câmeras, de sinais de Wi-Fi a fios de cabelo, é possível reconhecer o indivíduo, sem passar por escaneamentos faciais. Dá medo!

A mesma conexão digital que gera empatia, traz conscientização sobre os males que a humanidade enfrenta e reação pública positiva às denúncias, acaba também sendo espaço impiedoso para declarações xenofóbicas, intolerantes e isso fará crescer as comunidades fechadas e polarizadas, que gravitam em torno de si mesmas, alimentando falsas crenças e sem liberdade para pensar e divergir. Aqui, o que critico é a rede de dependência do indivíduo à uma multidão, como uma necessidade social de pertencer a determinado grupo, em vez de viver imperturbável sua libertação.

Marcel Fafchamps, professor de economia e membro sênior do Centro de Democracia, Desenvolvimento e Estado de Direito da Universidade de Stanford, comentou sobre a ampliação da desigualdade e injustiça caracterizadas pela mudança da privacidade e inserção de ferramentas de tecnologias para controlar sem ética alguma a vida das pessoas, incluindo aplicativos de telefone que identificam ​​interações sociais e localizam as pessoas. Essas ferramentas, já são usadas por regimes totalitários para controlar melhor a população e como resultado, a democracia entrará na defensiva e sua disseminação poderá ser revertida em muitas partes do mundo e as próprias democracias infringirão mais as liberdades civis entrando em uma era pós-democrática.

Enfim, seja livre para ler, abstrair, crer ou divergir sobre a sensação que estudiosos tem do que nos consigna o ano que se aproxima.

Nossa realidade é ideológica

Slavoj Zizek é um filósofo e intelectual, nascido em uma cidade na antiga Iugoslávia, hoje parte da Eslovênia, com publicações interessantes sobre política, psicanálise e ideologia, sendo quase um conceito central em seus escritos. Zizek critica as teorias que definem ideologia como um sistema de crença que nos cega perseguindo o poder e a dominação, diz que não é possível viver sem ideologia.  

Assim, também em Zizek, a ideologia não é um sonho, uma ilusão que nós construímos para fugir de uma realidade insuportável. A função da ideologia não é nos oferecer um plano de fuga da realidade, mas ser um suporte para enfrentarmos e mudarmos a realidade. O que chamamos de realidade é extremamente ideológico e como Zizek coloca, a fantasia também está do lado da realidade.  

Para Zizek, a ideologia é a nossa realidade e não temos como escapar dela. A ideologia não é um fenômeno marginal utilizado para controlar as massas descontentes; não é apenas uma mera estratégia de poder, não é simplesmente uma falsa consciência, uma representação ilusória da realidade, mas sim, a realidade que não é imposta a nós. As ideologias nos oferecem maneiras de dar sentido ao que vivenciamos na sociedade e ajudam a ordenar nossos valores porque são forças poderosas que moldam as sociedades e tem o poder de motivar as pessoas a agir.

A ideologia, no caminho percorrido filosoficamente por Zizek, que inclui análises de Marx, Lacan, Hegel e outros, para exemplificar que no passado as relações entre as pessoas eram mediadas por uma teia de crenças ideológicas e superstições, as relações se davam entre o master e seus servos. Marx, inclusive entendia a ideologia como uma falsa consciência da relação de domínio entre as classes e vários autores pregaram o fim ou declínio da ideologia, mas estamos nós aqui, falando sobre o mal nenhum que ela traz.

Lembro que haver lido um discurso marcante do ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dizendo que as análises do mundo deveriam ser moldadas apenas pela realidade e não pela ideologia, pelas falsas crenças baseadas em como nós queremos que o mundo seja. Tony Blair, afasta a ideologia da realidade, como se a ideologia fosse algo tóxico.

Há muitas outras versões de crítica à ideologia, mas não se trata apenas de ver a realidade social como ela realmente é, de jogar fora os espetáculos distorcidos de ideologia; o ponto principal é ver como a própria realidade não pode reproduzir-se sem a mistificação ideológica. Entre estudos filosóficos profundos e discurso político, desconfio do político que critica a ideologia do adversário e cultiva a sua como se fosse a única a produzir análises sérias dos problemas do mundo.

O livro trouxe a negatividade da ideologia à discussão, alertando que o cinismo é um sintoma da própria ideologia e que o sujeito cínico é ciente da distância entre a máscara ideológica e a realidade social, mas ele ainda insiste em usar a máscara. Ele conhece muito bem a falsidade, tem plena consciência de um interesse particular oculto por trás de uma causa ideológica, mas ainda assim não renuncia a ela.

O valor da vida reside naquilo que a torna digna de ser vivida

A filósofa francesa Simone de Beauvoir, em sua obra sobre o envelhecimento, disse que “nossa vida conserva um valor na medida que atribuímos valor à vida do outro, por meio do amor, da amizade, da indignação, da compaixão”. Vivendo numa sociedade competitiva, impiedosa e virtual. Mal temos tempo para nos indignar pelas injustiças que sofremos, é visível nossa indiferença com relação a vida e fatos da vida das pessoas que temos perto, na família, no trabalho, na vizinhança. Clóvis de Barros, filósofo brasileiro diz que viramos a cara e o coração imediatamente após sabermos de algum fato triste ou violência sofrida por pessoas próximas e que a compaixão é estreita porque já sofremos muito em nosso próprio nome e, por isso, nossa vida tem valido muito pouco.

Filósofos e teólogos buscaram fundamentar, de diferentes formas, o sentido e o valor da vida. A questão central aqui é a palavra valor, que no tempo contemporâneo está muito associada aos valores estabelecidos pela sociedade, pelo consumismo encorajado pela mídia, pela atenção obcecada pela aparência. Valor é com o que nos importamos. O problema é que as coisas com as quais nos importamos mudam quase todos os dias. Quando o significado distorcido de uma palavra se torna parte do uso habitual da sociedade, é muito difícil desfazer o mal-entendido.

Schopenhauer e Nietzsche numa mesma linha de pensamento nos apontam que a vida segue como vontade e desejo, e que estes são completamente cegos e insaciáveis. Mas, ao observar o outro como sendo uma manifestação igual a nós mesmos, vindos de uma mesma origem e em constante e infinito estado de interdependência, fica mais difícil de ignorá-lo.

Porque dizer que a vida humana tem um valor inestimável e que precisa ser cuidada e valorizada a qualquer custo, é repetir o senso comum. A grande questão é entender por que a vida de uma pessoa deve ser importante para o outro. Desde 2010, a ONU desenvolveu um índice para medir os valores humanos, as expectativas, sonhos e ambições da população. O Índice de Valores Humanos pesquisa a vivência das pessoas e pode orientar políticas públicas que tenham como meta o bem-estar e a qualidade de vida da população.

Somos, cada um de nós, criadores do valor que damos a nossa própria vida. O caminho que eu escolho percorrer é apenas meu, porém, cada passo que dou afeta de alguma maneira pessoas que estão ao meu redor. Posso escolher realizar mudanças positivas, vivendo com independência, cuidado, com consciência e compaixão. Como escolho adicionar valor a vida de outras pessoas depende dos valores que preservo em mim e isso deve ser trabalhado com habilidade para que eu possa valorizar a vida do outro sem resguardar a lealdade dos valores tribais nem tampouco me enebriar com a gratificação egoísta e puramente pessoal da contemporaneidade.

O amor empurra para ter, em relação ao valor da vida do outro, o mesmo respeito que você tem pelo valor da sua própria vida. O mais, seguindo o poeta Fernando Pessoa “Segue o teu destino, rega as tuas plantas, ama as tuas rosas. O resto é a sombra de árvores alheias”. 

Apetite pelo domínio e desumanização do outro

Uma semana de leitura tensa tentando compreender por que os seres humanos são tão terríveis uns para com os outros.  Em uma longa entrevista o psicólogo canadense Paul Bloom, Ph.D em psicologia cognitiva pelo MIT e destacado professor de Psicologia e Ciência Cognitiva na Universidade de Yale fala sobre as raízes da crueldade humana e de início provoca susto, ao dizer que as pessoas cometem atrocidades contra outros, porque acreditam que quem eles estão matando ou violentando não são seres humanos, isso é chamado de violência instrumental, onde há algum fim que querem alcançar, e as pessoas estão no caminho, por isso não pensam nelas como pessoas, mas como empecilhos.

O caso estarrecedor de violência policial praticado em São Paulo semana passada, reforça a tese que muitas vezes um ser humano não enxerga o outro como humano. Um policial arremessa de uma ponte um jovem que havia sido abordado por um grupo de policiais. O caso não parou nos depoimentos mentirosos dos policiais porque uma pessoa assistiu e gravou a cena. O jovem foi deliberadamente jogado no córrego, sem que nenhum policial do grupo houvesse tentado evitar a violência. O policial está preso e outros 12 foram afastados por terem sido coniventes com a brutalidade. Engraçado, se não fosse trágico, mas em depoimento, o policial afirmou que a intenção era jogar o jovem no chão. Como queria jogá-lo no chão se o jogou para o alto?

A explicação do professor Paul Bloom é que as pessoas só são capazes de fazer coisas terríveis a outras pessoas depois de as terem desumanizado. Quando você deixa de apreciar a humanidade de outras pessoas fazemos muitas coisas horríveis. E nas situações degradantes e humilhantes, trata-se de torturar pessoas porque achamos que elas merecem. É também sobre o prazer de ser dominante sobre outra pessoa. Portanto, a desumanização e a soberba são reais e terríveis.

Alto grau de crueldade nasce da desumanização, alguma crueldade nasce da perda de controle, de um desejo instrumental de conseguir algo que se deseja: sexo, dinheiro, poder. O desejo de ter um bom desempenho social tem um peso desagradável e enorme. Se você consegue ganhar respeito ajudando as pessoas, isso é ótimo.  Outros, porém, conseguem ganhar respeito dominando fisicamente as pessoas com agressão e violência, isso é destrutivo, mas acontece muito e é o que estamos narrando neste artigo.  

De 20 de novembro a 10 de dezembro ocorre uma movimentação chamada de “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha que busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão contra meninas e mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços na legislação, os números relacionados à violência contra as mulheres no Brasil, são alarmantes. Nos movimentos mobilizados para a campanha o que vê são mulheres falando para mulheres, com alcance zero para os companheiros que as agridem e matam.

Temos essa tendência de superestimar até que ponto somos os destaques morais, os justos, os corajosos, os heróis. A questão é que não nos comportamos em situações estressantes da maneira que pensamos ou gostaríamos e Paul Bloom arremata mostrando um estudo de laboratório comprovando que nas condições certas, mesmo diante da insanidade do ato, a maioria de nós é capaz de fazer as coisas terríveis que a princípio condenamos.

Não está sendo fácil pertencer a uma sociedade obcecada pelo poder e pela honra, pelo apetite pelo domínio e punição em vez de preocupada com a atenção e dignidade da pessoa humana.

O estado é o sistema

A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema.   Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.

Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.

O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias.  empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.

Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.

Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.

Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.

Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.

Os homens estão sonoros e exaltados

Atualmente vivemos num mundo envolto em volatilidade, incerteza, complexidade e ambiguidade, em inglês há uma siga para isso, VUCA (volatility, uncertainty, complexity, and ambiguity). São velhos assuntos que testam a humanidade, como a emergência climática, a violência, os conflitos internacionais e a eterna Aliança Global de Combate à Fome, que, repaginada, foi lançada recentemente e teve a adesão de 82 países e diversos organismos internacionais.

Os humanos são seres que fazem sentido e procuram compreender e interpretar o que está acontecendo, porém, nem sempre conseguem conviver bem com o extrato da sociedade e abordagem dos fatos como está acontecendo nesse dado momento. Os homens estão muito sonoros e exaltados, se rompem os laços interpessoais de fraternidade, que são necessários para que tenhamos uma sociedade sem violência, como disse o Ministro do STF, Flávio Dino, dias atrás, em Cuiabá.

E, contrariando um provérbio oriental, tempos difíceis não tem gerado homens fortes. Os ânimos estão à flor da pele, não há mais o adversário, o oponente, há o inimigo. Não há aceitação da derrota. Há tentativa de golpe, planos de assassinatos. Não há mais comparsas leais. Há a delação.

A crítica tem sido punida sob a positividade das convicções de quem as ouve, mas devemos aceitar a punição do que é errado sem favoritismo, fanatismo ou polarização, a violência praticada ou comprovadamente planejada deve entrar na conta do delito e seguir com o processo judicial.

O cientista político da Universidade Federal de Minas Gerais, Felipe Nunes diz que: “a sociedade brasileira se tornou polarizada e socialmente calcificada”. Ele explicou que o índice da polarização afetiva está associado à tolerância com o diferente. Já a calcificação pode ser relacionada ao fato de que a sociedade se tornou mais rígida quanto à identidade, ou seja, as pessoas estão mais intolerantes quanto a ouvir quem pensa diferente, não debatem mais o Estado, debatem os valores. Diz que o povo virou torcedor que têm visões de mundo radicalmente diferentes e não estão dispostos ao diálogo. O cientista político diz ainda que a única maneira de superar a calcificação é por meio da pluralidade de ideias e do convívio saudável com o diferente e do debate.

Apesar de estamos emocional e fisiologicamente sintonizados com o mundo que nos rodeia, estamos também, bombardeados com informações já recheadas de ideologia e não podemos perder a noção de onde vêm nossas influências, não podemos permitir a quebra dos valores civilizados da cultura da paz. Precisamos desafiar nossas suposições para nos abrirmos para a possibilidade de vermos uma situação sob variadas formas de interpretação.

Porque, em John Donne, poeta inglês aprendemos que: “Nenhum homem é uma ilha isolada; cada homem é uma partícula do continente, uma parte da terra…” e como uma partícula do universo, condensada à sua importância, nenhum homem pode fazer grandes coisas, apenas pequenas coisas com grande amor. (Mahatma Gandhi).

Estamos perdendo nossa alma afetuosa para o ódio

Diante do atroz atentado nas proximidades da Praça dos Três Poderes, em Brasília, onde um homem morreu, vítima do artefato que ele mesmo construiu para ceifar vidas alheias, o ministro Luís Roberto Barroso, presidente do Supremo Tribunal Federal – STF, perguntou: “Onde foi que nós perdemos a luz da nossa alma afetuosa, alegre e fraterna para a escuridão do ódio, da agressividade e da violência?”. O ministro decano do STF, Gilmar Mendes acredita que o atentado foi provocado pelo fanatismo político e pela indústria de desinformação, estimulada por líderes políticos. O ministro Alexandre de Moraes disse lamentar a mediocridade de várias pessoas que continuam querendo banalizar o gravíssimo ato terrorista, disse ainda, que no mundo todo alguém que coloca na cintura artefatos para explodir pessoas é considerado um terrorista.

Não devemos banalizar ataque às instituições. As ideologias extremistas vêm acompanhadas de intolerância, recusa ao diálogo respeitoso e como último recurso, a violência e líderes extremistas chegam almejam a política para desestabilizar a democracia e pressionar a favor de um lamentável retrocesso.

O que está acontecendo com os brasileiros é que os ressentimentos estão sendo explorados, facilmente. Desde 2018, a política, sobretudo em período de disputa eleitoral assumiu contornos extremistas. O fanático político está em toda parte, sendo alimentado pelas notícias falsas, virando um alvo incapaz de interagir civilizadamente com quem pensa diferente, porque é facilmente manipulado, tem suas emoções controladas e empatia limitada com os outros cidadãos, a quem chama de inimigos do povo. Essa narrativa propagadora ódio e violência cansou todo mundo. O ex-presidente Jair Bolsonaro, quanto ao atentado citado, disse que o caso exige reflexão, que já está na hora de o Brasil voltar a cultivar o ambiente favorável para abrigar pessoas que possam pacificamente confrontar suas ideias.

As ideologias extremistas seduziram muitos seguidores, que acreditam profundamente nas ideias defendidas pelos líderes aos quais estão vinculados e ignoram todas as outras fontes de informação.  O extremismo é uma ameaça para o avanço do debate e as ações que saem fora da agressividade verbal, devem ser tratadas apressadamente, de maneira enérgica. Um caso de violência motivado por extremismo político não pode ter tempo de inspirar outro, mesmo que, por conveniência, o ato violento seja tratado com o contorno de isolado. O desfecho do caso recente do atentado em Brasília puniu um agressor que até recentemente era filiado a um partido político, tentava se eleger vereador numa pequena cidade do interior de Santa Catarina, embora tivesse uma folha corrida de atitudes extremadas e violentas.

Sabemos que o debate político está sujeito a sofrer tensões, sempre as opiniões divergentes entram em cena, mas as pessoas extremistas debatem em nível civilizado apenas com as pessoas que compartilham a mesma visão de mundo, e, esse acúmulo de mais da mesma informação acarreta a visão mais extrema da política e muitas vezes, leva ao desenvolvimento das teorias conspiratórias, como o caso das urnas eletrônicas, que sabidamente promove a eleição de políticos da extrema direita e da extrema esquerda.

Observa que os líderes manipuladores, têm um discurso inflamado para as redes sociais, porém, se mantém próximo do círculo do poder, se equilibrando para sobreviver no que eles, em público chamam com desprezo, de sistema.

O envelhecimento no mundo contemporâneo

O Brasil tem envelhecimento recorde da população de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). A população idosa com 60 anos ou mais, corresponde a 15,6% da população. No Censo de 2022, o índice de envelhecimento do Brasil foi de 80,0, o que significa que havia 80 pessoas idosas para cada 100 crianças de 0 a 14 anos. A Organização Mundial da Saúde (OMS) classifica como idosos as pessoas com mais de 65 anos de idade. No Brasil há um Projeto de Lei para elevar de 60 para 65 anos a idade da pessoa considerada idosa, com a justificativa de que houve avanços significativos na qualidade de vida da pessoa idosa no país.

A Itália, considerou um laudo da Sociedade Italiana de Gerontologia e Geriatria para mudar oficialmente o conceito de idoso para 75 anos. Segundo dados da ONU, o Brasil é a sexta nação com o maior número de pessoas idosas, atrás apenas de China, Índia, Estados Unidos, Japão e Rússia.

Quando o Estatuto da Pessoa Idosa foi aprovado o Brasil, há vinte e um anos, o Brasil tinha 15 milhões de idosos, e em 2022 superou 32 milhões. O crescimento da população idosa é um desafio que exige dos governos a ampliação de programas direcionados a esse grupo. Em Mato Grosso, o desembargador Orlando Perri, coordena a criação da Rede Estadual de Proteção e Defesa da Pessoa Idosa, um colegiado de vários órgãos, para trabalhar políticas públicas que restaurem a dignidade da pessoa idosa que precisa de serviços públicos. Disse ele, que no estado de Mato Grosso tem-se política, mas não tem sequer abrigos públicos e a carência não é apenas estrutural para atender quase 480 mil pessoas.  

Eu começo a ter consciência que pertenço irremediavelmente ao grupo de pessoas que está envelhecendo no mundo contemporâneo, com acesso amplo a informação, conhecimento razoável de tecnologias que favorecem mudança de comportamento para caber dentro do propósito de uma vida mais longa e saudável, para permitir o prosseguimento no mercado de trabalho por mais tempo, promover meu auto sustento, considerando que vivo tranquila com a decisão de não escamotear as marcas do passar do tempo, mesmo sabendo que será difícil não levar em conta a aparência e considerar mais os conteúdos e as mensagens que as pessoas e coisas nos proporcionam.

Histórias de pessoas idosas narram guerras, processos migratórios, amores fatídicos e risíveis, fala de lutos, mas, não é em si, um desenvolvimento humano negativo. Corpo e mente bem cuidados pode dar bom resultado e mesmo que não dê, não faria eu, o pacto que fez Dorian Gray, no fabuloso romance escrito por Oscar Wilde, em 1890.

O livro trata sobre a vida de um homem, para quem, a beleza é a virtude mais importante, é contestado por um amigo que ressalta que a beleza e a juventude são sinais passageiros, Dorian Gray, a este ponto, declara que daria sua alma se um retrato pintado pelo amigo envelhecesse e enrugasse em seu lugar, enquanto ele continuasse jovem e bonito para sempre. Simultaneamente aos fatos da vida de Dorian, o retrato assume as faces das tragédias, indignidades e dissabores vividos pelo belo jovem, que mantém a aparência de irretocável beleza e juventude.

Decide então, tornar-se um jovem virtuoso para ver se o retrato se recomporia. O retrato, no entanto, continua mostrando um homem envelhecido, de aparência horrível. Enfurecido, Dorian Grey esfaqueia o retrato, ouve-se gritos e gemidos. Os empregados encontram no chão o homem velho de aparência má do retrato, com a faca cravada no peito e na parede, contemplam a figura do jovem bonito que Dorian Gray havia sido.

Crimes mais graves, pela própria natureza

Certa vez li que uma questão incômoda perseguia os governos mato-grossenses no curso da história. Tratava-se da ideia segundo a qual este lugar era a representação da barbárie e, por esta razão, estava condenado a permanecer como um espaço estigmatizado pelo seu atraso frente a outros espaços do país.  Falava-se de tiros pelas ruas, de homens violentos e mortes nas florestas, no pantanal e nas cidades. O tempo passou, mas por aqui ainda se ouve muito sobre crimes violentos.

Enquanto estávamos distraídos com o processo eleitoral, cumpria-se inexorável nossa sina de estado com a maior taxa de feminicídio do país em 2023 e aumento registrado de 113% em 2024. Com histórico amplamente conhecido de violento na região de Ribeirão Cascalheira e problemas com a justiça, o vereador José Soares de Souza, conhecido como Zé Fadiga, concorreu a reeleição e perdeu. Creditou a derrota a ex-mulher que o havia denunciado meses antes por violência doméstica, cárcere privado. Zé Fadiga assassinou a ex-mulher e o ex-cunhado e ao sentir-se cercado pelas forças policiais, cometeu suicídio.  

Na cidade de Pontes e Lacerda uma mulher foi morta e deixada na varanda da casa pelo homem com o qual mantinha um relacionamento, o homem também cometeu suicídio. As investigações apontaram que, anos atrás, o homem já havia sido denunciado por violência contra outra mulher. Os dois casos têm em comum, em primeiro lugar, o cenário de homens que já haviam sido denunciados por violência contra a mulher e se safaram do cumprimento de penas e depois, a atitude duplamente covarde dos assassinos diante possibilidade de enfrentar o processo com base na nova legislação do Pacote Antifeminicídio, que aumentou a pena para o feminicídio para até 40 anos.

Sororidade zero é mulher matando mulher, como aconteceu em Peixoto de Azevedo, com emboscada, tiros que surpreenderam a vítima e fuga de motocicleta. Em Cuiabá, imagens fortes de uma tentativa cruel de assassinato de mulher, atacada por outra mulher, aconteceu na rua, no bairro Vista Alegre, próximo a um ponto de ônibus, onde estavam várias pessoas, que a princípio assistiram o desfecho das facadas e depois, indiferentes se distanciaram do local, sem prestar socorro à vítima, hospitalizada em estado grave. Mulher assassinou o marido durante discussão em Rondonópolis, alegando legítima defesa, alegando estar cansada das agressões praticada pelo companheiro em outras ocasiões. Mulheres aprendendo a serem violentas. Como dito em Augusto dos Anjos; “o homem que, nesta terra miserável, mora entre feras, sente inevitável necessidade de também ser fera”.

Em Cuiabá, o nível de confiança dos pais nos professores é fortemente abalado com a prisão em flagrante do professor de história e diretor da conhecida Escola Estadual Padre João Panarotto, por envolvimento com uma rede criminosa envolvida em exploração sexual de crianças na internet. O predador, neste caso, devido a condição profissional tinha acesso facilitado aos alvos, pois gozava de confiança das crianças e dos pais, ainda assim, usava aplicativos de jogos para atrair as vítimas. A operação contra a rede criminosa partiu da polícia de São Paulo, que descobriu as ramificações perversas no estado de Mato Grosso, mais especificamente em Cuiabá e Tangará da Serra.

Assim como ocorreu o endurecimento da pena com o pacote Antifeminicídio, a Comissão de Direitos Humanos no Senado aprovou recentemente um Projeto de Lei, do ex-senador Lasier Martins, que altera a Lei de Crimes Hediondos para incluir os crimes de posse, produção e comércio de fotografia, vídeo ou qualquer registro que contenha cena de sexo ou pornografia envolvendo criança ou adolescente, o que, consequentemente aumenta a pena de prisão para os casos de pedofilia. O termo hediondo é utilizado para designar crimes graves, pela própria natureza e pela maneira cruel como são cometidos. Não há fiança, anistia ou indulto. Boas iniciativas legais, se cumpridas.

hoje, os eleitores falam

Aristóteles já dizia que a democracia é o governo onde domina o número, isto é, a maioria, O resultado das eleições é uma das principais manifestações da soberania popular. Em função disso, não importa quão apertada seja uma disputa eleitoral, o resultado das eleições sempre refletirá a vontade do povo, e o candidato eleito sempre deverá governar para todos, em vez de governar apenas para seus eleitores. No Brasil, é importante discutir e relembrar a importância da democracia, do pluralismo. Relembrar como foi custoso e demorado a volta do Estado Democrático de Direito, do direito de participar, expor a opinião, assumir posições sem receio de ser perseguido.

Todavia, a história eleitoral é escrita pelos vencedores. O tema da derrota eleitoral é pouco discutido na Ciência Política, embora a derrota eleitoral seja parte inerente do jogo democrático e oferece importante subsídio para a compreensão do momento político da disputa, das pautas levantadas até os apoios recebidos e forma de comunicação adotada pelo candidato. Nas democracias, perder eleições livres e justas é uma parte normal da política e o consentimento dos perdedores é necessário para a sobrevivência do próprio governo democrático.

Para quem tem cargo eletivo, caso dos dois candidatos de Cuiabá é ainda mais difícil compreender a derrota, a falta de reconhecimento, porque como parlamentares, eles vêm comunicando com eleitor há anos. Mas aí entra a questão da modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, onde os laços construídos são frouxos, a admiração é infiel e os ambientes onde se dão as relações são instáveis, ambíguos e inseguros.

A vitória de um não significará necessariamente a derrota do outro. Ambos estão na metade de seus mandatos parlamentares.

Contudo, certos tipos de derrotas podem provocar redefinições ou até ruptura política na trajetória do candidato, porque o indivíduo contribuí muito com seu tempo e energia para propagar o plano de governo escrito baseado na ambição do eleitor, do partido e pelo caminho estão percalços e contratempos de toda sorte; traições de grupo, falta de empenho e ultimamente as pesquisas enviesadas que mais confundem do que orientam o marketing das campanhas, além dos falsos profetas que ensinam o que fazer e como se comportar no dia 2, no dia 1 antes da eleição.

Falo sobre o derrotado hoje, um dia antes da eleição, porque todos se voltarão para aplaudir o vencedor e ele não conduziu sozinho sobretudo o segundo turno das eleições em Cuiabá. Cuiabá, que nos deu o maior líder político que este estado já teve, Dante de Oliveira, derrotado ao senado no ano de 2002 e quem estuda e participa da política tem plena convicção que, se não fosse morte prematura meses antes do início das articulações para a eleição de 2006, Dante pleno da sua grandeza política se elegeria para o cargo que disputasse. Ele queria ser deputado federal.

José Serra, ao reconhecer a derrota para Dilma Rousseff, disse em seu pronunciamento: “Não é adeus, é até logo. Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quis o povo que não fosse agora”. Na eleição seguinte, em 2014 José Serra elegeu-se senador com mais de 11 milhões de votos.

Já pensando nas próximas eleições, não sei como estas serão trabalhadas porque a maioria das campanhas migraram para a internet, que tem mostrado que é um espaço para reunir os iguais, para combinar agenda, sem controvérsias, sem aceitação às diferenças. Ninguém está ali para abrir a própria visão, para conhecer o plano de governo do outro. Ou há xingamento ou silêncio. Não há troca, não há interação mínima entre os que pensam diferente, só cercadinhos que se odeiam.