Estamos sendo silenciados?

Muitos de nós estamos sendo silenciados pelo politicamente correto, embora tenhamos o direito legal de nos expressar sobre o que queremos. Contudo, é inegável a pressão social para não fazermos uso dessa liberdade, uma pressão que, em tese tenta restringir a liberdade real de nos manifestarmos.

Temos que falar e nos posicionar diante das coisas que acreditamos, das doutrinas que professamos, nas quais pensamos frequentemente; mas devemos sempre, nos colocar na posição, pelo menos mental daqueles que pensam diferente.

Não é possível na contemporaneidade limitar ou censurar a vibrante fala ou escrita de quem quer que seja que vá contra as primeiras impressões publicadas. Não é saudável um querer regular o que pensa o outro, querer no rompante da arrogância, doutrinar o pensamento do outro. Não há de haver censura nos comentários caprichosos emitidos sobre os temas do cotidiano; Lava Jato, Moro, VLT, o menino Rhuan ou qualquer tema que afete nosso ambiente social.

Não temos que ser servis e reprodutores de comentários sem graça. O homem não pode mais aceitar restrições, não pode temer o enfrentamento no campo das ideias, embora seja notório a vigilância sobre o posicionamento ideológico, político ou religioso. Vaga sob nós uma grande rede que tudo vê e tudo quer controlar. Mas a sociedade ideal é plural, diversa e não se iguala nos pensamentos e atitudes.

Posicionar os debates atuais em torno dos limites do que podemos falar ou escrever é um argumento tosco. Ninguém pode decidir por outro o que é apropriado e o que deve ser eliminado do discurso público. A tensão que existe deve incomodar os que não aprenderam a ouvir e considerar o outro.

Unificação de mandatos

O deputado federal Rogério Peninha Mendonça, MDB, SC, apresentou na Câmara Federal uma Proposta de Emenda Constitucional PEC para unificar as eleições no Brasil. Os prefeitos vibram com a possibilidade de terem seus mandatos estendidos em mais 2 anos. Se aprovada na sua integralidade, da PEC anula as eleições de 2020.

Além da argumentação da redução dos gastos de campanha, os prefeitos entendem que não havendo o pleito de 2020, a classe política poderá concentrar-se nas Reformas que o governo federal tenta colocar em pauta.

Os prefeitos se manifestam quase unanimemente favoráveis a extensão de seus mandatos e alegam que o custo da eleição municipal, em torno de R$12 bilhões, sendo que 80% desse valor é dinheiro público, é a causa da movimentação.

Quanto aos custos, não há nenhuma comprovação válida que haja redução porque os custos de uma campanha são divididos entre custos operacionais; publicidade, cabos eleitorais e lideranças comunitárias; publicidade online e impressa. As campanhas para prefeito e vereadores continuarão tendo seus custos, que se incorporarão aos outros.

A redução se daria apenas nos custos operacionais dos tribunais e do processo eleitoral.

Uma campanha política, um momento de disputa pela atenção e convencimento do eleitor é o momento em que o candidato precisa mostrar suas características ao eleitor.

Quando temos as eleições separadas, candidatos a vereança disputam a atenção com candidatos a vereança e a prefeito. Para você ter noção de grandeza, temos 5.570 municípios e, em ano de eleições municipais, pouco mais de 450 mil candidatos.

Repare que nas eleições municipais o foco de atenção fica quase sempre na disputa majoritária, a dos prefeitos.  Candidatos a vereança tem um número muito maior de concorrentes diretos e menor exposição midiática do que os prefeitos, logo, precisam investir mais.

Considerando que a proposta do deputado seja aprovada, vereadores e prefeitos terão que disputar a atenção com deputados estaduais, deputados federais, governadores, senadores e com o presidente do país.

Os processos eleitorais a cada dois anos abrem uma janela de exposição para quem é candidato estar presente junto ao eleitorado em um momento em que o eleitor está com seu foco na política. Ao passo que fazer eleições a cada cinco anos, votando de uma vez só em prefeito, governador, presidente, senador, deputado e vereador, pode afastar a discussão política do dia-a-dia da sociedade.

É muito comum que políticos de todos os níveis se envolvam em todas as eleições, até presidencial. Se o espaçamento maior se der entre as eleições, os pretensos candidatos terão que investir muito mais em suas campanhas para retomar a comunicação com os eleitores.

Para o novato ficará ainda mais difícil entrar na política, porque quem está com mandato tem exposição garantida e chance muito maior de reeleger-se.

A proposta, que a princípio mais parece demagógica, visto que há tantas formas, não utilizadas de se cortar despesas, inclusive nos gabinetes dos parlamentares.

Assustados com as mudanças trazidas pelo ano de 2018, muitos prefeitos temem enfrentar o processo de reeleição e então, apostam nas eleições num prazo mais longo.

Existem 107 Propostas de Emenda Constitucional (PEC) e diversos projetos de lei que abordam a reforma política, espaço apropriado para este tipo de debate.

 

Articulação política é ato republicano

No parlamento, tanto os 81 senadores quanto os 513 deputados federais foram eleitos comprometidos, eles mesmos, com suas bases, com as reformas menores que prometeram para os segmentos que representam. Estão, portanto, engajados em projetos próprios e de certa forma, até o momento, ainda estão alheios aos chamamentos para votar. Enfim, o parlamento em outros incentivos e outras preocupações.

Os líderes do governo e o próprio governo parecem ignorar essa dinâmica e por não terem tomado tempo para conhecer os parlamentares e até por desdenhar o apoio parlamentar, devem pagar um preço por isso. Sem construir uma base moldada na confiança não é possível contar com apoio. E isso não significa  corrupção, não é toma lá dá cá, Isto é pragmatismo, articulação política.

Na pressão, com mensagens cifradas em redes socias, não é possível reverter o quadro de estagnação. Os parlamentares, a maioria acostumados e com bom trânsito político não vão, sem entendimento e diálogo, votar com o governo e aprovar a reforma da previdência nem mais tarde, nenhuma outra reforma.

Os parlamentares, devido as características de seus mandatos, podem sofrer uma derrota aqui, outra acolá. Ao governo, seria bom, colecionar vitórias porque o povo é impaciente e não gosta de perder.

Além disso, qualquer derrota envia sinais de alarmes aos mercados, aos políticos, aos eleitores, passando a mensagem que o governo está sem controle das situações políticas e do país.

Governo e Parlamentares precisam se alinhar em interesses e urgências de maneira republicana, em torno de políticas de médio e longo prazo. Se os parlamentares adotarem postura de total independência, o perigo pode começar a rondar o governo.

Ainda há tempo, o mercado e a população ainda estão se ajustando. Mas é uma espera, cheia de interrogações.

As lições estão aí

O sistema carcerário abriga figurões. Temos várias condenações, pessoas cumprindo pena, pessoas que no passado não imaginávamos que poderiam responder por seus desvios. São ex presidentes da República, funcionários de altos escalões de empresas públicas e privadas e parlamentares.

Enfim, a corrupção estava entranhada em todos os meandros das instituições republicanas e partidos políticos.

A tradição da impunidade está sendo alterada. É preciso reconhecer que há avanços, porém, a  sociedade precisa se fortalecer na direção da integridade e honestidade até que cheguemos a um ponto em que a corrupção não tenha mais meios para contra atacar.

O momento nos tira do debate ideológico e partidário, e nos desloca para termos o foco nas lições dos últimos anos, no combate à corrupção até como forma de tirar o impacto dos roubos da economia, dos serviços públicos que são os primeiros a serem afetados.

Os corruptos não esperam e não querem ser punidos. Às leis, contudo, devem ser aplicadas indistintamente e o cidadão que não respeita os bens públicos, as pessoas, independentemente de sua classe social, devem ir para a cadeia. A corrupção mata no pronto socorro e tira investimento da educação.

A ignorância favorece as explicações caolhas dos corruptos.

O enfrentamento à corrupção esbarra, na maioria das vezes, na incapacidade do corrupto, admitir-se como tal. Mas é avanço considerável que o sistema judiciário tenha aprendido a aplicar penas aos ricos e influentes também.

O lado profundo da vida

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Se existe profundidade é preciso que ela suba à superfície. Porque hoje a superficialidade se impõe à profundidade, diz o filósofo alemão Peter Sloterdijk, para quem, a vida atual não convida a pensar.

Estamos nos mostrando na medida do que agrada, do que imaginamos receber elogios, estamos lendo o que vem comentado porque pensar pode ser até certo ponto, um exercício doloroso de resgate do aprendizado de uma vida, que tornou-se esvaziada pela pressa e pela superficialidade a que estamos submetidos nas práticas diárias.

Estamos vivendo ora introspectivos escondendo a boa sorte. Ora, ressentidos, invejando a boa sorte dos outros.

Dos baques sofridos  à alma lavada não temos aprendido quase nada. Tomados pela vaidade, deixamos para trás o frescor dos fins de tarde e nos trancamos vencidos pelo cansaço de um dia vivido em colisões frontais por espaço, por emprego, por um relacionamento. Enfim, a rotina nos aprisiona.

A combinação das necessidades e potencialidades internas e externas deveriam nos levar a um placar de razoável empate. Mas não! As necessidades e potencialidade internas tem sido negligenciadas. Não lemos mais, porque tememos não entender, não estendemos a mão, porque tememos ser tocados pelo veludo da pele, não ouvimos mais o outro, porque somente nossas verdades importam.

É preciso construir o eu interior, mesmo a partir da confusão, da arrogância ou do caos. É o mundo interior, coração e mente que precisam receber cuidados. No mundo superficial basta panos, jóias e carros, porém, para restaurar a mente e o coração, um pouquinho mais. É preciso dedicar tempo às amizades, leituras, pensamento crítico e muito respeito; coisas e sentimentos que habitam o lado profundo da vida e apenas, tão somente apenas esporadicamente emergem a superfície para serem pinçados.

Para nos sentir precisamos desistir das facilidades. Se um dia nos fizeram simples, nos afastamos dessa natureza e resgatá-la é o serviço de emergência que vai nos devolver os movimentos vitais.

Eis que a extraordinária exigência de mergulharmos nas águas profundas nos salvará da mediocridade, da comparação, da reclamação e das dúvidas e teremos aprendido a retornar para nossa essência

Breaking News

breaking-newsBreaking News é uma palavra já incorporada ao vocabulário de quase todos os idiomas falados no mundo, significa “última notícia, notícia quentinha”. Esta palavra traduz exatamente a quantidade, não a qualidade de notícias que tem crescido exponencialmente nos últimos anos. Tudo perde a importância diante da última notícia que aparece nas telas. Tanto que a tragédias não explicadas no Brasil, o aumento das tarifas públicas, desabamento de prédio, as reformas anunciadas pelo governo são misturadas com meteorologia, economia, num só bloco dos jornais, para confundir a compreensão das mesmas.

Vivemos como se estivéssemos lendo seguindo as linhas com os olhos e a mente, tomando outro caminho. Esse estado instável pode ser benéfico para a criatividade, mas,  seguramente é péssimo quando o analisamos do ponto de vista de focalizar a atenção em um problema. Este pensar discursivo de entender de tudo, sofrer por tudo, chorar por mortos alheios não é um estado aprofundado em sinceridade e empatia. Virou mania!

Talvez não seja impossível, no entanto, não creio que podemos desencadear sensações sinceras diante de todos as notícias que ouvimos. Mas estamos assim, tentando nos identificar com o emaranhado de notícias que ouvimos. A busca pela notícia se tornou insaciável e confusos entre serenidade e indiferença nos apegamos à repetição de mantras vulgares de elogios ou críticas, mas temos que nos manifestar.

A instantaneidade das coisas nos priva de tempo para assimilar os fatos, dar-lhes roupagens coerentes, análises razoáveis e assim pecamos tentando viver um momento que sequer entendemos, mas insistimos em emitir opinião sobre tudo porque essa é uma  visão de senso comum dos seres conectados, interativos e modernos.

As notícias arrebentam nas ondas modernas dos streamings, internet, televisão e cá, sem tempo para sentar, ouvimos e passamos adiante o que nem verdade deve ser. Mas temos que ser rápidos, a próxima notícia já está sendo trabalhada para vir, com mensagens subliminares contidas, com boa ou má fé para preencher esse vazio insaciável por novidades. Saiba que tudo isso não passa de mera intoxicação consumista de bens de mídia e ideias.

Nem tão engraçados, engajados, admirados temos que ser.  Existe vida entre uma notícia e outra, existem comentários pontuais, conexão com as mídias dentro de um arrazoado de vida moderna, onde sobra tempo para ler, acompanhar os filhos, assistir um bom filme, onde o personagem central não tenha, necessariamente que transversalizar ou rivalizar com sua realizade.

Acompanhar as manchetes é muito importante, mas o consumo excessivo de notícias pode distrair a mente quanto ao que precisa ser feito e dependendo do nível de vício, você pode precisar de intervenção para recuperar o fluxo de uma rotina saudável.

 

A relevância do entendimento

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Segundo entendimento de Norberto Bobbio, no Dicionário de Política, os fins e os objetivos da política são definidos de acordo com os interesses dos grupos e políticos dominantes. Não há de ser assim em todo e qualquer contexto. Aliás, não deveria ser assim de forma alguma, não devemos viver sob o signo do conflito de interesses.

No caso político, o entendimento é necessário para se implantar as medidas que não gozam de consenso absoluto e precisam ser discutidas, polidas, adequadas até chegar a um nível que, mesmo que não agrade a todos os parlamentares, favoreça algum encaminhamento.

Via de regra, quase todas as medidas anunciadas pelos governos esbarram na má vontade, na vaidade, na lista ou não das prioridades. Se souberem trabalhar em conjunto, expurgando os ruídos provocados pelas bases, governo e parlamentares poderão avançar nas pautas de interesse do país.

Entender a natureza dos projetos, a relevância da aplicação de leis novas e acima de tudo, responder a inquietação da população é praticar a política republicana, que põe em relevo o bem comum sem desidratar os antagonismos entre os diversos interesses, mas, dando-lhes porém o contorno de que o bem comum deve ser buscado, sempre.

O debate acalorado é um elemento que bem ilustra a forma de fazer política do brasileiro e nem de longe significa rusga ou falta de educação. Entretanto, a paralisia é causada pelos pequenos mal-estar que vão se avolumando, pela adoção de estratégias mascaradas para fazer emperrar a máquina já lenta do executivo.

Historicamente é difícil um projeto, uma lei ser votado em consenso inicial. Mesmo quando não há o que negociar, alguns encontram razões para enrolar e para tornar o parlamento um lugar tenso, enquanto no plano ideal, deveriam todos trabalhar juntos e celebrar alianças progressivas.

As duas indignações

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PROCESSUS

DÉMOCRATIQUE

 

Quando um evento triste ou violento ocorre temos a tendência de expressar nossos sentimentos, quase sempre permeados pela indignação. Decorre daí, experimentarmos dois tipos de indignação.

Primeiro, a indignação relacionada diretamente ao fato que nos chocou e logo depois, como se estivesse corrigindo o exagero desta, a indignação escamoteada em espanto por termos nos indignado, com a violência já naturalizada ou com sofrimentos já sabidos inevitáveis.

Vivemos em sociedade e inúmeros conjunto de atitudes não mais como retornar. A vida moderna nos ensina que é para frente que devemos seguir, independente do que deixamos ou vemos lá atrás. Carregamos os exemplos, as lembranças e deixamos as sujeiras escondidas atrás dos tapetes que negamos levantar.

Indignar não é nenhum ato de redenção. É um susto involuntário. Não é nenhum elemento novo, amigo. É a mente pressionando para que não nos esqueçamos dos valores que tentaram incutir na nossa educação; viver com ética, sermos bondosos e tolerantes.

Quem, imperfeitos como somos, nunca pensou em passar do desejo à atitude de maltratar alguém que lhe fez algum mal? Porém, as duas indignações não permitirão o revide. Pois que, o mal causado por outro lhe indignou e o seu pensamento, ainda que tênue de fazer o mal, causa a segunda indignação.

Melhor aprender viver combatendo a percepção ingênua da completude e interpretar nossa história fixadas nas impossibilidades e que a indignação seja nosso estado de lucidez!

Nos sentimos culpados

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Os seres humanos são os responsáveis, para não dizer os culpados, pela interpretação que fazem das suas vidas e pelas ações que permeiam seus arredores. A maioria dos atos tem, pelo menos, algum grau de omissão humana.

Reforço esse conceito no sentido de que não é possível nos estabelecermos como cidadãos dissociados de qualquer código de decência e, assim sendo, devemos nos colocar numa situação que predisponha o agir na direção daquilo que queremos melhorar ou mudar.

Que nos esforcemos para isso diante de tantas tragédias que fulminaram a semana e levaram as autoridades e responsáveis à instalar vários gabinetes de gerenciamento de crises.

Como o próprio nome indica, esses gabinetes são instalados depois que algo sai do controle, ai, então, serve apenas para delegar culpados depois de acirrado jogo de empurra e para finalizar com relatórios concluindo que problemas técnicos já apresentavam indícios de vulnerabilidade e possível tragédia.

Os procedimentos negligentes têm tudo a ver com as tragédias que nos abalaram recentemente. Laudos técnicos forjados, burocracia excessiva no papel e vista grossa na realidade objetiva escancararam a deficiência como o país tem funcionado e negligenciado seus filhos.

E por que o Poder Público não age antes? Porque, segundo o professor da Universidade de São Paulo (USP), Sérgio Médice, falta ao país a cultura da segurança nas obras públicas. Denúncias são reforçadas apenas quando acontece um desastre, depois tudo volta ao que sempre foi, com relatórios forjados apontando normalidade e excluindo riscos no curto prazo.

Foi exatamente assim no caso do rompimento da barragem em Brumadinho, no alagamento e desmoronamento de encostas nas comunidades do Rio de Janeiro e, mais recentemente, o incêndio no Centro de Treinamento do Flamengo. Não havia um plano B porque, segundo os responsáveis, não havia com o que se preocupar!

Experiências dolorosas não têm gerado aprendizado algum. A tragédia de Mariana não evitou a de Brumadinho. As fortes chuvas associadas à ocupação irregular dos morros, falta de canalização de córregos, falta de drenagem das águas e contenção das encostas tem causado deslizamento e mortes nas comunidades do Rio de janeiro, quase todos os anos. As autoridades locais não evitam e até estimulam loteamentos em áreas sabidas de risco.

E como pode um local definido em projeto como estacionamento tornar-se moradia de longo prazo para os meninos sonhadores que vem de outras cidades, buscar oportunidade de ser um grande jogador de futebol? É muito grave o fato de dirigentes do Flamengo terem aprovado a prática de alojar os garotos, que seriam mais tarde os ídolos do clube, em contêiners. Isso não causou indignação em nenhum deles, em nenhum pai?

As irregularidades do local foram confirmadas pelo Corpo de Bombeiros, que informou em nota, que o CT não tem o certificado emitido pela corporação. Enquanto os jornais mantiverem o foco nessas tragédias, elas repercutirão negativamente e forçarão os responsáveis a produzirem respostas imediatas às tragédias, mas se a imprensa colocar a pauta em segundo plano, adeus! O silêncio percorrerá os corredores do poder e dos poderosos.

Outra coisa que falta é falar a verdade. Em todos os casos recentes, familiares reclamaram da omissão de informações, da improvisação, da desorganização das autoridades. Isso, num momento de dor horrível, onde familiares percorrem o IML numa tentativa desesperada de levar seus mortos para casa.

Quando um poder não decide, outro o faz

A situação vexatória da reunião preparatória para escolher o presidente do Senado Federal teve seu início no mês de dezembro, quando o senador Lasier Martins do PSD do Rio Grande do Sul fez consulta ao Supremo Tribunal Federal (STF) sobre um projeto se resolução de sua autoria, apresentado no Senado, para que o voto fosse aberto para as eleições da Mesa. O Ministro Marco Aurélio, citando que os princípios constitucionais da publicidade e transparência previstos na Constituição Federal deviam ser colocados acima do regimento, determinou que a votação fosse aberta. Entretanto, o presidente do STF, Min. Dias Toffoli derrubou a decisão sob o argumento de que os poderes devem se manter autônomos e próprio senado tem que decidir por seus atos.

No ambiente dos gabinetes percebia-se uma movimentação tumultuada, aparentemente desarticulada, mas era claro a tendência de barrar, não diria a candidatura, mas a vitória do senador Renan Calheiros. O senador que interinamente ocupava a presidência, Davi Alcolumbre, demitiu o secretário-geral da casa, Fernando Bandeira, pessoa ligada a Renan, que horas mais tarde retomou o cargo. As 15 horas, a sessão de posse transcorreu dentro da normalidade, mas aos burburinhos, grupos de parlamentares já definiam as estratégias, inclusive regimentais, para aplicar à sessão da escolha do presidente.

O Regimento interno do Senado foi escrito, para de certa forma ser, quando necessário ou conveniente, sujeito a múltiplas interpretações. Na prática, assuntos fundamentais foram decididos na questão de ordem, os senadores exaltados citavam os artigos do regimento, em interpretações difusas cada qual agregando seus ideologismos, preciosismos e indagações. Defensores da candidatura do Senador Renan Calheiros invocaram quase todos os artigos, se utilizaram de todas as manobras para que o senador Alcolumbre, candidato declarado à presidência do Senado não presidisse a Sessão preparatória.

Foi no mínimo surreal a cena protagonizada pela senadora Kátia Abreu, do PDT de Tocantins, ao roubar a pasta que continha o rito da condução dos trabalhos. Pegou a pasta, desceu as escadas saltitante, parecendo uma criança, que acabara de ganhar um doce. Após mais de 5 horas de embates, com os ressentimentos políticos à flor da pele, 50 senadores votaram pela abertura do voto. A sessão foi encerrada com continuidade agendada para o dia seguinte e a pasta de documentos foi devolvida ao presidente.

Assim, iniciou-se a nova Legislatura; sem presidente.

Noite mal dormida, com os ânimos acirrados, pois já sabiam da derrubada da decisão do voto aberto pelo STF, os senadores discursavam, trocavam acusações e xingamentos, cada um preocupado em desconstruir o argumento do outro. Foi Impressionante a incapacidade de ouvir dos senadores, de elevarem o nível das proposituras, de garantir o poder decisório do Senado Federal. Foram alertados pela estreante senadora Selma Arruda, PSL de Mato Grosso, que tais comportamentos é que ensejam a consulta e interferência de outros poderes nos ritos e nas decisões tomadas pela Casa.

Enfim, 50 senadores foram derrotados pela decisão de um ministro, numa questão meramente regimental. Dias Toffoli negou suas próprias palavras, que transcrevi acima e cassou a decisão soberana do plenário. Resultou desse imbróglio que o voto foi misto. Quem o quis secreto, colocou o voto no envelope, depois na urna e quem quis declarar, mostrou a cédula ou confirmou o voto no microfone. Renan Calheiros ferido, com a imagem associada a velha política, recuou da candidatura e retirou-se do plenário. Venceu o Palácio do Planalto, com o senador Davi Alcolumbre, do DEM/AP.

A imagem do Senado sai obviamente desgastada por causa do espetáculo de casuísmo protagonizado para se manter a hegemonia e a continuidade do poder do MDB na Casa. Passado este momento tenso inicial é hora de voltar os olhos ao regimento e tirar os apensos que ficam retidos na CCJ e reformulá-lo.