Mapa político de 2024 não é prévia de 2016

Osegundo turno segue quente em Cuiabá e em outras 50 cidades brasileiras. O segundo turno é uma eleição em que se aproveita a maioria das experiências aplicadas no primeiro turno, mas é um novo momento muito complicado, com espaço de tempo muito curto para trabalhar as novas estratégias e tem o desafio interno, dentro da campanha de acomodar, de abrir espaço para as novas adesões, para os novos apoios, que irão, ao final, na contagem dos votos, fazer a diferença.

Essa questão de flexibilizar para receber novos apoios é tão importante que li uma entrevista do presidente do PL, afirmando que: “o pessoal da extrema direita do partido precisa aceitar a aproximação com o centro e o diálogo com setores da esquerda para vencer as eleições de 2026”.

Então, as eleições locais nem terminaram e estão sendo utilizadas por políticos e analistas políticos como o termômetro do apoio público aos governos e partidos para as eleições gerais, em 2026. Em análises locais e nacionais percebo que as eleições que ainda não findaram serão mais do que a escolha dos 5.568 prefeitos e 57.119 vereadores país afora. Desse resultado surgirá um mapa desenhando dos possíveis rumos do Brasil na próxima eleição. Não diria que os futuros prefeitos e vereadores serão cabos eleitorais dos candidatos de 2026 mas seguramente serão as pessoas que influenciarão os eleitores no próximo pleito.

Estudando os impactos e influências das eleições municipais nas eleições gerais, há forte tendência entre os cientistas políticos de que a eleição municipal não é uma prévia da eleição geral até porque o que foi colocado à vista em 2024 foi a avaliação das forças políticas, do desempenho dos partidos e dos parlamentares com mandato. O eleitor gosta de parlamentar que atua fortemente nos municípios e obviamente quem tem grande número de prefeitos e vereadores entre os apoiadores sai com larga vantagem. Isso nem é teoria política, é matemática.

Embora os analistas creiam que os resultados das eleições municipais expressem preocupações locais e não tendências nacionais, eu creio que os eleitores utilizam as eleições em arenas locais para expressarem a satisfação ou insatisfação com os governos estaduais e nacional.

A dinâmica das duas eleições, contudo, não obedece a mesma lógica, tanto que o PT em 2020 teve um dos mais fracos desempenhos desde a fundação da sigla e elegeu apenas 183 prefeitos. Dois anos depois, nas eleições gerais, retomou a Presidência da República, elegendo o presidente Lula para o terceiro mandato. De acordo com o cientista político Rafael Cortez, professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a ligação entre os dois pleitos se dá mais no campo das ideias da elite política, porque o eleitor não guarda relação nem preferencias entre as duas eleições e o efeito de uma eleição sobre a outra vai se diluindo.

Vamos acompanhar o desempenho do PSD, de Gilberto Kassab, que terminou o primeiro turno como o partido com a maior capilaridade política do País, elegeu 888 prefeitos de norte a sul e espera estar na disputa direta para a presidência da República ou no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo. Vamos observar para ver até que ponto ter mais prefeitos e vereadores significa estar bem-posicionado para uma grande disputa.

Em alguma medida, é claro que a eleição municipal dá o cenário de poder com que os partidos vão jogar quando forem construir os seus palanques e suas estratégias eleitorais, num ambiente que já foi modificado para melhor em 2024. 241 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas vereadoras, um aumento de 400% na representação nos legislativos municipais. As eleições municipais mandam recado para 2026.

A consolidação de um processo conservador

As eleições municipais são o prenúncio das eleições gerais e importa muito perceber para onde o vento está soprando, como e quais políticos conseguiram transferir apoio para seus candidatos. O diagnóstico pelo Tribunal Superior Eleitoral ao detectar que 11% dos prefeitos eleitos no primeiro turno no país são servidores públicos com tendência política de centro direita e quase 6% dos vereadores tem o mesmo perfil e são filiados nos partidos de centro, PSD, MDB e PP. Interessante observar o servidor público se colocando como cidadão da elite, alinhado com partidos que não priorizam as pautas de defesa dos trabalhadores e preservação ou ampliação de seus direitos.

O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, conseguiu fazer 509 prefeitos no primeiro turno das eleições municipais. O número é superior ao do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que elegeu 248 candidatos. Porém alguns analistas contrariam a ideia de uma polarização política intensa, os embates diretos entre PT e PL foram raros. As coligações em que PT e PL estiveram juntos elegeram 49 prefeitos. Os dois partidos concorreram diretamente em apenas cinco das 26 capitais: Fortaleza, João Pessoa, Vitória, Cuiabá e Manaus. O União Brasil e o PL venceram as eleições nas 100 cidades mais ricas do agro brasileiro

15 capitais brasileiras disputarão o segundo turno. O PSB se transformou na principal força progressista do país elegendo 312 prefeitos. Em Cuiabá, fez mais de 33 mil votos e elegeu 4 vereadores, porém de acordo com o Presidente, Carlos Siqueira, em termos gerais, o Brasil vem sofrendo um processo de radicalização conservadora do centro para a extrema direita e os ricaços, como sempre, abriram os cofres e doaram mais de 30 milhões para influenciar no resultado das eleições e avançar o projeto conservador rumo a 2026.

Pessoas se tornaram conhecidas. A vergonha nacional do primeiro turno veio de Goiás querendo conquistar São Paulo, o coach Pablo Marçal, arrogante, mimado, sem cultura, agressivo e com discurso antipolítica, surfou na onda bolsonarista, depois achou-se maior do que o líder, ridicularizou a imprensa e precisa dela para captar clientes para as mentorias, que o tornaram milionário. O bom moço veio de Fortaleza, é biólogo e chama-se Gabriel Aguiar, foi reeleito com 30 mil votos sem utilizar papel, ou seja, sem santinho, santão, panfleto, mas, com discurso alinhado com a defesa do meio ambiente. O vereador Gabriel e sua equipe recolheram folhas nas praças, parques e quintais de Fortaleza, visando reduzir o impacto ambiental da campanha prensava as folhas e escrevia à mão seu número de urna e as distribuía aos eleitores, uma ação que ganhou o apoio de ativistas ambientais.

Com abstenção alta, 24,32%, quatro das 10 maiores cidades de Mato Grosso elegeram prefeitos conservadores do PL, que ainda disputa Cuiabá. A maioria dos candidatos não foram eleitos porque representam o melhor para suas cidades, mas porque atendem bem o projeto de retorno da direita conservadora ao poder em 2026. De 142 prefeituras no estado de Mato Grosso, apenas 13 serão comandadas por mulheres, Cuiabá nem candidata teve.  Em 2020 o candidato Abílio Brunini disputou a eleição para prefeito de Cuiabá pelo (Podemos) com Emanuel Pinheiro (MDB). No primeiro turno Abílio teve 90.631 votos válidos (33.72%) e Emanuel 82.367 (30.65%) e Emanuel virou e venceu. Em 2024 Abílio ampliou a votação para 126.900 votos e Lúdio com quem disputa fez 90.719. Ou seja, Lúdio inicia o segundo turno com um déficit eleitoral de 36 mil votos (11,3%).

A Câmara municipal de Cuiabá entrou finalmente na era da redução da desigualdade de gênero pela ocupação dos espaços de poder e elegeu 08 mulheres, enquanto no âmbito estadual os candidatos homens receberam 87% votos as mulheres receberam apenas 13%. A justiça eleitoral, no entanto, registra que houve avanço na representatividade feminina nas Câmaras Municipais.

Mulheres demoram a decidir o voto, priorizam a ação social e o custo de vida

Nas democracias avançadas de todo o mundo, nos últimos anos assistimos às mulheres moverem-se para a esquerda, transferindo o seu apoio de partidos conservadores para partidos progressistas. Há evidências de longa data de que as mulheres são socialmente mais liberais nas suas atitudes em relação às minorias, por exemplo, em relação às minorias étnicas, raciais e às pessoas LGBTQIA+.

As mulheres são mais propensas a se sentirem financeiramente inseguras, a se preocuparem com a segurança financeira, priorizam assistência social e o custo de vida. As mulheres também se preocupam com as questões trabalhistas, com educação, pautas, onde os partidos progressistas têm uma reputação tradicionalmente mais forte. As mulheres se preocupam com o voto, mas decidem-se mais tarde do que os homens. Já foi dito que quando as primeiras pesquisas indicam números altos de indecisos, isso reflete a indecisão ou cautela delas.

Chegou a hora e 1,3 milhão de mulheres de Mato Grosso acordaram salientes, se arrumaram e estão a caminho dos locais de votação para escolherem prefeitos e vereadores de seus municípios. Saibam que do total de candidaturas aqui registradas para estas eleições, apenas 35% são de mulheres, os dados são do portal de Estatísticas do TSE, somando candidatas a prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras. O número é considerado baixo considerando que a representação feminina em Mato Grosso é de 51% dos 2.588.666 milhões de eleitores.

As mulheres podem decidir as eleições. Conversei com uma candidata que atua na área da saúde, construiu bom conhecimento sobre as políticas públicas para as unidades de saúde. Debateu com colegas a necessidade de se colocarem para a disputa, acreditou que traria visibilidade para o partido com as discussões técnicas, porém, confessou que enfrentou sérios desafios para ser ouvida, para estruturar a campanha, devido ao tratamento desigual dado a homens e mulheres, negros e brancos, da região central ou periferia, o recurso que recebeu foi mínimo, sobretudo para quem precisava se tornar conhecida. Não conseguiu imprimir material no mesmo tempo que homens brancos do partido já estavam com suas campanhas nas ruas, o que certamente impactará seu desempenho nas urnas.

Lá atrás, quando se criticava os bilhões que seriam liberados pelo Fundo de Financiamento de Campanha, houve a argumentação de que o objetivo do fundo seria garantir uma disputa digna para todas as candidaturas, que por meio desta fonte de recurso público os partidos, as candidatas e os candidatos custeariam grande parte das campanhas eleitorais. A definição dos critérios de distribuição do Fundo Eleitoral às candidatas e aos candidato é uma decisão interna dos dirigentes partidários e a falta de clareza na distribuição do recurso, contraria o motivo de sua criação ou seja, o acesso não é democrático e a verba ficou concentrada nos candidatos brancos e com bom patrimônio.

Na última eleição municipal foram eleitas 9.196 vereadoras, Cuiabá contribuiu com apenas duas eleitas e 48.265 vereadores em todo o país. Prefeitas foram eleitas apenas 663 e somente nove administram cidades de grande porte e somente uma foi eleita para administrar uma capital. Nas Câmaras Municipais, em mais de 1.800 cidades, uma única vereadora foi eleita e, em 933 Câmaras não existe nenhuma mulher. Vamos guardar esses números para dimensionarmos o tamanho do avanço.

Só preciso de um trocado e um sonho

As loterias tornaram-se maiores e mais difíceis de ganhar, atraindo especialmente pessoas economicamente vulneráveis. Infelizmente, quando se trata de loteria, os pobres continuam a ser os maiores perdedores em qualquer país. Um estudo americano recente publicado no Journal of Risk and Uncertainty revelou que as pessoas pobres gastam nove por cento do seu rendimento em jogos de loteria.

O Banco Central revelou que os brasileiros gastaram recentemente cerca de R$ 20 bilhões por mês com apostas on-line. Os valores divulgados consideraram apenas transferências via Pix e ao filtrar o perfil os jogados percebeu-se que os beneficiários do programa de transferência de renda Bolsa Família transferiram R$ 3 bilhões só em agosto para as “bets”.

O mercado de jogos está voraz e o Brasil tem hoje cerca de 300 empresas especializadas no mercado de apostas esportivas. Um mercado em ebulição, que foi catapultado pela regulamentação proveniente da aprovação da Lei 14.790/23, que possibilitou o ingresso de pessoas jurídicas nesta área que, anteriormente, era explorada, de forma exclusiva, pelo poder público, regulou as apostas virtuais e os jogos on-line.

A discussão sobre as “bets” veio à tona após essa percepção de que as famílias brasileiras estão se dispondo de percentual cada vez maior do escasso recurso para sustentar a casa, deixando de lado gastos pessoais, com cultura, entretenimento e até com alimentos e bebidas para se aventurar e encher o bolso dos donos das “bets”. Que discernimento tem esse povo que precisa que o estado intervenha e lhe diga que normalmente joga-se com o troco e não com o dinheiro do leite das crianças?

Desde 2021 a Caixa Econômica vem fazendo alerta sobre sites de apostas e loterias não autorizadas, o Banco Central já está em alerta e classifica o crescimento desse mercado no país como preocupante, sobretudo por causa de relatos sobre endividamento familiar para custear o vício em jogos. Segundo a regulamentação já prevista do Ministério da Fazenda, o cartão de crédito não vai mais poder ser usado a partir de janeiro de 2025. A Febraban alerta que embora apostar possa ser divertido, os jogos, qualquer um, não são investimento e nem uma alternativa ao emprego, ou solução para problemas financeiros, fonte de renda adicional.

A loteria pública no Brasil tem 61 anos. A Mega-Sena é uma das loterias que oferece menor probabilidade de o apostador levar o prêmio milionário com uma aposta simples. A Mega-Sena, já respondeu por quase metade das apostas feitas. Hoje as “bets” faturam 10 vezes mais que as loterias oficiais da Caixa econômica, investiram dois bilhões em propaganda em 2024, o que levou a Caixa Econômica a elevar o tom e pontuar que não há garantia de que as apostas não oficiais sejam efetivamente registradas, portanto, o apostador pode sequer estar concorrendo ao sorteio, que os sites não autorizados cobram sobrepreço, portanto, os valores arrecadados não são revertidos para premiação na proporção indicada pela lei.

Desde o ano passado algumas plataformas de apostas começaram a ser acusadas de ter jogos ilegais em suas plataformas. Uma delas, mostrou que realmente dinheiro de apostador estava sobrando no caixa da empresa e pagou mais de R$ 80 milhões para patrocinar o BBB 2024. 114 novas casas de apostas pediram autorização para entrar em funcionamento ao Ministério da Fazenda.

No Senado Federal a discussão foi a pauta no plenário semana passada, os senadores alertam sobre os impactos negativos visíveis do mercado de apostas on-line, as ´bets´, alertam para o crescente risco do vício em jogos, apontam para a proibição da propaganda dos jogos, incluindo patrocínios de times de futebol e ações sociais, o que todos já sabemos, mas quase unanimemente os parlamentares falam em reparar erros, corrigir desvios acumulados pela Lei 14.790/23 que eles mesmos aprovaram e que, se todos os artigos fossem cumpridos não estariam os parlamentares trabalhando projetos para aprovarem em regime de urgência.

No texto da Lei cita a proibição de propagar ideias enganosas e criar falsas expectativas quanto a premiação, proíbe o jogo para menores de 18 anos, proíbem transmissão de eventos esportivos, entre outras coisas, que acontecem diante de nossos olhos.

Eleição – coisa complicada

Em Mato Grosso, somente a capital do estado pode ter as eleições decididas no segundo turno. No Brasil apenas 103 cidades poderão ter segundo turno. Na reta final, analisados os recursos, o Tribunal Regional Eleitoral já divulga as candidaturas barradas pela justiça eleitoral. No estado, 11.100 cidadãos solicitaram registro, sendo 368 candidatos a prefeito, 374 a vice-prefeito e 10.358 candidatos a vereador, sendo 446 em Cuiabá, dos quais 23 foram considerados inaptos ou deferidos com recurso, conforme o DivulgaCand Contas.

Na data de 20 de setembro o DivulgaCand Contas registrava 15.571 candidatos a prefeitos, 15.814 candidatos a vice-prefeitos e 431.967 candidatos a vereadores no país inteiro. As nossas eleições são verdadeiros combates, a eleição municipal é gigantesca, movimenta números expressivos; mais de 155.912 milhões de eleitores, quase meio milhão de candidatos nas 5.569 cidades do país. Ao todo, 29 partidos receberão R$ 4.961.519.777,00 somente do Fundo Especial de Financiamento de Campanha, valor estabelecido pelo Congresso Nacional para gastos com a corrida eleitoral deste ano.

Esta será a maior eleição municipal de todos os tempos, entretanto, desse total de eleitores, aproximadamente 20,5 milhões não são obrigados a votar, são os maiores de 70 anos e as pessoas de 16 e 17 anos, ou seja, 1 em cada 7 eleitores não é obrigado a votar.  

As eleições municipais despertam muito interesse na turma de Brasília tanto que 83 deputados federais e 4 senadores entraram na disputa, apesar do ambiente ser favorável à reeleição dos prefeitos. Porém, nunca se tem como certa nenhuma movimentação no tabuleiro político eleitoral antes das eleições, com exceção do jovem prefeito de Recife, João Campos (PSB) que é, segundo pesquisas, o único candidato de capital com vitória assegurada no primeiro turno. O candidato tem 67% das intenções de votos. Em Mato Grosso, Kalil Baracat, prefeito de Várzea Grande tem a excelente pontuação de 57,9% das intenções de votos.

Dia 16 de setembro passado, 20 dias antes do 1º turno das eleições foi o prazo estipulado para que todos os pedidos de registro de candidaturas estivessem julgados e as decisões publicadas. Para quem efetivamente pretende ser candidato é necessário que não incida em nenhuma das cláusulas de inelegibilidade, que entre as causas mais comuns tem-se a ausência da quitação eleitoral, desincompatibilização de cargos nas datas previstas em lei ou incidência nas cláusulas da Lei da Ficha Limpa, que veta candidaturas de pessoas condenadas por determinados crimes ou improbidade administrativa, que por exemplo, impossibilitou a candidatura do Presidente Lula em 2018, no caso do tríplex e Fernando Haddad, à época, assumiu a candidatura. O ex-presidente Bolsonaro está inelegível por 8 anos por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, inclusive oficial, para divulgar informações falsas sobre o processo eleitoral brasileiro.

O combate a desinformação é prioridade para a Justiça Eleitoral. O Tribunal Superior Eleitoral coloca à disposição do eleitor várias formas de denunciar as propagandas e campanhas irregulares, por exemplo, o aplicativo Pardal. Para denunciar especificamente a disseminação de notícias falsas, pode-se acionar o Sistema de Alerta de Desinformação Eleitoral – SIADE ou o SOS Voto, pelo telefone 1491. Em caso de dúvida se a informação divulgada pelo candidato é verdadeira ou falsa, recorra ao Fato ou Boato na capa do site do TSE, que faz conferência das informações e fontes das mesmas.

A Ministra Cármen Lúcia, Presidente do TSE disse que o voto é compromisso de esperança que se põe na urna para guardar a Democracia que construímos juntos, com todas as diferenças que nos fazem plurais na unidade que é o Brasil.

Os influenciadores e a falta de conecção com a realidade

Os influenciadores digitais são pessoas que criam conteúdo para a internet com o objetivo de atrair um grande público para o consumo, para fazer crescer o seu poder de influência nas decisões de compra e comportamentos dos seguidores que acumula.  Eles sempre existiram, mas nos últimos anos o termo influenciador se tornou uma indústria lucrativa e uma opção de trabalho. Anteriormente, as celebridades, sobretudo atores e atrizes famosos eram considerados influenciadores com status e credibilidade, no entanto, há alguns anos isso se tornou possível para o indivíduo comum com acesso da tecnologia.

No momento dois influenciadores estão nas mídias tradicionais brasileiras. Um se vendendo como candidato a prefeito da maior cidade de país, autodeclarando-se uma pessoa extremamente rica, que sabe falar com os nobres e com os otários e enriqueceu conduzindo sua vida entre três ingênuos pilares: “o primeiro passo é fechar a escassez. Depois, ter abundância e o terceiro é o transbordo, o momento em que estamos tão cheios de abundância, que estamos vazando por cima. 

Sobre a influenciadora, uma advogada que diz em bom som que gosta “de advogar para bandido, para a gente que faz coisas erradas e que está ‘noiado’”, está presa há uma semana, acusada de criar um site de apostas para lavar dinheiro de jogos ilegais, exibia-se a bordo de um jato particular e uma McLaren roxa. Repousa agora, nas dependências da Colônia Penal Feminina de Buíque, no Agreste de Pernambuco.

Os influenciadores podem ser encontrados praticamente em todos os setores, desde resenhas de livros, esportes, blogs de moda, alimentação, e seu conhecimento e compreensão de seu nicho os colocam em uma posição de poder e autoridade no mundo digital. Segundo pesquisa do instituto de Marketing Digital, 70% dos jovens confiam mais nos influenciadores do que nas celebridades tradicionais. Com tantos fãs sintonizando seus conteúdos diariamente, os influenciadores se tornaram uma ferramenta de marketing digital muito poderosa, superando os métodos de publicidades tradicionais.

Muitos influenciadores listados no Brasil, não influenciam em coisa alguma, apenas tem número elevado de seguidores, expõem detalhes de suas vidas privadas, para gerar grande engajamento. Entre os 24 maiores influenciadores globais do Instagram 2024, nenhum jornalista, nenhum escritor, nenhum grande ator ou atriz, nenhum jornal.  

A questão resvala na confiabilidade e autenticidade. Falta profissionalismo a muitos influenciadores, como a qualquer outro profissional. E o que pode ser percebido, é que a grande maioria prioriza seus extravagantes ganhos pessoais em vez de manter uma conexão honesta com seu público e com as marcas e as ideias que representam. Alguns influenciadores se concentram apenas em aumentar seu número de seguidores, o que é ligeiramente relacionado ao faturamento, sem dedicar atenção à construção de conexões significativas ou ao envolvimento com o seu público. A verdade é que muitos influenciadores não possuem ética, tampouco compartilham uma visão de mundo realista.

Em tempo de eleições, o universo digital está povoado de influencer político. Na política, o meio de comunicação tradicional ainda é a principal fonte de informação, por enquanto, porque os influenciadores focados na política estão agindo, tentando promover mudanças nas intenções de votos junto aos utilizadores das redes sociais que se sentem atraídos por opiniões de influenciadores. No ano passado, bons nomes da imprensa e do meio artístico foram reconhecidos e premiados como influenciadores de debates políticos.

O mundo avança imperfeito e perigoso

Em novembro de 2020, a polícia francesa intimou um casal para prestar depoimento. O homem estava sendo acusado por um segurança haver tirado fotos debaixo das saias de algumas mulheres no supermercado onde ele trabalhava, três meses atrás. Mas porque a mulher havia sido intimada a acompanhar o marido? Porque durante as investigações do caso a polícia encontrou um arquivo titulado “abusos” em um drive USB conectado ao computador do marido, que continha 20 mil imagens e filmes da esposa sendo sistematicamente estuprada pelo marido e por outros homens que ele recrutava.

A mulher era drogada até a inconsciência. Ela disse que mal se reconheceu nas imagens, mas o marido estava presente em todas os filmes e fotos dos estupros reiterados, cometidos contra seu corpo inerte. O inferno durou dez anos, a mulher se chama Gisèle Pelicot, tem 71 anos e nesta semana compareceu ao tribunal, onde renunciou ao direito ao anonimato, para que julgamento de seus algozes fosse realizado em público, para encarar 51 dos seus agressores, incluindo o ex-marido, no início dos julgamentos.

Parece tenso e desnecessário detalhar o caso? Não. Não podemos e não devemos escamotear a atrocidade cometida contra essa mulher que fora sacrificada em nome da perversão e da crueldade. Casada com Dominique Pelicot por quase 50 anos, várias vezes esteve doente, contaminada com doenças sexualmente transmissíveis, episódios de perda de memória, perda de peso. Destruída ouviu o marido confessar o crime e admitir ter recrutado mais de 100 homens ao longo dos anos para a violarem. O casal tem três filhos adultos, que estarrecidos acompanham a mãe no julgamento, onde ouviram o pai afirmar: “Eu a colocava para dormir, oferecia-a numa sala bate-papo adulto e filmava tudo”.

O mundo continua sendo uma terra hostil para as mulheres e essa semana, chocou-me o nível da perversidade do crime praticado contra a atleta olímpica de Uganda, Rebecca Cheptegei, que competiu na França mês passado, cujo namorado, queniano, num ato covarde de desmedida violência cobriu-lhe o corpo com gasolina e ateou fogo. Sexta-feira (6), na cidade de Jaciara um homem assassinou a tiros a ex-mulher na frente dos filhos, arrastou o corpo até a casa do namorado dela e o matou. Juntou os dois corpos e ateou fogo. Vês? A modalidade da perversidade é mesma no Quênia e em Mato Grosso.

A observação da multiplicidade das formas de violência, o espaço de tempo que sequer existe entre uma crueldade e outra geram desgaste emocional profundo nas mulheres. Há medo de romper, medo de falar, medo de ser desqualificada e julgada.

Não está fácil romper o ciclo da violência contra a mulher porque os agressores permeiam todos os espaços da vida social e familiar, porque os agressores também frequentam espaços onde se debate os direitos e liberdades da mulher, porque estamos debatendo o tema em ambientes majoritariamente repletos de mulheres e não são as mulheres que torturam, que ateiam fogo e que assediam. É de uma tristeza indescritível ver o Ministro dos Direitos Humanos e da Cidadania do Brasil, Silvio Almeida ser demitido do cargo e sair pela porta do fundo, com reputação maculada com diversas acusações de assédio sexual.

Pelo que se lê, o ex-ministro deveria ter sido demitido há meses. Não se pode relativizar, ignorar a gravidade das denúncias numa questão tão delicada. E de só haver denúncias, mesmo antes de serem investigadas, já deveria ter sido afastado para produzir sua defesa com seus próprios meios, sem o uso da máquina pública. Aqui não cabe protecionismo por ser o acusado um homem negro. A luta é denunciar, cobrar punição pelos crimes cometidos contra as mulheres por homens de qualquer raça, credo ou posição social. 

Os cabos eleitorais com bom trabalho de base

Somos atraídos por políticos que nos inspiram e são bons em comunicar no que acreditam, porém, há uma leva de candidatos sem perfil, sem conteúdo, sem empatia e sem conexão com o eleitor, sem pautas prioritárias tentando conseguir votos para serem eleitos. Campanhas há certo tempo têm ligação muito intrínseca com as redes sociais, que devidamente impulsionadas podem proporcionar ao candidato, com ou sem conteúdo, uma visibilidade enorme.

Após duas semanas, vencidas as limitações da lei eleitoral, as dificuldades burocráticas e de planejamento, os candidatos estão nas ruas com adesivaço, bandeiraço, reuniões filtradas nas residências de apoiadores nos bairros mais distantes do centro de Cuiabá, tentando exibir campanhas volumosas. Liguei para um amigo, liderança importante no movimento comunitário e ouvi dele a confirmação de um comportamento que observo; os voluntários de campanha, fora do grupo familiar e de amigos, são pouquíssimos.

Me disse o líder comunitário que as mesmas pessoas frequentam reuniões de vários candidatos que disputam a vereador até que sejam contratadas como cabo eleitoral por um ou outro. É um engano crer que estas pessoas desenvolvam vínculo com o candidato e suas bandeiras. Quando surgiram os cabos eleitorais eram normalmente militantes dos partidos dos candidatos, hoje, considerados ultrapassados, a grande maioria são contratados, remunerados ou não e quase nunca tem ligação com a militância do partido e atuam na faixa intermediária fazendo a conexão entre o candidato e a população, grande parte, sem conhecimento das regras eleitorais, da linha ideológica do partido e do candidato para quem pede votos. Praticamente apenas o cabo eleitoral com bom trabalho de base em um bairro importante, abre portas para o candidato.  

Certa vez li uma entrevista com ex-governador de Rondônia e senador, Confúcio Moura, onde ele dizia: “sua campanha política inicia no dia que você nasce e vai crescendo a cada passo, de acordo com os sentimentos e ações que permeiam seu crescimento pessoal e sua posição política, que a eleição se ganha muito antes do pleito, com ações sociais, participando de reuniões em organizações de bairro.”

O passado do político tem que ajudá-lo a neutralizar a tempestade ininterrupta de ´fake news´, a falta de afinidade de muitos colaboradores que sequer conseguem repetir meia dúzia de propostas do candidato. A conquista do espaço eleitoral tem que refletir a identidade do candidato, porém, o tempo exíguo joga para as mídias sociais ou pessoas desqualificadas o papel de divulgar e promover as ações da campanha. Marcelo Vitorino, em artigo recente e direcionado a eleição municipal, disse que não adianta correr desordenadamente, queimando etapas, querendo estar em todos os lugares, sem antes sensibilizar e motivar o eleitor com suas propostas. A pressa é inimiga da vitória, ensina Vitorino.

Sexta-feira passada iniciou o horário político nos meios de comunicação tradicional e agora candidatas e candidatos aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador podem realizar propaganda eleitoral nas ruas, na internet e no horário eleitoral gratuito. Meios para se tornar conhecido tem, a propaganda eleitoral é uma ferramenta fundamental que permite que os candidatos apresentem suas propostas e ideias à população. Aí reside o problema!

Os vários níveis da participação política

Reclamações sobre a perda de interesse pela política são ouvidas por toda parte. Depois ouve-se o discurso sobre a crise de representação de inúmeras categorias. Em muitos casos a sub-representação deriva da não participação. Seria possível esquecer a política?

A política, antes, é o mundo que emerge entre nós, o mundo que emerge através das nossas interações uns com os outros, ou através das formas como as nossas ações e perspectivas individuais são agregadas em coletividades, embora alguns cientistas políticos a definam simplesmente como o exercício do poder, o poder como influência sobre as ações de outro, poder de moldar agendas e preferências políticas, ou como foi definida pelo cientista político Harold Lasswell: a política trata de “quem recebe o quê, quando e como”.

Faz realmente diferença em nossas vidas escolhermos quem nos governa. Benjamin Constant no livro Escritos de política disse ser a democracia a autoridade depositada nas mãos de todos. Os cidadãos possuem direitos individuais que estão acima da autoridade que os governa, como a liberdade individual, liberdade de opinião e liberdade religiosa. Para alguns, o critério central de uma democracia é o poder dos cidadãos escolherem o seu governo através de eleições competitivas; para outros, este fator é menos importante do que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos na obtenção de posições de liderança política; para outros, estes dois critérios perdem a importância se a participação efetiva dos cidadãos nos vários níveis da vida política não for alcançada.

Chega da visão fatalista de que não temos escolhas reais a fazer na política. Um voto não elege diretamente o prefeito, o vereador, mas se o seu voto se juntar a um número considerável de outros, o seu voto será sem dúvida importante no resultado eleitoral final. Todos podemos empreender ações para influenciar diretamente o envolvimento político através das instituições eleitorais. Precisamos nos envolver não apenas por causa dos ideais sublimes da democracia, mas porque é nossa responsabilidade como cidadãos. Devemos prestar mais atenção na verdade, nas propostas porque, gostemos ou não de política, os políticos serão eleitos, irão cobrar impostos e definir novas as regras que afetarão a vida de todos.

Precisamos ler, estudar para entender a efervescência singular da movimentação política, afinal recai sobre o mês de agosto a expectativa dos registros de candidaturas, acesso aos recursos do fundo partidário, abertura de contas, confecção de material visual, gravações decepção com aliados, rasteira partidária. Agosto parece não ter fim!

As pessoas normais não são especialistas na maioria das questões políticas, mas entendem bem as grandes divisões nas posições políticas de progressistas e conservadores, as redes sociais e a proliferação de canais de mídia através da Internet e da TV desempenharam um papel importante, permitindo que as pessoas se comunicassem com pessoas como elas, sem perder o olhar para os que pensam diferente. Ou seja, as pessoas estão gravitando nos espaços dos seus iguais, mas estão lendo sobre os outros candidatos também. Como li dias atrás, numa estratégia de cima para baixo, os partidos estão espalhando combustível dentro de seus campos, promovendo a divisão entre os candidatos em busca de assegurar crescimento das bancadas.