Valorização da ignorância

Os valores e a integridade não podem ser medidos por orientação sexual, credo, raça ou qualquer outro balizamento preconceituoso. Não ser homofóbico é o mesmo que não ser racista. Onde quer que vamos na sociedade de hoje, o preconceito e a discriminação estão ainda vivos e latentes, embora não admitamos isso.
O preconceito coletivo praticado por um grupo social inteiro é também dirigido a um grupo social e deixa conseqüências nocivas nas minorias golpeadas e age a luz da ilegalidade porque vai contra o princípio da dignidade da pessoa humana – art. 1o, III, da Constituição Federal. Em Aristóteles os desiguais devem ser tratados desigualmente, na medida de suas desigualdades. O núcleo duro do sistema, por assim dizer, é o princípio da dignidade da pessoa humana, isso porque o ser humano deve ser posto a salvo de qualquer situação indigna.
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Na sociedade hoje, o preconceito e a
discriminação estão ainda vivos e
latentes, embora não admitamos
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Ninguém dever ser discriminado ou tratado com diferenciação por razão alguma. Discriminar é não reconhecer os direitos do outro, é ter atitude de desconfiança com quem é diferente, sendo que entre os homens existem desigualdades naturais. A discriminação repousa sobre como se observa e se ensina a encarar a diversidade. Se com respeito e compreensão, a discriminação não encontra campo fértil para florescer, se com intolerância contra a essência da alma do outro, gera ofensa, desrespeito e pode desencadear violência.

Para Bobbio, o juízo negativo dado a homossexualidade tem origem histórica e é produto da mentalidade de grupos formados também historicamente e que precisam evoluir. No regime democrático as pessoas podem expressar suas opiniões livremente e ao se chocarem no campo das idéias, elas se depuram, naturalmente. Mas ao Estado, não creio caber meter-se nas relações privadas entre pais e filhos. Não cabe abordar levianamente assuntos sérios que merecem trato diário.

Não se educa um jovem livre de preconceitos na leitura apressada de uma cartilha tampouco numa sessão de cinema improvisada na sala de aula. É preciso muito mais que isso para educar um cidadão pleno, que respeita, que aceita e que convive com todos sem indiferença, sem repulsa. Ser hétero ou homo não deve ser um fator determinante para que nos afastemos ou nos relacionemos com alguém.
O Ministério da Educação está vivendo momentos de lapsos e políticas desencontradas com o anseio da comunidade escolar em geral. Primeiro, indo contra todas as teorias da lingüística, defendendo a ideia de que não existe mais o certo e o errado na língua portuguesa. Enfim, a disseminação da valorização da ignorância,

Agora preocupado com o resultado de uma pesquisa feita na rede pública do país, que detectou que há cerca de 6 mil escolas que são ambientes hostis para homossexuais, onde ocorrem casos sistemáticos de homofobia. O MEC lança e depois recolhe uma cartilha e vídeos do projeto “Escola sem Homofobia”, que seriam distribuídos para professores e alunos do ensino médio ainda este ano. Segundo o Ministro Haddad, o governo investiu R$ 1,8 milhão para a produção do material e formação dos professores no tema.

Assisti a um dos vídeos e desconheço a íntegra do conteúdo programático do kit, mas estudando Sociologia da Educação, tenho aprendido que a demanda da educação é outra e que passa longe desses rumores sobre prevenção ou estímulo a homossexualidade. O MEC poderia propor as instituições de ensino uma matéria sobre a sexualidade, para o jovem conhecer melhor a si mesmo, mas direcionar o foco para a questão macro da violação dos direitos humanos nas escolas, na questão da violência, do bullying, infra-estrutura precária e professores mal remunerados.

No site do MEC há um atalho chamado “ Dia a dia do seu filho” ensina os pais a verificarem como anda o atendimento a educação do filho. Destila uma centena de orientações básicas e muito simples, que se observadas e cumpridas nas escolas já promoveriam uma acentuada melhoria na qualidade do ensino.
Deveria ser uma aspiração do homem viver numa sociedade de diferentes que respeita a individualidade das pessoas, considerando que cada ser humano é um conjunto de substantivos e adjetivos, sem que nenhum deles o defina completamente.

Processo Político

Estive muito envolvida no processo eleitoral e hoje reconheço que satisfaz-me o sabor inigualável da vitória.
Meses a fio planejando, contando os votos, divulgando idéias e projetos, acreditando na possibilidade de vencer. O desgaste ao qual me submetí foi imenso, a insegurança de contar com promessas veladas, com acordos aparentemente sem sustentação política e aliados desconfiados. Mas as dificuldades foram vencidas uma a uma, com seriedade e determinação.
Convenço-me agora que a vitória acontece, sobretudo quando nos expomos, quando superamos nossas fraquezas, preconceitos e quando vencemos as velhas práticas e conceitos.
A vitória vem quando vencemos um desafio após o outro, dia após dia.

Questões políticas

Decididamente preferiria estar desvinculada das questões administrativas e inteiramente dedicada às questões políticas.
Escolhi esse caminho e gostaria de trilha-lo com independência e convicção.
Incomoda-me a turbulência dos que não se satisfazem com seus afazeres e desfilam pelos corredores repetindo as máximas da sabedoria popular.
É preciso estudar, entender a efervescência singular da transição política, ter paciência com a lentidão dos trâmites. Afinal, sob mês de janeiro, recai o cansaço do ano que findou, a expectativa de novas realizações e sobretudo, o desejo, quase unanime de se promover mudanças.
Os afoitos erram o alvo.

Cultura de Paz e Diversidade Cultural

Uma proposta aparentemente sem vantagens. Fazer parte de uma rede de voluntários comprometidos com a formação de cidadãos plenos, dotados de aprendizado intercultural obtido através da troca de ideias e experiências entre indivíduos, num programa que atua preferencialmente com jovens de 53 países, que tem status consultivo no Conselho Econômico e Social da Organização das Nações Unidas. Fomos família hospedeira por 06 anos e tornei-me conselheira e orientadora do programa em Cuiabá. A cidade esteve movimentada, impregnada pela cultura de mais de 50 jovens, de 12 países da Europa, América, Ásia, África e Oceania.

Abri primeiro meu coração para acolher, entender e apoiar esses jovens ávidos para descobrir um mundo novo, romper com seus limites e aventurar-se numa terra distante, envolvidos também pela possibilidade de ser um cidadão global, promotor da paz e do entendimento num mundo já consolidado pela injustiça, desigualdade e pela intolerância. Abrimos em seguida as portas da nossa casa, uma cama a mais nos quartos e aprendemos a compartilhar tudo… a linguagem, a comida, o espaço, o amor. Incorporamos ao nosso dia-a-dia uma nova língua, novos hábitos e exercitamos a tolerância e a compreensão diante dos choques culturais.

O projeto, em princípio lúdico, falava do desenvolvimento de uma cultura de paz, aquela crença romântica de que nos conhecendo nos amamos e afastamos os perigos da guerra. Conhecendo-nos resgatamos nossos valores essenciais, como o respeito pela liberdade sem distinção de raça, sexo, língua, religião ou status social. Propomo-nos a ser um efetivo canal para o desenvolvimento integral daqueles seres humanos. Abrimos espaço para permitir o contato com outras culturas e dessas relações extrairíamos a interculturalidade.

Na prática iniciamos no ano de 1990, no mesmo ano que o Presidente Sul Africano Frederik Klerk põe fim ao apartheid, regime de segregação racial estabelecido no País desde 1948. Com o propósito de interagir com pessoas de países com os quais não detínhamos muito conhecimento, no ano de 1994, hospedamos uma jovem sul-africana. Nesse mesmo ano Nelson Mandela seria eleito Presidente, após passar 28 anos na prisão. Com essa jovem aprendemos que a primeira prisão de Nelson Mandela aconteceu em 1960, dois anos depois foi preso novamente, condenado a cinco anos de prisão, mas em 1963 veio a condenação de prisão perpétua e seu martírio nos anos que ficou na temida prisão de Robben Island.

Com Nelson Mandela preso, as manifestações contra o regime ganharam corpo e um novo líder, Steve Biko, um jovem estudante de medicina que engajou-se na luta contra a segregação racial e liderou vários movimentos no final da década de 60, tentando fazer o jovem negro sair da condição de expectador num jogo onde ele deveria ser o principal jogador. Steve Biko provocou os jovens negros das escolas de segundo grau e universitárias e acabou tornando-se a mais espetacular liderança jovem no meio estudantil.

Lançou as sementes do movimento “Black Consciousness” (consciência negra) e se tornou uma liderança política dentro e fora dos campus universitários. Desenvolveu programas comunitários para atendimentos aos negros, como clínica e creches. Perseguido pelo regime racista, foi expulso da universidade e, mais tarde, da própria cidade. Biko nunca se curvou ao medo e seu indescritível orgulho de ser negro era também um instrumento importante na luta contra a segregação racial. Apesar das restrições impostas pelo regime, Biko descumpria as ordens judiciais e se movimentava mobilizando os jovens. Em 1977 foi preso, torturado e morreu a caminho de Pretória, num momento em que era transferido pelos guardas. Havia sido severamente espancado e agonizava com a hemorragia cerebral. Essa historia contada no livro “Cry Freedom – Um grito de Liberdade” originou o filme com o mesmo título.

Trechos dessa historia foi também narrada pelo próprio Nelson Mandela em seu belíssimo livro “Long Walk to Freedom” (Longo caminho para a Liberdade). Após conhecer essa história, a permanência dessa jovem na nossa casa era algo que nos emocionava e nos orgulhava muito, sobretudo porque eu havia viajado algumas vezes para receber treinamento sobre essa troca intercultural, sobre as possibilidades de intercambiar esse tipo de conhecimento, rico em detalhes, passionalidade, onde escapa algo que os jornais e os livros não retratam. A África do Sul entrou na nossa vida e continuamos a ouvir a historia da Lianne. Que vivia o paradoxo de sentir-se deslocada dentro do seu próprio País. Negra, mãe branca, pai negro, porém com alto status social por sua formação como médico. Por fim o inevitável aconteceu, apegou-se a nossa cultura, aprendeu nossa língua, voltou para casa um ano depois, aos prantos, enrolada numa enorme bandeira do Brasil.
O vinculo afetivo continuou forte, minha filha inesperadamente fez as malas e foi para Pretória, atrás dessa historia fantástica de construção da cidadania, do projeto de paz que havíamos nos envolvido lá atrás. Andou pelas ruas de Pretória durante o governo de Nelson Mandela, presenciou a desconstrução do terrível sistema de apartheid, contagiou-se com a alegria, com as danças, com as roupas coloridas. Viveu, comeu, dançou como se fosse um deles.

Diálogo com o Estado

Em Benjamin Constant, a liberdade deve prevalescer até mesmo perante a igualdade.
Nada deveria impedir o homem de expressar-se livremente. Constant ditava as regras para uma sociedade que se desenhava com pensamento político e teorias econômicas liberais, sem nenhuma restrição ao lucro, à propriedade, ao desenvolvimento e sobretudo, sem nenhum pudor de viver plenamente livre, sem tiranias e sem o terror das revoluções.
O Estado tirânico, de mãos pesadas e preconceituoso deveria sair de cena para dar lugar ao processo de participação e libertação da apatia política e da alienação.
Constant faz crer que a falta de medo abre as perspectivas de organização e de diálogo e o diálogo permanente e a proximidade do cidadão com o Estado, torna-o comprometido com o bem estar da sua comunidade. A politica e o pensamento liberal de Constant criava um sistema concebido para diminuir o fosso que separava o poder da sociedade de massa. Essa sociedade sairia de um momento de apatia politica para dar contribuição sem alienação
( federalismo ).
A politica e o pensamento liberal em si, segundo Benjamin Constant abriria para a participação efetiva do cidadão nos acontecimentos politicos sem medo da repressão, sem a igualdade, como forma de limitar a liberdade de uns. A liberdade seria concebida para ser vivida por todos, mesmo que em muitos momentos, sob os olhos vigilantes do Estado.