O alimento do ódio, da violência e da vingança

Voltaire, o mais expressivo representante do iluminismo francês, escreveu em O Tratado sobre a Tolerância, 1763: “Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o Judeu? o siamês? – Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?

A ordem está em colapso e está sendo substituída pelo caos. Isto tem acontecido nos últimos dez anos. A pandemia fez parte disso, a invasão russa da Ucrânia faz parte disso, o que está acontecendo agora em Israel e na Palestina faz parte disso. “Se não reconstruirmos a ordem, a situação só piorará. Ela se espalhará por todo o mundo e pode até levar à Terceira Guerra Mundial. E com o tipo de armas e tecnologia atuais disponível, poderia levar à aniquilação da própria humanidade”, disse o escritor, historiador e pensador israelense, Yuval Harari, ao dar entrevista sobre o que considera ter sido o “11 de setembro de Israel”: o ataque terrorista surpresa do grupo palestino Hamas contra o estado de Israel.

Harari, se tornou um dos mais importantes e lidos pensadores dos últimos anos. Já vendeu mais de 45 milhões de livros em todo o mundo, manifestou-se veementemente contra o ataque terrorista do grupo palestino Hamas, sem, no entanto, aliviar Israel de culpa: “Há muito que se criticar sobre a forma como Israel abandonou as tentativas de fazer a paz com os palestinos, e manteve milhões de palestinos sob ocupação durante décadas, mas isso não justifica as atrocidades cometidas pelo Hamas e o mais sensato seria impor sanções e exigir a libertação de reféns e o desarmamento desse braço armado do terrorismo”. Segundo o autor, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é um primeiro-ministro incompetente, que construiu sua carreira dividindo a nação contra si mesma.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pronunciou dizendo que as políticas e ações do Hamas, que controla a Faixa de Gaza, não representam o povo palestino, e que são as políticas, programas e decisões da Organização para a Libertação da Palestina que representam legitimamente o povo palestino. Disse também que o ataque do Hamas deixou a população palestina profundamente vulnerável às retaliações.

As guerras em curso nos dão provas que genocídios estão acontecendo debaixo dos nossos olhos, vidrados na superficialidade das coisas e das ideias. A humanidade, deve despertar para compreender que a violência não pode ser justificada, que todas as vidas merecem igualmente serem protegidas e colocadas no mesmo patamar de importância, o árabe, o judeu, o ucraniano e tantos outros que estão vivendo sob ameaças de bombardeios, de corte de água, luz, comida e sem ajuda humanitária.

O fanatismo religioso, não é obviamente o único componente do ataque terrorista, mas é incômodo saber que o fanatismo religioso opera numa lógica onde o foco está na vida em outro mundo, portanto não importa os danos e sofrimentos que causem aos outros nesse plano terrestre.

No velório de uma criança palestina morta pelo bombardeio de Israel, havia uma faixa: “É com grande orgulho que velamos nossa filha…que foi martirizada em nome da nossa religião”. O Hamas plantou cenas de ódio e de dor terrível nas mentes de milhares de pessoas, que terão, desde então, dificuldade para reiniciar um processo de paz.

O renomado intelectual judeu Noam Chomsky, reconhecido por sua atuação em questões de geopolítica e direitos humanos, fez declarações fortes a respeito da situação atual na Palestina. Criticou as ações de Israel e denunciou que Tel Aviv comanda uma limpeza étnica contra as populações palestinas. “A ousadia das ações israelenses é surpreendente. Fazem o que querem, sabendo que os EUA os apoiam. Não se trata de um esforço para acomodar a população palestina, trata-se simplesmente de livrar-se deles”.

O conflito do oriente médio envolve situações complexas e todos os cidadãos e países acabam sendo, ao mesmo tempo, perpetradores e vítimas. O Papa Francisco disse que o populismo, o terrorismo e o extremismo não ajudam a chegar a uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos, mas alimentam o ódio, a violência e a vingança.

É urgente ouvir o que Krenak tem a dizer

Há dois anos eu escrevi neste espaço sobre Ailton Krenak. Hoje o líder indígena mineiro da etnia crenaque, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas, também professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pela Universidade de Brasília (UnB), é o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito, na última quinta-feira, 5 de outubro, numa disputa onde superou o educador e escritor indígena Daniel Munduruku. A Academia Brasileira de Letras acerta em cheio na escolha de um indígena, visto que a UNESCO proclamou o decênio 2022-2032, como a década Internacional das Línguas indígenas.

Escrevi sobre Krenak quando eu havia acabado de ler o impressionante discurso dele “Ideias para adiar o fim do mundo”, que encantou o Instituto de Ciências Sociais em Lisboa, mais tarde tornou-se um livro, onde ele usa a alegoria poética dos paraquedas coloridos, para propor que sejam construídos com nossa capacidade crítica e criativa, para aproveitar a queda, que é inevitável. Krenak potente e inspirador diz que os paraquedas são projetados de lugares onde são possíveis as visões e os sonhos, lugares que devemos aprender a habitar.

Krenak fala da urgência de agir para transformar o mundo que agoniza e diante da certeza de que estamos em queda como civilização, ele diz que devemos aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. Diante da certeza de que a Terra não suporta nossas demandas, ele propõe uma virada de perspectiva para salvarmos não apenas as populações originárias que agonizam, mas todos nós que estamos debaixo do abraço generoso da Terra. O líder indígena encarece que devemos lutar para adiar o fim do mundo porque não aprendemos sequer a lutar por uma sobrevivência digna, com respeito à luta dos outros, precisamos de tempo para aprender estabelecer uma relação amorosa com os que nos são iguais, com todos e com a natureza.

Entre uma metáfora e outra em Lisboa ele falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que experimentam prazeres simples, cantam, dançam, fazem chover e sem querer, viram alvo da intolerância daqueles que não toleram a fluidez e leveza. Krenak compartilha poeticamente a ideia de um outro mundo possível, onde nos tornemos uma constelação gigante de pessoas felizes!

O mais novo imortal não saiu de uma cidadezinha no estado de Minas Gerais direto para a Academia Brasileira de Letras. Sua vida seguiu um traçado de importância inestimável para a construção do currículo que apresentou à Academia. Jornalista, desde o início da década 1980, passou a dedicar-se exclusivamente ao movimento indígena. Fundou o Núcleo de Cultura Indígena, teve papel fundamental e intransigente à época da Assembleia Nacional Constituinte, na defesa dos direitos dos povos indígenas, até conseguir incluir suas demandas na Constituição Federal.

Ativo, participou das grandes movimentações dos Povos Indígenas, publicou livros, narrou documentários. Foi assessor do Governo de Minas Gerais para assuntos indígenas, durante as gestões de Aécio Neves e Antônio Anastasia. Palestrante em seminários nacionais e internacionais, acabou sendo a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP de 2019. Leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora, as disciplinas “Cultura e História dos Povos Indígenas” e “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais”, em cursos de especialização.

Articulado e versátil, foi um dos protagonistas da série Guerras do Brasil, na Netflix, que relata com detalhes a formação do Brasil ao longo de séculos de conflito armado, começando com os primeiros conquistadores até a violência na atualidade. Com vários livros publicados, traduzidos para mais de treze países, conquistou o Prêmio de Intelectual do Ano concedido pela União Brasileira dos Escritores, em 2020.

Atualmente vive na Reserva Indígena Krenak, no município de Resplendor, no estado de Minas Gerais.

Tem linha de crédito com recorte de gênero,sim

Grandes cerimônias marcaram a visita dos titulares dos ministérios da Agricultura e Pecuária (MAPA), Carlos Fávaro; do Desenvolvimento Agrário e Agricultura Familiar (MDA), Paulo Teixeira; e do Desenvolvimento Social e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), Wellington Dias; vários presidentes de órgãos federais (Incra, Conab, Banco do Brasil, Sudeco), ao estado de Mato Grosso para entrega de ações do governo, assinaturas de inúmeros convênios com Governo do Estado, prefeitos, cooperativas e outras entidades.

O povo lotou o plenário e galeria do Parlamento, recepcionou as autoridades, ávidos para terem suas comunidades urbanas, rurais, tradicionais, quilombolas e indígenas contempladas nos anúncios e assinaturas para o fortalecimento da infraestrutura e da agricultura familiar, combate à fome e entrega de títulos de regularização de áreas.  

Junto ao anúncio de obras físicas, o governo federal entrou em Mato Grosso com um grande time para efetivamente colocar esforço para reduzir a situação de pobreza de milhares de brasileiros. Nesse sentido, o Programa Brasil Sem Fome, um plano que integra e articula políticas públicas de vários ministérios e programas sociais com o objetivo de combater a fome no brasil; em termos reais trabalha a erradicação da situação de insegurança alimentar grave detectada em todo o território nacional.

A cidade de Cuiabá assinou, entre outros, o convênio com o Programa Prato Cheio Cuiabá, que vai garantir a distribuição de 26 mil refeições mensais ao preço de R$ 2 à população em situação de vulnerabilidade, através da doação de alimentos adquiridos de pequenos agricultores. A Rede de Supermercados Comper assinou convênio garantindo a contratação de funcionários provindos do Cadastro Único, fazendo com que muitas pessoas de Cuiabá façam a troca do cartão do Bolsa Família, pelo crachá de funcionário do grupo.

Com o objetivo de fortalecer a participação feminina na economia foi lançado em agosto o programa FCO Mulheres Empreendedoras, uma linha de crédito com recorte de gênero, sim, que tem o objetivo de fortalecer a participação feminina na economia do Centro-Oeste por meio de condições diferenciadas de financiamento, disponibilizando recurso para o início de pequenos empreendimentos liderados por mulheres, com juros e prazo de carência bem acessíveis. Esse programa está vinculado aos discursos de inclusão da mulher nos espaços onde há geração de renda e aproveitamento das ideias extraordinárias adormecidas por falta de fonte de investimento. Não é só uma questão de a mulher ter renda, mas dar oportunidade para que outras mulheres, por meio dos empregos, tenham renda também.

Desde o lançamento do novo programa de aceleração do crescimento, o povo mato-grossense vive a expectativa de receber mais de 60 bilhões anunciados em obras estruturais, para melhorar a vida da população.  No anúncio foi citado o destravamento das pendências judiciais que envolvem o contorno de terras indígenas na BR-158 e impedem sua conclusão; a construção da BR 242 e retomada imediata da construção de moradias do Programa minha casa, minha vida.

A caravana vem, além de reforçar os compromissos firmados, trazer boas notícias e fazer uma prestação de contas dos nove meses do governo do presidente Lula.

Percebe-se que a maioria dos termos de cooperação estabelecidos é com vistas a promover a inclusão socioeconômica de pessoas inscritas no cadastro único dos programas sociais do governo federal (cadúnico), por meio de ações de apoio à qualificação e colocação no mercado do trabalho formal.

Saúde e alegria promovem-se uma à outra

Saúde não é tudo, mas sem saúde a vida é nada, teria previsto Arthur Schopenhauer. Portanto, a saúde é, na verdade, o bem mais importante de uma pessoa e a base do nosso bem-estar.  Saúde não é apenas ausência de doença ou enfermidade, é antes, a presença de bem-estar físico, mental e social. Devo estar mais atenta ou medrosa. O fato é que nunca percebi tantas pessoas doentes e com doenças graves, no ambiente de trabalho, entre amigos, familiares, indivíduos simples e figuras proeminentes.

Sabemos que nem todos os sistemas imunológicos são iguais. Algumas pessoas parecem ficar doentes com muito mais frequência do que outras. Poderíamos facilmente concluir que estes indivíduos podem estar expostos com mais frequência a suscetibilidade das doenças. Cada pessoa adoece também por razões diferentes, além da carga genética, há sobrecarga de trabalho, responsabilidade além do suportável, associação aos problemas da modernidade, doenças causadas pela tensão mental, pelo estilo de vida e todos os tipos de pensamentos negativos, ciúme, medo, tristeza, vergonha, arrependimento, culpa, ganância, ódio, egoísmo.

Há certos parâmetros que explicam o que realmente faz as pessoas saudáveis e o que as predispõem às doenças, assim como porque alguns experimentam curas de doenças em estágio considerados avançados e outros permanecem doentes mesmo quando recebem os melhores cuidados médicos. Estamos tão confortavelmente acostumados a entregar a solução dos problemas aos médicos, que fazem o coração voltar a bater, fazem cicatrizar as feridas, extirpam os tumores, mas não conseguem preencher o vazio da alma que não encontra fonte inspiradora para viver contente. A saúde e a alegria promovem-se uma à outra.

Devemos incorporar a alma no processo de prevenção e cura senão não suportamos o fardo do stress, das cobranças financeiras, das respostas certas, decisões irretocáveis e tudo isso talvez regado a estimulantes, calmantes, bebidas, cigarros, em jantares e discussões intermináveis. Estamos procurando cura para o que nos pesa os ombros? Estamos lidando com o desconforto  promovendo mudanças em nossas vidas?

O processo de cura deve ser algo que vai além da externalidade da doença. É preciso curar o que provoca a doença, senão ela, sorrateira, espreita e se instala repetidamente. Com a alma curada, o corpo segue a frequência, afugenta os desequilíbrios. Para aumentar a força do sistema imunológico e reduzir a susceptibilidade as doenças, podemos adotar uma dieta saudável e equilibrada, escolher não fumar, manter o peso, estabelecer um modo de vida positivo e inspirador. 

Entre as doenças mais comuns no Brasil, estão: diabetes, depressão, Alzheimer, câncer e hipertensão. Essas e outras doenças crônicas constituem um dos grandes problemas de saúde no Brasil, onde 50% das pessoas com mais de 18 anos possuem um diagnóstico de, pelo menos, uma doença crônica.

O câncer é o principal problema de saúde pública no mundo, figurando como uma das principais causas de morte e, como consequência, uma das principais barreiras para o aumento da expectativa de vida. No Brasil, a estimativa do IBGE para o triênio de 2023 a 2025 aponta que ocorrerão 704 mil casos novos de câncer e até 2030, 12 milhões de pessoas no mundo, terão morrido em decorrência dos vários tipos da doença.

A responsabilização da mulher pela violência contra ela mesma

Apesar dos esforços significativos feitos pelos governos, os assassinatos de mulheres relacionados a gênero permanecem em níveis inaceitáveis na sociedade brasileira. Muitas vezes, esses assassinatos são o culminar de episódios repetidos de violência de gênero, o que significa que poderiam ser evitados por meio de denúncias e intervenções de familiares, vizinhos e amigos. Outras questões, como a dominação masculina explícita, quando a mulher se recusa a beber mais, recusa sexo, decreta o fim do relacionamento estão nas cenas dos crimes excessivamente violentos, indicando sadismo e misoginia.  

Desde 1827 um pequeno livro chamado “As confissões de um feminicídio não executado”, de autoria de William MacNish, que narrou sobre como seduziu, engravidou, abandonou e assassinou uma jovem, que a palavra feminicídio tem sido usada. A palavra, a princípio era entendida como todos os assassinatos de mulheres, independentemente do motivo ou do status do assassino.

Diante do aumento dos casos, ganhou amplitude e a definição foi adaptada para o assassinato de mulheres por homens pelo fato de serem mulheres. Hoje, destaca-se o feminicídio no contexto das relações desiguais de gênero e da noção de poder e domínio masculino sobre as mulheres, “o assassinato de mulheres por homens motivados por ódio, desprezo, prazer ou um sentimento de propriedade das mulheres”, ou seja, sexismo.

No livro citado, escrito em 1827 fala pela primeira vez em feminicídio e culpa recai sobre a mulher. O recente caso de violência estarrecedora contra uma mulher ocorrido em Cuiabá essa semana, mostrou que pouco mudou a prática de culpar a vítima por sua própria morte. A desequilibrada interpretação social do comportamento livre, das roupas femininas como provocativos surge da objetificação dos corpos femininos e esse argumento, além de reforçar uma concepção objetificada das mulheres, aumenta a vulnerabilidade delas à agressão e as colocam responsáveis diretamente por seus próprios ataques e mortes.

Quando o comportamento de uma mulher é descrito como livre, ela é igualmente reduzida a um objeto sexual despersonalizado, um corpo onde só existe as partes sexuais.  Além disso, um desejo específico é atribuído a ela, o desejo de atenção sexual dos homens. Essa atribuição não é uma forma de respeito à autonomia da mulher.

Ao contrário, nega sua autonomia ao ignorar a credibilidade pessoal, profissional, atributos pessoais interiores. A responsabilização da mulher pela violência contra ela mesma é como uma desculpa moral, que sugere que um homem excitado não consegue se controlar, que um homem abandonado não consegue reconstruir a vida.

Para desafiar essas crenças e os danos que elas causam, devemos rejeitar a linguagem que transfere a responsabilidade pela violência masculina para as mulheres, não importam as circunstâncias. Sorte tem os homens que não são obrigados a monitorar seu comportamento e roupas para evitar “provocar” as mulheres porque o desejo sexual feminino não é um elemento potencialmente perigoso com o qual os homens devem negociar para se protegerem de ataques violentos e assédios sexuais.

No Senado Federal tramita um projeto de lei apresentado pelo senador Fabiano Contarato para tentar estancar a prática machista de culpar a mulher vítima pela violência sofrida, que, além propor alteração na legislação penal estabelece regras adicionais nos casos de inquirição de vítimas e testemunhas de crimes contra a dignidade sexual, a fim de obrigar os agentes públicos a não atuarem ou permitirem a revitimização da ofendida, normalmente exposta com desprezo nas peças processuais ao terem fotos e fatos íntimos citados pelos advogados dos acusados, sem repreensão de juízes e promotores. (Agência Senado)  

Ostentar não faz parte do estilo de vida dos bilionários

Ostentação é comprar aquilo que você não quer, para mostrar pra quem você não gosta com o dinheiro que você não tem”. Esse aforismo cuja autoria desconheço vem de encontro com a ideia do filósofo e economista americano Thorstein Veblen, sobre o impulso que move o consumo exibicionista no livro `A Teoria da Classe Ociosa`, publicado em 1899. Por classe ociosa, entende-se pessoas que não trabalhavam, porém, sustentavam e ostentavam alto padrão de vida através da riqueza acumulada pela família.

Veblen critica o jogo, a religião, a moda e até a escolha dos animais domésticos baseadas no status vigente. Identifiquei a questão dos animais domésticos no condomínio onde moro. A raça, a roupa dos cachorrinhos são inegavelmente exibidas como símbolo de status. O autor destaca ainda, a importância econômica dos hábitos nos diferentes grupos, ressalta o peso que a história, a sociedade e as instituições têm na difusão dos comportamentos de consumo que exalta a ostentação. A crítica recai no exibicionismo e não no uso do luxo, o autor justifica que pela sua natureza, o desejo de riqueza não se extingue em indivíduo algum.

O sentido de ostentação desempenhado pela vestimenta não é conveniente nem inconveniente, todavia a realização das semanas da moda nas mais cosmopolitas cidades do mundo, como Milão, Paris, Nova Iorque e Londres semanas atrás trouxe uma observação interessante. O show, a ostentação não são prestigiados pelos homens ou mulheres considerados mais ricos do mundo e seus familiares. A moda ostentação atrai celebridades multimilionárias e influencers ou, alguém viu Warren Buffet, Jeff Bezos, Bill Gates, Jorge Paulo Lemann e seus familiares disputando a primeira fila dos desfiles?

Simultaneamente e talvez não propositadamente o jornal The New York Times publicou uma matéria interessante sobre a forma discreta de viver adotada pelos americanos realmente ricos, trocando a ostentação pelo luxo silencioso. A matéria cita além dos nomes que citei acima, Elon Musk, Mark Zuckerberg, como bilionários, cujos estilos de vida passam longe da ostentação. Warren Buffet, vive na mesma casa desde a década de 1950, Jeff Bezos mora numa casa pré-fabricada, de baixo valor de mercado, Zuckerberg e Elon Musk já são conhecidos por seus estilos despojados.

Há, segundo a matéria, uma tendência por quem é verdadeiramente bilionário de até se consumir o luxo, mas em silêncio, nada deve ser notado. Destoou feio dessa tendência de discrição, a atriz americana Jennifer Lopez que também esteve nos noticiários dias atrás, saindo da academia ostentando uma bolsa, considerada a mais cara do mundo, uma Birkin, da Hermès, que custa algo em torno de 2 milhões de reais. Então, percebe a diferença entre os verdadeiramente ricos e celebridades que ostentam?  

A ostentação de riqueza não é apenas desaprovada nos níveis mais altos de riqueza, é também evitada, diz Stellene Volandes, editora-chefe da mais antiga revista que retrata a vida luxuosa dos ricos que querem se distanciar dos holofotes e dos posts ostentação. A discrição é um valor-chave, é um código, onde você pode demonstrar status sem parecer que está demonstrando, ensina.

Autora de vários livros, criticando o exibicionismo e não o luxo, Volandes diz que sempre haverá aquelas pessoas que se cobrem com símbolos de status, como diamantes e bolsas com logomarca aparecendo.

Nossa maior fonte de preocupação

Os brasileiros se preocupam mais com pobreza e desigualdade social, crime e violência e corrupção do que com inflação, mudanças climáticas, conflito militar entre nações. Essa é a conclusão de uma pesquisa global realizada em 29 países entre fevereiro e março deste ano pela Ipsos, empresa de pesquisa e inteligência de mercado fundada na França há quase 50 anos. A pobreza e a desigualdade social formam o tema apontado como mais problemático para 41 % dos brasileiros entrevistados. Além do Brasil, Bélgica, Holanda e Japão consideram a pobreza e desigualdade como sua maior fonte de preocupação.

A percepção do problema da pobreza e suas inaceitáveis nuances faz sentido, sobretudo numa semana em que o Ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), provocado por partidos políticos, expôs uma das preocupações e dificuldades mais urgentes; como lidar com a população em situação de rua, vítima frequente de violação maciça de direitos humanos. O Ministro determinou que em 120 dias o governo federal deve apresentar um diagnóstico atual da população, com identificação do perfil, procedência e suas necessidades, além de um plano de monitoramento e ação, com medidas que respeite as especificidades dos diferentes grupos familiares.

A população em situação de rua é vítima visível do combo desigualdade social, pobreza, desemprego, abandono e violência. O Ministro também determinou que estados e municípios proíbam remoção compulsória das pessoas em situação de rua e os mantenham, juntamente com seus pertences e animais de estimação nos abrigos institucionais.

Ao todo, nos 29 países pesquisados a preocupação relativa à pobreza e desigualdade social chega a 34%. Os analistas da pesquisa destacam uma diferença entre as preocupações dos países de renda baixa, média e alta. Entre os países mais pobres, a corrupção, o desemprego, a pobreza extrema estão entre os mais discutidos internamente. Essas preocupações aparecem nos países de renda média, em menor grau, porque já articulam outras discussões. Já nos países ricos, a maior preocupação é com o estado da economia mundial, o aquecimento global e a guerras.

No Brasil, enquanto permanecermos andando em círculos, acumulando indignidades e equívocos para erradicar a pobreza em todas as suas dimensões não teremos tempo, ânimo ou argumentos para adentrarmos outros discussões, como por exemplo, mudanças climáticas. Irônico, mas desde a Constituição de 1934, a noção de dignidade humana já estava incorporada no ordenamento jurídico brasileiro. Continua no papel, bem cortado no Art.6º da Constituição Federal: “São direitos sociais a educação, a saúde, a alimentação, o trabalho, a moradia, o transporte, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição. (Redação dada pela Emenda Constitucional nº 90, de 2015).

Na Declaração Universal dos Direitos Humanos das Nações Unidas, lê-se no artigo 25: “Todo ser humano tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e à sua família saúde, bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e os serviços sociais indispensáveis e direito à segurança em caso de desemprego, doença invalidez, viuvez, velhice ou outros casos de perda dos meios de subsistência em circunstâncias fora de seu controle”. 

Tudo seco, apenas no papel.

Vivemos em uma era de migração em massa

ORelatório de Migração Mundial de 2022 das Nações Unidas, registra que havia 281 milhões de migrantes internacionais em 2020, o equivalente a 3,6% da população global, dos quais, 1,3 milhões residem no Brasil. O indivíduo que migra, coloca também no contexto da migração a sua autonomia para produzir sua própria história num determinado lugar, que não o seu nacional. Mal compreendidos e nem sempre aceitos, em muitos países os migrantes são frequentemente acusados pelo aumento da criminalidade, queda dos salários, falta de emprego e até da ruptura social e cultural.

18 de junho é o Dia Nacional do Migrante. Migrante é toda pessoa que se transfere do seu lugar habitual para outro lugar, região ou país. 

Sempre articulei a migração como um processo de expressão de liberdade, liberação do sofrimento, início da fuga, alimentação da esperança. É importante observar que a migração quando se dá em deslocamento forçado, em virtude de fuga de guerra, de devastação por terremotos, envolve uma decisão tomada olhando para a terra destruída, para os perigos eminentes que a situação determina, para o sofrimento decorrente do rompimento com a família, com as tradições, de um momento para outro. Além disso, trata-se de um tipo de migração que não favorece o retorno no curto prazo, e nesse ínterim se o migrante pensa, sente ou é acometido por um sentimento de saudade insuportável, pelo desejo de voltar, ele entra num momento nostálgico de reflexão: Voltar para onde?

Muitas famílias são abatidas pela tragédia dos relacionamentos que se perdem na distância e no tempo, por isso é muito importante a portaria que foi publicada em abril passado pelo governo brasileiro, sobre a concessão de autorização de residência prévia e a respectiva concessão de visto temporário para fins de reunião familiar para nacionais haitianos com vínculos familiares no Brasil.

A maioria dos migrantes fogem da miséria que lhes é familiar para se aventurarem no mundo desconhecido, onde se lançam numa travessia cujo fim desconhecem.

A falta de humanidade tem gerado notícias absolutamente devastadoras sobre a travessia de muitos migrantes. Dias atrás, na costa da Grécia, o naufrágio de barco pesqueiro lotado de migrantes, deixou cerca de 80 mortos e 500 pessoas ainda estão desaparecidas. Foi relatado que mulheres e crianças eram a maioria dos passageiros do barco. Sempre, após uma tragédia os altos comissários da ONU se reúnem em condolências, ressaltam a necessidade de punir severamente os traficantes de seres humanos e pedem aos países que abram rotas seguras de migração. No entanto, nada muda!

Os atritos provocados pela migração não são problemas novos; eles estão profundamente enraizados na história humana e me atualizando sobre os números da migração, deparei-me com um relatório, que mostra que indivíduos muito ricos também migram. Cerca de 1,2 mil brasileiros, com patrimônio avaliado em mais de US$ 1 milhão, vão migrar para outros países ainda em 2023.

Para onde vão os milionários?

Austrália é o paraíso escolhido pela maioria dos afortunados. Deve receber mais de 5,2 mil novos ricos, do mundo, em seu território.

Reparação

Há 4 dias morreu o sociólogo francês Alain Touraine e seu livro “Podemos Viver Juntos?” transversalmente resvala ao tema da reparação às injustiças, ao tempo em que deixa lições inesquecíveis, rejeitando a ideia romântica de que agora vivemos juntos como iguais, compartilhando os mesmos valores sociais e culturais. Touraine afirma que, na verdade, nossas diferenças estão cada dia mais intensificadas. Estamos, segundo o sociólogo, “vivendo o desaparecimento de todas as linguagens, discursos e instituições que nos protegiam. Estamos nos tornando pessoas dessocializadas e indiferentes às lutas dos outros e que hoje, vivemos todos, sob o critério do prazer, da utilidade e do interesse. Não nos interessamos por nada que não seja do nosso interesse.”

Toda injustiça deixa como legado a tendência de naturalização do mal praticado e é difícil admitir a falência do pensamento em compreender a desordem atual e criar reflexões a partir das novas conexões que dispomos. É difícil rever o modo como pensamos, o modo como capturamos em conceitos o que já admitimos com nossos sentimentos e atitudes.

A reparação das ofensas e violências forjada na luta dos movimentos sociais, da cobrança sistemática de parte da sociedade, que não adormece diante das injustiças e atrocidades cometidas, não necessariamente precisa ser financeira, mas em investimentos em programas de ação afirmativa no longo prazo, para que se possa mudar a forma de pensar que justificou a escravidão e ainda justifica o racismo, a violência doméstica, abusos sexuais e outras formas de injustiça e agressão, como  os casos recentes de assédio do padre de Primavera do Leste, os casos dos estupros cometidos pelo pastor em São Paulo, que amedrontava os meninos alegando que o diabo pegaria suas almas caso não fizessem sexo com ele.

Há o caso recente de racismo contra o jogador brasileiro Vini Jr na Espanha e há o caso dessa semana, onde uma senhora branca impede a passagem de um jovem negro cadeirante no corredor do ônibus e ao ser interpelada, ela questiona: “Estamos na floresta?”

Não seria necessário perguntar o que ela quis dizer com isso. Ela não quis dizer, ela disse e reproduziu os comentários racistas ouvido pelo jogador dias atrás, sem constrangimento algum, sendo filmada.

No caso da violência doméstica já se aplica práticas reparadoras concretas: “Verifico que a ofendida suportou malefícios causados pela violência sofrida na condição de mulher, transtornos e aborrecimentos que lhe causaram sofrimento, fato que causa lesão à dignidade subjetiva da vítima, configurando danos morais,” diz o trecho de uma decisão judicial favorável à vítima.

Sim, financeiramente é possível cobrar reparação na justiça, embora nem sempre seja possível, de forma justa precificar a dor vivenciada. Mas a crueldade, o preconceito, a violência, o assédio precisam deixar de existir na mente doente dos acusados. O estupro é um ataque e quem o pratica, sobretudo em ambiente religioso, onde o tema é considerado tabu, sabe que raramente será denunciado. Como reparar a mente perturbadora de homens que habitam este vasto mundo onde os controles sociais estão debilitados e a fronteira entre o normal e o patológico, o permitido e o proibido perdem sua nitidez?

A indiferença não é apenas o pecado mas também a punição

“O oposto do amor não é o ódio, é a indiferença. O oposto da arte não é a feiura, é a indiferença. O oposto da fé não é heresia, é indiferença. E o oposto da vida não é a morte, é a indiferença.”  Elie Wiesel, romeno, prêmio Nobel da Paz e escritor.

A maioria das pessoas não se importam com o que você passa e algumas secretamente torcem pelo seu fracasso, pelo seu fim. A indiferença é próxima da apatia, é a sensação de não estar interessado, de não se importar de qualquer maneira, uma tendência do egoísmo moderno. De certa forma, ser indiferente ao sofrimento é o que torna o ser humano, desumano.

Li uma entrevista densa e emocionante do cantor Gilberto Gil, sobre a ameaça de morte da filha Preta Gil, diagnosticada com câncer de intestino. É um drama particular, familiar, uma dor lacerante vivenciada solitariamente por milhares de famílias brasileiras. Pensei: quem, além da família e alguns amigos se importam? Conectei-me ao texto belíssimo do escritor Elie Wiesel, onde ele reflete sobre o perigo da indiferença, ‘considerando-a tão tentadora quanto sedutora’, porque nos ajuda a desviar o olhar dos que sofrem, dos que são vítimas e assim, não precisamos estar envolvidos na dor e no desespero de outra pessoa. A nossa indiferença reduz o outro, o que sofre, a uma abstração.

Talvez a maior causa da indiferença no mundo de hoje seja a normalização da dor, causada pela doença, pela violência, pela pobreza; temas que são manchetes nas primeiras páginas de nossos jornais todos os dias e nem a todos causa inquietação. Afinal, a indiferença é mais perigosa do que a raiva e o ódio. A raiva às vezes pode ser criativa. Escreve-se um grande poema tomado pela ira, alguém faz algo especial pelo bem de outros porque está indignado e furioso com tanta injustiça. A raiva pode levar a denúncia e ao desarme. A indiferença não provoca resposta. A indiferença não é uma resposta. A indiferença está contida no silêncio.

Devemos lutar contra a normalização da dor de qualquer origem, contra a sedução da indiferença, embora, individualmente não possamos fazer muito, a maioria de nós pode fazer mais para honrar a humanidade dos outros.

Cada um de nós pode desenvolver seu próprio plano de ação contra a própria indiferença. Não somos capazes de reconhecer cada coração que sangra de dor por um familiar que enfrenta a batalha contra o câncer ou outra doença, mas podemos reconhecer e demonstrar empatia por aqueles que moram próximos, por aqueles que trabalham no mesmo ambiente que nós e externar solidariedade e compaixão por todos que nos chamaram à atenção e compartilharam seus dramas, no mínimo, como reconhecimento de suas existências e humanidades.

Elie Wiesel me apavora quando diz: “Mas é isso que devemos fazer: não dormir bem quando as pessoas sofrem em qualquer lugar do mundo, que não consigo alcançar. Não dormir bem quando alguém é perseguido. Não dormir bem quando as pessoas estão com fome. Não dormir bem quando há pessoas doentes e não há ninguém para ajudá-las. Não dormir bem quando alguém em algum lugar precisa de você.”