Há muita pressão extra e desnecessária

Fui criada em uma cultura que me ensinou que o papel mais importante que eu deveria assumir na vida era ser mãe.  Antes dos vinte anos, casei-me e tive dois filhos. Escrever sobre meus triunfos sem mencionar nenhuma das minhas inúmeras dificuldades com a maternidade seria hipocrisia, porque a maternidade é composta de momentos de profunda alegria e profunda insegurança e cansaço. À medida que o Dia das Mães se aproxima, lembro-me da importância de exercermos a compaixão e empatia com todas as mulheres que tentam desesperadamente conciliar suas próprias deficiências com a mãe que idealizaram e que são cobradas a ser.

Falar de maternidade sincera não é falar de atitudes brilhantes, renúncias recheadas de amor. A beleza da maternidade transcende a estética e se manifesta na força, na resiliência e transformação que a mulher experimenta ao tornar-se mãe. A maternidade é um período de profunda mudança, onde a mulher se reinventa e expande a sua capacidade de amar. Enquanto, a frustração, o estresse, a ansiedade, a dúvida e a sobrecarga são reflexos de uma cultura confusa que ainda não descobriu o quanto a saúde e o bem-estar das mães são essenciais para manter a família toda no eixo.

Assisti um vídeo do pediatra brasileiro Daniel Becker, abordando a complexidade da experiência da maternidade, reconhecendo que nem sempre é um período fácil e prazeroso e que é importante apoiar as mães em seus desafios. Ele compartilha mensagens enfatizando a necessidade de termos um olhar e atitude de empatia quando visitamos uma pessoa que acaba de dar à luz. Ele diz: “Visite a mãe e não bebê. Leve uma refeição gostosa, cuide da criança para a mãe descansar um pouco, lave a louça”.

É preciso muito mais do que esforço esporádico para ensinar os filhos sobre justiça, solidariedade, tolerância e amor, é preciso certa maturidade (não necessariamente, idade) para conseguir conciliar mamadeira, choradeira com a carreira. No Brasil, 2,3 milhões de crianças de até 3 anos de idade não frequentam creches por dificuldade de acesso a vagas num contraditório momento em que uma proporção maior lares são chefiados por mães solo, aqueles em que a pessoa de referência é uma mulher com filho.

A maternidade é difícil, é exaustiva. Mas, é a experiência mais gratificante e incrível que uma mulher viverá. Felizmente, cada vez mais, os pais estão desempenhando um papel ativo na criação dos filhos e nas tarefas domésticas, embora no tempo atual ainda vigore, geralmente, o padrão de maternidade sobrecarregada, esperando que as mães entretenham seus filhos, levando-os de uma atividade para outra, trabalhe fora e cuide da casa, fazendo tudo isso em perfeito equilíbrio.

Porém, não existe uma maneira única de ser mãe, e as narrativas sobre a maternidade perfeita perpetuadas pela sociedade, são profundamente prejudiciais e irreais.

Meu marido era pediatra, havia, portanto, muita pressão para que eu me enquadrasse nos propósitos neonatais que a pediatria ainda hoje espera das mães: a expectativa que as mães amamentem por, pelo menos seis meses.

Minha primeira grande divergência. Não me senti confortável amamentando e interrompi o processo nos primeiros dias, apesar de ouvir e acreditar em todas as alegações do benefício que o ato de amor traria para o bebê, mas eu não superei a tempo o estranhamento à cena e não amamentei nenhum dos dois filhos.

Encerrei o assunto sem culpa e sem julgamentos. Decidimos que nossos filhos jamais, por razão nenhuma seriam castigados. Não foram. Podem aí, considerar-me ter sido uma mãe leniente. Tentei ser uma mãe feliz, não perfeita!

Por favor não nos esqueçamos dos pobres

Às 7h35 de 21 de abril de 2025 os sinos das igrejas católicas do mundo todo tocaram 88 vezes para anunciar a morte do líder da Igreja Católica por 12 anos. O Papa Francisco, aos 88 anos, volta para a casa do Pai.

O caixão de madeira com o Papa Francisco foi levado à basílica em procissão acompanhado por cardeais, bispos e padre de todo o mundo, sob o olhar presente de líderes mundiais de pelo menos 50 países e 130 delegações estrangeiras. Os procedimentos para velar e sepultar os Papas estão previstos no livro de ritos fúnebres do Vaticano, ‘Ordo Exsequiarum Romani Pontificis’, o Papa Francisco, porém, expressou em testamento escrito em junho de 2022 o desejo de que sua última viagem terrena fosse simples, sem decoração, túmulo na terra e com a singular inscrição: Franciscus.

Ao longo de seu mandato histórico como o primeiro jesuíta e o primeiro latino a liderar a Igreja Católica, o Papa Francisco dedicou seu tempo na terra a elevar os menos favorecidos, os perdidos no vício, os deixados à margem da vida e os presos pelos horrores das guerras. Foi uma voz transcendente em favor da paz, da dignidade humana e da justiça social. Deixa um legado de fé, compaixão e não somente isso. No Parque Tejo em Portugal, o Papa dirigiu uma mensagem potente de humildade aos jovens, durante a Jornada Mundial da Juventude de 2023: “Sede criativos com gratuidade, dai vida a uma sinfonia num mundo que vive de lucros. Assim, sereis revolucionários. Ide e dai, sem medo! Saia, caminhe com os outros, colora o mundo com os teus passos e pinta de Evangelho as estradas da vida. Levanta-te e vai. Levanta-te da terra, porque somos feitos para o Céu”.

O Papa Francisco também compreendeu a urgência em proteger o planeta e chamou todos à responsabilidade de proteger a nossa casa comum. Escreveu a primeira Encíclica Papal sobre o clima “Laudato Si”, em 2015, considerada uma contribuição importante para a mobilização global que resultou no histórico Acordo de Paris sobre as mudanças climáticas, assinado, por 196 países. Os Estados Unidos saíram do acordo nos dois governos de Donald Trump.

Papa Francisco lia muito. Publicou uma carta dizendo que quando não conseguia encontrar o sossego da sua alma para enfrentar as tempestades, procurava ajuda num bom livro Escreveu a “Carta do Sandro Padre Francisco sobre o papel da literatura na educação” e disse que o crente que deseja entrar em diálogo com a cultura do seu tempo, ou com a vida de pessoas concretas, a literatura torna-se indispensável. Na sua lista de leitura encontrei o francês Marcel Proust, o conterrâneo dele, argentino Jorge Luis Borges, o americano-britânico, T.S.Eliot.

Em um mundo cada vez mais fragmentado, Francisco nos lembrou que pertencemos uns aos outros. Pediu-nos que olhássemos nos olhos do outro e víssemos não um estranho, mas uma pessoa próxima; não uma ameaça, mas um reflexo de nós mesmos. Francisco, com humildade e empatia despojou-se das tradições da propagada vida luxuosa do Vaticano e remodelou o papado com seu estilo inclusivo. Em 2017 ganhou uma Lamborghini Huracán personalizada. Leilou o carro e destinou o valor para os projetos humanitários de reconstrução das áreas afetadas pela guerra no Iraque, o valor contribuiu para custear cirurgias na África. Há pouco, já debilitado doou seus bens pessoais a projetos sociais em prisões italianas. É preciso coragem para não ignorar a dor, para tocar as mãos de quem pede uma moeda e olhar nos olhos de quem ajudamos.

“O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é quando queremos ajudá-la a se levantar”.

O Brasil é o país com maior número de católicos no mundo, são cerca de 182 milhões, 13% da população católica do mundo, segundo divulgação da Secretaria de Estado do Vaticano.  A Confederação Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) divulgou que o Papa Francisco foi compreendido pela Igreja como um pastor humilde e corajoso, que conduziu a Igreja com sabedoria evangélica, compaixão e espírito missionário, enfatizando que a verdadeira grandeza da Igreja está em sua capacidade de encontro com as feridas da humanidade”.

A compaixão de Francisco, a coragem de abordar temas polêmicos e antes evitados pode ter promovido pequena evolução nas tradições católicas, mas seguramente ele iniciou processos de transformações e fez da Igreja um espaço para todos, para quem erra, para quem cai, para quem vive em constante dificuldade. Seu amor foi sentido em todos os cantos.    

Hoje a mulher forte, amanhã a mulher doente

Abraçar as lutas faz parte da nossa jornada humana. Mas se você não diz não, seu corpo dirá. A vidas de pessoas com doenças crônicas são relacionadas ao bloqueio de emoções negativas, onde as pessoas são incapazes de focar suas próprias necessidades emocionais e são movidas por um senso de responsabilidade de atender as necessidades dos outros. Tem dificuldade em dizer não. A ampla gama de doenças vai desde o câncer, artrite reumatoide e esclerose múltipla até distúrbios inflamatórios intestinais, síndrome da fadiga crônica e esclerose lateral amiotrófica, asma, psoríase, enxaquecas, fibromialgia e uma série de outras condições.

Dr. Gabor Maté, médico húngaro, naturalizado canadense, de renome mundial, especialista em traumas e os impactos na saúde física e mental, autor de vários livros, é conhecido por suas descobertas inovadoras, as quais, aborda em seus livros e palestras, conectando os pontos entre saúde, ciência, medicina e doença, avaliando que a enfermidade não decorre apenas de falhas genéticas ou biológicas, mas que as disfunções podem ser causadas pelo estresse endêmico e repressão emocional. Atribuir nossas enfermidades à hereditariedade é simplista, confortável, diz ele. Significa que não precisamos olhar para a vida das pessoas nem examinar a sociedade em que elas vivem.

“Eu nunca fico bravo, em vez disso, eu crio um tumor”, diz um personagem de Woody Allen em um dos filmes do diretor. Dr, Gabor diz que há muito mais verdade científica contida nesse comentário engraçado do que muitos médicos reconheceriam. Apesar de todos os progressos técnicos, a prática médica ocidental tradicional rejeita, segundo ele, ‘militantemente’, o papel das emoções no funcionamento fisiológico do organismo humano. A rejeição da unidade entre mente e corpo é um caso típico de negação.

A chocante realidade das mulheres como absorvedoras de emoções, leva Gabor Maté a investigar o papel das mulheres como amortecedoras emocionais, revelando uma verdade muitas vezes esquecida sobre seu papel social.  Um tópico cercado de estereótipos e conceitos errôneos. Pressões e expectativas sociais pesam muito sobre os ombros das mulheres. Da pressão para ter uma determinada aparência às oportunidades desiguais ou limitadas de carreira, são desafios que muitas vezes passam despercebidos ou não são mencionados.    

As mulheres sempre tiveram o papel de amortecedoras emocionais de suas famílias, porque assumem o estresse de pais, cônjuges e filhos, e se sentem culpadas quando não conseguem protegê-los. Desde os anos 30, quando a mulher entrou efetivamente no mercado de trabalho o papel do estresse não foi compartilhado pelos gêneros e a mulher que trabalha, continua quase sempre  desempenhando solitariamente o mesmo papel em casa.  Então esse é um papel de gênero, não determinado biologicamente, mas ditado por uma certa visão patriarcal da posição das mulheres na sociedade.

Em nossa cultura, tanto homens quanto mulheres podem se ver sob forte pressão para suprimir e trair seu verdadeiro eu para se encaixar, para ser aceito. Mas as mulheres geralmente são as escolhidas para cuidar dos outros, negligenciando suas próprias necessidades emocionais, o que tem causado adoecimento coletivo e as levado a consumirem desproporcionalmente medicamentos antidepressivos para suportar o fardo da consequência complexa de todos os relacionamentos pessoais e sociais que abraça.

VIVER DIARIAMENTE COM O RISCO DA REPROVAÇÃO

Aaceitação de mim, das partes não curadas da minha alma, da impossibilidade de ser forte por muito tempo é uma perspectiva que abro para viver o próximo ano, com meus pontos defeituosos, minhas opiniões, minha voz. Aprender a tomar tempo, tomar distância, emancipar meu destino para confrontar as fatalidades. O sociólogo Zygmunt Bauman diz que a sociologia é hoje mais necessária do que nunca, que os sociólogos são especialistas em compreender aquilo a que estamos fadados porque conhecem a rede complexa das causas que provocam as fatalidades. E para operar neste mundo, é preciso entender como o mundo opera. 

Percebo que um espectro paira sobre esse tempo da nossa existência: pessoas desgastadas, mortalmente fatigadas, assustadas pela precariedade de seus destinos, abandonadas a seus tormentos mentais e agonias da indecisão, que tem transformado a alegria de viver num medo paralisante do risco e do fracasso. Arthur Schopenhauer, com a crueza habitual, diz que a primeira metade da vida, vive-se uma infatigável aspiração de felicidade, a segunda metade, é dominada pelo sentimento de receio que só o sofrimento e rejeição é real.

É sobre esse incômodo de caber num determinado espaço, de direcionar a vida por onde não olhem de soslaio, esse peso desgastante do medo do desprezo, é sobre a importância que damos ao fato de sermos modernos, de estarmos sempre à frente do tempo, num estado de transgressão, críticas e cobrança constantes. Ao corpo adicionaram padrão, a idade tem padrão, os relacionamentos têm padrão. E a sociologia de Anthony Giddens diz que viver uma vida baseada em impulsos momentâneos, modismos, críticas e cobranças, sem práticas sociais habituais e saudáveis é condenar-se a uma existência sem sentido.

Encaixar é tentar se adaptar a um mundo que não é o seu. Pertencer é habitar o mundo como quem você é de verdade. E você nunca se encaixará onde não pertence. Emagrecer para receber elogios, dizer sim para receber agradecimentos são táticas consistentes de transgressão aos nossos limites. Quando você tenta se encaixar, você deixa padrões aleatórios medirem onde você vai chegar, observando se você é bonita o suficiente, inteligente o suficiente, magra o suficiente ou rica o suficiente. Sair desse ciclo falido de cobranças, não significa que você irá extingui-lo, significa que o medo de fracassar e não caber em espaços almejados não mais controlarão sua vida. Viver no meio de uma multidão de pessoas, com valores e estilos de vida em competição, sem garantia alguma de estarmos seguindo o que é certo, é um preço alto a ser pago com nossa desordem psicológica.

Como socióloga, tenho conseguido diagnosticar e revelar fontes sociais de infelicidade, as causas estruturais dos sofrimentos que se multiplicam nos espaço sociais.  Bauman, porém, alerta que compreensão e diagnósticos sociológicos não é o mesmo que cura, trazer à luz as contradições não significa resolvê-las. Percebe então, que minha preocupação repousa em que suas escolhas sejam verdadeiramente livres do peso das críticas e cobranças?

Estar presente no mundo e a sanidade mental

Eu quero estar presente no mundo, saber o que está acontecendo, mas o teor das notícias e a velocidade com que elas se propagam estão causando a mim e tantos outros, um nível preocupante de descompensação emocional. Afirmo que meu desejo de estar bem-informada está atualmente em desacordo com meu desejo de permanecer sadia.

Tem sido um ano desafiador em termos de notícias ruins, pesadas e difíceis de superar. Em apenas 3 meses, 2023 já mostrou a cara perversa da violência com o ataque às instituições em Brasília em 08 de janeiro, a chacina de Sinop, em fevereiro, a fúria das águas no litoral de São Paulo, que deixou um rastro de destruição e 65 mortos, o ataque a Escola em SP, que matou uma professora e desde então, deixou uma inacreditável marca de 279 ameaças de ataques em escolas paulistas, conforme informação da Polícia Civil e entramos abril com a tragédia na creche em Santa Catarina, que deixou 4 crianças mortas e outras feridas. Não há outro nome senão uma epidemia de notícias devastadoras.

E em um mundo onde as más notícias surgem em alta em 2023, essas são apenas algumas das manchetes mórbidas, com vítimas fatais, que dominaram o noticiário de janeiro até agora. Entretanto, não são apenas as notícias de ataques, desastres naturais com vítimas que chocam, acrescenta-se os casos macabros dos trabalhadores resgatados em situação de escravidão, 85 pessoas somente no Rio Grande do Sul, esse ano, a denúncia, que está sendo apurada pela Polícia Federal, da atuação de grupos neonazistas no sul do país. 

É preciso dosar, equilibrar o tempo lendo notícias com o tempo lendo um bom livro, afinal, gerenciar a energia e o bem-estar não é egoísmo e sim, prevenção a um mal, considerado uma espiral negativa, apelidada de “doomscrolling” – uma tendência de insistir na busca por notícias ruins, tristes e deprimentes, que pode prejudicar a saúde mental. Estudos associaram o consumo de más notícias ao aumento da angústia, ansiedade e depressão, mesmo quando as notícias em questão são relativamente mundanas. Li um artigo do Dr. Graham Davey, professor emérito de psicologia da Universidade de Sussex, UK, com mais de 140 artigos científicos publicados nas revistas e jornais especializados, sobre a exposição a más notícias, que podem fazer com que as preocupações pessoais pareçam maiores e até causar “reações agudas de estresse e alguns sintomas de transtorno de estresse pós-traumático que podem durar muito tempo”. Diz ainda, que “os sentimentos de medo, tristeza e indignação desencadeados por manchetes negativas podem manter as pessoas presas em um padrão de monitoramento frequente”. Um preocupante quase vício.

Não há em mim a necessidade artificial de estar ‘por dentro’ das coisas e não considero a opção de desativar, e sim, equilibrar, o sininho que notifica a chegada das notícias, porque notícias boas chegam também, não com a mesma velocidade, não com a mesma ênfase. Li, que, em 2023, a primeira mulher preta chega no cargo máximo da Marinha Brasileira; apesar do problema de saúde recente, o Papa Francisco visitou na Sexta-Feira Santa uma casa de detenção de menores e lavou os pés de 12 jovens em privação de liberdade; o ator Brad Pitt comprou algumas pequenas casas ao lado da sua mansão, numa delas, morava um idoso, de 90 anos, que havia ficado viúvo. O ator decidiu deixar o vizinho continuar morando de graça até morrer.  O vizinho viveu até os 105 anos.   

 As notícias pinçadas para divulgação, boas ou ruins não têm poder de explicar o mundo, são bolhas estourando na superfície de um mundo mais profundo, portanto, cuidado com a forma como você consome as notícias que recebe.

É possível adiar o fim do mundo

Ideias para adiar o fim do mundo” é o título de uma palestra do fabuloso ativista indígena Ailton Krenak. Claro que esse título é uma provocação mas há muito de uma ideia de apocalipse no ar que respiramos atualmente. E a proposta de Krenak para adiar o fim do mundo é exatamente para que possamos ter tempo de contar ou viver mais uma história. É o tempo que precisamos para aprender lutar pela sobrevivência com respeito, com reconhecimento às lutas dos outros, para ampliarmos nossa cultura e vivermos uma relação amorosa com os nossos iguais, com todos e com a natureza.

Prestar atenção no que ele fala é mais urgente do que nunca!

A ideia central da palestra, que tornou-se um livro, lançado em 2019 é alertar para o que muitos já perceberam, a autodestruição da vida humana nesse lindo planeta azul. As palavras, quando otimista de Krenak falam de um agir urgente sobre um mundo que agoniza e propõe uma virada de perspectiva para iniciarmos, em coletividade, um processo de transformação social, cultural, ambiental para salvarmos não apenas as populações originárias ameaçadas em todo mundo, como a dele próprio. Ele fala sobre todos nós, que somos abraçados por este espaço mágico chamado Terra, mas alerta que não somos os únicos seres que o planeta abraça.

Ele conta sobre um pesquisador europeu que foi aos Estados Unidos visitar um território indígena. Ele havia pedido que alguém da aldeia intermediasse o encontro dele com uma anciã que ele queria entrevistar. Quando foi encontrá-la, a anciã estava imóvel diante de uma rocha. O pesquisador esperou bastante até que finalmente perguntou: “Ela não vai conversar comigo, não?” o interlocutor respondeu: “Vamos esperar, ela está conversando com a irmã dela”. “Mas é uma pedra”, disse o pesquisador e o facilitador da conversa disse: “Qual é o problema, é a irmã dela!

Krenak nos tira a sensação da qual sempre nos gabamos, de sermos os donos do planeta e torce para que o casulo humano imploda  e se abra para uma visão de vida não limitada. Krenak encantou Lisboa com essa fala, proferida no Instituto de Ciências Sociais da Universidade de Lisboa, onde entre uma metáfora e outra falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que ainda experimentam o simples prazer de estarem vivos, cantando, dançando e fazendo chover, gerando, sem querer, grande intolerância na humanidade que ele chama de zumbi, aqueles que não toleram tamanha leveza, felicidade e fruição.

Ao longo do texto ele se mostra convencido que precisamos partir para a construção de uma nova humanidade, porque, do jeito que as desigualdades e injustiças se instalam, vivemos, o que ele chama de uma condenação antecipada do fim do mundo. E uma das ideia para adiar o fim do mundo é, diante da certeza que estamos em queda como civilização, aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. É indispensável que reflitamos sobre o começo, o fim e com sorte, que tenhamos algum tipo de recomeço.

A crise da qual Krenak fala refere-se à nossa humanidade, a nossa experiência como seres humanos.  O mundo está atravessando muitas crises; terremotos, epidemias, a incontida violência contra mulheres e meninas, crise climática, conflitos em larga escala, invasões, massacres e guerras, além da fome que traz em seu bojo crises humanitárias devastadoras.

É muito importante viver a experiência de circular pelo mundo, de poder contar uns com os outros, promover mudanças na forma de vida, sem jamais recorrer a práticas desumanas contra qualquer outro ser. O que Krenak faz em suas palestras é questionar qual o mundo estamos deixando para as futuras gerações e compartilhar a idéia de um outro mundo possível.

Para quem não conhece Ailton Krenak, ele é um líder indígena mineiro, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas. Discursou no Congresso Nacional, durante as discussões sobre os direitos indígenas na Assembleia Constituinte. Palestrante, reconhecido nacional e internacionalmente, foi o grande sucesso da Festa Literária Internacional de Parati – FLIP 2019, quando lançou o livro “Ideias para adiar o fim do mundo”.

Talidade

Os homens, indistintamente  desejam ter uma vida feliz e trabalham muito para conquistar liberdade, viver uma vida justa, o que  significa, no final das contas, viver feliz.

Os antigos gregos pensavam que o bem era a própria felicidade. Aristóteles dizia que o bem do homem, a felicidade, era uma atividade da alma.

A felicidade para Platão era ascender aos céus, igualar-se aos deuses. O homem deveria buscar a harmonia absoluta, ser governado somente pela razão e evitar as interferências das experiências sensíveis.

Na idade média e na era moderna, esse pensamento foi alterado para um significado mais material, onde a felicidade é prazer ou ausência de dor. Outros filósofos fazem distinção entre felicidade e prazer dizendo que felicidade é permanente e universal, enquanto que o prazer é transitório.  Spinoza diz que felicidade não é a recompensa da virtude, mas a virtude em si.

A felicidade de Bauman não é divina e nem diabólica, mas um meio termo quase impossível. Bauman propôs um plano que prevê conscientizar as pessoas de que o crescimento econômico tem limites; convencer os capitalistas a repartir os lucros em função dos benefícios sociais e ambientais e mudar a lógica social dos governos, para que os homens enriqueçam suas existências por outros meios, que não seja só material.

Materialmente, alguém é feliz porque é rico, goza de conforto. Já felicidade mental e espiritual relaciona-se com a amizade, amor, harmonia. Essas condições de felicidade dependem de causas externas, onde a felicidade é vivenciada ao se ter algo ou receber algo de alguém. Dessa maneira, quando a causa da felicidade cessa, a felicidade também desaparece, justamente por estar além de nosso controle.

Mesmo a felicidade que vem do amor, da amizade, simpatia e bondade não é algo que de que se possa depender, pois o amor frequentemente se transforma em outro sentimento, amigos se distanciam…

A vida nos ensina que o melhor é olhar para o centro das coisas ao invés de olhar ao redor, procurar a felicidade em si mesmo e não no mundo exterior e saber lidar com os incontroláveis acontecimentos lançados pelo destino.

Devemos olhar para dentro de nós mesmos a fim de constatar o que cria a felicidade;  encontrar o caminho do amor ao invés do caminho de ser amado. Este é o mundo da Talidade. Ver coisas como elas são. A verdade como ela é, a felicidade em seu natural. Talidade é o mundo livre da artificialidade, onde uma rosa é uma rosa e o homem é o homem.

O homem moderno usa máscaras demais. Devemos tirar as máscaras e sermos nós mesmos, de maneira sincera e honesta e, assim, viver verdadeiramente com as limitações que nos caracteriza, pois, o rumo do que deve ser uma experiência preciosa, nunca erra

A paz e o conflito

A violência é substancial falta de responsabilidade, de consciência. A mão que sai do controle e desconfigura a realidade, promovendo uma ensandecida competição de concepções divergentes. Como evoluir a compreensão mútua entre as pessoas e o respeito pelos valores individuais?

A violência, o colapso, a ordem invertida, a dor…Por que repetem-se essas histórias de dores físicas que deveriam ser censuradas? A violência acovarda, o refúgio é o não importar-se com nada além se si. E o outro? Onde esconde-se o outro?

Se liberar-me da ambição, da dominação, não serei violento e assim como Gandhi estabeleceu-se nas bases da não violência, praticarei a Satyagraha, tornarei fraco o meu oponente através da minha gentileza; e o meu poder emergirá da verdade como atributo do poder intenso de reverter a suprema realidade.

A violência ataca, a não-violência acaricia. O que a violência destrói, a não-violência restabelece como significante. Não que mostres a outra face, mas que reafirme o propósito da tua fé e não te deixes brutalizar pelo que causa-te horror.

O que verte-te em homem é a capacidade de recolher-se, racionalizar e negar o que afasta-te da condição de praticar a virtude da bondade. A paz é um processo igualmente doloroso, por que só é buscada quando corações sangram e a tolerância está sob sério risco.

Os aspectos do amor

Tudo o que fazemos vai afetar a forma como as pessoas vão se lembrar de nós mais tarde. O impacto que criamos sobre as pessoas depende da maneira como agimos ao longo da vida e seremos lembrados baseados nos rastos que deixamos, pela compaixão e amor que demonstramos. A pessoa egoísta, interessada apenas em si mesma, não tem interesse nas necessidades dos outros e julga tudo e todos pela utilidade que tem para si. A esfera mais importante é doar-se. O que faz uma pessoa doar-se a outro?

Isso não significa necessariamente que ela sacrifica a vida pelos outros, mas que ela doa o que é vivo nela; a alegria, interesse, compreensão, conhecimento, humor, tristeza. Enfim todas as expressões e manifestações do que é vivo nela. Além do elemento de doação, o caráter ativo do amor implica outros elementos básicos, comuns a todas as formas de amar. Trata-se de cuidado, responsabilidade, respeito e conhecimento.

Toda forma de amor implica cuidado.  Não é diferente do amor pelos animais ou pelas flores. Se uma mulher diz que ela adora flores, ela nunca se esquecerá de regá-las.. O amor é a preocupação ativa para com a vida. Cuidado e preocupação implica um outro aspecto do amor; o da responsabilidade. A responsabilidade muitas vezes denota dever, algo imposto, mas em seu verdadeiro sentido, é um ato voluntário; é a resposta às necessidades expressas de outro ser humano.

Bondade amorosa

A igualdade na relação amorosa não significa que ambos ganham o mesmo salário, têm o mesmo status. Significa sim, que eles valorizam-se como iguais quando se trata de fazer planos, fazer amor ou tomar decisões. Um não sacrifica a si mesmo para o bem do outro . A igualdade não é baseada em estatísticas. Igualdade é baseada em valores compartilhados.

As coisas que nos rodeiam estão sempre mudando; assim também os nossos pensamentos, a consciência, o relacionamento. Não queira congelar e preservar o momento presente, é preciso lembrar que a vida é um processo de constante perdas e ganhos. Nossa tarefa no caminho amoroso é parar de repetir as mesmas velhas histórias e tomar consciência que cada dia vivido, é uma página que escrevemos da nossa própria história. Cada momento é uma oportunidade para abraçar a novidade e deixar o passado ir-se.

Outro aspecto da bondade amorosa é lembrar que ninguém é considerado livre de imperfeições. Crucial é ser honesto sobre as nossas falhas, aceitarmos nossa humanidade e sermos capazes de pedir desculpas. O pedido de desculpas para outro é uma forma de compaixão para si porque significa aceitação. Este é o cerne da intimidade.