Quando beijares os teus, estás beijando um mortal

Como um bem supremo, tenho aprendido a distinguir o que depende de mim e o que não depende de meu esforço físico, espiritual ou mental. Tenho vivido tão ‘colada’ nesse processo de aceitação, que somente a pouco, aproximando o dia dos finados contabilizei minhas perdas mais profundas; nos últimos sete anos perdi pai, mãe e os dois irmãos mais jovens. Foram perdas que me despiram das certezas, de alguns planos, de afetos e em silêncio percebi que meu mundo encolheu. Escolhi, sem dramas, ajudar a minha alma a se recompor e viver em harmonia com o que é inevitável.

No Manual 3, Epicteto, filósofo grego diz: “Quando beijares os teus, lembra-te que estás beijando um ser mortal: assim, se um dia eles morrerem, não te perturbarás.” Não, não é sobre frieza, é a consciência da impermanência. O que depender de mim, responderei sempre com coragem e determinação, se não depender, procurarei aceitar com serenidade.

Que seja o que deve ser e que eu saiba estar em paz com isso. Se há uma ordem natural do universo ou uma razão divina para que as minhas perdas tenham ocorrido tão amiúde, creio talvez nas duas possibilidades seguindo os ensinamentos de Epicteto, para quem aceitar o destino e superar as perdas são atitudes essenciais para a libertação interior. A razão é o entendimento que meu sofrimento e minhas perdas não são maiores nem menores do que a dos outros e que a finitude a tudo atinge e o que importa não deve ser o que acontece comigo, mas a forma como reajo e supero o que surpreende.

Não somos donos do que nos é dado, apenas guardiões por um tempo imprevisto. Os que partiram antes de nós, não nos foram arrancados, a vida seguiu seu curso, essas pessoas cumpriram seus ciclos conforme uma ordem que não conhecemos. O filósofo dinamarquês Soren Kierkegaard refletiu em todos os seus escritos sobre a dor das perdas e a superação interior diante do sofrimento. Ele não glorifica o sofrimento, mas o entende como um momento em que ficamos diante de nós mesmos e conhecemos a verdade da existência. “A dor não é para nos destruir, mas para nos tornar mais profundos. É a beira do abismo que nossa alma desperta.”

Temos muito a aprender com a dor da perda e com o luto. Se sentires triste ao lembrar teus mortos, lembre-se que os sentimentos que estás vivendo passarão e ainda que vão e voltem, não podem durar para sempre. O texto sagrado do Budismo Tibetano, O Livro dos Mortos do Budismo é um guia espiritual que prepara para a morte, que é lido para orientar o espírito (a consciência) a alcançar a pacificação no instante da morte e escapar dos ciclos de sofrimento ao atravessar as transformações para renascer. ‘Quando o corpo adormece na morte, não há tempo, não há nomes, não há paredes, apenas a luz clara e pura até que a voz sussurra: Não temas. O que vês é o reflexo da tua mente. As imagens surgem, suaves ou terríveis, o reflexo do que você alimentou e carregou em vida: teus medos, teus amores, tuas boas ou más intenções.’

Eleva uma oração para seus mortos porque, ao final, se permanecer a luz, eles se libertarão. Se forem levados pelas sombras, terão que renascer para recomeçar o caminho.

Para quem não leu, não tem afinidade com a doutrina Budista soa estranho ler o livro do morrer para alguém que está morrendo ou que já morreu. A explicação Budista é simples, a consciência da pessoa que está morrendo ou que morreu quando é invocada pelo poder da oração, pode ler a nossa mente e sentir exatamente o que estamos sentindo e receber as práticas feitas em sua intenção.

Viver com alegria e distantes das coisas que nos aprisionam

O nosso conhecimento não vem necessariamente de fora, mas ele já se encontra de certo modo em nós, na nossa alma, ali reminiscente, já nasceu conosco. É uma questão, portanto, de redescobri-lo, reencontrá-lo em nós mesmos. E aí nós vamos achando no interior da nossa alma aquilo que é a verdade das coisas. O filósofo Clóvis de Barros, que é formado em Jornalismo e Direito, mestre em Ciência política e doutor em Ciências da Comunicação, exemplifica essa crença citando o diálogo de Platão, em que Sócrates conversa com um escravo de Menon, um jovem, que consegue responder com inteligência todos os questionamentos do filósofo. O iletrado escravo de Menon, demonstra inclusive por conta própria, o teorema de Pitágoras. Então, nesse sentido, a teoria da reminiscência mostra que tenho inteligência para entender o que se espera de mim e tenho liberdade para viver ou não em direção a esse propósito, porque o que preciso para aprender está dentro de mim.

O filósofo Clóvis de Barros, esteve em Cuiabá há uma semana e num encontro rápido, devido as recomendações de seus médicos para evitar contato próximo com pessoas, devido a sua condição de saúde, (há dois anos foi diagnosticado com ‘Doença de Behçet’, rara e incurável) pude dizer-lhe que sou assinante dos seus canais e recebo diariamente, as 6 horas manhã, suas reflexões matinais e que muitas vezes, a mensagem vem como uma ‘pedrada’ e destrói minha habitual arrogância de pensar que muito sei. Sorrindo, ele me disse: esse é meu objetivo: ‘criar nas pessoas condições psicológicas para enfrentar suas realidades entristecedoras’.

Algo deve ser o ponto de sustentação da vida que queremos eternizar. Não devemos viver somente na superfície, buscando crescimento profissional e dinheiro; sofrer, cair é parte inevitável da existência; aí, a filosofia de Clóvis de Barros vira conselho: “atribua valor a sua existência porque a vida não tem valor em si, quem dá valor é você; arrisque mais, tenha encontros tristes, sofra queda de potência; deixa que a sabedoria respingue em todos os momentos da vida; alinha a sua vida ao que você é; não se torne escravo das circunstâncias, mesmo que o que você é não pague todas as contas”. Enfático finalizou. ‘Eu escolhi ser professor, muitos escolheram ser poderosos senadores. Sou hoje, o professor dos senadores’. Ligeiramente arrogante, potente, sábio e profundo, com o estilo direto que o caracteriza.

Na palestra ele centrou na nossa pequenez, na insignificância que representamos diante do universo todo e ao mesmo tempo na graça que recebemos por fazermos parte do todo, que se deteriora e depois se reorganiza e o pouco que éramos minutos atrás, se reconstitui em outro lugar, em outro corpo, em outro todo. De repente, Clóvis ergueu a voz e se perguntou:

“Eu sou do tamanho de um grão de areia?  Não, menos, respondeu.

Por que tenho valor se sou tão pequeno? Porque você é uma parte do todo”.

Alertou sobre a imprevisibilidade da vida, a finitude, razão pela qual, não devemos fugir da realidade, não devemos ficar aterrorizados pela perda da nossa potência, da nossa significância; devemos entender as adversidades, passar de um estágio de vida para outro com mais alegria e distantes das coisas que nos aprisionam e apequenam. Falou da vocação humana para a alegria, que é nosso estágio mais potente. A alegria deve ser repetida, buscada em todas as coisas porque passar da alegria para o medo e tristeza é a pior equação possível. A tristeza das pessoas tem como causa a alegria que o triste vê no outro e entristecedores de plantão, estão em toda parte tentando nos derrubar.

Ao falar sutilmente sobre sua condição de saúde, ao contrário do senso comum, que fala de resiliência como um sentimento de aceitação diante do fracasso, Clóvis de Barros exibiu a sua resiliência como sinal de resistência e dignidade diante do ato de apanhar e ter forças para seguir em frente, se comprometendo com o que faz sentido e com a mania de colocar a esperança na frente do temor e do medo.

Os complexos rituais da cultura xinguana

No universo Xinguano o velho é dono da história; o homem, dono da aldeia; e a criança, uma entidade intocável, é dona do futuro.
Faço aqui, um breve exercício de retrospectiva das histórias que ouvi e vivenciei nas viagens ao Parque Indígena do Xingu, de onde extraí a mais pura essência do respeito aos povos originários e suas ancestralidades, suas crenças, como o medo dos mamaés, espíritos que vivem no mundo oculto, alguns, malignos, como Anhangu, um espírito exigente e perigoso. A força do sobrenatural que reside na onça branca que vive no fundo do rio, quem a vê adoece e morre e ela não pode ser abatida porque levaria consigo para a profundeza do rio, todos da aldeia. Ainda, a inexplicável força de cura dos Pajés Sapaim e seu irmão Tacumã, homens que tinham profunda intimidade com o mundo espiritual.

 Sua criação foi resultado da luta política, envolvendo os irmãos Villas Bôas, o Marechal Cândido Rondon, Darcy Ribeiro e muitos outros. 11 municípios fazem divisa com o Parque. O indígena continua sendo visto como um ser exótico e o Parque Indígena do Xingu é hoje uma ilha cercada pelo avanço da soja, pecuária, madeireiras e estradas. 

No mês de outubro de 2003, passei quatro dias, sediada no Posto Indígena Leonardo Villas Bôas, entre os Kamaiurá e Yawalapiti, região denominada Alto Xingu. Nos Kamaiurá, distante, cerca de 10 quilômetros, vivem os indígenas de língua Tupi. O grande chefe Aritana Yawalapiti, surge como uma lenda viva, um homem, que reorganizou e manteve seu povo unido após vencer várias invasões e ataques quando habitavam outras terras, sofreram muitas baixas e se mudaram muitas vezes, até se estabelecerem no Parque Indígena do Xingu. Interferia com autoridade pelo povo xinguano, falava cerca de 9 línguas indígenas.

Os símbolos míticos iam surgindo sutilmente. A fabricação dos corpos dos guerreiros, que sofriam escoriações profundas nas costas e braços antes das grandes celebrações, para que o sangue fraco fosse eliminado antes das lutas corporais huka-huka, um espetáculo, com o qual se encerrava o Kuarup; o respeito indescritível aos mortos; a superstição; a confiança no poder de cura dos pajés, a fabricação dos corpos nas relações sexuais continuadas até que o bebê se forme; a reclusão, que marca a evolução de um estágio de vida para outro e garante a privacidade e equilíbrio para viver as transformações; os guardiões da flauta, que percorrem as ocas apresentando as virgens recém-saídas da clausura. As virgens andam graciosamente atrás dos guardiões e se escondem tímidas quando estes param para apresentá-las a algum parente. Esse ritual marca passagem da infância para vida adulta e no final da cerimônia de apresentação, as jovens indígenas estão prontas para casar-se.

O sensível cerimonial dos homens de mãos dadas em círculo para conhecer a criança que nasce na aldeia. E por fim, o ritual do Kuarup (nome de uma madeira), que revive a narrativa religiosa dos índios do Xingu, centrada na figura de Mawutzinin, um ser eterno, comparado a Deus, responsável pela criação dos primeiros seres humanos a partir de troncos de árvores.  O ritual começa com a chegada dos três troncos (Kuarup), e o choro das famílias em frente aos troncos, adornados com algodão e penas.

Em 2013 visitei a terra indígena Capoto-Jarina, onde vive o cacique e pajé Raoni Metuktire, líder Kayapó, revestido de sua autoridade de líder de uma nação indígena reconhecido e respeitado no mundo inteiro, com seu labret no lábio, sua cultura e seus protocolos, a seu tempo e hora. Voltei ao Parque Indígena do Xingu em 2013 e 2014. Aritana faleceu em 05 de agosto de 2020, devido a complicações causadas pela Covid-19.