Nuvem vazia

Ser vazio significa ser vazio de ego, não ter nenhum pensamento de eu, não no sentido de alguém funcionar como um vegetal ou um animal selvagem – coisas vivas que meramente processam água, alimento e luz solar de modo a crescer e reproduzir-se, mas no sentido de que esse alguém cessa de medir os eventos, pessoas, lugares e coisas do ambiente em termos de “eu” e “meu”.

É como estar na névoa da manhã de um dia ensolarado, ou em uma daquelas nuvens que pairam no topo de uma montanha. Uma pessoa pode esticar o braço e tentar agarrar a névoa, mas, não importando o quanto ela tente agarrá-la, sua mão sempre permanecerá vazia. Ainda assim, por mais seco que esteja seu espírito, a Nuvem Vazia o envolverá com a umidade doadora de vida; ou não importa o quanto seu espírito queime com raiva ou desapontamento, um frescor suave o afagará como o gentil orvalho.

Livro Nuvem vazia, os ensinamentos de  Hsü Yun

 

É preciso saber nadar

São tantas as travessias

Mares revoltos

Fronteiras fechadas

Arames farpados

Homens armados.

É preciso saber nadar

Para não morar no fundo do mar!

Barcos precários, ondas gigantes

Medo gritante

No peito  angustia cortante

Mãos que escorregam, corpos escapam

A vida, a morte no mesmo instante.

É preciso saber nadar

Quando nada mais vale o lar.

Milhas de sonhos distantes

Bombas explodem no horizonte

Querem que fiquemos

Inertes e pequenos

A mercê dos homens armados

bravos soldados!

Colheita

Olho para o mundo inacabado,
Planto flores, semeio coragem
O que espero colher?
Nada se não chover!
Espreito a vida sem tédio
Sem cansaço e sem temor.
O que espero colher?
Ramos de amor!

Estranho ser somos todos
Incansáveis, insaciáveis e débeis
O que espero mudar?
A mim, criatura pequenina!
Almas desnuda, vontade imprópria
Poesia, romance e remanso.
Para onde vou?

Sem esforço para agradar

O ser humano é quem controla a máquina, todas. Com um olhar atento, percebo que há um certo comportamento manipulador nos relacionamentos reais e virtuais, um movimento estranho de nos colocar contra a parede para termos respostas prontas, posicionamentos de manada, esboçarmos atitudes recriminatórias, julgamentos.

Quando percebo que estou me esforçando demais para agradar, para ser compreendida, recuo. As conexões devem ser estabelecidas com base no respeito mútuo, no encantamento das trocas, senão, vira isso que acima citei; manipulação.

Não se exerce o poder sem consequencias. Pronunciamentos políticos, massacre de publicidade e muitos cidadãos parecem satisfeitos com o destino dos bombardeios das mensagens e tentam agradar, reproduzindo, compartilhando ideias que não representam seu pensamento verdadeiro.

É estranho, porém acontece de pessoas buscarem certeza e segurança intelectual no mundo de pessoas de conhecimento indiscutível, porquanto existe dificuldade em se manter fiel a própria identidade, devido à ausência de pontos de referência sólidos.

Ser indivíduo significa dispor de uma certa margem de liberdade para concordar e discordar, para criticar e para calar. A concordância intermitente nos torna irrelevantes e depois, não temos a necessidade dessa homogeneidade nacional, num momento em que propício seria, começar a pensar além da nossas próprias causas individuais, tanto na vida pública quanto privada.

Eu sei que você sabe, mas sejamos claros: é absolutamente vital que se estabeleça uma nova ordem de honestidade, de integridade e conversa reta sobre a política e políticos e sobre o futuro do nosso país e sobre isso não precisamos seguir outros, sentimos na pele as consequências da corrupção, da falta de investimentos em saúde, segurança e educação, pelo menos.

Anotações de um curso sobre política feito com Gaudêncio Torquato, anos atrás, relembra-me que a estratégia de bombardear as pessoas com anúncios políticos destinados a evocar insegurança é muito arcaica para servir a uma democracia estável, do século 21.

Vamos partir rumo a uma nova definição de integridade e criar grupos e redes de soluções, onde as pessoas se reúnem não apenas para apontar erros, mas para difundir ideias. Somos uma pequena parte numa solução maior e tenho vivenciado pessoas se reunindo em seminários, conferencias, incentivando redes que já estão se movimentando, promovendo bons debates.

Se por um lado não devemos ser como uma folha, deixando que cada vento mude sua posição; por outro lado, devemos estar abertos a novas provas.

A vida é muito curta para ser pequena

Apesar de ouvirmos sempre que a vida é um teatro, que não permite ensaio, que vem sem manual de instruções, o Ministro do Supremo, Luís Roberto Barroso, que tem sido convidado a ser patrono de turmas de Direito, sobretudo da UERJ, onde ministra aulas há décadas como professor titular, chama os alunos de filhos espirituais, enumera as boas ações que devem praticar segundo um manual para a vida, cuja oralidade busca palavras simples, porém de efeito profundo, para a reflexão dos jovens.

Dá exemplos, cita parábolas bíblicas, trechos de Kant, numa tentativa monumental de dar vigor e esperança para quem está se apresentando para a vida adulta.

Ao ler os discursos não resisti reproduzi-los, com revelada pretensão, à minha maneira, ora acrescentando ingredientes éticos que considero indispensáveis à uma vida plena e harmoniosa, ora revelando a insensatez do mestre adentrando a vida pessoal e espiritual dos pupilos.

Mas isso é também fruto do afeto, da ansiedade de condensar os ensinamentos num guia para se ter às mãos nos momentos tempestuosos. Sabemos que a vida é plural, que a felicidade é vivida de forma diferente por cada pessoa e que as verdades são descobertas ao longo da caminhada.  É preciso estar atento, saber ouvir todos os lados da mesma história.

Percebo que muitas vezes não sabemos quem está certo porque não sabemos interpretar os fatos. Temos a tendência de não vermos as coisas como elas são, nós as vemos como nós somos. Portanto nunca formemos uma opinião sem antes ouvir todos os lados. Pois a verdade não tem dono e pode ter várias faces.

Diz que não somos dispensados de agir com integridade nem quando somos acometidos por coisas tristes. Portanto, independente do que estiver acontecendo à nossa volta, devemos fazer o melhor que pudermos, sermos bons e corretos, mesmo quando ninguém estiver olhando. É sábio pavimentar o caminho sem esquecer que ninguém é bom demais, que ninguém é bom sozinho e que precisamos aprender a ser gratos.

Certamente alguns se reportarão ao advogado constitucionalista, como o ministro que defendeu pesquisas com células tronco, a equiparação da união homoafetiva à união convencional, que seria um excelente ministro na Suécia. Intrigas? Má vontade com o ministro? Não sei. Mas não é disso que estamos falando aqui e sim, do breve manual de instruções que afetuosamente elaborou para seus alunos.

Saudade

Saudades, em mim, nunca têm pressa. Demoram tanto que
nunca chegam. Só quando eu danço me liberto do tempo — esvoam
as memórias, levantam voo de mim. Eu devia era dançar
todo o tempo, dançar para ela, dançar com ela.
Mia Couto
al pacino

Lenda Africana “De quando o leão podia voar”

O leão, segundo se conta, tinha a capacidade de voar, e naquele tempo nada escapava dele.  Como ele não queria que os ossos de suas presas fossem quebrados em pedaços, ele fez com que um par de corvos brancos vigiasse os ossos, deixando-os para trás no seu covil, enquanto ele ia para a caça.

Mas um dia Sapo Grande foi até lá, e quebrou todos os ossos em pedaços, e disse: “Por que os homens e animais não podem viver muito?” E acrescentou estas palavras: “Quando ele vier, diga a ele que eu vivo naquele lago, se ele quiser me ver, ele deve vir aí.”

O Leão estava caçando na floresta, e quis voar, mas ele descobriu que não podia mais voar. Então ele ficou com raiva, pensando que alguma coisa estava errada no seu covil  e voltou para casa. Quando lá chegou, ele perguntou: “O que você fez para que eu não voasse?” Então os corvos disseram: “Alguém veio aqui, quebrou os ossos em pedaços, e disse: “Se ele me quiser, ele pode procurar por mim naquele lago lá longe!”

O Leão se foi, e chegou quando sapo estava sentado na margem, e ele tentou saltar furtivamente em cima dele. Quando ele estava prestes a pegá-lo, o Grande Sapo disse: “Ah!” e mergulhou, foi até o outro lado e sentou-se lá. O Leão o perseguiu, mas como ele não conseguiu,  ele voltou para casa.

A partir desse dia, se diz, o Leão caminhou somente sobre seus pés, e também começou a se arrastar (quando espreitava e caçava), e os Corvos Brancos tornaram-se totalmente mudos desde o dia em que disseram: “Nada pode ser dito sobre esse assunto.”

Ser ponte

Alguns roubam para si pedaços do meu universo, devolvem-me partes que não são minhas. Começa o devaneio. Sinto tremores que não são características dos meus medos, sinto fome e não alimento-me do que sacia a alma, sinto fé em deuses estranhos, sigo caminhos tortuosos que abandonam-me ao meio.

Agora, canto cantos tristes, lúgubres, o sorriso alheio e indefinido acusa-te de causar a maledicência e o torpor.
O colapso das coisas ruins, que atiram estilhaços distantes, não quero.

Deixa-me à minha nugacidade se assim me vês;

Deixa, que eu me estenda para ser caminho, para ser ponte, para ser o que for, desde que bondade!

Onde mora o amor

um elevando-se aos céus
Não tenho vazio nenhum
Vivo feliz e em paz
Sem expectativa de que outro guarda amor para mim.
O amor não é recompensa, um quadro pintado
Nem uma história imaginada, uma felicidade romântica.
Amor não é um pote de ouro que se encontra no final da busca.
O amor está em mim desde a busca
Reside na aflição, na espera, no encontro.
Amor onde mais você mora
No céu, nas nuvens ou no oceano?

As virtudes que nos faltam

Até quando as mulheres terão que se levantar todos os dias e perguntar: “Qual é a minha cruz?” A inauguração de um abrigo temporário para mulheres em situação de violência, inclusive, com o risco iminente de morte, é mais uma obra que se integra à Rede de Atendimento às mulheres brasileiras. A Casa da Mulher Brasileira, um espaço moderno, que oferece serviços especializados e multidisciplinares é assim como todos os demais espaços destinados a este fim, a constatação da vulnerabilidade e das desigualdades promovidas pela questão de gênero no país.

Embora campanhas de conscientização existam e os casos de violência estejam sendo julgados com mais celeridade, falta o compromisso de fortalecer a participação da mulher nos espaços de decisão. Percebe-se que não avançamos muito no Estado. Ano de 2015. De 24 deputados estaduais, apenas 1 mulher; entre o secretariado do Governo, 3 mulheres; de 21 vereadores, apenas 1 mulher; entre a bancada federal do Estado, nenhuma mulher.

O preconceito e a violência contra a mulher, causam indignação pela recorrência e perplexidade pela estagnação do pensamento que ainda permeia o tema. Na moderna América, onde o discurso de uma atriz falando em igualdade de gênero na questão salarial ainda causa arroubos, um deputado republicano do estado da Virginia fez uma declaração estarrecedora, durante a discussão sobre o acesso das mulheres ao sistema de saúde reprodutiva. Ele pedia um adendo de excepcionalidade no abrandamento da lei, nos casos de gravidez provocadas por ato de estupro. Inacreditavelmente o deputado disse que o estupro pode ser algo bonito se do ato nascer uma criança.

“Rape can be beautiful!” Esta observação fez ressoar uma série de afirmações políticas embaraçosas sobre o corpo da mulher, lembrando que anteriormente um senador já havia declarado que não existe gravidez fruto do estupro, porque quando o estupro é legítimo, o corpo feminino se encarrega de expelir o feto, evitando gravidez indesejada. Outro senador, tentando corrigir o incorrigível nas declarações dos outros, disse que as mulheres rotineiramente fabricam histórias de estupro para obterem vantagens.

Observações igualmente ignorantes ouvimos também de políticos brasileiros. Os temas ligados à questão de gênero nem sempre são discutidos dentro de um contexto de respeito e seriedade.

Do outro lado do mundo, neste mesmo fevereiro de 2015, na India, durante um vôo, após as luzes serem desligadas, uma jovem sentiu que uma mão subia-lhe as pernas. Um senhor de certa idade sentado ao seu lado, tentava apalpá-la. A jovem registrou a cena no celular, levantou-se e o repreendeu em voz alta, avisando-o que ao desembarcar formalizaria a denúncia. Visivelmente constrangido, o velho senhor tentava cobrir a face e num tom de súplica, pediu perdão.

Um ataque sob qualquer perspectiva do mundo contemporâneo, é um ato condenável e pronto! Até quando a secular luta contra a desigualdade e violência terá que ser engendrada?
Lembro-me quando li Erasmo em “A educação do príncipe cristão”, ele disse que as virtudes mais elevadas para um ser ideal, seriam as virtudes consideradas fracas: a clemência, prudência, gentileza, civilidade, sobriedade, temperança, integridade e a equidade. Talvez sejam estas as virtudes que nos faltam.