Como não ser um político

Lançado em 2023, o livro ‘How not to be a politician’ escrito por Rory Stewart, historiador e filósofo foi considerado pela grande mídia internacional e por proeminentes políticos, o melhor  e mais cativante livro da memória recente da política, com revelações fascinantes e outras horríveis.

A Rory Stewart sobra bons adjetivos, qualificação e experiência na política britânica e internacional. Ex-professor da prestigiosa Universidade de Oxford, com a vida dedicada ao serviço público, como diplomata que acumulou conhecimento sobre várias culturas políticas na Indonésia, Turquia, Afeganistão, viajou a pé pelo Afeganistão e Paquistão, serviu no Iraque, caiu nas graças dos políticos americanos e de Harvard, onde deu aulas sobre direitos humanos. Em 2010 largou tudo e iniciou uma carreira na política parlamentar, esteve vários anos no Parlamento britânico, foi seis vezes ministro de várias pastas e concorreu a Primeiro-Ministro, quando Theresa May renunciou, contra Boris Johnson, que foi o escolhido, mais pelos discursos inflamados do que pelos cabelos, sempre desalinhados. 

O ex-diplomata Rory Stewart entrou na política inglesa com a esperança de promover mudanças profundas e necessárias. Relata que testemunhou confusão, corrupção e fracassos nos programas de ajuda internacional do seu país e que achou muito complicado o processo de se tornar candidato, buscar o apoio de partido em vários níveis e montar uma campanha, dentro de padrões amarrados e não independentes. Venceu tranquilamente para o parlamento e aí sim, diz ter entrado de fato, num sistema definido por uma claustrofobia deprimente e sem cultura, onde poucas conversas eram sobre política e o tempo junto com outros parlamentares era absorvido em fofocas sobre a promoção de um colega ou o escândalo que envolvia outro.

Com discurso culto, citando Shakespeare e às vezes, frases em latim, o ex- diplomata acreditava que os discursos deveriam ser valorizados porque era um tempo reservado para explorar todos os lados de uma discussão, o que era vital para ampliar os valores da razão, tolerância e igualdade, que, em tese, deveriam sustentar a democracia, em vez disso, diz ter percebido que relatar suas experiências, argumentar com voz e preceitos moderados, afastar-se das alas radicais não levam efetivamente à vitória, porque a maioria dos políticos vivem numa redoma de vidro, ignoram gráficos que expõem a realidade e com muito esforço, compreendem apenas o elementar sobre mercados, pobreza, renda, educação e saúde. Relata que na política sentiu-se impotente diante do ambiente de desconfiança, inveja e ressentimento.

Mesmo frustrado, decidiu continuar no parlamento. Mais tarde, foi promovido a cargos ministeriais, onde diz ter convivido com colegas vaidosos e alguns cínicos, sem precisão alguma para tomar decisões. Foi crescendo em Rory a ideia de que quanto mais permanecia na política, mais estúpido e menos honrado se tornava. A leitura revela que a hipocrisia e a ignorância que permeiam o universo da política é uma advertência séria que pode frustrar os esforços de quem escolhe a política como vocação ou dos eleitores, que esperam muito dos políticos que elegem.

O alimento do ódio, da violência e da vingança

Voltaire, o mais expressivo representante do iluminismo francês, escreveu em O Tratado sobre a Tolerância, 1763: “Digo-vos que é preciso olhar todos os homens como nossos irmãos. Como! meu irmão, o turco? meu irmão, o chinês? o Judeu? o siamês? – Sim, sem dúvida. Não somos todos filhos do mesmo pai e criaturas do mesmo Deus?

A ordem está em colapso e está sendo substituída pelo caos. Isto tem acontecido nos últimos dez anos. A pandemia fez parte disso, a invasão russa da Ucrânia faz parte disso, o que está acontecendo agora em Israel e na Palestina faz parte disso. “Se não reconstruirmos a ordem, a situação só piorará. Ela se espalhará por todo o mundo e pode até levar à Terceira Guerra Mundial. E com o tipo de armas e tecnologia atuais disponível, poderia levar à aniquilação da própria humanidade”, disse o escritor, historiador e pensador israelense, Yuval Harari, ao dar entrevista sobre o que considera ter sido o “11 de setembro de Israel”: o ataque terrorista surpresa do grupo palestino Hamas contra o estado de Israel.

Harari, se tornou um dos mais importantes e lidos pensadores dos últimos anos. Já vendeu mais de 45 milhões de livros em todo o mundo, manifestou-se veementemente contra o ataque terrorista do grupo palestino Hamas, sem, no entanto, aliviar Israel de culpa: “Há muito que se criticar sobre a forma como Israel abandonou as tentativas de fazer a paz com os palestinos, e manteve milhões de palestinos sob ocupação durante décadas, mas isso não justifica as atrocidades cometidas pelo Hamas e o mais sensato seria impor sanções e exigir a libertação de reféns e o desarmamento desse braço armado do terrorismo”. Segundo o autor, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu é um primeiro-ministro incompetente, que construiu sua carreira dividindo a nação contra si mesma.

O presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, pronunciou dizendo que as políticas e ações do Hamas, que controla a Faixa de Gaza, não representam o povo palestino, e que são as políticas, programas e decisões da Organização para a Libertação da Palestina que representam legitimamente o povo palestino. Disse também que o ataque do Hamas deixou a população palestina profundamente vulnerável às retaliações.

As guerras em curso nos dão provas que genocídios estão acontecendo debaixo dos nossos olhos, vidrados na superficialidade das coisas e das ideias. A humanidade, deve despertar para compreender que a violência não pode ser justificada, que todas as vidas merecem igualmente serem protegidas e colocadas no mesmo patamar de importância, o árabe, o judeu, o ucraniano e tantos outros que estão vivendo sob ameaças de bombardeios, de corte de água, luz, comida e sem ajuda humanitária.

O fanatismo religioso, não é obviamente o único componente do ataque terrorista, mas é incômodo saber que o fanatismo religioso opera numa lógica onde o foco está na vida em outro mundo, portanto não importa os danos e sofrimentos que causem aos outros nesse plano terrestre.

No velório de uma criança palestina morta pelo bombardeio de Israel, havia uma faixa: “É com grande orgulho que velamos nossa filha…que foi martirizada em nome da nossa religião”. O Hamas plantou cenas de ódio e de dor terrível nas mentes de milhares de pessoas, que terão, desde então, dificuldade para reiniciar um processo de paz.

O renomado intelectual judeu Noam Chomsky, reconhecido por sua atuação em questões de geopolítica e direitos humanos, fez declarações fortes a respeito da situação atual na Palestina. Criticou as ações de Israel e denunciou que Tel Aviv comanda uma limpeza étnica contra as populações palestinas. “A ousadia das ações israelenses é surpreendente. Fazem o que querem, sabendo que os EUA os apoiam. Não se trata de um esforço para acomodar a população palestina, trata-se simplesmente de livrar-se deles”.

O conflito do oriente médio envolve situações complexas e todos os cidadãos e países acabam sendo, ao mesmo tempo, perpetradores e vítimas. O Papa Francisco disse que o populismo, o terrorismo e o extremismo não ajudam a chegar a uma solução para o conflito entre israelenses e palestinos, mas alimentam o ódio, a violência e a vingança.

É urgente ouvir o que Krenak tem a dizer

Há dois anos eu escrevi neste espaço sobre Ailton Krenak. Hoje o líder indígena mineiro da etnia crenaque, ativista do movimento socioambiental e da defesa dos direitos indígenas. Jornalista, escritor, que desde a década de 1980, dedica-se a articulação do movimento dos povos indígenas, também professor Honoris Causa pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e pela Universidade de Brasília (UnB), é o mais novo membro da Academia Brasileira de Letras. Foi eleito, na última quinta-feira, 5 de outubro, numa disputa onde superou o educador e escritor indígena Daniel Munduruku. A Academia Brasileira de Letras acerta em cheio na escolha de um indígena, visto que a UNESCO proclamou o decênio 2022-2032, como a década Internacional das Línguas indígenas.

Escrevi sobre Krenak quando eu havia acabado de ler o impressionante discurso dele “Ideias para adiar o fim do mundo”, que encantou o Instituto de Ciências Sociais em Lisboa, mais tarde tornou-se um livro, onde ele usa a alegoria poética dos paraquedas coloridos, para propor que sejam construídos com nossa capacidade crítica e criativa, para aproveitar a queda, que é inevitável. Krenak potente e inspirador diz que os paraquedas são projetados de lugares onde são possíveis as visões e os sonhos, lugares que devemos aprender a habitar.

Krenak fala da urgência de agir para transformar o mundo que agoniza e diante da certeza de que estamos em queda como civilização, ele diz que devemos aproveitar e ressignificar a queda e recomeçar a partir dela. Diante da certeza de que a Terra não suporta nossas demandas, ele propõe uma virada de perspectiva para salvarmos não apenas as populações originárias que agonizam, mas todos nós que estamos debaixo do abraço generoso da Terra. O líder indígena encarece que devemos lutar para adiar o fim do mundo porque não aprendemos sequer a lutar por uma sobrevivência digna, com respeito à luta dos outros, precisamos de tempo para aprender estabelecer uma relação amorosa com os que nos são iguais, com todos e com a natureza.

Entre uma metáfora e outra em Lisboa ele falou das pequenas constelações de pessoas felizes, que experimentam prazeres simples, cantam, dançam, fazem chover e sem querer, viram alvo da intolerância daqueles que não toleram a fluidez e leveza. Krenak compartilha poeticamente a ideia de um outro mundo possível, onde nos tornemos uma constelação gigante de pessoas felizes!

O mais novo imortal não saiu de uma cidadezinha no estado de Minas Gerais direto para a Academia Brasileira de Letras. Sua vida seguiu um traçado de importância inestimável para a construção do currículo que apresentou à Academia. Jornalista, desde o início da década 1980, passou a dedicar-se exclusivamente ao movimento indígena. Fundou o Núcleo de Cultura Indígena, teve papel fundamental e intransigente à época da Assembleia Nacional Constituinte, na defesa dos direitos dos povos indígenas, até conseguir incluir suas demandas na Constituição Federal.

Ativo, participou das grandes movimentações dos Povos Indígenas, publicou livros, narrou documentários. Foi assessor do Governo de Minas Gerais para assuntos indígenas, durante as gestões de Aécio Neves e Antônio Anastasia. Palestrante em seminários nacionais e internacionais, acabou sendo a grande estrela da Festa Literária Internacional de Paraty – FLIP de 2019. Leciona na Universidade Federal de Juiz de Fora, as disciplinas “Cultura e História dos Povos Indígenas” e “Artes e Ofícios dos Saberes Tradicionais”, em cursos de especialização.

Articulado e versátil, foi um dos protagonistas da série Guerras do Brasil, na Netflix, que relata com detalhes a formação do Brasil ao longo de séculos de conflito armado, começando com os primeiros conquistadores até a violência na atualidade. Com vários livros publicados, traduzidos para mais de treze países, conquistou o Prêmio de Intelectual do Ano concedido pela União Brasileira dos Escritores, em 2020.

Atualmente vive na Reserva Indígena Krenak, no município de Resplendor, no estado de Minas Gerais.

A sustentável paixão por Milan Kundera

Milan Kundera, excepcional romancista, ensaísta, poeta e crítico político tcheco, morreu essa semana, em Paris aos 94 anos. Ele é terrivelmente direto, muito contundente, por isso recusa as consolações do sentimentalismo ou da moralidade, viu e escreveu o que os escritores anteriores não puderam ver ou dizer. O foco dos romances de Kundera é sua luta com questões de conhecimento, a complexidade do ser e uma incerteza inquietante. “Parece-me que em todo o mundo as pessoas hoje em dia preferem julgar a entender, responder a perguntar, de modo que a voz do romance dificilmente pode ser ouvida sobre a ruidosa tolice das certezas humanas”.

Peso e leveza, riso e esquecimento, repetição e mudança, política e sexo, para Kundera, o que a ficção faz é dizer ao leitor que as coisas não são tão simples quanto se pensa, embora nunca tenha se visto como um homem político, um moralista, um liberal, conservador ou um escritor famoso. Ele se considerava simplesmente, um novelista.

É senso comum imaginar que um escritor de tal densidade, seriedade e brilhantismo deveria ter ganhado o Prêmio Nobel de Literatura em algum momento de sua longa vida. Afinal, ganhou muitos prêmios importantes. Talvez tenha sido seu estilo de escrita que fez com que a Academia o visse indicado em várias ocasiões, mas nunca lhe concedeu o prêmio. Segundo alguns críticos literários, Milan Kundera se tornou um contador de verdades inconvenientes para a era moderna talvez haja algo nisso que tenha perturbado o Comitê do Nobel de Literatura.

á li queixas de mulheres, que seu tom e narração de cenas de sexo, a representação das mulheres pode ser apresentada como masculinidade ultrapassada. Não me abalou o encanto com seus romances e ensaios, a maioria de inspirações autobiográficas.

Kundera nasceu e cresceu na Tchecoslováquia, hoje República Tcheca, ocupada pelos nazistas, depois viu a antiga União Soviética invadir seu país, sob o regime comunista. Foi membro ativo do Partido Comunista. Kundera sabia sobre opressão e desumanidade. Escreveu que o totalitarismo não é apenas o inferno, mas também o sonho do paraíso, a promessa de um mundo onde todos viveriam em harmonia.

Desencantou-se com o comunismo, foi uma das principais vozes do movimento Primavera de Praga em 1968, pedindo liberdade de expressão e direitos iguais para o povo tcheco. Foi expulso do Partido Comunista sob alegação de pregar o anticomunismo e trair os ideais dos governantes de seu país. Exilou-se na França e quatro anos depois o governo tirou-lhe a cidadania tcheca. Em 2019, 40 anos depois, o governo tcheco restabeleceu sua cidadania e de sua esposa.

A partir da França, continuou escrevendo e atacando o regime comunista, como no Livro do Riso e do Esquecimento, onde narra que um grupo de comunistas fiéis ao regime dançam em um círculo, se eleva no ar e paira sobre a cidade sorrindo. ‘Eles riem o riso dos anjos enquanto abaixo deles, os carrascos estão matando presos políticos’.

No seu romance mais conhecido, A Insustentável Leveza do Ser, escrito em 1984 adaptado para o cinema anos depois, Milan Kundera destila sua indignação contra a política totalitária, tornando o cenário da Primavera de Praga e a brutalidade do regime soviético sobre a Tchecoslováquia um dos temas centrais da história. Adiciona com genialidade uma narrativa erótica que sugere que o sexo despreocupado e livre pode nos permitir viver plenamente o momento, que isso pode nos levar a trocar o peso do eterno pela leveza de estar vivo, aqui e agora, o conflito que pode existir em cada um de nós entre o desejo de autenticidade e o dever de lucidez.

Milan Kundera é um escritor de frases poderosas. No ensaio ‘Inimizade e Amizade’, Milan Kundera fala sobre a amizade e desavenças políticas. “Em nosso tempo, as pessoas aprenderam a subordinar a amizade ao que se chama de convicções. É preciso muita maturidade para entender que a opinião que defendemos é apenas a hipótese que defendemos, necessariamente imperfeita, provavelmente transitória, que apenas mentes muito limitadas podem declarar ser uma certeza ou uma verdade. Ao contrário da lealdade a uma convicção, a lealdade a uma amizade é uma virtude, talvez a única virtude, a última que resta. Na hora do balanço final, a ferida mais dolorosa é das amizades feridas e nada é mais tolo que sacrificar uma amizade pela política”.

Não seja normal. Seja você.

Maya Angelou, uma das escritoras americanas mais premiadas de sua geração, subverteu a normalidade de sua época, ao tornar-se, aos 17anos a primeira motorista negra de ônibus em São Francisco. Numa época em que não era comum, assumiu-se mãe solteira. Alguns anos depois, tornou-se a primeira negra roteirista e diretora em Hollywood. E mesmo depois de morta, torna-se, em 2022, a primeira mulher negra a ter o rosto em uma moeda norte-americana e proclamou com orgulho suas palavras: “Se você está sempre tentando ser ‘normal’, nunca saberá o quão incrível você pode ser.”

Normal pode ser semelhante ao usual, médio, típico ou esperado. Normal implica em conformidade com um padrão preconcebido, que pode limitar seu potencial. Você pode nunca alcançar o extraordinário, desde que opte por permanecer comum. Normal geralmente não significa estender os limites. Normal geralmente não significa pensar fora da caixa. Normal geralmente não significa alcançar a grandeza. Atos normais, rotineiros, não mudam o mundo.

O mundo ‘normal’ sugere que existe uma maneira certa e errada de ser uma pessoa e não há. Existe um espectro de comportamento aceitável na sociedade e ele é vasto e varia muito. As pessoas geralmente querem ser aceitas socialmente e o caminho considerado mais fácil é se encaixar no comportamento da multidão. Para fazer isso, você pode se sentir pressionado a pensar e se comportar de uma determinada maneira.

As pessoas não são facilmente categorizadas, e isso é ótimo. A vida humana é muito orgânica para ser rigidamente classificada. Normal pode ser mais uma abstração do que uma experiência humana. Se esforçar para viver dentro da normalidade pode restringir a criatividade, o prazer, a graça. Ser curioso e criativo, ao contrário, requer correr riscos. Preocupar-se em viver de acordo com um padrão individual coloca a ênfase, o brilho da pessoa no resultado.

O conceito de normalidade é mais um ideal subjetivo do que realidade. Cada cultura desenvolve seu próprio código sobre o que é normal. A normalidade é um enigma e uma ilusão. O que uma cultura pode considerar comum, outra pode achar incomum. Em situações cotidianas, as pessoas julgam a normalidade tomando os outros como sua própria referência de comportamento normal. Nesse sentido, a normalidade aos olhos dos outros, quando você tenta ser o que outra pessoa considera normal, pode perder uma parte de sua essência no processo de imitação.

Imagine o tédio que seria, se na vida fossemos iguais, se possuíssemos características e qualidades únicas. Rótulos são úteis para mercadorias, mas não se encaixam no mundo confuso das emoções humanas e traços de personalidade.  Se o normal é equiparado ao status quo, então a anormalidade torna-se igual à inconformidade.

 Todo mundo é único à sua maneira, mas o que torna algumas pessoas tão diferentes de todas as outras? Muitas vezes as diferenças são usadas para tornar os outros inferiores e insignificantes, porém, os relacionamentos autênticos começam com o reconhecimento, compreensão e aceitação das nossas anormalidades.

Reparação

Há 4 dias morreu o sociólogo francês Alain Touraine e seu livro “Podemos Viver Juntos?” transversalmente resvala ao tema da reparação às injustiças, ao tempo em que deixa lições inesquecíveis, rejeitando a ideia romântica de que agora vivemos juntos como iguais, compartilhando os mesmos valores sociais e culturais. Touraine afirma que, na verdade, nossas diferenças estão cada dia mais intensificadas. Estamos, segundo o sociólogo, “vivendo o desaparecimento de todas as linguagens, discursos e instituições que nos protegiam. Estamos nos tornando pessoas dessocializadas e indiferentes às lutas dos outros e que hoje, vivemos todos, sob o critério do prazer, da utilidade e do interesse. Não nos interessamos por nada que não seja do nosso interesse.”

Toda injustiça deixa como legado a tendência de naturalização do mal praticado e é difícil admitir a falência do pensamento em compreender a desordem atual e criar reflexões a partir das novas conexões que dispomos. É difícil rever o modo como pensamos, o modo como capturamos em conceitos o que já admitimos com nossos sentimentos e atitudes.

A reparação das ofensas e violências forjada na luta dos movimentos sociais, da cobrança sistemática de parte da sociedade, que não adormece diante das injustiças e atrocidades cometidas, não necessariamente precisa ser financeira, mas em investimentos em programas de ação afirmativa no longo prazo, para que se possa mudar a forma de pensar que justificou a escravidão e ainda justifica o racismo, a violência doméstica, abusos sexuais e outras formas de injustiça e agressão, como  os casos recentes de assédio do padre de Primavera do Leste, os casos dos estupros cometidos pelo pastor em São Paulo, que amedrontava os meninos alegando que o diabo pegaria suas almas caso não fizessem sexo com ele.

Há o caso recente de racismo contra o jogador brasileiro Vini Jr na Espanha e há o caso dessa semana, onde uma senhora branca impede a passagem de um jovem negro cadeirante no corredor do ônibus e ao ser interpelada, ela questiona: “Estamos na floresta?”

Não seria necessário perguntar o que ela quis dizer com isso. Ela não quis dizer, ela disse e reproduziu os comentários racistas ouvido pelo jogador dias atrás, sem constrangimento algum, sendo filmada.

No caso da violência doméstica já se aplica práticas reparadoras concretas: “Verifico que a ofendida suportou malefícios causados pela violência sofrida na condição de mulher, transtornos e aborrecimentos que lhe causaram sofrimento, fato que causa lesão à dignidade subjetiva da vítima, configurando danos morais,” diz o trecho de uma decisão judicial favorável à vítima.

Sim, financeiramente é possível cobrar reparação na justiça, embora nem sempre seja possível, de forma justa precificar a dor vivenciada. Mas a crueldade, o preconceito, a violência, o assédio precisam deixar de existir na mente doente dos acusados. O estupro é um ataque e quem o pratica, sobretudo em ambiente religioso, onde o tema é considerado tabu, sabe que raramente será denunciado. Como reparar a mente perturbadora de homens que habitam este vasto mundo onde os controles sociais estão debilitados e a fronteira entre o normal e o patológico, o permitido e o proibido perdem sua nitidez?

A sociedade vigiada de 1984 e 2022

Um livro que se conecta aos dias de hoje é 1984, escrito por George Orwell em 1949, um livro para ser lido ou relido em tempos difíceis. É um livro que merece uma leitura atenta especialmente pela maneira como captura muitas tendências políticas preocupantes ainda em uso nas sociedades atrasadas.

É um romance perturbador sobre um governo poderoso, que criou um sistema de monitoramento através das teletelas instaladas por toda parte, para que o Grande Irmão, o estado, pudesse controlar e vigiar as atitudes e pensamentos das pessoas 24 horas por dia, promovendo programação de lavagem cerebral e punição diante de qualquer tentativa de criticar, sonhar, romantizar a vida ou fazer uso dos talentos inatos.

Paralelos, contradições e analogias feitas para mostrar que tal poder não reside somente nos governos, embora não possa florescer sem a concordância destes. No ano de 2022 vivemos felizes e colaborativos numa sociedade vigiada por milhares de agentes do Grande Irmão, que bisbilhotam nossas vidas sem grande dificuldade, porque nós mesmos projetamos nas mídias sociais imagens detalhadas de nossas rotinas, antecipamos nossos sonhos e demonstramos a predileção política, sob a pena de sermos alvos da pressão da invasão de propaganda, das tentativas de manipulação e um bombardeio de fake news que favorecem os planos do  grande senhor, de sustentar e prolongar o poder do estado que criou para si e para os seus.

Winston, o personagem principal do livro era funcionário de um Departamento do Ministério da Verdade, encarregado de falsificar os registros históricos, para que constem apenas fatos que expressem apoio ao governo e, secretamente acumulava revolta contra o grande irmão e desafiou toda engrenagem de vigilância e alienação.

Em 2022 muitos questionam a agressividade, o preconceito do grande líder e se movem esperançosamente em direção à libertação, independente da grande massa que não se preocupa em questionar, analisar criticamente os atos e palavras pronunciadas pelo grande irmão. Outros, negociaram o direito inalienável de pensar livremente pelo discurso hipócrita de defesa da tradicional família perfeita e pela fé, que nem deveria estar incluída nas coisas do estado.

No livro 1984, escrito há 72 anos, George Orwell faz um importante alerta sobre a perda da liberdade e da democracia quando o estado, através de seu aparato de intimidação e vasto exército de fanáticos atuam como transportadores de informações e como auxiliares de vigilância, em 2022, fazendo uso da farta tecnologia disponíveis nos smartphones, os intolerantes invadem a caixa de mensagem das pessoas para profetizar a continuação do poder do mito, o grande senhor que governa acima de tudo e de todos.

Em 1984, o estado faz uso de seu vasto império de vigilância para manter a ordem, em 2022, contrariando o ensinamento do livro, o grande irmão brasileiro armou a população civil e incitou a quebra da ordem com invasão de instituições.

Em 1984, o governo constantemente apaga e reescreve a história que se tornou inconveniente, permitindo limpar a memória e continuar vivendo sem o peso das suas transgressões e em 2022 isso não mudou. Declarações graves dadas e atos polêmicos são desmentidos, mascarados ou sutilmente justificados e no momento conveniente, de olho no voto, o grande irmão vem a público, com as veias do pescoço saltadas pelo esforço e se desculpa.

Sou por acaso o guardião do meu irmão?

No caos de nossas vidas diárias, podemos ficar presos no vai-e-vem dos compromissos, na agitação do mundo e esquecer o quem realmente queremos ser e o que queremos fazer. Decidi que eu não quero desviar o olhar dos sofrimentos alheios e me pergunto: como uma pessoa comum como eu posso fazer a diferença no mundo de outras pessoas? Então, lembro-me de uma bela fala do ator Robin Williams: “Eu não sei quanto valor eu tenho nesse universo mas eu sei que fiz algumas pessoas mais felizes do que elas teriam sido sem mim e desde que eu sei disso, eu sou tão feliz quanto preciso ser”.

Bondade e caridade são as duas características humanas básicas, naturalmente, no universo moral, elas transbordam. A solidariedade é nossa única saída diante dos problemas e sofrimentos alheios. É quando fazemos o bem que reconhecemos nossa humanidade.

O sociólogo polonês Zygmunt Bauman, no livro A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas, relata o comentário do filósofo naturalizado francês Emmanuel Lévinas sobre a resposta de Caim quando Deus lhe perguntou onde estava Abel. Caim respondeu, zangado, com outra pergunta: Sou por acaso guardião do meu irmão? O filósofo Lévinas diz que é claro que eu sou o guardião do meu irmão e quer que eu admita ou não, sou o guardião do meu irmão porque o bem-estar dele depende do que eu faço ou do que eu deixo de fazer.

E somente uma pessoa moral reconhece essa dependência e aceita a responsabilidade que ela implica. No momento em que questiono e renuncio a minha responsabilidade deixo de ser um ser moral. A dependência de meu irmão é o que me faz um ser ético, solidário. A dependência, a responsabilidade e a ética caminham juntas.

Se para Lévinas, nosso ponto de partida deve ser sempre a ética, a alteridade Bauman entende que deve ser a solidariedade. Para ambos o homem não é pastor de outro ser, é o guardião. O homem é um ser para acolher o outro. Ambos apostam que para evitar a desumanidade, só resta escutar a voz do outro, olhar o rosto humano e reparar em sua fragilidade. E então, a única coisa que resta é a bondade individual de um homem para com outro homem.

Longe de ser um santo, tanto o homem ético quanto o homem solidário devem ajudar a carregar em suas costas o sofrimento do desvalido, das minorias, dos famintos, dos sem esperança. O problema da ética e da solidariedade não é o simples reconhecimento da alteridade, mas a obrigação de se colocar no lugar do outro, o que hoje também entendemos como empatia.

Lévinas tem muito a ensinar sobre a humanização da sociedade contemporânea e por falar tanto em sentir a dor do outro, colocar-se no lugar do outro, tem sido citado como um filósofo da alteridade, da ética, do sagrado e da transcendência.

“Se o sofrimento do outro não me afeta, é porque algo me impede de ver seu rosto e a visão do rosto, quando acontece, sempre surpreende, pois caracteriza a visão do outro nunca antes percebida e isso rompe a indiferença. É sagrado quando deixo de ficar lado a lado com o meu irmão para ficar cara-a-cara”.

Os sete sapatos sujos

Ler o extraordinário escritor moçambicano Mia Couto causa-me certo desconforto. São histórias de pertencimento a um chão duro, um país pobre, uma terra sonâmbula e é nesse cenário que ele escreve livros, textos e palestras, colocados em palavras para expressar que os desafios são infinitamente maiores que a esperança e ainda assim, ciente de que dar futuro a um povo custa muito dinheiro e vontade, ele falou da dificuldade que temos de pensar em nós mesmos como sujeitos, como ponto de partida e como destino final dos nossos sonhos numa bela palestra, que  assisti sem respirar na Universidade de Brasília, no ano de 2019. Mia falou dos sete sapatos sujos que precisamos descalçar e deixar na soleira da porta, ao adentramos o mundo que queremos ter.

O primeiro sapato a ser deixado do lado de fora da porta é a ideia que os culpados são sempre os outros e nós somos sempre vítimas, do sistema, da guerra, do preconceito, da geografia. Certamente muitas pessoas nos causaram sofrimentos, mas a responsabilidade de livrar-se deles sempre residiu dentro da casa, escondido num longo processo de desresponsabilização. Olhamos para nós mesmos com benevolência mas cobramos dos outros que nos olhem com dignidade.

O segundo sapato é a ideia de não enxergar o êxito como resultado do esforço, do trabalho, do investimento no longo prazo. Atribuímos o bem e mal que nos acomete à forças invisíveis que comandam o destino.

O terceiro sapato é o preconceito de que quem critica é um inimigo, é a intolerância com quem pensa diferente.  Muito do debate de ideias é substituído pela agressão verbal e demonização de quem pensa de modo diverso.

O quarto sapato é a ideia que mudar as palavras muda a realidade, viver à reboque de preocupações de ordem cosmética. Mudanças de comportamento importam mais do que banir o uso de determinadas palavras, consideradas preconceituosas do dicionário.

O quinto sapato é a vergonha de ser pobre e o culto das aparências expressado na atabalhoada preocupação em exibirmos falsos sinais de prosperidade, que acaba reforçando a ideia que o estatuto do cidadão nasce dos sinais que o diferencia dos mais pobres. A arrogância e o exibicionismo são emanações de quem toma a embalagem pelo conteúdo.

O sexto sapato é a passividade perante a injustiça. Estamos dispostos a denunciar injustiças quando são cometidas contra nós, contra os nossos, contra a nossa religião. Estamos menos dispostos quando a injustiça é praticada contra os outros, como se persistisse em nós zonas silenciosas de injustiça, onde certos delitos permanecem invisíveis.

O sétimo sapato é a ideia de que para sermos modernos temos que viver como os outros, temos que criar familiaridade com o mundo virtual, com os sinais do que é internacional. Aceitamos este apelo à imitação porque sentimos vergonha de sermos quem somos.

Mia Couto provoca os políticos, a cultura herdada e nunca recriada, mas provoca sobretudo as pessoas que se debulham em lamúrias.

Falsos especialistas – efeito Dunning-Kruger

Antes de ter a chance de processar um acontecimento, já estamos nas redes sociais fazendo uma leitura superficial de todas as opiniões apressadas já publicadas, quer seja sobre a guerra na Ucrânia, vidas particulares de personalidades ou a “graça constitucional” concedida pelo presidente Bolsonaro ao deputado e aliado político.

Muitas vezes, me pergunto se devo me manifestar sobre determinado tema, para depois não sentir aquela pontada de arrependimento por não haver lido antes sobre o assunto, por ter sido superficial, irônica ou por não ter sido clara na minha posição. Li o post do ex-procurador da República, ex-senador e ex-governador Pedro Taques sobre a “graça constitucional” concedida pelo presidente. Pedro Taques é um dos maiores constitucionalista do país, quem sou eu para comentar abaixo? Aplaudi!

Interação quente simplesmente não vale a pena. Antes de comentar um tópico, não se auto censure, respire, analise se o comentário não criará problema ou controvérsia inútil promovida pelo momento de calor, além disso não abra mão de demonstrar empatia diante das dificuldades dos outros antes de clicar em postar o comentário.

A reflexão é sobre o que há por trás do motivo pelo qual nos sentimos compelidos a avaliar, opinar e a participar de quase tudo nos dias de hoje, sem esquecer, portanto, que somos criaturas sociais. Criaturas sociais, seres emocionais, impulsivos, opinativos que querem entrar em contato, querem fazer parte da tribo, se solidarizar, criticar e comungar com outras pessoas usando o maior megafone que já possuímos; as mídias sociais, que de ruim, apresenta o fato da falta de hierarquia, onde a opinião de todos é tratada da mesma forma.

Os psicólogos americanos David Alan Dunning e Justin Kruger, em estudo, que tornou célebre no ano de 1999, demonstraram que pessoas com baixa habilidade em uma tarefa tendem a superestimar suas competências, sobretudo, em público. O efeito Dunning-Kruger é o nome dado ao um fenômeno quando alguém sabe pouco sobre um assunto e já se julga especialista. Enquanto isso, os especialistas de fato reconhecem que o tema é muito mais complexo do que eles próprios supunham inicialmente. Essa é a tendência dos menos competentes ou versados em um assunto superestimar suas habilidades, creditarem a si títulos de especialistas e apresentarem resultado de suas próprias pesquisas.

Por exemplo, no momento presente, sobre a invasão da Rússia à Ucrânia, ler artigos dos especialistas militares, funcionários de relações exteriores, é muito útil para formar a opinião sobre a invasão e bombardeios que já duram dois meses. Ao contrário disso, a maioria das pessoas nas mídias sociais acredita que sua opinião é equivalente a de um estrategista militar. Isso perpetua o problema que leva os não especialistas a fornecer conselhos de “nível especializado”.

Em vez de correr para postar, corra para ler e entender que o fato da Ucrânia contar com apoio da ONU, OTAN, União Europeia, dezenas de países importantes como Inglaterra, Estados Unidos, Alemanha, França, Canadá não significa o fim da guerra. A ONU acusa a Rússia de crimes de guerra e a Rússia segue acirrando tensões, cometendo crimes e causando grande impacto na geopolítica da região, diante da alegação dúbia de muitos líderes de governos de que é preciso evitar um confronto militar direto com a Rússia. 

Aprecio debates e conversas saudáveis com as pessoas on-line ou presencial sobre tópicos diversos e não acho que a internet seja um ambiente “terra de ninguém”, onde as discussões possam prosperar, sem responsabilidade.

Tenho milhares de dúvidas, procuro novas fontes ou amigos que tenham um ponto de vista mais especializado sobre o assunto que quero comentar, aproveito para aprender, formar minhas próprias opiniões e munida com informações corretas, posto, sempre.