Filme, reflexões e políticos escurecendo a pele

O filme Pantera Negra: Wakanda para sempre, indicado ao Oscar de melhor filme, arrecadou cerca de US$ 300 milhões nos cinemas no primeiro final de semana da estreia, a maior soma de todos os tempos para uma estreia de filme em novembro. Os espectadores são levados de volta à fictícia Wakanda através dos desafios que a protagonista, a princesa Shuri, enfrenta após a morte de seu irmão, o Rei T’Challa, que foi interpretado pelo ator Chadwick Boseman que morreu de câncer em 2020, antes do início das gravações.

No primeiro filme e na sequência o elenco é majoritariamente negro. Pantera Negra trouxe para a telona a representatividade negra que muitos de nós sentíamos falta nas produções cinematográficas, principalmente pelo fato de expor positivamente a representatividade de homens e mulheres negros, além disso, as discussões são permeadas de contextualização política, social, racial, sobre diversidade e ancestralidade dos povos africanos.

Assista o filme, deixa-se envolver pela força e poder das mulheres negras, Shuri, rainha Ramonda, Okoye, Riri e Nakia, que comandam a batalha de Wakanda contra o mundo submerso governado por Namor, ciente que é um filme lúdico, com músicas africanas poderosas, não reflete a realidade nem a rotina de Hollywood ou da indústria cinematográfica, que não faz nada sem grandes pesquisas sobre produtos e tendências de comportamento.   

Políticos brasileiros descobriram quando ser negro é vantagem. O período eleitoral revelou um grande número de parlamentares que escureceram a pele movidos pela ganância de receberem recurso maior do Fundo Eleitoral. É inacreditável, mas uma pesquisa feita pelo site Brasil de Fato mostra que dos 135 deputados federais negros eleitos em outubro passado, 19% haviam declarado serem brancos na eleição anterior. Entre os políticos que mudaram a declaração de raça há figuras conhecidas como o vice-presidente Hamilton Mourão, que se elegeu senador pelo Rio Grande do Sul e o atual presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira reeleito por Alagoas, que antes era branco e agora se declarou pardo. Uma vergonha! Não entendem uma palavra do que disse Zumbi do Palmares: “nascer negro é consequência, ser negro é consciência.”

Embora o Brasil siga sendo o país com maior número de negros fora da África, não falamos sobre racismo, preconceito, muito menos admitimos nutrir algum desses sentimentos. Empurramos a discussão para debaixo do tapete, para a próxima geração falar sobre isso. Na vida real, o racismo é crime e a Lei 7.716 tipifica os diversos casos de discriminação.

No mais, como disse a cantora Iza: “Não tem como ter saúde mental sendo negro. É difícil saber que podemos morrer só por ser quem somos. Mas óbvio que a fama me afastou disso” mas as estatísticas seguem cruéis. Um levantamento da Rede Observatórios de Segurança, aponta que a cada quatro horas um negro é morto pela polícia no Brasil. Das mais de 2.600 mortes em ações policiais em 2020, 82,7% das pessoas eram negras. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública e do Unicef (Fundo das Nações Unidas para a Infância) aponta que, das quase 35 mil mortes de jovens entre 2016 e 2020 no Brasil, 80% eram de negros.

O estudo “Violência armada e racismo: o papel da arma de fogo na desigualdade racial”, do Instituto Sou da Paz, mostra que dos 30 mil assassinatos por agressão armada em 2020, 78% foram contra pessoas negras. Não seja condescendente com o racismo, tampouco seja tolerante com o racista.

As muitas faces de Muhammad Ali

Estranhei quando soube que a escritora e poeta americana Maya Angelou escreveu um livro sobre Mohammad Ali; na verdade, um belo livro, chamado “Muhammad Ali: Aos olhos do mundo”, lançado no ano de 2001.

Ambos se conheceram em Acra, Capital de Gana, em 1964, quando um grupo de ativistas americanos, entre eles, Martin Luther King, Malcolm X, Angelou estavam no país africano, atraídos pelos revolucionários combatentes que haviam libertado o país do domínio inglês.

Muhammad Ali era uma promessa de presença não confirmada. Mas ele veio e veio bradando que precisava se reconectar com suas origens africanas. E durante duas semanas, Ali pertenceu ao povo de Gana e deu um passo importante para confirmar-se com um dos primeiros atletas globais.

Maya Angelou escreveu que o firme compromisso de Ali com a moralidade era o testamento final de sua grandeza e que Muhammad Ali não era apenas Ali, o maior, o pugilista Africano-Americano, que causava forte impacto em todas as pessoas, de todos os continentes, em todos os idiomas. Havia nele algo além do que ele era e do que falava. Uma terceira coisa, estranha, que exalava um misto de carisma e poder.

O humor era uma parte inegável do charme de Ali, especialmente nos comentários sarcásticos que fazia sobre o tratamento dado aos negros pela elite e pelo governo americano. Acerca disso, Ali dizia que era contra os ensinamentos da América um negro sobressair-se, destacar-se. Por isso muitos não aceitaram o fato de ele, um pugilista negro, ser o melhor de todos, então, a indústria cinematográfica preconceituosa, criou Rocky, um lutador branco para contrapor com a imagem negra dele.

Ali não era apenas um lutador que representou bem os tempos em que ele viveu. Recusou-se a ir para a guerra no Vietnã, declarou na mídia que não tinha nada contra os vietnamitas e colocou-se veementemente contra a intervenção americana nos fundamentos de liberdade de outro país, do outro lado do mundo, enquanto aos seus próprios cidadãos negros negavam direitos básicos. Além disso, já estava convertido ao Islamismo e a religião não permitiria que ele fosse para a guerra.

Pagou um preço alto. Foi preso, destituído de seus títulos mundiais de boxe e perdeu a licença para continuar lutando nos estados americanos. Direito restituído três anos e meio mais tarde, pela Suprema Corte, que anulou a condenação.

Maya Angelou explora a outra face de Muhammad Ali; o homem que viajou para o Iraque, usou sua celebridade para garantir a libertação de 14 reféns norte-americanos em 1990; que foi à África do Sul compartilhar a libertação de Nelson Mandela da prisão; esteve no Afeganistão na inauguração das escolas das Nações Unidas Mensageiro da Paz; angariou fundos para a pesquisa do Mal de Parkinson, para o UNICEF e para as Olimpíadas Especiais. Um homem que tomou um rumo interessante, não somente a fama lhe interessara.

O campeão dos pesos pesados que prometeu chocar o mundo, o fez quando disse não ao sistema duas vezes. A primeira quando admitiu sua ligação com Elijah Muhammad, um ativista americano, líder do grupo Nação do Islã e converteu-se ao islamismo e a segunda quando negou-se a ir para a guerra matar vietnamitas.

Rocco e seus irmãos

Rocco e seus irmãos é um lindo filme de Luchino Visconti, (1967) que narra a saga de uma família do sul da Itália que migra para o norte rico e moderno. Os efeitos da mudança são sentidos na desunião que se instala na família, a mãe e quatro filhos, cada um a seu modo, procurando adaptar-se à vida na cidade. São tão distintos uns dos outros, que movem-se com desconfiança na mesma casa. A família Parondi mudou-se para que pudessem ficar juntos, mas não estão unidos em convívio e harmonia.

As incertezas que trazem a mudança, o vaivém da grande cidade, o estado de espírito mudou. Os irmãos se redefinem, afastam-se, surgem divergências, desencontros, brigas. Em Milão não passam de forasteiros, retirantes. A travessia para a estabilidade não ocorre serenamente, porque os fantasmas dos que ficaram, assombram-lhes os sonhos.