Partidos não estruturam o voto

É certo que o voto há muito deixou de ter identidade partidária e estudos buscam analisar as razões desse distanciamento, considerando que são claros os sinais de descrença do eleitorado em relação aos partidos políticos e seus dirigentes. Fato é que os partidos não se esforçam para criar vínculos nem com os filiados imagina então, com o eleitor. Como vingança, o eleitor ignora a filiação partidária dos candidatos enquanto definem seus votos.

Isso tem feito o mesmo eleitor manifestar simpatia por candidatos de partidos adversários históricos e isto não lhes parece incoerência. Em termos práticos, os partidos apoiam candidatos cuja curva da pesquisa oscila pra cima.

A confusão observada tem sido tamanha que há dirigente partidário numa coligação formal com determinado candidato e seus filiados pedem votos publicamente para candidato de chapa adversária. O fato é que os partidos sendo insignificantes, não conseguem moldar ou conter os políticos filiados. Embora o judiciário esteja expandindo os parâmetros de seu poder para dentro da política, chama a atenção a falta de rigor quanto a fidelidade partidária.

Vê-se nos atos públicos, no material dos candidatos a aliança informal, mas não secreta de candidatos de coligações adversas sem pudor algum, compartilhando candidatos que nenhuma lógica ideológica conseguiria explicar.

A crise geral de representação política que vivemos tem empurrado questões que tradicionalmente tem sido resolvidas pelos poderes Legislativo ou Executivo para serem apaziguadas pelo judiciário. Esse fenômeno está em pleno vigor no Brasil como consequência direta da crise perene que vive o sistema político, que deixa a porta aberta para os tribunais se tornarem lugares de debates políticos.

Diante de tudo isso, o judiciário orienta decisões sobre a lealdade partidária, coligações, doações financeiras, tempo de propaganda, respostas e outros, dando um tom caracterizado por normas interpretativas, interesses, poder e até ativismo ideológico. A campanha trava num determinado momento, aguardando decisões judiciais, como no caso do deferimento de candidaturas, que em alguns casos, ocorreu apenas a 10 dias do pleito.

As disputas proporcionais são também confundidas devido a um arranjo legal porque ao votar num candidato do partido de sua preferência o eleitor pode ser surpreendido ao ajudar eleger candidato de outro partido, porque o preenchimento das vagas é baseado no cálculo dos quocientes eleitorais essa incongruência acaba elegendo um candidato com menos voto.

Via de regra, as campanhas eleitorais são regidas por incoerências programáticas múltiplas. Esta não seria exceção.

Há os outsiders

Os movimentos recentes pregam a renovação política, inclusive com a apropriação da atividade política pelos outsiders, que invocam para si o interesse em modificar o que há de errado, dentro de suas áreas de especialização. Na contramão dessa tendência, teremos um número recorde de senadores findando seus mandatos e concorrendo à reeleição, fazendo o pleito de outubro ter o maior número de senadores tentando se reeleger dos últimos 24 anos, segundo matéria que li no site do Senado.

A cada eleição o Senado renova-se parcialmente, seria portanto interessante checar onde e como os candidatos ao Senado construíram suas carreiras e escreveram suas histórias de vida profissional. Não, não adianta desfiar um rosário curricular de atividades parlamentares e cargos exercidos no executivo para postar-se como candidato exemplar. Tem-se aceitado todo tipo de candidatos e uma condição porém, deve ser observada pelo eleitor: que não pese contra o candidato nenhuma suspeita de haver recebido propina de empresas em troca de direcionamento em obras e não ter envolvimento com nenhum outro caso vergonhoso, como por exemplo, a compra fraudada de ambulâncias com recurso de emendas parlamentares.

Cabe ao Senado Federal a iniciativa da lei, mas não somente isso. O senador tem poder de decisão sobre questões diretamente associadas à federação e sua participação não é somente na iniciativa da lei. O Senado, como um órgão de representação, deve  exercer em sua plenitude o poder que a Constituição lhe atribui, que é o poder de legislar e reverter o quadro que assinala que a maioria das leis são de autoria do Executivo, apesar do Senado ser uma  instância de poder relevante.

Tanto que é parte importante do conjunto de instituições que definem o programa do Estado para o controle do crime, das infrações e penas. Estamos num momento que pede o efetivo combate ao mau uso dos recursos públicos, punição rigorosa aos crimes cometidos contra a administração pública, além de efetiva política de controle da criminalidade, com a organização de respostas rápidas ao crescente índice de violência. Não temos uma bancada da segurança e o Senado tem sido um poder ausente nessa discussão.

O custo ou malefício de um ato criminoso de qualquer natureza, não pode servir  um incentivo para que crimes sejam cometidos à luz da certeza de que o cumprimento das leis atuais não se efetivarão na captura e condenação justa dos criminosos. Isto sim, afetaria de maneira positiva o padrão de votação das leis sobre as matérias penais e de segurança.

Voto descolado

Está difícil entender o que move o eleitor de um lado para outro em completo descompasso com a coerência, colocando no mesmo cenário políticos de práticas divergentes, adversários, rivais.

Os eleitores estão literalmente ignorando as coligações formalizadas lá em cima, pelos Diretórios Nacionais dos partidos e disparando para todos os lados quando o assunto é apoio aos candidatos. Uma campanha estranha onde adversários históricos dividem espaço no adesivo e banner das campanhas.

Intriga, embora eu entenda que o jogo eleitoral nem sempre seja pautado pela coerência. A maioria das coligações e mesmo apoios velados são concebidos para  atender a questão nacional dos partidos e candidaturas  majoritárias e por isso, paga-se o preço de bater de frente com as críticas e falta de credibilidade por essa flexibilização escandalosa que abriga no mesmo seio   candidaturas de posturas absolutamente adversas e contraditórias.

Considero importante manter a pluralidade da sociedade representada nos partidos políticos, todavia, a fragmentação do sistema partidário é uma realidade e a necessidade de conciliar pensamentos e interesses tão díspares trazem inevitavelmente abalos para a coalizão. É a tensão criada pela disputa por espaço. Percebe-se que a formação de coligação é de caráter temporário e por mais inconsistente que seja é uma potente estratégia para se eleger considerando uso compartilhado de recurso, de tempo do horário político no Rádio e TV.

Sem tentar estabelecer vínculo algum com ideologias, creio que o voto deste ano será definitivamente em nomes e conceitos e enquanto não for levada a cabo a Reforma Partidária suprimindo o absurdo de termos 35 partidos políticos registrados e aptos a lançarem candidatos, muitos dos quais, sabemos que prestam ao papel de serem partidos de aluguel, através dos quais os  partidos grandes atacam os adversários. Ainda, não se pode esperar coerência de um sistema político anormal, onde poucos parlamentares tem, de fato poder de influenciar as discussões no Congresso.

O voto dos indecisos seguirá na mesma medida descolado dos contextos lineares e lógicos, acentuando a porcentagem de alianças inconsistentes, concretizadas, ignorando por completo as idiossincrasias nacionais e estaduais.

Há pesquisas que mostram que a maioria das coligações efetivadas são ideologicamente desconexas, tem aumentado gradativamente e atinge todos os estados e em todos os níveis de candidaturas e nem sempre, ou quase nunca, guardam entre si, interesses comuns.

Alguns são bons. Outros ruins. Nenhum é perfeito

A política não separa o individuo de tudo, não confina a pessoa em si própria, não fecha todos os horizontes, não proíbe buscar o frescor e reciclar as coligações. Não é regra política que as conversas sejam tão defensivas, cheias de metáforas, quando não há o silêncio desconfortável.

A política remete à ideia de democracia e esta pressupõe a participação do eleitor, de modo que, é praticamente impossível imaginar uma democracia sem voto, embora o voto seja um indicador insuficiente de democracia num sistema político.

Para garantir a efetividade nessas eleições, o voto consciente seria o voto de conceito, o voto dado numa ideia pontual, numa característica marcante, num projeto e discurso focados, cujos candidatos rebatam notícias falsas com fatos e números, candidatos que lêem e não apenas repassam dados aleatórios repassados por pseudos mentores intelectuais, para confundir a opinião pública.

É lamentável que grande parte dos eleitores vão para os locais de votação sem ter ideia clara em que projeto estão votando. De forma fragmentada, levam rabiscos dos números dos candidatos e guardam vagas promessas que ouviram nos programas eleitorais.

Portanto, sendo a política uma atividade exercida por seres tão diversos quanto contraditórios, alguns serão bons, outros ruins e nenhum é perfeito. Grande parte dos políticos tem ligações intrínsecas com a ganância, com a sublimação do foco em si mesmo, o que, de certa forma cria o ambiente favorável para a implantação de ações políticas predadoras.

Nas eleições de 1959, a população da cidade de São Paulo votou em massa num rinoceronte, chamado Cacareco para vereador. O momento era de insatisfação imensa com a classe política local e a popularidade do rinoceronte que viera por empréstimo para a inauguração do zoológico de São Paulo inspirou a manifestação de protesto dos eleitores. No final da apuração, Cacareco surpreendentemente recebeu quase 100 mil votos.

Em 1988 alguns jornalistas irreverentes e críticos da classe política do Rio de Janeiro, lançaram a candidatura do macaco chamado Tião, a prefeito da cidade. O Macaco Tião era muito conhecido por ser temperamental e nos rompantes de fúria, jogava restos de comida e fezes nos visitantes do zoológico. Obviamente a votação foi anulada, mas estima-se que Macaco Tião tenha recebido mais de 400 mil votos.

Alguns tipos populares surgiram depois e arrebanharam milhares de votos de eleitores igualmente decepcionados e confusos.

Pode ser que a expectativa da renovação não se cumpra nesse pleito, mas pode ser agora a hora de arejar os grupos políticos tradicionais

Atores influentes, jogadores e aliados

Discute-se muito sobre quem seriam os atores a exercer maior influência nas eleições deste ano, no entanto, a discussão pode ser ampliada abrangendo os elementos que tais atores estariam usando ou ameaçando utilizar para garantir êxito no processo, o que vai do poder econômico, ao jogo de cenas e ameaça de se revelar segredos de bastidores de um passado recente.

A base aliada da maioria dos grupos políticos está sendo construída nos termos elaborados pelo sociólogo Zygmunt Bauman, quando ele formulou a teoria social do amor líquido, marcado pela máxima de que o importante é “parecer” e não “ser” nesse mundo moderno, que falta pontos sólidos para nos referenciar, o que faz com que os relacionamentos, mesmo quando aparentam certa fidelidade, se desmanchem no ar, dada a fragilidade dos laços que unem os protagonistas também nos embates políticos.

Nesse sentido é lamentável que o espaço político esteja sendo usado individualizado para lustrar biografias, postergar a consolidação de alianças e aumentar o preço do passe de certos jogadores.

É natural que, em algum ponto até da pré-campanha, haja enfrentamentos incisivos, mas a regra e não a exceção é conduzir os ataques pelo viés republicano, ou seja, com respeito. Há no ar vozes clamando por mudanças, por renovação, há pessoas entusiasmadas, com pensamento organizado se movimentando nesse sentido.

Ator influente poderia ser a mídia. Mas não entendo a insistência de se utilizar entrevistas para perguntar para um candidato sobre a vida de outro e demorar um bloco ou um parágrafo para interessar-se pelas propostas de reformulações de leis, pelas teorias de estabilidade econômica ou plano de governo. O momento caos não merece ser reverenciado nem instigado.

Mato Grosso tem sido o estabilizador da economia brasileira nestes últimos anos e assim deve continuar se você observar atentamente que podemos requalificar as lideranças do estado, ampliar as oportunidades e caprichar mais no que nos propomos fazer como candidatos ou eleitores, pois há áreas em que tudo está sendo deixado por fazer.

Enfim, surge o nome do verdadeiro ator, do jogador e do aliado que entrará em cena no fatídico 07 de outubro: o eleitor. Alguns eleitores sequer identificam os partidos, em outros casos, a identificação partidária dura apenas o período eleitoral, o que faz com que as variáveis ideológicas percam espaço para outros elementos. Há, como esperado, um declínio substancial de interesse por partidos, que em outro tempo, catapultados pela polarização, foram atores importantes nas eleições.
Vês?

Novamente há um espectro que molda a teoria do amor líquido a nos espreitar: estamos ansiando por projetos prontos, completos enquanto deveríamos nos ocupar de arregaçar as mangas e ajudar a construir tais projetos.

A política não é uma escola de produzir vilões

As pessoas, cenários e eventos não estão congelados no tempo. Eles são processos e os processos, por definição, são sujeitos a mudanças constantes e evoluções em muitas direções.

Além disso, eles carregam em si um monte de contradições. É exatamente isso que torna o processo político dinâmico, contraditório e apaixonante.

Nas últimas semanas assistimos uma série de eventos, encontros e falas verdadeiramente impactantes. Pesquisas de intenção de votos, possibilidades de coligações inimagináveis, alinhamentos de discursos, comparações com situações de um passado recente e fotos, muitas fotos para mostrar que estão se movimentando, mudando de cidades e de palanques.

E você engrossa o percentual dos eleitores que diz que não acompanha a política e sequer se importa em conhecer os candidatos. Isso não pode ser sério! E o que significa seu desinteresse para a política e para a democracia?

Todos nós formamos expectativas e acabamos ficando desapontados com o corporativismo, com a corrupção, com os perfis simpáticos criados para enganar o cidadão. Lembre-se que os políticos saem do nosso meio, não possuem poderes mágicos para resolver nenhum problema e são, assim como eu e você, pessoas imperfeitas. Não são, portanto, heróis infalíveis nem vilões.

As candidaturas podem ser marcadas por polêmicas, mas que sejam também repertórios de boas demandas. O ambiente onde transitam os políticos não são arenas de guerra. O que implica contudo assegurar, que este não é um mundo de evidências gentis.

Leituras e estratégias colocadas à luz do dia exporiam obstinação e teimosia, traições e negações, que faria qualquer explicação, mesmo de gênios brilhantes, perder-se.

As pesquisas divulgadas enfatizam a falta de interesse dos cidadãos pela política, a desconfiança nas propostas e apontam a tendência de elevado número de pessoas a anular o voto. Claro que isso é lícito mas é angustiante o desperdício da oportunidade, num momento que o número de eleitores aumenta e encolhe o interesse e a confiança na política. Esse abismo real precisa ser revertido.

Em meio as todo esse barulho, ouso afirmar que a sede do governo, do Parlamento estadual e do Congresso Nacional não são escolas que produzem vilões. Façamos uma distinção. Os que por ventura estão lá foram pinçados equivocadamente da sociedade e merecem ser alijados do sistema, por serem assumidamente brandos no exercício do poder, desleixados ou por manterem-se perto demais de interesses conflitantes.

Pode ser que não tenhamos debates públicos apaixonantes, que sejam então civilizados e atraentes porque o público está efetivamente disperso e eventualmente pode despertar para votar em candidatos independentes o suficiente para sustentarem suas candidaturas fora do sistema de alianças tradicionais.

Igualmente credenciados

As mulheres têm feito progresso na arena política. Ainda assim, estão sub representadas e são menos propensas a concorrer a cargos políticos em todos os níveis de governo, do local ao nacional.

As mulheres representam mais da metade dos eleitores brasileiros e, por mais que tenham progressivamente elevado a participação como candidatas nas eleições e contam com a existência da lei que obriga a aplicar a cota de 30% de candidaturas de cada sexo, é difícil, senão constrangedor, tentar explicar a baixa representatividade política que as mulheres exercem no cenário político brasileiro.

Ocupam pouco mais de 10% das cadeiras no Congresso Nacional, o que é a mais baixa representatividade da América Latina e uma posição humilhante diante da média mundial de 23,6% de parlamentares federais mulheres.

Em 2017, a Inter Paliamentary Union classificou o Brasil na 152ª posição entre os 190 países que informaram o percentual de cadeiras ocupadas por mulheres nos respectivos Parlamentos. E Mato Grosso está entre os 3 estados brasileiros que não elegeram nenhuma deputada federal ou senadora.

Um levantamento realizado com cerca de 188 países identificou que a maioria deles adota algum tipo de cota e que, naqueles em que não há cotas previstas em lei, elas são praticadas por iniciativa dos próprios partidos políticos.

Na Alemanha, no Reino Unido, na Argentina, no México, os partidos reservam entre 30% a 40% de suas candidaturas para mulheres. Entretanto na Bolívia, que ocupa a segunda posição como o melhor país do mundo quanto à equidade de gênero no parlamento, os partidos reservam a metade de sua lista para candidaturas femininas.

No Brasil, a legislação eleitoral e partidária estabelece o percentual mínimo de 30% de candidaturas de cada sexo, aplicação mínima de 5% dos recursos do Fundo Partidário em programas de promoção da participação política das mulheres e que 10% do tempo de propaganda gratuita no rádio e televisão sejam destinados à propagação da participação das mulheres na política.

Registra-se que muitas candidaturas femininas prestam-se somente para o preenchimento formal das vagas, (candidatas laranjas). O percentual de mulheres eleitas tem sido infinitamente inferior aos 30% das candidaturas femininas registradas.

E, em muitos casos, os partidos optam por burlar a lei e sequer registram candidaturas femininas. As sanções, em alguns casos tem resultado em cassação coletiva de mandatos. Os eleitos recorrem e continuam recorrendo… quase sempre no exercício de seus mandatos.

O Instituto Patrícia Galvão alerta que se não fosse adotado o sistema de cota, apenas no ano de 2118, as mulheres alcançariam a igualdade na representação política com os homens. Ainda, de acordo com o Tribunal Superior Eleitoral nas eleições municipais de 2016, de cada 10 concorrentes sem votos, nove eram mulheres.

As repetidas afirmações sobre as dificuldades de encontrar mulheres com perfis de candidatas, resvalam no senso comum e não refletem a verdade. O exercício da política ainda é uma atividade predominantemente masculina e machista, resultado de séculos de dominação e discriminação imposta ao gênero feminino.

O interesse pela política cresce, a fé diminui

Considero o voto nulo um ato muito extremo. Porém, infelizmente vários indicadores mostram que os eleitores não estão em conformidade com os candidatos, menos ainda com os partidos.

É difícil de prever, mas, segundo analistas, não será surpresa se tivermos o maior índice de votos brancos e nulos desde a volta das eleições diretas no país. Segundo uma sondagem do Datafolha, feita no final de janeiro, um de cada três brasileiros pretende anular o voto para presidente nas próximas eleições.

Em seu discurso de despedida, Barack Obama disse que foi nas ruas que ele presenciou o poder da fé e a dignidade silenciosa dos trabalhadores, que ele aprendeu que a mudança só acontece quando as pessoas comuns se envolvem, se engajam e se reúnem para exigí-la.

Em tempos de dificuldades, quando o país parece desmanchar-se à nossa frente devido a fraqueza política, as coligações fragmentadas, eleitores divididos e mídia tendenciosa, é que precisamos nos envolver efetivamente no processo eleitoral e votar com responsabilidade. Senão, essas deficiências serão exploradas por candidatos fortes, carismáticos e interesseiros.

Os eleitores estão pressionados. As pesquisas, mesmo refletindo a verdade, são canos condutores para levar o eleitor ao resultado que pretendem impor: ao desânimo e a falta de fé. Mas há algo de estranho sobre esse momento em que o interesse na política cresce nas mídias enquanto a fé na política diminui.

As redes sociais invadiram a vida das pessoas, dominaram os conteúdos políticos, fazendo circular matérias verdadeiras e falsas. E queiramos ou não, todos nós nos tornamos produtores dos conteúdos que alimentam as redes sociais.

Tocqueville, quando escreveu sobre a liberdade e a igualdade, revelou-se temeroso quanto a tirania que a maioria poderia exercer sobre as minorias, o que acarretaria no desenvolvimento de uma sociedade intolerante que definiria os hábitos e valores de tal forma personificados, que excomungaria as manifestações que escapariam do que essa maioria estabelece como a verdade dos fatos.

Reconhece essa tirania em algum momento quando se expõe um pouco mais nas redes sociais? Mas, vejamos por outro lado. Está mais fácil fazer-se ouvido, tornar uma voz que pode influenciar o voto.

Se usadas com honestidade, as mídias sociais podem ajudar a virar o jogo e evitar que nos conformemos em votar em eventuais bombeiros. A imprensa livre tem um papel extremamente forte nesse processo, partindo da forma como divulga os escândalos, como acompanha os projetos públicos em andamento nas casas legislativas, como coloca-se contra à corrupção, sem contudo, criminalizar a atividade política e os políticos.

Todos querem ser candidatos

Mesmo no sistema político notadamente apodrecido, “todo mundo” quer ser candidato; em que pese as razões legítimas para muitos não confiarem na política; o fato é que as histórias geradas ou engrandecidas pela mídia nos últimos anos não esfriaram o frisson de tentar uma cadeira ou continuar a carreira política.

Seria o idealismo, ideologia, o fascínio pelo para exercer o poder de mando e influenciar pessoas ou porque querem mudar o mundo?

Ser candidato não é fácil desde a filiação partidária, porque a relação dos candidatos com os partidos é mais caracterizada pelo desinteresse (de ambas as partes) do que pelo acolhimento e abraço a determinadas candidaturas.

O começo deve ser sempre devagar e com cautela. Afobados, mesmo com patrimônio financeiro considerável e espólio político interessante são esmagados pelo sistema, pelo jogo de bastidor comandado pelos caciques que puxam o protagonismo político para si. Um exemplo clássico? Dória.

Não diria que o país perde grande coisa com o enfraquecimento da campanha de Dória, mas o partido perde uma grande oportunidade de abertura de atrair um público novo, de refrescar as discussões políticas. Mas quem quer inovação?

Creia-me, a maioria dos políticos não são tipos comuns. São homens de lideranças concentradas nos seus redutos, não gostam de vida sossegada, não abrem mão da continuidade, do conforto dos gabinetes, do staff generoso que só fala o que o chefe quer ouvir.

Tentar mostrar os políticos e os possíveis candidatos como pessoas comuns serve apenas para diminuir o fosso que separa o povo da política, para diminuir certo ressentimento. Tipos comuns não acabam na liderança de movimento algum. Por outro lado, tipos comuns não tem a privacidade invadida nem tem seus gestos, declarações, roupas e interações examinados por um microscópio julgador nem são dominados pelo clima tenso de opinião sobre seus projetos.

Há quem queira ser político porque quer acabar com “essa história”de usar o dinheiro da classe média para implantar programas para beneficiar os pobres,(ignoram que isso chama-se programa de inclusão social); há quem queira ser político porque é possível reconstruir uma nova “direita”no país, com segurança baseada no “tu me matas ou te mato” e queimando em praça pública bruxas que falam em igualdade de gênero.

Há quem queira ser candidato porque a saúde está um caos, como se fosse possível analisar a saúde desconectada da transversalidade que a envolve, sobretudo, a educação e economia. Enfim, há muitos que querem se submeter a votação no ano de 2018 mas não tem discurso para enfrentar uma multidão de no mínimo 20 mil pessoas.

Tudo se articula no discurso do mundo político, onde os recursos públicos embora pareçam inesgotáveis, não o são. Aqui, a votação da PEC dos teto dos gastos (Projeto de Emenda Constitucional) que já recebeu mais de 40 emendas parlamentares, depende da aprovação em segunda votação para entrar em vigor. Brasília aprovou a Reforma Trabalhista, que desde o dia seguinte enfrenta contestação na justiça. Esse mundo que você quer salvar é feito de desigualdades; falta moradia; pessoas ficam semanas em cadeiras de fio no corredor do pronto-socorro esperando que um médico de alma caridosa o escolha para salvar; a educação não é acessível a todos e o desenvolvimento humano é tragicamente afetado pelas diversas crises econômicas e políticas que atravessamos.

Não vai acontecer, nem agora nem no curto prazo nenhuma refundação da Republica brasileira, mas seria bom, para começar, discutir o respeito ao contraditório e tentar conter o discurso de ódio, porque senão como os homens públicos irão a público defender suas propostas?

A tensa separação dos poderes

São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário. É o que consagra a Constituição Federal de 1988, em seu artigo 2º, tratando da separação de Poderes no estado brasileiro.

Porém, não é de hoje que as disputas entre os Poderes, sobretudo a flexibilização da fronteira entre a política e o Judiciário, afetam o equilíbrio das relações institucionais.

Logo após a independência do Brasil, foi adotada a separação dos quatro Poderes que existiam: Legislativo, Executivo, Judiciário e o poder moderador, exercido pelo imperador,  que tinha autonomia para interferir nos outros três.

Com a proclamação da República em 1889, extinguiu-se o poder moderador e a autonomia dos Poderes foi violada até a constituição de 1988, que definiu de forma clara as prerrogativas de cada um com respeito às suas atribuições e o exercício estrito às suas funções.

Apesar de toda clareza do texto constitucional, são várias as passagens que autorizam o exercício de uma função por um poder que, em regra, seria de outro, sem que, com isso, se caracterize usurpação de competência de um poder por outro, o que explicita que a independência não é lá tão absoluta assim.

Pode ser a contemporânea flexibilização dos costumes, novas formas de relacionamento e até a ampliação das atividades políticas e as devidas implicações legais; a verdade é que não há mais uma rigidez na separação efetiva de Poderes.

O Legislativo chiou, encorpou e ganhou a queda-de-braço. Peitou o SFT, alegando que o mesmo não tem prerrogativa para afastar parlamentares do mandato, porque isso feriria exatamente o princípio de autonomia dos poderes.

Agora o presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros Jayme de Oliveira entende que a real violação da independência dos Poderes está no fato de o Legislativo estar expedindo alvará de soltura, o que segundo ele afronta integralmente o Judiciário.

Há quem advogue, por exemplo, o ministro Barroso, que o Supremo Tribunal Federal tem desempenhado um papel ativo na vida institucional brasileira e que certa interferência é salutar para evitar desmandos por parte de um poder em relação ao outro.

Reconhecidamente antagônicos, o ministro Gilmar Mendes usou um termo coloquial para se expressar sobre o ativismo Judiciário. Disse que essas interferências estão transformando isso aqui (o Brasil) numa terra sem dono, com investigações criminais para tudo quanto é lado e o STF acaba, em muitos casos, jogando (e julgando) para agradar a opinião pública.

Eu, leiga, aqui escrevo levando em conta as provocações que tenho lido, a reação, quase sempre destemperada de todas as partes quando reclamam. Diante das animosidades, o que não se pode perder é o respeito recíproco, nem permitir que a prepotência se sobreponha à ética do diálogo.