A política está mudando para pior

Acreditamos facilmente no que queremos e em meio a nossa grande ignorância se, ao invés de queixas, algumas justificáveis, cada um procurasse conhecer e cumprir seus deveres, dificilmente nos extraviaríamos da preocupação de saber as ações justas que devemos realizar, quais evitar, quais leis devemos obedecer e sob qual lei seremos julgados depois.

Com todo respeito às coisas pretéritas e esperanças consoladoras, é neste presente que está acontecendo novos contornos e realinhamentos políticos locais, nacionais e internacionais.

É real a possibilidade de alarmante surpresa nas eleições do ano que vem. O cenário nacional é sombrio e está recheado de pautas conservadoras e políticos idem.

A economia está ancorada nas exportações de alimentos que impulsionam o já potente agronegócio brasileiro e a política está sendo pautada pelas ações do Judiciário. Investigar que é bom ninguém quer e no auge do retrocesso em algumas delações famosas, o MP perde tempo elaborando um manual de boas práticas para a delação premiada. Não é cômico, mas vamos para as eleições sem saber se votamos nos políticos ou nos membros do Judiciário.

 

É claro que as nossas inquietações sociais são frutos de escolhas políticas equivocadas, propositais e atemporais. É fruto do voto vendido, negociado, da falta de questionamentos e negação.

Por que não paramos com isso? Porque não queremos. Por acomodação e ignorância. Entretanto é difícil acostumar-se a viver em permanente transitoriedade. E assim, num cenário que desnuda novas realidades, vamos falando de eleições com coronel, secretário de Estado e deputado presos.

Pensa que chegamos ao fundo do poço? Não! Basta lembrar da foto da posse da procuradora-geral da República. Na mesa de autoridades apenas ela, a procuradora Raquel Dodge não era investigada.

Enfim, a República que foi exaltada como “perfeita” em discurso proferido na ONU semana passada, é a mesma que conhecemos: imperfeita e corruptível, envolta no sistema político mais fragmentado do mundo, onde o pemedebismo é a cultura dominante.

E assim vamos para as eleições sem ter aprendido discutir com eficiência, a homofobia, o racismo, a honestidade com a coisa pública; sem enfrentar de frente os problemas crônicos com a educação, saúde e segurança.

Estamos falando de eleições, mas a reforma política está emperrada, sem consenso e com destaques que sequer foram apreciados ainda e o prazo para votação finda dia 07 de outubro, próxima semana.

Além disso, a maioria dos eleitores não vêm seus pontos de vista refletidos nas posições políticas de nenhum suposto líder que se apresenta para 2018.

As partes precisam se entender.

Uma moral em casa e outra na praça

Precisamos acordar com o sentimento de que algo bom irá acontecer, mesmo que ao longo do dia nossa esperança seja alvejada por fatos imprevistos e negativos.

Não alienar-se, nem tampouco entregar-se à sensação de que caminhamos para o fim do mundo, diante dos fatos que têm abalado nossos dias. Como escreveu Benedetto Croce, filósofo italiano, que foi senador em seu país: política não se faz com água benta, mas em nenhum caso, é lícito romper a fé.

Para além do inferno das delações e operações, a vida pulsa e a cidade, o Estado e o país não podem parar.

Na coluna do economista Ricardo Amorim, uma boa nova. O PIB de Mato Grosso deve crescer mais de 5% neste ano capitaneado pelo agronegócio, claro. Na contramão da notícia de Amorim, os indicadores sociais apontam que o Brasil acaba de ganhar exatamente 5,9 milhões de novos pobres.

Geraldo Alckmin lança-se efetivamente candidato à presidência da República e quer antecipar a agenda de campanha percorrendo a BR-163, de Santarém até Cuiabá, para avaliar a questão da infraestrutura no país.

Há general do Exército ameaçando intervenção militar se o Judiciário não conseguir solucionar os problemas dos políticos com a corrupção. O general já levou bronca do superior que, em nota, reafirma o compromisso da instituição com a legalidade, estabilidade e legitimidade.

Sabe que está rolando o maior festival de música do planeta no Rio de Janeiro? O Rock in Rio é um show também de diversidade e política. Onde a dragqueen brasileira, Pabllo Vittar dividiu o palco com estrela internacional e levantou o público com danças ousadas e muito carisma, mas o coro que tem unido a galera, é político: “Fora Temer”.

Tento ser otimista, porém, o ânimo se arrefece quando leio que Bolsonaro e Magno Malta lideram a votação popular para eleger o “Congressista do ano”. O consenso é sempre condicionado às circunstâncias, e neste caso é também humilhação à pátria.

Haveremos de caçar jeito de viver, de aprender com os erros nossos e dos outros e estabelecermos um parâmetro novo que nos impeça de avançar o sinal, mesmo quando o momento parecer propício e vantajoso.

Reconheço a inquietação e desordem do momento e qualquer análise crítica e séria deve passar pela construção das novas relações necessárias para elaborar um novo projeto de desenvolvimento para o país porque, da forma que está, o Estado brasileiro está incontrolável.

Eu nunca vi estes diálogos acontecerem, embora toda filosofia política prega que no âmbito do Estado, a vida política se constitui de um processo de elaboração permanente de diálogo. Quem sabe agora?

O ponto no qual chegamos deve ser tão discutido quanto à necessidade de encontrarmos uma forma de seguir adiantenuma concepção democrática de responsabilizar quem deve ser responsabilizado, cobrar ressarcimento de quem levou vantagens indevidas, garantir o direito pleno de defesa ao que sente-se injustiçado.

Mas, a vida não pode parar, as instituições não devem ficar estagnadas apesar de terem sido atingidas em sua essência. Não há mais como ter uma moral em casa e outra na praça.

Crise de imagem

crise-formasOs desdobramentos da delação do ex-governador Silval Barbosa são, não entrando no mérito da comprovação da veracidade, traumáticos. Políticos e empresários foram expostos, ridicularizados dentro de contextos que não sabemos exatamente quais foram. Além disso, as más notícias sempre alcançam uma plateia maior.

O momento requer cautela nas declarações, afinal não se sabe o que ainda pode vir pela frente. Os arranhões nas imagens devem ser gerenciados com rigor e profissionalismo.

Sobre erros, digo que ou assume ou nega, mas não se justifica. A verdade e a franqueza são, sim, estratégias de gerenciamento de crise de imagem e as explicações longas, prolixas e improvisadas apenas confundem.

Certa vez participei de palestras e treinamento de mídia com foco em restabelecimento de imagens pós crise com profissionais da Santa Fé Ideias, de Brasília. A rapidez e a quantidade de mídias disponíveis não era essa que se tem hoje e mesmo assim já se falava com o cuidado que devemos ter para que a opinião pública não seja irremediavelmente impactada com denúncias envolvendo nossos assessorados.

Vivemos hoje num mundo de tal forma interligado que o problema que em princípio, era de corrupção do ex- governador que se encontrava preso, adquiriu imediatamente uma dimensão extraordinária, resvalou de forma devastadora em vários outros personagens e ganhou visibilidade nacional.

A crise de imagem ameaça o mais importante ativo de uma pessoa pública: a sua reputação. É preciso agir rápido, retomar as atividades para que não ocorra a perda de confiança na relação entre o político e seus eleitores.

A característica mais perigosa da crise de imagem é a surpresa, os vazamentos intencionais e seletivos, notas plantadas, comentários ferinos em mídia de velocidade assustadora, como whatsapp.

Como elemento de profilaxia, é bom que o político se reconheça nesse ambiente de vulnerabilidade porque a repercussão de uma crise como esta deflagrada pela delação não pode passar sem providências quanto a versão dos fatos e má fé. É uma corrida contra o relógio para acessar as informações, refutá-las, fazer os encaminhamentos jurídicos e trabalhar a contra-informação.

Praticamente toda a literatura sobre crise de imagem de políticos, cita o caso do presidente Bill Clinton com Monica Lewinsky, 1998 como o marco da cobertura onipresente pela mídia moderna em torno de escândalos.

O então presidente negou veementemente que havia tido relações sexuais com a estagiária e essa mentira foi o passaporte para o agravamento da crise.

Pois havia prova: o fatídico vestido sujo com sêmen de Clinton. Depois disso veio a confissão e a operação que surpreendentemente restabeleceu a imagem do presidente diante dos políticos, dos eleitores e do povo americano.

Dez anos mais tarde, aqui no Brasil, um episódio de repercussão mundial envolvendo o jogador Ronaldo e 3 travestisnum motel, no Rio de Janeiro. Ainda na delegacia o craque negou a versão contada por um deles, mais tarde, ao descobrir-se gravado em imagens, o jogador e sua assessoria recolheram-se.

O caso acabou tomando outro rumo com a história da extorsão promovida pelo travesti que fizera a denúncia. Uma semana depois, a queixa foi retirada e Ronaldo abatido veio a público desculpar-se por haver se descuidado da imagem ao meter-se numa situação confusa, envolvendo, bebida, sexo e orgia.

Mudanças para manter os velhos políticos no poder

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Na madrugada de quinta da semana passada a comissão especial da reforma política da Câmara dos Deputados analisou e aprovou mudanças nas regras eleitorais, estabelecendo o sistema de voto majoritário para deputados federais e estaduais e para vereadores nas eleições de 2018 e 2020, assim como ocorre na eleição de presidente da República, governadores e prefeitos.

Enterra-se a eleição proporcional, que distribuía os eleitos conforme a votação recebida pelos partidos e coligações para entrar em vigor o sistema pelo qual se elegem os mais votados.

Uma maneira simples de exemplificar o sistema chamado “distritão” seria a eleição passada para vereadores em Cuiabá. Se o modelo estivesse valendo, o próprio presidente do Poder Legislativo, vereador Justino Malheiros, com apenas 2.917 votos não teria sido eleito, nem em último lugar e o vereador Maurélio que ultrapassou a marca dos 4 mil votos estaria eleito, assim como a vereadora Lueci Ramos, detentora de cinco mandatos.

O sistema chamado “distritão” pode ser considerado um retrocesso por tornar mais difícil a renovação política, pois acabará elegendo os candidatos mais conhecidos e desprezará as sobras de votos.

Mas, talvez seja exatamente aí que o distritão apresenta a correção de uma disfunção, pois ataca a estratégia dos partidos que lançam candidaturas de puxadores de votos, fenômeno conhecido como “efeito Tiririca”, porque o parlamentar ao eleger-se pelo PR foi muito bem votado e a sobra dos votos garantiu para o partido mais 3 parlamentares, que ele sequer conhecia.

Desde o ano de 2015 a Associação Brasileira de Ciência Política tem criticado e se colocado contra o modelo que não é utilizado em nenhuma democracia no mundo e estimula o personalismo em detrimento do enfraquecimento dos partidos.

Esse sistema recompensa o esforço individual para se eleger, favorece enormemente quem já tem mandato, além de jogar candidatos do mesmo partido uns contra os outros .

Os deputados divergem sobre o sistema que foi incluído as pressas na reforma política por meio de destaque do PMDB, para agradar o Presidente Temer, um defensor do modelo, com carimbo para já valer para as eleições do ano que vem.

O texto aprovado pela comissão especial, não está finalizado e ainda pode ser alterado. Outra medida aprovado seria a extinção da figura do vice, em todas as esferas do poder e cria o Fundo Especial de Financiamento da Democracia, que contará com 0,5% das receitas líquidas do orçamento, o que corresponde hoje a cerca de R$ 3,6 bilhões.

Não seria uma alternativa para acabar de vez com o financiamento das empresas, considerado a origem do relacionamento promiscuo e da corrupção? Mas enfim, as campanhas que sempre foram milionárias e bancadas com dinheiro do empresariado, continuará milionária, mas nós pagaremos a conta.

Os parlamentares têm pressa para aprovar as mudanças eleitorais para que elas já possam valer em 2018. O texto, porém, precisa ser confirmado pelo Plenário da Câmara dos Deputados e depois enviado para o Senado. Para isso, as mudanças têm que ser votadas e promulgadas até 7 de outubro.

Diário de um país que vai mal

promo-ogA crise que instalou-se no Brasil é predominantemente política e será decidida num palco igualmente político e com a participação do cidadão, que tem a arma para expressar a insatisfação e decidir se quer por um fim ao governo ou perpetuá-lo.

A Comissão de Constituição e Justiça da Câmara Federal rejeitou, por 40 votos contra 25, a denúncia contra o presidente Michel Temer depois de um vergonhoso troca-troca de deputados na Comissão, que o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Claudio Lamachia, classificou como deboche à sociedade. Num mundo ideal isto seria indecoroso, mas este não é um mundo ideal.

Porém, creio que estes 40 deputados que em período de recesso retornaram às suas bases estão levando puxões de orelhas de seus eleitores por terem vinculado seus nomes a um presidente que tem apenas 7% de aprovação.

Em agosto, o voto sobre a abertura do processo será nominal, no microfone e pode ser que os parlamentares, agora na totalidade, sintam-se pressionados pela proximidade do ano eleitoral e segundo dizem, a maioria faz jogo duplo com Rodrigo Maia, que tem se articulado transversalmente para assumir a presidência.

O próprio Temer diz que o país está avançando, que as reformas estão saindo do papel, mas o que se viu esta semana foi por um lado, a dificuldade do governo em fechar as contas e apelar para o aumento de impostos elevando a alíquota que incide sobre o preço dos combustíveis, em 41 centavos por litro de gasolina e de 21 centavos por litro de diesel.

Na outra ponta a liberação desenfreada de recursos de emendas parlamentares para deputados federais em troca de votação contrária a autorização para abertura do processo contra Temer na CCJ.

Parlamentares denunciaram a compra de apoio com dinheiro público. O governo por outro lado, explica que as emendas têm prazos e devem ser distribuídas à medida que o ano Legislativo avança, mas não consegue explicar por que valores tão expressivos foram liberados justamente nos dias que antecederam a votação do parecer e sobretudo para os parlamentares envolvidos no troca-troca de lugares na Comissão.

Embora o presidente Temer tenha afirmado recentemente que o país está no rumo certo, não creio. Além da desconfiança política, do aumento dos impostos, o Brasil tem 19 das 50 cidades mais violentas do mundo em dado divulgado por uma organização de Segurança vinculada a ONU.

Faço um paralelo distante com o filme “Os Sete Samurais”, de Akira Kurosawa, que além de retratar no geral o caos político e social do Japão no século XVI, desliza sobre a saga de uma aldeia japonesa, onde os camponeses foram completamente esquecidos pelo governo, o Estado deixou de existir na vida dos aldeões e durante certo tempo ninguém os governava, ninguém os assistia, ninguém os defendia e instalou-se ali a violência e o caos. Tudo muda com a chegada dos sete samurais à aldeia.

O grupo armado investiu-se da autoridade do Estado, garantiu a manutenção da paz, ganhou a confiança e estabeleceu com os camponeses uma nova ordem política.

Votar por decepção

O exercício de um cargo político consiste em negar o interesse próprio e agir em função da representação, certo? Não, não aqui. Nesse sentido, a política tem tido uma inclinação para ser uma gestão de realizar desejos pessoais.

Inclinações não são boas moedas políticas, mas eu estou inclinada a votar não por ideologia, não por crença, não por civismo, não por prazer, tampouco por ser obrigatório. Desta vez, vou votar por decepção mesmo. A maioria dos dias tenho convicção em quem nunca votarei, em outros dias, sigo incerta, sabendo que tenho a responsabilidade de ajudar eleger governantes que saibam pelo menos, governar a si mesmos. Votar é uma extensão da liberdade de escolher e seria bom retomar o entusiasmo pelo voto, por um projeto pelo Brasil.

Conversando e lendo sobre a política australiana, entendo que Austrália é uma democracia avançada, que não permite a prática política fora do sistema democrático, mas há um certo cinismo e depreciação acerca da política e dos políticos e esse modo de encarar a política está instalado dentro do sistema, é meio universalizado.

Ao cometerem atos ilícitos, os políticos já renunciam, afastam-se dos cargos públicos, porque sabem que o povo implacavelmente os tirariam e os expurgariam da vida pública, inexoravelmente. Lá, a palavra cidadania está mais associada à ideia de garantia dos direitos do que de participação e na medida em que as pessoas conquistam ampla atuação na vida privada, elas excluem-se da vida política.

Com tantos temas românticos, por que escolhi escrever sobre política? Qualquer coisa sobre o mundo que nos rodeia, que tal discorrer sobre dicas de beleza, qualquer coisa, menos política! Mas a política nos rodeia, nos contamina e diante dos papéis sociais que exercemos, a política tem a ver com nossa convivência em sociedade.

Inevitável fugir do tema, que nem sempre é uma doutrina pacífica, mas esse desencanto com o mundo é um sintoma reconhecido da ansiedade pós-moderna, uma maneira de sentir e experimentar a vida fragmentada, remendada e fadada a erros.

Na visão do sociólogo alemão Max Weber não existe uma oferta política boa em si mesma, não existe um bom programa político, não existe um candidato bom. O que existe é uma oferta baseada na demanda. Os partidos são como empresas políticas de representação, que fazem parte da concorrência do mercado de consumo eleitoral, um negócio, às vezes rentável, que oferece os candidatos com os perfis que a sociedade demonstra querer “consumir”.

Quem tem medo de mudança?

Mesmo não sentindo-me bem governada, não penso habitar outra República. Aqui colocada a esperança no nível adequado às coisas inconcebíveis, como missão de santo em causas impossíveis, entre curiosidade, preocupação e especulação, vamos marcando a existência entre prazer e dor, nos conformando com regulamentos que oram apertam, ora afrouxam o homem em seu insulamento.

Se eu pudesse escolher um novo lugar de nascimento, escolheria nascer numa sociedade de homens mais íntegros do que eruditos e que ninguém se pusesse acima da lei. É muito difícil ser um “cidadão” neste país!

Suponhamos vencidas as primeiras dificuldades, as reformas capengam e os estresses são palpáveis. Visitando o site do Congresso Nacional é possível perceber a obtusa concentração de homens estranhos, sem almas fortes, sem expressão de virtudes e com zelo excessivo pela aparência.

A maioria desses senhores protelam deixar a base do governo, temendo ficar fora de alguma vantagem e mantendo-se alinhados, colocam suas bases eleitorais em severo risco. São assim…acendem uma vela para Deus e outra para o diabo.

No entanto, cada um aliena o bem que tem, daí decorre a espetacularização da nossa miséria cotidiana, onde os grupos políticos que discutem nosso destino se organizam a partir da soma das vontades particulares, da distinta designação de suas vaidades.

Que horrível agitação experimentamos nós testemunhas de tantos julgamentos. No Supremo, as novidades não cessam. Um susto por dia!

Esta semana julgam as contas de campanha da chapa Dilma/Temer que, quase unanimemente, os políticos fingem que nunca existiu. A impressão que se tem é que Temer praticamente nasceu no posto que ocupa, dado o pânico de se discutir honestamente o assunto.

Não se trata de escolher uma situação mais favorável para o Brasil encerrar o ciclo presidencial, trata-se de fazer Justiça, de deixar a lei cumprir-se, como tem que ser. Se a chapa cometeu crime, que seja cassada. O drama que disto resultar, tem que ser resolvido após a cassação.

Contudo parece que a instituição suporta bem as idiossincrasias do nosso sistema democrático e então, sem temer!

Mais do que reivindicar direitos cidadãos, do que marcar postura de oposição, essa é uma abordagem política, que postula ao STF a possibilidade de promover o reencontro do cidadão com a esperança de ir vendo o país livrar-se de um a um dos homens investigados por corrupção, estejam estes, nos cargos que estiverem.

Recomeçar é uma tarefa que os brasileiros comuns executam todos os dias. O país não há de parar e homens íntegros ainda existem, em todas as esferas da vida pública.

Sem receita de bolo

Quem está no comando do país não importa tanto quanto ver em curso a reforma política que o Brasil urgentemente precisa. Na opinião de analistas políticos e economistas, o presidente Temer tem melhores condições para comandá-la, dado ao relacionamento com os deputados e senadores para aprovar esta e outras reformas, porém, os fatos recentes que envolvem o presidente em práticas suspeitas podem fazer declinar tudo isso.

Crises são imponderáveis. O fim é incerto e endossar uma saída ou outra, embora temerário, vai fazendo-se necessário, para dar contorno final à crise.

Não há receita para ser honesto, mas provavelmente a ética política passa longe de malas monitoradas com R$ 500 mil; passa longe de equipamentos para invadir a privacidade dos outros, arrancando-lhes segredos inconvenientes mais do que traições e desonestidades políticas.

Sabemos enfim, que a ética política passa longe de comprar silêncio, de desmoralizar quem critica o governo.

Num estudo sobre o sistema de leis nas sociedades selvagens, o antropólogo polonês Malinowski assevera que, no mundo primitivo, as leis são seguidas e não desafiadas e que a submissão às leis dá-se porque os homens primitivos têm a misteriosa propensão para obedecer às leis, por que estas não são vistas como uma mera máquina de fazer justiça em casos de transgressão e sim, como uma combinação complexa de coerção e crença que leva as pessoas a manterem suas obrigações.

Enfim, se por fatores sobrenaturais ou em nome do sentimento de honra, o fato é que nenhuma sociedade pode funcionar eficientemente, a menos que as leis sejam obedecidas espontaneamente.

No mundo contemporâneo, além de descumprirem as leis, todos os impasses jurídicos são protelados. Tanto na Lava Jato, no caso da escuta clandestina da conversa com o presidente, das escutas igualmente clandestinas em terras mato-grossenses.

Da parte do cidadão, há pressa de se estabelecer a verdade e de ver os culpados dos ilícitos denunciados, mas da parte política e da Justiça pode não haver disposição para concluir os processos. Estes têm a lei e suas manipulações singulares e sensacionais!

O momento é complicado. Tipo um poder vigiando a mediocridade do outro, inventando fatos, quando tudo o que queremos é encerrar logo os impasses insuportáveis da apuração dos grampos aqui e da sobrevida do presidente Temer.

Estamos enfim, entre a cruz e a espada, desviando de tentativas de manipulação de todos os lados, desconfiados, inseguros e cheios de ouvir casos de corrupção, delação, negociação, condenação e absolvição.

Pode ser que tenhamos um novo presidente, comprado, agora não sabemos com dinheiro de quem, descartando Odebrecht, BNDES, OAS, JBS, o que temos? Ou quem sabe a honestidade e a ética serão implantadas em Brasília como o valor referencial de um novo governo?

Nas mesas do poder

5772eb7b0e216345751b8998king_arthur_and_the_knights_of_the_round_table.jpegDesde a antiguidade clássica, o poder esteve vinculado aos homens que concentram em suas mãos o destino de seus contemporâneos, somando-se a isto, a extrema complexidade do ser humano e o fato de políticos atuarem dentro de instituições com capacidade de impor comportamentos, fazer promessas mirabolantes e impulsionados pela vaidade e ambição tornam-se seres suscetíveis de atos de caráter não genuínos.

Acrescenta-se ainda o fato de a política está associada a ações que implicam relações de poder, dominação e submissão no espaço público e obtém-se como resultado, um coletivo que desperta irrefragável interesse.

Infelizmente, nos últimos anos temos sido exemplos de escândalo e corrupção, mais do que modelo de democracia e de diversidade. O ciclo vicioso de votar com ignorância e falta de objetividade acabou fortalecendo a colocação de seres emblemáticos no poder, cuja derrubada do pedestal não dá-se senão com mais escândalo e tentativa de vitimização dessas figuras proeminentes que chocam o país a cada relato.

Não gosto disso! De viver a expectativa de publicação de listas, de presenciar cenas de arrependimento e delação, num ato que poupa o trabalho de quem é pago para investigar, com mecanismos próprios, sem envolvimento moral e passional nos fatos.

Lembrando que numa lista de acusação cabe tudo: desafetos, amigos traídos, traidores, delatores, detratores, ricos e puxa-sacos. E mais, o Manual de Cerimonial Público recomenda que em caso de haver necessidade de se trabalhar com uma lista e não havendo clareza na função hierárquica dos indivíduos, deve-se optar por colocar os nomes (dos amigos delatados) em ordem alfabética, para facilitar a conferência.

É desconfortável perceber a facilidade colocada no ato de roubar, roubar, depois revelar e ter a possibilidade de viver livre. A pena, cumpre-se falando do mal de si e implicando outros. Falar a verdade, algo que temos ensinado aos nossos filhos desde pequenos, virou prêmio, absolvição; não entrando no mérito da legalidade, claro, mas sim, no âmbito da moralidade.

A vida privada do homem marca a forma de agir no âmbito público, portanto, a forma verdadeira de ser do indivíduo, reflete na sua forma de fazer política. Vigiai a vida pessoal dos homens em quem você pretende votar em 2018.

Lembrando que não deve mais existir seres supremos, que devemos, de uma vez por todas adentrar na perspectiva de deixar de lado o indivíduo como sujeito central da política e concentrar a atenção nas instituições.

Observando as rodadas do jogo em todas as esferas de poder “parece” que há uma tentativa desesperada de se quebrar o ciclo da corrupção, de enfrentar o fantasma que ameaça revelar-se ao aperto de cada condenação. Contudo, deve haver alguma resistência de passar o Brasil à limpo, em confrontar os fatos e perceber a incoerência do enriquecimento ilícito exibido por toda parte. Desde Cícero, 106 a.C., foi dito que “ deve-se ao nosso próprio fracasso moral e não a um capricho da sorte, que apesar de conservar o nome, tenhamos perdido a realidade de uma república”.

Constrangimento democrático

A democracia não baseia-se somente na seleção de governantes através do voto popular, onde respeita-se a decisão da maioria. Há vários outros indicadores que conceituam o Estado democrático. Democracia contempla a divergência de interesses, de opiniões, de valores e o acesso ao voto, quando votar significa liberdade, é apenas um dos mecanismos eficientes do jogo democrático.

A democracia pode ser explicada como um sistema em que os partidos favoritos periodicamente perdem as eleições, segundo um dos mais proeminentes cientistas políticos da atualidade, o polonês Adam Przeworski.

O processo democrático converge para a compaixão, acolhimento, oportunidades, diversidade cultural, racial, religiosa; por conseguinte, ninguém deve ser humilhado por causa de baixo status econômico, raça, credo, sexo e etnia; converge também os conflitos para a reconciliação pela confiança nas pessoas e nas instituições públicas.

Democracia, em tese deve gerar um estado que valoriza a igualdade, estabelece a proximidade entre o Poder Público e a sociedade através da participação dos movimentos sociais. A cultura democrática preocupa-se em promover o bem-estar social aos que precisam. E a maioria precisa por causa de um coletivo de fracassos públicos e privados.

Quase a metade dos países do mundo tem governos “ditos” democráticos. A maioria porém, enquadra-se no que cientistas políticos chamam de democracia imperfeita, devido a uma série de fatores que vai da falta de interesse na política, negação de liberdade civil para discussões de temas polêmicos antes das votações, negação ao pluralismo no processo eleitoral, influência de potências estrangeiras na política local e outros indicadores, adotados pelos editores do grupo “Economist Intelligence Unit”, algo semelhante ao que faz “The Freedom House”, no processo de catalogar como anda a democracia no mundo.  Nesse grupo de democracias imperfeitas, encontra-se o Brasil, África do Sul, Argentina, Chile, países europeus como Polônia, Romênia, Israel, Filipinas e outros.

Já democracias plenas existem apenas 28 no mundo e a lista é encabeçada pela quinta vez consecutiva, pela Noruega, eleita a melhor democracia do mundo, Suécia, Dinamarca, Finlândia, seguidos por Estados Unidos, Inglaterra, França, Espanha, Itália, Japão, Austrália, Canadá…dois países da América Latina fazem parte do seleto grupo; Uruguai e Costa Rica.

Dos 85 países restantes, cerca de 30 apresentam forma de governo híbrida, alternando fase democrática e autoritária. É o que se vê na Turqia, Equador e Quenia. Os outros são regimes autoritários sem nenhuma indicação de avanço que reflita liberdade, caso dos países do Oriente Médio, a Tailândia.

A democracia, considerando condições e circunstâncias, às vezes constrange. Os cidadãos tomam decisões que não parecem compatíveis com certos valores democráticos.  Pensou na eleição americana?

Pois é, a democracia plena permite que um cidadão, com discurso protecionista, hostil, misógino, sem conhecimento do poder criativo da diversidade se eleja prometendo levantar muros, execrando muçulmanos, negros e imigrantes.

Não será a primeira vez que a democracia americana permitirá que o candidato menos votado pelo voto direto seja sagrado vitorioso. O caso mais recente aconteceu quando o também democrata Al Gore venceu George Bush na votação popular e perdeu no colégio eleitoral. Mas lá, as regras são claras e o povo (sistema) americano efetivamente escolheu Trump.

Segundo o estudo citado, quase todas as democracias precisam e passam por aprimoramento para desgarrar-se de velhos conceitos e introduzir um novo tipo de sociedade: mais colaborativa, pacífica e igualitária.