Falha de coordenação política

No ano de 2002 presenciamos a formação de um grupo político díspar, pessoal e politicamente com um objetivo único e focado: eleger o outsider, empresário milionário, Blairo Maggi governador de Mato Grosso e derrotar o grupo político que dominava todos os setores e espaços de poder do estado, liderado por Dante de Oliveira, exímio articulador político e visionário. Como foi possível domar a vaidade, a difusão de interesses entre políticos experientes e poderosos, como Jonas Pinheiro, Jayme Campos, Roberto França, Percival Muniz? Para citar apenas o senador e os que estavam efetivamente governando as 03 maiores cidades do Estado.

Seria possível o agrupamento de políticos poderosos, de diferentes ideologias e interesses, em torno de um nome hoje? Considerando que o prefeito de Cuiabá a prefeita de Várzea Grande e prefeito de Rondonópolis não detém a experiência e expressão política de Roberto França, Jayme Campos e Percival Muniz respectivamente.

Diferentes partidos políticos obviamente têm diferentes ideologias políticas, o mesmo acontece entre as pessoas que partilham o mesmo grupo e até partido político. Cientistas políticos que estudam campanhas adaptaram dos estudos teóricos da economia um conceito chamado falha de coordenação (coordination failure), que descreve a situação oposta do que citei acima, em que indivíduos ou grupos não conseguem cooperar ou agir em conjunto, mesmo que isso seja altamente interessante ou questão de sobrevivência do grupo no poder.

Cientistas políticos analisam que as falhas de coordenação se concentram nos motivos pelos quais um projeto de poder pode dar errado no sentido de manter o grupo político unido para vencer as eleições. Um dos problemas que surge é o lançamento incompreensível de dois candidatos com posicionamentos semelhantes, que juntos poderiam ter apoio da maioria dos eleitores, competindo contra um candidato adversário de um campo ideológico diferente. A divisão dos votos dos iguais é a oportunidade que a oposição espera para virar o jogo e já começam os ruídos sobre 2026.

Alertam também sobre a ineficiência para se barrar os conflitos de interesses dentro do grupo político, quando a liderança política fraca permite que os interesses pessoais influenciem as decisões ou ações de forma a comprometer o projeto de poder do grupo, em detrimento da vaidade de alguns. 

A falha de coordenação surge porque os políticos, considerando o momento não trabalham em conjunto, não são capazes de estabelecer o consenso e garantir que todos façam a mesma escolha. Ou seja, poderiam atingir um resultado equilibrado, mas não cedem a ponto de canalizar os interesses no mesmo sentido. Isto pode levar a um resultado inesperado e favorecer a eleição de candidato que corre por fora e aparenta estar isolado e em desvantagem.

Para a eleição de 2022, o Tribunal Regional Eleitoral de Mato Grosso recebeu 499 Requerimentos de Registros de Candidaturas dentro do prazo previsto. Eram quatro candidatos ao cargo de governador e seus respectivos vices, sete candidatos a senador com os respectivos suplentes, 156 candidatos (as) a deputado (a) federal e 314 para o cargo de deputado(a) estadual. Imagino como será a inflação de candidatos em 2026, a costura política e divisão de poder para que todos caibam nos grupos políticos já instituídos ou a audácia política de um ou outro para se iniciar um projeto de poder novo.

A violência é de todos e está em toda parte

A violência é um problema social que afeta a todos os povos, independentemente da raça, idade, condição socioeconômica e cultura. A violência é tão antiga quanto todas as sociedades. A violência na sociedade existe em todos os lugares e conforme definição da Organização Mundial da Saúde é o uso intencional de força física ou poder, em forma de ameaça ou real, com alta probabilidade de causar danos, ferimentos e morte. 80% das mortes por violência ocorrem fora das áreas de conflitos armados.

Diante da impressionante, alarmante e repugnante incidência de violência ocorrida esta semana, independentemente de classe social, cor, raça, idade e método da violência, deparamos com a notícia de um adolescente de 14 anos, que usou a arma do próprio pai para matá-lo e também a mãe e o irmão ainda bebê porque os pais não permitiram que ele viajasse sozinho do interior do Rio de Janeiro para uma cidade de Mato Grosso para conhecer pessoalmente uma namorada virtual. Ao ser apreendido declarou não haver arrependimento algum.

Uma mãe e o padrasto agrediram brutalmente uma criança de menos de 2 anos; um homem jovem apunhalou a esposa e a filha de 7 anos enquanto ambas dormiam. A mulher não resistiu, a criança encontra-se hospitalizada em estado grave. Ontem, um homem foi flagrado por câmeras de segurança, andando pelas ruas segurando uma faca, havia acabado de tirar a vida da esposa e fugia com a tranquilidade de quem sabe que a justiça é pouca.

A sociedade brasileira foi construída em moldes violentos em praticamente todas as instâncias sociais numa cultura herdada, diluída no cotidiano. Fica evidente que tudo que se tem feito até agora não tem sido o suficiente para erradicar o fenômeno da violência tão evidente, em uma cultura caracterizada pelo machismo, possessividade, falta de dignidade humana e pela certeza da pena pouca, da frouxidão das leis e pela mania absurda de normalizar os atos selvagens de seres humanos.

O Papa Francisco, ao tratar da violência, citou o excesso de controle, a possessividade como arma inimiga do bem, que mata o afeto. Disse que a violência decorre, em parte pela pretensão de possuir o afeto do outro, da busca de uma segurança absoluta que mata a liberdade e sufoca a vida, tornando-a um inferno.

Michel Foucault, em Vigiar e Punir narra a execução do condenado Damiens, condenado por tentativa contra Luís XV. foi submetido a um suplício público brutal, que incluía queimaduras com tochas de cera e com metais derretidos e esquartejamento. Tirado da carroça, seu corpo foi puxado e desmembrado por quatro cavalos. Os membros consumidos pelo fogo.

O sofrimento do corpo de Damiens foi exibido para intimidar a população e comunicar que a mão do estado era dura para punir. Com a transição para o Estado Moderno, os suplícios foram substituídos pela punição moderna. Cada nação construiu seu código de punição, as penas passaram a ser calculadas de acordo com a gravidade do crime e o grau de periculosidade do criminoso. Os corpos assassinos deixaram de ser punidos e passaram a ser vigiados por sentinelas e agora a tarefa está a cargo das câmeras.

Não, não vamos voltar a era dos suplícios, deve haver medidas que contemplem o vigiar e o punir rigorosamente.

A política na terapia

Sim, a política está piorando a saúde mental das pessoas. É o que mostram estudos e pesquisas feitas no Reino Unido e Estados Unidos. No Brasil, em Mato Grosso, em meio à polarização política que não cessa e a aproximação das eleições, a política se tornou uma fonte significativa de estresse para muitos políticos e eleitores, empresários, professores e efetivos das forças de segurança. Em audiências públicas durante a semana, foram feitos relatos de servidores adoecidos por falta de melhores condições de trabalho, pela tensão e risco que a própria profissão os expõe e notadamente há a falta do apoio emocional efetivo e humanizado por aqueles que estão em posição de oferecer políticas públicas que possa minimamente reparar-lhes a vulnerabilidade.

A política coletiva ou individual tem um custo diário. Seria interessante ver até que ponto a política cotidiana afeta a saúde mental dos cidadãos de outros países menos polarizados ou com sistemas políticos diferentes. O cientista político americano Kevin Smith, da Universidade de Nebraska disse que muitas pessoas veem a política como algo que exige um conjunto significativo de custos para sua saúde social, emocional, psicológica e até física, ou seja, as pessoas estão se envolvendo na política e criando um problema de saúde pública.

Médicos ligados a Associação Psiquiátrica Americana, relataram que nunca conversaram tanto sobre política com seus pacientes, como nos últimos anos e que a política divisionista adotada em vários países (citados Brasil e Estados Unidos) tem afetado a saúde mental e trazido temas políticos para as salas de terapias como uma fonte significativa de ansiedade e negatividade, sobretudo entre os mais jovens, politicamente engajados e de oposição ao governo. Ouvidos nos relatos, os pacientes admitem que a política faz parte das razões, pelas quais, buscam a terapia.

A política não é algo que afeta as pessoas apenas a cada quatro anos durante as eleições, ela está infiltrada na vida cotidiana e tem severo impacto no nosso dia a dia. A política moderna, suas controvérsias diárias, alguns graus de incivilidade impõem um fardo emocional constante, faz desenvolver doenças, especialmente transtornos de ansiedade, depressão e do sono e os indivíduos que percebem altos níveis de polarização são mais propensos a relatar o desenvolvimento de transtornos depressivos.

Há dias leio um estudo da Queens University sobre a relação da política com o estresse, ansiedade e depressão. Os políticos não estão imunes. O estresse, ansiedade citados envolve o trato com a política, o discutir política e fazer política. Mas algo se perdeu na maneira como as pessoas pensam sobre política e o que nos é devido por coexistirmos em sociedade. Na realidade, estamos nos estressando, discutindo, divergindo de pessoas que nunca conhecemos e nunca conheceremos.

Sem paciência para terapia, tampouco competência para terapeuta, creio que a grande maioria de nós não quer viver num ambiente dividido e contencioso. Temos muito mais em comum do que diferenças, mas é uma tendência humana nos categorizar, rotular e dividir. O processo de adulterar e desumanizar nossos semelhantes é um mal antigo e isso nos leva a olhar para o sofrimento dos outros sem compreensão e empatia.

Dois egos em conflito

A sua peculiar maneira de falar, certa vez, o presidente americano Donald Trump, tentou explicar a guerra entre a Rússia e a Ucrânia: “Às vezes, você vê duas crianças brigando feito loucas, elas se odeiam, brigam em um parque e você tenta separá-las, elas, porém, não querem ser separadas. Às vezes, é melhor deixá-las brigar um pouco.” Hoje, com essas palavras, poderia estar falando de si e de seu ex-amigo bilionário Elon Musk, que se envolvem numa briga, com trocas de insultos públicos.

Embora a mídia americana e observadores políticos venham especulando que Donald Trump e Elon Musk acabariam se desentendendo, poucos previram a velocidade e a ferocidade com que a briga explodiu nas redes sociais. Afinal, trata-se do relacionamento político conveniente de dois homens com egos gigantes, que não suportam ser contrariados.

Elon Musk financiou parte da campanha de Trump e emprestou-lhe a imagem do homem visionário que abriria o caminho da vida em Marte. A poderosa aliança política e empresarial iniciou com a solidariedade e promessa de apoio de Elon Musk a Donald Trump logo após a tentativa de assassinato do presidente americano. De acordo com o site de monitoramento de financiamento de campanha Open Secrets, ao longo do último ano, as doações de Musk a Trump e outros republicanos foram enormes, totalizaram US$ 290 milhões de dólares. Por isso Elon Musk fala de ingratidão.

 A rixa entre o presidente e seu ex-assessor, Elon Musk, veio à tona, após o bilionário da tecnologia criticar o projeto de lei de impostos e gastos públicos, peça central do governo de Trump. Aí, o parquinho literalmente pegou fogo. Trump decepcionado com as críticas anunciou isso que poderia ser o fim de seu ótimo relacionamento com o bilionário. Musk não demorou e acusou o presidente de ingratidão, acrescentando inclusive, que sem ele Trump teria perdido a eleição.

Esses relacionamentos que incluem financiamento político, contratos governamentais, relações pessoais torna complicado o fim da aliança e, independentemente do rumo que a discussão tome, têm o potencial de prejudicar a ambos de várias maneiras. Segundo matérias veiculadas na mídia americana, embora conhecesse o projeto de lei dos gastos desde a sua concepção, Elon Musk estava em pleno lobby no Senado, o que é legal nos Estados Unidos desde 1946, contra o próprio governo, argumentando que o projeto aumentaria irresponsavelmente a dívida dos Estados Unidos e chamou o projeto de abominação repugnante.

Trump defende-se acusando Elon Musk de estar chateado porque seus negócios privados seriam afetados e ameaçou cortar os contratos governamentais de Elon Musk. O parquinho continuará em chamas. Elon Musk deu a entender que poderá investir muito dinheiro na oposição a Trump, inclusive aventando a possibilidade de criar um partido. Trump pode não ter muita vantagem sobre o homem mais rico do mundo no curto prazo. Cancelar ou rescindir contratos governamentais seria um processo legal complicado e demorado, e por algum tempo, o governo dos EUA continuará fazendo negócios significativos com as empresas de Elon Musk.

O que acontece quando a pessoa mais rica do mundo e o político mais poderoso têm uma briga tão acirrada? O mundo está observando e não é um cenário bonito. Donald Trump e Elon Musk voltaram seus megafones um contra o outro em uma guerra de acusações, mentiras, exageros e ameaças. O preço das ações da Tesla despencou 14% dia 04 de junho, porém, Musk insiste no pedido de impeachment de Trump e o desafiou a cortar abruptamente o financiamento de suas empresas.

A arte de comer pelas beiradas

Muitos de nós anunciamos nossos planos antes mesmo de eles estarem finalizados, por isso transmitimos meias verdades, rascunhos e tentativas de acertos. Geralmente as pessoas antecipam seus projetos para avaliar as validações, para obter comentários em retorno e para carimbar a ideia como sua antes que outro o faça. Observe que em se tratando de política, quando os projetos são demasiadamente antecipados, perde-se tempo dando explicações, justificando as escolhas, defendendo posições que não foram avaliadas pelas bases e partidos ainda.  Quando ninguém percebe nossos movimentos, ninguém pode pará-los.

Ao passo que, se os movimentos políticos forem canalizados em viagens, participação em eventos abertos, entrevistas que não comprometam a integridade do processo eleitoral que se avizinha, acaba-se conseguindo uma boa divulgação da imagem, dos projetos e abre-se caminho para a aproximação de novas pessoas, sem que esse comportamento, por ora, fale em candidatura e voto. Percebo também que, uma quase exigência do agir político é a urgente necessidade de forçar a ocupação ou ampliação dos espaços de participação e fala e somente há silêncio num espaço de fala.  

Segundo o Tribunal Superior Eleitoral, atravessamos um momento político proibitivo. Não é hora de mudar de partido, não é hora de definir candidatura ou cargo eletivo, não é hora de descartar companheiro, tampouco, aliar-se a outros. Por isso, todo movimento precipitado agora, expõe e atrai a ira, a cobiça de adversários e próprios correligionários, além de atiçar denúncias ao TRE sobre precipitações ao observar a Lei Eleitoral. Embora o político não precise fazer malabarismo para ter sua imagem destacada, para pedir votos explicitamente, ele tem apenas o curto período de 40 dias.

Na política, manter segredos, chega a ser uma subversão, porém, os cientistas políticos temem que a antecipação de movimentos políticos, impactem na construção do projeto futuro, devido aos desgastes naturais trazidos pelos comentários e julgamentos e pelo afastamento de pessoas que se sentiram preteridas no arranjo geral. Na essência, o momento certo de movimentar-se é quando as construções de candidaturas estão sólidas, a mensagem sobre quem vai atuar onde esteja clara para todos e as estratégias para mobilizar tempo, recurso e discurso estejam disponíveis no cenário, pois é impossível, no jogo político, esconder o conflito, os mascaramentos e as resistências. Então, Para que ocupar-se disso agora?

O melhor é estar correndo por fora, conversando muito com o comando nacional ou regional do partido, com a popularidade em alta, ocupando espaços importantes. Ou como diria o inesquecível Leonel de Moura Brizola: “melhor é comer o mingau pelas beiradas”. Comer pelas beiradas é uma expressão, bastante popular, quer dizer; avançar aos pouquinhos. Aprendemos com nossas avós que mingau quente deve ser comido pelas beiradas, para não queimar. A expressão cai como uma luva quando falamos sobre política. Na política, há partidos e políticos que passaram décadas no poder comendo pelas beiradas, fazendo articulações seguras e sem alarde para preservar as posições conquistadas.  Lição de sabedoria.    

A campanha tornou-se permanente

Com tanto artifício por toda parte, talvez não se possa confiar em ninguém. Lembre-se, porém, que o encolher de ombros substitui o voto. Todo bom escritor e todo bom político compreende a poder de uma boa história, a anedota que arranca riso, a metáfora reveladora. Uma narrativa forte é, na sua forma mais elementar, um ato de sedução e na maioria das seduções, a emoção e carisma superam a lógica. Os políticos precisam ouvir histórias como forma de acumular conhecimento e refletir sobre as possíveis respostas para as questões que afligem as pessoas. É preciso ouvir e contar histórias para processar o cenário em que as informações são colhidas. E onde e quando se ouve histórias? Todos os dias e por toda parte.

Baseado no livro “A Campanha Permanente e seu futuro”, de Norman Ornstein e Thomas E. Mann, participei de um webinário sobre o tema. Os autores citam o talento do presidente americano Franklin Roosevelt para o uso político contínuo no rádio, e talento de John Kennedy para tirar partido da televisão, em aparições quase diárias, e, a destreza verbal de Bill Clinton, seu intelecto aguçado e a energia para explorar as tecnologias da informação e distribuição de conteúdo a seu favor o tempo todo. Clinton fez campanha como candidato ininterruptamente mais do que a grande maioria das pessoas no país. Ele concorreu com sucesso para advogado geral do estado do Arkansas, disputou seis campanhas para governador e venceu cinco, concorreu e venceu duas vezes à presidência dos Estados Unidos. O que aconteceu em termos de técnicas de campanha e refinamentos durante esse período de Clinton foi a campanha permanente, sem tréguas, sem interrupção do discurso de um para outro mandato.  Mas não é apenas a linha temporal da vida política de Clinton que é relevante para a continuidade das campanhas, é, na verdade, a impossibilidade de se manter homens com o mesmo perfil, agindo de uma forma nas campanhas e de outra, moderados, durante seus mandatos.

O termo “campanha permanente” foi popularizado pelo jornalista Sidney Blumenthal, jornalista, ex conselheiro da Casa Branca, destacando uma mudança na dinâmica do poder político, levando os políticos a envolverem-se em atividades políticas que repercutem no sentimento público ao longo de seus mandatos o tempo todo. Claro que há controvérsia. Os críticos argumentam que há necessidade de uma distinção mais clara entre campanha e mandato, embora não haja como fazer campanha sem vislumbrar o mandato, tampouco estar no mandato e não desejar prosseguir nele. Os candidatos se encaixam em um fluxo contínuo de eventos públicos e os políticos com mandatos os criam e participam desses eventos.

A interpretação mais profunda da realidade e a presença política física são fatores que ajudaram a dar origem a uma ideia defendida de que os políticos devem se envolver continuamente em atividades de campanha para entrar efetivamente dentro dos problemas cotidianos. A teoria sugere que os políticos pós-modernos combinem governança com a necessidade de manter boa movimentação, tratando assim seu tempo no cargo como uma campanha contínua. Isso envolve viagens, participações mais frequentes em eventos de visibilidade nas mídias, além de comunicação contínua com o público.

Qual é o resultado da transformação da política e dos assuntos públicos em um ciclo de campanha de 24 horas por dia? Por um lado, o público é regularmente presenteado com uma imagem de deslocamentos, exposição de conflitos, posições de desacordos, contendas sobre questões políticas e sociais, mais do que se pode ver, pode de fato, quando as câmeras e os microfones estão desligados dentro dos gabinetes.  

Respeito na política significa olhar para dentro, discordar sem deslegitimar

Se a política não servir para melhorar a condição humana seria pura expressão do poder. Não interessaria minimamente nem a mim nem a vocês, escreveu Norberto Bobbio, jurista italiano e senador vitalício da Itália, para quem não devemos assistir às coisas deste mundo com inerte resignação, tampouco com previsões ou apostas. “Deixemos as previsões aos astrólogos, e as apostas aos jogadores. Os primeiros contam com as correntes inexoráveis da necessidade, os segundos confiam no acaso. O homem de razão limita-se a levantar hipóteses, partindo de alguns dados de fato”.

Nicolau  Maquiavel, filósofo italiano, que foi diplomata e homem de estado, conhecedor dos mecanismos e instrumentos de poder, escreveu há quase 5 séculos, O Príncipe, um dos mais importantes escritos sobre política do mundo e ensinou que a natureza humana é variável, que os homens são inconstantes e que, se é fácil persuadi-los de alguma coisa, é difícil fortalecê-los ou mantê-los por muito tempo em tal persuasão, porque o povo sempre tem o desejo de mudança na política,  de mudar os governantes, esperando que algo positivo aconteça. Enfim, uma obra que dialoga conosco até os dias de hoje, é política na prática.

Aqui e agora, as opiniões políticas das pessoas tornaram-se as suas identidades, estamos meio bravos, meio descontentes, profundamente divididos, sem diálogo, cheios de rótulos e estereótipos, reforçando atitudes negativas, distorcendo as interpretações das pessoas sobre posicionamento político. Ainda assim, restamos parte esperançosos e tentando enviar mensagens aos políticos expressando a preocupação e a frustração. Se queres perceber em que nível está o pavio do cidadão leia os comentários escritos abaixo das entrevistas de políticos. Há rasgos enormes de descontentamento, sugestões e acusações, que precisam ser ouvidas e respondidas. Não é cedo para falar de política, para se informar, se posicionar, sem se desculpar pelo lado que você escolher.

Não nos preocupemos com a exatidão dos nossos movimentos à esquerda ou à direita, movamos para criar as condições para um desacordo produtivo, baseado em princípios respeitosos. Insistamos no respeito, sem evitar conversas complexas sobre política. Admitamos que o outro está engajado em projeto de viés contrário e respeitar isso não é ser legal, não é ser tolerante. Respeito na política significa olhar para dentro, discordar sem deslegitimar, falar por si e não pela tribo. Buscar a verdade sobre os candidatos e não seguir um ou outro pela aventada facilidade de vitória.

Nunca é cedo para se debater a política. A construção dos projetos leva tempo para amadurecer, depende de tantas coisas que escapam à compreensão profunda de uma maioria, mas que merecem ser acompanhados com atenção, ainda que em partes. A construção do tipo ideal na política também leva tempo. Não há como buscar no outro o reflexo do nosso caráter, das nossas relações, das circunstâncias, das durezas econômicas e sociais que vivemos. Não deve haver ansiedade por trás da escolha do homem em quem votar, até porque é necessário separar o homem dos rótulos que colam nele, com a finalidade de distorcer a imagem e saciar a sede de espetacularização que há na política, muitas vezes apresentada em um palco para manipular e conquistar a audiência.  

Leia sobre política, converse sobre política, envolva-se com a política. Eleve a voz sempre que precisar cobrar direitos. Vinicius de Moraes escreveu que a maior solidão é a do ser que se ausenta, que se defende, que se fecha, que se recusa a participar da vida humana. A maior solidão é a do homem encerrado em si mesmo, no absoluto de si mesmo.

O combate à interferência estrangeira nas eleições de 2026

A interferência e manipulação eleitoral estrangeira não é incomum na história de eleições democráticas. Em 1796, o presidente americano George Washington reclamava da interferência francesa no processo eleitoral americano. Desde o início do século XX tem havido reiteradas denúncias de interferência americana, governo e corporações nos países da América Central. Recentemente, em dezembro de 2024, o principal tribunal constitucional da Romênia cancelou dramaticamente as eleições presidenciais depois que os serviços de segurança alertaram que o governo russo estava promovendo ataques virtuais agressivos contra o processo eleitoral do país do Leste Europeu.

ARTICULISTA DO DIA

Olga LustosaO combate à interferência estrangeira nas eleições de 2026

Por Olga Lustosa 30/03/2025, 05h:00 – Atualizado: 30/03/2025, 08h:09https://www.facebook.com/plugins/like.php?app_id=1393828624201403&channel=https%3A%2F%2Fstaticxx.facebook.com%2Fx%2Fconnect%2Fxd_arbiter%2F%3Fversion%3D46%23cb%3Df288be4b8e1542d4e%26domain%3Dwww.rdnews.com.br%26is_canvas%3Dfalse%26origin%3Dhttps%253A%252F%252Fwww.rdnews.com.br%252Ff0f582888bc8f6b81%26relation%3Dparent.parent&container_width=0&href=https%3A%2F%2Fwww.rdnews.com.br%2Fcolunistas%2Folga-lustosa%2Fo-combate-a-interferencia-estrangeira-nas-eleicoes-de-2026%2F209104&layout=button_count&locale=pt_BR&sdk=joey

Olga Lustosa

Ainterferência e manipulação eleitoral estrangeira não é incomum na história de eleições democráticas. Em 1796, o presidente americano George Washington reclamava da interferência francesa no processo eleitoral americano. Desde o início do século XX tem havido reiteradas denúncias de interferência americana, governo e corporações nos países da América Central. Recentemente, em dezembro de 2024, o principal tribunal constitucional da Romênia cancelou dramaticamente as eleições presidenciais depois que os serviços de segurança alertaram que o governo russo estava promovendo ataques virtuais agressivos contra o processo eleitoral do país do Leste Europeu.

A Rússia, de acordo com avaliações da inteligência americana, trabalhou com o  objetivo de apoiar a candidatura do presidente Donald Trump ano passado. Um grupo russo chamado Storm-1516 foi rastreado pela Microsoft, tentando agir para favorecer Donald Trump. A Rússia, também foi pega contratando secretamente um grupo de comentadores americanos conservadores, empregados através de uma plataforma digital de fachada, para publicar dezenas de vídeos com comentários políticos e notícias falsas, favoráveis a Trump.

Na Alemanha, o governo negou veementemente as alegações do presidente do comitê de inteligência do Parlamento Federal de que a recente eleição federal do país, ocorrida em 23 de fevereiro, passado, foi manipulada por atores estrangeiros. O advogado e político alemão, Konstantin von Notz, do Partido Verde, disse ao jornal Financial Times que houve influência ilegítima no processo de tomada de decisão na última eleição e que o governo alemão tinha que reconhecer que as eleições foram manipuladas com sucesso.

O governo alemão negou, reforçou a negação em todos os canais que pode, porém, um porta-voz do Ministério Federal do Interior e Assuntos Internos admitiu, que não houve interferência no processo eleitoral durante a eleição federal, no sentido de fraude, mas que no período que antecedeu a eleição federal e até sua véspera, houve inúmeras tentativas de influência estrangeira no espaço da informação, com objetivo de quebrar a confiança do povo no processo e influenciar a direção do voto, sobretudo dos eleitores mais qualificados. Apontou o governo russo de haver realizado várias operações no espaço de informação, usando meios clandestinos online.

2026 vem aí com muito mais requinte e não podemos subestimar o impacto da divulgação de vídeos falsos, de notícias pessoais requentadas para manchar a reputação dos candidatos, menos ainda, podemos subestimar o impacto da interferência de ricaços brasileiros e sobretudo americanos no convencimento da direção do voto, num estado que sequer sabem onde se localiza.

A próxima eleição presidencial brasileira (2026) pode ser palco de uma guerra entre tecnologia, notícias falsas e interferência de estrangeiros, no caso, o bilionário Elon Musk e Presidente Donald Trump, assim esperam muitos do núcleo mais próximo de Bolsonaro. Musk já se posicionou no cenário político brasileiro e já desafiou a justiça para defender que discursos de ódio e fake news proliferassem na sua rede social. Há também esperança de que a megaestrutura de seu satélite de comunicação possa ser usada para interromper comunicações ou facilitar ataques cibernéticos ao processo eleitoral no Brasil.

Enfim, já nomearam Elon Musk como o outsider que tentará manipular as eleições brasileiras em 2026. Na contramão, há o fato de que as mídias sociais mais usadas no Brasil, que podem realmente influenciar o tráfego de informações são todas da Meta, do Sr. Mark Zuckerberg.

O descortinamento de um ato macabro

Cinco anos atrás vivenciamos o pânico de ter a morte nos espreitando à porta, devido ao processo pandêmico que demoramos a entender e a responder com responsabilidade e efetividade. No período que durou o isolamento social, o anúncio quase escandaloso do número de mortes diárias, os procedimentos de cura tão incertos quanto dolorosos, o medo de toda população do planeta se resumia ao medo de perder pessoas queridas e morrer a qualquer momento infectado pelo vírus da Covid-19.

Depois da pandemia, voltamos a perceber os outros medos que antes afloravam, retornamos ao medo insistente do recrudescimento da brutalidade contra a mulher, da necessidade mórbida de fazer o outro sangrar até despedaçar o corpo.  

O recente caso da adolescente Emelly Sena, chocou o perito criminal a ponto de ele interromper seu trabalho para se recompor emocionalmente. Foi um crime gravíssimo, onde todos os métodos de crueldade foram aplicados impiedosamente no corpo frágil e vulnerável de uma menina, de 16 anos, que estava prestes a dar à luz. Emelly foi premeditadamente atraída para o local do crime, barbaramente atacada, amarrada, enforcada, mutilada, teve a filha Liara arrancada do ventre com uma faca. A assassina abriu uma cova, depositou o corpo inerte da adolescente, limpou a cena do crime, cuidou do recém-nascido. Uma cena macabra imbricada à outra, de forma assustadora!

A ideia de que uma mulher possa ser violenta, que chegue até mesmo a matar, parece-nos perturbadora. No entanto, esse crime que acaba de afrontar nossa dignidade humana, foi cometido, declaradamente por uma mulher, possivelmente com a colaboração de um ou mais homens. Os homens cometem crimes em proporção muito maior do que as mulheres, se envolvem em mais delitos graves e agressões. A natureza feminina é de cuidar, não de ferir. E, geralmente, costuma ser assim. A violência tem sido uma especialidade masculina, mas algumas mulheres pervertem a sua própria biologia e mostra-se encaixada no mundo perverso da violência, da brutalidade.

É muito doloroso, é tenso e exaustivo ler sobre uma morte hoje, outra, amanhã logo cedo. Um pacto nacional entre parlamentares e autoridades que dirigem os órgãos de educação, segurança pública, sistema prisional, poder judiciário, saúde, direitos humanos, mães e pais precisa movimentar o país urgentemente para institucionalizar mecanismos de proteção às mulheres, porque até aqui, percebemos que não houve efetividade os bons projetos de leis, o que não desmerece as tentativas de isolar e punir os assassinos de mulheres, independente do sexo.

Crime, parcialmente resolvido, no entanto, nem a atenção da equipe médica do Hospital Santa Helena, ao minuciosamente examinar a falsa mãe e acionar a polícia, nem o trabalho perfeito, rápido e técnico das forças policiais impedirão novos casos de violência.

Onde encontraremos a fórmula de educar os homens e mulheres para que sejam bons, para que olhem uns aos outros com amor e empatia, se não, pelo menos com misericórdia? Causa estranheza e inquietação que entre os sete criminosos que marcaram a sociedade brasileira recentemente, um importante jornal destacou três mulheres; Suzane von Richtofen, Eliza Matsunaga e Ana Jatobá. Acrescentemos aí, Nataly Helen.

Ameaça a uma lei de iniciativa popular

A  Lei da Ficha Limpa, implementada em 2010 como um marco no combate à corrupção política no Brasil é um dos raros casos de projetos de iniciativa popular que se transforma em lei. O projeto foi encabeçado por entidades que fazem parte do Movimento de Combate à Corrupção Eleitoral (MCCE), e mobilizou vários setores da sociedade brasileira, entre categorias profissionais, sindicatos e igrejas. Foram obtidas mais de 1 milhão e 600 mil assinaturas em apoio. Pois bem, lamentavelmente esta Lei está no centro de um debate sobre possíveis alterações para propositalmente enfraquecer sua eficácia.  Lei Complementar nº 135, de 2010, também chamada Lei da Ficha Limpa determina que o político que se torna inelegível fica impedido de se candidatar nas eleições que se realizarem durante o restante do mandato que ocupava e nos oito anos seguintes ao término da legislatura.

Nos últimos dias, a Lei da Ficha Limpa voltou ao centro dos debates por conta de um projeto de lei, de autoria do deputado federal Bibo Nunes (PL-RS), que visa reduzir o período de inelegibilidade de políticos condenados, de oito para apenas dois anos. O absurdo reside no fato de que toda movimentação, aplicação de mudanças jurídicas questionáveis seria para beneficiar o ex-presidente Bolsonaro, que seria reabilitado para disputar a eleição de 2026.

Em entrevista procurador do Ministério Público de São Paulo e presidente do Instituto Não Aceito Corrupção, Roberto Livianu, doutor em direito pela USP, diz que a mudança na Lei da Ficha Limpa seria um escárnio para a sociedade brasileira e nesta iniciativa pode-se encontrar tudo menos a defesa do interesse público. Diz que ‘os políticos estão legislando em causa própria e não observando às necessidades da sociedade’. 

A ideia da Lei da Ficha Suja é tirar de circulação, por um período, os maus políticos, já que o período de oito anos corresponde a dois ciclos eleitorais. As leis devem ser elaboradas no interesse da sociedade, não em casuísmos. Ao ser perguntado sobre a lamúria de Bolsonaro de que a Lei da Ficha Limpa só serve para punir a direita, Roberto Livianu desmistificou a choradeira afirmando que ao longo dos anos, políticos de diversas ideologias tiveram seus direitos políticos restringidos com base na aplicação desta lei. Disse que a aplicação da legislação não é exclusiva a um único grupo político. ‘Se for feita uma análise mais aprofundada, fica evidente que esse argumento é completamente insustentável. Dizer que a lei está voltada para a direita, é inconsistente. Essa afirmação tem um caráter ignorante’. Dados da área de estatística do TSE mostra que o percentual de barrados é baixo. No ano de 2024, tivemos 463 mil candidatos no país, dos quais, 1,9 mil foram barrados pela Lei da Ficha Limpa.

O presidente do Instituto Não Aceito Corrupção relembra que a última manobra para sabotar a Lei da Ficha Limpa, foi feita pela Deputada Dani Cunha, filha do ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha, numa tentativa de trazer o pai de volta ao cenário político. É bem isso, querem enfraquecer as leis boas para garantir retorno rápido dos violadores da lei, por abuso de poder político ou econômico e uso indevido dos meios de comunicação, que consideram 8 anos de afastamento das eleições, uma eternidade.

O risco de aprovação existe, já que a inelegibilidade atinge políticos de quase todos os partidos e o presidente da Câmara, recém-empossado, deputado Hugo Mota, na primeira entrevista já declarou que acha justo encurtar a pena para 2 anos. 2025 começa com tentativas de fragilizar o controle sobre a corrupção e a impunidade com a Lei da Ficha Limpa tornando todo mundo em ficha limpa.