Nossa realidade é ideológica

Slavoj Zizek é um filósofo e intelectual, nascido em uma cidade na antiga Iugoslávia, hoje parte da Eslovênia, com publicações interessantes sobre política, psicanálise e ideologia, sendo quase um conceito central em seus escritos. Zizek critica as teorias que definem ideologia como um sistema de crença que nos cega perseguindo o poder e a dominação, diz que não é possível viver sem ideologia.  

Assim, também em Zizek, a ideologia não é um sonho, uma ilusão que nós construímos para fugir de uma realidade insuportável. A função da ideologia não é nos oferecer um plano de fuga da realidade, mas ser um suporte para enfrentarmos e mudarmos a realidade. O que chamamos de realidade é extremamente ideológico e como Zizek coloca, a fantasia também está do lado da realidade.  

Para Zizek, a ideologia é a nossa realidade e não temos como escapar dela. A ideologia não é um fenômeno marginal utilizado para controlar as massas descontentes; não é apenas uma mera estratégia de poder, não é simplesmente uma falsa consciência, uma representação ilusória da realidade, mas sim, a realidade que não é imposta a nós. As ideologias nos oferecem maneiras de dar sentido ao que vivenciamos na sociedade e ajudam a ordenar nossos valores porque são forças poderosas que moldam as sociedades e tem o poder de motivar as pessoas a agir.

A ideologia, no caminho percorrido filosoficamente por Zizek, que inclui análises de Marx, Lacan, Hegel e outros, para exemplificar que no passado as relações entre as pessoas eram mediadas por uma teia de crenças ideológicas e superstições, as relações se davam entre o master e seus servos. Marx, inclusive entendia a ideologia como uma falsa consciência da relação de domínio entre as classes e vários autores pregaram o fim ou declínio da ideologia, mas estamos nós aqui, falando sobre o mal nenhum que ela traz.

Lembro que haver lido um discurso marcante do ex-primeiro-ministro britânico, Tony Blair, dizendo que as análises do mundo deveriam ser moldadas apenas pela realidade e não pela ideologia, pelas falsas crenças baseadas em como nós queremos que o mundo seja. Tony Blair, afasta a ideologia da realidade, como se a ideologia fosse algo tóxico.

Há muitas outras versões de crítica à ideologia, mas não se trata apenas de ver a realidade social como ela realmente é, de jogar fora os espetáculos distorcidos de ideologia; o ponto principal é ver como a própria realidade não pode reproduzir-se sem a mistificação ideológica. Entre estudos filosóficos profundos e discurso político, desconfio do político que critica a ideologia do adversário e cultiva a sua como se fosse a única a produzir análises sérias dos problemas do mundo.

O livro trouxe a negatividade da ideologia à discussão, alertando que o cinismo é um sintoma da própria ideologia e que o sujeito cínico é ciente da distância entre a máscara ideológica e a realidade social, mas ele ainda insiste em usar a máscara. Ele conhece muito bem a falsidade, tem plena consciência de um interesse particular oculto por trás de uma causa ideológica, mas ainda assim não renuncia a ela.

Apetite pelo domínio e desumanização do outro

Uma semana de leitura tensa tentando compreender por que os seres humanos são tão terríveis uns para com os outros.  Em uma longa entrevista o psicólogo canadense Paul Bloom, Ph.D em psicologia cognitiva pelo MIT e destacado professor de Psicologia e Ciência Cognitiva na Universidade de Yale fala sobre as raízes da crueldade humana e de início provoca susto, ao dizer que as pessoas cometem atrocidades contra outros, porque acreditam que quem eles estão matando ou violentando não são seres humanos, isso é chamado de violência instrumental, onde há algum fim que querem alcançar, e as pessoas estão no caminho, por isso não pensam nelas como pessoas, mas como empecilhos.

O caso estarrecedor de violência policial praticado em São Paulo semana passada, reforça a tese que muitas vezes um ser humano não enxerga o outro como humano. Um policial arremessa de uma ponte um jovem que havia sido abordado por um grupo de policiais. O caso não parou nos depoimentos mentirosos dos policiais porque uma pessoa assistiu e gravou a cena. O jovem foi deliberadamente jogado no córrego, sem que nenhum policial do grupo houvesse tentado evitar a violência. O policial está preso e outros 12 foram afastados por terem sido coniventes com a brutalidade. Engraçado, se não fosse trágico, mas em depoimento, o policial afirmou que a intenção era jogar o jovem no chão. Como queria jogá-lo no chão se o jogou para o alto?

A explicação do professor Paul Bloom é que as pessoas só são capazes de fazer coisas terríveis a outras pessoas depois de as terem desumanizado. Quando você deixa de apreciar a humanidade de outras pessoas fazemos muitas coisas horríveis. E nas situações degradantes e humilhantes, trata-se de torturar pessoas porque achamos que elas merecem. É também sobre o prazer de ser dominante sobre outra pessoa. Portanto, a desumanização e a soberba são reais e terríveis.

Alto grau de crueldade nasce da desumanização, alguma crueldade nasce da perda de controle, de um desejo instrumental de conseguir algo que se deseja: sexo, dinheiro, poder. O desejo de ter um bom desempenho social tem um peso desagradável e enorme. Se você consegue ganhar respeito ajudando as pessoas, isso é ótimo.  Outros, porém, conseguem ganhar respeito dominando fisicamente as pessoas com agressão e violência, isso é destrutivo, mas acontece muito e é o que estamos narrando neste artigo.  

De 20 de novembro a 10 de dezembro ocorre uma movimentação chamada de “21 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres”, campanha que busca conscientizar a população sobre os diferentes tipos de agressão contra meninas e mulheres em todo o mundo. Apesar dos avanços na legislação, os números relacionados à violência contra as mulheres no Brasil, são alarmantes. Nos movimentos mobilizados para a campanha o que vê são mulheres falando para mulheres, com alcance zero para os companheiros que as agridem e matam.

Temos essa tendência de superestimar até que ponto somos os destaques morais, os justos, os corajosos, os heróis. A questão é que não nos comportamos em situações estressantes da maneira que pensamos ou gostaríamos e Paul Bloom arremata mostrando um estudo de laboratório comprovando que nas condições certas, mesmo diante da insanidade do ato, a maioria de nós é capaz de fazer as coisas terríveis que a princípio condenamos.

Não está sendo fácil pertencer a uma sociedade obcecada pelo poder e pela honra, pelo apetite pelo domínio e punição em vez de preocupada com a atenção e dignidade da pessoa humana.

O estado é o sistema

A busca incessante pela reforma dos sistemas políticos é parte indissociável do progresso do mundo civilizado. Há concretamente descontentamento com a qualidade de muitos serviços públicos, há descrença com a velha forma de fazer política. Há como reformar a máquina pública. Entretanto, não se deve propagar a confusa ideia entre promover reformas e ser antissistema.   Na ciência política e das relações internacionais, o sistema é concebido como um conjunto de princípios, normas, instituições, conceitos, crenças e valores que definem os limites do que é convencional e legitimam as ações dos cidadãos dentro desses limites. Do sistema fazem parte: a ordem política, social, econômica e cultural sob a qual vivemos, a ordem racial e hierarquias de gênero, todas trabalhando juntas como um mecanismo complexo, porém, único.

Para fazer as mudanças que o Brasil precisa, é preciso negociar com esse sistema que aqui está. Não é possível descontruir as instituições por questões de preferências ou bravatas em ciclos eleitorais.

O sistema ordena e controla as funções e relações entre a sociedade humana, a economia, a população e o mundo natural. Este é o ponto de partida para compreender o sistema, isto é, o Estado, cuja característica central é a estrutura jurídica, administrativa e tomada de decisões. O Estado moderno é interligado entre governos, instituições, organizações e grupos informais, como os grupos da sociedade civil, partidos políticos, famílias.  empresas, instituições financeiras. São antissistema os movimentos e pessoas que tratam as instituições com desdém e se opõem radicalmente ao sistema dominante, ao estado, como um todo e ainda, se intitulam como os messias capazes de descontruir a ordem estabelecida.

Todos os dias, frases desconexas, como: “venho para combater o sistema”, “sou um homem da iniciativa privada, sou contra o sistema que aí está”, surgem nos discursos dos homens que se lançam candidatos e não querem assumir que, de fato, pretendem abraçar e serem abraçados pelo sistema. Ora, o sistema, em certo momento já beneficiou a todos os homens públicos e privados. E quem já está na política, seja investindo em candidaturas ou em cargos eletivos ou não, estão promovendo seus crescimentos dentro do sistema. E diante da luz das câmeras, dizem ser contra o establishment, palavra em inglês que melhor define todo o arcabouço que constitui o estado. Isso não vai colar.

Lembro-me de Fernando Collor, candidato à presidência da República em 1989, com discurso antissistema, pregando a destituição do sistema vigente, caçando marajás pelo país. Bradava contra um sistema, que já havia lhe possibilitado ser prefeito de Alagoas e deputado federal. Enquanto presidente, não promoveu ruptura alguma, não reformou parte do sistema que criticou e arrasta consigo ainda hoje, o estigma de haver confiscado as economias poupadas de milhares de brasileiros, além de haver permitido que montassem atrás de si, uma rede gigantesca de tráfico de influência no governo. O resultado, foi a votação a favor da abertura do processo de impeachment dois anos depois da posse.

Pablo Marçal declarou ser antissistema. Criticou tudo, não apresentou proposta alguma para reformar o estado brasileiro, não foi para o segundo turno nas eleições municipais em São Paulo.

Quem não quer verdadeiramente fazer parte do sistema, deve ficar fora da política. Não é possível promover desenvolvimento sem utilizar emendas parlamentares, sem assinar convênios com órgãos do governo federal; não é possível entrar na política e virar as costas para as relações institucionais com o estado e empresas privadas.

hoje, os eleitores falam

Aristóteles já dizia que a democracia é o governo onde domina o número, isto é, a maioria, O resultado das eleições é uma das principais manifestações da soberania popular. Em função disso, não importa quão apertada seja uma disputa eleitoral, o resultado das eleições sempre refletirá a vontade do povo, e o candidato eleito sempre deverá governar para todos, em vez de governar apenas para seus eleitores. No Brasil, é importante discutir e relembrar a importância da democracia, do pluralismo. Relembrar como foi custoso e demorado a volta do Estado Democrático de Direito, do direito de participar, expor a opinião, assumir posições sem receio de ser perseguido.

Todavia, a história eleitoral é escrita pelos vencedores. O tema da derrota eleitoral é pouco discutido na Ciência Política, embora a derrota eleitoral seja parte inerente do jogo democrático e oferece importante subsídio para a compreensão do momento político da disputa, das pautas levantadas até os apoios recebidos e forma de comunicação adotada pelo candidato. Nas democracias, perder eleições livres e justas é uma parte normal da política e o consentimento dos perdedores é necessário para a sobrevivência do próprio governo democrático.

Para quem tem cargo eletivo, caso dos dois candidatos de Cuiabá é ainda mais difícil compreender a derrota, a falta de reconhecimento, porque como parlamentares, eles vêm comunicando com eleitor há anos. Mas aí entra a questão da modernidade líquida do sociólogo polonês Zygmunt Bauman, onde os laços construídos são frouxos, a admiração é infiel e os ambientes onde se dão as relações são instáveis, ambíguos e inseguros.

A vitória de um não significará necessariamente a derrota do outro. Ambos estão na metade de seus mandatos parlamentares.

Contudo, certos tipos de derrotas podem provocar redefinições ou até ruptura política na trajetória do candidato, porque o indivíduo contribuí muito com seu tempo e energia para propagar o plano de governo escrito baseado na ambição do eleitor, do partido e pelo caminho estão percalços e contratempos de toda sorte; traições de grupo, falta de empenho e ultimamente as pesquisas enviesadas que mais confundem do que orientam o marketing das campanhas, além dos falsos profetas que ensinam o que fazer e como se comportar no dia 2, no dia 1 antes da eleição.

Falo sobre o derrotado hoje, um dia antes da eleição, porque todos se voltarão para aplaudir o vencedor e ele não conduziu sozinho sobretudo o segundo turno das eleições em Cuiabá. Cuiabá, que nos deu o maior líder político que este estado já teve, Dante de Oliveira, derrotado ao senado no ano de 2002 e quem estuda e participa da política tem plena convicção que, se não fosse morte prematura meses antes do início das articulações para a eleição de 2006, Dante pleno da sua grandeza política se elegeria para o cargo que disputasse. Ele queria ser deputado federal.

José Serra, ao reconhecer a derrota para Dilma Rousseff, disse em seu pronunciamento: “Não é adeus, é até logo. Quero agradecer aos brasileiros de todos os cantos do nosso território. No dia de hoje, os eleitores falaram. Nós recebemos com respeito e humildade a voz do povo nas ruas. Quis o povo que não fosse agora”. Na eleição seguinte, em 2014 José Serra elegeu-se senador com mais de 11 milhões de votos.

Já pensando nas próximas eleições, não sei como estas serão trabalhadas porque a maioria das campanhas migraram para a internet, que tem mostrado que é um espaço para reunir os iguais, para combinar agenda, sem controvérsias, sem aceitação às diferenças. Ninguém está ali para abrir a própria visão, para conhecer o plano de governo do outro. Ou há xingamento ou silêncio. Não há troca, não há interação mínima entre os que pensam diferente, só cercadinhos que se odeiam.

Mapa político de 2024 não é prévia de 2026

Osegundo turno segue quente em Cuiabá e em outras 50 cidades brasileiras. O segundo turno é uma eleição em que se aproveita a maioria das experiências aplicadas no primeiro turno, mas é um novo momento muito complicado, com espaço de tempo muito curto para trabalhar as novas estratégias e tem o desafio interno, dentro da campanha de acomodar, de abrir espaço para as novas adesões, para os novos apoios, que irão, ao final, na contagem dos votos, fazer a diferença.

Essa questão de flexibilizar para receber novos apoios é tão importante que li uma entrevista do presidente do PL, afirmando que: “o pessoal da extrema direita do partido precisa aceitar a aproximação com o centro e o diálogo com setores da esquerda para vencer as eleições de 2026”.

Então, as eleições locais nem terminaram e estão sendo utilizadas por políticos e analistas políticos como o termômetro do apoio público aos governos e partidos para as eleições gerais, em 2026. Em análises locais e nacionais percebo que as eleições que ainda não findaram serão mais do que a escolha dos 5.568 prefeitos e 57.119 vereadores país afora. Desse resultado surgirá um mapa desenhando dos possíveis rumos do Brasil na próxima eleição. Não diria que os futuros prefeitos e vereadores serão cabos eleitorais dos candidatos de 2026 mas seguramente serão as pessoas que influenciarão os eleitores no próximo pleito.

Estudando os impactos e influências das eleições municipais nas eleições gerais, há forte tendência entre os cientistas políticos de que a eleição municipal não é uma prévia da eleição geral até porque o que foi colocado à vista em 2024 foi a avaliação das forças políticas, do desempenho dos partidos e dos parlamentares com mandato. O eleitor gosta de parlamentar que atua fortemente nos municípios e obviamente quem tem grande número de prefeitos e vereadores entre os apoiadores sai com larga vantagem. Isso nem é teoria política, é matemática.

Embora os analistas creiam que os resultados das eleições municipais expressem preocupações locais e não tendências nacionais, eu creio que os eleitores utilizam as eleições em arenas locais para expressarem a satisfação ou insatisfação com os governos estaduais e nacional.

A dinâmica das duas eleições, contudo, não obedece a mesma lógica, tanto que o PT em 2020 teve um dos mais fracos desempenhos desde a fundação da sigla e elegeu apenas 183 prefeitos. Dois anos depois, nas eleições gerais, retomou a Presidência da República, elegendo o presidente Lula para o terceiro mandato. De acordo com o cientista político Rafael Cortez, professor do Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa (IDP), a ligação entre os dois pleitos se dá mais no campo das ideias da elite política, porque o eleitor não guarda relação nem preferencias entre as duas eleições e o efeito de uma eleição sobre a outra vai se diluindo.

Vamos acompanhar o desempenho do PSD, de Gilberto Kassab, que terminou o primeiro turno como o partido com a maior capilaridade política do País, elegeu 888 prefeitos de norte a sul e espera estar na disputa direta para a presidência da República ou no Palácio dos Bandeirantes em São Paulo. Vamos observar para ver até que ponto ter mais prefeitos e vereadores significa estar bem-posicionado para uma grande disputa.

Em alguma medida, é claro que a eleição municipal dá o cenário de poder com que os partidos vão jogar quando forem construir os seus palanques e suas estratégias eleitorais, num ambiente que já foi modificado para melhor em 2024. 241 pessoas LGBTQIA+ foram eleitas vereadoras, um aumento de 400% na representação nos legislativos municipais. As eleições municipais mandam recado para 2026.

A consolidação de um processo conservador

As eleições municipais são o prenúncio das eleições gerais e importa muito perceber para onde o vento está soprando, como e quais políticos conseguiram transferir apoio para seus candidatos. O diagnóstico pelo Tribunal Superior Eleitoral ao detectar que 11% dos prefeitos eleitos no primeiro turno no país são servidores públicos com tendência política de centro direita e quase 6% dos vereadores tem o mesmo perfil e são filiados nos partidos de centro, PSD, MDB e PP. Interessante observar o servidor público se colocando como cidadão da elite, alinhado com partidos que não priorizam as pautas de defesa dos trabalhadores e preservação ou ampliação de seus direitos.

O PL, partido do ex-presidente Jair Bolsonaro, conseguiu fazer 509 prefeitos no primeiro turno das eleições municipais. O número é superior ao do PT, partido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que elegeu 248 candidatos. Porém alguns analistas contrariam a ideia de uma polarização política intensa, os embates diretos entre PT e PL foram raros. As coligações em que PT e PL estiveram juntos elegeram 49 prefeitos. Os dois partidos concorreram diretamente em apenas cinco das 26 capitais: Fortaleza, João Pessoa, Vitória, Cuiabá e Manaus. O União Brasil e o PL venceram as eleições nas 100 cidades mais ricas do agro brasileiro

15 capitais brasileiras disputarão o segundo turno. O PSB se transformou na principal força progressista do país elegendo 312 prefeitos. Em Cuiabá, fez mais de 33 mil votos e elegeu 4 vereadores, porém de acordo com o Presidente, Carlos Siqueira, em termos gerais, o Brasil vem sofrendo um processo de radicalização conservadora do centro para a extrema direita e os ricaços, como sempre, abriram os cofres e doaram mais de 30 milhões para influenciar no resultado das eleições e avançar o projeto conservador rumo a 2026.

Pessoas se tornaram conhecidas. A vergonha nacional do primeiro turno veio de Goiás querendo conquistar São Paulo, o coach Pablo Marçal, arrogante, mimado, sem cultura, agressivo e com discurso antipolítica, surfou na onda bolsonarista, depois achou-se maior do que o líder, ridicularizou a imprensa e precisa dela para captar clientes para as mentorias, que o tornaram milionário. O bom moço veio de Fortaleza, é biólogo e chama-se Gabriel Aguiar, foi reeleito com 30 mil votos sem utilizar papel, ou seja, sem santinho, santão, panfleto, mas, com discurso alinhado com a defesa do meio ambiente. O vereador Gabriel e sua equipe recolheram folhas nas praças, parques e quintais de Fortaleza, visando reduzir o impacto ambiental da campanha prensava as folhas e escrevia à mão seu número de urna e as distribuía aos eleitores, uma ação que ganhou o apoio de ativistas ambientais.

Com abstenção alta, 24,32%, quatro das 10 maiores cidades de Mato Grosso elegeram prefeitos conservadores do PL, que ainda disputa Cuiabá. A maioria dos candidatos não foram eleitos porque representam o melhor para suas cidades, mas porque atendem bem o projeto de retorno da direita conservadora ao poder em 2026. De 142 prefeituras no estado de Mato Grosso, apenas 13 serão comandadas por mulheres, Cuiabá nem candidata teve.  Em 2020 o candidato Abílio Brunini disputou a eleição para prefeito de Cuiabá pelo (Podemos) com Emanuel Pinheiro (MDB). No primeiro turno Abílio teve 90.631 votos válidos (33.72%) e Emanuel 82.367 (30.65%) e Emanuel virou e venceu. Em 2024 Abílio ampliou a votação para 126.900 votos e Lúdio com quem disputa fez 90.719. Ou seja, Lúdio inicia o segundo turno com um déficit eleitoral de 36 mil votos (11,3%).

A Câmara municipal de Cuiabá entrou finalmente na era da redução da desigualdade de gênero pela ocupação dos espaços de poder e elegeu 08 mulheres, enquanto no âmbito estadual os candidatos homens receberam 87% votos as mulheres receberam apenas 13%. A justiça eleitoral, no entanto, registra que houve avanço na representatividade feminina nas Câmaras Municipais.

Mulheres demoram a decidir o voto, priorizam a ação social e o custo de vida

Nas democracias avançadas de todo o mundo, nos últimos anos assistimos às mulheres moverem-se para a esquerda, transferindo o seu apoio de partidos conservadores para partidos progressistas. Há evidências de longa data de que as mulheres são socialmente mais liberais nas suas atitudes em relação às minorias, por exemplo, em relação às minorias étnicas, raciais e às pessoas LGBTQIA+.

As mulheres são mais propensas a se sentirem financeiramente inseguras, a se preocuparem com a segurança financeira, priorizam assistência social e o custo de vida. As mulheres também se preocupam com as questões trabalhistas, com educação, pautas, onde os partidos progressistas têm uma reputação tradicionalmente mais forte. As mulheres se preocupam com o voto, mas decidem-se mais tarde do que os homens. Já foi dito que quando as primeiras pesquisas indicam números altos de indecisos, isso reflete a indecisão ou cautela delas.

Chegou a hora e 1,3 milhão de mulheres de Mato Grosso acordaram salientes, se arrumaram e estão a caminho dos locais de votação para escolherem prefeitos e vereadores de seus municípios. Saibam que do total de candidaturas aqui registradas para estas eleições, apenas 35% são de mulheres, os dados são do portal de Estatísticas do TSE, somando candidatas a prefeitas, vice-prefeitas e vereadoras. O número é considerado baixo considerando que a representação feminina em Mato Grosso é de 51% dos 2.588.666 milhões de eleitores.

As mulheres podem decidir as eleições. Conversei com uma candidata que atua na área da saúde, construiu bom conhecimento sobre as políticas públicas para as unidades de saúde. Debateu com colegas a necessidade de se colocarem para a disputa, acreditou que traria visibilidade para o partido com as discussões técnicas, porém, confessou que enfrentou sérios desafios para ser ouvida, para estruturar a campanha, devido ao tratamento desigual dado a homens e mulheres, negros e brancos, da região central ou periferia, o recurso que recebeu foi mínimo, sobretudo para quem precisava se tornar conhecida. Não conseguiu imprimir material no mesmo tempo que homens brancos do partido já estavam com suas campanhas nas ruas, o que certamente impactará seu desempenho nas urnas.

Lá atrás, quando se criticava os bilhões que seriam liberados pelo Fundo de Financiamento de Campanha, houve a argumentação de que o objetivo do fundo seria garantir uma disputa digna para todas as candidaturas, que por meio desta fonte de recurso público os partidos, as candidatas e os candidatos custeariam grande parte das campanhas eleitorais. A definição dos critérios de distribuição do Fundo Eleitoral às candidatas e aos candidato é uma decisão interna dos dirigentes partidários e a falta de clareza na distribuição do recurso, contraria o motivo de sua criação ou seja, o acesso não é democrático e a verba ficou concentrada nos candidatos brancos e com bom patrimônio.

Na última eleição municipal foram eleitas 9.196 vereadoras, Cuiabá contribuiu com apenas duas eleitas e 48.265 vereadores em todo o país. Prefeitas foram eleitas apenas 663 e somente nove administram cidades de grande porte e somente uma foi eleita para administrar uma capital. Nas Câmaras Municipais, em mais de 1.800 cidades, uma única vereadora foi eleita e, em 933 Câmaras não existe nenhuma mulher. Vamos guardar esses números para dimensionarmos o tamanho do avanço.

Os cabos eleitorais com bom trabalho de base

Somos atraídos por políticos que nos inspiram e são bons em comunicar no que acreditam, porém, há uma leva de candidatos sem perfil, sem conteúdo, sem empatia e sem conexão com o eleitor, sem pautas prioritárias tentando conseguir votos para serem eleitos. Campanhas há certo tempo têm ligação muito intrínseca com as redes sociais, que devidamente impulsionadas podem proporcionar ao candidato, com ou sem conteúdo, uma visibilidade enorme.

Após duas semanas, vencidas as limitações da lei eleitoral, as dificuldades burocráticas e de planejamento, os candidatos estão nas ruas com adesivaço, bandeiraço, reuniões filtradas nas residências de apoiadores nos bairros mais distantes do centro de Cuiabá, tentando exibir campanhas volumosas. Liguei para um amigo, liderança importante no movimento comunitário e ouvi dele a confirmação de um comportamento que observo; os voluntários de campanha, fora do grupo familiar e de amigos, são pouquíssimos.

Me disse o líder comunitário que as mesmas pessoas frequentam reuniões de vários candidatos que disputam a vereador até que sejam contratadas como cabo eleitoral por um ou outro. É um engano crer que estas pessoas desenvolvam vínculo com o candidato e suas bandeiras. Quando surgiram os cabos eleitorais eram normalmente militantes dos partidos dos candidatos, hoje, considerados ultrapassados, a grande maioria são contratados, remunerados ou não e quase nunca tem ligação com a militância do partido e atuam na faixa intermediária fazendo a conexão entre o candidato e a população, grande parte, sem conhecimento das regras eleitorais, da linha ideológica do partido e do candidato para quem pede votos. Praticamente apenas o cabo eleitoral com bom trabalho de base em um bairro importante, abre portas para o candidato.  

Certa vez li uma entrevista com ex-governador de Rondônia e senador, Confúcio Moura, onde ele dizia: “sua campanha política inicia no dia que você nasce e vai crescendo a cada passo, de acordo com os sentimentos e ações que permeiam seu crescimento pessoal e sua posição política, que a eleição se ganha muito antes do pleito, com ações sociais, participando de reuniões em organizações de bairro.”

O passado do político tem que ajudá-lo a neutralizar a tempestade ininterrupta de ´fake news´, a falta de afinidade de muitos colaboradores que sequer conseguem repetir meia dúzia de propostas do candidato. A conquista do espaço eleitoral tem que refletir a identidade do candidato, porém, o tempo exíguo joga para as mídias sociais ou pessoas desqualificadas o papel de divulgar e promover as ações da campanha. Marcelo Vitorino, em artigo recente e direcionado a eleição municipal, disse que não adianta correr desordenadamente, queimando etapas, querendo estar em todos os lugares, sem antes sensibilizar e motivar o eleitor com suas propostas. A pressa é inimiga da vitória, ensina Vitorino.

Sexta-feira passada iniciou o horário político nos meios de comunicação tradicional e agora candidatas e candidatos aos cargos de prefeito, vice-prefeito e vereador podem realizar propaganda eleitoral nas ruas, na internet e no horário eleitoral gratuito. Meios para se tornar conhecido tem, a propaganda eleitoral é uma ferramenta fundamental que permite que os candidatos apresentem suas propostas e ideias à população. Aí reside o problema!

Os vários níveis da participação política

Reclamações sobre a perda de interesse pela política são ouvidas por toda parte. Depois ouve-se o discurso sobre a crise de representação de inúmeras categorias. Em muitos casos a sub-representação deriva da não participação. Seria possível esquecer a política?

A política, antes, é o mundo que emerge entre nós, o mundo que emerge através das nossas interações uns com os outros, ou através das formas como as nossas ações e perspectivas individuais são agregadas em coletividades, embora alguns cientistas políticos a definam simplesmente como o exercício do poder, o poder como influência sobre as ações de outro, poder de moldar agendas e preferências políticas, ou como foi definida pelo cientista político Harold Lasswell: a política trata de “quem recebe o quê, quando e como”.

Faz realmente diferença em nossas vidas escolhermos quem nos governa. Benjamin Constant no livro Escritos de política disse ser a democracia a autoridade depositada nas mãos de todos. Os cidadãos possuem direitos individuais que estão acima da autoridade que os governa, como a liberdade individual, liberdade de opinião e liberdade religiosa. Para alguns, o critério central de uma democracia é o poder dos cidadãos escolherem o seu governo através de eleições competitivas; para outros, este fator é menos importante do que a igualdade de oportunidades para todos os cidadãos na obtenção de posições de liderança política; para outros, estes dois critérios perdem a importância se a participação efetiva dos cidadãos nos vários níveis da vida política não for alcançada.

Chega da visão fatalista de que não temos escolhas reais a fazer na política. Um voto não elege diretamente o prefeito, o vereador, mas se o seu voto se juntar a um número considerável de outros, o seu voto será sem dúvida importante no resultado eleitoral final. Todos podemos empreender ações para influenciar diretamente o envolvimento político através das instituições eleitorais. Precisamos nos envolver não apenas por causa dos ideais sublimes da democracia, mas porque é nossa responsabilidade como cidadãos. Devemos prestar mais atenção na verdade, nas propostas porque, gostemos ou não de política, os políticos serão eleitos, irão cobrar impostos e definir novas as regras que afetarão a vida de todos.

Precisamos ler, estudar para entender a efervescência singular da movimentação política, afinal recai sobre o mês de agosto a expectativa dos registros de candidaturas, acesso aos recursos do fundo partidário, abertura de contas, confecção de material visual, gravações decepção com aliados, rasteira partidária. Agosto parece não ter fim!

As pessoas normais não são especialistas na maioria das questões políticas, mas entendem bem as grandes divisões nas posições políticas de progressistas e conservadores, as redes sociais e a proliferação de canais de mídia através da Internet e da TV desempenharam um papel importante, permitindo que as pessoas se comunicassem com pessoas como elas, sem perder o olhar para os que pensam diferente. Ou seja, as pessoas estão gravitando nos espaços dos seus iguais, mas estão lendo sobre os outros candidatos também. Como li dias atrás, numa estratégia de cima para baixo, os partidos estão espalhando combustível dentro de seus campos, promovendo a divisão entre os candidatos em busca de assegurar crescimento das bancadas.