Excesso de polarização deixa pouco espaço para debater ideias

A polarização é percebida sobretudo quando os candidatos usam suas estratégias muito mais para ativar a rejeição dos outros que para trazer uma agenda propositiva. A polarização de campanhas anteriores está ainda vigente da campanha de 2024 e isso incomoda quem espera espaço para conversas propositivas, pautas de real necessidade e interesse da população.

Os candidatos só pensam em se posicionar de um lado ou de outro. Em Brasília ficam contando e publicando, recontando e republicando que as bancadas lideradas por Lula e Bolsonaro são as que apresentam maior número de candidatos a prefeitos. Só na Câmara Federal 23 deputados do PL declararam ser candidatos a prefeitos e 19 do PT. Aliados dos dois partidos divulgam que ao todo cerca de 66 municípios brasileiros deverão ter um congressista aliados de um e outro concorrendo ao pleito, sobretudo nas capitais e maiores colégios eleitorais.

O eleitor acabou sendo devorado pelo partidarismo, pelo personalismo das duas ondas. Sem racionalidade, não quer sequer escutar propostas, para ter argumento para travar debate.

Estudos internacionais há muito indicam que cada US$ 1 (dólar) investido em crianças nos seus primeiros anos de vida resulta em um retorno futuro de US$ 17 para a sociedade. Priorizar os investimentos na educação infantil é fundamental para o crescimento econômico de qualquer país, então, vamos falar sobre educação infantil nas campanhas. O TSE publicou essa semana uma análise do cientista político Murilo Medeiros, da UNB, que reforça a responsabilidade do município na oferta da educação de base, que vai desde a creche, a pré-escola e ensino fundamental.

Esse é o desafio maior e deveria ser a preocupação maior dos novos postulantes a gestores dos municípios: prover um processo de aprendizagem de qualidade diante das limitações financeiras rotineiramente impostas aos municípios. O cientista político oferece a análise que uma criança bem acolhida em creches e pré-escolas, posteriormente, será um estudante com notas mais altas e um trabalhador com mais chance de inserção no mercado de trabalho. Investir na educação infantil é o verdadeiro caminho da prosperidade nacional.

A menos de 3 meses das eleições há uma série de matérias divulgando pesquisas e análises sobre as prioridades, de modo geral, para as eleições de 2024. Para Renato Dorgan, cientista político, especialista em estratégia política do Instituto Travessia, haverá cobranças dos eleitores sobre a gestão da prefeitura e a mobilidade urbana. As pesquisas indicam que voltaremos a discutir a cidade e sua conservação, diante das reclamações de ônibus lotados e da percepção de piora da segurança pública, principalmente nas cidades dominadas por facções. Segurança pública, embora não seja atribuição direta do prefeito é uma preocupação destacada nas pesquisas.

A bolha na qual vivem a maioria dos parlamentares em Brasília, sobretudo na Câmara dos Deputados, está nada preocupada com a pauta das eleições municipais. Acabam de votar e aprovar com folga a PEC da Anistia, que concede perdão vergonhoso aos partidos políticos, para que passem a borracha em suas dívidas, a maioria são multas por irregularidades cometidas em eleições, como prestação de contas, fraudes com candidatas laranjas e tudo mais. Votação de políticas erráticas, de críticas merecidas.

No caso da votação da PEC da Anistia não houve polarização, aliados do presidente e do ex-presidente se uniram na patuscada.

Manipulação do sagrado

” Não manda o seu filho para a faculdade. Vai vender picolé na garagem.

Ah, mas eu não criei meu filho para isso.

Cê criou seu filho, para quê?

Para ele ir para o inferno, pô?

Criou sua filha para virar uma vagabunda ou para ser uma mulher santa, digna, de família e cheia de Deus?

Aí ela tem um diploma e é rodada, é doida”.

Transcrição do vídeo com a fala de André Valadão, líder religioso da Igreja Batista Lagoinha, incentivando pais a não mandarem seus filhos para a faculdade, segundo o pastor, um lugar de trevas.

Duramente criticado pela pregação o pastor foi para as mídias sociais bater boca com internautas, ora defendendo sua teologia do domínio e seu discurso fundamentalista, ora explicando-se, tentando reparar a ignorância pronunciada. Tentando remediar, o pastor declarou que tudo que ele fala em púlpito é com compromisso com a palavra de Deus e que não está isento de errar e que suas falas são distorcidas por aproveitadores, que ele não é contra jovens frequentarem a faculdade, e nem contra cristãos na ciência. Contudo, o vídeo está aí para quem tiver estômago para assistir, as palavras ditas em som bem alto, simples e diretas não foram minimamente distorcidas por quem o criticou.

A manipulação emocional é uma tática de persuasão antiga, onde indivíduos podem usar ensinamentos religiosos para provocar emoções fortes nos outros, como culpa, medo da desaprovação divina e de punição ou vergonha, a fim de controlar o comportamento ou as tomadas de decisões dos fiéis vulneráveis. Outra intenção explícita é a imposição como líder religioso autoritário e controlador, que quer explorar sua autoridade para influenciar as ações e escolhas dos seguidores, até para o próprio benefício, ao se pretender ter fiéis que não frequentam universidades, que não tem discernimento para perceber e questionar o abuso, o extremismo, a manipulação. Com fiéis cegos, o dízimo não mingua, os estudos nos Estados Unidos do pastor, são garantidos.

Porque, ele mesmo, foi estudar nos Estados Unidos, sua formação religiosa foi toda moldada em instituições americanas, provavelmente custeada pela Igreja, um negócio da família Valadão desde 1957. Essa não foi a primeira tampouco a segunda vez que Valadão se envolve em polêmica com suas pregações manipuladoras. Já atacou a Igreja Adventista, dizendo que a considera não uma igreja, mas uma seita.

Atacou as pessoas LGBTQIA+ afirmando que Deus lhe disse: “ já meti esse arco-íris aí, se pudesse mataria todas e começaria tudo de novo” e incitou seu público, a ‘ir para cima’ dessa população.

O que o manipulador da fé faz é exatamente isso, tenta mudar as crenças e desejos das pessoas (todos os pais almejam mandar seus filhos para a universidade), oferecendo-lhe razões ruins, disfarçadas de argumentos bons, ou argumentos falhos e falsos disfarçados de argumentos robustos e sólidos, mas ele, o manipulador sabe que suas intenções são ruins e aposta que seus argumentos falhos não serão percebidos.

Um ataque e desrespeito às crianças e mulheres

Mesmo com os partidos destinando a cota de 30% de candidatos para mulheres não atingimos ainda 20% das cadeiras no Legislativo brasileiro. Com grande avanço nas últimas eleições chegamos a 17,7%, enquanto a média global da participação das mulheres nos parlamentos é de 26,4%. Por essa razão, pautas sensíveis, sobre a vida, o corpo, a escolha das meninas e mulheres estão sendo discutidas e votadas majoritariamente por homens, com posições conservadoras, que não dialogam com os direitos das mulheres.

Na Câmara Federal, a bancada conservadora tem muitas mulheres que defendem pautas e pensamentos ultrapassados e machistas. Embora o Brasil seja constitucionalmente um país laico, grande parte de nossos congressistas flertam com o fundamentalismo religioso. Dos 33 deputados que votaram pela urgência na tramitação do Projeto de Lei 1904, que obriga a criança ter filho do estuprador e equipara a pena por aborto ao homicídio simples, 12 são mulheres, de diversos partidos e algumas possivelmente mães ou avós de meninas.

 presidente do Senado, Rodrigo Pacheco se comprometeu a examinar o projeto sem a urgência descarada imposta pelo presidente da Câmara Arthur Lira, que impediu os debates públicos de um tema tão complexo nas Comissões e concluiu a votação pelo regime de urgência em 24 segundos. Lamentavelmente alguns representantes do nosso estado que deveriam estar em Brasília analisando os estudos do Anuário Brasileiro da Segurança Pública sobre a violência sexual infantil, propondo medidas para freá-la, estão do lado obscuro da Câmara Federal que quer imputar pena pesada a quem já está destroçada pela violência sexual, pela infância perdida, pela exposição e pela humilhação.

O ex-governador Pedro Taques, com expressiva carreira na advocacia se pronunciou, criticou a aberração jurídica e lembrou que desde 1940, o Código Penal, que ainda é vigente, não criminaliza o aborto em casos de estupros e entende como desproposito penalizar a vítima, em situação, que pode ocorrer de pegar pena maior do que a do estuprador. Lembrando que neste país, segundo o estudo ‘Sem deixar ninguém para trás – gravidez, maternidade e violência sexual na infância e adolescência’, a maioria (67%) meninas vítimas de estupro tem entre 10 e 14 anos e são vítimas de familiares e conhecidos próximos e o crime acontece na casa das vítimas.

Pai violenta filha em leito de UTI em São Paulo. O abuso sexual de crianças e adolescente é crônico, recorrente e indecente; o pervertido pede segredo, faz promessas e ameaças físicas, promove confusão mental com chantagens e estamos falando da pessoa que a criança acreditava que iria protegê-la. Em vez de dispender tempo propondo aplicação de pena dura para crianças vítimas de violência sexual, que abortem,  o senador Styvenson Valentim apresentou um Projeto de Lei, que está na Comissão de Direitos Humanos do Senado, propondo, ações duras e indicando mecanismo de financiamento para a prevenção e enfrentamento da violência sexual contra nossas crianças, incluindo o aumento das penas para esse tipo de crime, aumento das estruturas de apoio e equipamentos para as escolas, creches e os Conselhos Tutelares apertarem a vigilância.

É uma perversidade que a vítima de estupro seja penalizada. Estuprador não pode ser chamado de pai, criança não pode ser mãe e o PL do estupro diante das grandes manifestações deve minguar, apesar do deputado autor do projeto assegurar em entrevista que tem 300 votos garantidos entre os 513 parlamentares.

Qualidades que políticos modernos devem ter

2024 será o superano das eleições no mundo. Cerca da metade da população mundial, 4 bilhões de eleitores, em 80 países, segundo cálculos da Agência France Presse-AFP irão às urnas em 2024, incluindo Estados Unidos, Rússia e a Índia, com incríveis 945 milhões de indianos convocados para as eleições gerais neste país que é o mais populoso do planeta com 1,428 bilhão de pessoas.  

No dia 6 de outubro, data do primeiro turno das Eleições Municipais 2024, 152 milhões de eleitores estarão aptos a votar para prefeito, vice-prefeito e vereador em 5.568 mil municípios do país, lembrando que as eleições municipais são estratégicas para partidos e políticos para o planejamento das eleições gerais de 2026.

Mato Grosso tem mais de 2.5 milhões de eleitores aptos a votar. Cuiabá representa 17,4% do eleitorado total do estado com 439 mil eleitores.

Uma boa combinação de certas características pessoais, habilidades e talentos são necessários para determinado profissional, empresário, cantor ser bem-sucedido. Mas será que o mesmo se aplica à política, à ciência e à arte de governar? A política é uma atividade muito importante, cujas ações e determinações são imprescindíveis para desenvolver cidades, comunidades e nações.  Por enfrentar muitas críticas e pressão implacável o universo da política é muitas vezes desgastante.    

Os políticos têm as maiores responsabilidades nas sociedades democráticas, mas a maioria deles não está necessariamente equipado com as qualidades e competências ideais. Algumas qualidades que bons políticos modernos devem ter incluem honestidade (alguém que honra os seus compromissos), autoconsciência, deferência para com os outros (colocar os outros em primeiro lugar) e alguém que cumpre com o que diz.

Se olharmos para os políticos em geral, raramente os vemos com estes traços ou qualidades de personalidade. Muitos ainda são literalmente analfabetos outros justificam a corrupção, colocam os seus próprios interesses em primeiro lugar e raramente cumprem o que prometem.

Por esta razão muitos cidadãos optam por não participar da vida política e também por se sentirem frequentemente ignoradas ou com poder limitado para influenciar uma mudança ou tomada de decisões. Outra barreira é a pobreza, a lida diária para sobreviver. As pessoas comuns precisam correr atrás do ganha pão e concentram suas horas em atividades de sobrevivência.

De toda forma a política é inegavelmente atraente. No livro ‘Como não ser um político’, o autor, um ex diplomata, ministro britânico e deputado por oito anos, Rory Stewart, fala de si mesmo, um homem genuinamente decente, com um desejo real de alcançar resultados políticos positivos, que se sentiu desconfortável por ter que conviver com a hipocrisia política e com a ignorância dos colegas que o rodeava. Deixou a lição de que a política é uma cultura que privilegia a campanha em detrimento de uma governança cuidadosa, pesquisas de opinião são mais importantes do que debates aprofundados sobre políticas e que anúncios são feitos onde nada é implementado.

Nada a fazer. As eleições se aproximam e até a ONU tem publicado artigos e chamamentos orientando as pessoas a se informarem e participarem ativamente dos pleitos eleitorais.

Lendas associadas ao nome de Maquiavel

Ainfluência política do pensador florentino, Nicolau Maquiavel (Niccolo Machiavelli) jamais deixou de ser sentida, apesar de os termos ‘maquiavelismo’, ‘maquiavélico’ terem sido vinculados a uma ação política baseada na imoralidade, na violência e na impiedade. Claude Lefort, filósofo francês, sugere que a identificação da política com o maquiavelismo se dá na medida que a política é o mal. Pierre Bayle, no Dictionnaire historique et critique, reforça a opinião dominante, segundo a qual o ensino de Maquiavel, o secretário florentino possui um carácter cínico, irreligioso e demoníaco. O público, à época, estava persuadido de que o maquiavelismo e a arte de reinar tiranicamente eram termos de igual significado.  

Porém, Maquiavel foi um grande intelectual da época Renascentista, Nascido na Itália, em 1469, o pensador é estudado até os dias de hoje por suas teorias de como fazer política. Maquiavel esteve por muito tempo no centro do poder na Itália, enquanto   secretário   e   chanceler   da República. Chefiou missões junto a outros Estados italianos e na França, realizou inovações em diversos campos da   administração, em   especial   a criação de um exército regular. Anos mais tarde, foi preso, torturado, teve sua grande obra O Principe, publicada postumamente.

A verdade é que, quase 500 anos depois de sua morte é imensa a contribuição de Maquiavel para o desenvolvimento político dos Estados Modernos. Observado o contexto dos escritos, de um pensador que nasceu na Itália desconfigurada e totalitária, não conformava com a impotência e a decadência italiana, com a ausência de um Estado Nacional forte e com as humilhações e submissão à vontade das grandes potências, principalmente da França e alimentava o sonho de um dia ver a Itália unificada, sob um governo forte.

Suas reflexões sobre o Estado colocaram-no como um clássico das ciências políticas e um autor indispensável para se entender a dinâmica política ainda hoje. Não por acaso é considerado o pai da filosofia política moderna. Um homem que ensinou que quem pretende fundar um Estado e dar-lhe leis, deve antecipadamente pressupor os homens como maus e sempre prontos a agir em maldade. Ensinou também que os homens costumam ser ingratos, volúveis, dissimulados, covardes e ambiciosos de dinheiro; enquanto proporcionar benefícios todos estão contigo, oferecem-te sangue, bens, a vida até os filhos.

Maquiavel mostrou que uma multidão livre deve ter medo de confiar a sua defesa a um homem só, o qual, quando não conseguir agradar a todos, vai trair a multidão em vez de governá-la. O entendimento desse Tratado Político V levou Jean-Jacques Rousseau, mais de século depois a se pronunciar dizendo que Maquiavel fazia crer que estava dando lições aos reis, mas estava falando indiretamente com o povo. 

Em tempo de campanha política, discursos elaborados por jornalistas e marqueteiros, ouve-se citação das obras de Maquiavel aqui e ali. Que fique claro que virtú, é um termo que expressa habilidade e virtude tipicamente políticas, nada a ver com conteúdo moral ou religioso e que para Maquiavel era muito relevante a participação do povo na política. “Pouco importa ao príncipe as tramas e armadilhas do inimigo se o povo estiver ao seu lado.”

O político que fala e faz

Oescritor Dias Gomes em O Bem-amado, recorreu aos imaginários políticos do ano de 1962, quando escreveu a novela; como os políticos, as promessas e os coronéis. A novela se passa na fictícia Sucupira, onde Odorico Paraguaçu, líder político e coronel abastado, vereador, candidata-se a prefeito, tendo como plataforma política a construção de um cemitério na cidade. Odorico vence a eleição e já empossado como prefeito, arquiteta planos para construir o cemitério. Odorico Paraguaçu é um político de palavra e ensina que, em política: “os finalmentes justificam os não obstantes”.

O prefeito Odorico pergunta ao seu fiel secretário de finanças, Dirceu Borboleta se há recurso no caixa da prefeitura para executar a obra. Dirceu diz que encontrou um restinho de recurso destinado a melhorar a luz da cidade. Anima-se Odorico respondendo que com um restinho já se faz um cemiteriozinho e argumenta quer não há necessidade de se melhorar a luz porque não há necessidade de se ler a noite. Desvia-se a verba e constrói o cemitério. Os falecidos hão de vir! Ordena que a banda se mantenha ensaiando a marcha fúnebre de Chopin, escreve o discurso, coloca o coveiro em alerta e decide não inaugurar o cemitério sem um morto.

Quando era ainda vereador em Sucupira, Odorico prometeu acabar com o futebol no largo da igreja e acabou, prometeu acabar com o namorismo e o sem-vergonhismo atrás do forte e acabou. Esse era o grande trunfo de Odorico, um político que se fez pela linguagem, pelo discurso e pela credibilidade de cumprir as promessas, mesmo se valendo dos desvios de verba, da desapropriação de terreno. Dias Gomes, nessa novela crítica, recheada de práticas não republicanas, que muitos de nós sabemos que ainda existe, mas a obra, contextualizada, retratava o imaginário do mundo político daquela época em que a palavra empenhada tinha peso.

O cemitério acabou sendo inaugurado com o enterro do prefeito Odorico Paraguaçu, assassinado por Zeca Diabo.

As eleições municipais trazem à tona personagens perdidos, que prometem o que não podem fazer ou que não sabem como irão realizar, fazem promessas inconstitucionais e de responsabilidade de outro nível de poder. Entretanto, a credibilidade, tão essencial na imagem de um candidato é, pois, a capacidade que o sujeito deve ter para se fazer acreditar naquilo que ele afirma, uma arma que expõe a imagem de si mesmo de maneira estratégica, que tem como objetivo convencer o auditório; por isso, ao planejar a campanha o candidato deveria fazer introspectivamente, uma pergunta: Como fazer para eu ser levado a sério?

Cientistas e analistas políticos afirmam que frequentemente os discursos inflamados servem apenas para influenciar eleitores desavisados e vulneráveis e tem pouca ligação com o que realmente pretendem fazer os candidatos depois de eleitos. Até porque, depois de eleito, o candidato não governa sozinho. Depende de aprovação de outros poderes para executar os planos e ações. E os candidatos (todos) sabem muito bem disso e se insistem em transitar entre a linha das promessas vãs e do desrespeito aos eleitores só revela que o candidato é essencialmente um vendedor de ilusões e que dirá qualquer coisa para conseguir o seu voto.

Aristóteles, em Retórica, considera que a persuasão se dá, sobretudo por meio do ethos, que é a imagem que o candidato apresenta de si no discurso. Assim define Aristóteles: “Éthos é o apelo que se serve da credibilidade, da autoridade, do caráter ou do background do orador, da identificação com sua terra, para levar a audiência a confiar nele e então aceitar os seus argumentos.”

O político é o reflexo da sociedade que o elege

Oex-presidente Barack Obama, ao participar do evento “Cidadão Global”, em 2017, disse que muitas pessoas dizem que odeiam os políticos e os governos, mas que a política e o governo são reflexos de nós mesmos. Se uma sociedade é saudável, a política também será, se a sociedade está doente, a política também será.

Após seis anos foram presos pela Polícia Federal, por determinação do ministro Alexandre de Moraes, relator do inquérito, o deputado federal pelo Rio de Janeiro, Chiquinho Brazão, o conselheiro do Tribunal de Contas do Estado do Rio de Janeiro, Domingos Brazão, irmão do deputado e Rivaldo Barbosa, chefe da Polícia Civil do Rio de Janeiro na época do crime, em 2018, acusados de serem os mandantes do assassinato da vereadora Marielle Franco e de seu motorista Anderson Gomes. Marielle foi assassinada porque tentava impedir que grupos das milícias ocupassem espaços de representação política nas comunidades, infiltrando nas associações, fazendo intermediação política inclusive com os poderes constituídos na cidade do Rio de Janeiro.

A prisão do deputado federal Chiquinho Brazão, ocorrida em março passado, precisou ser chancelada pela Câmara Federal, que conforme explica a Agência Câmara de Notícias, a Constituição Federal prevê que um deputado só pode ser preso em flagrante de crime inafiançável. Nesse caso, a Câmara precisa referendar a prisão por maioria absoluta, em votação aberta.

A Câmara dos Deputados colocou a votação no plenário e 277 parlamentares votaram a favor de manter preso e sem fiança o deputado Chiquinho Brazão. Por incrível que possa parecer houve 129 deputados, dos quais, 5, de Mato Grosso, Abílio Brunini, Amália Barros, Coronel Assis, Coronel Fernanda e José Medeiros, votaram pela libertação do mandante do crime e 28 outros se abstiveram de votar. Para manter a prisão preventiva, são necessários 257 votos, ou seja, a maioria absoluta dos membros da Câmara.

Apesar do chulo argumento de sair em defesa das prerrogativas do Congresso Nacional frente ao Supremo Tribunal Federal, a maioria da bancada bolsonarista de todos os estados votou favorável a soltura do mandante do assassinato. ‘Votei pelo respeito à Carta Magna e pelas prerrogativas dos deputados federais, blábláblá…´  

A classe política é, sem tirar nem pôr, o reflexo da sociedade que a elege. E assassinos com assento no Parlamento federal não é novidade alguma. Em 1963, o pai do ex-presidente Fernando Collor de Mello, o ex-senador Arnon de Mello, foi armado ao Senado Federal para matar um adversário político, Silvestre Péricles. Atirou, errou o alvo e acertou José Kairala, que estava no último dia de suplência de outro parlamentar. Arnon de Mello foi preso em flagrante e ficou detido durante sete meses. No final do processo, ele foi inocentado e voltou para as suas atividades de senador da República e seguiu a vida, sendo um mau exemplo.

Em 1998, o médico e deputado federal Talvane Albuquerque Neto, foi condenado por ser o mandante do assassinato da deputada federal eleita Ceci Cunha, morta a tiros horas depois de ter sido diplomada, junto com três parentes. Albuquerque Neto foi condenado a 103 anos de prisão. Para a Justiça, o motivo do crime foi político: com a morte de Ceci, o médico assumiria o seu mandato; motivação semelhante já originou tentativa de assassinato aqui em Cuiabá, lembram?

Ao pesquisar os casos relembrei a macabra história do ex- coronel e Deputado Federal Hildebrando Pascoal, que torturava suas vítimas, cortando-as em partes com motosserra. Foi denunciado em 1997, preso em 1999, condenado a mais de 100 anos de prisão por fazer parte de grupo de extermínio e tráfico de drogas.  

Na história bem recente do Parlamento federal tivemos o caso perverso da parlamentar, pastora e mandante de crime, Flordelis, que foi condenada a 50 anos de prisão pelo assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, morto dentro da garagem da própria casa com mais de 30 tiros, no meio do mandato da ex-deputada.

A mais velha e menorzinha das quatro irmãs

Começo o artigo revelando uma grande frustração. Não nasci em Cuiabá! Há 10 anos sou cidadã cuiabana, através do título concedido pelo vereador, hoje presidente da Câmara, Chico 2000. Amanhã, 08 de abril, Cuiabá completa 305 anos, com 650.912 mil habitantes, segundo senso de 2022. É a mais velha e menos populosa das capitais do Centro-Oeste brasileiro. Campo Grande tem 124 anos, 898 mil habitantes; Goiânia tem 90 anos e 1.437.366 mil habitantes e Brasília, a caçulinha com 63 anos tem 2.817.381 mil habitantes. O estado do Tocantins ao ser emancipado de Goiás passou a pertencer a região norte do país, devido a semelhança de vegetação e clima com outros estados da região norte, com os quais faz divisa, como o Pará.

Sou uma mato-grossense, nascida numa cidade às margens do Rio Araguaia, uma condição sine qua non para minha existência. Ponte Branca, divisa com o Estado de Goiás, antigamente conhecida como Alcantilado do Araguaya, ainda que pequena, ostenta a grandeza do Rio que a corta é próxima de Barra do Garças, onde morei e de onde parti em 1990, rumo à Capital, onde grande parte da minha família já morava.

Minhas memórias de Cuiabá são, portanto, de um passado recente, mas nem por isso desimportante. Desde os anos 1980 eu estava sempre por aqui. Sem tempo para adaptações, aprendi a caminhar pelas ladeiras, pelas ruas tortas e estreitas. Descobri a cultura rica de Cuiabá pelas mãos de uma importante produtora cultural e cineasta, Glorinha Albués, que fazia projetos para elevar a arte, o cinema, as festas de santo, a poesia, para ocupar os quintais tradicionais, como o da D. Domingas Leonor.

As manifestações musicais, o Siriri, Cururu, Rasqueado e Lambadão, fui aprendendo a identificar e apreciar com o Dr. João Elóy nos eventos promovidos pela prefeitura de Cuiabá, já organizados por mim, como coordenadora de cerimonial, na gestão do mais ilustre de todos os cuiabanos, o ex-deputado estadual e federal e ex-prefeito Roberto França.

Radialista e comentarista esportivo à beira do gramado, Roberto França contava muitas histórias sobre futebol em Cuiabá. Ouvi muito falar do dia memorável que marcou a história do nosso futebol, quando o Santos, com Pelé escalado para jogar contra o Dom Bosco, desembarcou no aeroporto Marechal Rondon, no ano de 1965. Roberto França era ainda um jovem de 16 anos. Uma multidão de cuiabanos invadiu a pista e Pelé deixou o aeroporto no carro do governador. No hotel, um Pelé humilde e simpático saía a porta, atendia os fãs, em delírio, como conta também o pesquisador José Augusto Tenuta. No estádio Dutrinha, o Dom Bosco foi goleado por 6X2. Ninguém chorou! Viram o rei, em pessoa!

No quente mês de outubro de 1991 outra visita ilustre, cheia de simbolismo da fé que arrebata o coração dos cuiabanos, de uma cidade católica, porém carregada das peculiaridades e sincretismo que permeia a questão da religiosidade no Brasil. Desembarca e beija o solo mato-grossense, São Papa João Paulo II, que presidiu a Santa Missa para mais de 200 mil pessoas, junto com Dom Bonifácio Piccinini. O Senador Jayme Campos governava o Estado.

Conheci pessoalmente políticos importantes em Cuiabá, como Leonel Brizola e Mário Covas, trabalhei nas visitas oficiais dos presidentes Fernando Henrique Cardoso, Dilma, Temer, Lula e Michelle Bachelet em visitas oficiais a Mato Grosso, oficialmente hospedados em Cuiabá. Destaco um e outro, como o ato de filiação do governador cuiabano Dante de Oliveira ao PSDB, em 1997, em Cuiabá, organizado por Roberto França, com a presença do então governador de São Paulo, Mário Covas, a inauguração da Ponte Sérgio Mota, no ano de 2002, com o prefeito Jayme Campos caminhando para o centro da ponte, partindo de Várzea Grande, Roberto França, do lado de Cuiabá, caminhando rumo ao centro, onde os esperava para declarar inaugurada a ponte, o Presidente Fernando Henrique Cardoso, acompanhado pelo governador Dante de Oliveira, pela viúva do ex-ministro das Comunicações Sérgio Mota e pelo embaixador da Itália no Brasil.

No mês de maio de 2009, o presidente da Fifa, Joseph Blater anunciou e apresentou Cuiabá ao mundo como uma das cidades sedes da copa do mundo de 2014. Blairo Maggi era o governador do Estado. Participei de todos os estágios da realização da Copa do Mundo em Cuiabá, onde muito se discutia se deixaria legado ou não para a cidade. Deixei aos pessimistas, os resmungos e me dediquei a minha missão de receber os organizadores da Copa em Cuiabá, promover encontros com embaixadores e chefes de delegações. Quando foi divulgada a tabela dos jogos, alegrei-me e tratei de aprender, treinar para receber com zêlo e competência a mulher que mais me inspirava na política, a médica e presidente do Chile, Michelle Bachelet, que passou 12 horas em Cuiabá.

Feliz 305 anos Cuiabá!

Se você é neutro em situações de violência, você escolheu o lado do agressor

O mundo é um lugar caótico em Hobbes, Saramago, Galeano, entre tantos outros filósofos e escritores.

Vivemos num mundo que é um desastre autêntico, disse José Saramago em entrevista a Jô Soares. José Saramago, escritor português, morreu na Espanha no ano de 2010. Aos 78 anos de idade, ganhador de um prêmio Nobel, saudável, disse que simplesmente não se conformava com o mundo em que vivia, que o mundo que poderia ser, não inteiramente justo, porque sabia que Justiça absoluta não existia, mas queria que fosse um pouquinho mais humano, que a desumanidade não fosse tanto quanto era, que a exclusão social, não fosse tanto quanto era, que o abandono de continentes inteiros, guerras completamente absurdas tornavam o mundo uma angústia total.  Sem ilusão, foi isso que ele tentou passar aos seus leitores.

Eduardo Galeano, escritor uruguaio disse que o mundo nunca esteve tão louco, no sentido feio da palavra loucura, louco no sentido de um mundo que destina seus maiores recursos e suas maiores energias ao extermínio de si próprio, do planeta, da casa onde vivemos. Galeano alerta que precisamos recuperar a visão horizontal, solidária, respeitar os demais e saber que por sorte, somos todos diferentes nesse mundo e não temos o direito de impor aos demais nossa própria verdade como se fosse a única verdade possível.

Thomas Hobbes, filósofo inglês, compartilhou uma visão extremamente pessimista da natureza humana, descreve o mundo em estado de natureza como um ambiente caótico, onde a competição, o conflito e a busca pelo interesse próprio dominam os homens. Em sua obra mais importante, “Leviatã” (1651), Hobbes argumenta que, na ausência de um poder capaz de intimidar todos os homens e de um contrato social para frear as ações egoístas, os seres humanos seriam naturalmente propensos ao conflito, a competição e violência. O homem em estado de natureza seria um lobo lutando contra outro lobo, fadado a uma vida solitária, embrutecida e curta. 

O ativista político e pelos direitos humanos, formado em sociologia, o americano Martin Luther King lutou contra a segregação racial nos Estados Unidos, promoveu marchas e bradou durante anos, diante de uma multidão de negros que sofriam injustiça racial que quem aceita o mal sem protestar coopera com ele e quase todos os seus discursos eram encerrados assim: “O que me preocupa não é o grito dos maus, mas o silêncio dos bons”.

Duas situações de violência me pesaram os ombros semana passada e as revelo aqui. Pessoas “muito boas” silenciaram quando o jogador Vini Jr. desabou em choro em uma entrevista coletiva, alertando que não aguenta mais os xingamentos racistas dirigidos a ele, sobretudo na Espanha. O choro de Vini Jr. repercutiu no mundo do futebol, com alguns afagos solidários e com a expressão de desprezo do ex-goleiro da seleção do Paraguai, Chilavert, que criticou o choro do atacante brasileiro dizendo que futebol é coisa de macho e que o Brasil é país mais racista que ele conhece.

Em Cuiabá, no centro da cidade, uma senhora de 80 anos foi morta, roubada e abusada por um homem que trabalhava ao lado de sua casa. Não há exatamente uma palavra que descreva tamanha indignação e repulsa ao fato. Se tentasse, eu descreveria horror e pavor exalando de seus olhinhos incrédulos. Nem tudo é sobre nós e os nossos. Temos que ter a mesma disposição para cobrar quando a violência é praticada contra outros também. Não pode existir em nossa consciência zonas silenciosas, onde certos delitos repousam invisíveis.

Não é possível nos mantermos constantemente em crise de medo, por isso, fazer menos do que podemos, não serve para o mundo.

Apesar dos avanços, as mulheres vão para disputa em desvantagem

As as eleições de 2024 a ministra Cármen Lúcia estará à frente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), teremos então, uma mulher conduzindo as eleições, uma mulher que acredita que é possível garantir um ambiente seguro para as mulheres, sem violência política, acredita que as urnas eletrônicas são confiáveis e que assegura que os votos colocados nelas serão contabilizados e apurados e quem for proclamado eleito, será empossado.

Para incentivar a participação feminina na política, a Comissão Gestora de Política de Gênero do TSE criou o projeto ParticipaMulher, que reúne informações sobre a história do voto feminino, como e quem são as primeiras mulheres a conquistar espaços de relevância no meio político e notícias que abordam a progressão dessa participação.

Apesar dos avanços e esforços, fato é que, as candidatas vão para a eleição em desvantagem, como tem sido neste país que ainda tem 14 municípios que não elegem nenhuma mulher vereadora desde a virada do século, no ano de 2000. Das 5.568 câmaras municipais, 842 são compostas integralmente por homens.

As eleições municipais deste ano, comandadas também em Mato Grosso por uma mulher, são uma oportunidade de aumentar esse número, para que haja proteção real a cota de gêneros, combate as tentativas de fraudes dos partidos políticos em relação à cota de gênero, para que avancemos no sentido de chegar a uma participação cada vez mais paritária entre homens e mulheres na política brasileira e o princípio de tudo é o apoio dos partidos políticos às candidaturas femininas.

O levantamento publicado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) aponta que a participação de mulheres não correspondeu a um terço das vagas em nenhuma das 26 capitais. Já para vice-prefeitas, houve aumento significativo, foram 3.985 mulheres, o que corresponde a 21,2% do total das candidaturas femininas registradas, em todos os níveis. 30 municípios brasileiros elegeram a primeira mulher vereadora em 20 anos.

As chapas formadas somente por mulheres (concorrendo a prefeita e a vice-prefeita), como ocorreu em Jaciara, com Andréia e Zilá, em Santo Antônio de Leverger com Francieli e Giseli, correspondem pouco mais de 2% do total de chapas registradas em 2020. As chapas em que as mulheres assumiram a disputa para prefeitura, mas com um homem como vice, corresponderam a 11% do total.

Porém, o número de vitórias é bem maior para as chapas com homens na disputa pela chefia da prefeitura e mulher como vice. A pós-doutora em Ciência Política pela Universidade de São Paulo Teresa Sacchete, explica que o aumento de candidaturas com mulher de vice não está nem um pouco associado ao fortalecimento de candidaturas femininas ou capacitação das mulheres para que em uma próxima eleição, elas possam ser cabeças de chapa. Ela acredita que as mulheres foram colocadas na posição de vice estrategicamente para que o candidato possa utilizar maior fatia dos fundos de financiamento partidário.

O que prevaleceu mesmo nas eleições municipais de 2020 foi a supremacia dos homens nas prefeituras. As chapas compostas apenas por homens representaram 73% das vitórias. Apenas 651 prefeitas foram eleitas, contra 4.750 prefeitos. Vereadoras eleitas foram 9.196 contra 48.265 vereadores, ou seja 84% de homens nas Câmaras Municipais.